sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A CARTUXA DE PARMA

Título original: La Chartreuse de Parme
Autor: Stendhal (Henri-Marie Beyle – 1783-1842)
Tradução: Vidal de Oliveira
Editora: Globo
Assunto: Romance (Literatura estrangeira)
Edição: 1ª
Ano: 2004
Páginas: 553

Sinopse: O livro (1839) narra as aventuras amorosas vividas pelo protagonista na Itália da era napoleônica. Iniciando-se com a célebre cena em que o herói Fabrício Del Dongo se perde no campo de batalha de Waterloo, sem saber que participava de um momento crucial da história européia. O livro é uma apologia da liberdade de espírito e da leveza, do ímpeto e da energia individuais, que Stendhal identifica na ensolarada Itália, aqui usada como imagem em negativo da Restauração e do naufrágio dos ideais da Revolução Francesa.

Fabrício Del Dongo, de alguma maneira, também ilustra a concepção que Stendhal tinha da vida: a “busca da felicidade”.

Enredo e comentários: A criação de A Cartuxa de Parma foi, em muito, inspirada em leituras de documentos sobre famílias antigas da Itália, como a família Farnese, que Stendhal teve acesso em suas inúmeras passagens pela Itália, como cônsul. O Romance tem como protagonista Fabrício Del Dongo, um jovem aventureiro, de família nobre e de poucas ambições. Assim como Julien Sorel, protagonista de O Vermelho e o Negro, Fabrício é admirador de Napoleão e essa admiração constitui um dos aspectos sócio-históricos apresentados na obra, pois mostra uma Itália que sofre as consequências sociais da restauração da monarquia em territórios que pertenceram anteriormente ao Império Napoleônico, como os territórios do Piemonte, onde se passa o Romance.

Fabrício vive em seu mundo nobre, mas sem as ambições típicas de seu meio, é estuvado, ingênuo, juvenil e desapegado às coisas do dinheiro. Sua ambição é lutar e conhecer o Imperador Napoleão. Essa admiração dá início às suas peripécias, pois ele segue escondido de seu pai, monarquista, para lutar em Waterloo. A partir daí ele se vê em apuros, contando apenas com a ajuda de sua tia, Gina Pietranera. A afeição entre os dois vai crescendo e se confunde muitas vezes com um amor carnal e incestuoso. Essa dualidade entre amor fraternal e carnal constitui-se como um aspecto dramático, que seguirá as duas persnoagens até o desfecho da obra. No entanto, desvincilhado da influência de sua tia, Fabrício percebe que não a amava como mulher. Preso, coagido e vítima de inúmeros processos decorrentes das brigas entre partidos políticos e traições de côrte, Fabrício se apaixona por Clélia Conti, filha dum general do partido de oposição do amante de sua tia, Conde Mosca. Essa paixão deflagra o período mais belo da obra, em que ambos nutrem um amor impossível de se realizar, já que Fabrício, além de se encontrar preso, possui parentesco com inimigos políticos do pai da jovem. Livre por uma fuga arquitetada por sua tia, ele se vê infeliz, já que exilado jamais poderia rever Clélia.

O drama do amor impossível acaba constituindo o fato que doravante daria fim à saúde e à vida de Fabrício. Sua morte é seguida da de Clélia e Gina.

Sobre o autor:
Henri-Marie Beyle, mais conhecido como Stendhal (Grenoble, França, 23 de janeiro de 1783 - Paris, 23 de março de 1842) foi um escritor francês reputado pela fineza na análise dos sentimentos de seus personagens e por seu estilo deliberadamente seco.

Órfão de mãe desde 1789, criou-se entre seu pai e sua tia. Rejeitou as virtudes monárquicas e religiosas que lhe inculcaram e expressou cedo a vontade de fugir de sua cidade natal. Abertamente republicano, acolheu com entusiasmo a execução do rei e celebrou inclusive a breve detenção de seu pai. A partir de 1796 foi aluno da Escola central de Grenoble e em 1799 conseguiu o primeiro prêmio de matemática. Viajou a Paris para ingressar na Escola Politécnica, mas adoeceu e não pôde se apresentar à prova de acesso. Graças a Pierre Daru, um primo longínquo que se converteria em seu protetor, começou a trabalhar no ministério de Guerra.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A NASCENTE

Título original: The Fountainhead
Autor: Ayn Rand
Tradução: Andrea Neves Holcberg e David Holcberg
Editora: Landscape
Assunto: Romance
Edição: 1ª
Ano: 1943 (2008)
Páginas: 816

Sinopse: Tão atual hoje quanto na sua época, A nascente é um romance sobre um herói – e sobre aqueles que o invejam e tentam destruí-lo.

Na personagem do jovem arquiteto intransigente Howard Roark, Ayn Rand apresentou pela primeira vez a figura humana cujas atitudes e posturas na vida revelam o maior objetivo de sua escrita: o homem ideal, o homem tal qual "poderia ser e deveria ser".

Este controverso romance de Ayn Rand narra a história da luta do arquiteto Howard Roark, cuja integridade era imóvel como o granito... de Dominique Francon, a deslumbrante mulher que amava Roark, mas se casou com seu pior inimigo... da denúncia fanática lançada por uma sociedade revoltada contra um grande criador. Nesta obra-prima, Rand apresenta uma das idéias mais desafiadoras já narradas em um livro de ficção – a de que o ego do homem é a nascente do progresso humano.

A autora: Ayn Rand, nascida Alissa Zinovievna Rosenbaum, (São Petersburgo, 2 de Fevereiro de 1905 ? Nova Iorque, 6 de Março de 1982) foi uma controversa filósofa estado-unidense de origem judaico-russa, mais conhecida por sua filosofia do Objetivismo, e seus romances The Fountainhead ("A Nascente" no Brasil) e Atlas Shrugged ("Quem é John Galt?" no Brasil). Sua filosofia e sua ficção enfatizam, sobretudo, suas noções de individualismo, egoísmo racional, e capitalismo. Seus romances preconizam o individualismo filosófico e liberalismo econômico. Ela ensinava: Que o homem deve definir seus valores e decidir suas ações à luz da razão Que o indivíduo tem direito de viver por amor a si próprio, sem se sacrificar pelos outros e sem esperar que os outros se sacrifiquem por ele Que ninguém tem o direito de usar força física para tomar dos outros o que lhes é valioso ou de impor suas idéias sobre os outros. Um admirador de Ayn Rand organizou, em 1972, o Partido Libertário americano, cujo programa original tinha os traços que ela mesma defendia nos anos 40.
O discurso Howard Roark faz em sua defesa no tribunal, pode ser visto em vídeo pelo link a seguir:

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O JOGO DAS CONTAS DE VIDRO

Título original: Das Glasperlenspiel
Autor: Hermann Hesse
Tradução: Lavinia Abranches Viotti e Flávio Vieira de Souza
Editora: Record
Assunto: Romance
Edição: 7ª
Ano: 2003
Páginas: 592

Sinopse: Último romance escrito por Hermann Hesse, publicado em 1943, 'O Jogo das Contas de Vidro' descreve uma comunidade mítica, no ano 2200, onde as regras, a linguagem figurada e a gramática do jogo representam uma espécie de linguagem oculta, altamente evoluída, de que participam várias ciências e artes, especialmente a Matemática e a Música (ou seja, a musicologia). Essa linguagem tem a possibilidade de expor o conteúdo e os resultados de quase todas as ciências e de relacioná-los entre si.

O livro propriamente dito divide-se em três partes. A primeira é um curto estudo histórico sobre o jogo que dá nome à obra, também conhecido por Jogo de Avelórios, uma atividade lúdica e intelectual fictícia, à qual muitos sábios e acadêmicos da também fictícia comunidade de Castália se dedicam profissionalmente em um futuro distante (não há menção direta à datas na narrativa, mas a contra-capa da edição diz que a ação principal se passa no século XXIII; isso não faz do livro uma história de ficção científica, no entanto). O próprio tema do jogo também é recorrente na maior parte do livro, e em geral ele parece servir de metáfora para a idéia do saber acadêmico e da erudição vazias, que são um fim em si mesmos e pouco ou nada devolvem à sociedade pelo tempo e recursos que consomem; eu, no entanto, acabei por fazer uma relação um tanto diferente a seu respeito. Pela nata profissional intelectualizada que o pratica, pela trabalhosa forma de preparo das partidas, com extensas pesquisas de referências e temas acadêmicos, e pela sua natureza pretensamente artística, me ocorreu em algum momento da leitura que o tal Jogo de Avelórios tem muito comum com a visão intelectulizada que alguns jogadores parecem ter do RPG; e, assim, muito dos avisos e decadências por que o jogo passa no decorrer da sua história, com o crescente afastamento do povo comum e a sua restrição a uma comunidade cada vez mais isolada e distante de jogadores, me pareceram ser bastante relevantes também para o RPG, se esse tipo de visão se tornar predominante. Mas isso já é outra história.

A segunda parte do livro, a mais extensa e que constitui o corpo principal da narrativa, trata de uma biografia fictícia de José Servo, uma virtuose no jogo desde a infância, que em dado momento da sua vida recebe o cargo de Magister Ludi, ou Mestre do Jogo de Avelórios, o mais alto título dado a um jogador, que tem por função coordenar e regular a prática do jogo. Os detalhes da sua vida são destrinchados desde a infãncia, com a entrada no universo acadêmico, passando pela sua descoberta e envolvimento com o jogo, e também pelo conflitos e discussões com duas figuras em especial - um colega de fora do universo acadêmico e um historiador beneditino que conhece durante um seminário que ministra sobre o jogo em uma abadia. A estes confrontos, entre outros tantos, é dado bastante importância na narrativa, pois é a partir deles Servo que se faz os principais questionamentos e reflexões a respeito do papel que ele e toda a comunidade acadêmica onde vive desempenha na sua sociedade, e sobre a função do saber e do cultivo do espírito, o que gradualmente vai se tornando no mote principal da história; por isso tudo, é certamente um livro bastante interessante e reflexivo para qualquer um com algum tipo de aspiração dentro deste universo da Academia, uma vez que não é difícil cair neste tipo de questionamento e dúvida. Eu sei que eu já passei bastante por isso, e ainda me pego muitos vezes pensando e refletindo sobre esse tipo de questão.

A segunda parte, enfim, acaba com a morte abrupta e um tanto inesperada do protagonista, o que também não é nenhum spoiler, já que é um fim anunciado desde bastante cedo na narrativa, além de esperado da maioria das biografias. Quem espera o fim da leitura, no entanto, se deparará então com aquela que é, talvez, a melhor e mais envolvente parte do livro, na centena de páginas final: as obras póstumas de José Servo. Constituem as tais obras alguns poemas atribuídos a ele, e, principalmente, três contos que fecham definitivamente a narrativa. A partir de três personagens bastante diversos - um xamã primitivo, um ermitão cristão e um príncipe indiano -, ele explora de forma mais sucinta e direta os temas que haviam composto o livro até então, com habilidade e clareza bastante nítidos e evidentes, e um resultado bastante cativante e espirituoso.

Resumo da narrativa: Joseph Knecht é um estudante bastante dotado que foi «descoberto» e recrutado pelo Mestre da Música da Ordem de Castália, uma sociedade quase monástica onde se cultiva o estudo de todas as ciências e artes, sem lugar para a história e temas relacionados com a sociedade, sendo uma referência da nação e servidor de professores nas disciplinas mais puras e sublimes, tais como a matemática e a música. A jóia da coroa de Castália é o Jogo das Contas de Vidro, que consiste numa arte de montagem de divagações racionais a partir de qualquer tipo de conhecimento puro, misturando quaisquer disciplinas deste. Knecht é um homem que, devido às suas capacidades, mas, sobretudo, devido à sua abertura de espírito, rapidamente ascende ao lugar de Magister Ludi, supremo Mestre do Jogo das Contas de Vidro. O seu percurso de vida é deveras singular, permitindo que Knecht se confronte e complemente os seus conhecimentos e crescente sabedoria com vários sábios representantes de diferentes apologias face à vida.

Nos seus primeiros tempos em Castália é nomeado para ser seu representante nas discussões com Designori, pessoa do mundo secular que defende a vida do homem fora de elitismos de sabedoria tais como são vividos em Castália, com constantes críticas à mesma, firmemente, mas amigavelmente rebatidas por Knecht. Após a sua formação, Knecht parte em viagem pelo reino de Castália (cuja Ordem tem instalações em vários sítios da nação), aprofundando os seus conhecimentos, tomando contacto com um sábio ostracizado por Castália pelo seu excesso de misticimo, a quem chamam «O Irmão Mais Velho», aprendendo com ele novas perspectivas sobre o conhecimento e a sabedoria. Pouco depois, é designado para passar alguns anos num Mosteiro, para uma aproximação maior de Castália à Igreja, onde vai encontrar Frei Jakob, outro grande sábio, desta feita na vertente histórica/religiosa, com quem aprende muito e trava discussões bastante interessantes. Fruto de todas estas experiências, Knecht cria uma aura de calma, serena e ampla sabedoria que o torna no candidato preferencial ao lugar de Mestre do Jogo das Contas de Vidro, quando este falece, pelo que é eleito para esse lugar.

Mas não pára por aqui a fantástica aprendizagem de Knecht. No declínio da velhice do Mestre da Música (o seu tutor na juventude) constata nele a silenciosa sabedoria de quem tudo compreendeu. E, com Tegularius, seu colega em Castália e maior admirador, as desvantagens de uma postura rígida face à necessidade de flexibilidade quer em relação às instituições, quer em relação a conhecimentos opostos aos seus (de Castália). Interiormente, é cada vez maior a constatação da existência dos dois pólos, por Knecht: o aprofundamento ou a diversidade, representando esta última o eterno recomeço e a verdadeira apetência do ser humano na busca da sabedoria. O reencontro com Designori dá-se muitos anos depois dos seus confrontos de juventude, ambos desiludidos com a sua vida atual, mas que desperta em Knecht o rumo a seguir nos anos seguintes.

Todo este percurso, conforme previsto desde o início do livro, vai ter um final inevitável: embriagado por um constante aumento de sabedoria, Castália já não pode satisfazer Knecht, que, após uma brilhante troca de cartas e discussão com o presidente Mestre Alexander, vai sair de Castália e voltar à vida secular, seguindo a sua intuição que, até aí, lhe tinha sido sempre preciosa na sua busca pela sabedoria, mas que, depois, lhe vai proporcionar um final inglório embora comovente e revelador.

Comentários: Por tudo aquilo que se referiu acima, pode-se considerar este romance como um romance de idéias, apesar do forte enfoque na personalidade de Joseph Knecht, símbolo irreal de um homem completamente aberto a todo o tipo de conhecimentos e sabedoria, que tudo absorve e potencia na sua visão sobre a vida, cumprindo sem limites o potencial maximizado do ser humano na sua busca da compreensão do mundo.

É importante destacar, no entanto, que talvez O Jogo das Contas de Vidro não seja uma obra fácil de ser lida por qualquer um. É um romance indiscutivelmente erudito, em parte por ser recheado de referências eruditas e falar de um personagem erudito que se desenvolve em um universo de erudição, mas também por tratar de temas e questionamentos que dizem respeito principalmente ao mundo dos eruditos e acadêmicos. Por mais cativante e envolvente que seja a narrativa, não consigo deixar imaginar boa parte dos leitores em potencial se sentindo entediados e fatigados pelos extensos devaneios e diálogos a respeito da filosofia e natureza da História ou da função do saber acadêmico, por exemplo. De qualquer forma, para alguém que se identifique nestas questões, e saiba se conectar ao enredo e personagens do livro, é uma leitura facilmente encantadora, e talvez mesmo transformadora.

Descrito como sublime por Thomas Mann, este excelente romance valeu a Hermann Hesse a atribuição do Prêmio Nobel da Literatura em 1946.

Excerto:

Nenhum ser nos foi concedido. Correnteza apenas
Somos, fluindo de forma em forma docilmente:
Movidos pela sede do ser atravessamos
O dia, a noite, a gruta e a catedral

Assim sem descanso as enchemos uma a uma
E nenhuma nos é o lar, a ventura, a tormenta,
Ora caminhamos sempre, ora somos sempre o visitante,
A nós não chama o campo, o arado, a nós não cresce o pão

Não sabemos o que de nós quer Deus
Que, barro em suas mãos, conosco brinca,
Barro mudo e moldável que não ri nem chora,
Barro amassado que nunca coze


Ser enfim como a pedra sólido! Durar uma vez!
Eternamente vivo é este o nosso anseio
Que medroso arrepio permanece apesar de eterno
E nunca será o repouso no caminho

Conclusão: O «Jogo das Contas de Vidro» transmite uma mensagem de esperança e uma visão libertadora da materialidade e da quantidade como critérios fundamentais da Vida e do Conhecimento.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

O CODIGO DOS CODIGOS: A Biblia e a Literatura

Título original: The Great Code: The Bible in Literature
Autor: Northrop Frye (1912-1992)
Tradução: Flávio Aguiar
Editora: Boitempo Editorial
Assunto: Bíblia como literatura
Edição: 1ª
Ano: 2004
Páginas: 293

Sinopse: "Este livro não é um trabalho de erudição bíblica, muito menos de teologia. Ele apenas dá expressão a meu encontro pessoal com a Bíblia, e está muito longe de qualquer consenso erudito. (...). Com estas palavras, Northrop Frye define sua perspectiva de análise da obra mais comentada e traduzida da literatura universal. Não se trata, diz ainda, de um trabalho de erudição bíblica e muito menos de teologia, mas do "encontro pessoal com a Bíblia". Na abordagem sobre uma obra que é mais do que um livro - é uma biblioteca -, também está à busca de um princípio unificador dentro de sua diversidade temática, autoral e temporal, produzida por dezenas de escritores através de um milênio de elaboração. E, podemos acrescentar, a universalidade de uma obra que tem sido fonte de inspiração de inúmeras correntes religiosas e literárias.

Northrop Frye, canadense, falecido em 1992, aos 80 anos, tinha todas as qualificações como crítico literário para enfrentar a tarefa. Durante sua permanente cadeira na Universidade de Toronto, produziu vários livros, todos traduzidos para o português, entre os quais o reconhecido Anatomia da crítica. Sua análise vai além da proposta literária e contempla uma busca da unidade da Bíblia, inclusive entre o Velho e o Novo testamentos, este como cumprimento daquele; e ainda destaca o que chama de qualidades revolucionárias da tradição bíblica e sua relevância para a literatura secular. Nessa trajetória, comenta numerosos personagens e eventos bíblicos; e ainda passa por filósofos, escritores e poetas, cientistas e alguns pais da Igreja (Tomás de Aquino, Santo Agostinho). São apenas algumas referências, cuja relação completa figura no detalhado índice remissivo e em notas de pé de página, do autor e do tradutor.

A estrutura da obra de Frye não é nada simples. Ele mesmo diz que "a Bíblia está por demais enraizada em todos os recursos da linguagem para que lhe seja adequada qualquer abordagem simplista". Neste sentido é uma obra mais para especialistas. O autor sugere três fases na análise literária da Bíblia. A primeira é a metafórica e poética, predominantemente mítica, na qual a pluralidade de deuses se torna unificadora do pensamento e da imaginação, pluralidade e unidade que, no caso, têm "o sentido de uma energia comum a sujeito e objeto" e expressa identidade entre homem e natureza. Se esta primeira fase se caracteriza pela relação comparativa e subjetiva determinada pela metáfora, a segunda é metonímica, dialética, cujas palavras expressam exteriormente uma realidade interior. Se no caso da metáfora "isto é aquilo", na metonímia "isto está no lugar daquilo". Uma terceira fase é mais humanista, e sua linguagem ordinária torna-se mais clara, mais horizontal, deslocando-se da alma para a mente, não mais sujeitas à dicotomia que supõe uma "para cima" e outra "para baixo".

Esta brevíssima e limitada tentativa de resumir a complexidade teórica de Frye certamente não dá conta de todo o significado e originalidade de sua aproximação literária do texto bíblico, que melhor se esclarece nos oito capítulos que compõem as duas partes do seu livro. A primeira, "A ordem das palavras", trata da Linguagem, do Mito, da Metáfora e da Tipologia, títulos que se repetem na segunda parte, "A ordem dos tipos", porém, curiosamente, de modo inverso. O primeiro capítulo, insiste o autor, não trata propriamente da linguagem da Bíblia, mas da linguagem que as pessoas usam ao falar sobre ela. Nos dois capítulos que seguem, sobre mito e metáfora, pretende responder a questões como: qual o sentido literal da Bíblia? Considerando o mito como o veículo lingüístico do kerigma (proclamação), afirma que a desmistificação de qualquer parte da Bíblia corresponde a eliminá-la. O último capítulo refere-se ao modo pelo qual o cristianismo sempre leu a sua Bíblia - expresso no que denomina de "fases da revelação", classificadas em sete categorias: criação, revolução, lei, sabedoria, profecia, evangelho, apocalipse.

Frye enfatiza a preocupação do Antigo Testamento com a sociedade de Israel, enquanto o Novo destaca o Jesus individual - e aí renova sua própria identificação com a Bíblia, destacando o lugar da história e do tempo humanos que transcorre em ambos os testamentos. Neste ponto também aponta o papel relevante da mulher, ausente em muitas outras culturas e obras, tomando a companheira Eva, que muda o destino da criação; e Madalena, a prostituta, preferida do Messias, que modela o próprio destino.

Mas a Bíblia, assinala, é mais do que uma obra literária, "seja lá o que este mais signifique". Os eventos humanos conduzem a algum lugar e apontam para algo - e isto é, certamente, um legado da tradição bíblica, que "sublinha a existência de um começo e de um fim absolutos para o tempo e o espaço".

Como tantas outras aproximações da Bíblia - teológica, histórica, arqueológica, revelatória e até literalista -, que parecem proliferar mais do que em outras épocas, o Código dos códigos não pretende esgotar, mesmo do ponto de vista literário, a natureza inexaurível do texto bíblico. Limitação que o autor parece reconhecer e que talvez se esconda na "reserva de sentido" de que falam os hermeneutas.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A PRAIA

Título original: The Beach
Autor: Alex Garland
Editora: Rocco
Assunto: Romance (Literatura estrangeira)
Edição: 1ª
Ano: 1999
Páginas: 486

Sinopse: Cansado do mundo tecnológico e digital, Richard, um jovem americano, viaja para Tailândia em busca de aventura. Em um hotel barato de Bangcoc, ele conhece Françoise e Étienne, um casal de franceses. Ele também encontra Patolino, um viajante mais velho marcado por anos de sol e drogas. De forma paranóica Patolino conta a Richard a improvável história de uma ilha secreta, um paraíso na Terra, a praia perfeita sem a presença de turistas. No dia seguinte, Richard encontra um mapa desenhado a mão da ilha descrita por Patolino preso na sua porta. Ele vê nisto "algo diferente", pois não pretende fazer a mesma coisa que todos os outros turistas, assim Richard vai procurar Patolino e descobre que ele se suicidou cortando os pulsos. Richard persuade Françoise e Etienne a se juntarem a ele em uma viagem seguindo o mapa de Patolino. Para irem até "a praia" eles arriscam suas vidas ao nadarem em mar aberto de uma ilha para outra, se arrastando e correndo de guardas armados, que vigiam uma plantação de maconha, e pulando de uma cachoeira, mas ao chegarem ao sonhado destino encontram uma pequena comunidade de viajantes, que como eles encontrou "a praia" e vivem em segredo. Eles recebem as boas-vindas do grupo e esta parte da ilha paradisíaca se torna a casa deles, deixando para trás o mundo que conheciam. Mas na realidade este céu na Terra não é tão perfeito. Conflitos pessoais e ciúmes criam uma violenta rivalidade e trágicos eventos dividem a comunidade. Bastante isolado e transtornado, Richard não sabe o que fazer, pois o sonho se tornou um pesadelo e o paraíso virou um inferno. Agora sua única meta é partir. Mas a fuga não será fácil, pois "a praia" é um lugar secreto, que alguns defenderão até a morte.

TEMAS: New age, sociedades alternativas, naturalismo, drogas, coletivismo.

O livro é uma crítica ácida, especialmente ao coletivismo e às relações de poder escondidas em comunidades onde aparentemente todos são iguais, mas alguns são “mais iguais” que os outros.

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Esta obra pode ser encontrada, também, em filme DVD que é uma adaptação do livro. É claro que o filme nunca é igual ao livro, mas pode ser um estímulo para aqueles que estão em dúvida quanto a obra.
Aos que optarem pelo filme, os dados são os seguintes:

Título Original: The Beach (Adaptação do livro de Alex Garland)
Gênero: Aventura
Atores: Leonardo DiCaprio, Tilda Swinton, Robert Carlyle, Virginie Ledoyen, Guillaume Canet, Peterson Joseph, Lars Arentz-Hansen, Zelda Tinska, Peter Gevisser.
Diretor: Danny Boyle
País: EUA
Ano: 1999
Duração: 119 min.


sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

O TRIVIUM

Título original: The Trivium, The Liberal Arts of Logic, Grammar, and Rhetoric
Autor: Irmã Miriam Joseph
Tradutor: Henrique Paul Dmyterko
Assunto: Educação Clássica
Editora: É Realizações
Edição: 1ª
Ano: 2008 (Original de 1937)
Páginas: 320

Sinopse: O livro guia o leitor através de um claro e rigoroso estudo de lógica, gramática e retórica. Uma apresentação da gramática geral, proposições, silogismo, entimemas[1], falácias, poética, linguagem figurativa e discurso métrico - acompanhado de gráficos facilmente compreensíveis e vivificados por exemplos de Shakespaeare, Milton, Platão e outros - fazem do Trivium um livro perfeito para professores, estudantes, pesquisadores e todos os que levam a sério o estudo da linguagem.
[1] [Do gr. enthýmema, pelo lat. enthymema.] S. m. Lóg. 1. Silogismo em que se subentende uma premissa; silogismo truncado, incompleto.


Prefácio


No Brasil nunca se comemorará em excesso o lançamento de uma obra fundacional como O Trivium, da irmã Miriam Joseph (1898-1982), já que não é todo dia que a indústria editorial nacional arrisca penetrar na pretensa selva escura do medievo. O desprezo da intelectualidade nacional pelos assuntos da Idade Média é a razão da esquelética oferta por aqui de obras escolásticas, comparadas por Erwin Panofsky[1] às próprias catedrais góticas, e a explicação do nosso tímido vol d´oiseau por sobre os fundamentos civilizatórios do Ocidente, entre eles a própria idéia de educação no sentido de Paidéia, de formação.

Curiosamente, nada deveria parecer mais enigmático ao cidadão brasileiro medianamente informado, que vive por aí a falar em idade das trevas, do que o escandaloso fiasco deste monstrengo chamado sistema nacional de ensino. No Brasil, depois de seqüestrarmos as crianças de suas casas pelo menos cinco horas por dia e gastarmos com elas um quarto do orçamento, descobrimos, oito anos depois, atônitos, que a maioria não sabe ler... E isto apesar de todas as siglas atrás das quais se esconde a bilionária incompetência pública.

O enigma da baixíssima eficiência do ensino, que não é fenômeno exclusivamente brasileiro, foi em parte resolvido na década de 1970 pelo padre austríaco Ivan Illich (1926-2002) que propôs a sociedade sem escolas tout court. A tese de Illitch, cujo mérito avulta na proporção direta do fracasso educacional geral, é que o sistema de ensino não tem por objetivo realmente educar, mas somente distribuir socialmente os indivíduos, por meio do ritual de certificados e diplomas. A escola formal, esta que Illitch deseja suprimir, não é um meio de educação, mas um meio de “promoção” social, fato que as pessoas humildes revelam perceber quando insistem com o Joãozinho: estude, meu filho, estude...

Como se vê, vamos decifrando o mistério à medida que desprezamos a falsa equação entre ensino e educação. O sistema de ensino não produz educação, porque está ocupado demais em produzir documentos. Educação terá de ser buscada preferencialmente alhures, fora do sistema. É claro, sempre haverá um professor ou outro que, valendo-se da apatia do sistema, dará por sua própria conta, aulas magistrais e educará de fato, contanto que seus alunos o desejem, o que, obviamente, nem sempre é o caso.

Temos aí uma espécie de lei geral com correlação inversa: a capacidade de educar alguém é inversamente proporcional à oficialidade do ato e diretamente proporcional à liberdade de adesão do educando. A educação prospera mais quando se a procura livremente. Este é o sentido da palavra “liberal” (de líber, livre) nas Sete Artes “liberais” da Idade Média, que eram ensinadas ao homem livre, por oposição às artes “iliberais”, ensinadas ao homem “preso”, controlado por guildas. Estas corporações de ofícios faziam grosseiramente o papel do sistema de ensino moderno, regulando privilégios econômicos e sociais.

Não só não existiu na Idade Média nenhuma obrigação estatal de ir à escola para aprender as Sete Artes, como ninguém imaginava usar este conhecimento como alavanca para forçar os ferrolhos do mercado de trabalho. Para ficar mais claro, com a licença da comparação, a diferença entre o ensino e a educação é a mesma que há entre a polícia e o detetive particular do cinema. A primeira tem a obrigação de desvendar o crime, por isso precisa parecer que o está resolvendo e, enquanto tem todo esse trabalho de fingir, só consegue esclarecer uns poucos casos pingados. O detetive resolve todos porque está aí para isso mesmo e vai até as últimas conseqüências, acabando sempre com o olho roxo.

Tamanha despretensão econômica certamente soa estranhíssima aos modernos, que julgam tudo sob o ponto de vista da quantidade e imaginam que entre a educação medieval e a moderna só exista uma diferença de quantum. Na verdade, a diferença é de tal dimensão qualitativa que, no contrapé desse engano, perdeu-se de vista a própria idéia de educação, hoje entendida como adestramento coletivo de modismos politicamente corretos (a tal da “escola cidadã”). Nos tempos das “trevas”, educação era simplesmente ex ducare, isto é, retirar o sujeito da gaiolinha em que está metido e apresentar-lhe o mundo. Como já se disse, nem sempre o que vem depois é melhor.

A primeira condição para entender O Trivium da irmã Miriam Joseph, editado pela primeira vez no Brasil na corajosa e esmerada tradução de Henrique Paul Dmyterko, é entender que ensinar gramática, retórica e lógica fazia parte de um verdadeiro projeto de educação de que não há equivalente no mundo moderno.

As Sete Artes liberais da Idade Média, divididas em trivium (gramática, retórica e lógica) e quadrivium (aritmética, música, geometria e astronomia), tomaram esta forma por volta do ano oitocentos, quando se inaugurou o império de Carlos Magno, primeira tentativa de reorganizar o Império Romano, e são o resultado de lenta maturação a partir de fontes pitagóricas e possivelmente anteriores, com decisivas influências platônicas, aristotélicas e agostinianas e complementações metodológicas de Marciano Capela (início do século V), Severino Boécio (480-524) e Flávio Cassiodoro (490-580), até chegar em Alcuíno (735-804), o organizador da escola carolíngia em Aix-em-Chapelle.

Como essas Sete Artes estão vinculadas a conhecimentos tradicionais, apresentam grandes simetrias com outros aspectos da estrutura da realidade, permitindo, por exemplo, analogia com o sentido simbólico dos planetas, relacionando a retórica com Vênus; a gramática com a Lua; a lógica com Mercúrio; a aritmética com o Sol; a música com Marte; a geometria com Júpiter e a astronomia com Saturno. Que ninguém pense, portanto, que haja arbitrariedade na concepção septenária do sistema, Simbolicamente, o sete representa, como ensina Mário Ferreira dos Santos,[2] “a graduação qualitativa do ser finito”, isto é, um salto qualitativo, uma libertação, como um sétimo dia de criação que abre um mundo de possibilidades. Como se poderia representar a educação melhor do que por esse simbolismo?

O estudante das Artes começava a vida escolar aos quatorze anos (tardíssimo para os padrões modernos, mas não era sem alguma sabedoria), participava de um regime de estudo flexível com grande liberdade individual e vencia em primeiro lugar os “três caminhos” do trivium, mais tarde descritos por Pedro Abelardo (1079-1142) como os três componentes da ciência da linguagem. Para Hugo de São Vitor (1096-1141), no Didascálicon, “a gramática é a ciência de falar sem erro. A dialética[3] é a disputa aguda que distingue o verdadeiro do falso. A retórica é a disciplina para persuadir sobre tudo o que for conveniente”.[4] A irmã Miriam Joseph, muito acertadamente, diz no primeiro capítulo que “o trivium inclui aqueles aspectos das artes liberais pertinentes à mente, e o quadrívium, aqueles aspectos das artes liberais pertinentes à matéria”. No entanto, ninguém expressou com mais contundência o valor das Artes como Honório de Autun (Ca. 1080-1156), com a famosa fórmula: “O exílio do homem é a ignorância, sua pátria a ciência (...) e chega-se a esta pátria através das artes liberais, que são igualmente cidades-etapas.”[5]

De fato, uma vez vencido o desafio da mente, o trivium, o estudante medieval passava ao quadrívium, o mundo das coisas, e, dele, lá pelos vinte anos, se pudesse e quisesse, para a educação liberal superior que, na época, se resumia a teologia, direito canônico e medicina, as faculdades das universidades do século XIII. As profissões de ordem artesanal, como construção civil, não eram liberais, mas associadas a corporações de ofícios, como a dos mestres-construtores, às vezes com conotações iniciáticas (maçons).

O trivium, de fato, funcionava como a educação medieval, ensinando as artes da palavra (sermocinales), a partir das quais é possível tratar os assuntos associados às coisas e às artes superiores. A escolástica, o mais rigoroso método filosófico já concebido, e que floresceria, sobretudo no século XII, foi construída sobre os alicerces do trivium: a gramática zela para que todos falem da mesma coisa, a dialética problematiza o objeto de discussão (disputatio) e a lógica é o antídoto certo contra a verborragia vazia, o conhecido fumus sine flamma.

A expressão universitária americana master-of-Arts guarda, até hoje, resquícios dessa graduação inicial, base dos estudos superiores, que convergiam para o doutorado (no sentido medieval, não no sentido moderno). A faculdade de Artes liberais, freqüentemente associada às universidades medievais, sem ser um curso superior propriamente dito, era o que lhe dava sustentação e de certo modo bastava-se a si própria. Explica Jacques Le Goff:

Lá (na faculdade de Artes) é que se tinha a formação de base, daquele meio é que nasciam as discussões mais apaixonadas, as curiosidades mais atrevidas, as trocas mais fecundas. Lá é que podiam ser encontrados os clérigos pobres que não chegaram até a licença, muito menos ao custoso doutorado, mas que animavam os debates com suas perguntas inquietantes. Lá é que se estava mais próximo do povo das cidades, do mundo exterior, que se ocupava menos em obter prebendas e em desagradar a hierarquia eclesiástica, que era mai vivo espírito leigo, que se era mais livre. Lá é que o aristotelismo produziu todos os seus frutos. Lá é que se chorou como uma perda irreparável a morte de Tomas de Aquino. Foram os artistas que, numa carta comovedora, reclamaram da ordem dominicana os despojos mortais do grande doutor. O ilustre teólogo foi num deles.[6]

Cada elemento do trivium contém potencialmente as habilidades filosóficas da vida intelectual madura. Esta é a razão pela qual o projeto educacional da irmã Miriam, profundamente influenciado pelo filósofo americano Mortimer Adler (1902-2001), foi concebido como preparação de estudantes para a vida universitária, fosse qual fosse o curso. Em 1935, quando incorporado ao currículo do Saint Mary´s College, o curso “The Trivium” era exigido de todos os calouros e durava dois semestres, com aulas cinco vezes por semana. Santo Agostinho (354-430), mil e setecentos anos antes, havia feito, a seu modo, a mesma tentativa de preparação intelectual com sua “Doutrina Cristã”, uma espécie de iniciação intelectual para estudar as Escrituras.

Na prática e salvo engano, no mundo moderno, a única tentativa de recuperar o espírito do trivium foi a parceria da irmã Miriam Joseph com Mortimer Adler. Este querendo restaurar a cultura clássica na universidade americana e aquela preparando o aluno para poder debater os conteúdos dos grandes autores com precisão gramatical e coerência, concordando com Heráclito,[7] que pregava a seus alunos a impossibilidade da retórica sem a lógica.

O mundo moderno, Brasil incluído, hipnotizado pelo esquema do ensino universal, perdeu completamente de vista a conotação individual e “iniciática” que é a alma da verdadeira educação e a essência do trivium. Mesmo nos Estados Unidos, a experiência da irmã Miriam Joseph ficou restrita a pequeno grupo de universidades católicas. Por aqui, quase não há interlocutores capacitados para debater o assunto.

Mesmo sem pretender tratar aqui o fenômeno tão complexo, registre-se que o sistema educacional tradicional entrou em declínio já no século XIV, lentamente minado por fora e por dentro, sob a orquestração do nascente “humanismo”, até desabar no Renascimento, pela mão do teólogo místico checo Jean Amos Comenius (1592-1670), que, na principal obra, Magna Didactica, não apenas faz pouco das Sete Artes como estabelece as bases pedagógicas modernas, desenhadas para fins de ensino e não de educação. Entre outras coisas, Comenius inventou a jardim da infância. Na advertência ao leitor, que abre sua Magna Didactica, o teólogo rascunha o plano mestre de seu admirável mundo novo pedagógico.

Ouso prometer uma grande didática, uma arte universal que permita ensinar todos com resultado infalível, de ensinar rapidamente, sem preguiça ou aborrecimento para alunos e professores; ao contrário, com o mais vivo prazer. Dar um ensino sólido, sobretudo não superficial ou formal, conduzindo os alunos à verdadeira ciência, aos modos gentis e à generosidade de coração. Enfim, eu demonstro tudo isso a priori, com base na natureza das coisas. Como de uma nascente correm os pequenos riachos que vão unir no fim num único rio, estabeleci uma técnica universal que permite fundar escolas universais.[8]

Mesmo uma análise rápida desta declaração descobrirá nela o DNA da pedagogia moderna nas suas características estruturantes: triunfalismo, epicurismo, massificação do ensino, uniformização do conteúdo, automatização da aprendizagem e insensibilidade às individualidades. A UNESCO, naturalmente, homenageia Comenius com sua maior condecoração. Se a miséria do ensino moderno tem pai, seu nome é Comenius. E se alguma coisa vai na direção contrária do trivium é esta “natureza das coisas” de onde vêm estas “escolas universais” e cujo resultado até agora pare ter se limitado a produzir milhões de indivíduos idiotizados.

Visto desta perspectiva histórica, O Trivium, este tesouro redescoberto pela irmã Miriam Joseph, é maus que um manual para desenvolver a inteligência, é uma luz brilhando na escuridão dos abismos em que atiramos a verdadeira educação.


José Monir Nasser


[1] Erwin Panofsky, Arquitetura gótica e escolástica. São Paulo, Martins Fontes, 1991.
[2] Mário Ferreira dos Santos, Tratado de Simbólica. São Paulo. É Realizações, 2007.
[3] Depois da redescoberta da “nova lógica” de Aristóteles, no séc. XII, passou a se denominar lógica.
[4] Hugo de São Vitor, Didascálicon. Petrópolis, Vozes, 2001.
[5] Em Jacques Le Goff, Os intelectuais na Idade Média. Rio de Janeiro, José Olympio, 2003, p. 84.
[6] Ibid., pp. 144-45.
[7] Em Ernesto Sábato, Heteredoxia. Campinas, Papirus, 1993, p. 120.
[8] Em Jean-Marc Berthoud, Jean Amos Comenius et les sources L´idéologie pédagogique. Tradução de José Monir Nascer.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

PROMETEU ACORRENTADO

Autor: Ésquilo (525 a.C. – 456 a.C.)
Tradução: Mário da Gama Kury
Assunto: Tragédia grega
Editora: Jorge Zahar Editor
Edição: 5ª
Ano: 2004
Páginas: 68

Sinopse: Zeus, rei dos deuses e dos homens, acabara de assumir o poder após a titanomaquia (luta que elevou os deuses olímpicos ao poder). Soberano despótico e parricida manda acorrentar Prometeu, seu antigo aliado, em um rochedo culpando-o de muitos "crimes" a favor dos mortais. O mais grave dentre eles foi o de roubar o fogo dos deuses para dá-lo aos homens.

