sábado, 31 de janeiro de 2009

OS IRMÃOS KARAMÁZOV

Autor: Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski
Tradução: Natália Nunes e Oscar Mendes
Assunto: Romance (Literatura estrangeira)
Editora: Ediouro
Edição: 3ª
Ano: 2001
Páginas: 744
Nota: A melhor publicação no Brasil é a edição de 1952 da editora José Olimpio, somente encontrável em sebos.


O livro retrata a história da condição humana. É uma das mais importantes literaturas russas e mundiais, tomando como núcleo o niilismo e o ateísmo.

Sinopse:
Um pai é morto pelo próprio filho. Em torno do parricídio desenvolve-se a obra-prima de Fiódor Dostoiévski, ‘Os Irmãos Karamázov’, último romance criado pelo mestre da literatura russa, concluído pouco antes de morrer, no qual sintetiza todas as possibilidades de sua arte. O enredo policial, no entanto, é apenas o ponto de partida para um romance que avança na compreensão do ser humano. Concentrando em cada um dos quatro filhos do velho Karamázov (Dimitri, Ivan, Smierdiákov e Aliócha) uma vertente humana. Dostoiévski reflete os problemas da Rússia do século XIX e, como grande escritor, transcende seu próprio tempo, apresentando um painel inolvidável dos dramas universais.
A história se passa em uma cidade no interior da Rússia e por ela desfilam personagens exaltadas ou comoventes camponeses, comerciantes, juízes, oficiais, homens ricos e seus criados, monges, mujiques, bêbados, além de várias mulheres de temperamentos completamente diferentes, mas com profunda influência na trama. Por intermédio dessas personagens, Dostoiévski expõe preocupações sociais, religiosas e filosóficas, como a responsabilidade moral e a necessidade de expiação dos pecados; uma justiça às vezes cega demais, paixões vulcânicas, dificuldades financeiras, vinganças, violência, intrigas e relações familiares conturbadas. Aborda problemas de seu país e de seu povo no século XIX, mas, acima de tudo, forma um vasto painel de dramas universais.

Personagens:
As personagens, quase todas, são um tipo da sublevação dos valores sociais: má criação, falta de religiosidade, falta de esperança e outros mais citados ao longo do livro.


- Dimitri, o primeiro filho de Fiódor Karamázov, oficial do exército, representa o ideal da alma russa mas que não está preparado e precisa ser depurado. Simboliza o idealista tempestuoso;



- Ivan, meio irmão de Dimitri, é o mais instruído, o mais viajado, o niilista e cético que doutrinou Smierdiákov, para o “tudo é permitido”. Ele simboliza o intelectual ateu e representa a desespiritualização e a mentalidade revolucionária;


- Aliócha, irmão de Ivan, pessoa tranqüila, ponderada, extremamente justa e cheia de compaixão. Ele simboliza o cristão esperançoso;


- Smierdiákov, filho bastardo de Fiódor, cozinheiro da casa; simboliza o popular corrompido e representa o povo que é manipulado pela intelectualidade atéia, simbolizada por Ivan que é um intelectual ateu.

O enredo:
Na Rússia de 1870, o idealista Dimítri Karamázov cobra do pai a herança que, segundo lhe disseram, sua mãe deixou para ele. O velho Karamázov finge desconhecer quaisquer valores ou propriedades que tenham sido deixados por sua ex-mulher. O relacionamento entre os dois não é bom, até porque, além da disputa pela herança, Dimítri e o pai apaixonam-se por Grúchenhka, uma mulher de reputação questionável.
Além de Dimítri, o velho Karamázov tem mais três filhos: Ivan, um intelectual ateu; Aliócha, um cristão fervoroso que mora num mosteiro com o sábio Frei Zósima; e Smierdiákov, um filho bastardo que tem crises de epilepsia.
Numa tentativa de resolver as brigas de família, o velho Karamázov, Dimítri e Ivan vão até o mosteiro ouvir as opiniões de Frei Zósima e Aliócha. Uma vez lá, Fiódor acusa o filho de ser um depravado. Dimítri retruca dizendo que seu pai tentou seduzir Grúchenhka, prometendo-lhe 3.000 rublos. Frei Zósima se inclina e beija os pés de Dimítri. É o fim da entrevista.
No dia seguinte, Aliócha vai visitar o pai. Ao se encontrar com Dimítri, este lhe pede para que interceda por ele junto à Katya, uma jovem com quem assumira um compromisso, pois precisa ficar livre para fugir com Grúchenhka. Aliócha promete ajudá-lo.
Mais tarde, Aliócha encontra-se com o ateu Ivan, num restaurante, e os dois discutem religião. Ao voltar ao mosteiro, Aliócha encontra Frei Zósima em seus últimos momentos de vida. A morte do monge faz com que Aliócha questione a justiça divina e, num momento de tentação, ele vai até a casa de Grúchenhka. Após conversar um pouco com ela, verifica que não se trata da pecadora que imaginava. Ele readquire, então, sua fé em Deus e na imortalidade.
Numa discussão com o pai, Dimítri o ameaça de morte. Ivan e Smierdiákov, de olho na herança do velho, vêem a oportunidade de assassiná-lo e por a culpa em Dimítri.
Ao saber que Grúchenhka voltou para um antigo amante, Dimítri decide vê-la pela última vez, antes de se suicidar. Ao chegar à casa onde os dois se encontram, para sua surpresa, Grúchenhka se convence de que é ele quem ela realmente ama. A polícia chega ao local e prende Dimítri, sob a acusação de ter assassinado o pai.
Smierdiákov confessa a Ivan que foi ele o autor do assassinato, e que o fez inspirado numa conversa que tivera com ele. Na noite anterior ao julgamento de Dimítri, Ivan descobre que agiu o tempo todo, exatamente da forma que sempre criticou, é então, devorado por uma alta febre e enlouquece. Na mesma noite, Smierdiákov se suicida.
Durante o julgamento, as evidências circunstanciais levam a Corte a condenar Dimítri pelo assassinato do pai. Um longo exílio na Sibéria espera por ele.


