sexta-feira, 15 de junho de 2018

O CORAÇÃO DAS TREVAS


O CORAÇAO DAS TREVAS
Título original: The heart of darkness
Autor: Joseph Conrad (1857-1924)
Tradução: Celso M. Paciornik
Editora: Iluminuras
Assunto: Romance (Literatura estrangeira)
Edição: 2ª
Ano: 2002
Páginas: 114


Sinopse:
O livro escrito em 1899 apresenta a narrativa de Charlie Marlow, um alter ego[1] de Joseph Conrad, sobre suas experiências nos confins da África. Marlow descreve os sombrios horrores enfrentados no coração da selva africana, como a morte iminente e a bárbara selvageria dos nativos. O objetivo de Marlow nesse ambiente hostil é encontrar o Sr. Kurtz, personagem envolto em certo misticismo. No decorrer de sua jornada, os caracteres da personalidade de Kurtz são apresentados, alçando paulatinamente esse personagem à uma condição divina. Entretanto, quando o encontro entre os dois finalmente acontece sobra certa decepção com o desfecho, dadas às expectativas criadas no decorrer da viagem.
Comentários:
Trata-se de um clássico da literatura universal que vale a pena ser lido. O enredo do filme "Apocalypse Now" de Coppola é baseado nesse livro, trazendo Marlon Brando no papel correspondente ao do Sr. Kurtz, entretanto, o filme não substitui a leitura do livro.
Conrad sabia como ninguém que o “o sentido de um episódio não estava dentro, como uma amêndoa, mas fora, envolvendo a narrativa”. E é nesse periférico que se nos apresenta um clássico. Não tenho a pretensão de iniciá-lo em Conrad, seria uma empresa fadada, de antemão, ao fracasso, sabedor que sou que “não há iniciação para tais mistérios”, esta tem que se dar na descoberta de suas lendárias páginas de aventura humana “no meio do incompreensível, que é também detestável”, mas, ao final, nos coroa com o halo literário que só os grandes autores nos sabem ofertar. Em Conrad, somos salvos pela sua “devoção à eficiência”, nada falta ou transborda; tudo na medida certa, no tempo certo. Em algumas páginas, o romântico se nos impõe, e temos a beleza em estado primevo; em outros momentos, o drama surge, a emoção dita e domina.
Interpretação da obra:
O prof. José Monir Nasser dizia que para compreender a obra de Joseph Conrad, é preciso saber interpretar os aspectos simbólicos fartamente utilizados por ele. Se você ler a obra dogmaticamente, não vai compreender nada.
Joseph Conrad usa a África como uma metáfora da condição humana, da qual não estão excluídos os abismos e os horrores. Ele penetra num mundo estranho, quase surrealista.
O que Joseph Conrad quer nos contar é o dilema moral do ser humano e o caos do mundo em que vivemos. Mostra-nos a sociedade enlouquecida criada por Kurtz, que assume, nesta sociedade que criou, o papel de Deus, decidindo quem deve e quem não deve morrer. Nos mostra, ainda, que o ser humano vive num mundo concreto, natural e contraditório, onde existem aspectos benignos e malignos, tal qual a natureza que é também potencialmente contraditória e onde se encontram forças de sustentação e forças de repúdio.
O homem não é 100% natureza. Há uma parte nele que não pertence à natureza e que não é humana, mas Divina (o espírito que corresponde ao intelecto, à sabedoria e ao conhecimento instantâneo da realidade). O intelecto (não é a razão) faz a ligação do homem com o mundo transcendente, onde está a verdade. E nós humanos somos prisioneiros dessa tensão que é a essência da vida humana. Platão dizia que o homem é o intermediário entre o animal e o anjo.
Quando Kurtz retorna para a “civilização”, à beira da morte, desvela um pouco mais do mistério de tudo e emite sua expressão final antes de se quedar sem vida: “O Horror! O Horror!”, ele prenuncia o julgamento de sua alma na Terra. Marlow já não é o mesmo, frente à iluminação final de Kurtz.
Conclusão:
Os mistérios em torno das personagens de Conrad simbolizam a impenetrabilidade misteriosa da alma humana, e as suas complicações.

"Vivemos como sonhamos - sozinhos"
“O objetivo que tento atingir, pelo poder da palavra escrita, é fazer você escutar, fazer você sentir e acima de tudo, fazer você ver. Isto, e nada mais, é tudo”. Palavras de Joseph Conrad, talvez um dos mais vicerais escritores que a literatura ocidental já produziu.
Jósef Teodor Konrad Korzeniowski nasceu em 1857, na cidade de Berdichev, na Ucrânia, uma região que foi parte da Polônia, mas na época estava sobre controle russo.
Nota: Alguns atribuem que Joseph Conrad nasceu em Berdyczow uma província ucraniana na Polônia daquela época. Hoje a cidade ucraniana Berdichev.