Por isso Zeus ordena que Prometeu seja acorrentado por 30 mil anos a um rochedo, onde uma ave vem diariamente dilacerar-lhe o fígado, que se regenera noite. No entanto, apesar das súplicas que alguns deuses fazem a Prometeu para que ele vá se redimir humildemente com Zeus, ele se recusa, afirmando que o pai dos deuses ainda necessitará de sua ajuda. Prometeu diz que sabe de um segredo que ameaça o reinado de Zeus: o filho deste num casamento próximo o destronará e somente ele sabe como impedi-lo. Porém, recusando-se a revelar como, é condenado a um castigo ainda mais mais severo.

Personagens:

Todas as personagens são divinos: a tragédia é uma teomaquia, i.e., uma disputa entre os próprios deuses. Há um intenso conflito de personalidade entre Prometeu e Zeus, este ausente do palco.

- PROMETEU: Um titã filho Urano (o Céu) e Gaia (a Terra).
- HEFESTO: Deus do fogo, dos metais e da metalurgia; filho de Zeus, irmão de Hermes.

- CRATOS: Filho de Palas; personificação do poder de Zeus.
- CORO: As jovens Oceanides, filhas de Oceano e primas de Prometeu.
- OCEANO: Titã que personificava as águas primitivas que cercam o mundo; tio de Prometeu e pai das oceânides.
- : filha do rei Ínaco, amada por Zeus e perseguida por Hera esposa de Zeus (Io é a única personagem humana na história; todos os demais não são humanos, são deuses).
- HERMES: Mensageiro dos deuses, protetor dos viajantes e condutor das almas dos mortos ao Hades; filho de Zeus, irmão de Hefesto.
- FIGURANTE: Bias, irmão de Cratos.

A OBRA:

A ação do Prometeu acorrentado transcorre numa região desolada da Cítia[1], Hefesto, o Poder e a Força, divindades auxiliares de Zeus, chegam arrastando o titã Prometeu, vítima da ira deste último deus. Hefesto prega-o num rochedo, observado pelo Poder, que vigia o deus do fogo, constrangido com sua missão, e o anima com a alegação de que Prometeu se rebelara contra a vontade divina com o intuito de ajudar a humanidade primitiva. Cumprida a missão, Hefesto, o Poder e a Força retiram-se abandonando Prometeu em sua agonia solitária. Rompendo o silêncio, o titã filantropo proclama sua indignação diante do céu, do mar e da terra em sua volta. Este monólogo cessa quando se ouve um ruído de asas e em seguida aparecem as Oceanides, ninfas do mar quem constituem o coro (voz do povo), despertadas pelo ruído do martelo contra os cravos quando Hefesto prendia o titã ao rochedo. Elas tentam animar Prometeu, que lhes conta como Zeus, graças a ele, conseguiu derrotar os outros titãs e tornar-se o novo soberano dos deuses. Isto feito, Zeus consolidou seu poder absoluto e resolveu destruir a humanidade para criar uma nova raça. Prosseguindo em sua narração Prometeu diz que, por amor às criaturas humanas, conseguiu salvá-las da destruição e lhes deu o fogo por ele roubado do céu, permitindo assim o início da civilização.

Aparece então Oceano, pai das Oceanides, um titã que se manteve afastado do conflito com Zeus. Ele deseja ver Prometeu livre de seus grilhões, e o aconselha a curvar-se diante do novo soberano. O prisioneiro ouve polidamente o conselho, mas não o aceita. O visitante retira-se, enquanto o coro comenta as lamentações de todos os mortais por causa do suplício de seu protetor. Em seguida Prometeu relembra as artes por ele inventadas para aliviar as misérias da condição humana. O coro pergunta se o titã acorrentado tem esperanças de libertar-se, e ele menciona vagamente uma possível queda de Zeus. Em seguida, celebra o poder soberano dos deuses e demonstra a estranheza diante da obstinação de Prometeu. Aparece então Io, uma mortal amada por Zeus, e, a pedido do coro, Prometeu revela o estranho infortúnio da moça: diante das investidas amorosas de Zeus contra ela, Hera, mulher dele, transformou Io em novilha e mandou que um moscardo passasse a segui-la por todos os caminhos da terra, picando-a incessantemente. Prometeu profetiza a continuação de suas caminhadas errantes, que iriam terminar no Egito, e fala com maior clareza na queda de Zeus, narrando ainda as andanças passadas de Io, concluindo com a profecia de que no Egito ela daria à luz um filho de Zeus chamado Épafo. Prosseguindo, Prometeu revela que um arqueiro corajoso (Heracles) o libertaria depois de decorridas várias gerações. Repentinamente, num acesso de desespero, Io sai correndo. O coro canta os perigos oriundos das uniões de mortais com divindades. Prometeu reitera a sua previsão de que Zeus será destronado por um filho dele.

Entra em cena Hermes, o deus mensageiro de Zeus, pedindo ao infeliz titã para revelar-lhe o segredo fatídico em relação à queda de Zeus. Tratado desdenhosamente por Prometeu, Hermes anuncia-lhe torturas ainda mais cruéis; a águia que devoraria a cada dia seu fígado, que se recomporia também diariamente, e um cataclismo que o lançaria no Hades. As Oceanides insistem para que Prometeu se submeta a Zeus, mas quando Hermes anuncia que se não se afastassem do titã elas também sofreriam, negam-se altivamente a dar-lhe ouvidos. Ocorre, então, o cataclismo, durante o qual prometeu desaparece juntamente com as Oceanides.

Comentários: Prometeu Acorrentado é a única tragédia que sobreviveu de uma trilogia que teria, na ordem de apresentação, Prometeu Acorrentado, Prometeu Libertado e Prometeu Portador do Fogo.
Prometeu (Prometheus em grego) significa "o que pensa antes".

A figura trágica de Prometeu constitui um dos mitos gregos mais presentes na cultura ocidental. Prometeu pertencia à estirpe dos Titãs, descendentes de Urano (o Céu) e Gaia (a Terra). O poeta Hesíodo relatou, em sua Teogonia, como Prometeu roubou o fogo escondido no Olimpo para entregá-lo aos homens. O fogo que Prometeu roubou simboliza a Inteligência. A razão dessa atitude consiste no seguinte: Epimeteu, irmão de prometeu fora encarregado da tarefa de dar a todos os animais uma autodefesa. Entretanto, Epimeteu esquece-se dos humanos. Prometeu para compensar o esquecimento do irmão, dá aos humanos o fogo que simboliza a inteligência, portanto, a única autodefesa que os humanos têm. Para castigá-lo, Zeus enviou-lhe a bonita Pandora, portadora de uma caixa que, ao ser aberta, espalharia todos os males sobre a Terra. Como Prometeu resistiu aos encantos da mensageira, Zeus o acorrentou a um penhasco, onde uma águia devorava diariamente seu fígado, que se reconstituía. Lendas posteriores narram como Hércules matou a águia e libertou Prometeu. Na Grécia, havia altares consagrados ao culto a Prometeu, sobretudo em Atenas. Nas lampadofórias (festas das lâmpadas), reverenciavam-se ao mesmo tempo Prometeu, que roubara o fogo do céu, Hefesto, deus do fogo, e Atena, que tinha ensinado o homem a fazer o óleo de oliva.

A cena se passa na Cítia, situada por Heródoto a nordeste do Mar Negro, território onde se situa atualmente a maior parte da Rússia. Segundo um antigo comentador da peça, Prometeu havia sido aprisionado por Zeus há mais de 30.000 anos...

Por ordem de Zeus, Hefesto, deus do fogo, prende Prometeu a uma rocha na inóspita Cítia; Cartos supervisiona seu trabalho. Prometeu lamenta-se, mas diz que previu tudo, sabe o que irá acontecer no futuro e que Zeus ainda precisará dele. O Coro (sempre representa a voz do povo) chega e lamenta a sorte de Prometeu, que volta a dizer que no futuro Zeus dependerá de seu auxílio.

Prometeu relata ao Corifeu a luta de Zeus contra os titãs, como evitou que a humanidade fosse destruída por ele, e os benefícios que obteve para os mortais. Oceano vem visitá-lo, exorta-o a dirigir-se com humildade a Zeus e diz que tentará interceder em seu favor, mas Prometeu o dissuade.

O Coro lamenta novamente o destino de Prometeu; ele conta que todas as artes vieram aos homens através dele: a construção de casas e navios, a domesticação de animais, a escrita, os números, os remédios, a adivinhação, etc. O Coro diz que é perigoso contrariar Zeus, e recorda as núpcias de Prometeu.

Chega a errante Ió, na forma de uma novilha, perseguida desde Argos pela incessante picada de um inseto enviado pela ciumenta Hera. Ela conta a Prometeu e ao Coro suas desventuras, e Prometeu revela as coisas que irão acontecer-lhe até chegar ao seu destino, o Egito, e que um de seus descendentes o libertará um dia. Ió foge, aguilhoada pela picada do inseto.

O Coro canta que "o bem supremo é a mulher se casar segundo a própria classe", e esperam que Zeus nunca olhe para elas.

Prometeu revela finalmente ao Corifeu que o filho gerado por Zeus em um casamento próximo o destronará, e que somente ele sabe como impedi-lo. Hermes aparece e interroga-o, mas Prometeu orgulhosamente recusa-se a revelar qualquer coisa. Hermes avisa que Zeus lhe dará novos castigos: um trovão o lançará no fundo da terra e, quando voltar à luz, uma águia virá diariamente comer-lhe o fígado. Prometeu recusa-se novamente, e diz que já ouve o trovão de Zeus aproximar-se... (a história é inconclusa).

A continuação da história provavelmente se encontra na obra Prometeu Libertado da qual, lamentavelmente, só se encontram alguns fragmentos. Especula-se que Prometeu se reconcilia com Zeus.

Sentido da história: A história representa o eterno conflito entre dois poderes: o Poder Temporal (Zeus) e o Poder Espiritual (Prometeu). Zeus representa o poder temporal porque, embora rei dos deuses e dos homens, não possuía a capacidade de prever o futuro, enquanto Prometeu sim.

Conclusão: O mundo manifestado vive o eterno conflito entre o Poder Temporal e o Poder Espiritual há mais de 2.500 anos. Considerando que o ser humano se encontra entre dois mundos: o Firmamento de Luzes (A Lei de Deus) e o Abismo de Trevas (A Lei dos Homens) a sua existência no mundo sensível, portanto real será eternamente conflituosa. Trata-se de um problema insolúvel para a humanidade, porque ambas as Leis são necessárias ao homem. A única saída possível é o respeito a hierarquia (ordem sagrada) do Poder Temporal ao Poder Espiritual. Em outras palavras: Enquanto a Lei dos Homens não considerar a hierarquia da Lei Divina, o conflito permanecerá eternamente.

Não será matando Deus, como o socialismo marxista fez, que a Paz e a Felicidade reinação sobre a face da Terra. Em todo mundo, há exemplos fracassados de que não é possível realizar qualquer projeto humano sem considerar a possibilidade Divina.

[1] Região remota e deserta, corresponde à maior parte da atual Rússia na direção do oriente, cujos limites eram muito bem definidos. De suas montanhas podia-se ver o mar Negro (o antigo Ponto Euxino) e o mar de Azov (antigo Palos Meótis).

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

A ILHA

Título Original: Island
Autor: Aldous Huxley
Tradução: Gisela Brigitte Laub
Editora: Globo
Assunto: Romance (Literatura estrangeira)
Edição: 1ª
Ano: 2001
Páginas: 443

Sinopse: A Ilha traz a história de um jornalista, Will Faranaby, e seu encontro com uma sociedade baseada na “liberdade”. Tal paraíso fica em Pala, uma ilha situada na Indonésia.

Aldous Huxley fala de uma sociedade idealizada tendo uma ilha fictícia como palco de uma civilização que persegue serenamente a felicidade. Lá a utopia da existência plena é possível.

A Ilha é o mundo criado pelas utopias psicoterapêuticas e orientalistas dos anos 50-60. Huxley captou antecipadamente a loucura por trás de tudo isso, e é precisamente essa antevisão que dá o tema deste romance.

Comentários: Escrito em 1962 é o penúltimo livro publicado por Aldous Huxley. Imagina-se, equivocadamente, que “A Ilha” encaixou como uma luva na atmosfera cultural americana da época, a fase hippie da contracultura, quando jovens de classe média, orientados por gurus como Timothy Leary, Allen Ginsberg, Robert Laing, Carlos Castañeda, Roberto Crumb, Herbert Marcuse (este marxista da Escola de Frankfurt), Jack Kerouac e Alan Watson, todos psicopatas congênitos como são os esquerdistas, questionavam os valores dominantes, como família, religião, moral e a guerra no Vietnã.

A sociedade da ilha de Pala, descrita na obra, foi recebida como uma síntese da sociedade utópica que estes jovens queriam opor à sociedade industrial de consumo que, paradoxalmente, havia tornado o cidadão americano médio rico como nunca. Acontece que, A Ilha, na verdade, é o mais temível inquérito sobre o auto-engano da geração que o aplaudiu. No ambiente de entusiasmo utópico da época, seria impossível que os leitores o compreendessem. Isso teria exigido deles um realismo cruel, que mesmo à distância de várias décadas ainda parece difícil de suportar, tão contaminados das ilusões e mentiras dos anos 60 permanecemos hoje. Daí que, deslizando sobre a superfície da narrativa, quase todos os leitores deixassem escapar os detalhes mais importantes, nos quais se esconde o sentido mesmo da última lição de um sábio.

O filósofo Olavo de Carvalho faz uma análise precisa desta obra que reproduzo a seguir:

Em primeiro lugar, a destruição de Pala não vem do exterior. É o próprio príncipe herdeiro, Murugan, quem atrai os estrangeiros para ajudá-lo no golpe militar destinado a romper o equilíbrio do paraíso agrícola e colocar o país, pela força, na modernidade industrial. Os ideais da “geração Woodstock”, com efeito, apenas usavam a linguagem do primitivismo agrícola como veículos de expressão de seu ódio à sociedade industrial, mas essa revolta era, ela própria, um fenômeno da intelectualidade urbana e universitária, e supunha uma dose de liberdade de expressão e meios de comunicação que seriam inconcebíveis em qualquer sociedade agrícola. Quando Murugan acusa os governantes de Pala de “conservadores e reacionários”, ele põe o dedo na ferida: os ideais que produziram Pala jamais poderiam ter surgido numa economia como a de Pala. A utopia não é destruída do exterior, mas explodida desde dentro, pela sua autocontradição congênita.

Em segundo lugar, os golpistas, tão parecidos com os militares do Terceiro Mundo nos seus métodos de modernização autoritária, nada têm de conservadores e tradicionalistas na sua ideologia. Murugan, bisneto do Velho Rajá, o fundador de Pala e autor do livro sapiencial em que se inspira o regime da ilha, acaba se voltando contra as tradições locais por influência de sua mãe, a rani Fátima, a qual durante sua formação cultural na Europa recebera a influência dos ensinamentos teosóficos de Helena Blavatsky, tornando-se devota dos “Mestres do Astral”, especialmente um tal Koot-Hoomi -- figura inconfundivelmente diabólica segundo todos os cânones da religião tradicional -- , em cima de cujas concepções se forma a aliança entre a família real de Pala e os militares de Rendang-Lobo. Ora, teosofismo e mensagens de Koot-Hoomi são elementos inconfundíveis da própria ideologia “New Age”. Embora já um tanto velhos na época, foram reaproveitados na onda geral de orientalismo pop com que o movimento dos jovens atacava e corroía as bases cristãs da sociedade Ocidental.

Os militares de Rendang-Lobo também não são, de maneira alguma, “a direita”. Estão ansiosos para fazer negócios com a Standard Oil só para poder comprar armas do bloco soviético e dar prosseguimento ao seu sonho macabro de “revolução permanente”. Seu chefe, o Cel. Dipa, é uma espécie de Chavez avant la lettre. Seu modernismo revolucionário representa a outra face da ideologia “jovem” dos anos 60: o lado brutal e sanguinário personificado pelos Black Panthers, por Ho-Chi-Minh e Fidel Castro. Pala não é destruída por seus inimigos, mas pela contradição interna da mais mentirosa ideologia de todos os tempos, a ideologia da esquerda norte-americana dos anos 60, que pretendia encarnar o espírito de “paz e amor” ao mesmo tempo que espalhava no mundo “um, dois, três, muitos Vietnãs”.

Ainda mais significativo é que a origem das concepções utópicas do regime de Pala remontasse à fusão de vagos remanescentes do budismo tântrico com as idéias de evolucionismo biológico trazidas, no século passado, por um médico escocês, meio sábio, meio charlatão, que adquirira prestígio na ilha curando uma misteriosa doença de seu governante por meio do “magnetismo animal”. Essa mistura de budismo heterodoxo, evolucionismo e magnetismo compõe a fórmula inconfundível do teosofismo de Madame Blavatsky. Assim, a raiz do utopismo anárquico de Pala e do modernismo autoritário de seu príncipe golpista é, rigorosamente, a mesma.

Para tornar as coisas ainda mais estranhas, o teosofismo de Blavatsky foi, notoriamente, um instrumento usado pelo imperialismo inglês para corroer as tradições religiosas autênticas das nações orientais e torná-las mais vulneráveis à dominação cultural estrangeira por meio de um entorpecente pseudo-espiritual fabricado em Londres por uma vigarista russa.

Pelo lado da ideologia palanesa, portanto, o lixo ancestral não é menos fedorento que o teosofismo explícito de Rendang-Lobo. Já no segundo capítulo do livro, o náufrago Will Farnaby, traumatizado pelo perigo recente, é curado de seus males pelo método freudiano da ab-reação no curso de uma psicoterapia improvisada... por uma garota de nove anos. Mary Sarojini MacPhail, a garota, neta do atual guru médico da ilha, resume na sua pessoinha os princípios de educação e ética ali vigentes: são os princípios do sincerismo, do “botar para fora”, que os “grupos de encontro” e as técnicas psicoterápicas de “sensibilização” e “liberação” disseminaram no mundo a partir de Esalen, Califórnia, e que marcaram inconfundivelmente a atmosfera dos anos 60. O festival de experimentos psíquicos e “liberações” desembocou no império mundial dos traficantes de drogas e na transformação da delinqüência juvenil (e infantil) numa catástrofe global de proporções incontroláveis. Na época, porém, prometia um novo mundo de espontaneidade e sanidade. Todas as crianças de Pala são versadas em “auto-expressão”, aquela confissão simplória e cínica dos próprios maus sentimentos que, teoricamente, os tornaria inofensivos. O fato é que a “auto-expressão”, ensinada em grupos-de-encontro por psiquiatras e psicoterapeutas “libertadores” nos conventos católicos, suscitou entre as monjas uma epidemia de lesbianismo e de casos amorosos com seus terapeutas, levando praticamente à destruição de várias ordens religiosas. De braços dados com o pseudo-orientalismo, a “libertação” psicoterápica abriu caminho para que milhões de jovens abandonassem o cristianismo e se entregassem às mais tirânicas manipulações psíquicas nas mãos de seitas delinqüenciais como “Love Family”, que, em nome da expressão espontânea das emoções, obrigava crianças de quatro anos de idade a submeter-se, junto com seus pais, à prática de sexo grupal. A imensidão dos danos psicológicos trazidos a essa geração jamais poderá ser medida exatamente. As tristezas e as vergonhas acumuladas são demasiado profundas para vir à tona. Documentos aterrorizantes acumulam-se, em pilhas, nos milhares de clínicas especializadas em tratamentos de egressos de seitas, sobretudo ao longo da Costa Oeste americana -- o lugar onde nasceria, segundo a promessa da época, a nova civilização de sanidade, paz e amor.

Os efeitos terrificantes, porém, não nasceram do mero acaso. Fruto e raiz têm sua continuidade lógica. Os “grupos-de-encontro” nasceram da pesquisa militar sobre guerra psicológica e controle comportamental. Um de seus pioneiros, Kurt Lewin, já na década de 40 havia chegado à conclusão de que a pressão sutil e disfarçada do grupo era o meio mais efetivo de produzir mudanças de comportamento. A lição foi bem aprendida por Carl Rogers, Fritz Perls, Abraham Maslow e outros criadores dos “grupos-de-encontro” da década de 60. A “liberação”, em suma, não passava de “engenharia do consentimento”. Lewin e seus sucessores haviam descoberto um tipo de controle comportamental infinitamente mais eficiente e irresistível do que todas as técnicas descritas no Admirável Mundo Novo. Como admitiu um dos praticantes do método, Robert Blake, ex-aluno de Lewin no Tavistock Institute de Londres (a principal academia inglesa de guerra psicológica), “não importa quanto o orientador desses grupos tente ser não-diretivo, ele será ainda sutilmente ditatorial e até mais ditatorial (por causa da sua sutileza) do que o mais rígido adestrador, porque todo o controle está escondido”.
Por uma coincidência que neste contexto adquire as dimensões de um símbolo, Blake dirigiu um desses grupos justamente na Standard Oil – a empresa com a qual o príncipe herdeiro Murugan está louco para fazer negócios.

Após presenciar uma sessão de “educação para o amor” das crianças de Pala, Will Farnaby, o visitante trazido pelo naufrágio, protesta: “Isto é puro Pavlov!”. O instrutor, com aquele ar beatífico de tantos lavadores de cérebros da década de 60, responde: “Pavlov usado exclusivamente com bom propósito. Pavlov para a amizade, para a confiança, para a compaixão.
Tanto pelas suas origens blavatskianas quanto pelos métodos de dirigismo sutil, a ideologia palanesa é irmã gêmea do autoritarismo de Rendang-Lobo. A Ilha não é a tragédia de um paraíso de liberdade destruído pela invasão de militares malvados: é a tragédia da autodestruição de uma utopia intrinsecamente má e mentirosa envolta em belas palavras.

No momento culminante da narrativa, Will Farnaby, finalmente rendido aos encantos da “religião sem dogmas” dos palaneses, resolve experimentar a moksha, a erva alucinógena ritual que, em vez de precipitar somente o consumidor num estado de apatetado bem-estar como o soma do Admirável Mundo Novo, lhe abriria as portas do conhecimento transcendental. Nos primeiros instantes, Will “vê a luz”, ou pelo menos pensa que vê. Mergulha num estado de beatitude indescritível e supõe ter conhecido o próprio Deus. De repente, a visão se transfigura. Abrem-se as portas do inferno: vermes horrendos aparecem misturados à figura de Adolf Hitler que gesticula e berra. A visão de Will mostra a verdadeira natureza da religião palanesa: uma religião de “experiências psíquicas”, incapaz de transcender a dualidade cósmica e elevar-se ao reino da eternidade. É a religião dos “grupos-de-encontro”, o substitutivo postiço que uma estratégia política oportunista quis substituir ao cristianismo. Tão logo Will emerge do transe, ele ouve os primeiros tiros do exército invasor: é a mentira essencial de Pala que se desfaz ao mesmo tempo que a falsa visão espiritual.

Poucos livros foram tão fundo na compreensão do auto-engano congênito da cultura contemporânea. Perto da pedagogia palanesa da ilusão, as técnicas de controle social do Admirável Mundo Novo parecem ingênuas e rudimentares, assim como perto da engenharia comportamental dos anos 60 o totalitarismo explícito da década de 30 parece coisa de orangotangos. O diagnóstico impiedoso do neototalitarismo mental dos anos 60 não pôde ser compreendido por seus contemporâneos. Eles estavam embriagados na mentira nascente, e a antevisão de Huxley passou léguas acima de suas cabeças. Mas, hoje, vivemos no mundo criado por aqueles malditos “jovens idealistas” dos anos 60. As técnicas de controle social e engenharia do consentimento já não são experiências limitadas, efetuadas na privacidade de grupos-de-encontro: são o dia a dia das escolas públicas, onde nossos filhos se encontram à mercê daquilo que Pascal Bernardin chamou “ministério da reforma psicológica”.
Tal como Mary Sarojini MacPhail, cada criança, submetida à pressão sutil do grupo, aí adota alegremente as condutas desejadas, sem ter a mínima idéia de possíveis alternativas. Nos EUA, os resultados da adoção maciça dessas técnicas no ensino já são patentes: os índices assustadores de consumo de drogas e a criminalidade infantil nas escolas públicas levam muitos pais a preferir educar seus filhos em casa, enquanto a Prefeitura de Nova York, admitindo-se incapaz de controlar a violência das crianças, privatiza suas escolas como quem entrega um fardo superior às suas forças. No Brasil, esse processo ainda está no começo, mas basta ler os “Parâmetros Curriculares Nacionais” do Ministério da Educação para perceber que a engenharia de comportamento aí predomina amplamente sobre a formação intelectual e a instrução moral honesta. O espírito dos “grupos de encontro” dos anos 60 tomou conta da pedagogia universal, firmemente decidido a “libertar” as crianças do legado da civilização cristã. Quando a “libertação” mostrar sua outra face, quando Pala revelar sua identidade com Rendang-Lobo, haverá choro e ranger de dentes. Mas, como aconteceu com a geração de 60, nenhum dos autores da tragédia reconhecerá suas culpas: cada um deles se proclamará um idealista traído pelos rumos imprevisíveis da História e, revigorado pelo sentimento de inocência, tirará da cartola um novo projeto de “mundo melhor”.

Conclusão:

1. As principais características da sociedade utópica de Pala e que a levaram a destruição são as que se seguem:
-­ Considerar que a natureza é sacrossanta. (Não é)

-­ O princípio de que todas as pessoas são boas. (Não são)

­- O princípio de que a mente do ser humano é capaz de produzir a realidade. (Não é capaz)

­- A revolta contra o cristianismo. (A única possibilidade do ser humano é via cristianismo. Não há outra).

­- A experiência humana desassociada da possibilidade de transcendência para o divino. (Ateísmo, Gnosticismo)

­- O antropocentrismo (do grego anthropos, "humano"; e kentron, "centro"), uma concepção que considera que a humanidade deve permanecer no centro do entendimento dos humanos, isto é, tudo no universo deve ser avaliado de acordo com a sua relação com o homem.

­- A tentativa de libertação do próprio destino.

­- A rebelião metafísica.

­- A tirania intrínseca com face humana.

­- A falta de liberdade individual.

-­ A destruição da liberdade.

­- A modificação da sociedade por meios subliminares.

-­ O controle da sociedade.

-­ O totalitarismo.

2. O moksha (erva alucinógena) faz a ligação com a própria condição humana (bom/mau). Uma “experiência psíquica”, incapaz de transcender a dualidade cósmica e elevar-se ao reino da eternidade. É a mentira essencial de Pala que se desfaz ao mesmo tempo em que a falsa visão espiritual.

3. Pala foi destruída pela própria utopia, pois a utopia não resiste a uma única noite frente à realidade.

-­ Não é possível produzir um ser humano ideal a partir de critérios humanos.

-­ Não se pode resolver os problemas humanos produzindo uma reengenharia humana, ou seja, mudando a própria natureza das pessoas.

-­ Não se pode assumir o lugar de Deus e construir um novo homem.

Finalizando:

“A Ilha não é a tragédia de um paraíso de liberdade destruído pela invasão de militares malvados: é a tragédia da autodestruição de uma utopia intrinsecamente má e mentirosa envolta em belas palavras”

Se o mundo não é perfeito, cabe ao homem promover atos perfeitos para viver melhor e não querer construir um mundo perfeito.

“Aldous Huxley escreveu este livro para nos advertir da culpa monstruosa que se oculta por trás da inocência dos idealistas”.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

ILIADA

Autor: Homero
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Editora: Ediouro
Assunto: Poesia épica (Literatura estrangeira)
Edição: 2ª
Ano: 2002
Páginas: 572.

Sinopse: Ilíada é um história de guerra que descreve tão somente os 51 dias do 9º ano de luta entre os gregos e os troianos. É o relato dos episódios da guerra de Tróia, travada entre gregos e troianos nestes cinqüenta e um dias. A epopéia narra um drama humano, o do herói Aquiles, filho da deusa Tétis e do mortal Peleu, rei da Ftia, na Tessalia.

Nove anos já se passaram desde o início da Guerra de Tróia, provocada pelo rapto da bela Helena por Páris. De cada lado da batalha, dois grandes guerreiros - por Tróia, Heitor, irmão de Páris; pela Grécia, Aquiles, um herói semidivino, quase imortal. Ilíada começa dramaticamente em um momento da guerra em que Crises, sacerdote de Apolo, tenta recuperar sua filha, então escrava do rei Agamémnon. Agamémnon devolve Criseide, mas toma a escrava de Aquiles, o que provoca a retirada deste da guerra. O desenrolar da Guerra de Tróia e o conflito entre Aquiles e Agamémnon trazem a esta grande epopéia dimensões humanas e emoções universais. Ira, orgulho, arrogância, beleza, harmonia e reconciliação são alguns dos elementos presentes na narrativa que espelham os dilemas do ser humano.

Ilíada, obra mais importante do que a Odisséia, é um poema constituído por 15.693 versos, em 24 cantos e de extensão variável. A métrica empregada é o hexâmetro, verso tradicional da épica grega. Além de símbolo da unidade e do espírito helênico, é fonte de ensinamento moral.

Comentários sobre a obra: Embora a Ilíada narre uma série de acontecimentos da guerra de Tróia e se refira a uma série de outros, seu tema principal é o ciclo da ira de Aquiles, da sua causa ao seu arrefecimento. Isto fica claro logo na primeira linha do poema. A palavra grega mēnin, ira, é a primeira do poema, cuja famosa primeira linha é "Menin aeide, Thea, Peleiadeo Aquileos". Em português seria “A ira canta, Deusa, de Peléio Aquiles” ou, adaptando, “Canta, Deusa, a ira do filho de Peleu, Aquiles”. Através da consumação dessa ira, é tratada a humanização do herói e semideus Aquiles, sempre conflitado por sua dupla natureza, filho de deusa e homem, portanto mortal.

A questão da escolha entre valores materiais, como a segurança e a vida longa, e valores morais, mais elevados, como a glória e o reconhecimento eterno, é tratada na escolha com que Aquiles se defronta: lutar, morrer jovem e ser lembrado para sempre, ou permanecer seguro e ser esquecido.

A soberba de Aquiles contrasta grandemente com a sobriedade de Heitor, também grande herói, que não busca a glória como Aquiles, mas luta pela segurança de sua família e de sua cidade, e a preservação de suas raízes troianas.

A condição humana é magistralmente trabalhada por Homero, mostrando os dilemas mortais, as interferências de instâncias superiores e suas conseqüências, personificadas nos deuses que tomam partido.

Amizade, honra e muitos outros temas abstratos também fazem parte da obra, compondo um belo painel da alma humana.

Orientações aos futuros leitores:

1. Recomenda-se ler o livro com se fossem fatos reais acontecidos e não como fatos mitológicos. Assim procedendo, é possível estabelecer a simetria do enredo com as possibilidades da vida humana.

2. O livro deve ser lido como uma novela, um poema e jamais como um ensaio ou um livro de conteúdo filosófico. Assim a leitura fica mais agradável e compreensível.

3. Deve-se interpretar a Ilíada sob a ótica do mundo antigo e não sob a ótica do mundo contemporâneo. Isso implica dizer que é preciso colocar a cabeça no mundo ao invés de colocar o mundo na cabeça.

4. O livro deve ser lido e simetrizado no seguinte aspecto: Que sentido a história que Homero nos conta tem com a nossa vida ou com uma situação concreta de nossas possibilidades enquanto seres humanos.

5. Os gregos utilizavam Ilíada no ensino das crianças, pois entendiam eles que as crianças que lêem muitas histórias, são mais inteligentes que as que não lêem. Este aspecto deveria ser mais explorado no mundo contemporâneo.

6. Mitologia não é assunto para pesquisa. É um instrumento para compreensão do mundo. É um instrumento de explicação dos dilemas humanos.

7. Mito de Cassandra: Cassandra tinha o poder de saber o futuro, mas em contrapartida foi-lhe tirada a credibilidade. Portanto, quando você tem o domínio da verdade, não tem credibilidade, ou seja, as pessoas não acreditam em você. Por essa razão há uma célebre fase que diz: O saber é solitário.

8. A história de Ilíada é uma mistura de atos humanos e atos divinos.

9. Na mitologia grega a Zeus pertencia o Céu; a Posidro (Poseidon), os mares; e a Hades, o inferno. Todavia, o inferno não tinha a conotação do mundo contemporâneo. Inferno era o reino dos mortos. Todos que morriam iam para o inferno, independente de terem sido bons ou maus, porque o inferno não era considerado um lugar de castigo, mas um lugar dos mortos.

10. Os gregos utilizavam o poema épico da obra de Homero nas escolas como exemplos de heroísmo a serem ensinados as crianças. Uma espécie de Paidéia "processo de educação em sua forma verdadeira, a forma natural e genuinamente humana". O termo também significa a própria cultura construída a partir da educação. Era o ideal que os gregos cultivavam do mundo, para si e para sua juventude. Uma vez que o governo próprio era muito valorizado pelos gregos, a Paidéia combinava ethos (hábitos) que o fizessem ser digno e bom tanto como governado quanto como governante. O objetivo não era ensinar ofícios, mas sim treinar a liberdade e nobreza. Paidéia também pode ser encarada como o legado deixado de uma geração para outra na sociedade.

11. O gregos procuravam mostrar aos jovens o que há de melhor do comportamento humano. Portanto, a Iliada era a nossa “Bíblia” para os gregos.

Interpretação da Obra: A existência humana sempre tem um componente trágico independente do nosso comportamento bom ou mau. Logo, a obra retrata a tragédia humana apesar de todo o esforço e heroísmo humano!

O fim do ser humano será sempre trágico não importando o que ele faça, pois os seres humanos estão jogando o jogo da vida, cujas regras não foram por eles estabelecidas. Portanto, são regras que os humanos não dominam e não têm nenhuma ação sobre elas.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

O HOMEM SEM QUALIDADES


Título Original: Der Mann ohne Eigenschaften
Autor: Robert Musil
Tradução: Lya Luft e Carlos Abbenseth
Editora: Nova Fronteira
Assunto: Romance (Literatura estrangeira)
Edição: 1ª
Ano: 2006
Páginas: 1280

Sinopse: O livro trata da decadência do Império Austro-Húngaro (1867-1918), na sua tentativa de acomodação das múltiplas nacionalidades que compreendia a Áustria, a Hungria, a Tcheco-Eslováquia e parte da Polônia, da Romênia, da Iugoslávia e da Itália por um lado, e a tentativa de construção de um Império Racial que culminou no surgimento do Nazismo, por outro. Trata-se, portanto da crônica de um momento histórico e a perda da espiritualidade do povo europeu criando uma espécie de vazio de sentido que precisava ser preenchido de alguma forma.

Robert Musil descreve, neste romance satírico-filosófico de idéias, o vácuo absoluto que o mundo Europeu produziu com a destruição dos valores antigos de espiritualidade (Reino da Qualidade) e que possibilitou a instalação da ruptura existencial (Reino da Quantidade), fruto dos três filhos bastardos produzidos pela Revolução Francesa: Liberté, Égalité e Fraternité.

Ulrich, personagem do livro, vive diversas experiências, viaja ao exterior e, às vésperas da Primeira Guerra Mundial, retorna a Viena. Convive com os mais diversos tipos humanos. Este romance-ensaio mostra a decadência dos valores vigentes até o início do século XX, marcando a perda de posição da Europa na decisão dos rumos políticos e econômicos mundiais.

A constatação de que as ciências se transformaram no grande agente transformador da sociedade, ocupando de certa forma o lugar das artes, tomando para si o papel da vanguarda e impulsionando o homem a estabelecer uma nova relação com o mundo, trouxe às linguagens artísticas um novo desafio. A violência dos conceitos da física quântica, da relatividade, das descobertas da ciência genética colocou o homem diante de questões absolutamente novas, tendo que reformular sua ética, com novos princípios, uma mudança significativa das crenças, dos costumes, antes mesmo da tomada de consciência de uma mudança racional.

A observação que a modernidade vienense formulou perguntas e respostas até hoje válidas para a compreensão da nossa realidade contemporânea também procede para a obra-prima do escritor austríaco Robert Musil. Esse homem sem qualidades é considerado como protótipo para o mundo moderno, marcado pela erosão do singular, a "perda da individualidade" ou questionamento radical do sujeito. A alienação do indivíduo, o que já não existe mais em termos substanciais, também vale para a sociedade de massas como um todo. Esta visão da fragmentação das sociedades modernas, racionalizadas e funcionalizadas, implica a existência de definições contrárias e não compartilhadas da realidade; segue disso uma aporia da comunicação, decorrente da congruência insuficiente dos padrões básicos de interpretação e sistemas de relevância.

Fica, entretanto, a grande pergunta histórica: Como se explica o fenômeno do Nazismo dentro de uma nação que foi a Catedral da Civilização, que produziu quase a metade da filosofia contemporânea e da música clássica?


Sobre o autor:
Robert Edler von MUSIL (1880-1942) nasceu em Klagenfurt, na Áustria, e morreu pobre – quase esquecido e dependendo da ajuda de amigos – em Genebra, na Suíça, em plena II Guerra Mundial.

Aos dez anos Musil entrou para a Escola Militar em Eisenstadt, destinado à carreira de oficial. Estudou durante mais de cinco anos em instituições do exército até chegar à Academia Militar de Viena, em 1897. Um ano depois, Musil decidiu largar a carreira de oficial e passou a estudar Engenharia em Brünn, obtendo o diploma da graduação em 1901. Depois de uma temporada em Stuttgart, cursou Filosofia e Psicologia experimental na Universidade de Berlim, doutorando-se em 1908 com tese sobre Ernst Mach (1838-1916),[1] físico e filósofo austríaco. Os estudos de Mach sobre o fenômeno da descontinuidade e da dissociação, assim como suas teses a respeito do “eu condenado” (unrettbares Ich), seriam decisivos na formação de vários escritores vienenses, entre eles Arthur Schnitzler e o próprio Musil.

De 1914 a 1918, Musil participou ativamente da I Guerra Mundial na condição de oficial de Infantaria do exército austríaco. Ao final dos combates chegou a capitão, condecorado com a principal ordem de guerra do moribudo império (Ritterkreuz des Franz-Josephs-Ordens). Só a partir de 1923, e já morando em Berlim, é que Musil passaria a viver exclusivamente de sua condição de escritor.

A ascensão do nazismo, em 1933, obrigou o autor a se mudar para Viena e, mais tarde – depois de se sentir numa ratoeira, conforme ele mesmo chegou a escrever em seu diário –, para Genebra, aonde veio a falecer em 15 de abril de 1942.

[1] Ernst Mach inventou também aquele que conhecemos por “número de Mach” ou “número Mach”: o quociente da velocidade dum corpo que se move num fluido pela velocidade do som no mesmo fluido.

sábado, 7 de novembro de 2009

A MORTE DE VIRGÍLIO

Título original: Der Tod des Vergil
Autor: Hermann Broch
Tradução: Herbert Caro
Editora: ARX
Assunto: Romance (Literatura estrangeira)
Edição: 2ª
Ano: 2002
Páginas: 439

Sinopse: A história narra as últimas dezoito horas de vida do poeta Virgílio (70 a.C. – 19 a.C.), que havia sido trazido da Grécia por Augusto[1] para morrer na sua terra, Andes, perto de Mântua. É muito tarde para ir até o norte da Itália, contudo, a reflexão e morte do grande poeta mantuano aconteceria ali mesmo em Brindisum (hoje Brindisi). A obra está dividida em quatro partes: Água (a chegada), Fogo (a descida), Terra (a expectativa) e Éter (o retorno), o que faz da narração uma espécie de caminho iniciático.

