segunda-feira, 26 de outubro de 2015

O LIVRO VERMELHO

Título original: The  Red Book: Liber Novus
Autor: C.G. Jung
Tradução: Edgar Orth
Editora: Vozes
Assunto: Psicologia
Edição: 1ª
Ano: 2013
Páginas: 516


Sinopse: A presente edição sem ilustrações contém o texto completo do original. É dirigida especificamente àqueles que gostariam de ocupar-se profundamente com a documentação literária da evolução interior de Jung. Estará sem dúvida de acordo com a intenção de Jung se esta edição ajudar os leitores a tornar sua leitura mais proveitosa para seu próprio desenvolvimento.

Comentário ao Livro Vermelho, de Jung



Acabei de ler a Introdução espetacular do editor Sonu Shamdasani ao LIVRO VERMELHO, de Jung. Muita coisa que estava obscura em mim clareou. É claro que Jung fez das próprias experiências esquizofrênicas o material sobre o qual tentou fazer ciência. Foi bem sucedido. É claro também que Jung aqui se revelou por inteiro como discípulo de Goethe e do esteticismo. Sua visão dual da divindade foi explicitada. Jung tomou como prova da “função transcendente” os sonhos premonitórios de 1913 sobre a Primeira Guerra. Se julgou um profeta. Mas profecias se revelam antecipadamente, dão a mensagem. A mensagem aqui só ficou clara ex post facto. Não as considero profecias. Admito, todavia, que Jung estava sintonizado com as correntes subterrâneas no mergulho niilista do Ocidente. Jung é o homem faustico. Jung teve a pretensão de falar com os mortos e com o próprio Deus. Realizou em si o neoplatonismo renascentista. Quis fundar nova religião. Apesar de ter mergulhando no estudo das religiões comparadas, Jung tinha em mente mesmo o Fausto de Goethe e o Zaratustra de Nietzsche. Jung foi muito coerente em se dizer fora do mito cristão. Em última análise, cultivava o mal, como fizeram Goethe e Nietzsche. Essa entrega ao mal como forma de se chegar ao bem é idéia muito antiga, data dos primeiros heréticos. Com Jung essa gente quis ser cientista. A ciência de Jung é a sistematização de experiências de louco, transformadas em linguagem erudita. Por isso que seus métodos não podem curar. O apogeu do delírio religioso de Jung se deu quando se recusou a traduzir o Canto Noturno, de Nietzsche. Disse que era a voz de Deus. Em todo o Zaratustra quem fala é Mefistófeles, o mesmo demônio do norte que está em Goethe. Por isso Jung viu Wotan nos nazistas. A leitura do LIVRO VERMELHO mostra que, no fundo, Jung se sentia um fundador de uma nova religião. Ele queria confirmar o fim do cristianismo. Penso que se os nazistas tivessem ganhado a guerra a psicologia analítica poderia se tornar uma nova religião mundial. Penso também que a destruição das guerras foi tamanha que até mesmo um satanista convicto como Jung vacilou nas suas convicções sobre o mal. Pensar a língua alemã como sucedânea do hebraico sagrado é delírio grandioso. Jung tratou Nietzsche como se fosse um Isaías renascido.

Em 1913 Jung inicia um auto experimento que ele denomina “confronto com o inconsciente. Este auto experimento dura até 1930. Com isso Jung desenvolve a técnica para “chegar ao fundo do [seu] processo interior” e “traduzir as emoções em imagens” e “compreender as fantasias que estavam se agitando subterraneamente”. [Comentário de Nivaldo Cordeiro]

Na época em que Jung fez as anotações que resultaram neste livro, ele se encontrava em deslumbramento com o nefando.

Carl Jung e a influência do esteticismo de Goethe
Nivaldo Cordeiro ( * )

É preciso compreender a obra de Carl Jung e talvez o melhor texto para ver como o psicólogo suíço tropeçou nas próprias pernas seja no ensaio publicado em 1945, “Depois da Catástrofe” (inserido no livro Aspectos do Drama Contemporâneo, editado pela Vozes).
É certo que esse texto só será compreensível, em todo o horror de suas contradições, se se conhecer bem a obra e a biografia de Carl Jung, portanto não é leitura para iniciantes.
O ensaio foi escrito para que ele, Jung, dissesse o que realmente pensava de Hitler e dos acontecimentos dramáticos da II Guerra Mundial. Ao término da guerra os rumores de que os nazistas estavam vivos.
O primeiro gesto de tirar o corpo fora de Carl Jung sobre a sua responsabilidade pessoal sobre os acontecimentos foi ele atribuir os fatos aos alemães da Alemanha. Ora, Jung sempre se declarou alemão, narrava com prazer sua “nobre” ascendência bastarda desde Goethe e se sentia alemão.
Tudo que foi feito por Hitler e pela Alemanha era em nome e para o pan-germanismo. É claro que o Estado nacional alemão assumiu o comando de tudo, mas vimos como em diversos países (até no Brasil!) os verdadeiros alemães apoiaram com entusiasmo a estranha ideia que eram um povo superior, fadado a dominar o mundo. Bem vimos no que deu.
Carl Jung sabia perfeitamente bem a origem de tudo, mas não teve a coragem moral de assumir sua própria responsabilidade. Ao contrário, Thomas Mann engajou-se no esforço de guerra contra a barbárie e escreveu o monumental Doutor Fausto, livro no qual faz o acerto de contas consigo mesmo e sua própria história familiar.
Ao atribuir uma suposta culpa coletiva sobre os alemães, Jung pulou o capítulo de sua própria responsabilidade. O próprio Jung fundou em torno de si um culto satânico no qual os sacerdotes acreditados eram os seus seguidores “analisados”. Jung cultuava o mal com todas as letras, como bem demonstrei nas minhas palestras sobre o Livro Vermelho.