[1] [Lat., 'outro eu'.] 1. O outro eu, ou seja, pessoa na qual se pode confiar como em si mesmo. 2. P. ext. Aquele que substitui perfeitamente o outro. 


ANÁLISES EM VÍDEO

Parte 1


Parte 2


quinta-feira, 1 de junho de 2017

AS SEIS DOENÇAS DO ESPÍRITO CONTEMPORÂNEO


AS SEIS DOENÇAS DO ESPÍRITO CONTEMPORÂNEO
Título original: Sase Maladie all Spiritului Conteporan
Autor: Constantin Noica
Tradução: Fernando Klabin e Elena Sburlea
Editora: Record
Assunto: Filosofia
Edição: 1ª
Ano: 1999
Páginas: 208

Sinopse: Numa época de uniformização estéril da cultura mundial, a mensagem de Constantin Noica, vindo de fora e de longe dos centros dominantes, é a voz da diferença, a voz da autêntica criatividade, tão marginal na sua proveniência geopolítica quanto central no seu significado humano e espiritual.
Comentários: Segundo José Monir Nasser, o filósofo romeno é um desses pensadores poderosos com baixo reconhecimento internacional por ter vivido na periferia intelectual do mundo, caso também do australiano David Stove e do brasileiro Olavo de Carvalho. O caso de Noica é mais específico, porque passou a vida perseguido pelo governo comunista da Romênia, que o isolou da grande conversação, na expressão de Mortimer Adler. Mesmo assim, Constantin Noica antes de morrer, conseguiu publicar seu opus magnum, “As Seis Doenças do Espírito Contemporâneo”, análise cortante que vai fundo na dissecação espiritual de nossa época. O modelo de Noica, permitindo a tipificação de seis doenças espirituais, é uma fórmula muito abrangente e útil. O Brasil, por exemplo, pode ser interpretado por vários aspectos patológicos simultâneos. O mesmo vale para nossa auto-análise.
Segundo Olavo de Carvalho, prefaciador e comentador da obra escreve que As Seis Doenças do Espírito Contemporâneo avulta como obra de maturidade, onde uma filosofia longamente meditada alcança enfim aquela expressão simples e nítida que é a marca do gênio filósofo aliado a um talento literário incomum. As Seis doenças são nada mais, nada menos que as diferentes relações que têm entre si os traços definidores de todo ser, de toda realidade existente: a individualidade, a generalidade, as determinações que situam a individualidade na generalidade. Trata-se, pois, de um tratado de ontologia. Mas, em vez de apresentá-lo à maneira carregada e cinzenta de uma tese acadêmica, Noica preferiu fazê-lo sob a alegoria de um manual de patologia médica, onde, dos padecimentos do espírito humano, a descrição sobe até a análise das limitações e deficiência do ser em geral. E como para chegar a seus diagnósticos ele toma por material de exame as obras maiores da literatura e da filosofia ocidentais, este livro se torna também, de quebra, um ensaio de filosofia da história e da cultura.
A fórmula que dá unidade ao conjunto da obra é de uma originalidade que surpreende. Há um humorismo sutil, melancólico e extravagante, na idéia de nomear os mais sublimes padecimentos do espírito com neologismos técnicos, de composição grega, que parecem diretamente extraídos de um tratado de patologia clínica. Pois é exatamente isso o que espera o leitor nas páginas deste livro.