Análise simbólica da obra:
Dostoiévski entende que a velha Rússia deveria morrer para se poder construir uma Rússia nova. Profundamente religioso, entendia ele que só a morte permite que haja nascimento. Portanto, a obra não pode ser analisada, em hipótese alguma, sob uma visão político-ideológica que mais tarde seria representada pelo marxismo-leninista. Ela deve ser analisada sob o aspecto religioso, filosófico e simbólico.
O velho Fiódor Karamázov, que simboliza a velha Rússia, precisa morrer, porque ele representa o que há de pior nos velhos costumes que afrontavam o cristianismo, pois Dostoiévski após o cumprimento da pena na Sibéria, transformou-se em cristão por excelência.
Assim, Dostoiéviski lança mão das personagens para simbolizar cada uma das possibilidades possíveis para a Rússia.
- Aliócha, representa o cristianismo e simboliza a solução religiosa;
- Ivan, representa a desespiritualização da Rússia, e simboliza a solução ateísta revolucionária, razão pela qual ele enlouquece.
- Dimitri, representa o ideal da alma russa, mas não está pronto e precisa ser depurado. Simboliza , portanto, a alma russa que precisa ser depurada.
Assim, Dostoiévski aponta três caminhos prováveis para a sociedade:
- O caminho do cristianismo;
- O caminho revolucionário representado pela intelectualidade atéia e hedonista;
- O caminho do ideal da alma russa, mas que precisava ser depurado antes.
Portanto, a condenação de Dimitri e o cumprimento da pena na Sibéria, por um crime que não cometeu, simboliza a depuraçào e a redenção do ideal da alma russa.
Conclusão:
A solução do mundo dostoiévskiano só pode se realizar por meio do cristianismo (Aliócha).

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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A MORTE DE IVAN ILITCH

Título original: Smiert Ivana Ilhitchá
Autor: Lev Tolstói
Tradução: Boris Schnaiderman
Assunto: Novela (Literatura estrangeira)
Editora: Editora 34
Edição: 1ª
Ano: 2006
Páginas: 96

Sinopse:
O autor conta nesta novela a agonia de um burocrata surpreendido por uma doença grave que o leva a se defrontar com a morte. O burocrata serve de pretexto ao autor para nos contar uma história que diz respeito ao destino de cada um de nós e que é impossível ler sem um frêmito de angústia e de purificação.

Enredo: Ivan Ilitch, juiz de instrução, começa sua carreira ambiciosa com um casamento por conveniência. Depois desse matrimônio calculado, um amigo o nomeia promotor em São Petersburgo. Alcança, enfim, uma vida estável e confortável em que suporta a mulher e o ambiente familiar. No entanto, como ocorre num lance maléfico de um jogo de azar, uma doença grave surpreende Ivan Ilitch, e sua vida torna-se o avesso do esperado. Na família ele se depara com a futilidade e o vazio. No trabalho, o que prevalece são as relações interessadas e o favorecimento para a promoção de um cargo.

Desterrado em sua própria casa, acossado pela gravidade da doença e decepcionado com a mentira das pessoas que o cercam, Ivan Ilitch empreende uma viagem ao inferno, em que a dor física é tão intensa quanto a dor moral. Ambas se completam num sentimento de horror, que se revela através da consciência da morte.

Mesmo assim, Ivan Ilitch encontra algum sentido em sua vida. Por exemplo, na relação de amizade com o ajudante de copeiro Guerássim. Apenas esse mujique – jovem humilde e ignorante – é capaz de dar provas de resignação diante da enfermidade de seu patrão. Com sua atitude natural em face da vida e da morte, Guerássim é o único elo de humanidade que resta a Ivan Ilitch.

Além desse laço afetivo, as lembranças da infância provam que nem tudo na história de Ilitch se reduz à mesquinhez e à hipocrisia. “Quando mais voltava ao passado, mais vida havia”, pensa Ivan Ilitch. Esse “ponto luminoso” que a memória fisga na infância é o outro contrapeso às “veleidades de toda uma vida”, no momento em que a morte acena como um golpe implacável do destino.
Mas se a morte é iniludível, não menos certeiro é o fato de que apenas no seu limiar, na fronteira mesma do ato de morrer, Ivan Ilitch alcança alguma compreensão sobre o que foi verdadeiramente a sua existência. Neste ponto, o sofrimento mais terrível e a libertação desse mesmo sofrimento não se excluem, mas convivem de forma intensa numa experiência-limite que só a grande literatura – mesmo assim em raríssimos momentos – consegue traduzir plenamente.

Interpretação da obra: José Monir Nasser diz que toda grande obra para ser corretamente interpretada, implica pelo menos na resposta de uma pergunta fundamental: Qual é o sentido da obra ou o que o autor quer nos contar?

No caso da presente obra, há duas perguntas assessórias se fazem necessárias para chegamos a uma conclusão precisa: a) O que o mujique Guerássim representa? b) Qual o sentido da vida?

Se partirmos das respostas de que Guerássim representa a humildade e o amor ao próximo e que só há sentido da vida em Deus, fica fácil compreender o sentido da obra e a mensagem que o autor quer transmitir ao leitor. Senão vejamos:

Ivan constrói uma vida materialista e se esquece do aspecto espiritual do ser humano. Quando ele imagina ter alcançado a realização pessoal, dá tudo errado. Uma esposa materialista, filhos que morrem, e outros que não se preocupam com o drama vivido pelo pai. Já no seu leito de morte, Ivan tenta buscar respostas para o seu infortúnio. Vai retrocedendo até a sua infância e, quanto mais retrocede, mais vida parece encontrar “Vinde a mim as criancinhas, porque delas será o reino dos céus (Lucas 18, 16)”. As coisas dão erradas porque Ivan não se dá conta que nenhum projeto humano pode dar certo sem considerar a possibilidade divina, o verdadeiro sentido da vida para o ser humano. Ivan esquece-se de Deus. Já nos últimos estertores da vida, ao confessar-se, Ivan encontra Deus e sua dor cede, sua alma encontra a paz que ele tanto almejava, compreende o verdadeiro sentido de sua vida, e assim morre em paz.

Este é o sentido da obra: aproximar o homem de Deus e mostrar que a existência humana sem a possibilidade divina é vazia, a vida perde seu sentido e numa vida sem sentido superior, nada poderá dar certo. É isto que Lev Tolstói quer nos contar nesta obra.