A raiz mais geral para o que houve naqueles tempos está na Reforma Religiosa, que teve a nefasta consequência de transformar a Igreja Universal em igrejas nacionais, comandadas segundo interesse político. Na Alemanha, o passo seguinte foi humanizar o Cristo, negando-lhe a condição divina, juntamente com as ideias pagãs do neoplatonismo. Chegou-se a falar em um Cristo “alemão”. [O maior responsável pelo surgimento das igrejas nacionais foi Martinho Lutero e sua revolução. Deu no que deu: O NOMINALISMO responsável pela decadência intelectual de nossa civilização. Lutero era nominalista. AO]
No século XVIII, sob a influência poderosa de Goethe, tivemos o esteticismo, que propôs a salvação pela Arte, aqui compreendida em sentido amplo, inclusive nas práticas esotéricas das artes alquímicas. [Recomendo assistir o documentário Arquitetura da Destruição da Versatil Home Vídeo e o filme A Fita Branca da Imo Vision.  Ler "A Sagração da Primavera" de Modris Eksteins. AO]
O passo final foi decretar a morte de Deus e tivemos o surgimento de Nietzsche no esplendor de toda sua loucura para fazê-lo. Era o João Batista anunciadora do novo Cristo, Carl Jung ele mesmo.
Esse é o trilho que explica Hitler e Carl Jung foi o maior divulgador dessa tradição esteticista. Ele se considerava, e de fato era, o maior seguidor de Goethe e Nietzsche (e Wagner).
Caberia a Jung um mea culpa ter dito isso no ensaio: que ele preparou gerações de pessoas, sejam os seus leitores, sejam os seus analisandos/pacientes, para aceitar voluntariamente o mal como se bem fosse, e servi-lo.
Ele fundou um culto satânico tão esdrúxulo que elevou o Zaratustra de Nietzsche à condição de profeta e ele mesmo, Jung, à condição de um novo salvador, em substituição à Cristo. Nada dos crimes ocorridos na Alemanha são alheios a Jung e sua obra.
A loucura delirante de Carl Jung foi tamanha que se recusou a traduzir o poema de Nietzsche O Canto Noturno no seminário que deu sobre o Zaratustra, na década de Trinta. Segundo ele, ali falaria o próprio deus/Zaratustra e o alemão passou a ser uma língua sagrada, algo como são o hebraico para os judeus e o latim para os católicos.
O culto fundado por Jung negava os valores cristãos e tentava implantar a falsa ética pagã pregada por Nietzsche, todos os falsos valores da Nova Era defendida pelo psicólogo suíço.
Toda a elite alemã (pan-germânica) sabia o Fausto, de Goethe, de cor. O livro virou a bíblia para a alta cultura dos falantes de alemão. Ali estaria a verdade. Carl Jung acreditava nisso. Pregou isso. Viveu isso em toda a intensidade. E, na vida pessoal, adotou a nova ética, praticando a poligamia consciente em franca oposição aos valores cristãos.
Pior ainda, fez do andrógino um símbolo de totalidade e algo a ser buscado, legitimando a eclosão do homossexualismo como hoje o conhecemos. De certa forma, para Jung, a androginia tornava o sujeito mais filho de Deus.
No texto, Carl Jung ridiculariza a figura de Hilter, sem dizer de si uma única palavra de reprovação. Nenhuma autocrítica. E, depois de 1945, continuou a cultivar e a divulgar a sua psicologia analítica, como se nada tivesse acontecido. Como se tudo não pudesse se repetir novamente. Colocar o demônio no lugar de Deus tem consequências.
Carl Jung escreveu que Hitler era um pseudólogo, como se ele próprio não fosse um. O Livro Vermelho revelou que Jung fez também seu próprio pacto fáustico, ainda mais delirante que o de Hitler. Ele empenhou-se em fundar uma religião, da qual, seria o sumo sacerdote. O nazismo foi apenas a expressão política desse movimento mais amplo de cunho cultural e religioso.
Carl Jung escreveu: “Ao dizer que os alemães estão psiquicamente doentes estou sendo mais benevolente do que se dissesse que são criminosos”. Uma frase perfeita que poderia bem ser aplicada a si mesmo.
Mais à frente: “(o alemão) Esqueceu seu cristianismo, vendeu o espírito à técnica, trocou a moral pelo cinismo e consagrou sua maior aspiração às forças de aniquilação”. Teria sido uma bela confissão se Jung estivesse falando de si mesmo e não no coletivo alemão.
Não, o problema alemão não é a emergência de forças coletivas incontroláveis, é um problema de pessoas individualmente comprometidas com o mal. O pacto fáustico pressupõe sempre um “sim” consciente ao mal por cada um. Carl Jung fez isso. Nietzsche fez isso.
Goethe também. Levou séculos para que esse mal fosse transformado e potencializado em fornos crematórios e em matanças generalizadas, inclusive de alemães. Não se dá as costas à conversão, ao Bem, sem se pagar alto preço.
( * ) Nivaldo Cordeiro
José Nivaldo Gomes Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/SP), ocupou vários cargos na administração federal e é hoje Diretor de Operações do Grupo Nobel de Livrarias.