Comentários: Foi durante a prisão pela Gestapo, em 1938, quando os alemães ocuparam a Áustria, que Hermann Broch começou a conceber aquele que seria um marco na narrativa de ficção do século XX: "A Morte de Virgílio".

As cinco semanas de cárcere em Altausse levaram o autor a um intenso debate interior sobre a função e a utilidade da arte em uma época de crise, às portas da Segunda Guerra Mundial. Esse acerto de contas com a própria (in) consciência deu-se pela recriação das últimas 18 horas de Virgílio.

O conflito psicológico do poeta latino, que culmina com o desejo de destruir Eneida, é paralelo ao vivido por Broch: a autenticidade ou inautenticidade moral da vida; a justificativa ou não do trabalho poético a que sua existência foi consagrada.

A comunhão de um homem que encarna a cultura de um mundo com a sua própria biografia e com o cosmo é apresentada na forma de monólogo interior, narrado na terceira pessoa, num extraordinário romance-poema.

A agonia de Virgílio afirma a participação de uma alma em todas as formas da presença espiritual do homem. A iminência da morte, no entanto, confunde atos e lembranças, embaralha as linhas do tempo, que resultam no plano único do não-tempo.

A simultaneidade absoluta é traduzida por uma composição de natureza musical, em que motivos e temas se entrecruzam.

Para alcançar esse resultado, Broch lançou mão de seus conhecimentos de filosofia, matemática e psicologia.

A primeira versão de "A morte de Virgílio" foi publicada nos Estados Unidos, em 1945, e somente dois anos depois foi editada em alemão. O texto que a Editora ARX apresenta traz o trabalho primoroso do tradutor Herbert Caro, responsável também pelas versões em português de outros romances notáveis como "A montanha mágica" e "Doutor Fausto", de Thomas Mann.

Sobre o autor:
Hermann Broch nasceu em 1º de novembro de 1886, em Viena, Áustria. De família abastada, formou-se no curso de engenharia têxtil, desejo da família, mas matricula-se também em cursos de filosofia, matemática e física e mais tarde abraçou a carreira literária. O reconhecimento veio com a trilogia "Os sonâmbulos", escrita entre 1931 e 1932.

De 1934 a 1936, escreveu "O tentador", parábola antialemã que lhe rendeu a prisão pela Gestapo, em 1938. Após ser libertado, Broch emigrou para Londres, onde começou a escrever "A morte de Virgílio", depois seguiu para os Estados Unidos e lá finalmente publicou, em 1945, a primeira versão da obra em inglês com tradução de Jean Sparr Untermeyer, que trabalhou cinco anos na tradução.
Morreu em 30 de maio de 1951, em New Haven, Connecticut.
Hermann Broch é considerado um dos maiores ficcionistas da língua alemã, ao lado de Thomas Mann, Robert Walser, Robert Musil e Franz Kafka.

[1] Caio Júlio César Octaviano Augusto (63 a.C. – 14 d.C.)

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

MÊNON ou MENÃO

Título original: MENΩN
Autor: Platão (427-348/47 a.C.)
Tradução: Jorge Paleikat
Assunto: Filosofia
Editora: Globo
Edição: não consta
Ano: 1945
Páginas: Diálogos – Biblioteca dos Séculos (63-106)

O problema estudado neste diálogo é a Virtude. Platão examinara este tema em Protágoras, voltando a tratar dele, embora sob outro aspecto, no Górgias.

No Mênon, desde o preâmbulo, trata-se de saber se a virtude pode ou não ser ensinada. Parece que essa questão preocupou bastante os pensadores gregos da época de Platão. Esquines e Antístines se detém no exame desse mesmo problema.

Há algumas perguntas daquela época, são atuais até os dias de hoje: A virtude é suscetível de ser ensinada? Haverá, por acaso, uma “ciência” da virtude? Será que a virtude é um dom da natureza? As conclusões a que chegam as duas personagens deste diálogo, aparentemente parecem confirmar que a virtude não é suscetível de ensino, que não há uma “pedagogia” que lhe seja própria. Todavia, examinadas mais profundamente as cousas, não nos é possível tomar, com demasiado rigor essas conclusões. Verificamos, ainda neste diálogo, como em outros de Platão em que Sócrates é a figura central, que ele permite margem à dúvida. Dúvida na qual se originam novos problemas. Basta atentar no desfile de “definições” da virtude que Sócrates e Mênon apresentam. Passam diante de nós os mais diversos aspectos das virtudes, todos eles rejeitados, todos eles esboçando novos caminhos, à discussão do que é a virtude. Nisto consiste, talvez, a primeira lição de filosofia deste diálogo. Fica bem marcado aqui que a inquietação do saber é um dos caracteres fundamentais da filosofia.

Dom da natureza ou suscetível de ser aprendida, pouco importa. O que é certo é que a virtude existe. Existiu no passado, há de existir e existe no presente. Todavia, nem mesmo os sofistas que sempre se apresentaram como mestres de virtude, sobretudo de virtudes políticas, -- que outra cousa não são porém do que virtude oratórias destinadas ao preparo e formação de demagogos, -- podem dizer o que ela é. De que modo, pois, podemos nós procurar, investigar naquilo que não conhecemos? -- indaga o ingênuo Mênon. -- Há, porém, homens, homens honestos e justos, responde o velho Sócrates, que, honesta e utilmente, guiados pela justiça e pela santidade, conduzem suas existências. São virtuosos. Não os norteia uma “ciência”, nem eles andam à procura dela. Guia-os, a opinião verdadeira, uma espécie de retidão do espírito que, se não chega à certeza e à solidez da ciência, parece, todavia, produzir resultados práticos que se assemelham muito àqueles que derivam de uma ciência. Já neste ponto, bem se vê, no diálogo não se resolve o problema da virtude. Abre-se outro, não menos profundo e não menos belo do que aquele que a virtude, considerada como ciência, poderia propor.

Entretanto, como será possível o saber, a própria opinião verdadeira? É neste ponto do diálogo que Platão volta a apresentar a sua famosa teoria da reminiscência. O saber, a retidão do espírito são simplesmente reminiscência. E ensinar, saber interrogar é acordar, na alma daqueles que chamamos de ignorantes, as idéias que aí estavam adormecidas. É certo que, neste diálogo, a referência à teoria da reminiscência não é muito precisa e nem indica, de uma maneira adequada, a relação que as idéias mantém entre si. Há apenas uma referência muito rápida às condições da nossa vida anterior, ao problema da contemplação das idéias puras.

Recorrendo à teoria da reminiscência é possível a Sócrates demonstrar a Mênon que um escravo de sua comitiva é também capaz de encontrar, de descobrir, por si, um certo número de verdades relativas à geometria. A opinião verdadeira, assim como a ciência, são uma vaga recordação das Verdades Eternas que um dia a nossa alma contemplou. Ciência e opinião verdadeira derivam dessa recordação. Uma vez ainda, cremos, Platão utiliza o mito para contornar uma dificuldade e para ilustrar o seu pensamento. A reminiscência, resíduo de pitagorismo na filosofia platônica, tem neste diálogo apenas o valor de símbolo de uma realidade que não pode ser demonstrada: é simplesmente uma hipótese instrutiva e útil. “Aqueles que pagaram a Perséfone o devido tributo, ela envia, por nove anos, no salto do sol. E dessas almas se elevam reis ilustres, homens poderosos pela força e pelo saber que são honrados como heróis pelos mortais”. É nesta imagem poética de Pindaro que Sócrates resume o complicado problema da reminiscência neste diálogo. É mister não esquecer que a doutrina da reminiscência passa, como outras que a fantasia de Platão criou, por várias vicissitudes em toda a sua longa obra filosófica. Acusaram-no, por isso, de contradição. Como se os sistemas filosóficos não se apresentassem, freqüentemente, como tecidos de ricas e fecundas contradições!

As personagens do diálogo são quatro. Mênon, que dá seu nome ao diálogo, é um rico habitante de Larissa, na Tessália. Da nobre família dos Aleudes, que tiveram a triste honra de ser “hospedes do Grande-Rei”, Mênon viaja para se instruir. Fora discípulo do sofista Górgias quando este andara pela Tessália e dedica-se, por simples gosto, à matemática ou, mais exatamente, à geometria. É perceptível, principalmente no início do diálogo, o vício de sua formação sofística. Mênon revela uma indisfarçável tendência para a eloqüência. Não denota, porém, aquela empáfia tão característica dos maus sofistas. Ao contrário, como se verá no diálogo, ouve atentamente as palavras de Sócrates e não tenta, salvo por duas vezes, de modo aliás bastante ingênuo, embasbacar com a superficial ciência que aprendera com os sofistas o velho dialético que é Sócrates.

Sócrates apresenta-se ainda neste diálogo cheio de ironia, refutador terrível das idéias feitas no mercado dos sofistas. É bem a tremelga que enfeitiça os que dela se aproximam, a que se refere Mênon em um dos trechos do diálogo. Rebatendo idéias falsas, iluminando o espírito e abrindo novos caminhos no raciocínio, leva os seus interlocutores a praticar a maiêutica, a trazer à luz não somente novas verdades, mas ainda se revelarem tais como são. É a sua arte que enfurece Anito e que encanta Mênon. Revelando novos caminhos à inteligência, Sócrates mostra que certas verdades que ele ajuda a partejar encerram, por sua vez, novas dúvidas que são, por sua vez, novas condições para que prossiga sempre o esforço da eterna busca que caracteriza a filosofia. Porque esta, será sempre assim, eterna e inquieta investigação do que é o mundo e o homem. Para que progrida é mister haver insatisfação, é preciso que o homem não se satisfaça no limitado redil dos sistemas e nos dogmatismos. Eterna representação de problemas, a filosofia não se dá bem com o acabado e o definitivo.

A terceira personagem deste diálogo é um escravo. E os escravos não costumam deixar os seus nomes na história: são simplesmente escravos. Um ou outro distinguiu-se e a história, espantada, anotou o seu nome. Sabemos apenas que o escravo de Mênon era grego e que fora criado em casa deste rico e nobre discípulo dos sofistas. É fácil perceber que Sócrates simpatiza com ele. “Se interrogarmos freqüentemente o escravo, diz Sócrates a Mênon, e de várias maneiras, tu podes estar certo, Mênon, que ele acabará tendo consciência tão exata quanto aquela de um homem de sociedade” .

Personagem tenebrosa, agourenta é a última figura do diálogo: Anito. Político fanático, pouco lhe interessam as discussões sobre a virtude. Virtude ele só a vê nos chefes do povo. Desdenha os intelectuais, os agitadores de idéias. Os sofistas são perturbadores da tradição, fermentos da dissolução das sociedades e por isso Anito os odeia e especialmente a Sócrates que o irrita e a quem, ao findar o diálogo, ameaça e previne. Nas poucas mas vivas e dramáticas páginas em que Platão retrata a tenebrosa figura de Anito, do político que se satisfaz apenas com o prazer do poderio, há um exemplo digno da meditação dos contemporâneos. Nos políticos medíocres, em que a habilidade passa, infelizmente, como índice de inteligência, há um indisfarçável ódio contra a inteligência verdadeira, que é sincera, honesta e justa. Os que, como Anito, apenas desejam o poder pelo prazer de exercê-lo, não amam a filosofia. Desdenham dela para mais fácilmente escarnecer e esmagar a Liberdade.

Pouco se sabe sobre a data em que foi escrito o diálogo. Pensam alguns autores que ele foi redigido, mais ou menos, ao findar a guerra do Peloponeso. Outros pesquisadores apontam para o ano 402 a.C., três anos antes da morte de Sócrates. A verdade é que nunca saberemos. O que este pequeno diálogo de Platão nos abre, na sua simplicidade, é, porém, uma interessante perspectiva para a compreensão de sua filosofia. É um dos mais fáceis e é o que melhor nos dirige para a compreensão da filosofia platônica.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

FAUSTO – Uma tragédia (segunda parte)

Título original: Faust: eine Tragödie – Zweiter Teil
Autor: Johann Wolfgand von Goethe
Tradutor: Jenny Klabin Segal
Editora: Editora 34
Assunto: Romance (Literatura alemã – Séculos XVIII e XIX)
Edição: 1ª
Ano: 2007
Páginas: 1088

Sinopse: A história passa-se no século XVI. Fausto é o protagonista de uma popular lenda alemã de um pacto com o demônio, baseada no mágico e alquimista alemão Dr. Johann Georg Faust (1480-1540). O nome Fausto tem sido usado como base de diversos romances de ficção, o mais famoso deles do autor Goethe, produzido em duas partes, tendo sido escrito e reescrito ao longo de quase sessenta anos. A primeira parte - mais famosa - foi concluída em 1808 e a segunda, em março de 1832 - às vésperas da morte do autor.

Considerado símbolo cultural da modernidade, Fausto é um poema de proporções épicas que relata a tragédia do Dr. Fausto, homem das ciências que, desiludido com o conhecimento de seu tempo, faz um pacto com o demônio Mefistófeles, que lhe enche com a energia satânica insufladora da paixão pela técnica e pelo progresso. Esta mesma energia, porém, faz de Fausto um homem desdenhoso das consequências e estragos de sua Ciência, tornando-o um gênio leviano, um louco obcecado pelo progresso e cego para tudo mais.

Enredo da obra: No afã de superar os conhecimentos de sua época, Fausto evoca espíritos e, por fim, Mefistófeles, o demônio (palavra que significaria, etimologicamente, inimigo da luz) - com o qual negocia viver por vinte e quatro anos sem envelhecer.

Durante este tempo, conforme o contrato assinado com seu próprio sangue, serviria o diabo a Fausto, em troca da sua alma. Entregue aos prazeres durante este tempo, é finalmente ao termo deles levado para o Inferno.

Tendo, porém, encontrado o amor de Margarida, dela tenta obter a salvação, mas foi inevitável o destino a que se comprometera.

Resumo da narrativa: Na primeira parte, Fausto, um velho professor erudito e desiludido com a vida intelectual, faz um pacto com Mefistófeles, que lhe apresenta os prazeres do mundo (“é preciso viver, viver realmente”) contra a possessão de sua alma, mas o diabo só ganharia o direito a ela se Fausto dissesse, empanturrado de prazeres mundanos, “pára... és tão formoso”; ou seja, somente quando a angústia “fáustica” tivesse desaparecido. Como Fausto acha isso impossível, concorda.

Na abertura da segunda parte, Fausto está sozinho, deitado numa “região amena”. Espíritos benéficos aplicam bálsamos à alma ferida de Fausto, incentivando-o a reagir ao desespero, levantar-se e empreender ações corajosas (“da alma extrai-lhe o dardo da amargura”). Fausto enfim se levanta, cheio de alegria (“Pulsa da vida o ritmo palpitante”) e imbuído da decisão de “aspirar à máxima existência”. Agora reconhece os seus limites.

A cena muda para uma reunião do Conselho de Estado com o Imperador, cujo reino passa por grandes dificuldades: corrupção, venalidade e arbítrio geram o caos, desordens e motins.

Mefistófeles, por meio de um estratagema, toma o lugar do bobo na corte. Como solução para a crise, propõe, com apoio do astrólogo oficial, emitir papel-moeda com lastro em ouro escondido, com a condição de que a mineração fosse feita por “um homem doutíssimo”, estratagema para introduzir Fausto na corte. Esta conversa de Mefistófeles, misturando “Natureza” e “Espírito” seduz o Imperador que é acusado de heresia pelo Chanceler, o arcebispo de Mogúncia, mas o diabo é convincente e promete dinheiro.

Comentários: Na primeira obra, Fausto viajou pelo “pequeno mundo” da vida privada e do amor. Nesta, ele penetra no “grande mundo” da civilização e da cultura.

A segunda parte de Fausto é mais complexa, pois mistura debates científicos da época com referências mitológicas de simbologia muitas vezes obscura, o que criou o consenso de que se trata de uma obra difícil.

'Fausto', foi fruto de décadas de trabalho do grande poeta alemão. Com supervisão do professor Marcus Vinicius Mazzari, esta edição traz, ao lado do original alemão, a tradução completa da segunda parte realizada por Jenny Klabin Segall, totalmente revista, acrescida de notas e comentários que orientam a leitura deste livro. Este volume reproduz também a série integral de 143 ilustrações a bico-de-pena de um dos maiores nomes do Expressionismo alemão, Max Beckmann (1884-1950), criadas pelo artista no exílio em plena Segunda Guerra Mundial.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

FAUSTO – Uma tragédia (Parte I)

Título original: Faust: eine Tragödie
Autor: Johann Wolfgand von Goethe
Tradução: Jenny Klabin Segal
Editora: Editora 34
Assunto: Romance (Literatura alemã – Séculos XVIII e XIX)
Edição: 1ª
Ano: 2004
Páginas: 552

Sinopse: Fausto é o protagonista de uma popular lenda alemã de um pacto com o demônio, baseada no mágico e alquimista alemão Dr. Johann Georg Faust (1480-1540). O nome Fausto tem sido usado como base de diversos romances de ficção, o mais famoso deles do autor Goethe, produzido em duas partes, tendo sido escrito e reescrito ao longo de quase sessenta anos. A primeira parte - mais famosa - foi concluída em 1808 e a segunda, em março de 1832 - às vésperas da morte do autor.

Considerado símbolo cultural da modernidade, Fausto é um poema de proporções épicas que relata a tragédia do Dr. Fausto, homem das ciências que, pessimista com o conhecimento, na verdade um niilista, diz não saber nada direito e que luz alguma podia dar aos homens.

Fausto age como se ele não vivesse vida nenhuma, como se sua vida fosse falsa e sem sentido algum. Ele anseia por uma vida nova, uma vida material, uma vida dos sentidos e das sensações e assim decide abandonar a vida dos livros e se entregar a uma vida real e concreta. Então, ele faz um pacto com o demônio Mefistófeles, que lhe enche com a energia satânica insufladora da paixão.

Fausto, porém, não sabe viver a vida concreta com responsabilidade, porque ele nunca a viveu da fato. Por isso tudo termina mal na sua experiência de viver a vida material, a vida dos sentidos e das sensações.

Direcionado pelo Demônio Mefistofeles, acaba vivendo uma vida desastrosa sob todos os aspectos. Por sua causa uma família inteira morre. A sua sogra, antes de ser sogra, o seu cunhado, antes de ser cunhado, seu filho, fruto de uma sedução, morto pela própria mãe logo após o parto, e finalmente sua própria amada, condenada a morte pelo assassinato. Enfim, tudo dá errado na vida de Fausto e ele acaba muito mal.

A obra representa a descida aos infernos, ou seja, a queda do ser humano a partir de um dilema moral entre o Polo Luminoso (o Céu) e o Polo Abissal (a Terra). Ao final, tudo indica que o Diabo acaba vencendo. É preciso ler Fausto II para conhecer o final da história.

Sobre o autor: Johann Wolfgang von Goethe (Frankfurt am Main, 28 de Agosto de 1749 — Weimar, 22 de Março de 1832) foi um escritor alemão, além de cientista e filósofo. Como escritor, Goethe foi uma das mais importantes figuras da literatura alemã e do Romantismo europeu, nos finais do século XVIII e inícios do século XIX. Juntamente com Schiller foi um dos líderes do movimento literário romântico alemão Sturm und Drang.

sábado, 10 de outubro de 2009

O SÉCULO DO NADA

Autor: Gustavo Corção
Editora: Record
Edição: 2ª
Ano: 1973
Páginas: 437

Sinopse: Uma vez entendido o fundo da questão, todo o século XX merece ser revisto nas causas dos seus principais acontecimentos. Quem poderia pensar, aqui no Brasil, que uma crise no governo francês, o Affaire Dreyfus, tivesse importância para o século que começava? Corção vê estas causas e descreve como a política geralmente ensinada e propalada está cheia de enganos e erros. Assim também para a condenação da Action Française, de Charles Maurras, o papel de Franco na salvação da Espanha e todos os demais acontecimentos do século XX. Termina com um pungente capítulo sobre a Igreja, sobre o Concílio Vaticano II, que abre as portas aos progressistas, dando início ao que Corção chamou de pecado terminal.

Trechos da Obra:

“Mais tarde soube pelo Fábio, de nós todos o mais informado, que o movimento de Economia e Humanismo fora fundado pelo Pe. Lebret e outro dominicano, o Pe. Desroches, que já deixara o hábito e se tornara resolutamente marxista. O Pe. Lebret morreu dentro da Igreja e da Ordem, e até disseram publicamente que foi ele o inspirador da Populorum Progressio.

Naquele tempo não se comentavam tais coisas em nosso grupo, e pouco sabíamos do que já era efervescência e quase explosão na Europa. Recalquei minhas impressões, e reconheci que nada do que ouvira do Fe. Lebret se enquadrava mal na doutrina sagrada. O que eu poderia dizer, se naquele tempo usássemos tal vocabulário, e que sua pregação era secularizante. Punha o centro de gravidade da vida nas coisas temporais. Aonde nos levaria, com o tempo, o interesse despertado e difundido pelo Pe. Lebret?"
(CORÇÃO, p.28)

"Na década dos 50, contra meus mais consolidados costumes, aventurei-me a viajar pelo Brasil e a fazer conferências sobre as coisas do Reino de Deus. Lembro-me de uma viagem nossa a Belo Horizonte onde, com surpresa, vimos que os estudantes tinham colocado faixas pelas ruas, e espalhado camionetas pela cidade a anunciar as conferências do autor destas linhas. Toda a Juventude Católica estava conosco nesse tempo e não se percebia um só sinal de comunismo entre os moços. Perdão, havia o Luís Carlos. Foi uma maratona de conferências, entrevistas e conversas em círculo, sem interrupção. Creio que em 2 ou 3 dias fizemos mais de 12 conferências, às vezes com 400 ouvintes, moços universitários. Não começara a infiltração de estupidez. Os moços eram ainda adjetivamente moços, e não substantivamente e magicamente "jovens". O comunismo ainda não começara... Perdão, havia o Luís Carlos. Sim, o Luís Carlos. No segundo dia de batalha, ao meio-dia e trinta, consegui fugir dos moços, e já me esgueirava para chegar ao hotel, onde contava descansar um pouco e almoçar, quando senti travarem-me o braço. Era o Luís Carlos, que se apresentava e queria dizer-me uma palavra. Conversamos horas: ele tinha idéias comunistas, mas já desconfiava de seu quilate; queria mais. No dia do Corpo de Deus, numa grande festa em que mais de quinhentos moços confessaram e comungaram, lá estava o Luís Carlos, humilde e feliz. Meses depois recebi no Rio uma carta dos pais de Luís Carlos, e num farrapo de papel um agradecimento escrito a lápis e uma despedida marcando encontro no céu."
(CORÇÃO, p. 29)

"Conto estas coisas porque esse Pe. Lage é hoje figura internacional. Há livros em francês mentindo sobre o Pe. Francisco Lage Pessoa, como mentem sobre Dom Hélder Câmara. E o que eu quero dizer, em poucas linhas, é que convivi, e dia a dia acompanhei a evolução desses padres que trocaram a Comunhão dos Santos pelo Partido Comunista. E assim como esses, vi de perto muitas e muitas outras degradações que julgava impossíveis. Começava para nós a Paixão da Igreja segundo o século XX."
(CORÇÃO, p. 30)

"Aqui no Brasil nós sabemos que a pregação de Economia e Humanismo do Pe. Lebret, e dos dominicanos contaminados, levou o Pe. Francisco Lage ao marxismo e ao comunismo militante. Sabemos que foi essa infiltração que transformou o Convento de Perdizes, dos frades dominicanos, em quartel-general do guerrilheiro marighela. Sabemos que as moças egressas de tradicionais colégios católicos se transformaram em salteadoras de bancos, amantes de comunistas e culpadas de assassinatos de inocentes policiais. E para maior estridência do escândalo, e para maior evidência da fonte de inspiração, temos um arcebisto [D. Helder Câmara - 1901-1999] a esvoaçar pelo mundo inteiro e a pregar uma espécie de socialismo em favor do qual é belo e meritório o ato de seqüestro e assassinato de refens." (CORÇÃO, P. 90)



Sobre o autor:

Gustavo Corção nasceu em dezembro de 1898, no Rio de Janeiro. Cursou Engenharia na antiga Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Trabalhou em Astronomia de Campo, em Mato Grosso; em serviço de Energia Elétrica, no Rio de Janeiro e Espírito Santo; em Radiocomunicações, de 1925 a 1937, e depois em atividades industriais, até 1948. Casou-se em 1924, e, em segundas núpcias, em 1937. Converteu-se à Igreja Católica em 1939. Publicou seu primeiro livro 'A descoberta do outro', em 1944; em 1945, 'Três alqueires e uma vaca'; em 1951, 'Lições de Abismo', e, em 1952, 'Fronteiras da Técnica'; em 1956, 'Dez Anos' (Crônicas) e 'O Desconcerto do Mundo', em 1965. Foi colaborador semanal de 'O Estado de São Paulo', do 'Diário de Notícias', do Rio de Janeiro, e do 'Correio do Povo', de Porto Alegre. Faleceu em 6 de julho de 1978.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

MOBY DICK

Título original: Moby Dick
Autor: Herman Melville (1819-1891)
Tradução: Alexandre Barbosa de Souza
Assunto: Romance
Editora: Cosac Naify
Edição: 1ª
Ano: 2008
Páginas: 656

Sinopse: Publicado em 1851, o livro fala de iniciação mística, da morte e ressurreição pensadas nos termos cristãos.

Acab é a velha personalidade de Ismael que precisava morrer para renascer, sendo Ismael o único que poderia sobreviver à louca aventura da alma.

A pesca da baleia é uma metáfora para o crescimento espiritual e que a baleia pode ela mesma ser identificada com a própria alma, posto que é um símbolo da transformação do inconsciente.

As personagens principais recebem nomes bíblicos. Ismael, o filho de Abraão com a serva de Sara, Agar, dá nome à personagem principal e narrador, o único que sobrevive à aventura heróica. Acab, personagem casado com Jezabel, dá nome à segunda personagem em hierarquia de importância.

Todo o texto fala de uma única pessoa, o próprio autor, e para compreender a epopéia é preciso lê-lo de trás para frente, mas isso não é possível numa primeira vez. É obra para os espíritos velhos, de todas as idades, sobretudo para quem já passou do meio-dia da vida.

Comentários: Faço aqui um breve comentário, mais no intuito de divulgar a obra entre aqueles que não leram, ou leram na juventude e deixaram de sorver o vinho armazenado em velhos odres, o melhor de todos. Ler o livro de Herman Melville, “Moby Dick” depois de tantos anos, é uma grande aventura para a alma. Sim, o livro fala mesmo é de iniciação mística, da morte e ressurreição pensadas nos termos cristãos. É atualíssimo, não obstante a sua narrativa ser um tanto antiquada. Todo o texto fala de uma única pessoa, o próprio autor, e para compreender a epopéia é preciso lê-lo de trás para frente, mas isso não é possível numa primeira vez. É obra para os espíritos velhos, de todas as idades, sobretudo para quem já passou do meio-dia da vida.

As personagens principais não coincidentemente recebem nomes bíblicos. Ismael, o filho de Abraão com a serva de Sara, Agar, dá nome à personagem principal e narrador, o único que sobrevive à aventura heróica. Acab, personagem casado com Jezabel, “o que era mal aos olhos do Senhor, mais do que todos os que foram antes dele” (1Reis 16:30), dá nome à segunda personagem em hierarquia de importância. Jezabel era aquela que matava os profetas do Senhor. Elias, diante de Acab e de todo o povo, pergunta: “até quando coxeareis entre dois pensamentos?” (1Reis 18:21) Acab, a personagem, era coxo, pois o Leviatã havia lhe devorado uma das pernas.

É evidente, para quem conclui a leitura, que Acab é a velha personalidade de Ismael que precisava morrer para renascer, sendo Ismael o único que poderia sobreviver à louca aventura da alma. O título do Epílogo não deixa margem à dúvida: “E só eu escapei para contar-te”, citação extraída no Livro de Jó. Na página 204 de Moby Dick podemos ler: “Considerai tudo isso, e voltai-vos depois para essa verde, suave e docílima terra; considerai os dois, o mar e a terra: não descobris estranha analogia com algo dentro de vós? Pois assim como esse pavoroso oceano rodeia a terra verdejante, assim também na alma do homem jaz uma Taiti insular, cheia de paz e alegria, mas cercada de todos os horrores da existência semiconhecida. Deus te guarde! Não desatraques dessa ilha, não podes voltar jamais”. Claro que Melville refere-se à dialética entre o Eu e o Inconsciente, para usar a terminologia junguiana.

Em outra parte, à página 406/407, podemos ler: “Oh! Meus amigos, mas isso é matar o homem! E todavia isso é vida. Pois nem bem nós, mortais, com longas labutas extraímos do vasto corpo desse mundo seu escasso mas valioso espermacete; nem bem, com fatigada paciência, nos limpamos das sujeiras desse mundo e aprendemos a viver aqui, nos puros tabernáculos da alma; nem bem fazemos isso, quando – ‘Lá esguicha ela’ – jorra a alma, e lá velejamos para combater outro mundo e atravessar de novo a velha rotina da vida jovem”. Esse trecho deixa claro que a pesca da baleia é uma metáfora para o crescimento espiritual e que a baleia pode ela mesma ser identificada com a própria alma, posto que é um símbolo da transformação do inconsciente.

Outra personagem que precisamos sublinhar é Quiqueb, a sombra primitiva e canibal de um cristão civilizado, o canibal caçador de cabeças que as vendia empalhadas, chegando a dar uma delas para Ismael. Cabeças cortadas e empalhadas por um canibal primitivo são apenas uma maneira que o autor encontrou para mostrar o quando vale a função pensamento e mesmo o intelecto, desgrudado de sua plenitude com as demais funções psicológicas, como vemos no mundo moderno. Em outra parte do Moby Dick, duas cabeças de baleia são penduradas no navio, quais esfinges. Ainda uma vez notamos a preocupação de Melville em denunciar a unilateralidade do intelecto no mundo ocidental. Quiqueb é a Sombra de Ismael porque com ele divide o leito, fato estranhíssimo para um homem viril se não for considerado um recurso narrativo, para mostrar o conteúdo psicológico do mesmo. Dormimos com a nossa sombra agarrada às nossas costas, para o nosso desconforto e a nossa redenção. Em outra parte, Quiqueb e Ismael são amarados com cordas para cumprir tarefas arriscadas, de tal sorte que um só poderia viver se o outro também vivesse, formando uma unidade. Um dos capítulos, o de número X, dá ênfase a Quiqueb, que é chamado de forma sintomática de “Um amigo íntimo”.

O início da narrativa começa em uma noite escura e fantasmagórica, recurso também usado por Dante para iniciar o seu grande poema de iniciação – “A Divina Comédia” – para relatar os fatos da alma. Os tempos também são bíblicos: três anos de viagem, três dias de caçada, tempo que se liga diretamente a terceiro dia da paixão e morte de Cristo, quando ocorre a sua ressurreição. O autor, por esse recurso, também faz da sua aventura a máxima aventura do Cristianismo. Ele é salvo no final por um salva-vidas na forma de ataúde. A morte é seguida por ressurreição. Ismael é resgatado pelo veleiro “Raquel”, alusão àquela que não queria ser consolada, pois que seus filhos já não viviam, personagem do livro de Jeremias.

E o paralelo com o livro de Jonas mais do que salta aos olhos. Esse livro profético mantém interesse especial por dois motivos. O primeiro é que é uma narrativa estranhíssima e, a rigor, não é exatamente profético. Jonas foge de uma missão dada por Deus, mas dela não consegue se livrar. O segundo porque é o primeiro instante na história da Revelação que a Justiça divina é suplantada por sua Misericórdia. Por isso é um dos livros capitais da Bíblia. A metáfora do homem que por três dias entra no ventre da baleia e depois é devolvido a terra é uma prefiguração da história de Cristo, de sua morte e ressurreição.

A pesca da baleia e seus navios foram magistralmente utilizados por Melville como metáfora. O baleeiro, por exemplo, tem um forno, que pode ser considerado uma espécie de inferno das profundezas, onde ardem as almas penadas.

É notável a ausência de personagens femininas, que aparecem apenas em esposas, mães e filhas ausentes, e também nos nomes de outras embarcações (“Raquel”, “A Virgem”). Mas o elemento feminino é sobretudo sublinhado pelo oceano, as profundezas da função sentimento tão pouco desenvolvida nas pessoas do tipo pensamento. As cabeças empalhadas de Quiqueb mostram a compensação da consciência unilateral do autor, assim como o mar profundo a grandeza exaltada da função feminina por excelência, a sentimento. É uma epopéia masculina.

É óbvio que a leitura do livro pressupõe um certo conhecimento da Bíblia, sem o qual muitas passagens não terão sentido e muito da sutiliza psicológica não poderá ser percebida. Moby Dick é um evangelho escrito na forma de romance (Nivaldo Cordeiro).

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

DOUTOR FAUSTO

Título original: Doktor Faustus
Autor: Thomas Mann (1875-1955)
Tradutor: Herbert Caro
Assunto: Romance (Literatura estrangeira)
Editora: Nova Fronteira
Edição: 3ª
Ano: 2000
Páginas: 719

Sinopse: Narrada pelo seu amigo, o professor Serenus Zeitblom , esta é a história do músico Adrian Leverkühn que, como o Fausto de Goethe, vende a alma ao Demônio a fim de viver o suficiente para realizar sua grande obra. Publicado em 1947, este livro faz parte do período final da atividade criadora de Thomas Mann, sendo tecnicamente o seu romance mais ousado, no qual música e política, realidade e símbolo, fato e ficção combinam-se num grande panorama que, segundo Otto Maria Carpeaux, “alcançou uma altura na qual nenhum dos seus contemporâneos foi capaz de acompanhá-lo”.

Comentários: DOUTOR FAUSTO, de Thomas Mann é uma obra magnífica. A biografia romanceada do filósofo na qual ele aparece na encarnação de um músico que faz pacto com o Diabo para alcançar a glória da poesia/música. Este livro é comovente e aterrador, pois mostra como um homem pode se entregar ao Maligno voluntariamente para ter delírios de grandeza e, ao fazê-lo, praticar a servidão ao Mal em todas as suas dimensões. O livro de Mann é aterrador porque não tem redenção: a dramática confissão de Adrian Leverkühn ao final não serve para o perdão dos pecados. Deixa de ser confissão para ser um mero relato das maldades praticadas. Ele então desaparece sem receber a misericórdia divina, em oposição ao enredo de Fausto, de Goethe, que redime seu personagem pela graça de Deus e pela intercessão da Virgem Maria. Thomas Mann aponta corretamente a responsabilidade direta da obra de Nietzsche sobre os acontecimentos da Alemanha no período nazista. Os pecados de Leverkühn eram os pecados de toda a gente e a derrocada pessoal da personagem era o espelho da derrocada de seu país. O epílogo é a danação sem consolação alguma. E foi assim o epílogo para aquela geração insensata, que pereceu em grande parte pelas guerras (Nivaldo Cordeiro).

Conclusão: A sedução de Leverkühn pelo demônio é também a sedução e a danação da Alemanha pelo nazismo.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

ORTODOXIA

Título original: Orthodoxy
Autor: Gilbert Keith Chesterton (1874-1936)
Tradutor: Almiro Pisetta
Assunto: Apologética: Doutrina Cristã.
Editora: Mundo Cristão
Edição: 1ª
Ano: 2008
Páginas: 263

Sinopse: Esta obra é um marco do pensamento cristão do século XX. Numa época em que a Europa dava os primeiros passos para tornar-se uma sociedade pós-cristã, um intelectual cansado do cinismo reinante e do fascínio despertado por novas idéias, resgata o núcleo da fé cristã como arcabouço suficiente para dar sentido à existência humana.

Ao contar sua jornada espiritual, Chesterton defende os valores cristãos contra os chamados valores modernos como o cientificismo reducionista e determinista e faz saber à intelligentsia européia da primeira metade do século XX que o socialismo, o relativismo, o materialismo e o ceticismo estavam longe de responder às questões existenciais mais profundas. E quando questionado sobre as aparentes contradições da fé cristã, ele era um mestre em valer-se do paradoxo para apresentar a simplicidade do senso comum.

Enquanto isso, aqui no Brasil, padres, bispos e cardeais, em sua esmagadora maioria, aderem ao marxismo e a cura do corpo ao invés da alma. Abandonam a essência para se ocupar da forma. Esquecem-se do espírito para ocupar-se da matéria, do MST, da Via Campesina e da Teologia da Libertação constituindo-se assim, em traidores de Cristo, tal qual o foi Judas, dois mil anos atrás.

Um pequeno excerto da obra:

“Pessoas completamente mundanas nunca entendem sequer o mundo; elas confiam plenamente numas poucas máximas cínicas não verdadeiras. Lembro-me de que, certa vez, fiz um passeio com um editor de sucesso, e ele fez uma observação que eu ouvira antes muitas vezes antes; é na verdade, quase um lema do mundo moderno. Todavia, eu ouvi essa máxima cínica mais uma vez e não me contive: de repente vi que ela não dizia nada. Referindo-se a alguém, disse o editor: “Aquele homem vai progredir; ele acredita em si mesmo”. Disse-lhe então: “Quer saber onde ficam os homens que acreditam em si mesmos?” Eu sei. “Os homens que acreditam em si mesmos estão todos em asilos lunáticos”.

Ele disse calmamente que, no fim das contas havia um bom número de homens que acreditavam em si mesmos e que não eram lunáticos internados em asilo. “Sim, certamente”, retruquei, “e você mais do que ninguém deve conhecê-los. Aquele poeta bêbado de quem você não quis aceitar uma lamentável tragédia, ele acreditava em si mesmo. Aquele velho ministro com um poema épico de quem você se escondia num quarto dos fundos, ele acreditava em si mesmo. Se você consultasse sua experiência profissional em vez de sua horrível filosofia individualista, saberia que acreditar em si mesmo é uma das marcas mais comuns de um patife. Atores que não sabem representar acreditam em si mesmo; e os devedores que não vão pagar. Seria muito mais verdadeiro dizer que um homem certamente fracassará por acreditar em si mesmo. Total autoconfiança não é simplesmente um pecado; total autoconfiança é uma fraqueza. Acreditar absolutamente em si mesmo é uma crença tão histérica e supersticiosa como acreditar em Joanna Southcote: quem o faz traz o nome ´Hanwell´ [nome de um asilo para loucos] escrito no rosto com a mesma clareza que está escrito naquele ônibus” .

A tudo isso meu amigo editor deu uma profunda e eficaz resposta: “Bem, se um homem não acredita em si mesmo, em quem vai acreditar?” Depois de uma longa pausa eu respondi: “Vou para casa escrever um livro em resposta a sua pergunta”. Este é o livro que escrevi para responder-lhe.”

Sobre o autor:

Gilbert Keith Chesterton, conhecido como G. K. Chesterton, (Londres, 29 de maio de 1874 — Beaconsfield, 14 de junho de 1936) foi um escritor, poeta, narrador, ensaísta, jornalista, historiador, biógrafo, filósofo, desenhista e conferencista britânico.