Sobre o autor: Constantin Nóica, nascido em Vitânesti-Teleorman em 25 de julho de 1909 e falecido em Sibiu em 4 de dezembro de 1987, é tido geralmente por seus compatriotas como o mais profundo e consistente dos pensadores romenos do século XX. Se permanece ainda amplamente desconhecido fora de sua pátria, isto se deve a circunstâncias peculiares de sua vida. A Romênia é talvez o país que mais tem escritores e filósofos no exterior, escrevendo em idiomas estrangeiros ou traduzindo seus próprios livros, principalmente para o inglês e o francês, este último uma espécie de segunda língua nacional romena. A produção intelectual dos romenos alcança assim fácil difusão internacional e os nomes de Mircea Eliade, Stéphane Lupasco, Eugène Ionesco, Jean Parvulesco, Vintila Horia, C. Virgil Gheorghiu e tantos outros são familiares aos leitores cultos de qualquer parte do mundo, isto para nada dizer de E. M. Cioran, o auto-exilado que se impôs - e venceu - o desafio de tornar-se o maior prosador francês do seu tempo. Menos conhecidos são, naturalmente, os escritores que permaneceram na Romênia e só escreveram na língua natal, como Lucien Blaga, majestoso poeta-filósofo. Mas Constantin Nóica sofreu algo mais que o natural isolamento lingüístico. Condenado pelo regime comunista a seis anos de cárcere e depois à prisão domiciliar numa pequena cidade do interior, só se comunicou com o mundo durante duas décadas por meio dos fiéis discípulos e amigos que o visitavam semanalmente para receber suas lições, entre os quais os dois filósofos romenos de maior destaque na atualidade, Gabriel Liiceanu e Andrei Pleshu, o primeiro, diretor da prestigiosa Editora Humanitas, o segundo, ministro das Relações Exteriores, ambos diretores do New European College, que tem sido o principal canal de comunicação cultural entre a Romênia e o exterior. Esses encontros, dos quais Liiceanu deu um relato parcial em seu Jurnalul de la Paltini, foram compondo o painel de uma vasto sistema de educação filosófica à maneira da Academia platônica, muito acima do que o ensino acadêmico de hoje poderia conceber. Mas, além de continuar vivendo através de seus livros e das notas tomadas por seus discípulos, o ensinamento de Nóica ainda foi beneficiado por uma circunstância extraordinária, que permite prever uma irradiação ilimitada de sua influência no curso das próximas décadas. É que a Securitate, o equivalente romeno da KGB, instalou microfones ocultos no sobrado de madeira onde residia o filósofo, e, ano após ano, gravou praticamente todas as conversações dele com os discípulos. Caído o regime comunista, Liiceanu e Pleshu empenham-se agora em resgatar dos arquivos da Securitate o material que constitui certamente o mais volumoso registro de história oral da filosofia de que já se teve notícia. (Olavo de Carvalho)

sábado, 1 de abril de 2017

DIÁRIO DE UM PÁROCO DE ALDEIA

DIÁRIO DE UM PÁROCO DE ALDEIA
Título original: Journal d´un curé de campagne
Autor: Georges Bernanos (1888-1948)
Tradução: Thereza Christina Stummer
Editora: Paulus
Assunto: Romance. Subgênero: romance confessional (Literatura estrangeira).
Edição: 2ª
Ano: 2000
Páginas: 285

Sinopse: Escrito em 1934 e publicado em 1936, este romance em tom confessional traça o doloroso itinerário espiritual de um jovem sacerdote, pobre e doente, enviado para uma terriola habitada por uma sociedade pragmática, descrente de fé e de cristandade. Neste cenário começa a luta contra a penetração do mal com armas como a humildade, o sofrimento e a solidão.
A história descreve a vida de um jovem padre católico na paróquia de Ambricourt, no norte da França, quase divisa com a Bélgica. A vida do padre é marcada por um câncer no estômago e pela falta de fé da pequena população local.
Comentários: Uma grande obra é aquela que agrega conhecimentos sobre a realidade e aumento de consciência da condição humana. Diário de um pároco de aldeia faz isso com magistral propriedade. Mais que isso, ultrapassa esses propósitos e nos dá uma verdadeira demonstração de fé, cristianismo e santidade e uma aula verdadeiramente filosófica. É uma história comovente, muito bonita e maravilhosa, contada com grande maestria literária. Entretanto, não é um livro fácil de ler porque é um livro com sentido filosófico onde a personagem central está argumentando em torno de idéias e o leitor moderno não está mais acostumado com isso. (JMN)
Enredo e análise da obra:
O nosso herói é um jovem padre, cujo nome nós não sabemos e que registra em seu diário a vida angustiante que leva numa paróquia de interior. A obra denuncia como o Cristianismo está sendo transformado em rotina no mundo moderno, simbolizada pelo padre na aldeia de Ambricourt. No fundo é a morte simbólica do mundo.
O livro começa com o padre descrevendo como é a vida na sua paróquia. O tempo todo se tem a impressão de que o padre está lutando contra um caso perdido, como se àquele lugar não pudesse ser recuperado.
“Minha paróquia é uma paróquia como todas as outras. Todas as paróquias se parecem. As paróquias de hoje, naturalmente. Eu dizia ontem ao pároco de Norenfontes: o bem e o mal devem ficar em equilíbrio nelas, só que o centro da gravidade está lá embaixo, bem lá embaixo. Ou se preferir, os dois se sobrepõem nelas sem se misturar como dois líquidos de densidades diferentes. O padre riu na minha cara. Ele é um bom sacerdote, muito benevolente, muito paternal, e que no arcebispado passa até por incréu, um pouco perigoso. Suas tiradas fazem a alegria das casas paroquiais, e ele as reforça com um olhar que ele gostaria que fosse vivo, e que acho tão gasto e cansado que sinto vontade de chorar.”
Minha paróquia é devorada pelo tédio, essa é a palavra certa. Como todas as outras paróquias. O tédio a devora diante de nossos olhos e não há nada que possamos fazer. Talvez um dia destes sejamos contagiados, e descubramos em nós esse câncer. Pode-se viver muito tempo com isso.”