quinta-feira, 3 de setembro de 2015

TONIO KROEGER

Título original: Tonio Kroeger
Autor: Thomas Mann (1875-1955)
Tradução: Maria Deling
Editora: Abril Cultural
Assunto: Novela
Edição: s/ref.
Ano: 1971
Páginas: 174

Sinopse: Histórias despretensiosas, aparentemente sem grande relevância perante clássicos absolutos podem porventura ser ignoradas por leitores incautos. Foi o que me aconteceu da primeira vez que li Tônio Kroeger, do escritor alemão Thomas Mann. Acompanhei o desenrolar da trajetória do jovem Kroeger não esperando ver ali algo que pudesse rivalizar com as grandes obras de Mann, como Doutor Fausto e A Montanha Mágica, mas isso me levou a pressupor que no livro não houvesse nada além de um exercício de narrativa qualquer, com alguns lampejos de brilhantismo aqui e ali, mas nada mais do que isso.
Ledo engano. De fato é difícil pôr em pé de igualdade Tônio Kroeger e os clássicos de Mann, mas nem por isso o livro deixa de ter questões importantes para desvendar as concepções do autor alemão sobre a existência, a arte e o ato (e ofício) de escrever. Essa é, mais do que outras características, a riqueza de Tônio Kroeger, a breve novela de 1903. (Lucas Deschain).

A trama não é nada complexa: Tônio Kroeger, filho do cônsul Kroeger e de uma mulher trazida do sul, de cabelos negros e com aura romântica, vive alguns dos dilemas de inadaptabilidade da juventude, que se transfiguram em sua condição perante sua sociedade e sua individualidade no conflito entre suas pretensas obrigações disciplinares conservadoras e os arroubos espirituais e artísticos de sua própria persona.
O lirismo que parece lhe emanar do peito se materializa nos poemas que escreve, em sua admiração elogiosa de Hans Hansen (colega por quem possui um afeto muito grande) e na admiração pelo espírito fogoso de sua mãe. Ao mesmo tempo, no entanto, Kroeger sente remorso por devotar-se a essas paixões e à arte em geral, sentindo-se deslocado do status quo de seu tempo e de seu meio.
Esse é o dilema central da sucinta obra, eivada dos conflitos da sociedade alemã da época de Thomas Mann. Uma rígida moral e uma mentalidade profundamente arraigada na disciplina existencial e no trabalho diligente grassavam a sociedade alemã do início do século XX. A burguesia alemã consolidava, passo a passo, sua civilização e sua hegemonia, criando, por conseguinte, condutas modelares e pressões sociais direcionadas a diferentes escopos. Kroeger encontra-se no limiar desse mundo burguês e a tradição intelectual e artística com a qual mantém contato através de suas leituras e experiências. Essa dúvida o corrói o livro todo.
Sua própria origem familiar expressa a dualidade de Kroeger: seu pai é um burguês, cônsul, inserido numa categoria de carreira tipicamente burguesa; sua mãe, oriunda do sul (a mãe de Mann era brasileira), é a mulher dada a exercícios espirituais, à cultura e encarna, por conseguinte, uma visão de mundo mais livre e desregrada, ao contrário daquela que caracteriza o mundo burguês. Tônio Kroeger é o fruto dessa união, que nele se fundiu mas que em seu interior constantemente se aparta.
Essa condição faz do protagonista um sujeito ao mesmo tempo dotado de uma riqueza criativa que extravasa o rígido e estreito caráter burguês, e atormentado por ser diferente daqueles que em tese são seus pares. A arte e a vida burguesa, portanto, são os dois pratos da balança. Os valores e princípios de um e outro fazem da moral de Kroeger um bricolagem conflituoso e constantemente prestes a cair para um dos lados dessa corda-bamba.
Sua amiga Lisavieta resume bem o lugar que ele ocupa dentro desse ínterim: “Você é um burguês em caminhos errados, Tônio Kroeger – um burguês errante.” (p. 48) Fala similar é proferida pelo próprio Kroeger, em constante divagação e questionamento moral:
“Estou entre dois mundos; não me sinto à vontade em nenhum dos dois e por isso tenho um pouco de dificuldade. Vocês, artistas, me chamam de burguês, e os burgueses sentem-se tentados a prender-me…não sei qual dos dois me magoa mais.” (p. 84)
A arte como redenção, como fuga, como forma de lidar com dificuldades, como ameaça a pairar sobre sua própria cabeça, como tormento… a arte não é um hedonismo supérfluo, mas se entranha no espírito, desequilibrando-o, tirando-o da inércia, ainda que a custo de sofrimento e perigo. Essa é a riqueza de Tônio Kroeger, seu tratamento da arte, seu questionamento moral, seus dilemas, enfim, sua capacidade de nos fazer olhar para dentro de nós mesmos e ao nosso redor, a um só tempo.

Fonte: Posfácio

Sobre o autor:

Thomas Mann nasceu em Lübeck, norte da Alemanha, no dia 6 de junho de 1875 e teve como berço uma tradicional família de aristocratas. Sua mãe, Julia da Silva Bruhns, era brasileira, nascida na fazenda Boa Vista, em Angra dos Reis, e transferida com a família para a Alemanha durante a adolescência. Com apenas 26 anos, ele foi descoberto para o mundo através da publicação de Os Buddenbrooks, seu segundo livro, que narra a decadência em quatro gerações de uma família burguesa tradicional, inspirada em seu próprio clã.

