segunda-feira, 14 de novembro de 2016

SOB O SOL DE SATÃ

Título original: Sous le soleil de Satan
Autor: Georges Bernanos (1888-1948)
Tradução: Hildegard Feist
Editora: Globo
Assunto: Romance
Edição: 1ª
Ano: 1987
Páginas: 279

Sinopse: A obra, publicada em 1926, trata como tema fundamental a luta entre o Bem e o Mal, mas não no sentido maniqueísta. O mal de que trata o romance é a onipresença ou a presença absoluta do pequeno mal, do mal que nós não damos conta, do mal no qual incorremos sem que possamos evitá-lo porque dele não temos consciência.
O autor conta a história de um jovem padre de província que, sem grandes qualidades intelectuais, incapaz de pronunciar um sermão sem se atrapalhar com as palavras, conseguiu alcançar a santidade.
Este jovem padre é o abade Donissan que se encontra psicologicamente torturado frente aos dilemas morais em que vive ao se deparar constantemente com seus instintos, vontades e pensamentos humanos. Sua mente está no limite da insanidade por conta de sua obsessão pela luta invisível entre as forças do bem e do mal, que geralmente resulta em pesadas seções de auto-flagelação, ou ainda no confronto com o seu superior eclesiástico. Apesar de todas as adversidades, ele cumpre sua missão neste mundo que o redime para a vida eterna tornando-se um Santo.
Comentários: O diabo existe? Existe, assegura-nos Georges Bernanos. E, procurando imitar Deus, assume mil caras para seduzir as almas e arrebatá-las para o fogo do inferno. Contra ele se insurge o jovem abade Donissan, simpático cura de província, olhado com desprezo por seus confrades refinados. Um encontro decisivo com Satã muda por completo a vida desse homem humilde que, incansavelmente, se põe a combater todas as formas do Mal.
Bernanos, um dos grandes escritores católicos do século XX, todavia a fé na Igreja não o impediu de atacar violentamente o clero comodista que prefere rezar pela salvação das almas em salões forrados de veludo e cetim, a pôr o pé na estrada e enfrentar Satã e suas mil faces enganosas, onde que apareçam. Com um estilo em que se fundem à perfeição as vertentes realista e visionária, o romancista pinta com pungente emoção o drama do abade Donissan, que chega a abrir mão da própria salvação pessoal para enfrentar o eterno inimigo.
Mensagem principal da obra: É preciso agir com sinceridade; é preciso ter coragem para enfrentar Satã e sua astúcia; é preciso renunciar até a própria salvação individual em benefício das almas que lhe foram confiadas. Esta é, diz Bernanos, a verdadeira missão do sacerdote neste mundo, a única que o redime para a vida eterna.

O autor: Nascido em Paris a 20 de fevereiro de 1888, Georges Bernanos estreou na literatura em 1922, com o romance “Madame Dargent”. A partir do sucesso de “Sob o Sol de Satã” (1926), abandonou o emprego de advogado e passou a viver unicamente de seus livros e artigos. Em 1934, atormentado por dificuldades financeiras, transferiu-se com a mulher e os seis filhos para a Espanha. Lá escreveu “Diário de um Pároco de Aldeia” (1936), considerada por alguns críticos, sua obra-prima. Em 1937, voltou à França, mas não suportou a difusão do espírito totalitarista na Europa; partiu para o Paraguai e, depois, para o Brasil. Terminada a Segunda Guerra Mundial, retornou a seu país e passou a escrever verdadeiros libelos contra a IV República, a tecnocracia, as novas formas de totalitarismo. No inverno de 1947-48 encontrava-se na Tunísia, onde elaborou a peça “Diálogos das Carmelitas” (1949). Um agravamento de seu mal hepático obrigou-o a transferir-se para Paris, onde morreu no dia 5 de julho de 1948.

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

A POEIRA DA GLÓRIA

Autor: Martim Vasques da Cunha
Assunto: Literatura Nacional – Teoria e Crítica Cultural
Editora: Record
Edição: 1ª
Ano: 2015
Páginas: 630
Nota: Neste post você encontrará dois vídeos sendo uma entrevista do autor com Nivaldo Cordeiro e no final do texto o vídeo de lançamento do livro com apresentação do renomado escritor Rodrigo Gurgel.

Sinopse: Em "A poeira da glória", Martim Vasques da Cunha desmonta as teses sustentadas pela repetição da crítica, rechaça o estilo que falseia a sensibilidade moral e recoloca as idéias no lugar ao apontar como e quando a ideologia política envenenou a imaginação artística. O ensaísta mostra em detalhes como o país foi brutalizado pela paranóia e mistificação a respeito de si mesmo, de tal maneira que se transformou em um grande "Carandiru intelectual", o paraíso distópico onde a realidade brasileira gira em falso.

Comentário: Este livro não passará imune à sua percepção. Na contramão da análise convencional da literatura brasileira, o escritor Martim Vasques da Cunha ousa escrever o que até mesmo o politicamente incorreto considerou imprudente: ele desmonta as teses sustentadas pela repetição da crítica, rechaça o estilo que falseia a sensibilidade moral e recoloca as idéias no lugar ao apostar como e quando a ideologia política envenenou a imaginação artística.
Para concluir o livro Martim atravessou o seu estilo interior e, como poucos de sua geração, sentiu na pele que, acima de tudo, escrever uma obra é também arriscar amizades e desafiar a maioria das pessoas que querem manter o seu status quo, seja do lado da direita ou da esquerda.
Dono de um texto que convence o leitor por nocaute de argumentos, o ensaísta mostra em detalhes como o país foi brutalizado pela paranóia e mistificação a respeito de si mesmo, de tal maneira que se transformou em um grande “Carandiru intelectual”, o paraíso distópico onde a realidade brasileira gira em falso. (Fábio S. Cardoso)