Há algo de errado na sociedade e que acaba influindo na vida do pároco. E como o padre é jovem, os problemas são maiores, as dúvidas são maiores, e os sonhos são grandes. O problema está no grande abismo que separa o pároco entre o que ele sonhou ser e o que a aldeia espera que ele seja, e o que ele consegue ser, na prática.
Ele é um pároco numa cidade de gente descrente, gente cínica, gente ferozmente pragmática. Ele não tem nenhum colega de profissão que o ajude de verdade, porque todos eles estão apenas tentando transformá-lo em um ser tão cínico quanto eles. Em última análise, ficou sozinho e completamente solitário nessa vida.

“Eu me dizia então que o mundo é devorado pelo tédio. Naturalmente, é preciso refletir um pouco para se dar conta disso, não é uma coisa que se perceba imediatamente. É uma espécie de poeira. A pessoa vai e vem, sem a ver, respira essa poeira, come e bebe essa poeira, e ela é tão fina que nem faz barulho quando é mordida. Mas basta parar um momento e ela torna a cobrir o rosto e as mãos da pessoa. É preciso se agitar sem parar a fim de sacudir essa poeira de cinzas. Por isso mesmo, o mundo se agita muito.”

Este tédio que o padre descreve, é algo que não se percebe que acontece, uma espécie de poço invisível, um estado de coisas profundo e estabelecido, que não se consegue mexer. É como a poeira com a qual as pessoas se acostumam e com a qual não conseguem lidar. Este é mais ou menos o clima que se estabeleceu ali na paróquia do nosso herói.
O padre acha que a sua própria vida não tem mistério algum e o diário que ele se utiliza é um exercício para anotar as coisas que acontecem, com sinceridade que ele tem com ele mesmo.
A primeira condição para que qualquer pessoa possa ter qualquer pensamento filosófico, é ter a capacidade de contar a sua própria vida para si mesmo. Portanto, a primeira condição para ser um filósofo, é ter a capacidade de contar a sua própria vida, com sinceridade.
O padre de Torcy é um alter ego, uma espécie de duplo do pároco de Ambricourt. Se o pároco de Ambricourt é um pouco ingênuo, jovem demais, um pouco sonhador, um pouco idealista, o padre de Torcy, ao contrário, é um sujeito experiente, pragmático, realista, com uma idéia muito boa sobre o que está pensando, muita segurança. Portanto, esses dois padres farão um contraponto o tempo todo.
Aqui o autor nos aproxima essas duas personagens para que possamos comparar uma com a outra e percebermos, com mais clareza, em que o padre de Ambricourt se parece diferente.

O refúgio
Nem mesmo Deus, por incrível que pareça no diário de um padre, aparece muito. Mas lá está o pastor-mor desse pobre pastor-menor e muito perdido: o pároco de Torcy. Como responsável dos párocos da região, é ele quem ainda consegue inflamar o coração do pobre pároco de aldeia, que consegue sanar, mesmo que epidermicamente, as profundas chagas de uma vida desvirtuada, não em pecado, mas em sentido.