Thomas Mann se tornou vítima das contradições do seu tempo, marcado por extremos ideológicos brutais. Para a esquerda, era um nacionalista ferrenho, que pregou a superioridade germânica em seus primeiros livros. Para a direita - sobretudo na época da caça às bruxas do Macarthismo nos EUA -, ganhou a pecha de comunista. Mann nunca transitou entre os dois extremos. Foi, acima de tudo, um anti-radical, que desprezou com todas as forças a mácula do nazismo, numa indignação que pode ser mensurada numa frase: "Falo de nossa vergonha. A Alemanha inteira, o espírito alemão, o pensamento alemão, a palavra alemã são atingidos por essa desonra". Faleceu na Suíça em 1955.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

OS JESUÍTAS A Companhia de Jesus e a Traição à Igreja Católica

Título original: The Jesuits (Editora Simon & Schuster, New York, 1987)
Autor: Malachi Martin
Tradução: Luiz Carlos do Nascimento Silva
Editora: Record
Assunto: Polêmica (Historiografia e Teologia)
Edição: 1ª
Ano: 1989
Páginas: 463




Sinopse: Como os jesuítas de hoje estão usando o poder espiritual conquistado através dos séculos para tentar influir nos rumos da política internacional. De aliados do Papa e seus intransigentes defensores, os jesuítas passaram de algum tempo para cá a ser os seus mais ativos opositores. Malachi Martin, teólogo eminente e antigo jesuíta, revela como os atuais dirigentes da Companhia de Jesus a transformaram na maior inimiga do capitalismo democrático do Mundo Ocidental.

Malachi Martin, destacado teólogo e especialista em Igreja Católica, ex-jesuíta e professor do Pontifício Instituto Bíblico do Vaticano, ousou assestar um holofote nos véus dos segredos que encobrem as atividades da mundialmente poderosa Igreja Católica Romana. Neste universo em que a fé e o poder entram em choque, a Sociedade de Jesus tem sido, talvez, a mais lendária e fabulosa, a mais admirada e injuriada na prática de ambos. De seu início numa época revolucionária, e ao longo dos quatro séculos e meio de sua tumultuada existência, os jesuítas têm sido ao mesmo tempo um enigma e um modelo para o resto do mundo. Amigos e inimigos, católicos e não católicos, todos têm tentado resolver o poder e o segredo desses homens, treinados e devotados do ponto de vista religioso que também são gigantes em todas as atividades seculares da humanidade. Nas ciências e nas artes, nas letras, na exploração e no ensino — para não falar na política mundial —, os jesuítas sempre visaram ao melhor. E foram.
No entanto, o aspecto mais desconcertante da Sociedade de Jesus, e o que mais enfurecia seus inimigos, era que, apesar de todo o poder, os jesuítas eram gigantes com uma finalidade: a defesa e a propagação da autoridade e do ensinamento papais. Fiéis a um ideal espiritual, e para “A Maior Glória de Deus”, eram os defensores por excelência dos interesses vitais da Igreja, a Força Especial do vigário terreno de Cristo. Não eram apenas “Homens do Papa”. Eram os Homens do Papa. Até agora.

Em Os Jesuítas, Malachi Martin torna pública, pela primeira vez, a pungente história dos bastidores de homens e seus motivos e dos meios por eles usados, por trás da camuflagem da grandeza jesuíta no passado, para construir a “nova” Sociedade de Jesus no âmbito mundial. O leitor conhecerá os líderes e os joguetes; o sangue e o pathos -, a política, as traições e as humilhações; as campanhas de vendas enlatadas que se estendem de Roma e de Washington para o mundo e que mascaram uma missão estranha e destruidora.


Sobre o autor: Malachi Brendan Martin (23 de julho de 1921 - 27 de julho de 1999) foi um padre católico irlandês e escritor sobre a Igreja Católica. Originalmente ordenado padre jesuíta, se tornou professor de Paleontologia no Pontifício Instituto Bíblico do Vaticano, e a partir de 1958, Martin também atuou como consultor teológico do Cardeal Augustin Bea durante os preparativos para o Concílio Vaticano II.1 Desiludido pelas reformas na Igreja e com a Ordem Jesuíta, em 1964, pediu dispensa dos votos religiosos e mudou-se para Nova York. Seus 17 romances e livros de não-ficção foram frequentemente críticos a Igreja Católica, a qual acreditava que havia falhado em agir sobre a terceira profecia supostamente revelada pela Virgem Maria em Fátima. 2 Entre suas obras mais significativas estão The Scribal Character Of The Dead Sea Scrolls (1958) e Hostage To The Devil (1976), que tratam de satanismo, possessão demoníaca e exorcismo1, e The Final Conclave (1978) que é um alerta contra espiões soviéticos no Vaticano.


quinta-feira, 23 de julho de 2015

PODER GLOBAL E RELIGIÃO UNIVERSAL

Título original: Poder Global y Religión Universal
Autor: Juan Claudio Sanahuja
Tradutor: Lyège Carvalho
Assunto: Ensaio
Editora: Ecclesiae
Edição: 1ª
Ano: 2012
Páginas: 206