Era o segundo de três irmãos. Filho de Edward Chesterton e de Marie Louise Grosjean. Casou-se com Frances Blogg. Concluiu os estudos secundários no colégio de São Paulo Hammersmith onde recebeu prêmio literário por um poema sobre São Francisco Xavier. Ingressa na escola de arte Slade School de Londres (1893) onde inicia a carreira de pintura que vai depois abandonar para se dedicar ao jornalismo e à literatura. Escreveu no Daily News. Nascido de família anglicana, mais tarde converteu-se ao catolicismo em 1922 por influência do escritor católico Hilaire Belloc, com quem desde 1900 manteve uma amizade muito próxima.

Ao falecer deixou todos os seus bens para a Igreja Católica. A sua obra foi reunida em quase quarenta volumes contendo os mais variados temas sob os mais variados gêneros. O Papa Pio XI foi grande admirador de Chesterton a quem conhecera pessoalmente.

Curiosidade: Chesterton era daqueles sujeitos que não conseguem passar despercebido aonde quer que estejam. A irreverência, o bom-humor e a eloqüência, associados a dois metros e nove centímetros de altura e a um peso médio de 140 quilos, transformavam qualquer ambiente; quer uma festa de aniversário infantil ou um acalorado debate com Bertrand Russel.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

OS NOIVOS

Título original: I Promessi Sposi
Autor: Alessandro Manzoni
Tradução: Marina Guaspari
Assunto: Romance-histórico – Literatura estrangeira
Editora: Abril
Edição: 1ª
Ano: 1971
Páginas: 290

Sinopse: No norte da Itália, no século XVII (1628), durante a ocupação espanhola ao ducado de Milão, os jovens camponeses Lourenzo (Renzo) e Lúcia querem casar-se. Porém, Dom Rodrigo, o senhor da aldeia, deseja Lúcia por conta de uma aposta com o primo conde Atílio, proíbe o casamento ameaçando o padre Abbondio. O padre Abbondio, um poltrão congênito, depois de ameaçado, não realiza a cerimônia; Renzo recorre a um advogado (rábula) que nega ajuda ao casal por ser freqüentador do castelo do senhor Rodrigo; para não caírem numa armadilha dos sicários do senhor Rodrigo, os noivos vêem-se forçados a fugir. E assim começa todo o drama do casal, enredo principal da história, mas que apresenta muitos outros desdobramentos, tal como distúrbios populares por falta de pão, a devastação e rapinagem causada pelos vinte e oito mil infantes e sete mil cavaleiros que cruzaram o ducado de Milão, saqueando tudo e violentando todos e, finalmente a peste bubônica que assolou o norte da Itália matando 280 mil pessoas.

Tudo isso é contado na obra de Manzoni de forma magistral.


Sobre o autor: Alessandro Francesco Tommaso Antonio Manzoni (Milão, 7 de março de 1785 — Milão, 22 de maio de 1873) considerado como o segundo maior escritor e poeta italiano, depois de Dante Alighieri, embora tenha escrito um único romance de sua vida a obra-prima I promessi sposi, traduzida para o português com o título Os noivos.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Vol X- IGREJA DAS REVOLUÇÕES ( III )

Título original: L´Église des Révolutions ( III )
Autor: Daniel-Rops (Henri Jules Charles Petiot – 1901-1965)
Tradução: Henrique Ruas
Editora: Quadrante
Assunto: Religião-Cristianismo
Edição: 1ª
Ano: 2008
Páginas: 632

Sinopse: No décimo e último volume da coleção, Daniel-Rops narra as vicissitudes por que passaram os cristãos separados de 1789 até hoje.

Este é o último dos volumes da História da Igreja de Cristo, de Daniel-Rops. O autor estava trabalhando no décimo primeiro, que trataria do Concílio Vaticano II e de tantas outras manifestações da vitalidade da Igreja Católica quando faleceu, em 1965. Em Esses nossos irmãos, os cristãos, terceiro tomo de A Igreja das Revoluções, estuda os acontecimentos que, de 1789 até hoje, disseram respeito aos “irmãos separados”, pois a abundância do material o havia obrigado a reservar os dois tomos anteriores para os fatos da Igreja Católica.

Quem deseje um panorama objetivo e abrangente, mas de leitura cativante, que o ajude a localizar-se no meio das principais Igrejas, denominações, movimentos ou seitas que se declaram protestantes, ortodoxas, monofisitas ou nestorianas, encontrará aqui breves monografias que situam cada uma no seu lugar próprio, um perfil dos seus respectivos fundadores, um esboço da sua doutrina e um retrato da sua situação recente.

Por outro lado, o autor rejeitou deliberadamente tudo o que pudesse dar ao seu livro um caráter polêmico, por pensar que “uma atitude agressiva, seja qual for o terreno em que se manifeste, nunca procede de um amor autêntico à verdade, mas muito mais de uma adesão sectária a um partido, a um sistema de pensamentos e aos seus preconceitos”. Sem ferir nem a verdade da Revelação nem a da história, teve por objetivo principal compreender e fazer compreender, o primeiro passo no processo desse ecumenismo que, de acordo com o desejo de tantas almas do mundo inteiro, poderá conduzir um dia, se Deus assim o quiser, à união de todos os cristãos.

O livro abre-se sobre quatro cenas muito vivas, que descrevem o culto em formações protestantes vastamente diferentes. Traça a seguir um corte histórico que, da Reforma aos dias de hoje, recorda e mostra a origem dos grandes ramos protestantes – o luteranismo, as inúmeras derivações do calvinismo, os metodistas e batistas, os pentecostais... – e da Comunhão anglicana. No segundo capítulo, o autor, lançando mão do método que já seguiu nos volumes anteriores, faz um corte por assim dizer “geográfico” das grandes massas protestantes no mundo. Percorre desde as Igrejas quase que nacionais dos países nórdicos até o país da máxima pulverização religiosa, que é ao mesmo tempo um “bastião” do protestantismo: os EUA. Traça um quadro da expansão missionária protestante na África e na Ásia – que contou com figuras verdadeiramente impressionantes, como a de Livingstone na África ou de Güntzlaff na China – e do crescimento ocorrido ao longo do século passado na América Latina, para terminar com um breve resumo da situação mundial.

A seguir, num capítulo riquíssimo sobre o “espírito e a alma do protestantismo”, o autor debruça-se sobre os movimentos de “Despertar” que renovam uma e outra vez as formações nascidas da Reforma, embora dando origem, também uma e outra vez, a novas ramificações. Aqui encontramos retratos de grandes pensadores, como Kierkegaard e os teólogos Karl Barth e Rudolf Bultmann, esboços de correntes de pensamento como o protestantismo liberal e o social, panoramas do movimento de retorno à liturgia e do renascimento monástico consubstanciado em Taizé, estudos sobre as artes, um estudo da vida da alma exemplificado na figura de um “santo”, Toyohiko Kagawa, e um panorama da fragmentação mais recente, que mostra claramente a grande ameaça que paira sobre o futuro do protestantismo.

O quarto e o quinto capítulo estudam a Ortodoxia, também ela fragmentada em diversas Igrejas autocéfalas, embora mantenha substancialmente a unidade doutrinal; e as antigas Igrejas que se separaram da Igreja Católica entre os séculos III e VI, monofisitas e nestorianas. Além da história, doutrina, espiritualidade, grandes figuras e situação presente, vale a pena destacar o caso da Igreja russa, a maior das ortodoxas e a que mais sofreu com a perseguição comunista.

O último capítulo traz as palavras duras e comoventes de um protestante converso chinês sobre o triste panorama da “Túnica inconsútil” de Cristo, rasgada pelas misérias humanas: “Os senhores revelaram-nos Jesus Cristo, e estamos agradecidos por isso. Mas também nos trouxeram as suas distinções e divisões: uns pregam o metodismo, outros o luteranismo; outros são congregacionalistas, e outros ainda episcopalianos. O que lhes pedimos é que nos preguem o Evangelho”. É o ponto de partida para debruçar-se sobre a história do movimento ecumênico, que tem congregado tantas esperanças e conta com a bênção de vários papas.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Vol IX- A IGREJA DAS REVOLUÇÕES ( II )

Título original: L´Église des Revolutions
Autor: Daniel-Rops (Henri Jules Charles Petiot – 1901-1965)
Tradução: Henrique Ruas
Editora: Quadrante
Assunto: Religião-Cristianismo
Edição: 1ª
Ano: 2006
Páginas: 768

Sinopse: De 1870 ao começo da Segunda Guerra Mundial, um panorama essencial para compreender a nossa época. Quatro Papas de grandeza excepcional moldam ao destinos da Igreja atual: São Pio X combate o modernismo e aproxima a Eucaristia do povo cristão, Leão XIII e Bento XV preparam o nascimento da doutrina social da Igreja e das democracias-cristãs, e Pio XI trava uma luta ingente contra os totalitarismos nazista e comunista.

“Deus está morto”, proclamava o profeta do ateísmo Friedrich Nietzsche; mas, no mesmo ano em que morria, 1900, o papa Leão XIII apresentava numa encíclica o sacrifício redentor de Cristo como o alfa e o ômega do homem e do seu destino.

Essa dupla atitude, esse desafio, modela o período estudado no presente volume da História da Igreja, que vai de 1870 até o começo da segunda Guerra Mundial, em 1939. E bem podemos dizer que representa ainda hoje a principal explicação para as turbulências do nosso tempo.

O autor traça-nos o panorama de todo um mundo que muda de alicerces sob o impacto de forças que parecem ameaçar a Igreja numa escala nunca dantes vista: é o laicismo de cunho liberal, que vem abertamente “lutar contra a moral cristã, expulsar das consciências os velhos dogmas”; é o ateísmo, que se alimenta do positivismo e do materialismo nas suas diversas vertentes – freudismo, darwinismo, marxismo... –; é a “religião da ciência”, que lança o mito do eterno progresso. Enfim, é todo um conjunto de ideologias que se erguem para proclamar que homo homini deus – em lugar do velho Deus assassinado, agora o homem é deus para si mesmo. Mas esse novo deus não tardará a revelar a sua verdadeira face nos totalitarismos triunfantes.

Em oposição a essa cultura descristianizada e às vezes francamente anticristã, erguem-se quatro Papas de envergadura excepcional: Leão XIII, São Pio X, Bento XV e Pio XI. No “combate por Deus” que têm de travar, a velha barca de Pedro, aparentemente sempre à beira do naufrágio, não somente sobreviverá, mas sairá fortalecida.

Quando Leão XIII é eleito Papa, em 1878, “parecia um nobre vencido. Dir-se-ia estar tudo perdido, exceto a honra da bandeira da Cruz”. Mas o sábio e hábil pontífice “diplomata” resolve as querelas políticas, encaminha as bases dos futuros partidos democratas-cristãos e traça de maneira decisiva os rumos da doutrina social da Igreja.

Graças a ele, São Pio X, o “papa-pároco de aldeia”, pôde centrar-se no seu programa de “tudo restaurar em Cristo”. Foi sobre ele que recaiu a difícil e dolorosa tarefa de pôr termo à crise do modernismo, “encruzilhada de todas as heresias”, que deixaria rastro em muitas mentes até o dia de hoje. Mas o seu coração estava em reconduzir as almas à prática dos sacramentos e em promover a renovação espiritual da Igreja pelo incentivo à devoção eucarística e ao Sagrado Coração, ou pelo esforço de formar um clero zeloso e recristianizar os arrabaldes operários.

O breve pontificado de Bento XV foi obscurecido pela terrível tarefa de conduzir a Igreja através do drama da primeira Guerra Mundial. Mas a sua grande tarefa foi na verdade preparar a paz, e talvez tivesse sido possível evitar a repetição da catástrofe se as potências vencedoras tivessem dado mais ouvidos à sua voz ao elaborarem os tratados de Versalhes.

Pio XI, o papa dos “grandes acordos” – foi no seu pontificado que enfim se resolveu a questão da Conciliazione com a Itália, da qual nasceu o Estado do Vaticano –, foi também o papa dos “grandes combates”. Defensor fidei e defensor hominis – “defensor da fé” e “do ser humano” –, presenciou os atropelos do fascismo italiano, os desvarios do nazismo e a terrível perseguição aos cristãos lançada pelo marxismo no México, na Espanha e na URSS, e condenou com enorme fortaleza esses três ídolos monstruosos num momento em que pareciam estar a ponto de devorar o mundo.

Completam esta obra os grandes panoramas com que o autor retrata a expansão de uma Igreja que se faz “à dimensão do mundo”: é o apostolado “do igual com o igual” por meio das JOCs e da AC; são os Estados Unidos, onde a Igreja “sobe em flecha”; são as terras por batizar, onde avultam grandes figuras de missionários e mártires, como o pe. Damião de Veuster ou Charles de Foucauld, “irmão universal”; ou ainda a arte e o pensamento contemporâneos, que se renovam sob o influxo dos pensadores e artistas católicos.

A obra termina com o retrato de Santa Teresa do Menino Jesus, padroeira dos missionários e desbravadora do “pequeno caminho de infância”, hoje tão conhecido. Nessa santa, que de certa forma condensa a intensa fermentação que podemos ver neste volume, encontra-se a resposta da Igreja ao desafio de Nietzsche: Deus vive, e continua bem vivo nesta Igreja de santidade.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

HOMENAGEM A SANTO AGOSTINHO

Neste dia 28 de agosto homenageamos os 1579 anos da morte de SANTO AGOSTINHO, doutor da Igreja Católica Apóstólica Romana, com a cronologia de sua vida.




SANTO AGOSTINHO (354-430)
― Cronologia―

44
Júlio César reconstrói, em lugar diferente, a cidade de Cartago, destruída em 146 a.C., criando uma província romana da África, a Numídia.
253
Plotino (204-270) começa a escrever as “Enéadas”, obra central do neoplatonismo.
312
Os bispos da Numídia recusam-se a aceitar a consagração de Ceciliano como bispo de Cartago e impõem o bispo Donato, iniciando o cisma donatista que girava em torno da seguinte questão: “A Igreja é compatível com a torpeza de seus membros?”, dúvida gerada pela existência, no seio da Igreja, de traditiori, aqueles que haviam abandonado o Cristianismo durante as perseguições de Diocleciano entre 303 e 305.
313
― Constantino promulga o Édito de Milão, tornando o cristianismo religião oficial do Império Romano Ocidental.
323 ― Introduzida na África a doutrina maniqueísta, de autoria do persa Mani (215-276), também conhecido como Maniqueu ou Manes.
325
― O concílio de Nicéia condena a doutrina ariana (do presbítero Arius, morto em 336) que nega a consubstancialidade de Jesus Cristo. O principal opositor à heresia é Santo Atanásio de Alexandria, doutor da Igreja.
350
― Ulfila traduz a Bíblia para o gótico.
354
― Aurelius Augustinus nasce no dia 13 de novembro em Tagaste (hoje Souk-Ahrás na Argélia) na então província pró-consular do antigo reino da Numídia. Seu pai, cidadão romano de nome Patricíus e de natureza violenta, tem doze hectares de terra e é pagão. Sua mãe, Mônica (mais tarde Santa Mônica), é cristã e berbere, No final da vida, Patricius seria convertido pela mulher. Agostinho teve um irmão, Navigius, e uma irmã, Perpétua, futura superiora do monastério de Hipona. A família fala o cartaginês e tem cultura latina. Agostinho não aprecia a escola e os estudos, embora seu pai sonhe em torná-lo doutor em leis. Mônica garante-lhe uma educação cristã, mas o menino não é batizado, conforme costume da época de adiar o sacramento.
355
― Invasão da Gália pelos francos, alamanos e saxões. Os hunos surgem na Rússia.
365
― Agostinho estuda em Madaura.
369
― Vive em Tagaste.
370
― Agostinho estuda, a contragosto, em Madaura, onde aparentemente lhe ensinam o trivium. No final deste ano, Agostinho vai a Cartago para estudar às expensas da família, mas antes disso vive um ano mundana e desregradamente. Os hunos atingem Don e vencem os ostrogodos.
371
― Morre o seu pai e Agostinho torna-se protegido de Romanianus, amigo de seu pai. O rapaz, que vai estudar retórica, é conquistado pela atmosfera sensual de Cartago. Junta-se a uma concubina, nunca indicada pelo nome, com quem manteria relação de quinze anos e da qual nasceria seu único filho, Adeodato.
372
― Nasce seu o filho natural, Adeodato.
373
― Lê o elogio à filosofia “Hortensius” de Cícero, obra hoje perdida, e converte-se à filosofia. Lê más versões da Bíblia, despreza as Escrituras, e aproxima-se dos maniqueístas, para desespero de sua mãe. Agostinho, que defende o maniqueísmo ardentemente, atrai para a seita seu amigo Alípio e seu benfeitor, Romanianus.
375
― Formado, retorna a Tagaste para ensinar gramática. Sua mãe nega-lhe acesso à casa.
376
― De volta a Cartago, ganha um prêmio literário (corona agonistica) que recebe das mãos de Vindicianus, pró-consul romano na cidade, que o adverte contra a astrologia, ciência pela qual Agostinho andava obcecado.
380
― Agostinho escreve sua primeira obra, “De Pulchro ET Apto” (“Belo e Conveniente”), um tratado de estética, hoje perdido.
― Antes de partir para Roma, conhece Faustus de Mileve, o bispo maniqueísta que havia vindo visitar Cartago e convence-se de que aquela doutrina é pura retórica. O próprio Faustus admite não poder explicar os pontos levantados por Agostinho. Na capital do império, freqüenta líderes maniqueístas, mas começa a se distanciar da seitam que abandonaria completamente em dois anos. Fica muito doente a ponto de quase morrer. Restabelecido, abre escola de retórica em Roma.
― Teodósio e Graciano contêm os godos no Epiro e na Dalmácia. O Edito de Teodósio torna o cristianismo religião oficial no Império Romano do Oriente.
383
― O padre Jerônimo (c. 343-420), mais tarde São Jerônimo, recebe encomenda do papa Dâmaso para rever o Novo Testamento, estabelecendo o texto da Vulgata por volta do ano 400.
384
― Desgostoso com a desonestidade intelectual e financeira dos alunos (“os alunos conspiram e passam em grande número de um professor para outro, a fim de não pagarem os mestres, faltando deste modo os compromissos e menosprezando a justiça por amor ao dinheiro”), muda-se para Milão para ocupar vaga de professor de retórica, onde freqüenta poetas e filósofos platônicos. (O neoplatonismo faria a ponte entre o maniqueísmo e o cristianismo).
― Mônica muda-se para Milão também. Agostinho torna-se seguidor do bispo de Milão, Ambrósio (mais tarde Santo Ambrósio e doutor da Igreja). Rompe com sua concubina que se retira para um convento, mas arranja outra, enquanto espera um casamento combinado por Mônica com uma família da sociedade.
― São Jerônimo começa a tradução da Bíblia para o latim, tradicionalmente conhecida como Vulgata.
386
― Converte-se ao Cristianismo em agosto quando, aos 31 anos, angustiado sob uma figueira, ouve uma voz infantil que lhe diz: “Tolle, lege, tolle, lege”, o que o faz ler a Epístola aos Romanos, primeira passagem que encontra . Com ele, converte-se também seu amigo Alípio. A linha que Agostinho segue é a de Paulo de Tarso (paulinismo).
― Teodósio repele os godos no Danúbio.
387
― No dia 23 de maio, Agostinho já em Milão, escreve o “Tratado da Imortalidade da Alma”.
― Na noite do dia 24 de abril, Agostinho, Alípio e Adeodato são batizados por Ambrósio (340-397).
― Em agosto decide voltar a Tagaste com sua mãe, Adeodato e seus amigos. Mônica, com 56 anos, adoece e morre no porto de Óstia, antes de embarcar. Agostinho volta a Roma.
388
― Volta à África no verão, após cinco anos de ausência, liquida os bens da herança, dá o dinheiro aos pobres, e cria uma comunidade perto de Tagaste, onde vive com os amigos e discípulos. Neste período, redige “Costumes da Igreja Católica”, “Costume dos Maniqueístas” e “De Vera Religione” e conclui “Da Grandeza de Alma”, que havia começado a escrever em Roma.
― Morre aos 17 anos seu filho Adeodato.
389
― Termina “De Magistro”, em que o interlocutor de Agostinho teria sido seu filho Adeodato, revelando excepcional maturidade para dezessete anos de idade.
390
― Conflito entre Santo Ambrósio e Teodósio.
391
― Transforma sua casa em mosteiro, chamando-o “jardim” à moda do jardim de Epicuro. Apesar de preferir viver recluso, numa estada em Hipona (Hippo Regius ou Bona) é aclamado pelo povo e Valério, bispo de Hipona, o ordena. Muda-se para Hipona.
392
― Polemiza com o maniqueista Fortunato.
― O direito de asilo é reconhecido nas igrejas. São Jerônimo escreve De Viris Illustribus.
394
― Os jogos Olímpicos são suprimidos.
395
― Agostinho polemiza com Jerônimo (mais tarde São Jerônimo), autor da Vulgata, sobre controvérsias teológicas da tradução “Septuaginta” (tradução do “Torá” para o grego, realizada por setenta e dois rabinos durante setenta e dois dias).
― Termina a obra “Do Livre Arbítrio”.
― Suplício Severo escreve "A Vida de São Martinho".
― Os hunos invadem a Ásia e chegam até Antioquia.
396
― Torna-se bispo de Hopina, sucedendo Valério. Ocuparia este cargo por 35 anos, até quase a morte.
― Os godos invadem a Grécia.
― Fim dos Mistérios de Elêusis.
399
― São fechados os templos pagãos.
― Agostinho escreve “A Catequese dos Principiantes” e “De Trinitate”.
400
― Termina “As Confissões” (“Confessionum libri tredecim”). [Treze livros das confissões].
― Os hunos atingem o Elba.
404
― Debate com Félix, um dos doutores maniqueístas, que se declara derrotado e abraça o Cristianismo.
407
― Invasão da Gália pelos vândalos e suevos.
408
― Os saxões entram na Bretanha.
409
― Pelágio[1] (360-420) visita Cartago. Agostinho polemiza com ele.
― Os vândalos e os suevos invadem a Espanha.
410
― O visigodo Alarico saqueia Roma.
413
― Agostinho começa a redigir “A Cidade de Deus”, a primeira obra de filosofia da história, descrevendo-a como o resultado da luta constante entre Civita Dei e a Civita terrena, e “As Retratações”, que terminará em 426.
417
― Paulus Orosius, discípulo de Agostinho, publica a História Universalis.
422
― Faz campanha pública contra o cisma donatista, debatendo em público com o bispo Antonino.
426
― Obtém permissão para estudar cinco dias por semana e nomeia Heráclito seu auxiliar e sucessor.
429
― Os vândalos penetram na África.
430
― Adoentado, Agostinho morre com setenta e cinco anos no dia 28 de agosto, quando do cerco das tropas de vândalos à cidade de Hipona. Seu corpo mais tarde, seria transferido para a catedral San Pietro de Cielo D´oro em Pavia, perto de Milão.
524
Boécio (c. 480-524) escreve “A Consolação da Filosofia”.
1298
― Santo Agostinho é proclamado “doutor da Igreja”.

[1] Pelágio afirmava que “não havia pecado original”, o que era considerado uma heresia pela Igreja Católica.

Nota: Cronologia elaborada por José Monir Nasser.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Vol VIII- A IGREJA DAS REVOLUÇÕES ( I )

Título original: L´Église des Révolutions ( I )
Autor: Daniel-Rops (Henri Jules Charles Petiot – 1901-1965)
Tradução: Henrique Ruas
Editora: Quadrante
Assunto: Religião-Cristianismo
Edição: 1ª
Ano: 2003
Páginas: 848

Sinopse: Com a Revolução francesa, abre-se um período de novas perseguições e ataques. Mas esse século é ao mesmo tempo um período de conquista: são inúmeras as associações religiosas que surgem, renovando as obras de caridade e o espírito missionário; restaura.

No dizer de um poeta, a modernidade entrou na História por um cortejo triunfal através do pórtico da Revolução francesa – mas no alto desse pórtico estava a guilhotina. O símbolo representa bem o novo período da História de que trata este volume, a “Era das Grandes Revoluções”. É o momento em que a revolta da inteligência, preparada e planejada no “século das luzes”, chega ao plano das realidades políticas e sociais, manifestando-se numa convulsão sem precedentes.

A Revolução Francesa inaugurou as perseguições propriamente “modernas” contra a Igreja, revivendo cenas dos primeiros séculos e antecipando as terríveis repressões anticristãs do século XX; mas, sobretudo deu origem ao laicismo, a tentativa de uma sociedade inteira de prescindir por completo de Deus, de organizar-se e viver como se o “Senhor da História” não existisse.

Mesmo a aparente tolerância do período napoleônico não passou disso, de aparência, pois o imperador quis assenhorear-se da Igreja e servir-se dela como meio de governo. E a posterior divisão da Europa em dois campos, o dos “tradicionalistas”e o dos “liberais”, com as revoluções européias de 1830 e de 1848 e as turbulências que acompanharam a unificação italiana e a alemã, apanhou os cristãos no redemoinho dos ódios políticos e ideológicos, ora perseguindo-os, ora dividindo-os entre si.

Ao longo do século, o laicismo avançou para o ateísmo no plano das idéias. Houve todo um pulular de sistemas que pretendiam explicar a realidade excluindo explícita ou implicitamente a Deus: o idealismo hegeliano, o evolucionismo darwinista desfigurado e transformado numa “religião do progresso”, o positivismo comteano... O socialismo, oscilando entre sentimentalismos mais ou menos bem intencionados e a férrea dialética marxista, preparou a tentativa mais desumana de todos os tempos para extirpar o cristianismo e impor aos homens os descentrados ideais surgidos na Revolução. E com Strauss e Renan ergueu-se um fogo de barragem sem precedentes para privar o Salvador da sua divindade e até da sua realidade histórica.

Paradoxalmente, esse mesmo “século da agonia de Deus” correspondeu a um desabrochar espiritual extraordinário. Se é verdade que o cristianismo sofreu o mais duro assalto de toda a sua longa História, é fato que conheceu também um período de extraordinária vitalidade, de plenitude. A renovação que germinava como fruto das provações do período revolucionário culminou num desenvolvimento de tal ordem que bem poucas épocas lhe podem ser comparadas. Igreja em que a fé se torna mais sólida, mais profunda, menos convencional e rotineira. Igreja cujo clero se transforma e se mostra digno de respeito e mesmo de admiração na sua quase totalidade. Igreja em que as Congregações religiosas continuam a proliferar de modo assombroso. Igreja em que se desenvolvem amplos movimentos de devoção, em que nascem uma nova apologética, uma preocupação social mais profunda, um novo espírito de conquista missionária, as grandes peregrinações. Igreja, ainda, e sobretudo, em que a santidade surge em figuras exemplares, Igreja do Cura d Ars e de São João Bosco...

Por fim, as aparições de Nossa Senhora em Lourdes e em La Salette representam como que um fecho de ouro e uma espécie de sanção sobrenatural a esse processo de purificação e renovação do cristianismo durante a Era das Revoluções – processo que na verdade ainda não se encerrou.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Vol VII- A IGREJA DOS TEMPOS CLÁSSICOS ( II )

Título original: L´Églises des temps Classiques (II)
Autor: Daniel-Rops (Henri Jules Charles Petiot – 1901-1965)
Tradução: Henrique Ruas
Editora: Quadrante
Assunto: Religião-Cristianismo
Edição: 1ª
Ano: 2001
Páginas: 416

Sinopse: No dizer de um poeta, a modernidade entrou na História por um cortejo triunfal através do pórtico da Revolução francesa – mas no alto desse pórtico estava a guilhotina. O símbolo representa bem o novo período da História de que trata este volume, a “Era do Terror".

Abrindo-se sobre o caso Galileu e, mais amplamente, sobre o grande fermentar do “século das luzes”, este volume da História da Igreja estuda os grandes abalos que atingiram a Igreja nos séculos XVII e XVIII.

É, em primeiro lugar, essa revolta da razão que, na França, foi promovida pelos panfletistas que chamaram a si o nome de “filósofos”: o “rei” Voltaire, Diderot com a sua Enciclopédia, Helvétius e tantos outros. Na Inglaterra, os “deístas”, que pretendem dissolver o cristianismo na religião natural; na Alemanha, o movimento da Aufklärung, que preparará o protestantismo liberal e a “morte de Deus” em quase todas as Igrejas da Reforma, ameaçando arrastar consigo parte da teologia católica.

Mas há também, menos popular, mas mais perigoso, o ataque dos “racionais” que, na esteira de Descartes, minarão as próprias bases da fé: Spinoza, o bem-intencionado Malebranche, Kant. E o pensamento imaturo e sentimental de Jean-Jacques Rousseau, que levará às desastrosas tentativas futuras de reforma radical da sociedade, da Revolução Francesa aos totalitarismos marxistas e maoístas. Interessante é notar como as duas linhas em conjunto acabariam por promover, no século XX, o desencanto completo com a razão e o surto da falsa religiosidade das seitas e dos esoterismos, centrada na emoção irracional.

No plano político, o fortalecimento e o endurecimento do bloco protestante, acompanhado do surgimento de uma nova potência protestante, os Estados Unidos, acaba redundando também no enfraquecimento do catolicismo. E os “déspotas esclarecidos” que não deixam de se manifestar igualmente nos países católicos, com Pombal e Aranda na Península Ibérica e José II na Áustria, renovarão as velhas tentativas por sujeitar a Igreja ao Estado nas suas diferentes nações e se porão de acordo para forçar o Papado a esse erro capital que foi a supressão da Companhia de Jesus.

No conjunto, o panorama é entristecedor. O esforço missionário no Oriente e na África recua e parece destinado ao fracasso; as Igrejas nacionais dão sinais de se terem fossilizado na sua simbiose com os poderes políticos; os Estados cristãos parecem ter optado decididamente pelo cinismo; e o próprio Papado não se mostra à altura desses desafios, embora tenha contado geralmente com papas irrepreensíveis quanto à conduta e à doutrina.

Mas por todas as partes se vêem germinar as sementes do futuro: na renovação dos estudos bíblicos e hagiográficos, na apologética, na renovação da piedade popular promovida pelos santos. Assim, quando as terríveis crises revolucionárias do século XIX atingirem a Igreja e ameaçarem fazer ruir esse velho edifício aparentemente tão cheio de rachaduras, só conseguirão arrancar-lhe a casca das alianças humanas, fazendo ressurgir, intacto e renovado, o seu núcleo divino e imperecível.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

UM INIMIGO DO POVO

Título original: En Folkefiende
Autor: Henrik Ibsen (1828-1906)
Tradução: Vidal de Oliveira
Editora: Globo
Assunto: Drama
Edição: 1ª
Ano: 1984
Páginas: 390

O Inimigo do Povo (En Folkenfiende) é uma peça de teatro escrita pelo dramaturgo norueguês Henrik Ibsen em 1882, e apresentada pela primeira vez no Teatro Nacional de Oslo em janeiro de 1883.


Sinopse: O Inimigo do Povo (1882) retrata o conflito existente entre o individual e o coletivo, mostrando de que forma a população de uma pequena cidade-balneário da Noruega transforma o médico local de cidadão honrado em um inimigo do povo por conta de suas convicções a respeito da qualidade das águas que serviam os banhos públicos, fonte de riqueza para toda a cidade.


Interpretação aparente - simplista: A história passa-se numa cidade do interior da Noruega cuja maior fonte de renda advém de sua Estação Balneária. O Dr. Stockmann inquieta-se com as doenças que turistas e concidadãos apresentam e resolve investigar a água da cidade. Para sua surpresa percebe que todo o encanamento de água está poluída. Homem da ciência, sente-se no dever de levar a verdade ao povo, mas sua denúncia representará o fechamento do balneário por dois anos e uma suspeição geral levantada sobre suas qualidades mesmo depois das obras necessárias para resolver a questão. Isso causaria um transtorno para a cidade, que deixaria de lucrar com o turismo. Não denunciar o fato, contudo, vai contra os ideais de Stockmann. A poluição das águas é usada como metáfora no drama de Ibsen para denunciar a sujeira na estrutura social daquela cidade - no governo, na imprensa, no comércio e na sociedade em geral. A insistência do Dr.Stockmann em fazer prevalecer a verdade torna-o persona non grata para a população, sobretudo ao defender a idéia de que os valores daquela cidade estão sustentados sobre a mentira e de que o povo não tem a razão, ou seja, a maioria não tem o monopólio da verdade. Ele torna-se um inimigo do povo e conta apenas com o apoio de sua família e de alguns poucos membros da comunidade, que passam a sofrer represálias por conta disso. A convicção de Stockmann em relação a verdade, contudo, faz com que ele mantenha-se firme em seus propósitos até o fim, mesmo sabendo que seu papel relevante naquela comunidade jamais seria retomado.

Estrutura e trama por atos

O drama de Ibsen é dividido em cinco atos, seguindo uma estrutura típica do drama realista do final do século XIX, que por sua vez herdara tal divisão do teatro do neoclassicismo.

Primeiro ato:

O primeiro desses atos ocorre na sala de estar da casa do Dr. Stockmann, e inicia-se com uma conversação entre a Sra. Stockmann, o prefeito Peter Stockmann – seu cunhado, irmão do Dr. Stockmann – e os dois membros do jornal local, Hovstad e Billing. Eles falam sobre as excelentes condições sanitárias do balneário, da paz e prosperidade que os banhos públicos trouxeram para a cidade e também do trabalho do Dr. Stockmann. Este chega à casa acompanhado do Capitão Horster, um oficial da Marinha Mercante. A conversa entre os dois irmãos revela a relação conflituosa existente entre os dois, e a saída do prefeito dá espaço para que os presentes comentem sobre seu caráter. Ao final do primeiro ato, Ibsen apresenta o cerne do conflito: Dr. Stockmann recebe uma carta na qual toma conhecimento de que suas suspeitas são fundadas – as condições sanitárias das águas que servem os banhos municipais são péssimas e o balneário precisa ser fechado; a notícia é recebida com entusiasmo pelo médico, que vê na sua descoberta um triunfo seu em defesa da saúde da população, e pelos jornalistas, que vêem na novidade mais uma possibilidade de minar o poder local. Este primeiro ato tem funções semelhantes ao prólogo usado no teatro grego clássico; nele, há a apresentação da situação inicial e do espaço em que se passa a trama – sabe-se que a ação ocorrerá em um balneário no qual os banhos públicos são importante fonte de renda e a vida prospera por conta disso –, bem como do protagonista, mostrado inicialmente à platéia por meio das falas de personagens secundários. A chegada da carta funciona como uma mudança da fortuna, indicando fama e glória para o médico mas, ao mesmo tempo, antecipando para o público a situação trágica do drama.

Segundo ato:

Ainda que mantido o mesmo cenário do ato anterior, o problema lançado na trama pela carta recebida pelo Dr. Stockmann configura-se mais detalhadamente: ele e seu irmão entram em franco confronto – um pregando a necessidade de esclarecer a população sobre os perigos do uso daquelas águas, o outro lutando pela defesa dos interesses municipais e pelo abafamento do caso. A discussão dos irmãos é antecipada por um diálogo entre o médico e seu sogro, o padastro de sua esposa, Morten Kiil, cuja presença neste ato serve para corroborar suas ações futuras no desfecho da trama. Os jornalistas – e o dono do jornal, Aslaksen, afirmam seu apoio ao Dr. Stockmann e seu interesse em publicar um artigo do médico esclarecendo a situação à população. É neste segundo ato que o protagonista, Dr. Stockmann, é colocado no centro da situação trágica: sua decisão de divulgar os resultados de suas pesquisas sobre a qualidade da água no balneário é capaz de destruir a paz da pequena cidade.

Terceiro ato:

Em continuação ao que fora iniciado no segundo, trabalha a agudização do conflito: o Dr. Stockmann não mais se encontra no ambiente doméstico, mas em um local de domínio da esfera de trabalho – a redação do jornal “Mensageiro do Povo”, para onde se dirige no intuito de entregar seu artigo para publicação. A interferência de seu irmão e prefeito da cidade, contudo, marcará a mudança da fortuna para o médico: os jornalistas vêem-se impedidos de segui-lo diante da persuasão de Peter Stockmann e todos voltam-se contra as idéias do médico, fazendo publicar um artigo do prefeito no qual ele condena as notícias que considera “infundadas e suspeitas” sobre as condições de higiene das águas.

Quarto ato:

A mudança apresentada no ato anterior representa também o início do isolamento do médico naquela sociedade, encontrará no quarto ato seu clímax: a ação ocorre na sala da casa do Capitão Horster, cedida para abrigar a reunião dos cidadãos para deliberar sobre os destinos do balneário; os homens mais poderosos da cidade, representados pelo prefeito e pelo Sr. Aslaksen, tomam a palavra e propõem que o médico não seja ouvido. Dr. Stockmann toma da palavra, ainda assim, e denuncia o que chama de “envenenamento da vida moral” daquela cidade, o que faz com que seja declarado um “inimigo do povo” e rechaçado pela população. A cena resume, em grande parte, os temas centrais da peça: os conflitos entre individual e coletivo, entre razão e emoção, entre idealismo e pragmatismo e também entre a justiça e o poder.

Quinto ato:

O último ato representa, no ritmo da peça, uma nítida desaceleração em contraste com a agitação do ato precedente: de volta ao âmbito doméstico, Dr. Stockmann contabiliza as perdas materiais – a casa, desde a noite anterior, é alvo de vandalismo – e morais – os filhos que precisam sair da escola, a filha que perde o emprego de professora e ele mesmo que é demitido do cargo que ocupava no balneário – da contenda; ele recebe a visita do irmão (que vai comunicar a ele sobre a demissão), do sogro (que vai lhe dizer que comprara quase todas as ações dos Banhos Públicos com o dinheiro da herança da filha, Mrs. Stockmann) e dos jornalistas, que se oferecem para ajudá-lo em troca de dinheiro; o Dr. Stockmann rechaça-os a todos. A reaparição do personagem Morten Kriil, padrasto de Mrs. Stockmann, no quinto ato, parece justificar-se apenas por uma necessidade de Ibsen em reforçar o caráter do Dr. Stockmann de colocar o idealismo e a verdade acima de quaisquer interesses materiais, visto que Kriil representa a força do dinheiro e o que ele poderia representar de tentador ao herói para que este mudasse suas convicções. A verossimilhança, contudo, é abalada pelo fato de que o Dr. Stockmann parece não ter qualquer dilema interior ao lidar com tal questão – as influências de sua luta pelo fechamento temporário dos banhos públicos na herança da esposa e dos filhos; outro aspecto do quinto ato que de algum modo abala a verossimilhança da peça é a forma como o isolamento do médico e de sua família é resolvido pela intervenção externa à sociedade oferecida pela personagem do Capitão Horster, que lhe oferece a casa ao Dr. Stockmann e família quando todos na cidade lhes parecem segregar. Como um deus ex machina, sua entrada no quinto ato parece ter por função apenas oferecer uma alternativa ao protagonista, cujo mundo está mergulhado no caos. Curiosamente, a solução que antes oferecia o capitão Horster para o desfecho da trama – uma evasão da família Stockmann rumo à América a bordo do navio em que ele trabalhava – é esvaziada pelo fato de o próprio oficial perder seu emprego por conta de seu envolvimento com o Dr. Stockmann, e que funciona no drama para que, dentro do sugerido conflito entre valores materiais e valores morais, seja apresentado um final no qual o médico mantenha-se fiel às suas convicções. O autor, em verdade, deixa pouco a decidir para a platéia: Dr. Stockmann termina a ação otimista, decidido a enfrentar sozinho – em família – a cidade inteira dentro de sua certeza interior de que possui a verdade consigo. A solução é, assim, um retorno à harmonia, ainda que um estado de harmonia distinto daquele de paz e prosperidade apresentado no primeiro ato; mas tal solução representa uma harmonia possível diante do caos representado pelo quarto ato, no qual a massa sufoca e oprime o indivíduo.
O doutor Stockmann decide ficar e dedicar-se a educar os cidadãos para que tenham um espírito mais livre e encerra o drama da obra com o seguinte pensamento: “o homem mais forte que há no mundo é o que está mais só”.