- Agora, os seminários nos mandam coroinhas, pés-rapados que pensam que trabalham mais do que ninguém porque nunca conseguem nada. (Pároco de Torcy)
– Uma paróquia é suja, obrigatoriamente. Uma comunidade cristã é mais suja ainda. Esperem o dia do Grande Julgamento, vão ver o que os anjos vão ter de retirar dos mais santos mosteiros, às pás cheias – que esvaziamento! (Pároco de Torcy)
Para tentar abafar um pouco seu sofrimento, o pároco refugia-se no vinho, que é uma das poucas coisas, segundo ele, que seu frágil corpo ainda suporta digerir. Pão e vinho, às vezes com um pouco de açúcar. E, raramente, algumas maças. Mas de refrigério para o corpo, o vinho – que era, na verdade, pura tinta, segundo o pároco de Torcy, que um dia surpreendeu o pároco em plena beberagem – acaba se tornando o veneno para a completa destruição do padre.
- A questão não é de saber quanto ele [o homem] vale, mas sim, quem o comanda. (Pároco de Torcy)
A luta
Mas a luta é grande no coração do pároco. Sua vida entra em choque com ex-colegas e amigos que largaram a batina e foram tomar outros rumos.
“Você deve ter compreendido há muito tempo que, como dizem, deixei a batina. Meu coração, no entanto, não mudou. Apenas se abriu para uma concepção mais humana, e, por conseguinte mais generosa da vida. Ganho minha vida, eis uma grande frase, uma grande coisa. Ganhar a vida! O hábito, adquirido desde o seminário, de receber dos nossos superiores, como uma esmola, o pão de cada dia, ou a pratada de feijão, faz de nós, até a morte, uns meninos de escola, umas crianças. Eu era, como provavelmente você ainda é: absolutamente ignorante de meu valor social.” (carta de Louis Dufrety, amigo padre que largou a batina, ao pároco)

A vida do pároco da aldeia também vai de encontro aos desejos libidinosos das aluninhas da catequese. Esforça-se por não explodir com as secretárias que teimam em ajeitar-lhe a vida e a paróquia diferentemente do que deseja. Quase entra em disputa com os ricos do lugarejo, ele, que desde pequeno só conheceu a pobreza.

- A Igreja foi encarregada por Deus de manter no mundo o espírito da infância, a ingenuidade, este frescor. O paganismo não era inimigo da natureza, mas o cristianismo é o único que a engrandece, a exalta, a coloca na medida do homem, do sonho do homem. Gostaria de agarrar um desses sabichões que me tratam de obscurantista, eu diria a ele: “Não é minha culpa se uso uma roupa de agente funerário. Afinal, o papa se veste de branco, e os cardeais, de vermelho”. Eu teria o direito de passear vestido como a rainha de Sabá, porque trago a alegria. Eu a daria de graça a você, se me pedisse. (Pároco de Torcy)

E lá pelas tantas, resolve questionar um sentido na vida de uma das moças da paróquia, justamente a filha do conde. E conversa com a mãe. Nesse diálogo, vê-se como pode ser profundo o sofrimento de alguém, mesmo que a aparência esconda até o limite. Duas vidas bloqueadas pelo sofrimento, a da mãe e a do pároco, digladiam-se tentando encontrar um sentido, uma razão para continuar lutando.

- Eu o impeço de calcular a precessão dos equinócios, ou de desintegrar os átomos? Mas de que lhe adiantaria fabricar a vida, se você perdeu o sentido da vida? Só lhe restaria estourar os miolos diante de suas retortas. (Pároco de Torcy)
A doença
Desse diálogo revelador, a história toma outro rumo bastante diferente do que o pároco previa. E a dor e o sofrimento por não ver um sentido em toda uma vida acabam refletindo na saúde do padre. Como um câncer de estômago.
Escapar! Fugir! Encontrar o céu do inverno, tão puro, onde esta manhã eu vira surgir, pela porta do vagão, a aurora. O doutor Laville deve ter-se enganado. De repente, tudo se esclareceu dentro de mim. Antes que tivesse terminado a sua frase, eu já não passava de um morto entre os vivos.
Câncer… Câncer de estômago… Foi principalmente a palavra que me chocou. Esperava outra. Esperava a palavra tuberculose.
Estava só, inexprimivelmente só, diante de minha morte, e essa morte não passava da privação do ser – nada mais. O mundo visível parecia estar se esvaindo de mim, com velocidade aterradora, e numa desordem de imagens, não fúnebres, mas, ao contrário, muito luminosas, ofuscantes. “Será possível? Tê-lo-ia amado tanto?”, dizia a mim mesmo. Aquelas manhãs, aquelas tardes, aquelas estradas. Aquelas estradas mutantes, misteriosas, estradas repletas de passos de homens. Teria eu amado tanto as estradas, nossas estradas, as estradas do mundo?
Por que me inquietar? Por que prever? Se tiver medo, direi: tenho medo, sem ficar envergonhado por isso. Que o primeiro olhar do Senhor, quando sua sagrada face aparecer diante de mim, seja, portanto um olhar que tranqüilize!
A partir desse momento, tudo rui. Não sobra nada, nem o sacerdócio, nem a paróquia, nada. Nada interessa. Se antes nada tinha sentido, agora o que poderia restar?
Há certamente algo de doentio no apego que tenho por estas folhas. Elas foram para mim um grande auxílio na hora da provação, e hoje me trazem um testemunho muito precioso, por demais humilhantes para que sinta prazer com ele, e o bastante exato para fixar meu pensamento. Ela me libertaram do sonho. Não é pouca coisa.
A morte
Assim, vencido pela luta da vida, gastando-se numa incompreensão da qual não encontra saída, o pároco acaba se desfazendo de tudo aquilo – pouco, bastante pouco – que havia construído como homem e como padre. E é assim que ele encontra a redenção.
Odiar a si mesmo é mais fácil do que se pensa. A graça está em esquecer. Mas se todo orgulho estivesse morto em nós, a graça das graças seria amar-se humildemente a si mesmo, como qualquer um dos membros sofridos de Jesus Cristo.
Alguns instantes mais tarde, sua mão pousou sobre a minha, enquanto o seu olhar me fazia claramente sinal para que aproximasse meu ouvido de sua boca. Pronunciou então, distintamente, embora com extrema lentidão, estas palavras, que estou certo de repetir com exatidão: “O que importa? Tudo é graça”.
Creio que morreu logo em seguida. (carta de Louis Dufrety ao pároco de Torcy)
O autor:

Georges Bernanos foi um escritor e jornalista francês. Bernanos participou intensamente da vida política francesa: foi soldado de trincheira na Primeira Guerra Mundial e repórter na Guerra Civil Espanhola.





Cronologia

1888
Georges Bernanos nasce no dia 20 de fevereiro, em Paris. Passa a infância numa propriedade rural, na aldeia de Fressin (Pas-de-Calais). O ramo paterno tem remota origem espanhola. A família é católica e monarquista.
1906
Entra na faculdade de direito em Paris e no Instituto Católico. Envolve-se na crise política de Portugal, ao lado dos defensores da monarquia. Preso, escreve numa cela seu primeiro artigo publicado. Associa-se à Ação Francesa [Action Française] de Charles Maurras.
1913
Dirige em Rouen o semanário monarquista A Vanguarda da Normandia. Publica várias novelas.
1914
Participa da I Guerra Mundial como voluntário. Obtém a patente de cabo.
1917
Casa-se no dia 14 de maio com Jeanne Talbert d´Árc, descendente de um irmão de Joana d´Arc. Terão seis filhos.
Rompe com a Ação Francesa por discórdias políticas.
Assume o cargo de inspetor da companhia de seguros La Nationale.
1922
É PUBLICADA NOVELA “Madame Dargent” na Revista Semanal.
1925
Bernanos completa a redação do romance “Sob o Sol de Satã”. O livro é publicado com grande sucesso, pela Pion no ano seguinte.
1926
A Action Française é excomungada pelo Papa Pio XI.
Bernanos escreve “A Impostura”.
1927
Recusa a Legião de Honra.
1929
Publica “A Alegria”, seu terceiro romance.
1930
Termina “O Grande Medo dos Bem Pensantes”.
1931
Muda-se para La Bayorre onde ficaria até 1934.
Começa polêmica pública com a Ação Francesa.
1933
Bernanos sofre acidente de motocicleta que o deixa invalido. Muda-se para as ilhas Baleares para reduzir seu custo de vida.
1934
Em Maiorca escreve “Um Crime”, “Diário de um Pároco de Aldeia”, “A Nova História de Mouchette” e “Os Grandes Cemitérios sob a Lua”.
1937
Volta à França, mas parte quase imediatamente para o Paraguai e para o Brasil: “Fui embora quase imediatamente do meu país. Já não era possível um homem livre escrever ou até mesmo apenas respirar ali”.
1938
Recusa novamente a Legião de Honra.
Escreve “Nós Franceses” e “Escândalo de Verdade”.
Mora numa fazenda em Pirapora-MG, no interior do Brasil.
1943
Publica “M. Ouine”, uma personificação do mal.
1945
Volta à França chamado por De Gaulle que foi seu colega de classe na escola.
Recusa todos os cargos que lhe são oferecidos.
1946
Recusa novamente a Legião de Honra.
1947
Escreve “Diálogos das Carmelitas”. Sua doença hepática se agrava e é levado para Paris às pressas.
1948
Georges Bernanos morre no dia 5 de julho no Hospital Americano de Neuliy.