Sinopse: NA PASSAGEM PARA O TERCEIRO MILÊNIO, ao inaugurar o Grande Jubileu de 2000, o beato João Paulo II exortou os cristãos a confiarem na vereda de Cristo, lembrando a estreiteza da via que, em uma história bimilenar, foi capaz de fazer a Igreja vencer tantas sombras e perigos incontáveis, ameaças e perseguições, e tantas outras incompreensões e falsas interpretações; assim, a luz fulgurante de Cristo chegou ao século XXI como um fato incontestável: “Entramos por esta Porta, que representa Cristo mesmo: com efeito, só Ele é o Salvador.” Esta verdade histórica chegou até nós, a geração pós-Concílio Vaticano II, mas está hoje (e novamente) atacada de modo intenso e sistêmico, por forças culturais, econômicas e políticas, no afã de impor uma nova ordem mundial, destituída das premissas cristãs, ordem imposta por diversas formas de manipulação, a pior de todas as violências. Uma nova ordem não apenas política, mas também religiosa, de uma religiosidade light, “sem dogmas, sem estruturas, sem hierarquias, sem morais rigorosas”, como ressalta monsenhor Juan Cláudio Sanahuja, neste lúcido livro Poder Global e Religião Universal.
Este “poder global”, como um novo Leviatã, “procura a perversão dos menores, a anticoncepção, o aborto, a eutanásia, a investigação com embriões humanos, a injusta legitimação jurídica de casais do mesmo sexo etc. A falsa espiritualidade da nova ordem procura ensinar às crianças de 5 anos a normalidade da homossexualidade e da masturbação e instruí-la no uso de preservativos e da pílula do dia seguinte, inculcando-lhes que o aborto é um direito, como propõe a UNESCO”.

Comentários: A crise da Igreja é grave. Tenho a impressão de que não se esconde de ninguém que o cataclismo social – que afeta o respeito à vida humana e à família – tem essa triste situação como causa. Michel Schooyans afirma, sem nenhuma dúvida, que a Nova Ordem Mundial, “do ponto de vista cristão, é o maior perigo que ameaça a Igreja desde a crise ariana do século IV”, quando, nas palavras atribuídas a São Jerônimo, “o mundo dormiu cristão e, com um gemido, acordou ariano”.

(...) Soma-se à atitude vacilante de muitos católicos a ditadura do politicamente correto, muito mais sutil que as anteriores e que reivindica a cumplicidade da religião, uma religião que por sua vez não pode intervir nem na forma de conduta nem no modo de pensar. A nova ditadura corrompe e envenena as consciências individuais e falsifica quase todas as esferas da existência humana.

A sociedade e o estado excluíram Deus, e “onde Deus é excluído, a lei da organização criminal toma seu lugar, não importa se de forma descarada ou sutil. Isto começa a tornar-se evidente ali onde a eliminação organizada de pessoas inocentes – ainda não nascidas – se reveste de uma aparência de direito, por ter a seu favor a proteção do interesse da maioria”.

O autor: Argentino, sacerdote ordenado em 1972, Doutor em Teologia pela Universidade de Navarra, Espanha, Professor de Teologia Moral e História da Filosofia e da Teologia, Capelão de sua Santidade o Papa Bento XVI e Colaborador do Conselho Pontifício para a Vida. É também jornalista pela Universidade de Navarra e autor de «El desarrollo sustentable. La nueva ética internacional» («O desenvolvimento sustentável. A nova ética internacional»)

Entrevista com o autor:
Canção Nova - De que forma funcionam essas estratégias de estabelecimento de um poder global e religião universal?

Monsenhor Juan Claudio Sanahuja - É algo fabricado pelos mesmos lobbys antivida, porque precisam transformar a cultura dos países cristãos, a fim de que a mensagem antivida possa ser aceita nesses países. Para isso, precisam "trocar" as crenças dos povos cristãos, especialmente católicos, e isso desgraçadamente é favorecido por uma situação de "crise" no interior da Igreja, pois há pessoas, inclusive eclesiásticos, que não aceitam os pronunciamentos magisteriais.
Justamente estes projetos de nova ética internacional baseiam-se no relativismo ético. Portanto, os documentos do Magistério que afirmam verdades imutáveis são rechaçados por esses projetos. E querem inculcar isso no povo cristão e católico, em parte valendo-se de alguns eclesiásticos que não aceitam o ensinamento da Igreja.

Canção Nova - Já tivemos na história regimes políticos que promoveram o ateísmo, e, depois, surgiu essa tendência de promover a religião aconfessional. Qual é a diferença desses dois mecanismos?

Monsenhor Sanahuja - As pessoas são quase sempre as mesmas e tudo está impregnado de um neomarxismo. Então, o que ocorre é que querem substituir a religião revelada, cristã, por uma outra, de valores relativos, utilizando inclusive as mesmas palavras que têm grande valor para a religião cristã. Por exemplo, a "paz". É uma palavra que tem forte embasamento de conteúdo cristão. Por isso, não bastam as palavras: temos que ver quem diz e por que as diz.
É o que o então Cardeal Joseph Ratzinger chamou de moralismo político. Não basta falar sobre paz, proteção das crianças, igualdade. Tem-se que ver quem diz e qual é a sua ideologia, pois podem ser palavras enganosas, embora baseadas em conteúdo católico. Então, aqueles que pregavam ateísmo há uns anos são os mesmos, ou discípulos desses, e agora pregam uma nova ética de valores relativos, mutáveis. Assim, tudo o que seja verdade imutável é fundamentalismo e, portanto, rechaçável, condenável. Por isso, alguns dizem que a posição da Igreja em relação ao aborto altera a paz, tanto social quanto mundial. Já outros abordam as formas de se combater a Aids: a Igreja fala sobre o cultivo de bons costumes, e há quem acuse isso de crime!

Canção Nova - De que forma os padres e bispos podem ajudar nesse contexto? E o povo católico, já abriu os olhos para essa realidade?