Curiosidade: Em agosto de 1883, duas semanas antes de falecer, o escritor russo Ivan Turguêniev escreveu a Tolstói - "Faz muito tempo que não lhe escrevo porque tenho estado e estou, literalmente, em meu leito de morte. Na realidade, escrevo apenas para lhe dizer que me sinto muito feliz por ter sido seu contemporâneo, e também para expressar-lhe minha última e mais sincera súplica. Meu amigo, volte para a literatura!".

O pedido de Turguêniev alude ao fato de que Tolstói havia então abandonado a arte e renegado toda sua obra pregressa para se dedicar à vida espiritual. Embora não se possa dizer com certeza em que medida as palavras de Turguêniev repercutiram em Tolstói, é certo que 'A morte de Ivan Ilitch', publicada em 1886, foi a primeira obra literária que ele escreveu após seu retorno às letras - e que se trata de um dos textos mais impressionantes de todos os tempos.

Considerada por Nabokov uma das obras máximas da literatura russa - e por muitos uma das mais perfeitas novelas já escritas -, 'A morte de Ivan Ilitch' ganha nova edição em língua portuguesa, com tradução e posfácio de Boris Schnaiderman, e, em apêndice, texto de Paulo Rónai sobre o autor e sua obra.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

DOM QUIXOTE

Autor: Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616)
Tradução: Viscondes de Castilho e Azevedo
Editora: Abril Cultural
Assunto: Romance (Literatura estrangeira)
Edição: 1ª
Ano: 1981
Páginas: 609

Dom Quixote de La Mancha, é um livro escrito por Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616). É composto por 126 capítulos de sabedoria, amizade, enternecimento, encantamentos, loucuras e divertimento, divididos em duas partes: a primeira surgida em 1605 e a outra em 1615.

É a grande criação de Cervantes. Surgiu no fim de mais de um século de notável inovação e diversidade por parte dos escritores ficcionistas espanhóis. Ao escrevê-lo, Cervantes se propunha ridicularizar os livros de cavalaria, que gozavam de imensa popularidade na época. Nesta obra, a paródia apresenta uma forma invulgar. É um dos livros mais traduzidos da literatura universal.

Sinopse: A ação principal do romance gira em torno das três incursões feitas pelo protagonista e por seu fiel amigo e companheiro, Sancho Pança, que tem um perfil mais realista, por terras de La Mancha, de Aragão e de Catalunha. A personagem principal da obra é um pequeno fidalgo castelhano que perdeu a razão pela leitura assídua dos romances de cavalaria e pretende imitar seus heróis prediletos. Envolve-se em uma série de aventuras, mas suas fantasias são sempre desmentidas pela dura realidade. O efeito é altamente humorístico.
O verdadeiro nome do pobre fidalgo é Alonso Quijano (Quixano), chamado pelos vizinhos de o Bom. Já de certa idade, entrega-se à leitura desses romances e sua loucura começa quando toma por realidades históricas indiscutíveis as façanhas dos personagens dos livros, as quais comenta com os amigos, o cura e o barbeiro do lugar. Quijano investe-se dos ideais cavalheirescos de amor, de paz e de justiça, e prepara-se para sair pelo mundo, em luta por tais valores e por viver o seu próprio romance de cavalaria. Escolhe um título para si mesmo, o de Don Quijote de la Mancha, apelida um cavalo velho e descarnado com o nome de Rocinante e elege como dama ideal de seus sentimentos uma simples camponesa a quem dá o nome de Dulcineia del Toboso, suposta dama de alta nobreza.