DO PREFÁCIO:
A poeira da glória, de Martim Vasques da Cunha, não é um livro sobre literatura que se encerra nos limites teóricos de seu objeto. É um livro que expande a própria visão e a análise substantiva desde os fundamentos íntimos e ideológicos dos escritores, aqueles elementos que alicerçam e ajudam a explicar as suas obras. Este é um ensaio de crítica cultural que, ao partir de uma espécie de investigação arqueológica e antropológica da literatura brasileira, tenta mostrar, no espírito dos livros, aquilo que estava oculto sob a poeira da glória dos seus autores. Está aqui, portanto, a sua originalidade, ao redescobrir os elementos de virtude humana que não estão mais evidentes e explícitos na literatura, porque se degeneraram ou se perderam. Ao contrário de livros que se confinam em seus próprios objetos de estudos, cuja delimitação do escopo acaba por reduzir o alcance da análise, neste Martim elaborou uma obra que se amplia junto com as reflexões externas que agrega e o raciocínio interno que o fundamenta. Este livro é menos um estudo literário stricto sensu e mais um ensaio sobre o ser humano em sua dimensão cultural lato sensu. Por isso, abrange adequadamente as dimensões sociológicas e políticas com a ambição de identificar, por meio da literatura, o mal do espírito e a degradação do indivíduo, o problema e a tensão do Bem e do Mal, que se manifestam na compreensão e no tratamento da realidade, na construção e na corrupção da imaginação moral, na cultura literária e, por contaminação perversa, na literatura produzida por escritores que também decidem se sujeitar a certas estruturas de poder. Para compreender o drama da literatura brasileira, Martim reconstruiu uma narrativa histórica singular, que cobre diferentes períodos e autores para mostrar a dimensão e a profundidade do nosso drama cultural e da gradual perda de sentido. E, com a finalidade de estabelecer balizas teóricas de orientação superior, recorreu a um grupo seleto de escritores e intelectuais nacionais e estrangeiros, assim também resgatando os mais elevados padrões que se diluíram ou se extinguiram em nosso ambiente cultural devastado. Como mesmo lembra o autor em seu livro Crise e utopia: o dilema de Thomas More, obra-chave para se entender adequadamente a profundidade simbólica e substantiva deste livro, “se há um drama, há de se ter um conflito e, sobretudo, um sentido”. Em A poeira da glória, Martim evidencia a crueldade e as nuances perversas dos conflitos que ajudam a dimensionar o drama e a relevância do sentido para a experiência viva da literatura e do trabalho do escritor, especialmente daqueles que foram os protagonistas da ascensão e da degradação da literatura brasileira que servia como padrão de uma estética filha de uma ordem moral e transcendente. Porque é a hierarquia de valores, tão cara e necessária a uma vida em comunidade, que permite a organização interna dos indivíduos que será, no caso dos escritores, convertida em arte de alta qualidade. E é assim que também a desordem interna e o caos moral ajudarão a forjar espíritos confinados ao drama da existência, os futuros mensageiros soturnos de uma literatura degradada. Em seu Crise e utopia, Martim já havia observado que a missão do homem na terra e a responsabilidade que se impõe diante da ordem da verdade da existência agravam o sentido do seu próprio drama. Pois nem todos estamos dispostos a enfrentá-lo; nem todos somos “capazes de realizar tal acontecimento”; nem todos temos “a sensibilidade para suportar determinadas experiências”. Em face da aflição que emerge a partir do reconhecimento da nossa responsabilidade de agir, e do inevitável julgamento de nossas ações, podemos desenvolver uma doença interna que certamente contaminará a literatura e a percepção do homem em relação e a si mesmo e na vida em comunidade. Por isso é incompleta qualquer análise literária sem um exame da imaginação moral que fundamenta a construção de uma ordem interna e a preservação de uma cultura virtuosa que seja o seu espelho. Se, como escreveu o poeta W. H. Auden, “as palavras de um morto modificam-se nas entranhas dos vivos”, é possível entender por qual razão os revolucionários, segundo Edmund Burke, tentam esgarçar “toda a roupagem decente da vida” cujas ideias dela decorrentes sejam fornecidas pelo “guarda-roupa da imaginação moral”. A partir da metáfora criada por Burke, Russell Kirk definiu a imaginação moral como sendo aquilo que permite “discernir acerca do que a pessoa humana pode ser, apreendendo, por alegorias, a correta ordem da alma e a justa ordem da sociedade, diferenciando o verdadeiro e o falso, o bem e o mal, o belo e o feio, além de oferecer uma correta visão da lei natural e da natureza humana”. Considerando que a imaginação moral “aspira à apreensão da ordem correta na alma e da ordem correta na comunidade política”, Kirk concorda com Burke que “as letras e a erudição ficam ocas, se esvaziadas da imaginação moral”.6 Se as obras literárias podem ser usadas como instrumentos da degradação provocada pela desordem da alma e da sociedade, também são valioso escudo do indivíduo contra as tiranias culturais e políticas que vilipendiam e escravizam o espírito e que pretendem converter as pessoas em servos voluntários. A literatura, e não só a poesia, como defendeu Ungaretti, permite a restauração da integridade, da autonomia e da dignidade. Nesse sentido, explica-se a preocupação de Martim com a liberdade interior, “a única liberdade que nos protege dos ataques de um país tomado pelo totalitarismo cultural”. É, de fato, a espécie mais difícil de liberdade porque, se é verdade que pode ser condicionada ou moldada segundo intervenções externas que criam um hábito serviçal, sua existência e preservação dependem quase exclusivamente da decisão individual de não ser servil, mesmo sob um ambiente político e cultural totalitário. Como diz Martim, essa liberdade “é algo a ser conquistado a custo de uma disciplina interior, harmonizada justamente com a consciência correta”, e que, por isso, não pode “ser confundida de forma alguma com a liberdade exterior, que (...) depende de uma correta manutenção das instituições políticas que devem proteger as liberdades individuais (...)”. Martim vê a ruína da literatura brasileira ao longo da história como a impecável consequência do aviltamento das virtudes e dos princípios e da quebra da hierarquia que orientava os homens, não só os escritores, como uma bússola capaz de preservar “aquele ‘fundo insubornável do ser’, que nenhum governo pode invadir sob qualquer permissão” — semelhante à casa de um inglês, o castelo cuja entrada sem convite era vedada inclusive aos reis. Sendo a liberdade interior “a base de tudo o que se construiu no que hoje chamaríamos de ‘magnífica estrutura do mundo moral’”, a sua degeneração faz ruir as bases mais sólidas. É extraordinário que este A poeira da glória estabeleça um diálogo íntimo com o meu Pare de acreditar no governo: por que os brasileiros não confiam nos políticos e amam o Estado. Se o meu livro tem como estrutura substantiva a dimensão cultural ao tratar de política, o de Martim utiliza a dimensão política para aprofundar sua análise sobre a cultura. São, portanto, livros que se complementam extraordinariamente porque mostram, juntos, como a degradação política e literária foi o resultado de uma degradação cultural, e também como, segundo o alerta feito por Michael Oakeshott, o quietismo político-cultural preserva “a mesma armadilha de quem quer ver o mundo como um palco de teatro”, sendo também responsável pelo estado de coisas aquele que “decide observar a confusão do mundo como um espectador desinteressado”. A maneira arguta e elaborada com que Martim forjou sua perspectiva crítica sobre os autores e suas obras não é um imperativo para endossar as suas posições. Entretanto, contrapô-las exige não apenas uma amplitude intelectual, mas uma abertura plena para a grande conversação que ele estabelece neste livro com o leitor inteligente. É enriquecedor, por exemplo, a forma como desloca o debate para dimensões inexploradas, seja quando ataca a dissimulação de Machado de Assis ou recupera “a força arrasadora da personalidade” do padre Antônio Vieira, cuja “coragem era expressa com a aflição do homem que ainda tem algum contato com a realidade concreta”. Mais do que expor um conhecimento profuso e vivo sobre a história da literatura e a produção literária, Martim revela sua brilhante intuição sobre o homem e sobre a sua atuação substantiva na cultura. E, mesmo que o foco seja a literatura produzida no Brasil, felizmente não se furta, num texto primoroso, a convidar escritores e intelectuais estrangeiros para esse grande diálogo sobre a cultura brasileira. Ele analisa a sensibilidade e o caráter nacional investigando a voz daqueles considerados os narradores da alma brasileira e que, de certa forma, são os nossos intérpretes. Mais do que uma história inesperada da literatura, Martim apresenta o grande conflito entre o Bem e o Mal, evidenciando as dimensões da Verdade e do Belo sem as quais inexiste uma experiência individual virtuosa na prática concreta da vida em sociedade a ser narrada pelas obras literárias. Sem os padrões éticos e estéticos que lhe conferem uma natureza única, a literatura é esvaziada de sentido. Este A poeira da glória é um grande contributo à reparação da literatura a partir da necessária restauração do brasileiro e da nossa própria cultura.

