sexta-feira, 24 de setembro de 2010

AS GRANDES HERESIAS

Título original: The great heresies
Autor: Hilaire Belloc (1870-1953)
Tradução: Emílio Angueth de Araújo
Editora: Editora Permanência
Assunto: Religião
Edição: 1ª – no Brasil
Ano: 2009
Páginas: 152

Sinopse: Heresia não é um assunto fossilizado. Ao contrário, é de permanente e vital interesse para a humanidade, porque está associado à religião, sem a qual nenhuma sociedade humana jamais perdurou ou pode perdurar.

Aqueles que pensam que o assunto heresia possa ser desprezado porque o termo soa fora de moda e porque está relacionado a diversas disputas há muito abandonadas, cometem o erro comum de pensar nas palavras, e não na idéias. Não há fim para os mal-entendidos que surgem do uso ambíguo de palavras. Mas se recordarmos o simples fato de um estado, uma comunidade humana ou uma cultura geral devem ser inspirados por um conjunto de regras morais, e que não pode haver esse conjunto de normas morais sem uma doutrina, então a importância da heresia como tema será clara, porque heresia não significa outra coisa senão “a proposição de novidades em religião, escolhendo-se algo do que tem sido a religião aceita, negando-se ou substituindo-se esse algo por outra doutrina então não familiar”.

O estudo das sucessivas heresias cristãs, seus respectivos caracteres e destinos, tem um interesse especial para todos os que pertencem à cultura européia e cristã, e esta deve ser uma razão evidente – nossa cultura foi feita por uma religião. Mudanças ou desvios dessa religião afetam necessariamente nossa civilização como um todo.

Comentário: Foi editado finalmente no Brasil, no final de 2009, o livro AS GRANDES HERESIAS, do anglo-francês Hilaire Belloc, pela Editora Permanência. Belloc foi um autor que marcou o seu tempo. Filho de pai francês e mãe inglesa, ficou órfão de pai aos dois anos de idade e a mãe optou por ir morar na Inglaterra. Assumiu a cidadania inglesa, mas prestou serviço militar na França, o que mostra que foi um homem dos dois mundos. Deixou vasta obra.

Belloc foi um católico devoto. Neste livro ele nos legou um grande trabalho histórico, ainda que haja na obra algo de inacabado. Também pudera, foi concluído em 1938, véspera dos maiores acontecimentos militares e políticos de todos os tempos. Nele Belloc narra as grandes heresias que afetaram o catolicismo – para ele sinônimo de cristianismo – desde o começo. O livro tem algumas singularidades, ente elas o fato de colocar o islamismo como uma forma de heresia cristã, a mais letal e perigosa de todas, a que tem posto o Ocidente em xeque desde o seu surgimento. E foi profético ao dizer que o Islã poderia novamente repetir suas façanhas, mesmo que na ocasião da conclusão do livro não houvesse mais nenhuma potência islâmica capaz de desafiar o Ocidente. É como se tivesse previsto o 11 de setembro.

Outra afirmação sua bastante contundente foi dizer que todas as igrejas protestantes não passam de heresias e sua verve é implacável, sobretudo com as seitas fundadas por João Calvino. Hoje em dia a coisa pode soar politicamente incorreta, já que vivemos tempos de covardia. Tempos de relativismo religioso e cultural, tempos de ecumenismo com o qual certamente ele não se conformaria. Para ele, a verdade estava com o catolicismo e ponto.

Seu capítulo final discorre sobre a fase moderna, mas é curto e incompleto por não ter visto o desfecho do nazismo e do muro de Berlim. Mas, ainda assim, previu muita coisa importante. A dissolução dos costumes cristãos não passa, segundo ele, da repetição da tragédia das heresias mais antigas, notadamente a albingense, com sua permissividade, sua luta pela dissolução do matrimônio, seu desvalor pela vida humana. Escreveu Belloc sobre os albingenses:

Todos os sacramentos foram abandonados. Em seu lugar, um estranho ritual foi adotado, que envolvia a adoração do fogo, chamado ‘a consolação’, por meio do qual acreditava-se que a alma era purificada. A propagação da espécie humana foi atacada; o casamento era condenado e os líderes da seita espalhavam todo tipo de extravagâncias que se podem encontrar pairando sobre o maniqueísmo e o puritanismo, onde quer que apareçam. O vinho é mal, a carne é má, a guerra era sempre absolutamente má, e assim também a pena capital; mas um pecado sem perdão era a reconciliação com a Igreja Católica.

Podemos ver que, se vivo fosse, Belloc acharia que os albingenses voltaram, nesses tempos de aborto estatizado, de sexo livre, de casamento homossexual, de perversões de toda ordem homologadas pelo sistema jurídico. Nem mesmo o protestantismo venceu; seu sucedâneo é a confraria dos ateus, que tomou conta dos centros de saber de todo o Ocidente. Talvez os tempos de hoje sejam bem piores do que aqueles de 1938. Quem saberá o que virá em dois anos? A roda da história está novamente acelerada e os acontecimentos podem se precipitar. (Nivaldo Cordeiro)

Trecho da obra: Imortalidade da alma. [A religião cristã] “tem como uma parte essencial (apesar de ser uma parte apenas) a afirmação de que a alma individual é imortal – a consciência pessoal sobrevive à morte física. Se as pessoas acreditam nisso, olham para o mundo e para si mesmas de certa maneira, agem de determinada forma e são pessoas de certo tipo. Se não acreditam nisso (se elas excluem ou se omitem [d]essa crença), há um corte nessa doutrina. Elas podem continuar a manter todas as outras crenças, mas o sistema é modificado, o tipo de vida, caráter e o resto se tornam muito diferente. O homem que está certo de que morrerá para sempre pode muito bem acreditar que Jesus de Nazaré era o Deus de Deus, que Deus é trino, que a Encarnação foi acompanhada de um nascimento virginal, que o pão e o vinho são transformados de uma forma particular; pode recitar um grande número de preces cristãs e admirar e imitar certos cristãos, mas será um homem muito diferente daquele que considera verdadeira a imortalidade.