Enredo da Obra:
De tanto ler historias de cavalaria, um ingênuo fidalgo espanhol passa a acreditar piamente nos efeitos heróicos dos cavaleiros medievais e decide se tornar, ele também, um cavaleiro andante. Para tanto, recorre a uma armadura enferrujada que fora de seu bisavô, confecciona uma viseira de papelão e se auto-intitula Dom Quixote de La Mancha. Como todo cavaleiro, ele precisa de uma dama a quem honrar. Elege então uma lavradora que só conhece de vista e a chama de Dulcinéia. Depois de tomar essas providências, monta em seu decrépito cavalo Rocinante e foge de casa em busca de aventuras.Após um dia inteiro de caminhada sob o sol, depara com uma estalagem, que em sua mente perturbada se converte num castelo, onde pede para ser ordenado cavaleiro pelo estalajadeiro, que quase não consegue conter o riso. No dia seguinte, ao investir contra o grupo de comerciantes que vê como adversários, cai de rocinante e tem seu corpo moído por pauladas. Um conhecido da aldeia encontra o cavaleiro, entre gemidos e lamentos, e o conduz novamente à sua casa.
Seguindo aos conselhos do Pe. Tomás e do barbeiro Nicolau, a ama e a sobrinha queimam seus livros e lacram a porta da biblioteca.
Enquanto todos acham que a estratégia da destruição dos livros havia sido um sucesso, Dom Quixote, pensando tratar-se de uma magia de algum cruel feiticeiro, resolve voltar à aventura, agora acompanhado do escudeiro Sancho Pança: um ingênuo e materialista lavrador, que aceita seguir o fidalgo pela promessa de uma ilha para governar.
As viagens se sucedem sob a alucinação de quem está vivendo no tempo da cavalaria. Em suas andanças, Dom Quixote encontra moinho de vento que confunde com gigantes. Arremete contra um dos moinhos, cujas pás, devido a um vento mais forte, lançam o cavaleiro para longe. O escudeiro socorre seu mestre. Dom Quixote não dando o braço a torcer, diz que o feiticeiro, ao notar que o cavaleiro estava vencendo, transformou os gigantes em moinhos.
Mas adiante confundindo dois rebanhos de carneiros com exército de inimigos, avança contra os animais e mais uma vez é surrado, pelos pastores; além de ser pisoteado pelas ovelhas. No chão em meio ao estrume dos animais, ferido e desdentado, recebe do escudeiro a alcunha de O Cavaleiro da Triste Figura.
No desejo de combater as injustiças do mundo e homenagear sua dama, o nobre e patético personagem segue viagem enfrentando situações supostamente perigosas e sempre ridículas: imagina gigantes em rodas-d’águas; vê um cavaleiro de elmo dourado em um barbeiro; ajuda criminosos a fugirem, pensando estar libertando escravos. De suas desventuras, restam-lhes sempre os enganos, as surras, as pedradas e as pauladas.
À beira da estrada, o cavaleiro da triste figura e seu fiel escudeiro encontram abrigo e deparam com o Pe. Tomás e o barbeiro Nicolau, amigos da aldeia onde moram e que estão à sua procura. Os dois convencem Sancho a ajudá-los e acabam levando, mais uma vez, e agora enjaulado, Dom Quixote para casa. Lá, cansado doente e abatido pelos reveses e pelas surras que levara, o fidalgo sossega. Até receber a visita do bacharel Sansão, que traz consigo um livro narrando As estranhas aventuras de Dom Quixote. Com a fama, o cavaleiro tem seu espírito aventureiro revigorado e mais uma vez, convencendo Sancho Pança a acompanhá-lo, parte para a estrada, ainda guiado pelo amor de Dulcinéia, e pelo desejo de vencer o perverso feiticeiro e, com ele, as injustiças do mundo.
Em Toboso, à procura de sua amada, Dom Quixote encontra três lavradoras montadas em asnos, carregando repolhos para o mercado. Sancho diz que se trata de Dulcinéia e suas damas de companhia, tentando convencer Dom Quixote. Ao se ajoelhar diante de sua sonhada dama, o cavaleiro leva uma repolhada na cabeça. Sancho diz se tratar de um anel de esmeralda enfeitiçado em repolho, e Dom Quixote guarda a “prenda” na bolsa, duvidoso, todavia satisfeito.
Disfarçado em cavaleiro dos Espelhos, o baixinho Sansão Carrasco desafia Dom Quixote, no intuito de levá-lo para casa e, com isso, agradar a sobrinha do fidalgo. Mas, traído por seu cavalo, que prefere comer grama ao duelar, perde o combate. Adiante, Dom Quixote encontra um duque e uma duquesa que, por já terem lido o livro com suas aventuras, resolvem se divertir à custa da dupla: disfarçado em feiticeiro Merlin, o duque inventa um suposto cavalo mágico de madeira que levaria Dom Quixote até o perverso feiticeiro. Vendam o cavaleiro e o escudeiro sobre a “mágica montaria” e chacoalham o cavalinho de balanço, enquanto os dois pensam estar voando. Ao atear fogo no rabo do cavalo, recheados de fogos de artifício, o cavaleiro e o escudeiro são lançados à distância.
Seguindo viagem, com mais alguns arranhões, Dom Quixote e Sancho Pança ouvem um grito assustador, É o cavaleiro da lua cheia (na verdade, Sansão, agora mais bem preparado e decidido). Que desafia O cavaleiro da Triste Figura: quem perder o combate terá de pôr fim à sua vida de cavaleiro andante. Sansão vence, o fidalgo volta ao lar. No final da história, recuperando a razão, Dom Quixote renuncia aos romances de cavalaria e morre como um piedoso cristão.

Interpretação da obra:
A história é apresentada sob a forma de novela realista. A primeira parte da obra deixa a impressão de liberdade máxima, a segunda parte produz a sensação constante de nos encontrarmos encerrados em limites estreitos. Essa sensação é sentida mais intensamente quando confrontada com a primeira parte. Se anteriormente, a ironia era, sobretudo, uma expressão amarga da impossibilidade de dar realidade a um ideal, com a segunda parte nasce muito mais da confrontação das formas da imaginação com as da realidade. A primeira parte de Dom Quixote é tipicamente barroca. Cervantes dá a sua própria definição da obra: “orden desordenada (…) de manera que el arte, imitando à la Naturaleza, parece que allí la vence”. O processo adotado por Cervantes — a paródia — permite dar relevo aos contrastes, através da deformação grotesca, pela deslocação do patético para o burlesco, fazendo com que o burlesco apague momentaneamente a emoção, estabelecendo um entrelaçado espontâneo de picaresco, de burlesco e de emoção. O conflito surge do confronto entre o passado e o presente, o ideal e o real e o ideal e o social.

Dom Quixote e Sancho Pança representam valores distintos, embora sejam participantes do mesmo mundo. É importante compreender a visão irônica que o romancista tem do mundo moderno, o fundo de alegria que está por detrás da visão melancólica e a busca do absoluto. São mundos completamente diferentes. O fiel escudeiro de Dom Quixote é definido por Cervantes como “homem de bem mas de pouco sal na moleirinha”. É o representante do bom senso e é para o mundo real aquilo que Dom Quixote é para o mundo ideal.

No entanto, os contemporâneos da obra não a levaram tão a sério como as gerações posteriores. Passou a ser vista como uma prosa épica de escárnio, em que “o ar sério e grave” da ironia do autor começou a ser bastante apreciado. O herói grotesco de um dos livros mais cômicos tornou-se no trágico herói da tristeza. Contudo, apesar de alguma distorção, a novela de Cervantes começou então a revelar a sua profundidade. Na história da novela moderna, o papel de Dom Quixote é reconhecido como seminal.Várias interpretações foram dadas à obra. No século XVII, considerou-se que o romance continha em si pouco mais que o tom de bom humor e de diversão, com Dom Quixote e Sancho Pança a encarnarem respectivamente o grotesco e o pícaro. O século XVIII foi pródigo em elogios a Dom Quixote, não só em Espanha e em Portugal, como também por parte de grandes românticos do centro da Europa.Segundo Dostoiévski, Dom Quixote representa a consumação das melhores qualidades da pessoa humana, o apego a justiça e à bondade.

O LEGADO DE CERVANTES

"Se é imensa a contribuição de Miguel de Cervantes à filosofia política, ao destrinchar o mecanismo da Segunda Realidade revolucionária, típica dos tempos modernos, penso que esta contribuição específica se restringe mais ao campo da psicologia coletiva do que propriamente ao âmbito da política. É certo que esse mecanismo psicológico terá o poder de descrever tudo o que se passou desde o século XVI e seu poder explicativo se prolonga até os nossos dias. É impossível compreender os acontecimentos, nacionais e mundiais, sem ter à mão a genial descoberta cervantina.