Esta é uma interpretação aparente e simplista que a grande maioria dos leitores faz. Mas não é isso que o autor está querendo nos contar. Ibsen é infinitamente mais profundo, complexo e simbólico que a primeira vista quer nos parecer. O autor quer nos contar algo mais simbólico do que uma simples história, algo que ele oculta e que só é percebido pelo leitor mais atento e analítico, capaz do entender e compreender a mensagem oculta nas entrelinhas de uma história que nos parece comum.

Otto Maria Carpeaux nos revela que a obra de Ibsen não é bem compreensível sem o conhecimento da sua vida; “é esta a porta pela qual devemos nela entrar” assevera. "Ibsen era anarquista, inimigo total de todos os Estados, todas as sociedades, todos os partidos, todas as multidões [...]; em favor do único valor que ele reconheceu: o homem individual e humano."

Em 1848 uma onda revolucionária sacode a Europa e impressiona fortemente Ibsen. Por outro lado, Ibsen recebe influência hegeliana de seu professor Monrad e, em decorrência da ruína econômica de sua família, o que lhe causa profundo ressentimento pessoal que se transforma em ressentimento revolucionário, leva-o a tornar-se um socialista. Observando as obras de Ibsen sob este prisma, concluí-se que a grande maioria tem viés socialista, humanista ou revolucionário. Um inimigo do povo, é um exemplo de um homem revolucionário representado pela personagem principal, Dr. Thomas Stockmann.

A peça provocou muita celeuma. Para os marxistas e para os rousseaunianos em geral, Ibsen, ao tomar a posição do herói solitário contra o resto da sociedade, pareceu-lhes assumir um perfil reacionário.

Interpretação simbólica da obra: O Dr. Thomas Stockmann, embora apresente o perfil de um homem jovial, sincero, honesto e interessante por um lado, por outro, ele é um idealista, arrogante, narcisista, de uma soberba radical que o coloca acima do bem e do mal, detentor da verdade absoluta. Este perfil radicalmente oposto ao primeiro é característico das mentes revolucionárias que querem resolver os problemas do mundo.

O revolucionário é aquele sujeito aparentemente inocente, todavia é o mais perigoso e o que tem o maior potencial destrutivo. Portanto, o dr. Stockmann é o verdadeiro revolucionário.

Ibsen coloca o dilema ético na história, e o dilema ético ocorre quando ambos os lados tem alguma razão. Todavia, o leitor comum não percebe este aspecto e toma uma posição imediatamente radical e favorável ao dr. Stockmann, alimentando assim o desenvolvimento das mentes revolucionárias e ampliação do contingente de homens prometéicos, reformadores do mundo e da sociedade.

Ao final da história encontramos o dr. Stockmann completamente enlouquecido. Este é o fim de todos àqueles que se consideram reformadores do mundo, construtores da nova sociedade que se colocam acima do bem e do mal: terminar na mais completa das loucuras. O psicopata em pessoa.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Vol VI - A IGREJA DOS TEMPOS CLÁSSICOS ( I )

Título original: L´Église des Temps Classiques ( I )
Autor: Daniel-Rops (Henri Jules Charles Petiot – 1901-1965)
Tradução: Henrique Ruas e Emérico da Gama
Editora: Quadrante
Assunto: Religiões-Cristianismo
Edição: 1ª
Ano: 2000
Páginas: 464

Sinopse: O "Grande século das almas" abre-se com o triste panorama da Guerra dos Trinta Anos. Mas graças a um São Vicente de Paulo, a um São Luís Maria Grignion de Montfort e outros santos e santas a fé cristã fermentará em profundidade o povo cristão.

O “grande século das almas” não é um século risonho. Abre-se com a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) e encerra-se com as guerras da Liga de Augsburgo. Assiste à predominância crescente dos interesses políticos e econômicos sobre os religiosos e ao recrudescimento da lamentável oposição entre protestantes e católicos e das perseguições num e noutro campo. E esses flagelos trazem consigo, como sempre, o seu cortejo de fomes e misérias.
Mas é nesse panorama, sob tantos aspectos desolador, que assistimos a um reflorescimento da santidade e à árdua implantação da Reforma tridentina.

Em primeiro lugar, é São Vicente de Paulo, esse “campônio” que se tornou confessor da rainha e preceptor de uma das principais famílias da França, para fazer-se pároco rural, fundador não de uma, mas de três instituições universais, e figura central do reino das flores-de-lis. Não há nenhum setor da sociedade, nem mesmo o dos condenados às galés, que tenha permanecido à margem da sua atuação e da dos seus filhos.

Mas são também muitas outras almas santas: Luísa de Marillac, co-fundadora com Vicente de Paulo das Damas e das Irmãs da Caridade; João Eudes, que encontrará a fórmula para os seminários dedicados à formação do clero; Francisco Régis, heróico evangelizador do povo simples; Luís Maria Grignion de Montfort, cantor das glórias de Maria Medianeira; Margarida Maria de Alacoque, que difunde a devoção ao Sagrado Coração de Jesus; João Batista de la Salle, que revoluciona o ensino... E não se podem esquecer grandes figuras como Jean-Jacques Olier, fundador dos sulpicianos; o cardeal Richelieu, controvertido, mas afinal um cristão; os grandes pregadores Bossuet, Fénelon ou Vieira; Blaise Pascal, genial matemático e autor dos Pensamentos; e tantos outros...

Faz-se neste tempo um trabalho de fundo como raramente se pôde ver. Um frêmito de preocupação pelos pobres, doentes e todos os desfavorecidos percorre a sociedade. Criam-se as Missões, para evangelizar as regiões rurais, e os Seminários, que por trezentos anos serão a chave para formar um clero piedoso e digno. Funda-se a Companhia do Santíssimo Sacramento, pioneira do apostolado dos leigos, mas adiantada demais para a época. Implanta-se a espiritualidade do Humanismo Devoto, que remonta a São Francisco de Sales, e a da Escola Francesa, cujo principal propagador é Pierre de Bérulle, que ensinarão o cristão comum a viver na presença de Deus da manhã à noite.

Mas este é também o tempo do absolutismo crescente, por assim dizer “encarnado” no “Rei-Sol” Luís XIV. “Lugar-tenente de Deus” na sua própria acepção e na dos seus contemporâneos, esse “Rei Cristianíssimo” não deixa de ser um homem, e sucumbe inúmeras vezes sob o peso do orgulho e do cinismo político. Imbuído da sua missão, mas de horizontes estreitos, revoga o Edito de Nantes e persegue os protestantes com uma brutalidade desaprovada pelos próprios bispos franceses, e que acabará por preparar o clima para a Revolução Francesa; corta as comunicações da Igreja de França com a Igreja universal, propiciando o surgimento e a expansão do galicanismo; provoca querelas com os Papas, que procura humilhar e submeter à sua vontade...

Não faltam também as heresias que ameaçam a unidade do Corpo de Cristo e semeiam a inquietude entre os cristãos. É o jansenismo, nascido como uma “conspiração” com algo de pueril, mas que ganhou corpo e contaminou muitos espíritos, deixando atrás de si um travo amargo a marcar a espiritualidade francesa. E o quietismo, aparentemente pouco mais que um alvoroço passageiro em torno da “semi-mística” Mme. Guyon e do bispo Fénelon, mas que talvez tenha deixado a sua marca em Jean-Jacques Rousseau, influenciando assim todo o “pensamento moderno” por nascer.

Sombras e luzes, como em todos os tempos. Mais inquietantes, talvez, porque mais próximas do nosso. Abrindo-se sobre uma plêiade de santos, o século XVII fecha-se na glória aparente de um Luís XIV, que no entanto esconde uma crescente pobreza interior. Preparam-se o iluminismo e o grande ataque da inteligência contra a Igreja, que marcará, em certa medida, toda a Era Moderna.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

O RINOCERONTE

Título original: Le Rhinocéros
Autor: Eugène Ionesco
Tradução: Luís de Lima
Editora: Abril Cultural
Assunto: Drama
Edição: 1ª
Ano: 1976
Páginas: 236

Sinopse: Ionesco conta a história de uma cidade pacata que se transforma completamente após a passagem de um rinoceronte por suas ruas. À medida que a origem do paquiderme é discutida e em alguns casos rebatida, ele, misteriosamente vai se proliferando de maneira incontrolável, até finalmente notarmos que os próprios cidadãos da cidade vão aos poucos se metamoforseando em rinocerontes. Nas entrelinhas, é claro que o rinoceronte vem simbolizando o conformismo na qual a sociedade esta estacada. Essa metamorfose sofrida pelos habitantes é uma analogia ao processo continuo de mediocrização que a sociedade vem sofrendo há tempos, um processo que nos dias atuais vem se agravando.


Enredo: Num dia comum, irritantemente comum, de uma cidade comum, onde nada acontece, a não ser um diálogo estúpido de homens que não sabem o que fazer de suas vidas, um rinoceronte enche de poeira uma rua. E causa espanto.

Conversando calmamente num café, as pessoas de repente são sacudidas pela estranha visita, sentem-se ameaçadas, procuram compreender. Nesse mesmo instante, o rinoceronte ainda é inadmissível. Alguém alega que as autoridades não deveriam permitir a visita desse tipo de animais à cidade. Outros procuram raciocinar sobre a hipótese de tudo não passar de sonho. Outros não dão a menor importância, imersos que estão em seu diálogo ridículo.

Bérenger conversa com Jean e não se abala com o estranho fato. Preocupado com seu amor por Daisy e ciumento de Dudard, colega de escritório, ele mal se ocupa de olhar o animal.

Jean dá lições de moral a Berenger, enquanto um senhor idoso conversa sobre silogismos. Pouco a pouco, as frases desencontradas das quatro personagens vão se encontrando e se alternando. O autor ridiculariza, aí, o desentendimento entre as pessoas, a falsa cultura que Jean pretende impor a Bérenger e a falência do raciocínio lógico.

Reaparece o rinoceronte, tempestuosamente, e o grupo discute então o número de chifres do animal: “Bicórnio ou unicórnio?” Em função desse número levanta-se a relação com a origem do rinoceronte: “Da Ásia ou da África?”

Mas qual seja a sua origem, qual seja o número de chifres que ele tenha, um gato é esmagado por sua violência e o perigo, finalmente, se faz notar. Já no segundo ato, o rinoceronte é o centro das atrações e do medo. No escritório onde trabalha Bérenger, comenta-se a atuação do animal. Botard, personagem caracteristicamente científico e metódico, não acredita na existência do animal. Acha que não passa de delírio. É claro: trancado dia e noite em sua atividade burocrática, ele certamente não teria tempo de observar os fatos da cidade. Mas, além disso, suas inclinações políticas levam-no a ver nos rinocerontes uma trama das “forças ocultas”. Botard aponta a necessidade de se “desmascarar os traidores”, desfilando uma série de slogans que trai sua condição de político demagogo.

Também no escritório o pânico se instala quando surge a Sra. Boeuf, esposa de um dos funcionários, dizendo que seu marido está doente e que ela vem sendo perseguida desde sua casa por um rinoceronte. Daisy chama os bombeiros – e estes são outra obsessão de Ionesco, surgindo sempre como a salvação vinda de fora –, enquanto Botard não acredita que os urros da fera escutados por todos sejam de qualquer rinoceronte.

Mas a besta que seguia a Sra. Boeuf é nada menos que seu próprio marido metamorfoseado. Como o dever da mulher é sempre seguir o seu homem, a Sra. Boeuf monta no dorso do imenso rinoceronte e desaparece com ele.

Os rinocerontes proliferam. Ninguém mais pode duvidar de sua existência. Nem o cético e metódico Botard. Um a um, todos os cidadãos estão sofrendo o lento processo de metamorfose em rinocerontes, Aos poucos os cidadãos perdem a pele lisa, a fala, a humanidade.

A transformação se dá também no gosto em certo tipo de afirmações como, por exemplo, a de uma personagem que diz preferir os veterinários aos médicos. Quando Bérenger visita Jean, que se diz doente, a doença já é o início da metamorfose. Nem Jean nem Bérenger pensam – logo no início do diálogo dessa cena – que aquela doença já é a “rinocerontite”. Mas as frases vão se encadeando de tal forma que o espectador, sem perceber, acabará assistindo à trágica mudança que já não será considerada anormal.

Quando Jean se transforma, Bérenger compreende o perigo. Tortura-se com a sua impotência diante da progressiva metamorfose da cidade. Todos sucumbem sem resistir. Até Dudard acaba aderindo porque não vê sentido na resistência. O próprio Botard, que se orgulhava de seu espírito minucioso e científico, que fazia a apologia do método e da razão, que via nos rinocerontes uma “maquinação infame”, acaba por torna-se um deles.

Bérenger sente-se cada vez mais só. Daisy, seu amor, é uma grande alienada. Nada a preocupa, nada a impressiona, nem a possibilidade de pegar a rinocerontite. Desfila frases feitas, cuida de Bérenger como se fosse uma criança, e lhe parece muito estranho que seu namorado tenha uma posição tão frontalmente antagônica aos rinocerontes. No fim acaba aderindo como todos os outros.

Resta esse herói surpreendente: Bérenger. Desleixado, negligente, tímido, humilde, generoso. É o homem comum. Ele assume o risco de enfrentar o mal apear de suas armas serem frágeis. Pesa-lhe um vago sentimento de culpa por não saber se está certo ou errado, pois não tem argumentos de ordem intelectual que possam justificar sua insólita posição. Mas na sua determinação medrosa ele é capaz de resistir sozinho: “Eu me defenderei contra todo o mundo... Eu sou o último homem. Não me rendo”.
O sentido da fábula: Em 1960 Ionesco contou como foi o ponto de partida de O Rinoceronte. O escritor francês Denis de Rougemont encontrava-se certa vez em Nüremberg quando teve a oportunidade de assistir a uma daquelas impressionantes manifestações nazistas.

Uma multidão imensa postava-se à espera do Führer, que tardava a chegar. Quando a comitiva de Hitler apareceu, o povo foi tomando de uma histeria tão contagiosa, que o próprio Rougemont se sentiu atingido. Já estava prestes a sucumbir à estranha e terrível magia, quando, afastando-se da turba, parou para pensar: que espécie de demônio o estava possuindo, para ficar quase seduzido pela idéia de se entregar, como os outros, ao delírio insano? [No Brasil aconteceu algo semelhante, quando o povo se entregou ao delírio insano de um apedeuta, elegendo-o por dois mandatos; o mesmo aconteceu nas últimas eleições nos EUA. É a renocerontite].

Essa cena, que está no livro Notes et Contre Notes, publicado em 1962, serviu para reforçar a tese de que O Rinoceronte constituía uma grande sátira ao nazismo.

De fato, as palavras de ordem dos conformistas da época da ocupação alemã na França tinham bastante relação com a adesão dos habitantes da cidade de Ionesco à rinocerontite. “Eles não atacam”, “Se os deixar tranqüilos, eles ignoram vocês.” [Não foi isso que aconteceu no Brasil. Eles atacaram com leis, decretos e proibições no mais alto grau que a estupidez humana pode conceber. A liberdade já nem é mais percebida pela massa ignara, seduzida e contaminada pela rinocerontite. O Estado está se transformando em totalitário].

Mas a moral da fábula é bem mais ampla, e O Rinoceronte vai mais longe: é uma crítica a todo pensamento totalitário que possa esmagar todos os outros, e que gere um sistema onde não haja mais lugar para qualquer oposição. [No Brasil, o presidente se vangloriou que, pela primeira vez na história do país, só há partidos de esquerda concorrendo às eleições a serem realizadas em 2010. Os súditos rinocerônticos aplaudiram e o resto já nem percebe o que isso representa, de tão destruído que se encontra o pensamento humano].

Além disso, Ionesco critica também o conformismo, que, criando condições de submissão a uma ordem absurda, transforma os homens em verdadeiros títeres. Por comodismo, por inércia, por interesse, os conformados seguem passivamente a manada, mansos e anônimos, renunciando àquilo que neles e mais essencial e elevado: o pensamento.

[Foi assim que o nazismo de Hitler entrou na Alemanha, e é assim que o comunismo dos esquerdopatas está se instalando no Brasil: pela rinocerontite.]

Esta obra é uma crítica a todo o pensamento totalitário – igual a esse que os dois últimos governos comuno-socialistas implantaram no Brasil – que possa esmagar todos os outros, e que gere um sistema onde não haja mais lugar para qualquer tipo de oposição.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

DIÁRIO DE UM PÁROCO DE ALDEIA

Título original: Journal d´un cure de campagne
Autor: Georges Bernanos (1888-1948)
Tradução: Thereza Christina Stummer
Editora: Paulus
Assunto: Romance confecional (Literatura estrangeira).
Edição: 2ª
Ano: 2000
Páginas: 285

Sinopse: Escrito em 1934 e publicado em 1936, este romance confessional traça o doloroso itinerário espiritual de um jovem sacerdote, pobre e doente, enviado para uma terriola habitada por uma sociedade pragmática, descrente de fé e de cristandade. Neste cenário começa a luta contra a penetração do mal com armas como a humildade, o sofrimento e a solidão.

A história, em tom confessional, descreve a vida de um jovem padre católico na paróquia de Ambricourt, no norte da França, quase divisa com a Bélgica. A vida do padre é marcada por um câncer no estômago e pela falta de fé da pequena população local.

Comentários: Uma grande obra é aquela que agrega conhecimentos sobre a realidade e aumento de consciência da condição humana. Diário de um pároco de aldeia faz isso com magistral propriedade. Mais que isso, ultrapassa esses propósitos e nos dá uma verdadeira demonstração de fé, cristianismo e santidade e uma aula verdadeiramente filosófica. É uma história comovente, muito bonita e maravilhosa, contada com grande maestria literária. Entretanto, não é um livro fácil de ler porque é um livro com sentido filosófico onde a personagem central está argumentando em torno de idéias e o leitor moderno não está mais acostumado com isso.

O nosso herói é um jovem padre, cujo nome nós não sabemos e que registra em seu diário a vida angustiante que leva numa paróquia de interior. A obra denuncia como o Cristianismo está sendo transformado em rotina no mundo moderno, simbolizada pelo padre na aldeia de Ambricourt. No fundo, a história retrata a morte simbólica do mundo.

O livro começa com o padre descrevendo como é a vida na sua paróquia. O tempo todo se tem a impressão de que o padre está lutando contra um caso perdido, como se àquele lugar não pudesse ser recuperado.

“Minha paróquia é uma paróquia como todas as outras. Todas as paróquias se parecem. As paróquias de hoje, naturalmente. Eu dizia ontem ao pároco de Norenfontes: o bem e o mal devem ficar em equilíbrio nelas, só que o centro da gravidade está lá embaixo, bem lá embaixo. Ou se preferir, os dois se sobrepõem nelas sem se misturar como dois líquidos de densidades diferentes. O padre riu na minha cara. Ele é um bom sacerdote, muito benevolente, muito paternal, e que no arcebispado passa até por incréu, um pouco perigoso. Suas tiradas fazem a alegria das casas paroquiais, e ele as reforça com um olhar que ele gostaria que fosse vivo, e que acho tão gasto e cansado que sinto vontade de chorar.
Minha paróquia é devorada pelo tédio, essa é a palavra certa. Como todas as outras paróquias. O tédio a devora diante de nossos olhos e não há nada que possamos fazer. Talvez um dia destes sejamos contagiados, e descubramos em nós esse câncer. Pode-se viver muito tempo com isso.”

Há algo de errado na sociedade e que acaba influindo na vida do pároco. E como o padre é jovem, os problemas são maiores, as dúvidas são maiores, e os sonhos são grandes. O problema está no grande abismo que separa o pároco entre o que ele sonhou ser e o que a aldeia espera que ele seja, e o que ele consegue ser, na prática.

Ele é um pároco numa cidade de gente descrente, gente cínica, gente ferozmente pragmática. Ele não tem nenhum colega de profissão que o ajude de verdade, porque todos eles estão apenas tentando transformá-lo em um ser tão cínico quanto eles. Em última análise, ficou sozinho e completamente solitário nessa vida.

“Eu me dizia então que o mundo é devorado pelo tédio. Naturalmente, é preciso refletir um pouco para se dar conta disso, não é uma coisa que se perceba imediatamente. É uma espécie de poeira. A pessoa vai e vem, sem a ver, respira essa poeira, come e bebe essa poeira, e ela é tão fina que nem faz barulho quando é mordida. Mas basta parar um momento e ela torna a cobrir o rosto e as mãos da pessoa. É preciso se agitar sem parar a fim de sacudir essa poeira de cinzas. Por isso mesmo, o mundo se agita muito.”

Este tédio que o padre descreve, é algo que não se percebe que acontece, uma espécie de poço invisível, um estado de coisas profundo e estabelecido, que não se consegue mexer. É como a poeira com a qual as pessoas se acostumam e com a qual não conseguem lidar. Este é mais ou menos o clima que se estabeleceu ali na paróquia do nosso herói.

O padre acha que a sua própria vida não tem mistério algum e o diário que ele se utiliza é um exercício para anotar as coisas que acontecem, com sinceridade que ele tem com ele mesmo.

SENTIDO DA OBRA:

1. A obra é um ESTUDO SOBRE A SANTIDADE. O padre vai morrendo ao longo da história e há um sentido simbólico por trás disso.

2. O mote da obra é o confronto entre a CONFORMIDADE e INCONFORMIDADE.

3. O autor nos mostra o paradoxo entre ESPIRITUALISMO e PRAGMATISMO. O padre de Ambricourt simboliza o espiritualismo, enquanto o padre de Torcy e o senhor deão, seu superior, simbolizam o pragmatismo.

CONCLUSÃO:

A obra busca despertar a consciência de que o pragmatismo está sufocando o espírito do cristianismo.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Vol V – IGREJA DA RENASCENÇA E DA REFORMA ( II )

Título original: L´Église de La Renaissance ET de La Reforme ( II )
Autor: Daniel-Rops (Henri Jules Charles Petiot – 1901-1965)
Tradução: Emérico da Gama
Editora: Quadrante
Assunto: Religiões-Cristianismo
Edição: 1ª
Ano: 1999
Páginas: 460

Sinopse: Este quinto volume da História da Igreja analisa o período que às vezes se chama “contra-reforma”, mas que representa muito mais do que uma mera reação ao protestantismo, uma época de autêntica renovação da alma cristã.

Como nos volumes anteriores, o autor não se limita a apresentar teses áridas ou massas de fatos. Apresenta-nos pessoas vivas em perfis biográficos de leitura agradável e entusiasmante: sorrimos com a alegria de Filipe Neri; participamos das aventuras por que passaram Teresa de Ávila e João da Cruz; admiramos o gênio estratégico de Inácio de Loyola; enchemo-nos de esperança com a figura afável de Francisco de Sales...

Sob a pena de Daniel-Rops, vemos desenrolar-se todo o panorama da Reforma católica, desde as primeiras ânsias que se traduzem em figuras heróicas de reformadores isolados até essa espécie de epopéia que foi a realização do Concílio de Trento.

Com uma honestidade à toda prova, o historiador não nos oculta nenhum aspecto doloroso das perseguições e conflitos dessa época que se chamou a “era dos fanatismos”. Mas – fato impressionante – é precisamente esta Igreja lacerada pela divisão e esmagada sob as dores de parto da Reforma que se lança num ímpeto missionário sem precedentes. Na esteira dos conquistadores e dos comerciantes, acompanhamos a atuação dos missionários que denunciam os abusos, defendem os povos escravizados e difundem por toda a parte a luz e o calor de Cristo.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Vol IV– A IGREJA DA RENASCENÇA E DA REFORMA ( I )

Título original: L´Église de la Renaissance et de la Réforme (I)
Autor: Daniel-Rops (Henri Jules Charles Petiot – 1901-1965)
Tradução: Emérico da Gama
Editora: Quadrante
Assunto: Religiões-Cristianismo
Edição: 1ª
Ano: 1996
Páginas: 528

Sinopse: A agonia da Idade Média, a explosão do espírito humanístico, artistas e pensadores como Michelangelo, Leonardo da Vinci e Maquiavel... No meio desse ambiente tempestuoso não é de estranhar que surgissem revoltas religiosas e mudanças profundas lideradas por um Lutero, por um Calvino ou por um Henrique VIII.

A velha barca de Pedro já tinha atravessado muitas tormentas no decorrer do quase milênio e meio que durava a sua história, mas aquela que se avizinhava em meados do século XIV fazia pressentir que seria a pior. Os duzentos anos que vão de 1350 a 1550, sobre os quais está centrado este volume da História da Igreja de Cristo, assistiram à agonia do ideal que inspirara a Idade Média, o sonho da Cristandade, imerso agora numa tríplice crise: de autoridade, de unidade e das consciências. Não era apenas mais uma época de dificuldades: era o fim de um mundo, ainda que não o fim do mundo, e ameaçava arrastar consigo a Igreja no seu naufrágio.

Num primeiro momento, com o retorno de Gregório XI a Roma, graças aos esforços de Santa Catarina de Sena, podia-se alimentar a esperança de que o término do “exílio” do papado em Avinhão tivesse resolvido as questões mais graves. Mas já em 1378 o Grande Cisma do Ocidente dividiria as fidelidades dos cristãos entre papas e antipapas, até que, depois de quase trinta anos, o Concílio de Constança viesse a pôr fim à angústia das almas. Pouco depois, em Basiléia, seria o próprio concílio que se voltaria contra o Papa, procurando submeter o Vigário de Cristo à assembléia conciliar e diluindo a estrutura da Igreja numa pseudodemocracia autodissolvente.

A crise dos espíritos não se manifestava apenas na cabeça. A França debatia-se ainda na Guerra dos Cem Anos quando Santa Joana d’Arc polarizou pela primeira vez as aspirações de toda uma nação. Na Inglaterra e na Boêmia eclodiam entre o povo os movimentos revoltosos de Wiclef e Huss, de inspiração tanto nacionalista como religiosa. Ao mesmo tempo, a vaga turca crescia, submergindo os restos do Império Bizantino e ameaçando afogar a Cristandade inteira.

Enquanto o papado ainda firmava os pés, e no seio das turbulências políticas, borbulhando numa confusão criadora que se estendia da arquitetura às letras, das artes à astronomia, nascia o humanismo: cristão nos seus maiores representantes, como Thomas More e Erasmo de Rotterdam, mas também dotado de um inquietante caráter anticlerical e paganizante. A certa altura, com as controversas figuras dos papas da Renascença, e apesar do furor cego de um Savonarola, pôde-se chegar a pensar que a Igreja estivesse descristianizada no seu coração.

Mas o pior ainda estava por vir: dos tremendos dramas de consciência do jovem monge Martinho Lutero nasceria em 1520 o dilaceramento protestante. Confuso e hesitante no início, o movimento em breve receberia a sua estrutura teológica e a sua disciplina da férrea e glacial soberba de Calvino. Mas, dividido em mil seitas e facções, erguendo-se em sangue e fogo no anabatismo alemão e holandês, esmagado aqui e alentado ali pelas intrigas dos estados nascentes, a “reforma” logo confirmaria a verdade da frase de Péguy: “Tudo começa em mística e acaba em política”. É o cisma anglicano de Henrique VIII, a estratégia hesitante de Carlos V, as sangrentas perseguições de Eduardo VI e Maria Tudor, a ambivalente tolerância de Francisco I...

Serão tudo sombras nesse quadro? É preciso dizer que não. Se a Europa central e do norte ameaçam ruir sob os golpes combinados de turcos e protestantes, no outro extremo, sob Fernando de Aragão e Isabel de Castela, a Espanha ultima a Reconquista e, na esteira de Portugal, lança as bases da conquista e da construção de um Novo Mundo. Também não falta, nessa cristandade descarrilada e exaltada, um renascimento da piedade que propicia a descoberta da dimensão íntima da pessoa e da devoção afetuosa à Santíssima Humanidade de Cristo: a devotio moderna. E se alguns papas não souberam situar-se pessoalmente à altura das exigências do seu cargo, devemos reconhecer que nunca conspurcaram a pureza da fé e que, em muitos aspectos, desempenharam um papel histórico no qual não se pode deixar de entrever o dedo da Providência.

Por outro lado, enfrentando tragicamente a Igreja, foi o protestantismo quem a obrigou a sair do mar de lama, de facilidades e de conivências em que se atolava. Sem ele, sem o medo que suscitou, teria a Igreja empreendido a reforma autêntica, levada a cabo na fidelidade e na disciplina, cuja necessidade tantos espíritos reconheciam mas tão poucos homens de caráter ousavam realizar? Dialeticamente, foi de Wittenberg, Augsburgo e Genebra que saiu a Igreja do Concílio de Trento, confirmando com uma força até então insuspeitada as palavras de São Paulo: É preciso que haja hereges (1 Cor 11, 19). Tal é o paradoxo de uma instituição composta por homens, mas guiada pelo Espírito Santo.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Vol III – A IGREJA DAS CATEDRAIS E DAS CRUZADAS

Título original: L´Église de la Cathédrale et de la Croisade
Autor: Daniel-Rops (Henri Jules Charles Petiot – 1901-1965)
Tradução: Emérico da Gama
Editora: Quadrante
Assunto: Religiões-Cristianismo
Edição: 1ª
Ano: 1993
Páginas: 720

Sinopse: O clímax da cristandade medieval e o início da sua decadência, num misto de grandeza e de traição, de santidade e de egoísmo. As perigosas junções entre poder espiritual e poder temporal mostram-se aqui em toda a sua vivacidade histórica.

Depois de sete séculos de laboriosos esforços para fermentar a massa rude da Europa bárbara, a Igreja pôde enfim observar a partir de 1050, como dos seus esforços nascia uma nova forma social, a Cristandade, amálgama estreita e vibrante entre a fé e a vida social, acuradamente estudada por Daniel-Rops neste terceiro volume da História da Igreja de Cristo.

A fé viva e ardente que caracteriza toda esta época teve sem dúvida manifestações que hoje nos podem parecer excessivas, mas o balanço geral é extremamente sugestivo: o homem comum vive inserido numa sociedade transcendente, alentado pelos sacramentos, pela liturgia, pela pregação e pelas grandes peregrinações, e encara as suas ocupações de olhos postos em Deus, o que confere sentido e dignidade a tudo o que faz.

Mas continua a haver – como sempre haverá – dificuldades e perigos que será preciso combater. Se já Constantino e Carlos Magno tinham tentado fazer da Igreja um instrumento dócil aos seus interesses, é somente neste período que ela conseguirá por fim libertar-se da tutela do poder temporal, graças à eleição dos papas pelos cardeais e à grande reforma levada a cabo por São Gregório VII, que subtrairá as nomeações de bispos e clérigos à influência dos senhores feudais, embora à custa da dolorosa Questão das investiduras.

Outro perigo é a tentação permanente que a própria Igreja sofre de acomodar-se, de ceder à sede de poder e de riquezas a que os seus membros, como todos os homens, estão expostos. O apogeu do Papado, com Inocêncio III, acabará por ocasionar as querelas pela supremacia que opõem Bonifácio VIII ao rei Filipe o Belo, da França, e os papas de Avinhão aos imperadores. Mas não faltam, como em todos os tempos, as figuras providenciais dos grandes santos, que infundem nova vida e abrem caminho à renovação espiritual dos cristãos: São Bernardo, no século XII, São Francisco de Assis e São Domingos de Gusmão no XIII, são figuras que marcam com o seu selo toda a sociedade, fazendo-a voltar-se para Deus.

O combate à violência através da nobre figura do Cavaleiro, a educação do amor, elevado acima do plano meramente sensual pelo matrimônio cristão, o alívio dos sofrimentos físicos mediante as Ordens dedicadas aos hospitais e albergues e ao resgate dos cativos, a educação do povo pelo estabelecimento de escolas de paróquias e catedrais, a criação das Universidades, centros de uma imensa fermentação intelectual nos séculos XIII-XIV – são algumas das tarefas levadas a cabo pela Igreja nestes séculos, e que permitem ter uma idéia do seu imenso esforço humanitário e civilizador. É enfim a Catedral, “suma” das artes do tempo, que representa como que a concretização e o símbolo desses séculos dispostos a “construir para Deus” com uma fé e uma tenacidade inigualáveis.

A diferença de mentalidades que separam o medieval do homem contemporâneo talvez apareça com maior clareza nas Cruzadas. É um mosaico grandioso de claros e escuros, em que a nobreza de um Godofredo de Bulhões ou de um São Luís se encontra associada ao cálculo e mesquinhez, e às vezes à crueldade e traição, de tantas figuras de segundo plano. O fracasso definitivo dessas tentativas de estender a Cristandade por meio das armas abriu caminho, porém, às grandes tentativas missionárias que levaram à fundação do primeiro bispado católico na China e aos esforços de um Raimundo Lúlio, gênio polimórfico, por converter os muçulmanos pela persuasão. E se Bizâncio, após o cisma, tende cada vez mais para a ruína, na Rússia estende-se cada vez mais o cristianismo oriental.

A heresia maniquéia, negadora da vida, e o “puritanismo” valdense, ao introduzirem um rasgão profundo no seio da própria sociedade, levaram a uma reação crescentemente violenta, que culminou na cruzada dos albigenses e na criação da Inquisição. Por volta de 1350, com o papado já instalado em Avinhão, sente-se fermentar um novo espírito, que acabará por romper a unidade intelectual e moral da Cristandade.

Não se pode olhar sem uma certa nostalgia para estes séculos; se é verdade que neles se manifestam tantas fraquezas do barro humano, projetadas também na própria Igreja, não o é menos que constituíram um desses momentos clássicos em que o espírito humano atinge um dos seus cumes mais elevados, comparável apenas, no Ocidente, à Grécia de Péricles ou à Roma de Augusto.


Trecho da obra:

A primavera da Cristandade

Durante três séculos – entre 1050 e 1350, aproximadamente -, a concepção do mundo que prevaleceu foi essa noção de Cristandade. Formou-se lentamente, à custa de sangue e lágrimas, e foi-se também perdendo aos poucos. Por trezentos anos impôs a sua lei, e, evidentemente não por acaso, foi esse talvez o período mais rico, mais fecundo e, sob muitos aspectos, mais harmonioso de todos os que a Europa conheceu até os nossos dias. Saindo das trevas invernais da época bárbara, a humanidade cristã viveu a sua primavera.

O que inicialmente impressiona a quem analisa o conjunto destes trezentos anos é a sua riqueza de homens e de acontecimentos. À semelhança da seiva que jorra por todos os lados na primavera, tudo parece agora germinar e desabrochar numa abundância de folhagem sobre o solo batizado por Cristo. Em todos os âmbitos se manifesta o fervor criativo, a exigência profunda de empreender, de encaminhar a caravana humana para o futuro. Os mais minuciosos quadros cronológicos não seriam suficientes para captar este impulso. Constroem-se catedrais; parte-se para a conquista do Santo Sepulcro, da Espanha que ainda se encontra submetida ao poder mouro, das regiões bálticas ainda pagãs; nas universidades, discutem-se as grandes questões humanas; escrevem-se epopéias, criam-se mitos eternos; milhares de pessoas transitam pelas rotas de peregrinação; no ímpeto de descobrir o mundo, chega-se até o secreto coração da Ásia; elaboram-se novas formas políticas… E tudo isso simultaneamente, num ardor de vida em que todos os acontecimentos se precipitam e interagem, numa complexidade que desencoraja por antecipação quem quiser abarcá-la.

Este impulso prodigioso, contudo, não é uma improvisação de frágeis resultados, não desemboca numa dessas florações prematuras que os primeiros ventos de abril lançam ao chão. Traz frutos, e que frutos! Perto de algumas criações mais imperecíveis que o gênio europeu produz nesta época, as mais ousadas obras modernas tornam-se irrisórias. É o tempo das altas naves góticas, do Pórtico Real de Chartres e das fachadas de Reims e de Amiens, dos vitrais da Sainte-Chepelle e dos afrescos de Giotto. É o tempo em que se erguem, paralelamente aos edifícios de pedra e como eles desafiando os séculos, essas catedrais de sabedoria que são a mística de São Bernardo e a de São Boaventura, a Suma Teológica de São Tomás, as canções de gesta, a obra profética de Roger Bacon e a de Dante. É o tempo ainda em que nascem instituições, tanto religiosas como civis, que servirão de base às gerações futuras, como o Conclave dos cardeais, o Direito Canônico e as diversas formas de governo. Insigne fecundidade. Somente os séculos de Péricles, de Augusto e de Luís XIV podem rivalizar em poder criativo com este período de tempo que vai de Luís VII da França à morte do seu bisneto São Luís, da eleição de Inocêncio II à de São Celestino.

É claro que semelhante fecundidade pressupõe uma enorme riqueza de talentos. A Europa dá-nos a impressão de ter possuído nesta época, em todos os âmbitos, personalidades de primeira ordem, com uma abundância que não voltaria a encontrar depois. A lista é infindável. São os santos, cujo valor de exemplo e de irradiação se mostram admiráveis: São Bernardo, São Norberto, São Francisco de Assis, São Domingos, que podemos citar entre centenas. São os expoentes do pensamento: Santo Anselmo, São Boaventura, São Tomás de Aquino, e Abelardo, e Duns Escoto, e Bacon, e Dante… São os artistas geniais, os inventores de técnicas e os criadores de formas, mestres e artistas cujos nomes estamos longe de conhecer em muitos casos. São homens de Estado, eminentes pela sua sabedoria, como Filipe Augusto ou São Luís, ou pela profundidade da sua visão política, como grande Frederico Barba-Roxa e o inquietante Frederico II. São os chefes guerreiros à testa de tropas imensas, desde Guilherme o Bastardo, que conquistou a Inglaterra, e os seus primos, que instalaram no sul da Itália a dominação normanda, até os grandes cruzados, um Godofredo de Bulhões e um Balduíno, ou aqueles que, com o Cid Campeador, travaram na Espanha batalhas semelhantes. Não faltam representantes das mais altas categorias, os que fazem progredir a humanidade: escritores, escultores, músicos, sábios, juristas. E qualquer outra categoria que citemos possuirá, entre 1050 e 1350, nomes que a posteridade há de respeitar. E no cimo destas nobres coortes, vemos os papas, muitos dos quais foram personalidades excepcionais, quer se trate de um Gregório VII ou de um Inocêncio III.

Os empreendimentos, os conflitos e até os dramas em que estes homens se envolveram trazem também sinal da grandeza. Há períodos da história em que os acontecimentos têm qualquer coisa de mesquinho: os tempos merovíngios, por exemplo, ou os do desmembramento do Império de Carlos Magno. Durante os três séculos da Baixa Idade Média, porém, tudo transcorre de outro modo: a Cruzada é uma empresa grandiosa, mas também o é a invasão mongol, apesar da sua crueldade e violência, ou a própria entrada em cena dos almorávidas na Espanha. E mesmo nas desastrosas lutas entre o papado e as potências terrenas, subsiste uma intensidade dramática que atinge a dimensão de um confronto decisivo entre duas concepções do mundo.

Mas esta época dá a impressão de ordem e equilíbrio tanto como de vitalidade e de frondoso desabrochar. As instituições políticas e sociais, bem como o sistema econômico, surgem como entes concretos e reais, proporcionados à estatura do homem. Não se observa neles essa tendência para o desmedido e para a abstração desumana que caracteriza o mundo moderno. Toda essa época assemelha-se à sua mais bela criação – a Catedral -, cuja infinita complexidade e cujos múltiplos aspectos testemunham um caudal inesgotável, mas que obedece a uma evidente ordem preestabelecida, graças à qual o conjunto ganha o seu sentido e cada detalhe o seu alcance.