Monsenhor Sanahuja - Sendo fiéis ao Magistério, pregando a doutrina ensinada por Jesus. Acontece que nós sacerdotes, os clérigos, inclusive bispos, temos a pressão do ambiente, do "politicamente correto". Temos que pregar a Jesus e a conduta que Ele nos ensina a ter, apesar da presença do politicamente correto. Com a ajuda de Deus, não podemos ceder às pressões. Isso é inadmissível. Os sacerdotes devem pregar Jesus e a doutrina católica, em sua integridade, e não se deixar pressionar, ainda que isso possa trazer dor de cabeça.



COMO AGIR QUANDO UM PAPA ENSINA ALGO CONTRÁRIO À DOUTRINA DA IGREJA?

segunda-feira, 1 de junho de 2015

O PROCESSO MAURIZIUS

Título original: Der Fall Maurizius
Autor: Jakob Wassermann
Tradução: Octávio de Faria e Adonias Filho
Editora: Abril
Assunto: Romance
Edição: 1ª
Ano: 1975
Páginas: 412

Sinopse: O livro narra os conflitos do jovem Etzel Andergast com seu pai, Barão Wolf de Andergast, juiz respeitado, austero e conservador. O jovem descobre que seu pai condenou um homem inocente, se interessa pelo caso e se envolve tentando resolvê-lo. Para tanto, sai de casa e procura conseguir provas para libertar o homem que o pai condenara.
O romance mostra o marcante contraste entre a justiça ideal e a abstrata, e a aplicação de seus preceitos no mundo dos homens.


Resumo da narrativa: O barão Wolf de Andergast divorciou-se da esposa quando seu filho Etzel tinha seis anos e meio de idade. As cláusulas do divórcio proibiam a mãe de aproximar-se do filho, ou até mesmo escrever para ele. De forma que Etzel foi criado por madame Rie, a governanta da casa.
Ao completar os 16 anos de idade, o jovem Etzel descobre que seu pai cometeu um erro ao condenar um inocente, se interessa pelo caso e decide corrigi-lo. Sai de casa, e viaja até Berlim na busca de provas que pudessem inocentar Leonardo Maurizius preso por um crime que não cometera.
O barão Wolf von Andergast, quando era ainda um jovem promotor, foi o responsável pela acusação contra Leonardo Maurizius de assassinato da esposa que culminou com a condenação deste a prisão perpétua. Quase vinte anos depois, o barão retoma o estudo dos autos do processo e descobre que cometeu um erro condenado um inocente.
Etzel, inconformado com a prisão injusta de Leonardo Maurizius, foge de casa para descobrir a verdade. Em Berlim, Etzel encontra Waremme cujo nome verdadeiro é George Warschauer e procura obter informações sobre o assassinato da esposa de Maurízius.
Promove o indulto de Maurizius, mas o seu filho Etzel não se conforma com um simples indulto, ele quer uma justiça perfeita e absoluta.
O Processo Maurizius, não é um livro de literatura jurídica ou de aventura forense. Ao que parece, vai se seguindo a vida de Etzel Andergast, filho do Barão, entusiasta ao seu próprio modo do seu próprio conceito de justiça. Um conceito, eu diria, bastante responsável, raro ao atribuir o encargo pessoal de se agir segundo a repulsa que a injustiça provoca, mas adolescente e ingênuo, por acreditar que tudo possa ou mereça ser mudado.

  • Etzel Andergast, filho do juiz Wolf Andergast, para recuperar a justiça, denuncia o erro judiciário de seu pai contra Leonardo Maurizius. Acontece que o denunciante só conhece parte da verdade e desconhece completamente as conseqüências de seu ato. Como resultado acaba destruindo a carreira de Wolf Andergast, seu pai, por conta de sua rebelião metafísica disfarçada sob a aparente de defesa da justiça.
  • Ao longo da história, Etzel vai mudando o seu comportamento que é percebido pelo seu professor.
  • O comportamento do barão, diante da revolta contra a situação de uma falha de julgamento no processo, começa a mudar também até destruí-lo completamente.

Interpretação da obra:
- Prof. José Monir Nasser

Perfil das personagens da obra:

§  Etzel Andergast: Um menino de 16 anos, míope*, que não conhecia a mãe por conta de um divórcio. Desprovido de emoção, se considera predominantemente racional e ponto de vista objetivo. Revoltado com as injustiças do mundo e não admitia o contraditório. Seu discurso é existencialista e no fundo Etzel é um niilista. (* A miopia de Etzel é um dado importante na interpretação da obra).

§  Barão Wolf Andergast: Pai de Etzel. Procurador de justiça, homem austero que “se deixara penetrar até o âmago pela consciência da nobreza superior do seu dever e do seu ministério” e “excessivamente absorvido pelo trabalho da sua profissão”. Não tinha vida social e não gostava de aparecer em público. Passava duas horas por dia, à noite, para conversa com o filho, compromisso que “entrava no plano de sua vida do mesmo modo como o estudo dos autos”. A conversa começava sempre com “perguntas inofensivas” e terminava com altos debates.
§  Sofia Andergast: Mãe de Etzel, divorciada do barão de Andergast e afastada do filho Etzel por conta de uma traição conjugal ao marido.
§  Generala Andergast: Avó de Etzel.
§  Oto Leonardo Maurizius: Condenado à morte quando o barão de Andergast ainda era juiz. Teve sua pena comutada para prisão perpétua e libertado pelo próprio barão após ter cumprido 18 anos na cadeia.
§  Eli Hensolt (Eli Jahn quando solteira): Esposa de Maurízius que fora assassinada cuja culpa recaíra sobre o marido.
§  Gregório Waremme (George Warschauer): Testemunha-chave na condenação de Leonardo Maurízius. Ninguém sabia nada sobre a sua procedência ou quem ele era “só o diabo sabe o que é preciso fazer para retratá-lo”.
§  Ana Jahn: Irmã de Eli Hensolt. Com a morte da irmã Eli a fortuna da família havia passado para ela.
§  Rie: Governanta da casa que criara Etzel no lugar da mãe.