 Elaborada pelo prof. José Monir Nasser.

quarta-feira, 1 de março de 2017

MAQUIAVEL PEDAGOGO

ou ministério da reforma psicológica
Título original: Machiavel pédagogue ou Le Ministère de la réforme psychologique
Autor: Pascal Bernardin
Tradução: Alexandre Müller Ribeiro
Editora: Ecclesiae e Vide Editorial
Assunto: Controle social – Psicologia - Educação
Edição: 1ª
Ano: 2013
Páginas: 159


Sinopse: Uma revolução pedagógica está em curso no mundo inteiro. Ela é conduzida por especialistas em Ciências da Educação que, formados todos nos mesmos meios revolucionários, logo dominaram os departamentos de educação de diversas instituições internacionais: Unesco, Conselho da Europa, Comissão de Bruxelas e Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Essa revolução pedagógica visa impor uma “ética voltada para criação de uma nova sociedade” e a estabelecer uma sociedade intercultural.
A nova ética não é outra coisa senão uma sofisticada reapresentação da utopia comunista. A partir de uma mudança de valores, de uma modificação das atitudes e comportamentos, bem como de uma manipulação da cultura, pretende-se levar a cabo a revolução psicológica e, ulteriormente, a revolução social.
Inúmeros pais e educadores, testemunham, estupefatos, a revolução em curso. Interrogam-se sobre as profundas mutações que de forma acelerada vêm ocorrendo em nosso sistema educativo. Porém, nenhum governo vem à público esclarecer os fundamentos ideológicos dessas constantes reformas no ensino e tampouco se preocupam em apresentar, de forma clara, as coerências e os objetivos dos métodos adotados.
Mas ainda que tudo nos pareça muito obscuro, podemos encontrar todas as respostas na filosofia da revolução pedagógica que se expõe, em termos explícitos, nas publicações dos organismos internacionais como a Unesco, a OCDE, o Conselho da Europa, a Comissão de Bruxelas e tantas outras. Apoiando-se sobre textos oficiais desses organismos, Pascal Bernardin mostra detalhadamente que o objetivo prioritário da escola atual não é mais possibilitar aos alunos uma formação intelectual e muito menos fazê-los adquirir conhecimentos elementares. O que se pretende com a redefinição do papel da escola é torná-la nada mais do que o instrumento de uma revolução cultural e ética destinada a modificar os valores, as atitudes e os comportamentos das pessoas em escala mundial. As técnicas de manipulação psicológica, que não se distinguem muito das técnicas de lavagem cerebral, estão sendo utilizadas de forma maciça. Naturalmente, os alunos são as primeiras vítimas; porém, os educadores e também o pessoal administrativo – diretores, pedagogos e até mesmo inspetores – não estão sendo poupados.
Essa revolução silenciosa, antidemocrática e totalitária, quer fazer dos povos meras massas ignorantes e totalmente submissas à classe governante. Ela ilustra, de maneira exemplar, a filosofia manipuladora e ditatorial que tem abrigo na chamada Nova Ordem Mundial. Tal filosofia é imposta por meio de ações sutis e indiretas, porém poderosíssimas, gerando resultados catastróficos à inteligência humana.
Portanto, o que o leitor verá exposto neste livro é alto terrivelmente sério. Trata-se de uma análise minuciosa de tudo aquilo que está exposto nos documentos oficiais dos mais célebres organismos internacionais. E, embora documentos públicos, causa estranhamento o silêncio mortal que paira sobre eles. Certamente porque quando lidos, revelam-se uma verdadeira síntese do que é a escravidão.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

NOTAS PARA A DEFINIÇÃO DE CULTURA

Título original: Notes towards the definition of culture
Autor: T. S. Eliot (1888-1965)
Tradutor: Eduardo Wolf
Assunto: Ensaio filosófico
Editora: É Realizações
Edição: 1ª
Ano: 2011
Páginas: 144
Sinopse: “Tenho observado com crescente ansiedade a trajetória da palavra cultura nos últimos anos. Pode nos parecer natural e significativo que, durante um período de destruição sem paralelo, essa palavra viesse a ter uma importante função no vocabulário jornalístico. Seu papel é dividido com a palavra civilização. Neste ensaio, não busquei de modo algum determinar a fronteira entre os significados dessas duas palavras, pois cheguei à conclusão de que qualquer tentativa nesse sentido somente poderia resultar em uma distinção artificial, peculiar à obra, distinção essa que o leitor teria dificuldade em reter e que, após fechar o livro, provavelmente o abandonaria com uma sensação de alívio. Com efeito, usamos assaz frequentemente uma palavra em um contexto no qual a outra quadraria igualmente bem; há outros contextos em que uma palavra obviamente é adequada e a outra não; e não creio que isso deva causar embaraço. Existem obstáculos inevitáveis o suficiente nessa discussão sem que se ergam outros desnecessários.” T. S. Eliot.