Muitos filósofos da história, de Oswald Spengler a Toynbee, pensam que as sociedades humanas, à semelhança dos seres individuais, obedecem a uma lei cíclica e irreversível que as faz percorrer estágios bastante parecidos aos da infância, juventude, maturidade e velhice do ser fisiológico. Se tais comparações são válidas, é indubitável que, ao longo destes três séculos, a humanidade cristã do Ocidente conheceu a primavera da vida, a juventude, com tudo o que esta traz consigo de vigor criativo, de violência generosa e por vezes inútil, de combatividade, de fé e de grandeza.

terça-feira, 9 de junho de 2009

ESPERANDO GODOT

Título original: En attendant Godot
Autor: Samuel Beckett (1906-1989)
Tradução: Fábio de Souza Andrade
Assunto: Drama
Editora: Cosac Naify
Edição: 1ª
Ano: 2005
Páginas: 237

Sinopse: Na história, dois vagabundos aguardam infinitamente, num descampado, a vinda do senhor Godot, que nunca aparece.

Dado este nó dramático, tão estrito que não permite peripécia, desfecho ou catarse, a espera e a angústia de Vladimir (Didi) e Estragon (Gogô), repetem-se ao infinito, ora como tragédia, ora como farsa.

Obs.: A expressão "Esperando Godot" era bastante utilizada em tempos passados para indicar algo impossível, ou uma espera infrutífera.

A obra:
Esperando Godot é uma peça de teatro, escrita originalmente em francês, em 1949, e publicada em 1952. Em 1955 Samuel Beckett publicou a versão escrita em inglês.

O enredo:

O enredo baseia-se na falta de comunicação entre os personagens e na pausa do silêncio da espera de algo que não se resolve.

As personagens da peça:

Vladimir (Didi): intelectualizado e neurótico.
Estragon (Gogô): plácido e intuitivo.
Pozzo: extrovertido intimador.
Lucky: introvertido temeroso.
Um garoto

Obs.: Os nomes de Vladimir e Estragon são compostos com o mesmo número de letras, oito; assim como os nome de Pozzo e Lucky possuem o mesmo número de letras, cinco.

Eles encontram-se associados e ligados por uma complexa relação sado-masoquista há muitos anos, mas suas naturezas são conflitivas.

A peça é dividida em dois atos. Nos dois atos, contracenam dois personagens: Vladimir e Estragon. Durante cada um dos atos, que são semelhantes na estrutura, surgem dois novos personagens: Pozzo e Lucky. Além destes, entra em cena no final de cada ato um garoto.

Em um lugar indefinido dois amigos se encontram: Estragon e Vladimir. A primeira frase dita na peça, por Estragon, já indica a inutilidade da presença deles naquele lugar:"nada a fazer". Eles lá se encontram para esperar um sujeito de nome Godot. Nada é esclarecido a respeito de quem é Godot ou o que eles desejam dele. Os dois iniciam um diálogo trivial que só será interrompido quando da entrada de Pozzo e Lucky. O aparecimento destes assusta os amigos, ainda mais pelo modo como os dois vêm: Pozzo puxa uma corda que na outra ponta está amarrada ao pescoço de Lucky. Lucky por sua vez carrega uma pesada mala que não larga um só instante. Entende-se pela situação que Pozzo é o patrão e Lucky seu criado. Os quatros trocam palavras, cada um com seu drama pessoal, até que Pozzo e Lucky saem. Em seguida, entra um garoto para anunciar que quem eles estão esperando - Godot - não viria hoje, talvez amanhã. Fim do primeiro ato.

O segundo ato é a cópia fiel do primeiro. O cenário é o mesmo, a menos da árvore que está um pouco diferente, com algumas folhas. Estragon e Vladimir voltam para esperar Godot, que talvez apareça nesse dia. Iniciam outro diálogo trivial, interrompido outra vez pela chegada de Pozzo e Lucky. Só que, inexplicavelmente, Pozzo está cego e Lucky está surdo. Dialogam. Após a partida destes, aparece um garoto (diferente do garoto do primeiro ato) anunciando que Godot não viria hoje, talvez amanhã. Pensam em se enforcar na árvore, mas desistem, ante a impossibilidade do ato ser simultâneo. O diálogo final, que encerra o ato e a peça é o seguinte:

Vladimir: - Então, devemos partir?
Estragon: - Sim, vamos.
Eles não se movem.

O sentido da obra:
A essência da obra é a espera, em meio à incerteza. Será que Godot virá?
Mas, afinal, quem é Godot? A incerteza? A esperança?
O que Beckett quer nos contar?

Sobre o autor:
Dramaturgo, romancista e poeta irlandês, Samuel Beckett nasce em Dublin, Irlanda, no dia 13 de abril de 1906. Estuda na Portora Royal School, em Einiskillen, e depois no Trinity College, em Dublin. Em 1928 é nomeado lecteur de inglês na École Normale Supérieure de Paris e conhece James Joyce. A partir de 1945, começa a traduzir suas primeiras obras para o francês e a escrever poemas e novelas nessa língua. Samuel Beckett morre em 22 de dezembro de 1989, em Paris.
Samuel Beckett (Foto: 1932).

terça-feira, 2 de junho de 2009

Vol II – A IGREJA DOS TEMPOS BÁRBAROS

Título original: L´Église des Temps Barbares
Autor: Daniel-Rops (Henri Petiot)
Tradução: Emérico da Gama
Editora: Quadrante
Assunto: Religiões-Cristianismo
Edição: 1ª
Ano: 1991
Páginas: 648

Sinopse: A vida da Igreja no longo e agitado período que vai do século V ao século XI. Percorre-se passo a passo a história religiosa e geral com uma visão de conjunto desses sete séculos de lutas e pacientes esforços.

Este segundo volume da História da Igreja de Cristo traça o dramático retrato da sociedade cristã durante os séculos V a XI, a “idade das trevas”. São seis séculos em que se forjam os mais variados povos e civilizações, uma verdadeira encruzilhada da História na qual a Igreja começa a desempenhar o papel de condutora espiritual dos povos.

Única instituição válida a permanecer de pé entre os escombros do Império Romano, recaiu sobre ela a responsabilidade de “defensora da cidade” no momento em que os povos bárbaros se lançavam ao assalto da Europa. Foi uma hora grave, de difíceis escolhas: a decadência do mundo antigo era manifesta e inevitável, mas a cultura e a civilização estavam vinculados a ele, e coube à Igreja o espinhoso papel de conservar o que era necessário salvar.

Por outro lado, os bárbaros, pagãos ou arianos, apesar de se mostrarem opressores ou intolerantes, representavam o futuro, e a Igreja soube compreendê-lo mesmo no meio do turbilhão das paixões e do caos social que se seguiu às invasões. Passou, pois, à ofensiva, numa obra missionária tão audaciosa como perseverante, digna do zelo dos primeiros Apóstolos. Conquistando para Cristo os povos célticos do Norte, irlandeses e bretões, estabelece a base que lhe permitirá, primeiro, reconquistar a Gália e a Península Ibérica, para depois avançar até ao próprio centro do paganismo germânico, a Saxônia e os países nórdicos.

No Oriente, pelo contrário, Bizâncio cristaliza-se num isolamento crescente, e o cesaropapismo dos Basileus, que cada vez mais tendem a chamar a si as questões de doutrina e de fé, dá origem a um sem-fim de querelas e discussões. Os desentendimentos enfraquecerão o cristianismo oriental, tornando-o presa fácil dos maometanos, que agora surgem no cenário da história, e acabarão por conduzir a Igreja do Oriente ao rompimento definitivo com a Igreja universal por ocasião do cisma de Cerulário, no século XI. Mas também contribuirão para o esclarecimento definitivo de um dos aspectos centrais da doutrina cristã: a questão das duas naturezas de Cristo, e para uma emulação apostólica que chamará para Cristo toda a Europa oriental e essa imensa nação cujo destino haverá de ser tão controverso: a Rússia.

Tanto no Oriente como no Ocidente, o difícil parto da civilização européia e a lenta agonia dos gregos levantam a questão espinhosa do imbricamento entre o poder temporal e o espiritual. É uma espada de dois gumes, nem sempre manejada com destreza pelos sucessores de Pedro. Ao longo destes sete séculos, tem-se mais de uma vez a impressão de que a Igreja acabará por soçobrar definitivamente sob a pressão dos senhores laicos, especialmente durante o doloroso “século de ferro do papado”, ou de que se verá arrastada pelo turbilhão do afundamento moral e institucional da sociedade que tem a missão de vivificar.

Mas é justamente nesse panorama assustador que se revelam, talvez mais do que nas épocas de triunfo, o mistério e o caráter divino da Igreja. Quando a inteligência está a ponto de ser submersa, levantam-se figuras como Santo Agostinho, São Jerônimo, São Gregório Magno, criam-se escolas, fundam-se os mosteiros que serão viveiros de santos, mas também de intelectuais. Quando a decadência moral parece não ter remédio, ergue-se o movimento de reforma, impulsionado pelo jovem monaquismo de São Bento ou de Cluny, ou por figuras de grandes papas e bispos, como Gregório Magno, São João Crisóstomo ou São Pedro Damião. E se ao longo deste período deixaram de ser cristãos imensos territórios, da Mesopotâmia à Espanha, não é menos verdade que por volta do ano 1000, graças a missionários como São Columbano, São Bonifácio e São Cirilo e São Metódio, a mensagem de Cristo ressoa da Groenlândia ao Tibet.

É todo um panorama em que, tal como na vida dos homens, a morte se mistura ao nascimento, a destruição à construção, a decadência à renovação. Deste tempo difícil e doloroso, extrai-se a cristalina certeza de que a barca de Cristo não pode perecer, porque está edificada sobre a rocha inabalável da promessa divina.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Vol I – A IGREJA DOS APÓSTOLOS E DOS MÁRTIRES

Título original: L´Église des Apôtres et des Martyrs
Autor: Daniel-Rops (Henri Petiot)
Tradução: Emérico da Gama
Editora: Quadrante
Assunto: Religiões-Cristianismo
Edição: 1ª
Ano: 1998
Páginas: 600

Com A IGREJA DOS APÓSTOLOS E DOS MÁRTIRES, a Editora Quadrante dá início à publicação da HISTÓRIA DA IGREJA DE CRISTO, de Daniel-Rops, em dez volumes.

Sinopse: Este volume debruça-se sobre os primórdios do cristianismo. Observam-se a constituição da Igreja desde os seus ímpetos iniciais até os dilemas que teve de resolver desde a primeira hora.

Este primeiro tomo tem o fascínio de debruçar-se sobre os primórdios do cristianismo, quando quase se sente ainda o alento da presença física do Mestre. Observamos a constituição da Igreja, os seus ímpetos iniciais e os dilemas que teve de resolver desde a primeira hora, o seu assombroso crescimento e desenvolvimento sob a ação do Espírito vivificador.

Uma terceira raça, que se desprenderia do judaísmo e se oporia ao paganismo, insere-se agora nos rumos da História, não sem embates dolorosos que se estendem, sangrentos, até o advento de Constantino. Ao longo dos primeiros quatro séculos, o período abrangido por este volume, vamos acompanhando a ação dos Apóstolos, principalmente dessas colunas da Igreja que foram São Pedro e São Paulo; a gesta de sangue dos mártires; o perfil dos grandes santos e dos primeiros forjadores das letras e das artes cristãs; o desenrolar do culto, da liturgia da Missa e da piedade; a formação dos quadros – sempre dentro do marco de uma sociedade que vemos desagregar-se numa lenta agonia, numa exaustão que talvez se esteja repetindo nos tempos atuais, mas que, também como hoje, se abre em última análise à esperança da “revolução da Cruz”.

É todo um processo de revezamento, a que não faltam as sombras dos conflitos internos e o claro-escuro dos erros que se prenunciam. Num retrato vivo da natureza humana, afloram os lapsi e todo o painel desconcertante das heresias e dos sectarismos, que no entanto conduziram à formulação da teologia cristã e aos grandes Concílios da primeira era, e de que a Igreja saiu robustecida na sua autoridade e unidade.

Desta encruzilhada decisiva para os destinos da humanidade, Daniel-Rops oferece-nos, com inusitada perfeição de estilo, uma análise que prende pela sua exatidão e leveza, mas, sobretudo pelas linhas de reconstituição, que permitem apreciar objetivamente o poder prodigioso da fé na renovação das instituições por dentro, quando individual e coletivamente se têm os olhos postos no Senhor que ultrapassa a História e se vive com a esperança fincada nas promessas da vida eterna.

terça-feira, 19 de maio de 2009

COMO A IGREJA CATÓLICA CONSTRUIU A CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL

Título original: How the Catholic Church Built Western Civilization
Autor: Thomas E. Woods Jr.
Tradução: Élcio Carillo
Editora: Quadrante
Assunto: História geral
Edição: 1ª
Ano: 2008
Páginas: 222

Se perguntarmos a um estudante universitário o que sabe do contributo da Igreja Católica para a sociedade, a sua resposta talvez se resuma a uma palavra: “opressão”, por exemplo, ou “obscurantismo”. No entanto, essa palavra deveria ser “civilização”.

Sinopse: Neste livro, Thomas Woods mostra como toda a civilização ocidental nasceu e se desenvolveu apoiada nos valores e ensinamentos da Igreja Católica. Em concreto explica, entre outras coisas - por que o milagre da ciência moderna e de uma filosofia que levou a razão à sua plenitude só puderam nascer sobre o solo da mentalidade católica; como a Igreja criou uma instituição que mudou o mundo - a Universidade; como ela deu uma arquitetura e umas artes plásticas de beleza incomparável; como os filósofos escolásticos desenvolveram os conceitos básicos da economia moderna, que trouxe para o Ocidente uma riqueza sem precedentes; como o nosso Direito, garantia da liberdade e da justiça, nasceu em ampla medida do Direito canônico; como a Igreja criou praticamente todas as instituições de assistência conhecidas, dos hospitais à previdência; como humanizou a vida, ao insistir durante séculos nos direitos universais do ser humano - tanto dos cristãos como dos pagãos - e na sacralidade de cada pessoa.

Num momento em que se propaga uma imagem da Igreja como inimiga dos progressos da ciência e da técnica, e da liberdade de pensamento, este é um livro que desfaz preconceitos, corrige clichês e ensina inúmeras verdades teimosamente omitidas no ensino colegial e universitário.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

O SABER DOS ANTIGOS - Terapia para os tempos atuais

Título original: Saggezza ântica – terapia per i mali dell´uomo d´aggi
Autor: Giovanni Reale
Tradução: Silvana Cobucci Leite
Assunto: Filosofia – ensaio estrangeiro
Editora: Edições Loyola
Edição: 2ª
Ano: 2002
Páginas: 264

Sinopse: O livro “Saber dos Antigos” traça uma espécie de itinerário dos males que nos afligem hoje, mostrando como a sabedoria antiga da filosofia clássica grega revela as formas de “cura” do mal estar contemporâneo. Estas “terapias” podem aliviar a dor e o sofrimento pela reflexão das verdades eternas que o niilismo de nosso tempo ajudou a esquecer.

Giovanni Reale demonstra que na sabedoria clássica grega estão as verdades eternas que o mundo esqueceu.


Reale resume em dez itens os males atuais:

1. o cientificismo e o redimensionamento da razão do homem em sentido tecnológico;

2. o ideologismo absolutizado e o esquecimento do ideal do verdadeiro;

3. o praxismo, com sua exaltação da ação e o esquecimento do ideal da contemplação;

4. a proclamação do bem-estar material com sucedâneo da felicidade;

5. a difusão da violência;

6. a perda do sentido da forma;

7. a redução do Eros à dimensão do físico e o esquecimento da "escala de amor" platônica (e do verdadeiro amor);

8. a redução do homem a uma única dimensão e o individualismo levado ao extremo;

9. a perda do sentido do cosmos e da finalidade de todas as coisas;

10. o materialismo em todas as formas e o esquecimento do ser, a ele vinculado.
A cada capítulo, Reale apresenta um destes males e uma terapia correspondente baseada nos ensinamentos dos antigos. É uma viagem às várias dimensões da vida humana e como os gregos tratavam estes temas. Lições valiosas para aqueles que quiserem escutá-las.
Com o niilismo descrito por Nietzsche e redefinido por Heidegger, a sociedade atual tem mergulhado numa desintegração valorativa em direção a horizontes desconhecidos da prática, do produzir e do agir. Para onde estamos caminhando? Não sabemos. Somente que tudo aponta para uma destinação de desintegração social. A solução está na terapêutica administrada pelo antigo pensar: a sabedoria antiga.
Em suma: Trata-se de um livro excepcional, de leitura simples e conteúdo didático, para ser transformado em "livro de cabeceira". Vivendo em uma sociedade dominada pelo tecnicismo, temos esquecido, a cada dia, as bases históricas que nos asseguraram a viabilidade da nossa sociedade fundamentada em alguns domínios do nosso universo simbólico, onde estão situadas as idéias que são as bases de nossa tradição ética, política, estética e religiosa.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

A REBELIÃO DAS MASSAS

Autor: Jose Ortega y Gasset (1883-1955)
Tradução: Marylene Pinto Michael
Assunto: Filosofia
Editora: Martins Fontes
Edição: 2ª
Ano: 2002
Páginas: 300

"A Rebelião das Massas", obra prima de José Ortega y Gasset, começou a ser publicado em 1926 num jornal madrilenho ("El Sol").
José Ortega Y Gasset avalia o homem médio quanto a sua capacidade para continuar a civilização moderna e quanto à sua adesão à cultura. Tentando responder a questões como 'quem manda no mundo', ele discute a atitude do homem médio ante a civilização e a cultura.
Explica por quê o homem contemporâneo enxerga cultura como bem de consumo e não como bem cultural.


A obra retrata as grandes transformações do século XX, especialmente na Europa, com ênfase no processo histórico de crescimento das massas urbanas. Não se refere às classes sociais, mas às multidões e aglomerações. Tendo esse contexto como pano de fundo, Ortega discute temas, aparentemente contrários entre si, mas que se fundem (ou devem fundir-se) numa unidade de sentido. É assim que contrapõe individualismo e submissão ao coletivo; comunidade, nação e estado; história, presente e porvir; homens cultos e especialistas; poder arbitrário e respeito à opinião pública; juventude e velhice; guerra e pacifismo; masculino e feminino.
O autor afirma que nossa época é, antropologicamente, dominada pelo homem-massa: criatura encolhida em sua própria cápsula vivencial. Este menospreza e detesta tudo o que não se lhe assemelha, ou seja, todos os homens que buscam a própria superação. O homem-massa é herdeiro de todas as consecuções da Tradição, mas, desdenha do passado, pois, toma a civilização como a um fato da vida, auto-suficiente e inexorável. Assim, desconhece o que é a civilização, não faz idéia do que ela provém e nem do que se mantém. Ignora as noções mais elementares da Democracia, imaginando-a como um regime plebiscitário. O homem-massa quer fazer crer que é merecedor de todas as benesses, e, que suas elucubrações e palpites valem por verdade, a despeito de qualquer razão. Se imagina em condições de colher os frutos da civilização, ao mesmo tempo em que, dissolve seus elementos constitutivos e elimina suas condições objetivas de existência — em suma, precipita a sociedade na barbárie do pensamento teúrgico e dos laços tribais.

São tópicos que, inevitavelmente, nos induzem à reflexão crítica. Em alguns casos são apresentados de forma extremamente provocativa.

Referindo-se ao poder do dinheiro, minimiza seu significado e afirma:

"É, talvez, o único poder social que ao ser reconhecido nos repugna. A própria força bruta que habitualmente nos indigna acha em nós um eco último de simpatia e estima. Incita-nos a rechaçá-la criando uma força paralela, mas não nos inspira asco. Dir-se-ia que nos sublevam estes ou os outros efeitos da violência; porém ela mesma nos parece um sintoma de saúde, um magnífico atributo do ser vivente, e compreendemos que o grego a divinizasse em Hércules."

Discutindo o fato de que os antigos gregos expressavam certo desprezo pelas mulheres, acaba por concluir que estas acabaram se masculinizando:

"A Vênus de Milo é uma figura másculo-feminil, uma espécie de atleta com seios. E é um exemplo de cômica insinceridade que tenha sido proposta tal imagem ao entusiasmo dos europeus durante o século XIX, quando mais ébrios viviam de romanticismo e de fervor pela pura, extrema feminilidade. O cânone da arte grega ficou inscrito nas formas do moço desportista, e quando isto não lhe bastou preferiu sonhar com o hermafrodita."

Sobre a guerra, chega a afirmar:

"O pacifismo está perdido e converte-se em nula beateria se não tem presente que a guerra é uma genial e formidável técnica de vida e para a vida."

Sua interpretação do modelo escravista é bastante sugestiva:

"Do mesmo modo, costumamos, sem mais reflexão, maldizer da escravidão, não advertindo o maravilhoso progresso que representou quando foi inventada. Porque antes o que se fazia era matar os vencidos. Foi um gênio benfeitor da humanidade o primeiro que ideou, em vez de matar os prisioneiros, conservar-lhes a vida e aproveitar seu labor."

São essas aparentes contradições que estimulam nosso espírito crítico. Ortega defendeu suas concepções com vigor, fundamentos sólidos e uma lógica irrepreensível. Em poucos momentos foi totalmente conclusivo, mas deixou uma enorme abertura para que possamos repensar as idéias que legou sobre o futuro da humanidade.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

AURORA

Título Original: Sunrise - A Song of Two Humans
Gênero: Arte (Romance)
Atores: George O'Brien (O marido), Janet Gaynor (A esposa), Margaret Livingston (A mulher da cidade), Bodil Rosing, J. Farrell MacDonald, Ralph Sipperly, Jane Winton, Arthur Housman, Eddie Boland.
Diretor: F. W. Murnau
País: EUA
Ano: 1927
Duração: 90 min.

Sinopse: Seduzido por uma moça da cidade, um fazendeiro tenta afogar sua mulher, mas desiste no último momento. Esta foge para a cidade, mas ele a segue para provar o seu amor.

Comentários: Baseado no romance Die Reise Nach Tilsit (Viagem a Tilsit), de Hermann Sudermann, Aurora é uma obra poética de grande beleza plástica, repleta de cenas inesquecíveis. Versão restaurada, um dos dez maiores filmes da história do cinema e a obra máxima do genial cineasta alemão F. W. Murnau, diretor dos memoráveis Nosferatu, Fausto e Tartufo. Edição especial, com trailer de cinema e cenas alternativas. O filme é MUDO com legendas em Português.
A análise feita por Olavo de Carvalho é imperdível e pode ser encontrada no livro de sua autoria referenciado ao final deste texto.

Análise do filme feita pelo filósofo Olavo de Carvalho:
* Aula do "Seminário de Filosofia" (30 jan. 1997). Gravação transcrita por Marcelo Tomasco Albuquerque e editada por Alessandra Bonrruquer.

Aurora, de F. W. Murnau (Sunrise, 1927), baseado no romance de Herrman Suderman, Viagem a Tilsit, é para mim o melhor filme do mundo. Quando se vê que o grande Eisenstein nada mais fazia senão juntar imagens com tanto esforço para produzir, por associação, alguma patriotada a serviço da propaganda comunista, aí é que a arte de Murnau nos surpreende por sua capacidade de conduzir, através do jogo de imagens, a algo que está acima de toda imagem e mesmo acima de nossa capacidade de expressão em palavras.

A trama se desenvolve em três níveis: a personagem (o ser humano), a natureza e o sobrenatural, tudo perfeitamente encaixado e sem nenhum apelo a uma linguagem indireta ou "hermética", no sentido de obscura, embora haja ali grandes doses de hermetismo no sentido de alquimia espiritual.

O tema de Aurora é o jogo entre as decisões humanas, as forças da natureza e a misteriosa providência que tudo ordena sem alterar a ordem aparente das coisas, sem produzir acontecimentos de ordem ostensivamente sobrenatural, e jogando apenas com os elementos naturais.

O filme começa com dois amantes — um fazendeiro de Tilsit e uma turista — tomando a decisão mais arbitrária que se possa imaginar, uma decisão que não é fundada em coisa nenhuma: fugir, sendo preciso, para isso, matar a mulher do fazendeiro. Essa decisão brota de uma paixão momentânea, uma extravagância fundada num mero desejo, que não corresponde ao sentido de vida nem da mulher (a moça que quer fugir com o fazendeiro), nem do fazendeiro e não está encaixada logicamente no quadro normal de possibilidades de suas vidas. A possibilidade normal seria tudo não passar de um episódio fortuito, algo como um namoro de férias - o que realmente a coisa era no fundo. Na hora em que eles decidem transformar este namoro de férias numa união duradoura sacramentada pelo homicídio, então Murnau começa a colocar um outro enredo em cima do enredo inicial.

Se a vida do personagem antes do caso amoroso tinha uma certa solidez, ele mesmo não estava consciente disso, ou então teria rejeitado taxativamente a proposta da amante. Mas ele a aceita. E se deixa sair da lógica de sua vida para entrar nas névoas do imaginário. Não por coincidência, a cena em que eles se encontram para tramar o homicídio se dá num lamaçal e entre névoas. Ele atravessa uma bruma, como quem vai sair do plano real para ingressar no plano imaginário, onde vai encontrar sua espectadora.

O resumo do filme é o progressivo retorno desse mundo mítico à realidade que o personagem havia abandonado. Após aquele breve instante em que ele prefere o imaginário ao real, por todo o resto do tempo o que vemos são as operações do destino para devolvê-lo à vida real. Mas esse retorno não é fácil. No primeiro instante, a reação do fazendeiro é simplesmente de ordem sentimental, o sentimento de pena pela esposa que ele não amava, e arrependimento. Mas esse arrependimento não é ainda uma conquista sua, pois ele se dá de maneira passiva e na esfera do imediato. O retorno à realidade terá de passar pela reconstrução de todos os elementos que foram compondo a sua vida.

Quando, após a tentativa de homicídio falhada, ele acompanha a esposa até a cidade, ela ainda está muito triste e ele tenta recomeçar o diálogo com ela – afinal, ele tinha se tornado um estranho. Ele tenta retomar a condição de marido, como quem diz: "Eu não sou um assassino, eu não sou um estranho", mas ele, de fato, não é mais o mesmo. Ele terá de reencontrar sua velha identidade, e evidentemente isso não é tão fácil.

Temos então duas cenas decisivas: aquela em que na casa de chá ele oferece um bolinho a ela, e ela acaba não aceitando; e a cena do casamento a que eles assistem na igreja. Nesse casamento, novamente não por coincidência, os convidados estão à porta, esperando a saída dos noivos, e quem sai são eles, que vieram andando na frente dos noivos e nem percebem o que se passa em volta. Na igreja, ele toma novamente consciência do sentido do casamento, ou seja, do que ele tinha ido fazer ali, de por que é que ele estava ao lado daquela mulher que até poucas horas atrás já nada significava para ele. De certo modo, ele tem aí uma recapitulação de toda a sua existência.
No instante em que ele desiste de matar a esposa, ele já havia se arrependido por dentro, mas isso não era exatamente um arrependimento, no sentido cristão. Era remorso. Que é remorso? Um sentimento de culpa desesperador. O arrependimento é um sentimento de culpa acompanhado de alívio, de esperança de poder resgatar de algum modo o que foi perdido. O homem só passa por isso na igreja: neste momento, ele troca o remorso pelo arrependimento.

Mas aí a trama ainda não complicou. É preciso que ele confirme esta intenção. Ele precisa adquirir certeza absoluta de sua identidade recuperada. No instante em que aceitou matar, ele jogou fora toda a sua vida, ele agiu como se fosse um outro. Um outro que teria uma outra vida, num outro lugar, com outra mulher. Na cena em que a amante fala da vida na cidade e ele se vê dançando nas boates, ele imagina para si uma outra biografia, que começaria miraculosamente do nada.

Após ter construído toda uma vida como homem do campo, ele repentinamente se vê em outra cena, e para vivê-la realmente ele precisaria ter tido toda uma outra vida, precisaria trabalhar em outra coisa, ter nascido em outro lugar. O apelo dessa vida imaginária o entorpece de tal maneira que ele perde sua identidade: ele não está mais conectado nem com a esposa, nem com a profissão, nem com o ambiente material, com nada. Ele está desligado do sentido da vida, e por isto esta vida lhe parece vazia e tediosa — é a vaidade psicológica, que projeta na vida em torno a miséria interior do homem incapaz de assumir seu dever vital.

O restante do filme vai encaixá-lo de volta, primeiro, em sua vida; segundo, em seu casamento; terceiro, no lugar onde ele construiu a sua vida, para de certo modo devolvê-lo ao sentido da vida que ele tinha abandonado momentaneamente por um sonho maluco. E como se dará isso? Ele será obrigado, pelo desenrolar dos acontecimentos, a apostar de novo, repetidamente, no valor de tudo aquilo que tinha desprezado, e terá de apostar cada vez mais alto. Ele reconquista por um esforço de vontade consciente tudo o que havia abandonado por vaidade.

Ele começa por pedir perdão; depois oferece o bolinho; em seguida, na igreja, tem um segundo arrependimento e faz como que um voto; tira então uma fotografia, que é como uma fotografia de casamento; e por fim vai para um parque de diversões, que seria o equivalente da viagem durante uma lua-de-mel. Com tudo isso, ele recuperou sua identidade de casado, mas não recuperou ainda o sentido da sua vida. Para isto ele precisará ainda apostar mais um pouco.

E a aposta será uma segunda tentação, que já não vem por meio humano, mas por meio dos elementos da natureza, quase que propositadamente mobilizados para esse fim, que executam a intenção dele, isto é, afogam realmente a mulher que ele antes tinha tentado afogar. Veja; aquilo que ele sonhou, já não é mais ele que está executando, é um poder imensamente maior que o dele, ou seja, ele pediu e o céu executou. Nesta hora, ele tem de fazer a aposta decisiva para salvar aquela mulher que ele quisera matar.

Enquanto vai retornando para casa, dá-se a tempestade, e nesse retorno é que se dá também o retorno dele à plena posse do sentido da sua vida. Ele vai dizendo uma série de "sins" a tudo aquilo a que antes tinha dito "não". Mas quem se opõe a esse sim, quem é o tentador que lhe oferece novamente o não? Agora já não é o demônio: é o próprio Deus, para saber se ele quer mesmo. O filme é teologicamente exato ao mostrar que o diabo age dominando a imaginação, a fantasia e os desejos, enquanto Deus age através dos acontecimentos reais, do reino da natureza transformado em mensageiro do sobrenatural.

A personagem será então obrigada a reafirmar com muito mais força sua adesão a todos os valores que havia desprezado. E terá agora de arriscar a sua própria vida para defendê-los e, mais ainda, arriscar de certo modo a própria salvação de sua alma; pois não pode evitar o sentimento de revolta contra os céus quando pensa que a mulher morreu, e ele se sente preso numa armadilha terrível montada pelo diabo, que executou o pedido do qual ele já tinha desistido. Ele tem de reafirmar e apostar tudo de novo, desta vez lutando contra todas as probabilidades aparentes.

Aurora, na verdade, transcorre para trás. A mudança do fazendeiro para a cidade, planejada no começo, não se realiza, e tudo o que é importante acontece no retorno da cidade para o campo, onde ele vai novamente botar os pés no chão.

O filme tem algo de "romance de formação" (Bildungsroman), gênero tipicamente alemão, que tem como conclusão a formação da personalidade humana, onde o indivíduo, através de seus erros, se transforma num homem de verdade. Um exemplo é Os Anos de Aprendizagem de Wilhelm Meister; Herman Hesse também fez isso em O Lobo da Estepe e em Demian. São romances cuja única conclusão é o crescimento humano em direção à maturidade. Mas esse crescimento é sempre uma diminuição, é sempre o indivíduo voltando à terra, depois de haver sonhado alguma maluquice e viajado por um céu de mentira. É uma apologia caracteristicamente germânica do "pão-pão, queijo-queijo" como valor supremo da existência.

A idéia, portanto, é de que o sentido da existência está colocado na própria existência: ela tem sentido em si mesma, e não num outro mundo colocado acima deste, como o mundo imaginário que a amante oferece ao personagem, e que é mais ou menos como o mundo da falsa vocação teatral de Wilhelm Meister. Meister tem o sonho de ser ator, mas ele não serve para ser ator, ele não é um ator, ele é um burguês no fim das contas, e sua descoberta de que é um burguês de classe média alta, um sólido burguês, é a verdadeira educação dele. A vida cotidiana do burguês, na medida em que é real, e pelo simples fato de ser real, tem em si uma força mágica superior a toda imaginação, porque não é constituída de imagens, tem uma tridimensionalidade que a fantasia não tem.

O imaginário como alternativa oferecida pelo tentador diabólico é um mundo bidimensional, um mundo só de imagens, imagens no meio da névoa. A cena em que o fazendeiro e a amante conversam no pântano remete à carta 18 do Tarô, que é A Lua: o homem de um lado, a mulher de outro, como o cão e o lobo; a água em baixo e a lua no meio, formando um losango. Esse "mundo da lua" é o mundo dos reflexos na água, onde as coisas não acontecem verdadeiramente, apenas parece que vão acontecer. A imagem pode ser encantadora, mas ela não tem a tridimensionalidade, a profundidade da vida real. É no retorno à terra que o homem encontra o verdadeiro céu, o sentido da vida.

Ora, a coisa mais espantosa desta vida real é justamente que nela as coisas não chegam a ter uma explicação final, ao passo que o mundo imaginário é facilmente compreensível e explicável, pelo simples fato de que foi você mesmo que o imaginou. Na hora em que o personagem imagina uma outra vida na cidade, tudo para ele faz sentido, porque é ele mesmo quem quer que as coisas sejam assim ou assado. Aí a relação causa e efeito é perfeitamente nítida, ao passo que, no retorno à vida real, o jogo de causa e efeito é infinitamente mais complicado, mais sutil, e nunca se pode dizer que isto aconteceu por causa disto ou daquilo exclusivamente; há sempre um tecido, um emaranhado de causas, e nunca se consegue assinalar uma linha causal única.

Então, por que a tempestade acontece justamente no momento em que ele estava voltando? Ela poderia acontecer em qualquer outro momento. Não há no filme a menor insinuação mágica a respeito disso. Não foi um anjo quem fez cair a tempestade, mas, se ela não acontecesse, certamente a resolução do sentido da vida desse indivíduo tomaria uma outra direção. As causas naturais interferem e não se sabe nunca se existe nelas um propósito ou não. Não se pode dizer propriamente: "Deus fez cair a tempestade para tal ou qual finalidade ", porque Deus não aparece no filme, só a tempestade. Cada um está livre para interpretar isso como uma intencionalidade divina ou como uma casualidade, mas nos dois casos este fato entra como elemento componente de um sentido geral.

Quando cai a tempestade e a mulher se afoga, nada no filme nos permite interpretar que foi Deus que a fez cair propositadamente para ensinar algo ao personagem. Deus não aparece, não há a menor insinuação de um sentido religioso evidente envolvido no caso. Nós simplesmente vemos a tempestade, vemos o que aconteceu. Não podemos dizer que foi uma causa divina, ou uma causa natural fortuita, mas em qualquer dos casos esse acontecimento se encaixa não na ordem das causas, mas na ordem do sentido, e e força causal divina não aparece como causa eficiente e sim só como causa final, que age através da combinação natural das causas eficientes.

Qualquer que seja a causa, para o personagem, aquele acontecimento tem um sentido muito nítido, não subjetivamente, mas objetivamente, dentro da vida real dele. E que sentido é esse? O da intenção maligna da qual ele já havia desistido, e que é realizada justamente no instante em que ele a tinha renegado e em que ele a temia. Os seus pensamentos viram ações no exato instante em que ele não os aceita mais. Este sentido não é subjetivo, não é o personagem quem interpreta as coisas assim: elas simplesmente são assim, em si mesmas e objetivamente.

Sem precisar recorrer à idéia de uma providência que propositadamente está "fazendo acontecer" isto ou aquilo - e esta é uma das coisas mais bonitas do filme - o evento tem um sentido objetivo, e este sentido, por meios puramente naturais, vai na direção indicada pela intencionalidade divina, que é a reconquista do sentido da vida. É uma espécie de ironia da natureza, e por momentos o personagem se sente vítima desta ironia. Ela pode ser premeditada ou fortuita, isso não a torna menos irônica. Para ele, naquela hora, pouco interessa se foi o diabo que fez chover, para prejudicá-lo, ou se a natureza inocentemente e quase que mecanicamente produziu a chuva. A tempestade é irônica nos dois casos, e em ambos os casos faz sentido.

Existe aí uma distinção muito nítida entre o a ordem das causas e a ordem do sentido. Só que esse sentido não é subjetivo, não é apenas humano, é um sentido real; dentro do contexto dos acontecimentos, a tempestade tem uma significação nítida, é uma ironia cruel da natureza, pouco importando se foi intencional ou não. Na verdade, se não foi intencional é até mais cruel, porque então o destino do personagem parece mais absurdo ainda. De repente, ele cai totalmente dentro do absurdo que ele mesmo havia premeditado. Se houve intencionalidade por trás dos fatos, foi uma intencionalidade pedagógica, e se não houve, foi uma coincidência irônica.

Essa ironia já aparece no episódio do cachorro. Por que o cachorro, na hora que eles vão sair de barco, sai latindo atrás da dona? É porque ele anteviu que ia acontecer uma desgraça? Ou é simplesmente porque ele quer ir atrás da dona? O filme nada diz a esse respeito. Você está livre para interpretar como quiser. Mas como quer que se interprete a causa que fez o cachorro se mover, o que importa não é a causa, mas o sentido que esse episódio acaba tendo no conjunto. Por quê? Porque, ao retornar para deixar o cachorro em casa, o homem poderia ter desistido da viagem e do plano assassino.

O cachorro aparece ou como uma casualidade ou como uma intencionalidade, que poderia ter salvado a mulher antecipadamente e bloqueado o curso posterior dos acontecimentos. Poderia, mas falhou. O cachorro não teve força suficiente, é um elemento natural demasiado isolado e fraco para por si determinar o rumo dos acontecimentos. O cachorro, pura sanidade natural, é impotente para deter o mal; para isso será preciso a mobilização de todos os elementos da natureza — a tempestade.

Mas em todos os instantes o que se vê é que, não importando a causa, o sentido é nítido. E esse sentido não é subjetivo. De fato, a ação do cachorro naquele momento poderia ter impedido a desgraça. Quase impediu. E esta é outra característica desse filme: o tempo todo você tenta prever o que vai acontecer em seguida, e essa previsão toma o aspecto de um voto de fé: você deseja que as coisas tomem um certo rumo, você torce pára que isso aconteça — e, nunca acontecendo o que você deseja, no fim o resultado é, pelos meios mais impremeditados e surpreendentes, exatamente aquele que você desejava. Na hora em que você sabe que o sujeito vai tomar o barco para matar aquela inocente mulherzinha, você deseja que ele não faça isto. E na hora em que o cachorro começa a latir e vai atrás, o cachorro está realizando de certa maneira o seu desejo, mas ele falha.

Nesta cena, todo mundo vacila: você, o cachorro, o personagem, a mulher – ela também não sabe direito o que vai acontecer. Ela também está numa interrogação. Todos esses elementos, todos esses fatos têm sempre um sentido muito nítido, sempre referido ao antecedente e ao conseqüente. Em nenhum momento você depende da interpretação subjetiva que os personagens fazem.