Dados do problema:
  • Rebelião absoluta de Etzel contra o pai por conta do divórcio com a mãe.
  • Etzel Atribui ao pai todas as injustiças do mundo. É a revolta contra o espírito.
  • Etzel não admite o contraditório. (“Há conflito de deveres ou existe um só e único dever?”) um de seus questionamentos.
  • O discurso de Etzel é um discurso existencialista; um discurso contra o Espírito e contra Deus.
“No coração desta conspiração ou no centro desta aliança, pouco importa, está meu pai”.
“Foi ele quem tomou as medidas, é ele quem tem todos os fios nas mãos. Tudo o que o embaraça, ele o exclui: qualquer curiosidade ou reclamação, qualquer espírito de pesquisa. As coisas sucedem assim e ele quer que sucedam assim. E, como é todo poderoso, as coisas realmente sucedem assim...” 

Etzel sente tudo isso como uma injustiça. Pergunta a si mesmo se deve continuar a se submeter.
  • Etzel na verdade não quer “recuperar” a justiça, o que ele quer é se vingar do pai, destruindo-o. O pai aqui simboliza o espírito.
  • O casamento de Maurizius foi um casamento de conveniência. Ele era 16 anos mais novo que a esposa; a esposa tinha um dote de 80 mil francos, isso o colocava como suspeito principal na morte de sua esposa.
  • O que aconteceu na Alemanha não é um problema do povo alemão, é um problema humano. Poderia ter acontecido com qualquer povo.
  • Deve-se retirar a conotação histórica do problema alemão da obra de Wassermann.
  •  
Conclusão
§  Etzel quer se vingar do pai por causa da mãe. É a vingança contra o Espírito.
§  A mãe simboliza o Amor.
§  O pai simboliza o Espírito.
§  Por essa razão as crianças devem ser criadas pela mãe que é o amor.
§  Etzel está revoltado contra o Espírito porque este lhe tirou a possibilidade do amor. Ele quer a derrota do pai para se colocar no seu lugar. Aqui está a explicação porque Etzel não é emocional, mas racional.
§  A justiça do pai é imperfeita e Etzel vai procurar a justiça perfeita, porque ele julga que o mundo é imperfeito. Eis aqui a rebelião metafísica.
§  Etzel é um rebelado metafísico, um narcisista do mais alto calibre, que quer construir um “mundo perfeito” por meio da “justiça perfeita”.
§  A condição para o mundo existir é ter um grau de perfeição menor que a perfeição de Deus. Se o mundo fosse tão perfeito quanto Deus, então não existiria Deus. A imperfeição do mundo é uma espécie de preço que nós pagamos para viver nele.
§  Em resumo: Etzel é um rebelado contra Deus que tem o delírio da onipotência.


sexta-feira, 1 de maio de 2015

SEIS PERSONAGENS À PROCURA DE UM AUTOR

Título original: Sei Personaggi in cerca d´Autore
Autor: Luigi Pirandello (1867-1936)
Tradução: Brutus Pedreira
Editora: Abril
Assunto: Drama
Edição: s/ ref.
Ano: 1978
Páginas: 138 (325-463)

Sinopse: Escrita em 1921, Seis personagens à procura de autor, de Luigi Pirandello (1867-1936), relata um ensaio de teatro. O ensaio é invadido por seis personagens que, rejeitadas por seu criador, tentam convencer o diretor da companhia a encenar suas vidas.
No início, o diretor fica perturbado por ter seu ensaio interrompido, mas aos poucos começa a interessar-se pela situação inusitada que se apresenta diante de seus olhos. As personagens o convidam a encenar suas vidas, mostrando que mereciam ter uma chance. Com isso, acabam convencendo-o a tornar-se autor e tentam mostrar ao diretor que suas vidas são reais.

Comentários: “Luigi Pirandello é o maior renovador do teatro italiano e uma das maiores influências sobre o teatro moderno. Há quem veja nele o precursor do teatro do absurdo de Beckett e Ionesco. Originário da Sicília, região de fraca herança cultural, cresceu sob o Risorgimento, o movimento de unificação da Itália. Otto Maria Carpeaux diz que Pirandello tem três fases: a siciliana, a italiana e a europeia, transcendendo sua origem provinciana e atingindo a universalidade. Correspondentemente, o eixo da obra madura de Pirandello é o drama da identidade humana, de que é o maior intérprete dramático.
Apresentada pela primeira vez em 1921 no Teatro Valle em Roma, “Seis Personagens à Procura de um Autor” foi recebida com hostilidade, aos gritos de “Manicômio”, “Manicômio”. A apresentação subseqüente, em Milão, foi bem recebida. A peça aos poucos evoluiu para aceitação plena, até virar um clássico.
As discussões entre as personagens e o diretor compõem uma análise filosófica do teatro e da perda de consciência da existência humana, dentro da temática preferida de Pirandello que é a procura da identidade humana, ou seja: Quem somos nós? Assim, o peso da peça divide-se entre a narrativa em si, e os aspectos paratextuais, que ganham a cena.
Diretor e personagens discutindo constroem também uma querela de formas de fazer teatro. As personagens, tentando mostrar ao diretor que suas vidas são reais, em relação ao palco, e ele defendendo a relatividade do que está sobre o palco, toma como parâmetro a vida "real". A peça entra, assim, em um outro aspecto: torna-se um estudo metalingüístico do teatro, a arte discutindo a si mesma. A forma de representação proposta pelo diretor não é aceita pelas personagens. Não querem ser representadas pelos atores da companhia. Afinal, como alguém poderia representar melhor a vida de uma personagem do que ela própria?” (José Monir Nasser).