O autor: Joseph Hilaire Pierre René Belloc (La Celle-Saint-Cloud 27 de julho de 1870 — Guildford, Surrey, 16 de julho de 1953) foi um escritor britânico. Nasceu em França, nos arredores de Paris, em La Celle-Saint-Cloud, a 27 de Julho de 1870, filho de um advogado francês casado com uma inglesa (Bessie Rayner Parkes), pertencente á alta burguesia, proveniente do protestantismo e convertida ao catolicismo e que foi muito ativa nos primórdios do movimento feminino pró-sufrágio. A educação de Belloc foi quase inteiramente britânica, após a morte do pai, começando na Oratory School em Birmingham, uma escola católica e continuando no Balliol College, em Oxford, pela qual se licenciou em História, em 1894, com “the highest honors”. Casou com uma americana, Elodie Hogan, em 1896. Em 1902 tornou-se súdito britânico, por naturalização, e durante alguns anos (1906-1910) foi membro do Parlamento Britânico, sob as cores do Partido Liberal. Em Oxford revelou-se um excelente orador e parece não haver grandes dúvidas de que poderia, se quisesse, ter tido uma carreira distinta na política. Mas acabou por escolher a escrita como o seu campo de acção e, na verdade, missão, e tornou-se um dos mais prolixos e diversificados - atendendo á diversidade de temáticas e de estilos - autores na longa história da literatura inglesa.

Quando morreu, a 16 de Julho de 1953, com quase 84 anos de idade, Belloc deixava para trás cerca de cem livros publicados e um vasto número de ensaios avulsos, artigos, recensões e discursos. Uma das mais controversas figuras do seu tempo, foi, também, um dos mais respeitados e venerados, pela sua cultura, visão, vigor e brilhantez de estilo literário. Escreveu muito sobre História, incluindo uma História de Inglaterra em quatro volumes, e vários tratados histórico e biográficos da Revolução Francesa – um acontecimento com uma quase obsessiva influência no pensamento de Belloc -, mas os seus escritos historiográficos ocuparam relativamente pequeno espaço na totalidade da sua bibliografia. Ele era crítico literário e analista social e político, um incessante polemista em muitas áreas, jornalista, novelista e sobretudo, poeta. Os seus poemas podem ser encontrados em muitas antologias de poesia inglesa, mas a sua primeira aventura neste campo foi a dos versos com non sense. O seu livro The Bad Child’s Book of Beasts, escrito enquanto se encontrava em Oxford, em 1896, gerou uma atenção imediata e é considerado nos nossos dias como um clássico.

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sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O JARDIM DAS AFLIÇÕES

Autor: Olavo de Carvalho
Editora: É Realizações
Assunto: Filosofia
Edição: 1ª
Ano: 2000
Páginas: 336


Resumo do livro:

1. Unidade do livro
O livro é uma investigação filosófica, portando, algo que se inicia com o “espanto”, com a conscientização de um problema. O primeiro problema que espanta o autor é a falsificação da história da Ética, feita pelos professores da USP, em um evento do Masp. A busca em entender este evento lança o autor em uma investigação por uma multiplicidade de planos que irão, ao final do livro, mostrar como se deu a formação cultural e política de Ocidente, desde seus fundamentos até seus desdobramentos contemporâneos; por fim, situando o problema inicial neste quadro maior de referência.

2. Tipo do livro
O livro é uma investigação filosófica. Isso significa, primeiramente, que não é uma exposição, mas, a rigor, a demonstração dos passos de uma investigação. Algo parecido já foi feito pelo autor na segunda parte de Descartes e a Psicologia da Dúvida, onde, ao invés de expor metodicamente a solução para um problema, o autor descreve os passos em direção à solução. Este procedimento tem a vantagem de colocar o leitor dentro do processo de investigação; mas trás o risco de ser mal-interpretado por um leitor que, não percebendo as implicações desta diferença, leia o livro como se fosse uma exposição metódica. A principal diferença desta mudança de enfoque consiste no fato que um livro investigativo estar lidando com probabilidades e não com certezas; ou seja, partindo dos vários caminhos possíveis para resolver um problema, o autor procurar hierarquizá-los e escolher o mais provável para continuar seguindo as pistas da solução. Ao contrário de uma exposição metódica, o autor não mostra nexos que sejam necessários, justamente, porque na investigação estes nexos ainda estão sendo buscados. Por isto é comum que em certas passagens o autor assinale a importância de determinado assunto seja mais estudado, anunciando, a título provisório, as soluções que lhe parecessem ser as mais prováveis, admitindo, contudo, que o assunto está longe de ser terminado.

Além disto, é uma investigação filosófica. Ou seja, procurar apreender a unidade explicativa por trás dos fatos mais diversos; inclusive aqueles que são objeto de investigação de várias ciências particulares. Por isso, o autor irá percorrer os mais variados campos para entender o problema que tem em mão: passando pela história, psicologia, religiões comparadas, entre outras; todas as ciências servindo como instrumentos para ajudar na compreensão dos problemas que serão levantados.