Bem que se diga que a questão da loucura estava na ordem do dia no Renascimento. Erasmo explorou o tema em obra genial (ELOGIO À LOUCURA). Shakespeare terá em vários personagens a manifestação de loucura. Mas apenas Cervantes transformará a observação no prognóstico dos tempos que virão. Ortega y Gasset, em ensaio genial (IDEAS Y CREENCIAS), irá associar a modernidade à razão (físico-matemática assim como às de Estado, desconhecida esta na Idade Média), em substituição à fé em Deus dos tempos medievais. Não há dúvida de que a loucura coletiva será filha dessa hipertrofia da razão, elevada à condição de deusa por ocasião da Revolução Francesa.


Qual é a filosofia política estampada por Cervantes no Dom Quixote? Penso que em três momentos temos o tema abordado de forma saliente. O primeiro é quando, no capítulo XXII do Primeiro Livro, o Cavaleiro da Triste Figura liberta os condenados às galés. Ali estava a escória da sociedade, os criminosos mais perigosos. Eram doze e esse número não ao acaso equivale ao número dos apóstolos de Cristo. A modernidade escravizou de forma mais vil a fé cristã. A moral cristã passa a ser tida como o comportamento anti-social por excelência, contra a qual se insurgem todas as revoluções, a começar pela protestante. Ao largo da questão religiosa, todavia, convém ter em conta a biografia do próprio Cervantes, várias vezes jogado nos cárceres imundos do Estado espanhol por crimes que não cometeu.


Quixote pergunta a Sancho, ao ver os condenados conduzidos por soldados: “Como gente forzada? Es posible que El Rey haga fuerza a ninguna gente?[“Como ´gente forçada´? É possível que El-rei force a nenhuma gente?”] Quixote fica inconformado com a situação de que gente pudesse ser levada contra sua própria vontade e dá seu brado de liberdade: “...aquí encaja la ejecución de mi oficio: desfazer fuerzas e socorrer y acudir a los miserables[“aqui está onde acerta à própria o cumprimento do meu ofício; desfazer violências e dar socorro e auxílio a miseráveis”]. Ato contínuo, partiu para libertar os prisioneiros.

Sem dúvida estamos aqui diante da perspectiva radicalmente cristã do direito, contrária à ordem estatal da modernidade.

Outro momento importante da obra no tocante à ciência política está no capítulo LX do Segundo Livro, quando Dom Quixote e Sancho Pança são feitos prisioneiros do bando de Roque Guinart. O cavaleiro constatou que, mesmo numa sociedade constituída por delinqüentes, a justiça distributiva, nos termos aristotélicos ou do direito romano (geométrica, “dar a cada um o que é seu”), precisa prevalecer, sob pena de se dissolver o núcleo social. Não é privilégio de uma sociedade política institucionalmente organizada praticar tal distribuição do direito, que é “natural”. O direito depende da força, mas não tem nela sua fonte. A reflexão cervantina serve para nos alertar da necessidade e dos limites da ação dos operadores do direito. Em resumo, do Estado e seu direito não depende a liberdade enquanto tal.

Por último, depois de viver as aventuras na corte do duque, Dom Quixote parte e profere as magníficas palavras, uma ode à liberdade (capítulo LVIII do Segundo Livro): “La liberdad, Sancho, es uno de los más preciosos dones que los hombres dieron los céus; com ella no poeden igualarse los tesoros que encierra la terra ni el mar encubre; por la liberdad así como por la honra se puede y debe aventurar la vida; y, por lo contrario, el cautiverio es el mayor mal que pode venir a los hombres.” [“A liberdade, Sancho, é um dos dons mais preciosos que aos homens deram os céus: não se lhes podem igualar os tesouros que há na terra, nem os que o mar encobre; pela liberdade, da mesma forma que pela honra, se deve arriscar a vida; e, pelo contrário, o cativeiro é o maior mal que pode acudir aos homens”].

A mania moderna de ligar a liberdade ao poder de Estado pode ser, e parece de fato, sua grande armadilha. Quanto mais se clama pela lei do Estado, mais se reduz a liberdade e mais o gigante, como os moinhos de vento, torna-se o seu contrário e leva toda a gente presa como remadores cativos às galés, nas nossas modernas prisões.

Retirar o encanto do ente estatal agigantado será a grande obra de Cervantes, o seu legado. É preciso novamente meditar sobre as páginas imortais do Cavaleiro da Triste Figura. Se olharmos bem veremos que o Estado moderno, ao contrário daquele idealizado por Santo Agostinho, compele os homens ao mal e torna os vícios práticas forçadas, por curso legal. "(Nivaldo Cordeiro)



O Sentido e Conteúdo da Obra:
A obra se inicia como Comédia e termina como Tragédia, refletida na morte de Dom Quixote que simboliza o fim dos valores e ideais do mundo medieval representados pelas Cavalarias.


Dom Quixote foi derrotado por Sansão Carrasco que simbolizava o Mundo Novo; o Positivismo de Augusto Comte; o Racionalismo absoluto de Descartes; o Iluminismo de John Locke, enfim, era o mundo renascentista que surgia com seus valores terrestres em oposição aos valores celestes, transcendentais, metafísicos e espirituais.


Por outro lado, Amadis de Gaula representava o mundo antigo. Os princípios nobres, a honradez, o heroísmo, a impetuosidade humana, o céu, o espírito, o metafísico e o transcendente.


DEPOIS DAS TREVAS ESPERO A LUZ”

Dom Quixote acabou sendo derrotado em sua luta contra o Mundo Novo que surgia:

A DERROTA DE DOM QUIXOTE É A DERROTA DOS MAIORES E VERDADEIROS VALORES HUMANOS; DERROTA DO QUE HAVIA DE LEGÍTIMO NO MUNDO MEDIEVAL QUE ERAM OS VALORES TRANSCENDENTES.

Muitos questionam se Dom Quixote tinha ou não razão. Ele tem razão quando defende os valores do Céu, os valores da transcendência, os verdadeiros valores humanos que são espirituais e não os sociais que são ambíguos.