Sobre o autor: Martim Vasques da Cunha é escritor, jornalista, doutor em Ética e Filosofia Política pela Universidade de São Paulo, colaborador do jornal Rascunho e autor do livro Crise e utopia: o dilema de Thomas More (Vide Editorial, 2012)



segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O LIVRO VERMELHO

Título original: The  Red Book: Liber Novus
Autor: C.G. Jung
Tradução: Edgar Orth
Editora: Vozes
Assunto: Psicologia
Edição: 1ª
Ano: 2013
Páginas: 516


Sinopse: A presente edição sem ilustrações contém o texto completo do original. É dirigida especificamente àqueles que gostariam de ocupar-se profundamente com a documentação literária da evolução interior de Jung. Estará sem dúvida de acordo com a intenção de Jung se esta edição ajudar os leitores a tornar sua leitura mais proveitosa para seu próprio desenvolvimento.

Comentário ao Livro Vermelho, de Jung



Acabei de ler a Introdução espetacular do editor Sonu Shamdasani ao LIVRO VERMELHO, de Jung. Muita coisa que estava obscura em mim clareou. É claro que Jung fez das próprias experiências esquizofrênicas o material sobre o qual tentou fazer ciência. Foi bem sucedido. É claro também que Jung aqui se revelou por inteiro como discípulo de Goethe e do esteticismo. Sua visão dual da divindade foi explicitada. Jung tomou como prova da “função transcendente” os sonhos premonitórios de 1913 sobre a Primeira Guerra. Se julgou um profeta. Mas profecias se revelam antecipadamente, dão a mensagem. A mensagem aqui só ficou clara ex post facto. Não as considero profecias. Admito, todavia, que Jung estava sintonizado com as correntes subterrâneas no mergulho niilista do Ocidente. Jung é o homem faustico. Jung teve a pretensão de falar com os mortos e com o próprio Deus. Realizou em si o neoplatonismo renascentista. Quis fundar nova religião. Apesar de ter mergulhando no estudo das religiões comparadas, Jung tinha em mente mesmo o Fausto de Goethe e o Zaratustra de Nietzsche. Jung foi muito coerente em se dizer fora do mito cristão. Em última análise, cultivava o mal, como fizeram Goethe e Nietzsche. Essa entrega ao mal como forma de se chegar ao bem é idéia muito antiga, data dos primeiros heréticos. Com Jung essa gente quis ser cientista. A ciência de Jung é a sistematização de experiências de louco, transformadas em linguagem erudita. Por isso que seus métodos não podem curar. O apogeu do delírio religioso de Jung se deu quando se recusou a traduzir o Canto Noturno, de Nietzsche. Disse que era a voz de Deus. Em todo o Zaratustra quem fala é Mefistófeles, o mesmo demônio do norte que está em Goethe. Por isso Jung viu Wotan nos nazistas. A leitura do LIVRO VERMELHO mostra que, no fundo, Jung se sentia um fundador de uma nova religião. Ele queria confirmar o fim do cristianismo. Penso que se os nazistas tivessem ganhado a guerra a psicologia analítica poderia se tornar uma nova religião mundial. Penso também que a destruição das guerras foi tamanha que até mesmo um satanista convicto como Jung vacilou nas suas convicções sobre o mal. Pensar a língua alemã como sucedânea do hebraico sagrado é delírio grandioso. Jung tratou Nietzsche como se fosse um Isaías renascido.

Em 1913 Jung inicia um auto experimento que ele denomina “confronto com o inconsciente. Este auto experimento dura até 1930. Com isso Jung desenvolve a técnica para “chegar ao fundo do [seu] processo interior” e “traduzir as emoções em imagens” e “compreender as fantasias que estavam se agitando subterraneamente”. [Comentário de Nivaldo Cordeiro]

Na época em que Jung fez as anotações que resultaram neste livro, ele se encontrava em deslumbramento com o nefando.