3. Estrutura da obra
Estrutura resumida

Livro I – Apresentação do problema inicial que provoca as investigações: a falsificação da história da Ética, feita pelos professores uspianos, nas palestras do Masp (Epicuro no lugar de Platão e Aristóteles; Inquisição como fenômeno medieval e não renascentista; exclusão da escolástica) e a distorção da história do pensamento Ocidental, feita por Pessanha, quando esteve na direção da coleção “Os Pensadores”.

Livro II – Uma investigação de Epicuro; procurando entender o que ele foi fazer no lugar de Platão e Aristóteles, como representante da Ética na filosofia grega e o porquê do fascínio que exerceu na platéia. Onde se assinala sua pequenez filosófica; seu parentesco com a Nova Era; e sua índole evasionista, como resposta a uma situação de falta de sentido.

Livro III – Onde se examina qual a semelhança entre Marxismo e Epicurismo, por trás de sua aparente contradição entre ativismo e evasionismo: negação da inteligência teorética; e onde também se assinala que o mesmo parentesco se repete entre os movimentos espiritualistas da Nova Era e os descendentes marxistas contemporâneos.

Livro IV – Onde se examina as mudanças culturais na história ocidental que levaram a perda da dimensão metafísica; sem a qual, cresce o culto às dimensões sócio-cósmicas; que seria um dos fatores que teriam aproximado os movimentos materialistas dos espiritualistas.

Livro V – Onde se estuda a história política do Ocidente e sua configuração de poderes; situando o lugar da intelectualidade brasileira contemporânea frente a este quadro ampliado.

Estrutura expandida

Nota: Aqui, ocasionalmente, extrapolo os limites da “leitura analítica” para transcrever também os argumentos que sustentam as principais proposições; porém, só o fiz quando me senti seguro de tê-los compreendido suficientemente bem. Faço o alerta para que o leitor não tome o tamanho do meu texto escrito como indicativo da importância do trecho correspondente do livro; algumas vezes ocorreu o contrário: preferi me demorar nos capítulos de mais fácil assimilação, passando com mais rapidez pelos mais densos. Esta não é, infelizmente, a única falha deste resumo. Porém, este é o que eu pude fazer por hora; no futuro, talvez eu retome este texto e o complete com a devida propriedade que o livro merece.

Livro I – Pessanha

1) Biografia do livro

2) Onde se apresenta as críticas às palestras do Masp (ausência de Platão, Aristóteles, Santo Tomás; presença de Epicuro; inquisição como fenômeno medieval, etc.).

3) Onde se observa que o mesmo critério já tinha sido utilizado por Pessanha, na coleção “Os Pensadores”; e onde se assinala que a falsificação tenha sido feita em nome da missão marxista de “transformar o mundo”.

Livro II – Epicuro
Capítulo II – A Cosmologia de Epicuro

Onde se demonstram as contradições internas da cosmologia epicúrea e se contesta algumas de suas possíveis defesas. Neste capítulo, me parece que Olavo utiliza o método que chama de “crença metódica”; que é apresentado, em sua apostila Descartes e a psicologia da dúvida - Parte II como uma alternativa à “dúvida metódica”.

Seguindo este método, ao invés de procurar questionar cada ponto da doutrina de Epicuro, ele supõe que ela pode ser verdadeira, e passa em seguida a tirar conseqüências de seus pressupostos e comparar as diferentes proposições; deste modo, descobrindo uma série de contradições.

Não encontrei nenhuma apresentação sistemática deste método, mas me parece que é deste método que Olavo fala no texto “Idéias Vegetais”, publicado no “Imbecil Coletivo”, quando declara:

A credulidade mesma, quando praticada a sério e integralmente, é a melhor defesa: basta que você, ao crer no que alguém lhe diz, creia também nas conseqüências, que ele provavelmente não disse. Se estas conseqüências forem absurdas, a absurdidade delas logo saltará aos olhos, sem que você tenha tido o trabalho de procurá-la como faria Descartes” (Imbecil Coletivo, Idéias Vegetais).

Capítulo III – Ética de Epicuro
8) A ética de Epicuro pode ser dividida em uma parte geral e outra específica. A parte geral são os valores comuns aos filósofos da época, como a superioridade da contemplação à ação, a filosofia como um caminho para a felicidade, etc. A parte específica, que a distingue das outras, é uma “psicologia prática”, exercícios mentais para atingir a felicidade.

Entre estes exercícios, está o tetrafármacon; que consiste na internalização de alguns preceitos (não temer os deuses, a morte, etc.). Olavo assinala que alguns destes preceitos são incoerentes com a cosmologia epicúrea; portanto, o epicurismo exige que o discípulo se esforce para acreditar em algo que a sua filosofia desmente.

9) Olavo faz uma análise pormenorizada de um dos exercícios mentais epicuristas, que consiste em afastar da mente seus problemas e se concentrar em reviver as memórias de tempos mais felizes. A crítica a esta técnica é que ele consiste em uma auto-hipnose que tem como conseqüência causar uma progressiva distorção no senso de realidade de quem a pratique. Para explicar os perigos desta prática, Olavo se baseia em parte na sua própria teoria sobre a psicogênese do conhecimento objetivo. Contudo, ainda não consegui ter acesso a este material para tecer mais comentários.