DOM QUIXOTE TEM RAZÃO PORQUE OS VALORES PERMANENTES ESTAVAM SENDO REBAIXADOS PELO MUNDO MODERNO.

A grande questão que precisa ser compreendida também é: A AMBIGUIDADE GERAL DO MUNDO.

A obra alterna duas etapas:

Etapa da Terra: Racionalidade * e humanismo **;
Etapa do Céu: Valores transcendentais.


* Racionalismo: o conhecimento só é adquirido pela ciência.
** Humanismo: os valores do céu são reduzidos aos valores da terra.

Conclusão:


DOM QUIXOTE COMBATIA A AMBIGUIDADE DO MUNDO NOVO QUE SURGIA E QUE DESTRUIA E REBAIXAVA OS VERDADEIROS VALORES PERMANENTES QUE ERAM LEGÍTIMOS NO MUNDO MEDIEVAL:

OS VALORES TRANSCENDENTAIS

Esta é a mensagem que Miguel de Cervantes legou para a humanidade futura de sua época.

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Soneto

Santa amizade, que habitar imitas
neste baixo, fingido, e térreo assento,
mas que tens por morada o firmamento
coas essências angélicas benditas.
De lá, por dó das térreas deditas,
sonhos nos dás de alegre fingimento,
imitações do céu por um momento,
fugaz consolo às regiões proscritas.
Volta, volta dos céus, pura amizade,
ou proibe que a amável aparência
te usurpe a desleal perversidade.
Confundida coa nobre e infame essência,
breve reverte o mundo à prisca idade;
volve o caos, é morta a Providência.




A importância da Tradução
Por Anatoli Oliynik


            Estou cotejando duas versões da obra magistral de Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616) “Dom Quixote de la Mancha” ou simplesmente “Dom Quixote” como é conhecido no Brasil. A primeira, realizada por Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875) – Visconde de Castilho e por Francisco Lopes de Azevedo Velho de Fonseca Barbosa Pinheiro Pereira e Sá Coelho (1809-1876) – Conde de Azevedo. Esta versão foi publicada em 1981 pela Editora Abril (sob licença do Círculo do Livro S.A., São Paulo). A segunda, traduzida por Sérgio Molina e publicada pela Editora 34 em 2010.
            Deste cotejamento extrai dois excertos que reproduzo mais à frente, com dupla finalidade: a primeira, para mostrar a importância de uma tradução bem feita, voltada para realçar a beleza retórica da obra e a segunda para demonstrar que uma tradução feita com esmero melhora substancialmente a compreensão da mensagem transmitida pelo autor aos seus leitores e os entusiasma para a leitura.
A obra de Cervantes é uma dessas obras que registra a gênese de um mundo que nasce, lamentavelmente voltado para o mal, para a destruição de todos os valores cristãos e perenes, cujos reflexos são dolorosamente experenciados nos séculos XX e XXI. Cinco séculos nos separam da extraordinária visão de Cervantes e, infelizmente a muitas pessoas não tem a mais mínima noção da realidade do mundo em que vivem e que jamais leram O engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha.
            Por outro lado, muitos leitores e até críticos literários de Dom Quixote têm uma visão equivocada do sentido desta obra. Classificam-na como um livro satírico ou humorístico, quando na realidade não se trata disso, embora se encontrem muitas sátiras e humor em seu conteúdo. 
            Nivaldo Cordeiro afirma que Cervantes deixou neste livro um feito inigualável para a filosofia política: a compreensão da Segunda Realidade, aquela que presidirá o chamado mundo moderno.
            José Monir Nasser diz que Dom Quixote combatia a ambiguidade do mundo moderno que surgia naquela época e que destruía os verdadeiros valores permanentes no mundo medieval, quais sejam, os valores transcendentes.
            Ambos estão absolutamente corretos.
            Retornemos a comparação dos excertos e à correspondente interpretação:

Tradução Viscondes de Castilho e Azevedo
(Editora Abril, pp. 154-55)
Tradução Sérgio Molina
(Editora 34, pp. 360-62)
Poema
Quem menoscaba meus bens?
Desdéns.
Quem mais ceva meus queixumes?
Ciúmes.
Quem me apura a paciência?
A ausência.
De meu fado na inclemência,
Nenhum remédio se alcança,
Pois me dão morte: esperança,
Desdéns, ciúmes e ausência.

Quem me causa tanta dor?
Amor.
Quem me as glórias arruína?
Mofina.
Quem às dores me há votado?
O fado.
Receio me é pois fundado
Morrer deste mal tirano,
Pois conspiram em meu dano
O amor, a mofina e o fado.

Quem pode emendar-me a sorte?
A morte.
O bem de amor quem no alcança?
Mudança.
E seus males quem os cura?
Loucura.
Então em vão se procura
Remédio algum a tais chagas,
Sendo-lhes únicas triagas
Morte, mudança, loucura.

Quem menoscaba meus bens?
Desdéns.
Quem me acresce o pesadume?
O ciúme.
E quem me prova a paciência?
Ausência.
Sendo assim, nesta doença
nenhum remédio se alcança,
pois me matam a esperança
desdéns, ciúmes e ausência.

Quem me causa tanta dor?
Amor.
Quem tem-me a glória roubado?
O fado.
Quem me quer tão neste breu?
O céu.
Sendo assim, é pavor meu
morrer deste mal tirano,
pois aumentam em meu dano
o amor, o fado e o céu.

Quem me há de emendar a sorte?
A morte.
E o bem de amor, quem alcança?
Mudança.
E os seus males, quem os cura?
Loucura.
Sendo assim, não é cordura
Querer curar a paixão,
Quando os seus remédios são
morte, mudança e loucura.