Carl Jung e a influência do esteticismo de Goethe
Nivaldo Cordeiro ( * )

É preciso compreender a obra de Carl Jung e talvez o melhor texto para ver como o psicólogo suíço tropeçou nas próprias pernas seja no ensaio publicado em 1945, “Depois da Catástrofe” (inserido no livro Aspectos do Drama Contemporâneo, editado pela Vozes).
É certo que esse texto só será compreensível, em todo o horror de suas contradições, se se conhecer bem a obra e a biografia de Carl Jung, portanto não é leitura para iniciantes.
O ensaio foi escrito para que ele, Jung, dissesse o que realmente pensava de Hitler e dos acontecimentos dramáticos da II Guerra Mundial. Ao término da guerra os rumores de que os nazistas estavam vivos.
O primeiro gesto de tirar o corpo fora de Carl Jung sobre a sua responsabilidade pessoal sobre os acontecimentos foi ele atribuir os fatos aos alemães da Alemanha. Ora, Jung sempre se declarou alemão, narrava com prazer sua “nobre” ascendência bastarda desde Goethe e se sentia alemão.
Tudo que foi feito por Hitler e pela Alemanha era em nome e para o pan-germanismo. É claro que o Estado nacional alemão assumiu o comando de tudo, mas vimos como em diversos países (até no Brasil!) os verdadeiros alemães apoiaram com entusiasmo a estranha ideia que eram um povo superior, fadado a dominar o mundo. Bem vimos no que deu.
Carl Jung sabia perfeitamente bem a origem de tudo, mas não teve a coragem moral de assumir sua própria responsabilidade. Ao contrário, Thomas Mann engajou-se no esforço de guerra contra a barbárie e escreveu o monumental Doutor Fausto, livro no qual faz o acerto de contas consigo mesmo e sua própria história familiar.
Ao atribuir uma suposta culpa coletiva sobre os alemães, Jung pulou o capítulo de sua própria responsabilidade. O próprio Jung fundou em torno de si um culto satânico no qual os sacerdotes acreditados eram os seus seguidores “analisados”. Jung cultuava o mal com todas as letras, como bem demonstrei nas minhas palestras sobre o Livro Vermelho.

A raiz mais geral para o que houve naqueles tempos está na Reforma Religiosa, que teve a nefasta consequência de transformar a Igreja Universal em igrejas nacionais, comandadas segundo interesse político. Na Alemanha, o passo seguinte foi humanizar o Cristo, negando-lhe a condição divina, juntamente com as ideias pagãs do neoplatonismo. Chegou-se a falar em um Cristo “alemão”. [O maior responsável pelo surgimento das igrejas nacionais foi Martinho Lutero e sua revolução. Deu no que deu: O NOMINALISMO responsável pela decadência intelectual de nossa civilização. Lutero era nominalista. AO]
No século XVIII, sob a influência poderosa de Goethe, tivemos o esteticismo, que propôs a salvação pela Arte, aqui compreendida em sentido amplo, inclusive nas práticas esotéricas das artes alquímicas. [Recomendo assistir o documentário Arquitetura da Destruição da Versatil Home Vídeo e o filme A Fita Branca da Imo Vision.  Ler "A Sagração da Primavera" de Modris Eksteins. AO]
O passo final foi decretar a morte de Deus e tivemos o surgimento de Nietzsche no esplendor de toda sua loucura para fazê-lo. Era o João Batista anunciadora do novo Cristo, Carl Jung ele mesmo.
Esse é o trilho que explica Hitler e Carl Jung foi o maior divulgador dessa tradição esteticista. Ele se considerava, e de fato era, o maior seguidor de Goethe e Nietzsche (e Wagner).
Caberia a Jung um mea culpa ter dito isso no ensaio: que ele preparou gerações de pessoas, sejam os seus leitores, sejam os seus analisandos/pacientes, para aceitar voluntariamente o mal como se bem fosse, e servi-lo.
Ele fundou um culto satânico tão esdrúxulo que elevou o Zaratustra de Nietzsche à condição de profeta e ele mesmo, Jung, à condição de um novo salvador, em substituição à Cristo. Nada dos crimes ocorridos na Alemanha são alheios a Jung e sua obra.
A loucura delirante de Carl Jung foi tamanha que se recusou a traduzir o poema de Nietzsche O Canto Noturno no seminário que deu sobre o Zaratustra, na década de Trinta. Segundo ele, ali falaria o próprio deus/Zaratustra e o alemão passou a ser uma língua sagrada, algo como são o hebraico para os judeus e o latim para os católicos.
O culto fundado por Jung negava os valores cristãos e tentava implantar a falsa ética pagã pregada por Nietzsche, todos os falsos valores da Nova Era defendida pelo psicólogo suíço.
Toda a elite alemã (pan-germânica) sabia o Fausto, de Goethe, de cor. O livro virou a bíblia para a alta cultura dos falantes de alemão. Ali estaria a verdade. Carl Jung acreditava nisso. Pregou isso. Viveu isso em toda a intensidade. E, na vida pessoal, adotou a nova ética, praticando a poligamia consciente em franca oposição aos valores cristãos.
Pior ainda, fez do andrógino um símbolo de totalidade e algo a ser buscado, legitimando a eclosão do homossexualismo como hoje o conhecemos. De certa forma, para Jung, a androginia tornava o sujeito mais filho de Deus.
No texto, Carl Jung ridiculariza a figura de Hilter, sem dizer de si uma única palavra de reprovação. Nenhuma autocrítica. E, depois de 1945, continuou a cultivar e a divulgar a sua psicologia analítica, como se nada tivesse acontecido. Como se tudo não pudesse se repetir novamente. Colocar o demônio no lugar de Deus tem consequências.
Carl Jung escreveu que Hitler era um pseudólogo, como se ele próprio não fosse um. O Livro Vermelho revelou que Jung fez também seu próprio pacto fáustico, ainda mais delirante que o de Hitler. Ele empenhou-se em fundar uma religião, da qual, seria o sumo sacerdote. O nazismo foi apenas a expressão política desse movimento mais amplo de cunho cultural e religioso.
Carl Jung escreveu: “Ao dizer que os alemães estão psiquicamente doentes estou sendo mais benevolente do que se dissesse que são criminosos”. Uma frase perfeita que poderia bem ser aplicada a si mesmo.
Mais à frente: “(o alemão) Esqueceu seu cristianismo, vendeu o espírito à técnica, trocou a moral pelo cinismo e consagrou sua maior aspiração às forças de aniquilação”. Teria sido uma bela confissão se Jung estivesse falando de si mesmo e não no coletivo alemão.
Não, o problema alemão não é a emergência de forças coletivas incontroláveis, é um problema de pessoas individualmente comprometidas com o mal. O pacto fáustico pressupõe sempre um “sim” consciente ao mal por cada um. Carl Jung fez isso. Nietzsche fez isso.
Goethe também. Levou séculos para que esse mal fosse transformado e potencializado em fornos crematórios e em matanças generalizadas, inclusive de alemães. Não se dá as costas à conversão, ao Bem, sem se pagar alto preço.
( * ) Nivaldo Cordeiro
José Nivaldo Gomes Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/SP), ocupou vários cargos na administração federal e é hoje Diretor de Operações do Grupo Nobel de Livrarias.