Com base em de elementos psicológicos simples, cria-se esta história profundamente enigmática na qual todos os elementos concorrem, afinal de contas, para uma tomada de consciência e para que o personagem retome posse da sua vida. Está subentendido no filme inteiro que tudo está concorrendo para um sentido final. Mas se isto ocorre conforme uma premeditação ou não, esta é uma questão deixada em suspenso. Faz parte da realidade da vida você não saber quais são os elementos que determinaram seu destino. Mas também faz parte da vida você poder compreender o sentido do que está acontecendo. Eu não sei quem foi que fez chover, nem com qual intenção fez chover, eu sei que para a ordem constitutiva da minha vida, neste momento, a chuva tem um sentido muito nítido.

O sentido, o que é? É a obrigatoriedade moral de uma ação, que por sua vez faça sentido dentro do caminhar da minha vida e dentro de minha própria identidade. Sendo eu quem sou, vivendo do jeito que vivo, tenho a obrigação de fazer isto assim e assado, pois só assim minha vida fará sentido. Viktor Frankl daria pulos de entusiasmo se visse este filme.

A interpretação metafísica fica condicionada a uma interpretação ética, que a precede de certo modo. Pouco importando se existe uma providência por trás de tudo ou não, o sentido dos fatos se impõe na medida em que impõe a obrigação de agir de uma determinada maneira, porque é a única que faz sentido. O problema da providência está colocado não na esfera causal, mas na esfera do sentido, pouco importando se essa providência age através de causas naturais ou sobrenaturais.

A chuva pode ser uma mera coincidência. Veja-se isto do ponto de vista de Deus. Se já estivesse predeterminado por leis naturais que iria chover naquele determinado instante, Deus certamente sabia disso, e não precisaria mandar uma chuva especialmente para que as coisas se resolvessem desta ou daquela maneira. A simples somatória de causas naturais e humanas é suficiente para criar um sentido. A providência está aí para quê, então? Para criar e manter o sentido.

A providência, sendo sobrenatural, não precisa no entanto recorrer a meios sobrenaturais. Do simples jogo das causas naturais e humanas em número indefinido, haverá um resultado x. Não era necessário uma premeditação para aquele caso específico: estava já tudo ordenado, de tal modo que o homem, que é um ser pensante e que tende sempre a criar uma unidade de sentido em sua vida, aproveitaria, para realizar esse sentido, os acontecimentos quaisquer que fossem. Desta maneira, o próprio caráter fortuito dos acontecimentos é de certo modo superado. São fortuitos quanto à sua causalidade eficiente, isto é, àquilo que os desencadeou, mas não quanto à sua causa final. Ou seja: um monte de causas eficientes dispersas de modo fortuito podem concorrer a uma causa final de natureza fundamentalmente boa. Este é um elemento da filosofia de Leibniz (Princípio do Bem Maior). Não sei se Murnau pensou em Leibniz nessa hora, mas para ser leibniziano não é preciso ter lido Leibniz: é uma questão de personalidade e de afinidade espiritual espontânea. Em todo caso, não é inútil lembrar que, antes de se dedicar ao cinema, Murnau estudou filosofia e teologia.

Num outro filme dele, Tabu, há uma mensagem de sentido aparentemente contrário: a causalidade humana e natural concorrendo para um desenlace trágico. Isso também pode acontecer. De qualquer modo, se tudo termina em comédia (quando tudo termina bem é comédia, por mais que a gente sofra) ou em tragédia é coisa que não é decidida na ordem das causas eficientes, mas na ordem da causa final, e com isso escapamos da famosa polêmica entre determinismo e livre-arbítrio.
As duas coisas de certo modo se exigem mutuamente; não há como conceber uma sem a outra. Existe determinismo na medida em que certas causas desencadeadas vão fatalmente produzir certos resultados. Podemos tomar as causas naturais que aparecem neste filme, como o comportamento do cachorro e a tempestade, como simples resultados de leis naturais. Há processos naturais que explicam esses fatos. Pode estar tudo predeterminado na ordem das causas eficientes, mas nada pode estar predeterminado com relação ao fim, à finalidade. Não haveria nenhum sentido em criar um ser capaz de escolher, capaz de agir, capaz de ter culpa inclusive, se a finalidade de vida dele já estivesse dada infalivelmente de antemão. Isso seria um nonsense: não é necessário um ator consciente para desempenhar um papel mecânico; não seria preciso um ser tão inteligente quanto o homem para desempenhar esse papel. Portanto, existe uma certa margem de manobra dentro mesmo do determinismo da natureza. O sentido da vida existe, mas sua realização pelo homem é eminentemente falível.

Podemos dizer que o cachorro "não teria" outra alternativa senão ir atrás da dona, porque esse é seu instinto, e a chuva também não teria outra alternativa senão cair naquele preciso momento. O homem é que tem a alternativa de entender ou não entender o que está se passando e de dirigir a vida dele num sentido que esteja harmonizado com quadro natural, com o seu dever e o sentido da sua vida. Para realizar o sentido de sua vida, ele precisa compreender o que se passa em torno, e compreender em quê essas coisas o influenciam.

Os fatos (como por exemplo a amante, que não existia na vida do personagem e que chega de férias a um determinado local num determinado momento, ou seja, faz uma intervenção) vão se sucedendo e vêm do ambiente em torno. O indivíduo mesmo é que entende ou não entende. E para não entender, basta ele se desligar por um momento deste tecido denso da causalidade e entrar num outro mundo onde ele próprio é a única causa; que é o mundo imaginário, um mundo inteiramente lógico e nítido, onde ele inventa as causas e os efeitos se seguem da maneira mais lógica possível. É a lógica do plano criminoso proposto pela visitante: nós matamos a sua mulher e vamos para a cidade, e você vai morar lá comigo e vamos dançar naquela boate onde sempre vou, etc., etc., etc. Tudo isso é muito lógico, de maneira linear.

No retorno à vida real, as causalidades não são mais lineares, mas concomitantes e em número inabarcável. A conexão entre elas pode ser percebida ou não, porque o indivíduo mesmo é um elo de muitas cadeias causais cruzadas. Uma coisa é acontecer uma chuva e outra coisa é acontecer a chuva na hora em que você está ali. Mesmo do ponto de vista puramente natural, do ponto de vista físico, não é a mesma coisa chover sobre um terreno onde não há nenhum ser vivo, sobre um terreno onde há plantas, sobre um terreno onde há bichos e sobre um terreno onde há gente. As conseqüências da chuva fatalmente serão diferentes nesses vários casos. No caso aqui presente, chove na hora em que está ali exatamente aquele cidadão, portanto essa chuva já não é igual para todos, ela tem significados diferentes.

Ele poderia não ter compreendido a situação. Poderia ficar tão idiotizado pela morte da mulher que não sentisse sequer a ironia da situação, não tirasse a lição moral nela implícita. Ele consente em tirar esta lição porque continua dialogando moralmente com a natureza, perguntando: "O que você quer de mim?", ou seja: confiando no sentido da vida mesmo quando este sentido se tornou invisível por efeito dos erros que ele próprio cometeu. Ora, a natureza nunca responde totalmente, mas é o ser humano que completa as suas respostas. E na medida em que responde, responde assumindo o sentido e as implicações todas, as implicações reais que aquilo tem. Ou então fantasiando em cima, inventando, fugindo do dever e do sentido da vida.

Quando vemos que tudo isso foi dito só com imagens mudas, notamos que este filme é realmente uma obra-prima assombrosa. No sentido de jogar com um monte de causas para provocar um efeito final, existe uma analogia entre Aurora e A Tempestade de Shakespeare, mas a diferença é que nesta há um agente regendo as causas, que é o mago Próspero, enquanto que aqui, não. Aqui não aparece mago nenhum, você sequer sabe quem está dirigindo a cena ou mesmo se ela está sendo dirigida. O que você sabe é que ela faz um sentido tremendo.

Perguntar se isso foi premeditado ou não, neste caso, é inteiramente ocioso, porque a pergunta não é essa. A pergunta não é quem está dirigindo e com que propósito, a pergunta é: O que precisamente está acontecendo? É uma chuva como qualquer outra? Não. É a chuva que acontece neste momento e mata a mulher que o sujeito queria matar meia hora atrás. O momento em que isso acontece não é indiferente. A vida real é justamente essa densidade na qual todos os fatores são absolutamente inseparáveis, e a única coisa que está realmente em jogo é se você vai aceitar essa densidade ou se vai fugir para um outro mundo, plano e sem gravidade, o mundo da fantasia subjetiva. É justamente esse drama que dá ao filme todo seu valor e seu impacto.

A história que o personagem havia inventado ele próprio entendia perfeitamente, mas, e esta outra história que de fato lhe acontece? São tantos os fatores em jogo, que ele não poderia ter uma explicação completa. Para entender tudo o que aconteceu, ele precisaria ser Deus.

Imagine o número de causas que teriam de ser investigadas para se saber por que houve toda essa convergência de acontecimentos. Isso nunca ninguém terá. Em nenhum momento haverá uma explicação completa de tudo que aconteceu. No entanto, longe de compreender isso no sentido vulgar das "limitações do conhecimento humano", temos aí uma indicação preciosa sobre a natureza mesma da realidade: a realidade só é real quando, nela, o conjunto finito dos elementos conhecidos, e que em si mesmos podem não fazer sentido, é abarcado por um infinito que, incognoscível em si mesmo, dá a unidade e o sentido do quadro finito. Sempre que o finito se fecha em si mesmo, pretendendo ser auto-explicativo, estamos no reino da fantasia lógica otimista e prometéica. E sempre que o finito se dissolve num infinito sem sentido, estamos no reino da fantasia macabra. É na articulação sensata do finito no infinito que se encontra o conhecimento da realidade.

O sentido da vida do personagem não apenas não é subjetivo: ele é, por assim dizer, um sentido histórico. O personagem é este homem e não outro, ele teve esta vida e não outra, enfim ele não está livre para sentir o que quiser na hora em que quiser. Ele vai sentir de acordo com o que aconteceu antes e de acordo com o que ele pretende que aconteça depois.

Justamente na hora em que o indivíduo voltava para casa, esperando retornar à sua paz doméstica depois de tudo aquilo que viveu, depois da tentação e do remorso, nesse instante incide a chuva e ela tem esse sentido porque se encaixa na seqüência desse antes e desse depois, e não porque o indivíduo "sentiu" isto ou aquilo. Na verdade, ele poderia não sentir, ele poderia ficar idiotizado. Muitas pessoas, diante de um sofrimento desse tipo, na hora em que a vida realiza sua fantasia macabra, enlouquecem e não querem pensar mais. Aí elas perdem a percepção do sentido do que está acontecendo, mas esse sentido continua presente e pode ser reconhecido por quem, de fora, observe o que se passa.

O preço do sentido da vida é entender o que está acontecendo, por mais que doa. Mas entender sempre apenas do ponto de vista humano e sem ter a explicação global. Ora, isso é muito importante para o estudante de filosofia, pelo seguinte: em qualquer investigação do tipo metafísico que se faça, a tendência humana é sempre voar direto para o problema da providência, do determinismo, da intencionalidade divina, tratando desses temas de uma maneira genérica e abstrata, sem ter este arraigamento prévio do sentido da vida pessoal, o qual é, evidentemente, o único intermediário pelo qual se poderia chegar à compreensão da intencionalidade divina. Se você não compreende sequer o que os acontecimentos representam dentro do enredo da sua vida, como é que você vai entender as intenções do Escritor que produziu a obra? Se você não entende nem a história, como é que você vai entender a psicologia do Autor?

É ridículo que pessoas de alma tosca, incapazes de apreender e assumir responsavelmente o sentido de suas próprias vidas, se metam a opinar sobre questões filosóficas simplesmente porque leram Kant ou Heidegger. Primum vivere deinde philosophari tem precisamente este sentido: o verdadeiro filósofo é filósofo na vida real e não apenas um estudioso que fala sobre filosofia. Por isso mesmo é que a investigação metafísica nunca pode ser uma mera investigação abstrata no sentido científico e impessoal, ela sempre vai implicar uma responsabilidade pessoal. E a pergunta que se coloca é a seguinte: você aceita compreender o que está se passando na sua vida? E em que medida você vai agüentar? Oitenta por cento dos filósofos a quem você fizesse essa pergunta correriam de medo, porque há certas coisas que são terríveis de entender, sobretudo as conseqüências do que cada um fez na vida.

Construa a hipótese de que exista um Deus, de que Ele conhece seus pensamentos e de que Ele pode, como neste caso, tornar realidade os seus piores pensamentos. Você deseja conhecer esse Deus? A maioria das pessoas, aí, já não vai querer mais. É melhor não saber. Surge aqui a famosa emoção da "máquina do mundo" do Carlos Drummond de Andrade, quando o indivíduo, após ter investigado e perguntado a vida inteira, na hora em que o Universo vai finalmente se abrir e mostrar tudo, ele diz: — "Não quero mais saber".

"como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face
que vou pelos caminhos demostrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,
passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes
em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,
baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.
A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,
se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera
seguia vagaroso, de mãos pensas."

(Trechos de "A máquina do mundo" - Carlos Drummond de Andrade, em Claro Enigma)

O acesso ao conhecimento de ordem metafísica tem de passar primeiro por um conhecimento de ordem moral e ética que não consiste em "seguir" uma moral ou uma ética já dada e pronta, mas, ao contrário, em de fato desejar compreender a própria vida e realizar o seu sentido, assumindo o dever com todas as forças, porque é na vida real que se vai encontrar o elo entre o natural e o sobrenatural. E onde mais poderia agir o tal sobrenatural, se não fosse no real, neste mundo histórico e humano onde vivemos?

A natureza já está dada, é um fato que está diante nós. Ela já está resolvida, se não de maneira eterna, pelo menos de maneira habitual; embora haja um coeficiente de indeterminismo na natureza, pelo menos no plano macroscópico, no plano da natureza visível, as coisas funcionam segundo uma certa regularidade na qual você não interfere. A interferência do homem nos processos naturais é mínima.

Pois bem, onde mais você vai interferir? No sobrenatural? Não, o sobrenatural é Deus, é onipotente, você não pode mexer lá. Então, você não pode mexer, na verdade, nem na natureza e nem no sobrenatural. Você está colocado, por assim dizer, na natureza, mas um pouquinho acima dela, na medida em que pode enxergar a natureza como um todo e perguntar sobre alguma coisa que está para além dela, mas aonde você não pode chegar. Então, onde você está? Exatamente entre um e outro. Entre um conjunto que você enxerga mas não entende e outro que, se conhecer, vai entender, mas não conhece.

A natureza é visível e cognoscível, está diante de nós, mas nós não a entendemos, porque não parece ter intencionalidade. Às vezes parece que, outras vezes parece que não, então você não sabe. Como é que vamos saber? Bom, precisamos interrogar o que está além da natureza, aquilo que está acima dela e que a determina.

Em suma, precisamos conversar com o Autor da história. Se você conhecesse o Autor da história, tudo estaria explicado; mas você não O conhece. Aquilo que você conhece, você não entende e aquilo que você entende, não conhece. Deus é perfeitamente compreensível; na hora em que você começa a pensar em Deus, você vê que tudo faz um sentido tremendo, mas nós não O vemos, não O escutamos e não O conhecemos. E tudo aquilo que vemos, escutamos e conhecemos nem sempre faz sentido. Você tem o fato em baixo e o sentido em cima. Você desejaria subir para este sentido. Mas onde está o elo? Em você, porque você também existe materialmente, ou seja, você é objeto de conhecimento seu, você conhece o seu próprio corpo, a sua própria vida, exatamente como você conhece a natureza.

E qual é o sentido da sua vida? Você tem a realidade da sua vida, mas qual é o sentido dela? Com relação a você mesmo, você também está dividido. Você conhece a realidade da sua existência, mas não o sentido dela. O sentido, é claro, faz sentido, mas você não o conhece. E a vida você conhece, mas não sabe se faz sentido. Então, você é esse elo, porque a cada instante você pode ligar a esfera dos fatos com a esfera do sentido. Como é que você faz isso? Compreendendo o sentido que os fatos impõem, não abstratamente e em si mesmos, mas com relação à sua vida histórica.

Só na medida em que vai aceitando compreender esse sentido que está na sua própria vida, você tem ao mesmo tempo a abertura para aquele laço maior que há entre o natural e o sobrenatural. A relação que existe entre a sua vida e o sentido da sua vida é a mesma que existe entre a natureza e Deus. Sendo você o único elo, há algo que tem de se resolver na sua esfera e na sua escala antes de você poder fazer a sério qualquer indagação de ordem metafísica.

Ora, quando entendemos isso, cada um de nós pode também colocar a seguinte pergunta: Quais os fatos que foram determinantes do meu destino? E, se você começa a contar sua história direitinho, verá que houve fatos que determinaram o seu destino real, sem que você opinasse a respeito, sem que fosse consultado e às vezes sem que sequer os percebesse. Na vida dos outros a gente percebe isso muito bem; na nossa, é preciso um esforço.

Por exemplo, você monta um armazém. Depois de uma crise econômica no Zâmbia, que muda o comércio internacional de um produto, seu armazém afunda. Você não precisa conhecer essa crise econômica toda, você não precisa saber onde ela começou e você não precisa saber o tamanho dela. Você sabe apenas que seu armazém afundou. Agora, eu pergunto a você: você quer ver o tamanho do inimigo que liquidou seu armazém? Quer ver o tamanho do elefante que pisou em cima de você, ou não? Quer conhecer realmente o que determina sua vida?

Note que não estamos falando de causas sobrenaturais, estamos falando de causas sócio-econômicas. Nesse momento, a maior parte das pessoas baixa os olhos como o personagem da "Máquina do Mundo". Não quer ver, e não querendo, volta à condição de animalzinho — o bichinho vivente cuja vida não tem sentido, cuja vida não precisa ter sentido, e que só espera morrer o mais rápido possível.

A partir desse momento, mesmo o esforço que o sujeito faça para atender aos seus impulsos vitais, seus desejos, estará atendendo apenas a um instinto de morte. Qual é o resultado final da vida biológica? A morte. É o único resultado a que a vida biológica pode levar. Portanto, na hora em que você limita sua vida ao biológico, por encantadora que ela ainda possa parecer, você sabe que está indo apenas na direção da morte e de mais nada. A renúncia ao sentido leva embora consigo a própria vida.

Conhecer o sentido da vida pressupõe conhecer o sentido das coisas que vão acontecendo enquanto ela se passa. Mas a apreensão desse sentido às vezes implica o conhecimento de forças terríveis, forças de escala histórica, social, planetária ou supra-planetária. Suponha, por exemplo, que os planetas exerçam alguma influência sobre a sua vida. Suponha que um planeta se deslocando em sua órbita planetária possa causar um efeito na sua vida. Como é que você vai dialogar com um monstro desse tamanho?

A maior parte das pessoas não deseja, por medo, levantar os olhos para ver o que determina a sua vida. Mas a aquisição do sentido da vida pressupõe a aquisição do sentido do cenário cósmico em que você está; não em si mesmo, como se faz ecologicamente, mas como cenário da peça que é a sua vida. Partindo do ponto onde você está, a consciência pode ir se alargando em círculos concêntricos cada vez maiores, para compreender gradativamente o conjunto de fatores que determinam objetivamente a sua existência. E à medida que esta consciência se amplia, mais nítido se torna o dever pessoal que dá sentido à sua vida. E aí você não busca mais proteção na inconsciência covarde (fingida no começo, mas que com o tempo se torna inconsciência mesmo), e sim no dever, que lhe infunde coragem cada vez maior.

Acontece que, quando alguém faz isso, vê que é quase um milagre tomar alguma decisão em meio a todos esse fatores enormemente poderosos. Nessa hora, o indivíduo é obrigado a enxergar a realidade mais brutal da vida humana: a fragilidade do poder individual.

A expansão da consciência pressupõe uma retração das pretensões e uma perda do egocentrismo, e neste ponto a maior parte das pessoas volta atrás. Para não perder aquele falso senso inicial de segurança, aquela ilusão de que ele próprio é o centro do mundo, de que ele próprio decide livremente sua vida, o sujeito fecha os olhos ante a máquina do mundo, baixa a cabeça, e daí para diante é igual a um carneiro, ou um porco, ou um ganso; mas um carneiro, um porco ou um ganso que continua com a ilusão de que é uma grande coisa.
Nesse sentido específico, o personagem do filme aceita o mais plenamente possível a condição humana. Ele entende e assume o que se passa. Ele entende que sua vida é determinada por um diálogo, um confronto, com forças infinitamente poderosas, forças que podem inclusive fazer com ele uma piada sinistra. Aliás, o título do filme, Aurora, nascer do sol, tem um motivo bastante óbvio. O personagem do filme é o verdadeiro twice born, o renascido em Deus, o renascido no reino do Espírito.

É óbvio que há fatores que ele pode ignorar, mas que jamais o ignoram. Nós podemos ignorar os fenômenos cósmicos, ou históricos, mas eles nos atingem; nós não sabemos deles, mas eles sabem de nós. Como um judeu na Alemanha nazista: ele podia ignorar o Führer, mas o Führer não o ignorava. Como um cristão na URSS: ele pode ignorar Stálin, mas Stálin o conhece muito bem. Em certo momento, esse cenário assume de fato uma configuração sinistra. E você agüenta enxergá-la? Você quer saber, ou não?

Nesta passagem é que se decide se o homem vai ser digno da condição humana ou se ele vai se imputar aquela autocastração espiritual, que é a pior perda por que um sujeito pode passar, e que nenhuma reparação material pode compensar. O homem que desistiu de saber pelo quê são determinadas sua vida, sua biografia, desistiu dessa vida e dessa biografia. Ele já não lhe dá mais valor, jogou-a no lixo. Agora, no máximo, ele está reduzido a uma criança que, ignorando tudo em volta, pede milagres ou amaldiçoa o destino, a socieadde, o próprio Deus; Deste ponto em diante, só um milagre, mesmo. Mas o pedir milagre é uma coisa amaldiçoada pelo próprio Cristo. "Maldita a geração humana que pede prodígios". E como é que o sujeito vai obter prodígios se não quer sequer olhar para a natureza em torno, olhar para o mundo real onde esses prodígios se sucedem a todo instante?

Aqui é preciso citar uma frase do velho Gurdjieff (não gosto dele, mas ele tem uns achados verbais incríveis), que diz que a maior parte das preces consiste em pedir que dois mais dois dêem cinco. O indivíduo não sabe exatamente o que pedir. Ora, se ele não olha nem a realidade em torno, ele não sabe onde está, portanto também não sabe o que quer. Vai pedir uma coisa qualquer, uma bobagem. Ao fazer isso, está recusando o dom do Espírito, está cometendo o pecado primeiro: "Eu não quero ser um ser individual consciente e responsável, eu quero ser um bichinho que não sabe de nada, quero permanecer no estado de inocência animal." Ele quer pecar contra o Espírito e ainda quer que Deus faça um milagre? Todos os pecados são perdoados, menos esse.

É por isso que vejo uma blasfêmia profunda na apologia vulgar da "vida simples", das "pessoas simples". Esse é um aspecto que nunca foi muito bem estudado. A autêntica simplicidade evangélica consiste justamente em pedir pouco, em não precisar de muito, e não em levar a vida de um bichinho que ignora o mundo que o cerca. Este ignorar é recusar o dom do Espírito, e este é o pecado que não é perdoado nem nesta vida nem na outra, o pior dos pecados. Tudo é perdoado menos o pecado contra o Espírito Santo. Qual é este pecado? A ignorância voluntária — e ainda há quem chame isso de "simplicidade evangélica".

A falta de interrogação sobre o sentido da vida, a depreciação desta busca ou sua redução a uma curiosidade acadêmica, como se algo desligado do eixo da vida, isto é o desprezo pelo Espírito. Se o sujeito faz isso e depois vai ler a Bíblia, vai rezar, ele está perdendo tempo. É uma besteira: ele já informou a Deus que não quer nada com Ele.
Essa desespiritualização é a total absorção do indivíduo nas tarefas de subsistência, incluindo as tarefas de prazer, que também são para subsistência. Você precisa de uma certa quota de prazer sexual, gastronômico, etc., simplesmente para sobreviver, assim como, para sobreviver, precisa de uma certa dose de esforço dolorido. Enquanto o indivíduo está limitado a essas duas coisas, ele optou pela vida natural, não quer saber do sobrenatural. Se ele quiser saber do sobrenatural, terá de passar por essa interface, que é o sentido da vida dele mesmo.

Para você saber o sentido de uma coisa, primeiro precisa saber que coisa é esta. "Que é que eu sou?", "Onde é que eu estou?", "Que é que eu estou fazendo aqui?", "Que é que está me acontecendo?" e "Em que rumo está indo o curso da minha vida?"

Por exemplo: Você deseja realmente saber todos os impulsos hereditários malignos que herdou de seus antepassados? Assassinos, estupradores, traficantes, contrabandistas, proxenetas, dedos-duros — quer? Quer ver tudo isto? A isto Dante chama descida aos infernos: reconhecer as possibilidades inferiores que ainda estão em você. Você quer ver isto? Não, não quero. diz a maioria. Então, se não quer, não adianta ir rezar, porque a função do Espírito Santo é revelar precisamente isso para você.

Pelo olhar firme e inteligente é que você supera todo o mal que há em você: se você é capaz de saber, de olhar, você já está acima do seu próprio mal interior; agora, se você não quer ver, você ainda está em baixo. Não temos medo daquilo que nos é inferior. Só quando você quer ver esse conjunto é que, pelo simples fato de ser vistas, essas possibilidades então são queimadas, passam a fazer parte do seu mundo cognitivo e você de certo modo já está colocado acima delas.

Então, se formos pensar a ferro e fogo, a idéia que se tem hoje da preocupação "realista" com o cotidiano repetível é uma fuga do Espírito, uma sucessão de analgésicos. Quando acontece uma grande desgraça, o indivíduo se pergunta "por que isso aconteceu a mim?". Boa pergunta, mas antes de perguntar pela desgraça, já devia ter perguntado uma série de outras coisas. Não, ele deixa para fazer perguntas só quando acontece a desgraça. Ora, a desgraça pode ser complicada, e ele talvez não a entenda.

A situação do personagem do filme é uma situação evidentemente ideal, portanto artisticamente simplificada. É o indivíduo que nunca tinha pensado em nada e repentinamente tem de entender tudo. E ele entende. Ora, ele entende porque é um filme, é um esquema simplificado, simbólico, da vida. Na verdade, se o indivíduo passar a vida toda ignorando solenemente tudo o que se passa, quando ocorrer a desgraça ele também não vai entender, vai ficar ainda mais burro do que estava antes.

Não acredito que deixar tudo para o último minuto possa adiantar, exceto no filme. No filme, há um idiota jogado de repente numa situação trágica, onde ele tem de entender tudo e realmente entende, e, na hora em que entende, sua compreensão tem uma função catártica. Na hora em que toma consciência do que aconteceu, ele descarrega o mal que havia na situação e esse mal instantaneamente se converte em bem e sua esposa é resgatada.
Eu não nego que possa haver, neste sentido, uma atuação mágica do ser humano sobre o cenário histórico e até mesmo o cósmico, na medida em que entende o mal e, entendendo, o expressa e sublima de alguma maneira, exatamente como dizia Thomas Mann, que algumas previsões a gente faz justamente para que não aconteçam.

Mas, e se ninguém quer ver o mal? Aí vai acontecer mesmo. Se você não quer ver, você deixa tudo atuando na esfera da mecanicidade, das causas que já estão atuando independentemente de você e que vão chegar fatalmente às suas finalidades. Se você percebe e absorve este impacto, é possível que a sua tomada de consciência tenha uma função catártica capaz de beneficiar muitos seres humanos em torno.

É por isso que em geral profetas e grandes místicos são pessoas que tendem a ser mais tristes do que alegres, porque sabem o que está se passando. Podem antever certos resultados que os outros não antevêem e já sabem o que vai dar errado. Maomé olhava para um sujeito e sabia que o sujeito já estava no inferno, sabia que não podia fazer nada por ele, então chorava. Mas esta é uma última instância. Não é preciso antever o sujeito no inferno, mas um sujeito na câmara de gás ou num pelotão de fuzilamento é impossível que não haja ninguém capaz de antever. Entretanto, nas situações em que esse mal se aproxima, muitos esperam para tomar consciência no último momento.

Toda tragédia tem esse elemento: ver ou não querer ver. Na tragédia antiga, esse não ver não envolve culpa. A tragédia antiga parte do princípio de que existe uma certa limitação da inteligência humana. É um caso extremo, onde, mesmo agindo no melhor de suas capacidades, o homem não conseguiria entender, então ele se torna uma vítima inocente do jogo cósmico.

Na esfera cristã, já não se admite isso e sempre há um sentido culposo, e por isso mesmo o gênero trágico não floresce muito aqui. No mundo cristão, o que não quis ver tem culpa. Sempre há uma margem de manobra: as coisas poderiam ser de outra maneira. Pode haver um desenlace horrível, mas não trágico, porque não fatal. Foi uma escolha errada. De maneira aparentemente paradoxal, a culpa restaura a liberdade, porque ao assumir a culpa o sujeito vence, de certo modo, o destino fatal. As pessoas que hoje falam levianamente contra o senso cristão da culpa não entendem ou fingem não entender que a única alternativa a isso é o retorno à fatalidade trágica grega onde o inocente é sempre condenado. Os inimigos do sentimento de culpa são inimigos da liberdade.

Mas há maneiras distintas de entender, por exemplo, a história de Adão. Adão erra por fatalidade, ou tinha margem de manobra? Ele podia enxergar o que estava acontecendo ou foi uma pobre vítima dos acontecimentos? A interpretação muçulmana diz que foi um simples lapso intelectual, por isso não aceitam o pecado original: ali onde Adão errou qualquer um erraria. Mas é preciso compreender que a perspectiva islâmica, nesse caso, está referida à espécie humana e não ao indivíduo. No plano das ações individuais existe culpa, sim. O que o islamismo professa no fundo é apenas que o pecado de Adão foi de ordem cognitiva, e não propriamente moral.

Epílogo em junho de 1997
A gravação desta aula termina assim, abruptamente. Mas lembro que encerrei dizendo que Aurora, obra de um cineasta que foi um profundo estudioso da filosofia, da religião, do simbolismo e do esoterismo, era um cume de realização artística que o cinema nunca havia ultrapassado, precisamente porque nele as imagens condensavam diretamente e sem qualquer linguagem enigmática os problemas mais altos da metafísica do destino e da providência, com uma sutileza digna de Sto. Agostinho e Leibniz. Continuo dizendo isto e Friedrich Wilhelm Murnau continua sendo para mim o maior diretor de cinema de todos os tempos, até prova em contrário.
Olavo de Carvalho, livro A DIALÉTICA SIMBÓLICA)

sexta-feira, 24 de abril de 2009

CRIME E CASTIGO

Original: Преступление и наказание
Autor: Fiódor Dostoiévski
Tradução: Paulo Bezerra.
Editora: Editora 34
Assunto: Romance (Literatura estrangeira)
Edição: 1ª
Ano: 2001
Páginas: 568

Sinopse: Publicado em 1866, 'Crime e Castigo' é a obra mais célebre de Dostoievski. Neste livro, Raskólnikov, um estudantezinho pobre e desesperado que acha que é um gênio, que acha que pode mudar o mundo perambula pelas ruas de São Petersburgo até cometer um crime que tentará justificar por uma teoria - grandes homens, como César ou Napoleão, foram assassinos absolvidos pela História, então ele também poderia sê-lo. Este ato desencadeia uma narrativa labiríntica que arrasta o leitor por becos, tabernas e pequenos cômodos, povoados de personagens que lutam para preservar sua dignidade contra as várias formas da tirania.

O livro é uma história de suspense envolvida por teorias políticas e sociais da época. Escrito 50 anos antes da revolução russa, refletia a visão mais ameaçadora de Dostoiévski, de que o assassinato destruiria a alma de seus compatriotas e da sociedade russa.

O livro se baseia numa visão sobre religião e existencialismo com um foco predominante no tema de alcançar salvação pelo sofrimento, sem deixar de comentar algumas questões do socialismo e niilismo.

Dostoiévski identifica o problema central dos limites da liberdade da ação humana, mas também sugere as possibilidades de redenção pelo crime.

Enredo
É julho de 1865 em São Petersburgo, Rússia.
Novas teorias da Europa Ocidental consumiram um jovem e destacado estudante das províncias. Ele é Rodion Românovitch Raskólnikov, e acabou de cometer um assassinato.

Raskólnikov ficou possuído pelas teorias de um homem grandioso, queria mostrar que era extraordinário, destinado a ser grande, livre para criar suas próprias leis e matar se julgasse correto.

Durante algumas semanas antes do assassinato, Raskólnikov manteve-se fechado em seu quarto. Perguntava-se se era mesmo extraordinário, capaz de matar por um objetivo.
Uma coisa ele sabia: Não queria ser um homem comum, atado por códigos morais comuns. Assassinato, segundo ele, poria à prova a teoria que revelaria a sua natureza. Mas alguma coisa deu errado. Um homem extraordinário aproveitaria o seu direito nato, ignorando as leis comuns, sem olhar para trás.

Raskólnikov não encontrou essa liberdade. Desde o crime foi torturado por lembranças e por um sentimento de fracasso. O castigo de Raskólnikov havia começado. É o pesadelo do caos moral.
A personagem principal, apesar de professor de línguas, é um homem paupérrimo e que vive angustiado pela sombra de se tornar alguém melhor ou fazer algo importante. Ele divide o homem em ordinário e extraordinário, numa tentativa de explicar a quebra das regras em prol do avanço humano.

Seguindo este preceito --- fazer algo que mude a sociedade ou em pró dela --- a personagem planeja, em meio a uma luta consigo, a morte de uma usurária (alguém que empresta dinheiro a juros) e, finalmente, o cumpre.

Antes de fugir da cena do crime, porém, Raskólnikov também comete, a contragosto, o assassinato de Lisavieta, irmã da velha usurária, após ela ter visto o cadáver recém-assassinado no chão.

Este personagem principal rouba algumas jóias, mas não chega a usufruir deste ganho. A polícia, apesar de estar o investigando, termina por prender um inocente que se intitulou culpado por uma razão pessoal (bem explicado no livro). Entretanto, o personagem acaba confessando o crime que cometera, devido, principalmente, a enorme influência de uma prostituta chamada Sônia, que, antes disso, compartilha com Raskólnikov algumas leituras do Novo Testamento.
Enfim, Raskólnikov acaba preso. Porém, devido à sua confissão e ótimo histórico, sua pena acaba por ser reduzida a sete anos em uma cadeia na Sibéria, durante os quais Sônia, seguindo o condenado durante toda a história, manteve-se muito presente, também servindo de mensageira a sua família em São Petersburgo.

Comentários:
Apesar de já ter se passado 143 anos este livro de Fiódor Dostoiéviski continua sendo comovente e ao mesmo tempo impressionante. A partir do crime de Raskólnikov cometido para comprovar uma polêmica teoria, Dostoiéviski traça uma complexa trama cujo pano de fundo social e político nos mostra uma época em que a Rússia estava totalmente tomada pelo caos e que faria com que ocorresse a Revolução Bolchevique, em 1917 e a tomada do poder pelo povo com conseqüências desastrosas. Apesar de dar ênfase no crime de Raskólnikov criando cenas de muita tensão e angústia, o que mais chama a atenção nesta obra de Dostoiéviski é forma com que este retrata a situação de miséria e degradação social em que vivia a maioria da população russa. Destaque também para o ótimo trabalho de Paulo Bezerra e o cuidado da edição cheia de notas explicativas sobre os costumes literatura e História da Rússia. Crime e Castigo é sobre a ocorrência de um crime em circunstâncias e por um motivo absurdo mais acima de tudo trata-se de uma estória que demonstra que única forma de se redimir do mal que foi causado é através do amor. Sem dúvida é uma obra-prima e que deve ser lida por aqueles que apreciam uma leitura de qualidade que não é apenas uma forma de entretenimento, mas também de reflexão nestes tempos tão confusos e difíceis. Os tempos mudaram mais infelizmente algumas preocupações continuam as mesmas.

Crime e Castigo é um romance que descreve o funcionamento da mente revolucionária que é a base dos movimentos totalitários contemporâneos.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

EM BUSCA DE SENTIDO

UM PSICOLOGO NO CAMPO DE CONCENTRAÇAO
Autor: Viktor E. Frankl.
Editora: Sinodal e Co-editora Vozes
Assunto: Ensaio psicológico
Edição: 18ª
Ano: 1991
Páginas: 137
Nota: Em 2006 já foi editada a 22ª edição

Sinopse: Viktor E. Frankl descreve, nesta obra, como se sentiu e observou a si mesmo e as demais pessoas e seu comportamento na situação-limite e como foi a sua própria experiência em busca do sentido da vida num campo de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Ao fazê-lo, toca na essência do que é ser humano: usar a capacidade de transcender uma situação extremamente desumanizadora, manter a liberdade interior e, desta maneira, não renunciar ao sentido da vida, apesar dos pesares. Na segunda parte do livro, apresenta os Conceitos Fundamentais da Logoterapia.

Comentários: Um livro sobre uma verdadeira lição de vida! Uma obra de observação psicológica, ao mesmo tempo, um testemunho da grande humanidade, capaz de animar ainda hoje pessoas que, em situações aparentemente sem sentido, ficam abertas para os pequenos sinais de sentido perceptíveis no dia-a-dia. Tais sinais tornam-se frestas pelas quais podemos vislumbrar o sentido mais profundo e transcendente da vida.

Há na vida do Viktor um episódio famoso, em que ele não sabia se ia estudar nos EUA, que era o que ele queria fazer, ou se ficava na Alemanha com os pais que estavam velhinhos. Aconteceu, então, de ele encontrar uma pedra que havia caído de uma sinagoga, onde estava gravado o mandamento “honrar pai e mãe”, e ele entendeu aquilo como uma mensagem de Deus para que ele ficasse com os pais. Tendo permanecido com os pais, acabaram todos num campo de concentração.

Poderia parecer que dentro do projeto de vida dele isso foi uma desgraça, uma ruptura, um elemento fortemente opositivo que apareceu para destruir todos os seus sonhos, mas na verdade o que aconteceu foi exatamente o contrário, porque toda a substância da investigação médica a que Viktor Frankl se dedicaria pelo resto da vida foi dada pela experiência que ele teve no campo de concentração. E a pergunta que ele fez, e que orientou a sua investigação, o seu estudo, repetia de algum modo a mesma experiência que ele estava vivendo: “Por que algumas pessoas resistem bem à experiência do campo de concentração e saem de lá até fortalecidas, enquanto outras desabam, são totalmente destruídas?” Ou, em outras palavras: “Se a situação é a mesma para todos nós, por que uns reagem de uma maneira e outros reagem de outra?” Essa pergunta pode ser transposta, transformada algebricamente em uma outra ainda: “Por que em alguns indivíduos o fator unificante prevalece, e em outros o fator dispersante é o que acaba ganhando?” Era, portanto, exatamente o mesmo problema que ele estava tentando resolver, ou seja, como é que ele perseveraria na sua vocação em uma situação que parecia não só hostil, mas absolutamente antagônica. Como é que alguém vai poder se realizar, fazer uma carreira médica dentro do campo de concentração? Uma carreira de cientista, de acadêmico, seria impossível dentro de um campo de concentração; na verdade, porém, o que parecia ser mais oposto e mais hostil acabou não só ajudando como dando a inspiração a ele.

Isso mostra que se você estiver firmemente disposto a ser quem você quer ser, e se você não ficar contando sempre com circunstâncias favoráveis, mas aceitar de bom coração as circunstâncias desfavoráveis e tentar sempre integrá-las e negociar com elas, você acaba absorvendo todos esses elementos.