Interpretação
-        O poema faz alusão a um mundo que está desparecendo e sendo substituído pela loucura de um mundo novo que vai surgindo: o modernismo renascentista.
-        Morte do mundo antigo (Primeira Realidade);
-        Mudança para um mundo novo;
-        Loucura da Segunda Realidade que surge com a modernidade do mundo novo.
Soneto
Santa amizade, que habitar imitas
neste baixo, fingido, e térreo assento,
mas que tens por morada o firmamento
coas essências angélicas benditas.
Santa amizade, que com leves asas,
deixando tua aparência em térreo assento,
junto co’as almas do alto firmamento
subiste alegre até as empíreas casas.
De lá, volta dos céus desditas,
sonhos nos dás de alegre fingimento,
imitações do céu por um momento,
fugaz consolo às regiões proscritas.
De lá assinalas, quando praza,
a justa paz oculta em velamentos
que dão a ver o zelo, por momentos,
do malfazer que feito em bem se passa.
Volta, volta dos céus, pura amizade,
ou proíbe que a amável aparência
te usurpe a desleal perversidade.
Deixa o céu, amizade, ou não permitas
que o engano se revista com tuas cores,
com que destrói toda intenção sincera;
Confundida coa nobre e infame essência,
breve reverte o mundo à prisca idade;
volve o caos, é morta a Providência.
Pois, se tuas aparências não lhe quitas,
logo há de ver-se o mundo em meio às dores
da tão discorde confusão primeira.
Interpretação
-        A Segunda Realidade mata Deus e coloca o homem em seu lugar. É o humanismo que surge e contra este humanismo que Dom Quixote se revolta e o combate, pois sabe estar aí a gênese da decadência dos verdadeiros e permanentes valores transcendentais da Idade Média.
-        Cervantes vislumbrou, em 1605, a loucura dos séculos XX e XXI.
-        A última estrofe do poema está tão desfigurada pela tradução, que se torna quase impossível dar a mesma interpretação ao lado.

            Para encerrar o presente artigo, não resisti a tentação de voltar a digredir brindando-o com a impressão que a obra causou em Dostoiévski e com o Epitáfio à Sepultura de Dom Quixote.

Fiodor Dostoiévski assim se expressou após ter lido a obra:

Não existe nada mais profundo e poderoso do que este livro. Ele representa até hoje a mais grandiosa e prefeita expressão da mente humana. Se o mundo acabasse e no Além nos perguntassem: ‘Então, o que você aprendeu da vida?’, poderíamos simplesmente mostrar o D. Quixote e dizer: ‘Esta é a minha conclusão sobre a vida. E você? O que me diz?’”.

Epitáfio:

“O tresloucado que adornou a Mancha
De mais Despojos que Jasão de Creta;
O juízo, que teve a garimpa inquieta
Bicuda, quando fora melhor ancha;

O braço que a sua força tanto ensancha,
Que chegou do Catai até Gaeta,
A Musa mais horrenda e mais discreta
Que versos foi gravar em brônzea prancha;

Quem bem longe deixou os Amadises,
E em pouco os Galaores avaliou,
Estribado no amor, na bizarria;

Quem soube impor silêncio aos Belianíses,
Quem, montado em Rocinante, vagueou,
Jaz morto, enfim, sob esta lousa fria.

            Isso posto, convido-o, faça uma nova leitura de Dom Quixote e verá quanta beleza essa fantástica obra, mais atual hoje do que nunca dantes esteve, encerra. Desfrute-a com esta nova visão, e terá uma radiografia da loucura, não de Dom Quixote, mas do mundo atual. Caso seja um daqueles privados desta catedral à humanidade, nunca é tarde para começar.

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Escrito originalmente em 12/9/2012 e revisado em 2/9/2013

            

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

ANTÍGONA

Autor: Sófocles
Tradução: Mário da Gama Kury
Editora: Jorge Zahar Editor
Assunto: Tragédia grega
Edição: 10ª
Ano: 2002
Páginas: 262 (Editado em conjunto com Édipo Rei e Édipo em Colono)


Sinopse: Antígona é uma peça teatral escrita por Sófocles em 441 a.C. cujos fatos aconteceram por volta de 1.250 a.C., em Tebas na Ásia Menor, na qual exalta a coragem de uma princesa que enfrenta o rei arriscando a própria vida em defesa de um princípio.

O enredo: A intriga da história começa com uma alusão à guerra dos Sete contra Tebas, na qual os dois irmãos de Antígona, Etéocles e Polinices, se confrontam em lados opostos. Ambos morrem no campo de batalha, mas aos olhos de Creonte, tio daqueles, Polinices é considerado traidor de Tebas e, por isso, não lhe são concedidas honras fúnebres e decreta que a pena para a desobediência a sua decisão é a morte daquele que a descumprir.Antígona recusa-se a cumprir a ordem de Creonte e, considerando tratar-se de um dever sagrado dar sepultura aos mortos, infringe a ordem do soberano e realiza os rituais fúnebres a que o irmão tem direito. Devido a este ato de piedade, Antígona é condenada à morte pelo rei de Tebas e encarcerada viva no túmulo dos Labdácidas, de quem descende. A ação impiedosa do rei será punida no final da tragédia: ao tomar conhecimento da morte de Antígona, Hêmon, filho de Creonte e noivo de Antígona, suicida-se. Por conseqüência deste segundo suicídio, é a vez de Eurídice, mãe de Hêmon, decidir “morar eternamente no Hades”.

Análise do enredo: Creonte, com a morte dos dois sobrinhos Etéocles e Polinices que se envolvem numa batalha de disputa pelo trono, torna-se rei de Tebas. A sua primeira decisão como regente foi enterrar o sobrinho Etéocles com todas as honras funerárias e deixar o corpo de Polinices insepulto. Para que se cumpra a sua decisão, decreta que a pena para desobediência é a morte.Antígona, apesar do interdito do rei Creonte, quer sepultar o irmão Polinices evocando um princípio da lei dos deuses. Sua decisão gera um conflito entre a Lei dos Céus (dos deuses) que ela defende e a Lei da Terra (dos homens) que Creonte precisa fazer cumprir.Cria-se assim um impasse, resultante da contraposição entre duas esferas de poder: A Lei dos deuses e a Lei humana.
Todo o enredo da tragédia de Tebas gravita em torno desse dilema moral que dura mais de três mil anos e que faz de Antígona uma das mais importantes obras que dá os princípios basilares para o cristianismo: Cumpre-se a Lei do Céu ou a Lei da Terra? Antígona defende a Lei dos Deuses e Creonte a Lei Humana.