Capítulo IV – Lógica de Epicuro

10) Em Aristóteles, Na lógica há uma ligação necessária que entre a conclusão e suas premissas; já a retórica, é definida quando a ligação entre as premissas e a conclusão não é necessária, mas é apenas verossímil. Por isto, a lógica serve para encadear raciocínios que sejam verdadeiros (se as premissas também o forem); enquanto a retórica serve para convencer alguém de uma proposição, sobre a qual não há base para afirmar sua veracidade. A lógica dos sinais de Epicuro, em termos aristotélicos, seria uma retórica, e não uma lógica, propriamente falando. Levando em conta que já existia a lógica aristotélica, a lógica epicúrea é uma queda de nível em relação ao que já tinha sido alcançado pela filosofia.

Porém, esta característica da lógica dos sinais é explicada pela própria característica do epicurismo, onde o objetivo não é alcançar a verdade, mas a paz interior; consequentemente, sua lógica não é um instrumento de investigação ou de verificação de proposições, mas um instrumento auto-hipnótico, onde o discípulo progressivamente se convence (ou é convencido) daquilo que não sabe como provar ou verificar.

11) Tanto a lógica de Epicuro, como sua Ética, o coloca ao lado das técnicas modernas de hipnose e manipulação mental, como a PNL.

12) O autor anuncia um pequeno desvio de Epicuro para discutir o atual estado das pesquisas sobre manipulação mental e o desinteresse sobre o assunto.

13) O autor faz uma longa descrição dos avanços técnico-científicos no campo da manipulação mental; assinalando, por um lado, há importância do assunto; e, por outro, a preocupante falta de interesse de se formar grupos sérios de estudo desta questão, que por sua amplitude, transcende as possibilidades investigativas de um estudioso isolado.

Capítulo V – Índole do epicurismo

14) O autor desmente alguns dos mitos construídos em torno de Epicuro

15) Onde se assinala as condições nas quais o epicurismo emergiu: na época, havia um sistema político repressor, que vetava aos cidadãos a possibilidade de participar das decisões políticas de sua comunidade; decadência da religião grega, o que retirava das pessoas a possibilidade encontrar um sentido transcendental para sua existência; exílio dos filósofos, o que fechava a possibilidade encontrar um sentido para a vida através da reflexão intelectual. A conjunção destes três fatores provocava na população o sentimento de desespero e impotência. Neste contexto, o epicurismo surge como uma tábua de salvação, trazendo o alívio evasionista e a fuga das dores da realidade.

Neste sentido, o epicurismo parece estar situado no pólo oposto do marxismo: de um lado, a pregação do ativismo político; do outro, a pregação do evasionismo, da alienação, do niilismo. Por que Pessanha, um marxista, teria se interessado tanto por Epicuro. Este é o ponto que desencadeia o próximo passo da investigação.

Livro III – Marx

16) Apesar de estarem em planos opostos, em termos de projeto político, há um princípio comum que une marxismo e epicurismo: a negação da inteligência teorética. Neste ponto, me parece que Olavo utiliza o raciocínio analógico, explicado no texto "Dialética Simbólica".

17) Segue um comentário mais minucioso sobre a negação da inteligência teorética em Marx; que está disponível no site do autor: Epicuro e Marx

18) O autor comenta que o esforço de Pessanha em resgatar a “tradição materialista” é equivocado, pois, aí, “materialismo” é apenas uma coincidência de nomes, não de termos; ou seja, a mesma palavra sendo utilizada com sentidos diferentes.

Além do mais, a noção de “tradição materialista” se torna mais complicada com a constatação que os ”filhotes” modernos do epicurismo são os movimentos espiritualistas da Nova Era. Além disto, estes movimentos espiritualistas também possuem uma série de correspondências analógicas com os movimentos marxistas. Como houve esta aproximação entre marxismo e espiritualismo? Esta é a questão que move a próxima parte da investigação.

Livro IV – Os braços e a cruz
Capítulo VII – Materialismo espiritual

16) “Pobres bantos” (as aspas assinalam que o título foi alterado por mim)

O autor mostra que é comum que em todas as principais civilizações se encontre algum tipo de divisão da realidade em três estratos essenciais: o campo da manifestação sensível, o campo dos princípios metafísicos, e o campo intermediário, onde está situado o homem. Contudo, Mircea Eliade observou que em culturas em avançados estados de degradação (ocasionados por sucessivas experiências traumatizantes de fome, guerra, miséria) percebe-se que há um abandono da dimensão metafísica e, simultaneamente, o endeusamento de aspectos da experiência sensível: a idolatria do tempo e do espaço; os deuses da natureza e da história. O autor assinala que processo análogo aconteceu com a classe intelectual da civilização Ocidental, que após o abandono da dimensão metafísica, dividiu o campo da ciência em duas formas de idolatria: as ciências da natureza (deuses do espaço) e as ciências humanas (deuses do tempo).

17) “Divinização do espaço”
O autor mostra que o processo de divinização da natureza remonta a Nicolau de Cusa, quando este, em sua obra, mantendo os principais tesouros da cosmologia tradicional, trouxe para a cena uma nova gnoseologia. Essa gnoseologia, se afastando do ideal de evidência apodíctica, trouxe um progressivo rebaixamento da ciência em relação ao ideal que já havia sido estabelecido por Platão e Aristóteles, o que se torna evidente a partir de Galileu, e que pode ser exemplificado nos desvios de autores modernos como Cantor e Piaget.