quinta-feira, 3 de setembro de 2015

TONIO KROEGER

Título original: Tonio Kroeger
Autor: Thomas Mann (1875-1955)
Tradução: Maria Deling
Editora: Abril Cultural
Assunto: Novela
Edição: s/ref.
Ano: 1971
Páginas: 174

Sinopse: Histórias despretensiosas, aparentemente sem grande relevância perante clássicos absolutos podem porventura ser ignoradas por leitores incautos. Foi o que me aconteceu da primeira vez que li Tônio Kroeger, do escritor alemão Thomas Mann. Acompanhei o desenrolar da trajetória do jovem Kroeger não esperando ver ali algo que pudesse rivalizar com as grandes obras de Mann, como Doutor Fausto e A Montanha Mágica, mas isso me levou a pressupor que no livro não houvesse nada além de um exercício de narrativa qualquer, com alguns lampejos de brilhantismo aqui e ali, mas nada mais do que isso.
Ledo engano. De fato é difícil pôr em pé de igualdade Tônio Kroeger e os clássicos de Mann, mas nem por isso o livro deixa de ter questões importantes para desvendar as concepções do autor alemão sobre a existência, a arte e o ato (e ofício) de escrever. Essa é, mais do que outras características, a riqueza de Tônio Kroeger, a breve novela de 1903. (Lucas Deschain).

A trama não é nada complexa: Tônio Kroeger, filho do cônsul Kroeger e de uma mulher trazida do sul, de cabelos negros e com aura romântica, vive alguns dos dilemas de inadaptabilidade da juventude, que se transfiguram em sua condição perante sua sociedade e sua individualidade no conflito entre suas pretensas obrigações disciplinares conservadoras e os arroubos espirituais e artísticos de sua própria persona.
O lirismo que parece lhe emanar do peito se materializa nos poemas que escreve, em sua admiração elogiosa de Hans Hansen (colega por quem possui um afeto muito grande) e na admiração pelo espírito fogoso de sua mãe. Ao mesmo tempo, no entanto, Kroeger sente remorso por devotar-se a essas paixões e à arte em geral, sentindo-se deslocado do status quo de seu tempo e de seu meio.
Esse é o dilema central da sucinta obra, eivada dos conflitos da sociedade alemã da época de Thomas Mann. Uma rígida moral e uma mentalidade profundamente arraigada na disciplina existencial e no trabalho diligente grassavam a sociedade alemã do início do século XX. A burguesia alemã consolidava, passo a passo, sua civilização e sua hegemonia, criando, por conseguinte, condutas modelares e pressões sociais direcionadas a diferentes escopos. Kroeger encontra-se no limiar desse mundo burguês e a tradição intelectual e artística com a qual mantém contato através de suas leituras e experiências. Essa dúvida o corrói o livro todo.
Sua própria origem familiar expressa a dualidade de Kroeger: seu pai é um burguês, cônsul, inserido numa categoria de carreira tipicamente burguesa; sua mãe, oriunda do sul (a mãe de Mann era brasileira), é a mulher dada a exercícios espirituais, à cultura e encarna, por conseguinte, uma visão de mundo mais livre e desregrada, ao contrário daquela que caracteriza o mundo burguês. Tônio Kroeger é o fruto dessa união, que nele se fundiu mas que em seu interior constantemente se aparta.
Essa condição faz do protagonista um sujeito ao mesmo tempo dotado de uma riqueza criativa que extravasa o rígido e estreito caráter burguês, e atormentado por ser diferente daqueles que em tese são seus pares. A arte e a vida burguesa, portanto, são os dois pratos da balança. Os valores e princípios de um e outro fazem da moral de Kroeger um bricolagem conflituoso e constantemente prestes a cair para um dos lados dessa corda-bamba.
Sua amiga Lisavieta resume bem o lugar que ele ocupa dentro desse ínterim: “Você é um burguês em caminhos errados, Tônio Kroeger – um burguês errante.” (p. 48) Fala similar é proferida pelo próprio Kroeger, em constante divagação e questionamento moral:
“Estou entre dois mundos; não me sinto à vontade em nenhum dos dois e por isso tenho um pouco de dificuldade. Vocês, artistas, me chamam de burguês, e os burgueses sentem-se tentados a prender-me…não sei qual dos dois me magoa mais.” (p. 84)
A arte como redenção, como fuga, como forma de lidar com dificuldades, como ameaça a pairar sobre sua própria cabeça, como tormento… a arte não é um hedonismo supérfluo, mas se entranha no espírito, desequilibrando-o, tirando-o da inércia, ainda que a custo de sofrimento e perigo. Essa é a riqueza de Tônio Kroeger, seu tratamento da arte, seu questionamento moral, seus dilemas, enfim, sua capacidade de nos fazer olhar para dentro de nós mesmos e ao nosso redor, a um só tempo.

Fonte: Posfácio

Sobre o autor:

Thomas Mann nasceu em Lübeck, norte da Alemanha, no dia 6 de junho de 1875 e teve como berço uma tradicional família de aristocratas. Sua mãe, Julia da Silva Bruhns, era brasileira, nascida na fazenda Boa Vista, em Angra dos Reis, e transferida com a família para a Alemanha durante a adolescência. Com apenas 26 anos, ele foi descoberto para o mundo através da publicação de Os Buddenbrooks, seu segundo livro, que narra a decadência em quatro gerações de uma família burguesa tradicional, inspirada em seu próprio clã.