Considerações importantes:
1. A falta de Antígona foi o de desrespeitar uma ordem do rei.
2. Creonte tinha razão quanto a defesa da Lei da Terra (Poder temporal), todavia sua decisão interferiu sobre a Lei dos Céus (Princípio espiritual). Logo, qual das leis deve ser cumprida?
3. Este dilema já dura 3.250 anos porque as duas posições são imprescindíveis para a humanidade.
4. Creonte era um governador e não um estadista. Esse foi o seu maior problema (o Estadista é aquele que consegue sacrificar a Lei da Terra em prol da Lei dos Céus).
5. É preciso considerar a hierarquia das leis divinas sobre as disposições humanas.
6. Imaginar que o humanismo é a solução para os problemas humanos é de uma ingenuidade incrível. Equipara-se ao raciocínio de uma criança de 8 anos.
7. Perder a noção do sagrado é a pior coisa que pode acontecer ao ser humano. Foi o que aconteceu com Creonte quando toda uma tragédia se abateu sobre a sua regência e sua família.

Conclusão:
1. O ser humano pela sua condição de dualidade (Divina e Terrena), viverá permanentemente em conflito entre o Poder Espiritual e Temporal de cuja ambigüidade não conseguirá sair jamais. Por essa razão o problema existe há três mil anos.
2. Não há solução coletiva para o problema. A solução para conflito resultante da dualidade humana será sempre individual, pois não há solução fora do indivíduo, porque nada substitui a sua consciência individual das coisas.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

ÉDIPO REI

Autor: Sófocles, (496 a.C. – 406 a.C.)
Tradução: Mário da Gama Kury
Assunto: Tragédia grega
Editora: Jorge Zahar Editor
Edição: 10ª
Ano: 2002
Páginas: 262 (Acompanha Édipo em Colono e Antígona)

Sinopse: Atormentado pela profecia de Delfos, de que iria matar o pai e desposar a mãe, Édipo tenta - inutilmente - fugir de seu destino.
A história de Édipo é a história de um homem enganado pelo destino.
Uma peste se abateu sobre a região de Tebas. É neste ponto que começa a grande tragédia de Sófocles, Édipo Rei. A colheita estava morrendo nos campos e hortas, os animais estavam improdutivos, as crianças doentes e os bebês em gestação definhavam, enquanto os deuses estavam surdos a todos os apelos. Creonte, irmão de Jocasta, retornou de sua consulta ao Oráculo de Delfos, que ordenava que a maldição seria levantada apenas quando o assassino de Laio fosse trazido a justiça. Édipo, imediatamente e de maneira enérgica, tomou a tarefa de encontrá-lo, e como primeiro passo consultou o profeta cego Tirésias. Tirésias reluta em revelar a identidade do assassino, mas é levado gradualmente a se enfurecer pelas insinuações de Édipo sobre ter algo a ver com a morte. Acaba revelando que o próprio Édipo é o pecador que trouxe a maldição sobre a cidade; também profetiza que Édipo, que se considera tão inteligente e de visão larga, se recusará a aceitar a verdade de suas palavras, se recusará a reconhecer quem realmente é e o que tinha feito.Édipo, enraivecido, suspeita que seu cunhado Creonte está mancomunado com Tirésias para assumir o trono; Creonte também nada pode dizer para acalmá-lo. Jocasta tenta acalmar a situação: é impossível que Édipo tenha morto Laio, diz ela, pois este foi morto numa encruzilhada de três estradas. Subitamente Édipo lembra seu encontro casual com um homem velho perto de Delfos; questionando Jocasta sobre a aparência de Laio (estranhamente, se parecia com o próprio Édipo) e o número de elementos na sua escolta, percebe que Laio foi provavelmente a sua vítima. Enquanto espera pela confirmação de um elemento da escolta que retornava a Tebas, um mensageiro chega de Corinto com a notícia que Pólibo tinha morrido de morte natural; Édipo, ainda não suspeitando de toda a extensão de seu crime, fica feliz por aparentemente ter se livrado de pelo menos uma parte da profecia do oráculo, mas resolve ter cautela antes que acabe se casando com sua mãe.
O mensageiro bem intencionado, ansioso em confortá-lo, assegura a Édipo que Pólibo e sua esposa não eram seus pais; o próprio mensageiro tinha recebido Édipo, então um bebê, das mãos de outro pastor do Monte Citéron e o entregou a Pólibo. Mesmo agora Édipo não consegue fazer a correta conexão, e enquanto a aterrorizada Jocasta tenta em vão persuadi-lo a parar a investigação, persiste nos seus esforços para chegar ao fundo do mistério e ordena que o pastor de Laio, agora um velho, seja trazido a sua presença. Por uma casualidade do destino, este homem é também a única testemunha ainda viva da morte de Laio. Quando finalmente aparece, o completo horror da situação finalmente chega a Édipo; o homem admite que tomou o filho de Laio e com pena o entregou ao pastor de Pólibo, ao invés de o deixar morrer. Esta criança era Édipo, que agora tinha sucedido seu pai no trono e no leito.Jocasta não esperou pelo desfecho; tinha ido antes de Édipo para o palácio, e quando a seguiu, com o que parecia uma intenção assassina, descobriu que tinha se enforcado. Arrancando os broches de ouro do vestido dela, golpeia seguidamente seus olhos com eles, até que o sangue corra pela sua face. Como pode olhar para o mundo, agora que consegue ver a verdade? O coro da peça mostra a moral da estória: por mais seguro que um homem possa se sentir, mesmo sendo rico, poderoso e afortunado, ninguém pode se sentir seguro de escapar de um desastre; não é seguro chamar qualquer pessoa de feliz deste lado do túmulo.
Apesar de ter solicitado a Creonte um banimento imediato, não foi permitido a Édipo partir de Tebas por vários anos, até que sua punição tivesse sido confirmada por um oráculo. Na ocasião em que foi mandado embora, estava muito menos ansioso para partir.

Sobre o autor:
Sófocles (496 a.C. - 406 a.C.) nasceu e morreu em Atenas, na Grécia, e foi um dos maiores intelectuais da Antigüidade clássica. Autor prolífico e consagrado em seu tempo, produziu cerca de 120 peças das quais restaram conservadas apenas sete, entre as quais, Antígona, Ajax, Electra e Édipo Rei, talvez a mais célebre de todas as tragédias.