Pareceu-me que, para fazer esta análise, Olavo se fundamenta amplamente na obra de Husserl, que ainda não conheço. Encontrei no texto “O Homem-relógio” uma correspondência com o que é discutido aqui, porém, bastante sintética.

18) “Divinização do tempo I”
Uma longa e detalhada descrição de como surge o pensamento historicista, suas raízes e seus desdobramentos no desenvolvimento do pensamento Ocidental. Por fim, mostra como ele se desviou de seus louváveis objetivos originários para produzir duas ideologias progressistas (marxismo e positivismo), que sustentaram os dois principais projetos político antagônicos do século XX (capitalismo e comunismo), que tiveram como uma das piores conseqüências absorver todo questionamento sobre o sentido individual da existência no rumo coletivo da história.

19) “Divinização do tempo II”
Uma crítica específica e detalhada a dois frutos do historicismo: a doutrina da “volonté generale” dos ideólogos da revolução francesa e à doutrina hegeliana de Estado.

A visão da ciência política tradicional era a de que o sujeito que é diretamente responsável pelas ações políticas é o individuo concreto; a sociedade, nesta visão, é aglomeração de indivíduos, não possuindo uma existência tão concreta quanto aqueles por ser um ente mais evanescente. Porém, na ciência política moderna, a sociedade será considerada um ente tão ou mais concreto que o individuo singular.

Esta concepção se baseará na observação de que a vida em sociedade é essencial para o homem, não sendo concebível uma natureza humana fora da sociedade. O autor irá defender que esta crítica se baseia em uma compreensão superficial do pensamento da filosofia tradicional, pois nesta visão já estaria previsto que a sociabilidade é essencial para o homem. A diferença seria a seguinte: para os antigos, havia uma “natureza humana” imutável, porém, dentro desta “imutabilidade” já estava previsto uma série de aspectos que iriam variar sob certas condições; uma destas condições é a sociabilidade. Ou seja, não há nenhuma incompatibilidade entre o pensamento tradicional e o reconhecimento da influência da sociedade sob a natureza humana, desde que se entenda que esta só afeta algumas características, já previstas na definição de “natureza humana”, sem afetar outras, também previstas. Neste sentido, Olavo afirma que o homem é imutavelmente mutável pela convivência social. Portanto, a idéia da “volonté generale” se fundamenta em um equívoco filosófico.

Porém, se compreende a pobreza filosófica da idéia quando se observa que ela surgiu para resolver um problema político, e não filosófico. Os ideólogos da revolução francesa se encontravam com o problema de justificar o engajamento militar de toda a população, para poder fazer face aos demais poderes da Europa. Para isto, apelaram à idéia de que a substancialidade da Nação era mais importante que dos indivíduos que a compunham e, em nome dela, todos os cidadãos deveriam se sacrificar no esforço de guerra. Portanto, não é só de um equívoco filosófico que nasce a idéia da “volonté generale”, mas também da retórica política em vista da necessidade de justificar uma guerra às pressas.

O passo seguinte seria dado por Hegel. Ele tomaria a existência concreta do ente “sociedade” como um princípio auto-evidente, denominando-o Estado. O filósofo concederá ao Estado o mais alto grau na hierarquia ontológica, considerando-o a realização final do acontecer histórico. Em seguida, Hegel irá considerar o Estado a condição necessária e suficiente para a defesa da liberdade da consciência individual; considerando que este (o Estado) absorveu todo o pensamento cristão e filosófico, e não resta aos indivíduos nem mesmo a necessidade de se precaver contra os abusos dele, devendo entregá-lo a direção da própria consciência. Em resumo, o que Hegel faz é elevar o Estado à condição de arbitro das consciências, a suprema autoridade espiritual.

O autor assinala que a realização desta idéia hegeliana deu origem às três formas de Estado moderno: fascismo, comunismo e liberalismo. Os comunistas tentaram proibir as religiões em sua condução espiritual dos povos através da perseguição ostensiva, do uso da violência física e psicológica, pervertendo desde dentro as igrejas. Os fascistas tentariam substituir o culto religioso pelo culto do Estado. O Estado liberal, mantendo a liberdade econômica e política, se expande para controlar todos os domínios da esfera privada, cada vez mais se colocando como a instância reguladora das questões íntimas das pessoas, da vida interior das pessoas.

Capítulo VIII – a revolução gnóstica

23) Revisão do itinerário percorrido
Tentando recompor a unidade mental de Mota Pessanha, descobriu-se o ponto de interseção entre o marxismo e o epicurismo que professava: a negação da inteligência contemplativa. Em seguida, se descobriu que esta ligação esta na base de dois movimentos aparentemente antagônicos no cenário mundial: A Nova Era e A Revolução Cultura. Este junção fazia de Pessanha o iogue-comissário, sintetizando em sua pessoa um símbolo dos ideais que movem a humanidade: a evasão pelo consumismo e a evasão pela ação transformadora. Porém, resta a indagação: como foi possível a aproximação de duas correntes fundadas em cosmologias tão distintas? Como foi que o comissário materialista se aproximou do iogue espiritualista? O passo seguinte da investigação demonstrou que estas duas linhas se encontram em um mesmo ponto de origem: a negação da realidade metafísica e a substituição desta por divindades sócio-cósmicas, os deuses do tempo e do espaço. O iogue, divinizando a natureza, e o comissário, divinizando a história, aproximam-se no comum desprezo pelas realidades metafísicas. Porém, esta peculiar síntese não é novidade. O próximo passo é analisar suas raízes, que se encontram do culto a César e no gnosticismo.