Thomas Mann se tornou vítima das contradições do seu tempo, marcado por extremos ideológicos brutais. Para a esquerda, era um nacionalista ferrenho, que pregou a superioridade germânica em seus primeiros livros. Para a direita - sobretudo na época da caça às bruxas do Macarthismo nos EUA -, ganhou a pecha de comunista. Mann nunca transitou entre os dois extremos. Foi, acima de tudo, um anti-radical, que desprezou com todas as forças a mácula do nazismo, numa indignação que pode ser mensurada numa frase: "Falo de nossa vergonha. A Alemanha inteira, o espírito alemão, o pensamento alemão, a palavra alemã são atingidos por essa desonra". Faleceu na Suíça em 1955.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

OS JESUÍTAS A Companhia de Jesus e a Traição à Igreja Católica

Título original: The Jesuits (Editora Simon & Schuster, New York, 1987)
Autor: Malachi Martin
Tradução: Luiz Carlos do Nascimento Silva
Editora: Record
Assunto: Polêmica (Historiografia e Teologia)
Edição: 1ª
Ano: 1989
Páginas: 463




Sinopse: Como os jesuítas de hoje estão usando o poder espiritual conquistado através dos séculos para tentar influir nos rumos da política internacional. De aliados do Papa e seus intransigentes defensores, os jesuítas passaram de algum tempo para cá a ser os seus mais ativos opositores. Malachi Martin, teólogo eminente e antigo jesuíta, revela como os atuais dirigentes da Companhia de Jesus a transformaram na maior inimiga do capitalismo democrático do Mundo Ocidental.

Malachi Martin, destacado teólogo e especialista em Igreja Católica, ex-jesuíta e professor do Pontifício Instituto Bíblico do Vaticano, ousou assestar um holofote nos véus dos segredos que encobrem as atividades da mundialmente poderosa Igreja Católica Romana. Neste universo em que a fé e o poder entram em choque, a Sociedade de Jesus tem sido, talvez, a mais lendária e fabulosa, a mais admirada e injuriada na prática de ambos. De seu início numa época revolucionária, e ao longo dos quatro séculos e meio de sua tumultuada existência, os jesuítas têm sido ao mesmo tempo um enigma e um modelo para o resto do mundo. Amigos e inimigos, católicos e não católicos, todos têm tentado resolver o poder e o segredo desses homens, treinados e devotados do ponto de vista religioso que também são gigantes em todas as atividades seculares da humanidade. Nas ciências e nas artes, nas letras, na exploração e no ensino — para não falar na política mundial —, os jesuítas sempre visaram ao melhor. E foram.
No entanto, o aspecto mais desconcertante da Sociedade de Jesus, e o que mais enfurecia seus inimigos, era que, apesar de todo o poder, os jesuítas eram gigantes com uma finalidade: a defesa e a propagação da autoridade e do ensinamento papais. Fiéis a um ideal espiritual, e para “A Maior Glória de Deus”, eram os defensores por excelência dos interesses vitais da Igreja, a Força Especial do vigário terreno de Cristo. Não eram apenas “Homens do Papa”. Eram os Homens do Papa. Até agora.

Em Os Jesuítas, Malachi Martin torna pública, pela primeira vez, a pungente história dos bastidores de homens e seus motivos e dos meios por eles usados, por trás da camuflagem da grandeza jesuíta no passado, para construir a “nova” Sociedade de Jesus no âmbito mundial. O leitor conhecerá os líderes e os joguetes; o sangue e o pathos -, a política, as traições e as humilhações; as campanhas de vendas enlatadas que se estendem de Roma e de Washington para o mundo e que mascaram uma missão estranha e destruidora.


Sobre o autor: Malachi Brendan Martin (23 de julho de 1921 - 27 de julho de 1999) foi um padre católico irlandês e escritor sobre a Igreja Católica. Originalmente ordenado padre jesuíta, se tornou professor de Paleontologia no Pontifício Instituto Bíblico do Vaticano, e a partir de 1958, Martin também atuou como consultor teológico do Cardeal Augustin Bea durante os preparativos para o Concílio Vaticano II.1 Desiludido pelas reformas na Igreja e com a Ordem Jesuíta, em 1964, pediu dispensa dos votos religiosos e mudou-se para Nova York. Seus 17 romances e livros de não-ficção foram frequentemente críticos a Igreja Católica, a qual acreditava que havia falhado em agir sobre a terceira profecia supostamente revelada pela Virgem Maria em Fátima. 2 Entre suas obras mais significativas estão The Scribal Character Of The Dead Sea Scrolls (1958) e Hostage To The Devil (1976), que tratam de satanismo, possessão demoníaca e exorcismo1, e The Final Conclave (1978) que é um alerta contra espiões soviéticos no Vaticano.


quinta-feira, 23 de julho de 2015

PODER GLOBAL E RELIGIÃO UNIVERSAL

Título original: Poder Global y Religión Universal
Autor: Juan Claudio Sanahuja
Tradutor: Lyège Carvalho
Assunto: Ensaio
Editora: Ecclesiae
Edição: 1ª
Ano: 2012
Páginas: 206

Sinopse: NA PASSAGEM PARA O TERCEIRO MILÊNIO, ao inaugurar o Grande Jubileu de 2000, o beato João Paulo II exortou os cristãos a confiarem na vereda de Cristo, lembrando a estreiteza da via que, em uma história bimilenar, foi capaz de fazer a Igreja vencer tantas sombras e perigos incontáveis, ameaças e perseguições, e tantas outras incompreensões e falsas interpretações; assim, a luz fulgurante de Cristo chegou ao século XXI como um fato incontestável: “Entramos por esta Porta, que representa Cristo mesmo: com efeito, só Ele é o Salvador.” Esta verdade histórica chegou até nós, a geração pós-Concílio Vaticano II, mas está hoje (e novamente) atacada de modo intenso e sistêmico, por forças culturais, econômicas e políticas, no afã de impor uma nova ordem mundial, destituída das premissas cristãs, ordem imposta por diversas formas de manipulação, a pior de todas as violências. Uma nova ordem não apenas política, mas também religiosa, de uma religiosidade light, “sem dogmas, sem estruturas, sem hierarquias, sem morais rigorosas”, como ressalta monsenhor Juan Cláudio Sanahuja, neste lúcido livro Poder Global e Religião Universal.
Este “poder global”, como um novo Leviatã, “procura a perversão dos menores, a anticoncepção, o aborto, a eutanásia, a investigação com embriões humanos, a injusta legitimação jurídica de casais do mesmo sexo etc. A falsa espiritualidade da nova ordem procura ensinar às crianças de 5 anos a normalidade da homossexualidade e da masturbação e instruí-la no uso de preservativos e da pílula do dia seguinte, inculcando-lhes que o aborto é um direito, como propõe a UNESCO”.