Conteúdo do livro: O próprio T. S. Eliot nos dá os detalhes do que trata o livro. Tanto melhor, pois assim não corremos o risco de escrever alguma impropriedade.
Diz Eliot: “No começo de meu primeiro capítulo, busquei distinguir e relacionar os três principais usos da palavra e chamar a atenção para o fato de que, quando usamos o termo em um desses três modos, devemos estar atentos para os demais. A seguir, tentei expor a relação essencial entre cultura e religião, e deixar claras as limitações da palavra relação como uma expressão dessa ‘relação’. A primeira asserção importante é que nenhuma cultura surgiu ou se desenvolveu a não ser acompanhada por uma religião: de acordo com o ponto de vista do observador, a cultura aparecerá como o produto da religião, ou a religião como o produto da cultura.
Nos três capítulos seguintes, discuto o que me parecem ser três importantes condições para a cultura. A primeira dessas é a estrutura (não apenas planejada, mas em desenvolvimento) orgânica, de tal modo que promova a transmissão hereditária de cultura dentro da própria cultura: e isso requer continuidade de classes sociais. A segunda é a necessidade de a cultura ser analisável, do ponto de vista geográfico, em culturas locais: isso levanta o problema do ‘regionalismo’. A terceira é o equilíbrio entre unidade e diversidade na religião – ou seja, universalidade da doutrina e particularidade do culto e da devoção. O leitor deve ter em mente que não pretendo explicar todas as condições necessárias para que uma cultura floresça; discuto três que chamaram minha atenção em particular. Deve lembrar-se igualmente de que não ofereço um conjunto de indicações para a produção de uma cultura. Não estou afirmando que, ao começar a produzir essas ou outras condições adicionais, podemos confiantemente esperar que melhoremos nossa civilização. Afirmo apenas que, até onde se pode alcançar minha observação, é improvável que haja grande civilização onde que que essas três condições estejam ausentes.
Os dois últimos capítulos fazem uma modesta tentativa de desembaraçar a cultura da política e da educação.
Assim, uma nova civilização está sempre em construção: o estado de coisas que desfrutamos hoje ilustra o que acontece com as aspirações de cada época por um futuro melhor. A questão mais importante que podemos perguntar é se existe um modelo permanente pelo qual podemos comparar uma civilização com outra, e através do qual podemos prever o progresso ou o declínio de nossa própria.
Caso sejamos bem-sucedidos, ainda que em parte, em responder tal questão, devemos ficar alertas contra a ilusão de tentar produzir tais condições com vistas a melhorar nossa própria cultura. Pois quaisquer que sejam as conclusões definitivas a emergirem deste estudo, uma delas certamente é a seguinte: a cultura é algo ao qual não podemos ambicionar deliberadamente. Ela é o produto de uma pletora de atividades.
De resto, devemos buscar a melhoria da sociedade, do mesmo modo como buscamos melhorar como indivíduos em questões particulares relativamente menores. Não podemos dizer: ‘Devo transformar-me em uma pessoa completamente diferente’; podemos dizer apenas: ‘Vou abandonar este mau hábito e tentar adquirir aquele bom’. Do mesmo modo, a respeito da sociedade somente podemos dizer: ‘Devemos tentar aperfeiçoá-la quanto a este ou àquele aspecto em particular, em que o excesso ou a ausência é evidente; devemos tentar incluir simultaneamente em nossa visão tantas coisas, de maneira a podermos evitar, ao consertar algo que estava errado, estragar alguma outra coisa’. Até mesmo isso é a expressão de uma aspiração maior do que podemos efetivamente alcançar: pois é tanto – ou mais – em virtude do que alcançamos aos poucos, sem compreender ou prever as conseqüências, que a cultura de uma época difere daquela de sua antecessora.”

Sobre o autor:

Thomas Stearns Eliot (St. Louis, 26 de setembro de 1888 — Londres, 4 de janeiro de 1965) foi um poeta modernista, dramaturgo e crítico literário britânico-norte-americano. Em 1948, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura.
Eliot nasceu nos Estados Unidos, mudou-se para a Inglaterra em 1914 (então com 25 anos) e tornou-se cidadão britânico em 1927, com 39 anos de idade. Sobre sua nacionalidade e sua influência na sua obra, T.S. Eliot disse:
"My poetry wouldn’t be what it is if I’d been born in England, and it wouldn’t be what it is if I’d stayed in America. It’s a combination of things. But in its sources, in its emotional springs, it comes from America."
[Minha poesia não seria o que é se eu tivesse nascido na Inglaterra, e não seria o que é se eu tivesse permanecido nos Estados Unidos. É uma combinação de coisas. Mas, nas suas fontes, na sua força emocional, ela vem dos Estados Unidos.]