24) O véu do templo.
O gnosticismo pode ser definido como uma reação de tradições antigas contra o cristianismo; para entender isto, deve-se entender qual a diferença específica entre eles. Até o advento do cristianismo, não havia espaço para a autonomia de consciência. As tradições se encontravam integradas a própria estrutura social, de modo que as próprias regras da sociedade eram vista como uma conseqüência direta da ordem divina. Com Sócrates, a coisa muda um pouco de figura, pois o filósofo irá declarar a superioridade da consciência individual em relação às demais formas de conhecimento social. A essência da mensagem de Sócrates é que a verdade é: Universal, ou seja, válida para todos; Apodíctica, ou seja, conhecida através de evidência, não somente indiretamente através de códigos e símbolos; Individual, ou seja, se mostra individualmente para cada sujeito através da consciência reflexiva.

Contudo, mesmo entre os gregos, o reconhecimento disto não provocava grandes influências na ordem social, pois, embora reconhecessem que este era um tipo de conhecimento superior ao da sociedade, os filósofos consideravam que este seria sempre um privilégio para poucos e não esperavam que toda a sociedade adotasse esses princípios. Porém, é precisamente isso que o cristianismo irá propor: a possibilidade que cada indivíduo encontra a verdade, independente de qualquer fator social. Ou seja, a possibilidade socrática, que os gregos reservavam para poucos filósofos e membros de sociedades iniciática, está aberta para toda e qualquer pessoa.

Esta nova possibilidade irá se opor radicalmente contra os antigos valores civilizacionais. A antiga visão de mundo, como o iogue-comissário, cultuava a sociedade e natureza, os deuses do tempo e do espaço. Porém, quando o cristianismo abre essa conexão direta entre Homem e Deus, desprezando as leis sociais e naturais, o culto passa a ser de uma divindade metafísica, acessível somente ao indivíduo, impossível de ser plenamente transposta para um conjunto forma de regras e normas. Em oposição aos deuses cósmicos, o cristianismo trás o culto do Deus supra-cósmico. Em oposição à crença de que os valores da sociedade são os valores supremos, o cristianismo trás a consciência individual como a instância que julga a sociedade, e não que é julgada por ela.

Com a queda do Império Romano e a progressiva cristianização da Europa, surge um novo mundo, onde o Estado não possui mais o poder sacerdotal que possuía no tempo de César. Neste novo quadro, o cristianismo se espalha sobre o mundo, (cf.pág. 193. Especialmente a nota de rodapé) enquanto os vestígios das antigas tradições greco-romanas dão origem às seitas gnósticas, que se opõe a nova mentalidade e propõe a volta dos antigos cultos.

25) Leviatã e Beemoth
Entre as características do gnosticismo, pode-se destacar o culto cósmico e a sacralização da sociedade. O movimento de reação contra o cristianismo, que se consubstancializa parcialmente nas seitas gnósticas, procurando restabelecer o culto das divindades da natureza, e parcialmente dentro da própria Igreja, na medida que esta passou a sacralizar a sociedade, como conseqüência indireta do esforço de difundir o cristianismo. (v. Nova Era, pp. 15-17)

Enfocando basicamente as dimensões sociais e cósmicas, o gnosticismo ataca diretamente a consciência individual e a dimensão metafísica. Porém, uma vez que esta se torna vitorioso, surge um novo conflito: os deuses do tempo versus os deuses do espaço. Em torno deste conflito serão geradas as principais discussões das idéias até o século XX, sem nunca conseguirem encontrar uma síntese (pois esta só seria possível no âmbito metafísico).

Livro V – Caesar Redivivus
Capítulo IX – A religião do Império

26) De Hegel a Comte
O autor narra como a idéia hegeliana de Estado como guardião da consciência humana frutificou no Catecismo de Robespierre, na Religião da Humanidade de Comte, na própria autoridade de Napoleão, que assumiu o trono dispensando as tradicionais bênçãos sacerdotais e, por fim, no Estado leigo. O tema básico é o Estado somando ao poder temporal a autoridade espiritual.

27) Breve história da idéia imperial
O autor afirma que a história política do Ocidente pode ser resumida como a tentativa de re-articular um novo poder imperial sucessor do Império Romano.

O problema básico desta histórica é que no Império Romana estava articulada uma dualidade de poderes que nenhuma outra potência conseguiu harmonizar: os poderes espirituais e temporais. Enquanto na Roma Antiga a aristocracia representava tanto o poder político quanto sacerdotal, a partir da dissolução do Império Romano estes poderes estarão definitivamente separados, tendo que encontrar sucessivamente novas formas de convivência.

A história dessa sucessão de arranjos se inicia com a queda do Império Romano. A partir daí, com a progressiva cristianização da Europa, os sacerdotes cristão irão assumir parte das funções publicas. Porém, dado o caráter do cristianismo como via individual de salvação, não é possível uma “doutrina cristã de Estado” que substitua totalmente as funções do antigo império. Conseqüentemente, dentro da própria Igreja surgirá a demanda por uma classe política que assuma as funções que ele não quer desempenhar. A partir desta necessidade, surge o primeiro Império cristão, unificado por Pepino e consolidado por Carlos Magno. Porém, este império não durará muito tempo, e será substituído pelo Sacro Império Romano; o qual, por sua vez, longe de atuar como braço político e militar da Igreja, entrará em constantes conflitos com ela.