Comentários: A crise da Igreja é grave. Tenho a impressão de que não se esconde de ninguém que o cataclismo social – que afeta o respeito à vida humana e à família – tem essa triste situação como causa. Michel Schooyans afirma, sem nenhuma dúvida, que a Nova Ordem Mundial, “do ponto de vista cristão, é o maior perigo que ameaça a Igreja desde a crise ariana do século IV”, quando, nas palavras atribuídas a São Jerônimo, “o mundo dormiu cristão e, com um gemido, acordou ariano”.

(...) Soma-se à atitude vacilante de muitos católicos a ditadura do politicamente correto, muito mais sutil que as anteriores e que reivindica a cumplicidade da religião, uma religião que por sua vez não pode intervir nem na forma de conduta nem no modo de pensar. A nova ditadura corrompe e envenena as consciências individuais e falsifica quase todas as esferas da existência humana.

A sociedade e o estado excluíram Deus, e “onde Deus é excluído, a lei da organização criminal toma seu lugar, não importa se de forma descarada ou sutil. Isto começa a tornar-se evidente ali onde a eliminação organizada de pessoas inocentes – ainda não nascidas – se reveste de uma aparência de direito, por ter a seu favor a proteção do interesse da maioria”.

O autor: Argentino, sacerdote ordenado em 1972, Doutor em Teologia pela Universidade de Navarra, Espanha, Professor de Teologia Moral e História da Filosofia e da Teologia, Capelão de sua Santidade o Papa Bento XVI e Colaborador do Conselho Pontifício para a Vida. É também jornalista pela Universidade de Navarra e autor de «El desarrollo sustentable. La nueva ética internacional» («O desenvolvimento sustentável. A nova ética internacional»)

Entrevista com o autor:
Canção Nova - De que forma funcionam essas estratégias de estabelecimento de um poder global e religião universal?

Monsenhor Juan Claudio Sanahuja - É algo fabricado pelos mesmos lobbys antivida, porque precisam transformar a cultura dos países cristãos, a fim de que a mensagem antivida possa ser aceita nesses países. Para isso, precisam "trocar" as crenças dos povos cristãos, especialmente católicos, e isso desgraçadamente é favorecido por uma situação de "crise" no interior da Igreja, pois há pessoas, inclusive eclesiásticos, que não aceitam os pronunciamentos magisteriais.
Justamente estes projetos de nova ética internacional baseiam-se no relativismo ético. Portanto, os documentos do Magistério que afirmam verdades imutáveis são rechaçados por esses projetos. E querem inculcar isso no povo cristão e católico, em parte valendo-se de alguns eclesiásticos que não aceitam o ensinamento da Igreja.

Canção Nova - Já tivemos na história regimes políticos que promoveram o ateísmo, e, depois, surgiu essa tendência de promover a religião aconfessional. Qual é a diferença desses dois mecanismos?

Monsenhor Sanahuja - As pessoas são quase sempre as mesmas e tudo está impregnado de um neomarxismo. Então, o que ocorre é que querem substituir a religião revelada, cristã, por uma outra, de valores relativos, utilizando inclusive as mesmas palavras que têm grande valor para a religião cristã. Por exemplo, a "paz". É uma palavra que tem forte embasamento de conteúdo cristão. Por isso, não bastam as palavras: temos que ver quem diz e por que as diz.
É o que o então Cardeal Joseph Ratzinger chamou de moralismo político. Não basta falar sobre paz, proteção das crianças, igualdade. Tem-se que ver quem diz e qual é a sua ideologia, pois podem ser palavras enganosas, embora baseadas em conteúdo católico. Então, aqueles que pregavam ateísmo há uns anos são os mesmos, ou discípulos desses, e agora pregam uma nova ética de valores relativos, mutáveis. Assim, tudo o que seja verdade imutável é fundamentalismo e, portanto, rechaçável, condenável. Por isso, alguns dizem que a posição da Igreja em relação ao aborto altera a paz, tanto social quanto mundial. Já outros abordam as formas de se combater a Aids: a Igreja fala sobre o cultivo de bons costumes, e há quem acuse isso de crime!

Canção Nova - De que forma os padres e bispos podem ajudar nesse contexto? E o povo católico, já abriu os olhos para essa realidade?

Monsenhor Sanahuja - Sendo fiéis ao Magistério, pregando a doutrina ensinada por Jesus. Acontece que nós sacerdotes, os clérigos, inclusive bispos, temos a pressão do ambiente, do "politicamente correto". Temos que pregar a Jesus e a conduta que Ele nos ensina a ter, apesar da presença do politicamente correto. Com a ajuda de Deus, não podemos ceder às pressões. Isso é inadmissível. Os sacerdotes devem pregar Jesus e a doutrina católica, em sua integridade, e não se deixar pressionar, ainda que isso possa trazer dor de cabeça.



COMO AGIR QUANDO UM PAPA ENSINA ALGO CONTRÁRIO À DOUTRINA DA IGREJA?

segunda-feira, 1 de junho de 2015

O PROCESSO MAURIZIUS

Título original: Der Fall Maurizius
Autor: Jakob Wassermann
Tradução: Octávio de Faria e Adonias Filho
Editora: Abril
Assunto: Romance
Edição: 1ª
Ano: 1975
Páginas: 412

Sinopse: O livro narra os conflitos do jovem Etzel Andergast com seu pai, Barão Wolf de Andergast, juiz respeitado, austero e conservador. O jovem descobre que seu pai condenou um homem inocente, se interessa pelo caso e se envolve tentando resolvê-lo. Para tanto, sai de casa e procura conseguir provas para libertar o homem que o pai condenara.
O romance mostra o marcante contraste entre a justiça ideal e a abstrata, e a aplicação de seus preceitos no mundo dos homens.