Trecho do livro: “Dostoievski afirmou certa vez: ´Temo somente uma coisa: não ser digno do meu tormento´. Essas palavras ficavam passando muitas vezes pela cabeça da gente quando se ficava conhecendo aquelas pessoas cujo comportamento no campo de concentração, cujo sofrimento e morte testemunham essa liberdade interior última do ser humano, a qual não se pode perder. Sem dúvida, elas poderiam dizer que foram ´dignas dos seus tormentos´. Elas provaram que, inerente ao sofrimento, há uma conquista, que é a conquista interior. A liberdade espiritual do ser humano, a qual não se lhe pode tirar, permite-lhe, até o último suspiro, configurar a sua vida de modo que tenha sentido (...) Se é que a vida tem sentido, também o sofrimento necessariamente o terá.”

Breve Biografia: Viktor E. Frankl, M.D., Ph.D. (26/3/1905-2/9/1997) foi professor de Neurologia e Psiquiatria de Viena e também professor de Logoterapia na Universidade Internacional da Califórnia. É fundador da Logoterapia, muitas vezes chamada de “terceira escola vienense de psicoterapia” (as duas primeiras são: a Psicanálise de Freud e a Psicologia Individual de Adler). Lecionou ainda nas universidades de Harvard, Stanford, Dallas e Pittsburgh.
Frankl publicou 32 livros, que foram traduzidos para 27 línguas, incluído o japonês e o chinês. Além disso, foram publicados 151 livros sobre Frankl e sua obra por outros autores.
Esteve no Brasil em 1984.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

PEQUENO MILAGRE

Título Original: Simon Birch
Gênero: Drama
Atores: Ashley Judd, Joseph Mazello, Oliver Platt, Dana Ivey, Ian Smith, David Strathairn
Diretor: Mark Steven Johnson
País: EUA-Canadá
Ano: 1998
Duração: 104 min.

Sinopse: Simon Birch (Ian Smith) foi o menor bebê a nascer no Gravestown Memorial Hospital. Com sérios problemas de crescimento, os médicos o declararam um verdadeiro milagre. Convencido de que Deus o pôs no mundo para tornar-se um herói, o pequeno Simon divide suas fantasias e altas aspirações com o melhor amigo, Joe (Joseph Mazzello), filho de uma adorável mãe solteira (Ashley Judd) que se nega a revelar a identidade do pai do garoto.

Enquanto Deus não o transforma na figura heróica e grandiosa que imagina, Simon discute a fé com a tirânica professora de catecismo (Hooks) e com o reverendo Russell (David Strathairn). Em um lance trágico que irá mudar para sempre o destino dos dois, Joe e Simon se unem para encontrar o que falta em suas vidas. Para Joe, é a identidade do pai que não conheceu. Para Simon, é descobrir o desígnio divino para o qual foi criado.

Comentários:
Todos nós somos instrumentos de Deus e Ele tem um plano para cada um de nós, tal qual para Simon Birch. Assim como Simon, todos nós deveríamos descobrir o desígnio divino para o qual cada um de nós foi criado, e não acreditar que a física quântica pode nos transformar em Deus!

Este filme trata-se de um verdadeiro antídoto ao documentário “Quem Somos Nós?” feito por psicopatas para psicopatas. Pequeno Milagre inspira e eleva a todos que o assistem. (Anatoli Oliynik).

sexta-feira, 3 de abril de 2009

EUGÉNIE GRANDET

Título original: Eugénie Grandet
Autor: Honoré de Balzac (1799-1850)
Tradutor: Moacyr Werneck de Castro
Assunto: Romance (Literatura estrangeira)
Editora: Difel
Edição: 1ª
Ano: 1961
Páginas: 201

Sinopse: Na cidadezinha francesa de Saumur, vive a família Grandet, cuja filha única é a doce Eugénie. O sr. Grandet, pai de Eugénie, é um comerciante de vinhos que enriqueceu no período pós-Revolução Francesa. E é, segundo consenso dos críticos, um dos maiores avaros da literatura universal. Eugénie, prestes a atingir a maioridade, passa a ser disputada pelas boas famílias da região, que desejam casar um dos seus com a herdeira do rico comerciante. Tudo vai bem, nos suaves vagares da rotina da província, até que surge Charles Grandet, rapaz típico da sociedade parisiense e filho do irmão do sr. Grandet que, tendo ido mal nos negócios, suicidara-se. O sobrinho acaba sendo acolhido, e o convívio suscita a paixão entre os primos Charles e Eugénie. O romance trata deste amor ardente e ao mesmo tempo resignado, em que Eugénie simboliza o amor total, que resiste a tudo à separação, à distância e as desilusões. Um amor tão formidável que dificilmente estará à altura do amado.

Comentários:
Neste livro, Balzac elabora uma exímia análise das estruturas sociais, psicológicas e existenciais que permeiam a trajetória das personagens. Por trás da mera seqüência de acontecimentos marcantes, há o desmascaramento das convenções sociais subordinadas às regras do poder e do dinheiro. Esses elementos, somados ao inigualável talento narrativo de Balzac, tornam este brilhante romance uma das mais importantes obras da literatura universal.

O romance oscila entre duas grandes paixões, a paixão de Eugénie pelo primo e a paixão do velho Grandet pelo dinheiro. E se para Balzac a primeira era mais importante – e tanto assim que o livro tem o nome de Eugénie – para muitos é no retrato que ele nos dá da avareza de Félix Grandet que reside o ponto alto da obra. Como sempre a verdade está no meio termo, porque no estudo desses dois caracteres Balzac insuflou uma grandeza admirável.

A tímida, a quieta Eugénie – que se julgava feia, mas em cujos olhos cinzentos transparecia, por inteiro, a pureza da sua vida casta – filha obediente e submissa que sempre curvou-se ante as imposições e os desejos do pai, sabe, na defesa do seu amor, enfrentá-lo com uma energia e coragem que ninguém lhe pode imaginar e que ninguém vislumbra em seu manso caráter de moça que se estiola num casarão silencioso e frio de província, em que a única lei era a vontade paterna.

A avareza de Gandet – “que parecia economizar tudo, até mesmo os movimentos” – é descrita com tal veracidade que o antigo comerciante de Saumur passou a figurar como um dos tipos clássicos de avarento, criados pela literatura.

O livro é todo o drama das vidas que se desenrolam nas pequeninas cidades interioranas, existência que, como o próprio Balzac dizia, tem sua grandeza muito menos nas ações que no pensamento e das quais é preciso salientar, através de insignificantes detalhes, de fatos e atitudes aparentemente sem importância, a riqueza oculta das paixões que nelas estuam.

sexta-feira, 27 de março de 2009

EUMÊNIDES

Autor: Ésquilo
Tradução: Mário da Gama Kury
Editora: Jorge Zahar Editor
Assunto: Tragédia (Teatro grego)
Edição: 7ª
Ano: 2006
Páginas: 196 (145-196)

Sinopse: Encerrando a trilogia (Agamêmnon, Coéforas, Eumênides), as Eumênides (“Deusas Benévolas”) personificam o apaziguamento de tantos ódios: elas são as Fúrias[1] [Tisífone (Castigo), Megera (Rancor) e Alecto (Interminável)], que atormentaram Orestes de Argos a Atenas, convertidas em deusas benévolas e reverenciadas. O tribunal que absolve Orestes, integrado também por cidadãos distinguidos de Atenas, institui o voto de desempate de Atena (Minerva para os romanos) e é o primeiro a julgar um crime de homicídio.
Entretanto, fica a pergunta: “Matar o pai é mais grave que matar a mãe?”
Época da ação: idade heróica da Grécia (cerca de 1200 a.C.)
Locais: Delfos e Atenas.
Primeira representação: 458 a.C., em Atenas.
Personagens:
- Orestes, filho de Agamêmnon e de Clitemnestra
- Apolo
- Atena (Minerva para os romanos)
- Fantasma de Clitemnestra
- Profetisa Pítia, já idosa
- Coro das Fúrias (seis)
- Escolta
- Hermes.
Resumo da Narrativa:
A sacerdotisa de Apolo no templo do deus em Delos encontra Orestes como suplicante junto ao altar. Em frente a ele estavam as Erínias (Fúrias para os romanos) que, cansadas de perseguir o fugitivo, haviam adormecido nos bancos do templo. Prometendo-lhe ajuda, Apolo manda Orestes fugir para Atenas, onde deveria submeter sua causa a julgamento e seria libertado de seus sofrimentos. O fantasma de Clitemnestra (sua mãe) aparece e censura as Fúrias por sua negligência, conduta essa que a expõe ao desprezo dos outros mortos no inferno. Despertadas pelo ápodos de Clitemnestra, elas recriminam Apolo por haver acolhido em seu templo um homem maldito que elas perseguem impelidas por seu direito de vingar os crimes cometidos entre consangüíneos.
A cena desloca-se para Atenas, até onde as Fúrias tinham perseguido Orestes. Abraçando-se à imagem de Atena, Orestes implora a proteção da deusa, alegando que suas mãos já haviam sido purificadas graças aos ritos sagrados, e que sua presença já não trazia malefícios a qualquer pessoa. As Fúrias cantam um hino para dominar o espírito de Orestes com seus encantamentos capazes de o levarem à loucura. Atendendo a uma prece da vítima, Atena aparece e convence as Fúrias a concordarem com o julgamento da causa, não pela deusa sozinha, mas com a colaboração de seis dos mais distinguidos cidadãos de Atenas, que constituiriam um júri.
Iniciado o julgamento, Apolo aparece como defensor de seu suplicante e como representante do próprio Zeus, a cujos mandamentos inapeláveis obedeciam os oráculos do deus-profeta. Apolo declara que Orestes matou sua mãe obedecendo a uma injunção divina. O acusado confessa o crime mas enfatiza em sua defesa que, ao matar o marido e rei, Clitemnestra assassinou o pai de Orestes, e que suas perseguidoras deveriam elas mesmas ter-se vingado dela.
Atena proclama que o tribunal – o primeiro a julgar um crime de homicídio – fica instituído por ela para sempre. Os juízes (jurados) depositam seus votos numa urna, e a deusa, declarando que é seu dever pronunciar o veredicto final da causa, esclarece que seu voto deve ser contado a favor de Orestes, que seria absolvido ainda que os votos se dividissem igualmente. Proclamado vencedor em face de um empate entre os juizes e do voto de desempate de Atena (Minerva para os romanos), Orestes sai de cena. Suas antagonistas ameaçam amaldiçoar Atena e trazer a ruína para a região cujos juízes absolveram o acusado. Mediante promessa de honrarias eternas às Fúrias, Atena consegue apaziguá-las, e elas deixam desde então de ser as deusas do ódio para passarem a ser as deusas benévolas (Eumênides). Em sua nova condição, as deusas saem numa procissão solene para o santuário que Atena lhes proporcionou numa gruta no sopé da colina de Ares (o Areópago, que deu o nome ao tribunal).
E assim termina a trilogia.

[1] Fúrias para os romanos e Erínias para os gregos.

sexta-feira, 20 de março de 2009

COÉFORAS

Autor: Ésquilo
Tradução: Mário da Gama Kury
Editora: Jorge Zahar Editor
Assunto: Tragédia (Teatro grego)
Edição: 7ª
Ano: 2006
Páginas: 198 (89-143)

Sinopse: Clitemnestra e Egisto, seu amante e cúmplice, são assassinados por Orestes, com a ajuda de sua irmã Electra e a proteção da alma de Agamêmnon. Clitemnestra encarrega sua filha Electra de fazer um sacrifício expiatório junto do túmulo do pai, para apaziguar os seus Manes e afastar os sinistros presságios dum sonho. Electra dirige-se ao túmulo acompanhada pelas escravas (Coéforas) que levam os vasos e presentes funerários e formam o Coro. Chegada ali, invoca a sombra do Pai a quem pede que vingue o crime de que foi vítima. De repente, vê sobre o túmulo uma mecha de cabelos, parecidos com os seus, que supõe serem de Orestes e faz votos pelo seu regresso. Orestes, que se tinha escondido com Pílades quando viu aproximar-se o grupo formado por Electra e pelas Coéforas, aparece e os dois irmãos combinam vingar o pai. Orestes apresenta-se no palácio como um estrangeiro e aproveita-se dum ardil para matar Clitemnestra e Egisto, seu segundo marido. Aparece depois ao povo exibindo o véu em que os assassinos tinham envolvido Agamêmnon para que não pudesse defender-se. De súbito perde a razão e retira-se para Delfos cujo deus lhe ordenara o matricídio.

Resumo da Narrativa:
Electra, filha de Agamêmnon e de Clitemnestra, morava no palácio real mas era tratada como escrava, e antes do assassinato do pai, mandou seu irmão Orestes para a corte do seu tio Estrófio, rei da distante Focis, com o objetivo de ser criado lá.
Anos mais tarde a alma de Agamêmnon, cheia de rancor, mandou um sonho para alarmar Clitemnestra. Pareceu à rainha em sua visão noturna que ela dera à luz a uma víbora, esta amamentava-se no seio dela como se fosse um recém-nascido; ao leite materno juntava-se sangue em abundância. Clitemnestra despertou transtornada, aos gritos. Consultado por ela, um adivinho do palácio interpretou o sonho como um sinal de ressentimento das divindades infernais. Para aplacá-las, a rainha mandou Electra, juntamente com algumas servas, levar libações à tumba de Agamêmnon, numa tentativa de apaziguar a alma do marido no mundo dos mortos. NO mesmo dia em que Clitemnestra mandou Electra levar as libações, Orestes, já adulto, acompanhado por Pílades, seu companheiro inseparável, chegou a Argos ansioso por vingar a morte do pai. Lá, seu primeiro cuidado foi depositar mechas de seus cabelos, como oferenda fúnebre, sobre o túmulo de Agamêmnon. Quando Electra descobriu aquela oferenda, pensou que a mesma só poderia ter sido trazido pelo irmão.
Depois de ser reconhecido pela irmã, Orestes disse que Apolo o incumbira de vingar o assassínio de seu pai, sob pena de ser perseguido implacavelmente pela Fúrias/Erínias vingadoras. Sem ser acolhido por qualquer criatura humana e sem poder aproximar-se dos altares dos deuses, ele pereceria depois de sofrer castigos indescritíveis.
Junto ao túmulo do pai, Orestes e Electra ajudados pelas cativas componentes do coro, imploram a proteção e a ajuda da alma de Agamêmnon à sua causa. Disfarçados em viajantes vindos da Focis, Orestes e Pílades são acolhidos amistosamente por Clitemnestra, depois de lhe dizerem que seu filho tinha morrido no exílio. A rainha manda a velha ama de Orestes buscar Egisto, que estava ausente do palácio juntamente com seu corpo de guardas. As cativas do coro convencem a ama a modificar a mensagem de Clitemnestra, de modo que Egisto voltasse sozinho, deixando seus guardas longe do palácio. Logo após a chegada de Egisto, ele e Clitemnestra são mortos por Orestes, indiferente às súplicas maternas. Mostrando o manto ensangüentado em que seu pai fora imobilizado antes de ser morto, Orestes ressalta a justiça de seu ato de vingança. Em seguida sua mente começa a perturba-se. As Fúrias/Erínias vingadoras de sua mãe, invisíveis às outras pessoas presentes, aparecem diante dos olhos desvairados de Orestes, que se afasta precipitadamente.

Interpretação da obra:
Coéforas faz parte de uma trilogia, Agamêmnon, Coéforas e Eumênides. De fácil entendimento, mostra um panorama geral do que a precedeu e sugestiona o que está para acontecer. As tragédias gregas sempre têm como fio condutor, Coéforas não foge à regra, a necessidade do Homem manter-se no caminho da razão e do comedimento, tentando não agir por impulsos, para não provocar a ira de algum deus ou a vingança de outrem. Não se trata de ser bom ou ruim, mas de passar da medida. Em Coéforas quem vem pagar pela falta de medida é Clitemnestra e Egisto, assassinos de Agamênon. É importante frisar que a vingança de Orestes, personagem do livro, não é decidida por ele, mas por um deus, o que mostra a relação deuses - homens na sociedade grega, justificando também mais tarde em Eumênides sua absolvição. Dentro da estrutura da encenação, é interessante pensar no corifeu, em Coéforas como em Eumênides, o coro não está fazendo apenas um comentário da ação, mas interferindo na ação, às vezes até agindo. Um exemplo seria quando a ama vai buscar Egisto e o Corifeu a interpela, sugerindo que o busque sem o acompanhamento da sua guarda, ou seja, o corifeu participa da ação contribuindo para que o plano de Orestes tenha êxito. O coro como representação da sociedade, solicita a concretização da vingança, pois não foi uma pessoa comum assassinada, mas o rei, um rei herói, orgulho dos Aqueus, morto sorrateiramente.

Justiça e vingança são conceitos de base desta peça.

quinta-feira, 12 de março de 2009

AGAMÊMNON

Autor: Ésquilo
Tradução: Mário da Gama Kury
Editora: Jorge Zahar Editor
Assunto: Tragédia (Teatro grego)
Edição: 7ª
Ano: 2006
Páginas: 196 (17-87)
A Oréstia é uma trilogia trágica "interligada", a única que chegou praticamente intacta aos nossos dias. As outras peças da trilogia são, pela ordem, Coéforas e Eumênides.
Ao longo da trilogia, a lenda dos Átridas é relatada desde a morte de Agamêmnon até a absolvição de Orestes pela morte dos assassinos do pai. Agamêmnon, a primeira peça, conta a morte do rei logo depois da queda de Tróia.

Sinopse: Agamêmnon baseia-se na volta vitoriosa do herói à Argos, após ter vencido a guerra de Tróia e vingado a honra de seu irmão Menelau, marido de Helena, que havia fugido com Páris. A esposa de Agamêmon, Clitemnestra, por sua vez, também o trai, e arquiteta o assassinato do marido com o amante.
A obra traz as tensões e emoções do planejamento e da execução, por Clitemnestra, do assassinato de seu marido, Agamêmnon, vingando assim o sacrifício de sua filha por ele. A peça termina com o coro advertindo Clitemnestra de que seu filho Orestes, então no exílio, regressaria para vingar a morte do pai.

Resumo da narrativa:
Durante muito tempo os vigias ficaram atentos, até que finalmente, em certa noite do décimo ano após a partida do chefe grego, a chama da sinaleira apareceu no horizonte e foi vista pela sentinela postada no terraço do palácio de Argos.
Neste ponto começa Agamêmnon. Para celebrar o acontecimento, a rainha manda queimar incenso e levar oferendas aos altares dos deuses. Os anciãos componentes do coro, que haviam permanecido em Argos por causa da idade avançada, não crêem de imediato na notícia, recebida de forma tão insólita e rápida, e sua dúvida só é desfeita com a aparição do arauto, que apregoa a volta de Agamêmnon vitorioso, recém-chegado a Argos na única nau que escapara de uma tempestade no meio do caminho. Recebido com alegria simulada pela rainha, Agamêmnon pede acolhida cordial para Cassandra, filha de Príamo, que lhe coubera como presa de guerra. Diante da insistência de Clitemnestra, o rei consente em caminhar sobre tapeçarias suntuosas até o palácio. Cassandra, que fora dotada por Apolo do dom da profecia, procura convencer os anciãos do perigo a que se expunha Agamêmnon e, consciente da morte que também a esperava, entra no palácio. Ouvem-se os gritos de Agamêmnon ferido mortalmente; os cadáveres dele e de Cassandra são vistos em seguida no vestíbulo do palácio. Clitemnestra exulta com seu feito e desafia os anciãos. Aparece Egisto e declara que Agamêmnon morreu para pagar os crimes de Atreu, pai dele. Os anciãos, na iminência de entrar em combate com os soldados da escolta de Egisto, são contidos por Clitemnestra, mas antes advertem o usurpador de que Orestes, filho de Agamêmnon, então no exílio, regressaria para vingar a morte do pai.

sexta-feira, 6 de março de 2009

O CASTELO

Título original: Das Schloss
Autor: Franz Kafka (1883-1924)
Tradução: Modesto Carone
Editora: Companhia das Letras
Assunto: Romance (Literatura estrangeira)
Edição: 1ª
Ano: 2000
Páginas: 488

O Castelo foi escrito em 1922. Publicado (post-morten) em sua primeira edição em 1926 pela editora Kurt Wolff de Munique. A tradução de Modesto Carone dá-se a partir de edição crítica de Malcolm Pasley de 1982.
O cenário em que se passa a estória é a aldeia de Wossek, de onde a família de Kafka era originária. O Castelo é a “casa grande” senhorial da aldeia.

Sinopse: O agrimensor K. chega a uma aldeia coberta de neve e procura abrigo no Albergue da Ponte. O ambiente sombrio e a recepção ambígua dão o tom do que será o romance. No dia seguinte o herói vê, no pico da colina gelada, o castelo: como um aviso sinistro, bandos de gralhas circulam em torno da torre. K, por mais que tente, não consegue entrar no castelo, ficando na aldeia de fora do castelo ao longo da narração. A partir daí todo um mistério se desenvolve em torno do Castelo, dos habitantes da aldeia e até mesmo sobre a verdadeira identidade e objetivos de K.
As personagens principais são K., o agrimensor protagonista; os duplos Jeremias e Artur ajudantes de K.; Frieda, uma balconista do bar da Hospedaria dos Senhores; Olga, de uma família decadente socialmente; Barnabás, irmão de Olga, sapateiro e correspondente do castelo com a aldeia; Amália, irmã de Olga e heroina da estória; Klamm, alto funcionário do castelo; Pepi, uma empregada da Hospedaria dos Senhores; Gardena, dona do Albergue da Ponte e mãe de criação de Frieda; Sortini, funcionário do castelo; entre outros.

Interpretação da obra:
As interpretações do livro são muitas, desde simplesmente uma crítica à burocracia estatal (interpretação weberiana) até uma visão religiosa, mais especificamente judaica. Há também uma visão psicológica dizendo que o castelo seria o incosciente de K. e a aldeia sua consciência. Como a obra kafkiana é muito aberta, muito simbólica e muito alegórica, permite inúmeras interpretações possíveis, característica de todas as grandes obras.
Para uma interpretação mais precisa da obra, é preciso encontrar respostas para as seguintes perguntas: Quem é K.? Por que K. quer falar com o Castelo? Por que K. não reconhece os seus ajudantes? Por que K. quer se livrar de seus ajudantes? O que o Castelo representa?
O que se sabe sobre K. é muito vago: sabe-se que foi contratado como agrimensor, que tem uma mulher, um filho; não se sabe de onde ele apareceu. Não há nenhuma descrição corpórea dele. Ele não tem verdadeiramente um corpo. Ele é uma pessoa incerta, obscura e suspeita. Tudo nele é dúbio. Só se sabe que ele quer, obstinadamente, falar com o Castelo; ele quer alguma coisa do Castelo. Essa coisa é a chave da interpretação da obra.
K. quer falar com o Castelo porque ele quer uma identidade, deseja legitimar a sua situação e assim obter o reconhecimento de que ele é alguma coisa, pois ele não existe de fato; não tem consistência humana. Essa identidade, reconhecimento e legitimação precisa vir de cima para que seja aceito na aldeia.
K. não reconhece seus ajudantes Artur e Jeremias porque na realidade os ajudantes são duplos de K.; são ele mesmo; são o pedaço da sua realidade que ele não aceita e com a qual não quer se confrontar. A chegada dos duplos significa a recuperação da unidade da pessoa de K. mas ele não percebe isso.
K. quer se livrar de seus ajudantes porque não consegue compreender que eles representam a totalidade da condição humana e com isso não percebe eles são ele próprio.
Aquilo que se chama Castelo representa uma instância superior (o conde), mas também encerra coisas demoníacas (os subalternos). A parte de cima do castelo representada pelo conde, simboliza Deus; a parte baixa do castelo representada pelos subalternos é diabólica e simboliza a natureza abissal. Trata-se, portanto, da relação entre o firmamento de luzes e o abismo de trevas.

Conclusão:
A natureza humana é colocada numa tensão entre o Céu (Firmamento de Luzes) e a Terra (Abismo de Trevas). Os duplos: Jeremias representa o Céu e Artur representa a Terra e K. para recuperar a sua unidade teria de compreender que sua própria natureza é um eterno conflito entre o firmamento de luzes e o abismo de trevas.
K. não foi reconhecido de fato pelo Castelo, porque primeiro ele teria que reconhecer a si próprio, coisa que ele não foi capaz por não enxergar em seus ajudantes Jeremias e Artur, pedaços de sua própria unidade.
Os demônios subalternos do castelo (anjos caídos) aplicam todos os meios para que o homem não compreenda a sua realidade e natureza e assim impedem o encontro do homem com a Unidade. A única personagem que não entra no jogo demoníaco é Amália, a verdadeira heroína da estória.
K. faz o jogo demoníaco do mundo material: exige ser reconhecido sem se reconhecer primeiro, pensando que pode derrotar o sistema divino utilizando subterfúgios humanos. Acontece que ele só fala com o sistema de baixo, o sistema demoníaco que não passa de um jogo da mentira do castelo com a mentira da aldeia.

Sobre o autor: FRANZ KAFKA Nasceu em Praga, na Boêmia (hoje República Tcheca), em 1883. Fez seus estudos na cidade natal, formando-se em direito em 1906. Tuberculoso, alternou temporadas em sanatórios com o trabalho burocrático. Jamais deixou de escrever, embora tenha publicado pouco e, já no fim da vida, pedido inutilmente ao amigo Max Brod que queimasse seus escritos. A maior parte de sua obra, toda escrita em alemão, foi publicada após sua morte, que ocorreu em 1924, num sanatório perto de Viena. Kafka morreu de fome e sede, devido a tuberculose alojada na garganta que o impedia de comer e beber considerando que a medicina da época não dispunha de recursos de hoje. Quase desconhecido em vida, é considerado hoje um dos maiores escritores deste século.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O REI LEAR

Autor: William Shakespeare (1564-1616)
Tradução: Millôr Fernandes
Editora: L&PM
Assunto: Drama (Teatro inglês)
Edição: 1ª
Ano: 1997
Páginas: 140


O drama O Rei Lear foi escrito em 1605 e encenado na corte no dia 26 de dezembro de 1606.

Sinopse: O rei Lear resolve abdicar de toda a sua autoridade, posses de terras e funções do estado e decide dividir o reino entre as suas três filhas Goneril, Regana e Cordélia, confiando assim nas forças mais jovens para poder caminhar, mais leve, em direção à morte. Durante a assembléia anuncia que a filha que declarar maior amor filial por ele, será aquinhoada por uma recompensa maior.

A resposta de Cordélia, a filha mais jovem e última a falar, não lhe agrada e, por conseqüência é deserdada e expulsa do reino, antes, porém, Lear declara que ela não é mais sua filha.
A decisão do rei desencadeia uma discussão com o conde de Kent que acorre em defesa de Cordélia censurando a atitude de Lear. Este, por sua vez, expulsa igualmente o conde do reino.
A progressiva dificuldade de discernir as atitudes e os discursos daqueles que o cercam, o embotamento da percepção da sinceridade e da falsidade aliada a suspeita errônea de onde viria a traição, desencadeiam todo o drama se desenrola na obra.

Personagens principais: 1. Rei Lear: (Um homem infantilizado pelo poder. Representa a segunda casta, a casta guerreira); 2. Cordélia: (Filha caçula de Lear. Representa a sinceridade, a pureza, a honestidade e a verdade); 3. Edmundo: (Filho bastardo de Gloucester. Representa a falsidade, a traição, a insídia e o caos); 4. Goneril: (Filha mais velha de Lear e organizadora do caos); 5. Osvaldo: (Criado de Goneril); 6. Duque de Albânia: (Marido de Goneril); 7. Regana: (Filha do meio de Lear e co-autora do caos juntamente com a irmã Goneril); 8. Duque de Cornualha: (Marido de Regana); 9. Conde de Gloucester; 10. Edgar: (filho legítimo de Gloucester e rufião); 11. Conde de Kent: (Amigo leal de Lear. É o único elemento unificador da história).

Interpretação da obra: Trata-se de uma história relativa a rebelião contra o espírito e o desvio fundamental da Ordem que culmina com a queda do Homem.
A história do rei Lear não é uma história a respeito da velhice. A velhice do rei tem significação de degenerescência da ordem e do sentido de justiça. Portanto, é uma história que trata das possibilidades de recuperação do Homem após a sua Queda.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

UM RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM

Título original: A portrait of the artist as a young man
Autor: James Joyce (1882-1941)
Tradutor: Bernardina da Silveira Pinheiro
Assunto: Romance (Literatura estrangeira)
Editora: Alfaguara Brasil
Edição: 1ª
Ano: 2006
Páginas: 272

Sinopse: Romance de estréia do escritor irlandês publicado em 1916, narra experiências de infância e adolescência de Stephen Dedalus, alter ego do autor; termina com a recriação de seus ritos de passagem para a idade adulta, que incluiriam deixar para trás a família, os amigos e a Irlanda e ir viver no continente.
O livro conta o processo de transição do jovem Stephen Dedalus para a maturidade e o autoconhecimento. Ele deseja profundamente ser um artista, mas, primeiro, precisa vencer as forças que reprimem sua imaginação - as convenções da Igreja Católica, da escola, da sociedade. A obra reflete a profunda relação de amor e ódio que o autor manteve durante toda a vida com sua terra natal, Dublin, e com a cultura que o formou.
Comentários:
Em janeiro de 1904, Joyce escreveu um ensaio autobiográfico que intitulou de “A portrait of the artist”. Era a primeira etapa na elaboração daquela que seria uma de suas obras-primas literárias: “Um retrato do artista quando jovem”. Com 22 anos de idade, Joyce descobriu que podia se transformar em um artista escrevendo sobre o processo de se tornar um artista. A recordação da infância e juventude de um menino católico na Irlanda, seu embate com as noções de pecado e santidade e o desejo de expressão individual.
O Retrato do Artista é um romance de formação (Bildungsroman), tipo de romance em que é exposto de forma pormenorizada o processo de desenvolvimento físico, moral, psicológico, estético, social ou político de uma personagem, geralmente passando por fases de sua vida (infância, adolescencia, adulta, maturidade). No caso especifico de James Joyce neste livro, até os 14 anos de idade.
Nesta obra, Joyce apresenta o uso sistemático do monólogo interior - desde o primeiro capítulo somos introduzidos na mente de Stephen Dedalus e convidados a acompanhar seus pensamentos, reações e os processos psíquicos de sua consciência. Trata-se de um dos primeiros exemplos da técnica narrativa do fluxo da consciência.

Sobre o Autor:
James Joyce (1882-1941) nasceu em uma abastada família católica, no subúrbio de Dublin, Irlanda. Educado em colégio jesuíta, estudou Filosofia e Línguas na University College. Já nos primeiros anos de faculdade, já publicava artigos na imprensa e começava a escrever os poemas líricos mais tarde reunidos no livro Câmara de música. Morou em Paris, em Trieste e em Zurique, onde a família viveu na pobreza, enquanto ele escrevia Ulisses.
É considerado um dos autores de maior relevância do século XX, e seus textos influenciaram, de uma maneira ou de outra, todos os escritores que lhe sucederam. Suas obras mais conhecidas são o volume de contos Dublinenses (1914) e os romances Um retrato do artista quando jovem (1916), Ulisses (1922) e Finnegans wake (1939). Os três últimos exerceram enorme impacto na literatura inglesa modernista. William Faulkner e Virginia Woolf são alguns dos grandes escritores cujas obras foram fortemente inspiradas pelas de Joyce.
Embora tenha vivido fora da Irlanda durante a maior parte da vida, suas experiências em seu país de origem são de grande importância para a compreensão de sua obra. O universo ficcional de Joyce enraíza-se fortemente em Dublin e reflete sua vida familiar e eventos, amizades e inimizades dos tempos de escola e faculdade.
O autor morreu em janeiro de 1941, dois meses depois de retornar com a família à Suíça. Todos os anos, sua vida é celebrada no dia 16 de junho. Conhecida como “Bloomsday”, a data é comemorada não apenas em Dublin, mas também em diversas outras cidades ao redor do mundo.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

LIÇÕES DE ABISMO

Autor: Gustavo Corção (1896-1978)
Editora: Agir
Assunto: Romance (Literatura brasileira)
Edição: 15ª
Ano: 2004
Páginas: 237

Sinopse: Publicado em 1950. Denso e profundo, o livro é o diário final de um homem que se descobre com leucemia. O médico lhe diz que terá três ou quatro meses de vida (a primeira anotação é de 11 de novembro; a última, de 23 de fevereiro). Logo ele constata que a morte, como o amor, não precisa de muito espaço. Mergulhado na memória, avalia o sentido da vida. Os escritos, de lucidez crescente, são reflexões sobre a alma, a verdade, o absoluto, o amor, a frivolidade, o ciúme. Documentam uma volta à fé, o reencontro com a graça.

Breve Comentário:
Nesta obra você se depara com a inapelável fragilidade humana perante a morte, suavizada por uma linguagem poética e severa do autor.
"(...) o mundo parece uma oficina de deteriorar o que as pessoas deveriam ser. A decomposição começa muito antes da sepultura. Mal armada a figura do homem, começa a desfazê-la, como se isto fosse um jogo que se monta por desfastio e que logo se desarma com tédio. E onde se localiza, em nossa vida, o ponto de inflexão? Em que dia comecei eu a ser desmanchado por mãos distraídas? (...)" - página 145.
Lições de abismo é uma referência ao professor João Maria, irremediavelmente vencido por um câncer, indaga, atônito, mas firme no propósito de usar os dias que lhe restam para mergulhar em sua vida, em sua memória, na razão de sua existência.
O professor João Maria, divorciado há dez anos da mulher, e afastado do filho que hoje "é apenas uma sombra" do que representou para ele, descobre que está condenado pela ação de um "monstro líquido" chamado leucemia mielóide aguda. E, mesmo nocauteado pelas poucas linhas escritas no exame que o dr. Aquiles lê à sua frente (e delimita-lhe a condição humana física ao exíguo espaço de tempo de três a quatro meses) é capaz de refletir sobre o sentido e a beleza da vida. "A vida é tudo. Tem um valor infinito: mas não tem sentido nenhum. A vida!" (página 59).
Ao contrário de Ivan, o juiz da célebre novela de Leon Tólstoi, A morte de Ivan Ilitch, que se acovarda na hora da morte e passa o livro inteiro sendo enganado pela família e pelo médico, que mentem sobre sua doença, o professor João Maria recebe o veredicto do doutor Aquiles com um misto de dor e resignação, estoicismo e vontade de lutar. Sim, ele quer lutar, apesar de só ser possível com a arma de um milagre ou com a coragem da imaginação. E é isso que ele faz. "(...) ao menos esses dias eu queria viver, queria viver a minha morte, já que a vida eu não a pudera viver; queria aproveitar essa última oportunidade de harmonia, essa única certeza, essa vantagem, essa vantagem enorme, colossal, que levo de hoje em diante sobre o comum dos mortais. (...)". (páginas 29/30).

Sobre o autor:
Gustavo Corção nasceu em dezembro de 1898, no Rio de Janeiro. Cursou Engenharia na antiga Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Trabalhou em Astronomia de Campo, em Mato Grosso; em serviço de Energia Elétrica, no Rio de Janeiro e Espírito Santo; em Radiocomunicações, de 1925 a 1937, e depois em atividades industriais, até 1948. Casou-se em 1924, e, em segundas núpcias, em 1937. Converteu-se à Igreja Católica em 1939. Publicou seu primeiro livro 'A descoberta do outro', em 1944; em 1945, 'Três alqueires e uma vaca'; em 1951, 'Lições de Abismo', e, em 1952, 'Fronteiras da Técnica'; em 1956, 'Dez Anos' (Crônicas) e 'O Desconcerto do Mundo', em 1965. Foi colaborador semanal de 'O Estado de São Paulo', do 'Diário de Notícias', do Rio de Janeiro, e do 'Correio do Povo', de Porto Alegre. Faleceu em 6 de julho de 1978.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A DIVINA COMÉDIA

Autor: Dante Alighieri (1265-1321)
Tradução: Ítalo Eugênio Mauro
Editora: Editora 34
Assunto: Poesia épica
Edição: 4ª
Ano: 2001
Páginas: 696

A Divina Comédia (Do Italiano "Comedia" ou "Commedia", mais tarde batizada de "Divina" por Giovanni Boccaccio), escrita por Dante Alighieri entre 1307 e a sua morte em 1321, é indiscutivelmente considerado o melhor poema épico da literatura italiana, e um dos melhores da literatura mundial.

Sinopse: A Divina Comédia é dividida em três partes, a primeira com 34 cantos e as outras duas com 33 fechando uma centena. Inferno, Purgatório e Paraíso. Segundo Dante, O Purgatório é um espaço intermediário entre céu e o inferno, um patamar entre os circulos concentricos reservado aqueles que não foram batizados ou nasceram antes de Cristo.

A Divina Comédia propõe que onde é Jerusalém hoje, seria o lugar onde o diabo bateu ao cair do céu, como se a terra santa fosse o Portal do Inferno. Tanto o Inferno, uma esfera circunscrita a esfera da Terra responderia pela depressão mar morto onde todas as águas convergem, o Paraíso e o Purgatório seriam os segmentos dos círculos concêntricos que juntos respondem pela mecanica celeste e os cenários dessa imortal comédia.

As personagens principais da Divina Comédia são Dante Alighieri e Virgílio, aquele que escreveu a história de Roma, a Eneida, mas Virgílio já é uma alma, ele está morto. Dante é um italiano, herdeiro da civilização grega e está vivo.
Virgílio serve como um mentor, uma espécie de condutor, um guia, alguém que mostra o caminho para Dante.

Dante está buscando Deus. Mas para alcançar Deus é preciso fazer uma viagem além-túmulo e Dante faz isso para propor uma redenção moral da humanidade destinada à perdição eterna porque está submetida ao apego aos bens terrenos e às paixões mundanas. Dante busca despertar nos homens a consciência da redenção para que possam salvar-se espiritualmente.
Dante entendia, e eu concordo plenamente com ele, que o homem por mais que se esforce, jamais poderá conhecer Deus servindo-se apenas do instrumento da razão. É preciso dar um salto místico para poder-se alcançá-Lo e acolhê-Lo em todo o seu mistério.

O conceito de ‘Comédia’, à época, não constituía sinônimo de engraçado ou humorístico. Era um conceito aristotélico. É assim denominado porque o final dá certo. Se o final desse errado, a denominação seria ‘Tragédia’.
Para ler a Divina Comédia, é preciso promover a suspensão do ceticismo. Deve-se ler como se verdade fosse para compreender a obra.

Inferno
Quando Dante se encontra no meio da vida, ele se vê perdido em uma floresta escura, e sua vida havia deixado de seguir o caminho certo. Ao tentar escapar da selva, ele encontra uma montanha que pode ser a sua salvação, mas é logo impedido de subir por três feras: um leopardo, um leão e uma loba. Prestes a desistir e voltar para a selva, Dante é surpreendido pelo espírito de Virgílio - poeta da Antigüidade que ele admira - disposto a guiá-lo por um caminho alternativo. Virgílio foi chamado por Beatriz, paixão da infância de Dante, que o viu em apuros e decidiu ajudá-lo. Ela desceu do céu e foi buscar Virgílio no Limbo. O caminho proposto por Virgílio consiste em fazer uma viagem pelo centro da terra. Iniciando nos portais do inferno, atravessariam o mundo subterrâneo até chegar aos pés do monte do purgatório. Dali, Virgílio guiaria Dante até as portas do céu. Dante então decide seguir Virgílio que o guia e protege por toda a longa jornada através dos nove círculos do inferno, mostrando-lhe onde são expurgados os diferentes pecados, o sofrimento dos condenados, os rios infernais, suas cidades, monstros e demônios, até chegar ao centro da terra, onde vive Lúcifer. Passando por Lúcifer, conseguem escapar do inferno por um caminho subterrâneo que leva ao outro lado da terra, e assim voltar a ver o céu e as estrelas.

Purgatório