As viagens transcontinentais trariam um novo quadro de referências para a idéia de Império: por abrir a possibilidade da expansão do Império sobre as colônias do Novo Mundo, é aberta a possibilidade da co-existência de vários candidatos à Império, pois não precisam se digladiar internamente pelos pedaços da Europa.

Porém, a multiplicidade dos impérios não resolve a tensão interna que o caracteriza: a duplicidade dos poderes. Com cada nação Europa assumindo o poder temporal, ainda falta a complementação necessária de um poder espiritual que justifique o Império. A Igreja Católica torna-se o poder espiritual que complementa o poder temporal da dinastia espanhola, deixando os outros candidatos à Império sem este apoio. Para suprir esta falta, os estados nacionais irão se aliar às igrejas protestantes, buscando, cada qual, fundar o próprio Império. Porém, dentro de cada Estado nacional, se repete a contradição entre os interesses e valores do clero e da nobreza; cada Estado procurando sufocar e subjugar o poder espiritual sob o poder temporal.

Três séculos depois, o quadro de referências muda novamente: as monarquias começam a cair. Nesta nova situação, Napoleão Bonaparte sobe ao poder com a missão de atualizar o poder imperial, porém, desta vez, desvinculado de qualquer legitimação religiosa: trata-se de restaurar o culto a César. Contudo, o projeto de Napoleão irá ruir pela sua própria contradição interna: irá tentar construir um novo regime, excluindo a casta sacerdotal, porém, se fundamentado na mesma casta aristocrática que há doze séculos havia estado fortemente ligada ao clero. Porém, ainda assim não será o fim da ambição imperial, que irá florescer nos Estados Unidos

28) O Império contra-ataca.
A idéia de Império ressurge nos EUA metamorfoseada em uma configuração inédita: trocava-se a monarquia e o absolutismo pela república democrática.

29) Aristocracia e Sacerdócio no Império Americano I
O novo império também se distingue por ter uma nova classe sacerdotal: a maçonaria, que irá moldar o imaginário público, através de uma nova série de ritos e mitos nas artes que virão em substituição aos mitos cristãos.

O autor faz uma análise dos vários historiadores da maçonaria, explicitando o que há de aproveitável em algumas teses e o que ele considera exagerado; citando casos de intelectuais famosos que se encontraram assujeitados a organizações secretas, sem que jamais conseguissem elaborar intelectualmente estas experiências para esclarecer o público; assinalando, em todo caso, a importância do assunto, a irresponsabilidade em ignorá-lo e a necessidade de que se façam mais estudos sérios sobre ele.

Neste capítulo, há também uma valiosa – embora sintética - exposição sobre o funcionamento imaginário na formação do raciocínio lógico que fundamentam toda a análise sobre a influência maçônica na sociedade. Porém, não irei resumi-la aqui por não ter lido ainda o material original onde este tema é exposto sistematicamente (cf. Uma Filosofia Aristotélica da Cultura).

29) Aristocracia e Sacerdócio no Império Americano II
Mais uma característica do Império Americano é que ele é uma república protestante. Contudo, ao contrário de outros países onde uma corrente do protestantismo unificou religiosamente o país, nos Estados Unidos, a população se divide em uma série de correntes, sem que nenhuma tenha a primazia de religião oficial. Por isso mesmo, todos os diferentes grupos religiosos tem que aprender a conviver em pé de igualdade, sob a mesma proteção de uma única autoridade civil: ou seja, o Estado leigo.

O autor então, argumenta que a submissão das religiões a uma moralidade civil tem como conseqüência direta o esvaziamento das religiões tradicionais favorecendo o crescimento do ateísmo e o nivelamento de todas as crenças, apagando as diferenças entre os cultos tradicionais e as demais seitas.

Porém, a conjunção destes dois pontos (Estado leigo e casta sacerdotal maçônica) acarreta também mais uma característica inédita na história dos impérios: pela primeira vez, os dirigentes de uma nação partilham de uma única crença sem que esta seja partilhada por ninguém da sociedade civil; enquanto, ao mesmo tempo, a sociedade civil não se unifica em torno de nenhuma crença, mas se divide entre uma infinidade delas.

31) De Wilhelm Meister a Raskolnikov
Neste capítulo, há uma explicação mais detalhada – e interessantíssima – do funcionamento dos ritos e mitos como os instrumentos pelos quais o indivíduo encontra o sentido de sua vida. Em seguida o autor aponta a mudanças dos mitos fundamentais das artes na modernidade, assinalando que há uma substituição do mito cristão pelo mito maçônico (que coincide também como rompimento entre catolicismo e maçonaria).

O autor assinala algumas obras onde aparece esta mudança e explica a diferença entre os dois mitos utilizando os conceitos de pequenos e grandes mistérios (os quais suponho serem conceitos guenonianos). Os pequenos mistérios seriam a descoberta seguida da integração na ordem histórico-cósmica; ou seja, o iniciado passa a ocupar um lugar produtivo na sociedade, de onde recebe as recompensas por seus esforços. Os grandes mistérios já se referem a percepção de uma ordem supra-cósmica que não é redutível à ordem mundana. A ruptura entre catolicismo e maçonaria teria feito com que esta passasse a poder oferecer apenas uma iniciação nos pequenos mistérios, pois para uma iniciação aos grandes mistérios seria necessário que a ordem iniciática servisse como preâmbulo para uma caminhada maior, que só poderia ser feito dentro de uma religião tradicional, como o catolicismo ou o islamismo.