Resumo da narrativa: O barão Wolf de Andergast divorciou-se da esposa quando seu filho Etzel tinha seis anos e meio de idade. As cláusulas do divórcio proibiam a mãe de aproximar-se do filho, ou até mesmo escrever para ele. De forma que Etzel foi criado por madame Rie, a governanta da casa.
Ao completar os 16 anos de idade, o jovem Etzel descobre que seu pai cometeu um erro ao condenar um inocente, se interessa pelo caso e decide corrigi-lo. Sai de casa, e viaja até Berlim na busca de provas que pudessem inocentar Leonardo Maurizius preso por um crime que não cometera.
O barão Wolf von Andergast, quando era ainda um jovem promotor, foi o responsável pela acusação contra Leonardo Maurizius de assassinato da esposa que culminou com a condenação deste a prisão perpétua. Quase vinte anos depois, o barão retoma o estudo dos autos do processo e descobre que cometeu um erro condenado um inocente.
Etzel, inconformado com a prisão injusta de Leonardo Maurizius, foge de casa para descobrir a verdade. Em Berlim, Etzel encontra Waremme cujo nome verdadeiro é George Warschauer e procura obter informações sobre o assassinato da esposa de Maurízius.
Promove o indulto de Maurizius, mas o seu filho Etzel não se conforma com um simples indulto, ele quer uma justiça perfeita e absoluta.
O Processo Maurizius, não é um livro de literatura jurídica ou de aventura forense. Ao que parece, vai se seguindo a vida de Etzel Andergast, filho do Barão, entusiasta ao seu próprio modo do seu próprio conceito de justiça. Um conceito, eu diria, bastante responsável, raro ao atribuir o encargo pessoal de se agir segundo a repulsa que a injustiça provoca, mas adolescente e ingênuo, por acreditar que tudo possa ou mereça ser mudado.

  • Etzel Andergast, filho do juiz Wolf Andergast, para recuperar a justiça, denuncia o erro judiciário de seu pai contra Leonardo Maurizius. Acontece que o denunciante só conhece parte da verdade e desconhece completamente as conseqüências de seu ato. Como resultado acaba destruindo a carreira de Wolf Andergast, seu pai, por conta de sua rebelião metafísica disfarçada sob a aparente de defesa da justiça.
  • Ao longo da história, Etzel vai mudando o seu comportamento que é percebido pelo seu professor.
  • O comportamento do barão, diante da revolta contra a situação de uma falha de julgamento no processo, começa a mudar também até destruí-lo completamente.

Interpretação da obra:
- Prof. José Monir Nasser

Perfil das personagens da obra:

§  Etzel Andergast: Um menino de 16 anos, míope*, que não conhecia a mãe por conta de um divórcio. Desprovido de emoção, se considera predominantemente racional e ponto de vista objetivo. Revoltado com as injustiças do mundo e não admitia o contraditório. Seu discurso é existencialista e no fundo Etzel é um niilista. (* A miopia de Etzel é um dado importante na interpretação da obra).

§  Barão Wolf Andergast: Pai de Etzel. Procurador de justiça, homem austero que “se deixara penetrar até o âmago pela consciência da nobreza superior do seu dever e do seu ministério” e “excessivamente absorvido pelo trabalho da sua profissão”. Não tinha vida social e não gostava de aparecer em público. Passava duas horas por dia, à noite, para conversa com o filho, compromisso que “entrava no plano de sua vida do mesmo modo como o estudo dos autos”. A conversa começava sempre com “perguntas inofensivas” e terminava com altos debates.
§  Sofia Andergast: Mãe de Etzel, divorciada do barão de Andergast e afastada do filho Etzel por conta de uma traição conjugal ao marido.
§  Generala Andergast: Avó de Etzel.
§  Oto Leonardo Maurizius: Condenado à morte quando o barão de Andergast ainda era juiz. Teve sua pena comutada para prisão perpétua e libertado pelo próprio barão após ter cumprido 18 anos na cadeia.
§  Eli Hensolt (Eli Jahn quando solteira): Esposa de Maurízius que fora assassinada cuja culpa recaíra sobre o marido.
§  Gregório Waremme (George Warschauer): Testemunha-chave na condenação de Leonardo Maurízius. Ninguém sabia nada sobre a sua procedência ou quem ele era “só o diabo sabe o que é preciso fazer para retratá-lo”.
§  Ana Jahn: Irmã de Eli Hensolt. Com a morte da irmã Eli a fortuna da família havia passado para ela.
§  Rie: Governanta da casa que criara Etzel no lugar da mãe.

Dados do problema:
  • Rebelião absoluta de Etzel contra o pai por conta do divórcio com a mãe.
  • Etzel Atribui ao pai todas as injustiças do mundo. É a revolta contra o espírito.
  • Etzel não admite o contraditório. (“Há conflito de deveres ou existe um só e único dever?”) um de seus questionamentos.
  • O discurso de Etzel é um discurso existencialista; um discurso contra o Espírito e contra Deus.
“No coração desta conspiração ou no centro desta aliança, pouco importa, está meu pai”.
“Foi ele quem tomou as medidas, é ele quem tem todos os fios nas mãos. Tudo o que o embaraça, ele o exclui: qualquer curiosidade ou reclamação, qualquer espírito de pesquisa. As coisas sucedem assim e ele quer que sucedam assim. E, como é todo poderoso, as coisas realmente sucedem assim...” 

Etzel sente tudo isso como uma injustiça. Pergunta a si mesmo se deve continuar a se submeter.
  • Etzel na verdade não quer “recuperar” a justiça, o que ele quer é se vingar do pai, destruindo-o. O pai aqui simboliza o espírito.
  • O casamento de Maurizius foi um casamento de conveniência. Ele era 16 anos mais novo que a esposa; a esposa tinha um dote de 80 mil francos, isso o colocava como suspeito principal na morte de sua esposa.
  • O que aconteceu na Alemanha não é um problema do povo alemão, é um problema humano. Poderia ter acontecido com qualquer povo.
  • Deve-se retirar a conotação histórica do problema alemão da obra de Wassermann.
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Conclusão
§  Etzel quer se vingar do pai por causa da mãe. É a vingança contra o Espírito.
§  A mãe simboliza o Amor.
§  O pai simboliza o Espírito.
§  Por essa razão as crianças devem ser criadas pela mãe que é o amor.
§  Etzel está revoltado contra o Espírito porque este lhe tirou a possibilidade do amor. Ele quer a derrota do pai para se colocar no seu lugar. Aqui está a explicação porque Etzel não é emocional, mas racional.
§  A justiça do pai é imperfeita e Etzel vai procurar a justiça perfeita, porque ele julga que o mundo é imperfeito. Eis aqui a rebelião metafísica.
§  Etzel é um rebelado metafísico, um narcisista do mais alto calibre, que quer construir um “mundo perfeito” por meio da “justiça perfeita”.
§  A condição para o mundo existir é ter um grau de perfeição menor que a perfeição de Deus. Se o mundo fosse tão perfeito quanto Deus, então não existiria Deus. A imperfeição do mundo é uma espécie de preço que nós pagamos para viver nele.
§  Em resumo: Etzel é um rebelado contra Deus que tem o delírio da onipotência.