Resumo da narrativa: Pirandello nos apresenta a estória de uma família de personagens que invade o ensaio de uma companhia teatral. De acordo com o artifício da ficção, as personagens de uma peça teatral estão consubstanciadas, agindo e atuando no mundo real, mas sofrem de uma forte lacuna de sua própria constituição, que é o fato de sentirem a necessidade de encontrar um lugar ou uma estória em que possam viver seus “dramas internos”. Isto acontece, dentro do contexto da peça, por conta da negligência do dramaturgo, que os criou, dando um conflito e uma vida interna a cada um deles, mas que desistiu de inventar uma estória necessária para fazê-los viver. A tensão do drama está contida no espanto e na dificuldade em que o diretor da companhia e os atores têm em compreender a “vida” extraordinária dessas personagens. Deste ponto, Pirandello explora diversas situações limites, que oscilam entre o trágico e o cômico, e, ao mesmo tempo, discute diversos aspectos da natureza da personagem de ficção. O principal ponto de partida do dramaturgo é evidenciar que a “verdade” da personagem de ficção pode, muitas vezes, ser mais forte do que a “verdade” do ser humano. A personagem de ficção assim figura, pois ela está fixada no texto em todos os seus traços e seus conflitos, enquanto o ser humano é uma entidade em constante transformação e variação. No decorrer desse confronto entre essas duas “verdades”, fica evidenciado também que o que garante a “vida da personagem” e a “noção de identidade” num indivíduo do mundo real é um mesmo elemento: uma ficção, uma construção artificial. Enquanto na personagem esta construção permanece pronta e acabada, no ser humano, por estar vivo, ela permanece sempre indefinida e inacabada.
Trechos do livro:
“Mas por que – disse para mim mesmo – não descrever um caso como este, realmente inédito, de um autor que se recusa a dar vida a algumas de suas personagens já nascidas vivas na fantasia dele, bem como o caso de como essas personagens, por possuírem definitivamente, em si próprias, a vida, não aceitam ficar fora do mundo da arte? Afinal elas não estão separadas de mim, já vivem por sua conta, adquiriram voz e movimento, portanto, já se tornaram, por si mesmas, personagens dramáticas, mediante a luta pela vida que tiveram de travar comigo; personagens que podem mexer-se a falar por si sós; vêem a si próprias como personagens; aprenderam a se defender de mim e saberão defender-se igualmente dos outros. Então, vamos deixá-las ir para onde costumam se dirigir, a fim de poderem viver como personagens dramáticas: para o palco. E vamos ver o que acontece.” (p. 329)
“Dessas seis personagens, portanto, aceitei o ‘ser’ e recusei a razão de ser. Delas peguei o organismo, do qual tirei a função existente, emprestando-lhe outra mais complexa, onde a delas entra apenas como um dado de fato.” (p. 333)
“Tudo o que tem vida, justamente pelo fato de viver, possui forma e, por isso, está sujeito a morrer. Com a obra de arte, porém, acontece o contrário: ela se perpetua viva, justamente porque é a forma.” (p.339)
“Uma personagem, senhor, pode sempre perguntar a um homem quem ele é. Porque uma personagem tem, verdadeiramente, uma vida sua, assinalada por caracteres próprios, em virtude dos quais é sempre ‘alguém’. Enquanto que um homem – não me refiro ao senhor agora – um homem, assim, genericamente, pode não ser ninguém.” (p.444)

Interpretação da obra:
1.      As personagens são imortais e eternas.
2.      Os atores são farsantes e volúveis.
3.      A personagem tem existência fixa.
4.      As personagens são mais duráveis que seus autores e atores.
5.      A personagem não existe sem um ator.
6.      As personagens precisam ser criadas por um autor. É o autor que faz a personagem existir.
7.      As personagens são esquemas abstratos e só existem na boca dos atores.
8.      A personagem é perpétua; para ela o tempo não existe!
9.      A personagem vive sempre o momento eterno.
10. A personagem é alguma coisa: o homem pode não ser.
11. A personagem só existe no contexto para a qual ela foi criada.

Entendendo a Obra:
1.      Vida real e vida teatral.
2.      Arte é imitação da vida. Arte não pode ter vida, a vida é mais complexa que a arte.
3.      A arte não pode ser idêntica à realidade, mas ela tem que ser verossímil.
4.      A arte não consegue substituir a realidade.
5.      As personagens da obra foram rejeitadas pelo autor.
6.      As personagens não parecem mais humanas que os atores? Por quê? Porque elas representam a humanidade propriamente dita.
7.      O que se pode compreender da futilidade dos atores?
8.      As personagens estão a busca do seu criador.
9.      O que o criador representa? A saudade do Paraíso perdido pelo pecado.
10. O que as personagens querem recuperar? O sentido da vida.
11. Os atores representam o projeto da vida humana.
12. As personagens são rebeladas contra o destino.
13. O homem está infeliz com aquilo que ele é.
14. Esta é uma história da perda da consciência da existência humana.
(José Monir Nasser)