Como estes mitos maçônicos estão presentes em obras de arte que são disseminadas por toda a população, os efeitos desta ruptura não se restringem aos iniciados, mas reverberam por toda a população, através de uma transformação do imaginário popular. A principal conseqüência é que a população passa a se preocupar cada vez mais com a realização mundana, descuidando de uma autêntica realização espiritual.

32) As novas Tábuas da Lei , ou: O Estado bedel
O autor argumenta que sob a bandeira da democracia moderna os Estados contemporâneos têm promovido uma concentração de poder inédita na história ocidental, isolando progressivamente o homem comum do centro de decisões. Isto ocorre, em parte, porque as divisões da sociedade em castas (e não em classes) é uma constante do espírito humano e a ocultação deste fato pela ideologia democrática tem como efeito encobrir o fato de que uma elite cada vez mais restrita concentra um poder muito maior que o restante da população.

Em seguida, o autor mostra como os movimentos que reivindicam novos direitos terminam por incentivar a concentração de poder: para regular os novos direitos, o Estado encontra o pretexto para aumentar seu poder sobre a população.

O debate entre essa esquerda e direita também passa ao lado da questão do aumento do poder do Estado sobre as consciências. Mesmo os neoliberais, argumentando em favor da diminuição da influência do Estado na economia, não enxerga impedimentos em aumentar a presença do Estado em outras áreas: educação, comunicação, legislação, etc. Ou seja, em todos os espectros políticos, não há um movimento de resistência à crescente intervenção do Estado na vida privada dos cidadãos.

Além disto, neste trecho o autor analisa alguns dos procedimentos que levam a esta concentração de poder e mostra algumas conseqüências já visíveis deste fenômeno.

Capítulo X – Na borda do mundo

26) Retorno ao Masp e ingresso no Jardim das Aflições
Neste trecho, o autor faz uma recapitulação de todas as discussões do livro e retorna ao evento do Masp, para contextualizar aquele evento neste contexto mais vasto da história das idéias e da política ocidentais.

Primeiramente, o autor faz uma narrativa buscando reconstruir o modo como a intelectualidade uspiana concebia seu papel no rumo dos eventos, quais eram os objetivos do movimento pela “ética na política” e quais foram os resultados práticos obtidos: mostrando que, inconscientemente, a estratégia socialista ajudou a fortalecer os valores da Revolução Americana; ou seja, do Estado imperial leigo, que absorve, igualmente, as ideologias capitalistas e socialistas.
Em seguida, o autor faz uma breve narrativa dos últimos anos da formação intelectual brasileira, assinalando sua incapacidade de perceber a quem estão servindo com seu ativismo ideológico e sua incapacidade de perceber o fenômeno que está ocorrendo. Por fim, o autor também mostra que se por um lado, os EUA é o berço do novo projeto imperialista, ele também é o local de onde provêm as principais forças de resistência contra esta nova ordem.

Porém, acredito que o ponto central deste capítulo (e talvez, por extensão, de todo o livro) é quando o autor esclarece seu posicionamento frente ao projeto imperial americano. Ele insiste que o grande embate político do Ocidente já não é mais entre dois blocos ideológicos antagônicos (socialismo e capitalismo), pois o projeto do Império Mundial Leigo absorve ambas as ideologias. O embate restante é em delimitar os poderes do Império; ou seja, em rejeitar que ele atualize o projeto de César: absorver igualmente o poder temporal e o poder espiritual. A questão não é defender uma ideologia política em nome da outra, mas é defender o primado da consciência individual ante a pressão coletiva e negar ao Estado o papel de uma autoridade espiritual comparável a uma tradição religiosa. Em suma, trata-se de defender a liberdade de consciência e superioridade das tradições religiosas frente aos poderes políticos:

Nenhum regime, nenhum Estado, tem o direito de agir como intérprete soberano da verdade, subjugando as consciências individuais, pois é nestas, e não nele, que vive e esplende o dom da inteligência. E as consciências individuais não têm nem terão jamais outra fonte onde buscar inspiração e força senão o legado das grandes tradições espirituais. São elas também a fonte onde busca sua legitimação toda ideologia, todo regime político: elas julgam todas as ideologias, e por nenhuma são julgadas.”(Jardim das Aflições, 2ª edição, pág. 302).



Sobre o autor: Olavo de Carvalho nasceu em Campinas no dia 29 de abril de 1947, tem sido saudado pela crítica como um dos mais originais e audaciosos pensadores brasileiros.
Filósofo e professor, Olavo de Carvalho é o mais importante pensador brasileiro da atualidade. Olavo conquista o leitor por suas idéias vigorosas, expressas numa eloquência franca e contundente que alia o rigor lógico e a erudição ao mais temível senso de humor. Nas palavras do poeta Bruno Tolentino, “a capacidade de desenterrar do pensamento antigo, novas idéias aptas a lançar luz sobre o presente é a marca do verdadeiro erudito; a capacidade de encarar os problemas do presente com aquela coragem radical apta a trazer à luz os fundamentos últimos do conhecimento é a marca de algo mais que o mero filósofo-padrão de hoje em dia."
Olavo de Carvalho é um iconoclasta de incontornável honestidade intelectual que tomou para si a tarefa ingrata de pôr a nu os falsos prestígios acadêmicos e expor as falácias do discurso político e intelectual vigente.
A tônica de sua obra é a defesa da interioridade humana contra a tirania da autoridade coletiva, sobretudo quando escorada numa ideologia ‘científica’. Para Olavo de Carvalho existe um vínculo indissolúvel entre a objetividade do conhecimento e a autonomia da consciência individual.