sexta-feira, 1 de maio de 2015

SEIS PERSONAGENS À PROCURA DE UM AUTOR

Título original: Sei Personaggi in cerca d´Autore
Autor: Luigi Pirandello (1867-1936)
Tradução: Brutus Pedreira
Editora: Abril
Assunto: Drama
Edição: s/ ref.
Ano: 1978
Páginas: 138 (325-463)

Sinopse: Escrita em 1921, Seis personagens à procura de autor, de Luigi Pirandello (1867-1936), relata um ensaio de teatro. O ensaio é invadido por seis personagens que, rejeitadas por seu criador, tentam convencer o diretor da companhia a encenar suas vidas.
No início, o diretor fica perturbado por ter seu ensaio interrompido, mas aos poucos começa a interessar-se pela situação inusitada que se apresenta diante de seus olhos. As personagens o convidam a encenar suas vidas, mostrando que mereciam ter uma chance. Com isso, acabam convencendo-o a tornar-se autor e tentam mostrar ao diretor que suas vidas são reais.

Comentários: “Luigi Pirandello é o maior renovador do teatro italiano e uma das maiores influências sobre o teatro moderno. Há quem veja nele o precursor do teatro do absurdo de Beckett e Ionesco. Originário da Sicília, região de fraca herança cultural, cresceu sob o Risorgimento, o movimento de unificação da Itália. Otto Maria Carpeaux diz que Pirandello tem três fases: a siciliana, a italiana e a europeia, transcendendo sua origem provinciana e atingindo a universalidade. Correspondentemente, o eixo da obra madura de Pirandello é o drama da identidade humana, de que é o maior intérprete dramático.
Apresentada pela primeira vez em 1921 no Teatro Valle em Roma, “Seis Personagens à Procura de um Autor” foi recebida com hostilidade, aos gritos de “Manicômio”, “Manicômio”. A apresentação subseqüente, em Milão, foi bem recebida. A peça aos poucos evoluiu para aceitação plena, até virar um clássico.
As discussões entre as personagens e o diretor compõem uma análise filosófica do teatro e da perda de consciência da existência humana, dentro da temática preferida de Pirandello que é a procura da identidade humana, ou seja: Quem somos nós? Assim, o peso da peça divide-se entre a narrativa em si, e os aspectos paratextuais, que ganham a cena.
Diretor e personagens discutindo constroem também uma querela de formas de fazer teatro. As personagens, tentando mostrar ao diretor que suas vidas são reais, em relação ao palco, e ele defendendo a relatividade do que está sobre o palco, toma como parâmetro a vida "real". A peça entra, assim, em um outro aspecto: torna-se um estudo metalingüístico do teatro, a arte discutindo a si mesma. A forma de representação proposta pelo diretor não é aceita pelas personagens. Não querem ser representadas pelos atores da companhia. Afinal, como alguém poderia representar melhor a vida de uma personagem do que ela própria?” (José Monir Nasser).

Resumo da narrativa: Pirandello nos apresenta a estória de uma família de personagens que invade o ensaio de uma companhia teatral. De acordo com o artifício da ficção, as personagens de uma peça teatral estão consubstanciadas, agindo e atuando no mundo real, mas sofrem de uma forte lacuna de sua própria constituição, que é o fato de sentirem a necessidade de encontrar um lugar ou uma estória em que possam viver seus “dramas internos”. Isto acontece, dentro do contexto da peça, por conta da negligência do dramaturgo, que os criou, dando um conflito e uma vida interna a cada um deles, mas que desistiu de inventar uma estória necessária para fazê-los viver. A tensão do drama está contida no espanto e na dificuldade em que o diretor da companhia e os atores têm em compreender a “vida” extraordinária dessas personagens. Deste ponto, Pirandello explora diversas situações limites, que oscilam entre o trágico e o cômico, e, ao mesmo tempo, discute diversos aspectos da natureza da personagem de ficção. O principal ponto de partida do dramaturgo é evidenciar que a “verdade” da personagem de ficção pode, muitas vezes, ser mais forte do que a “verdade” do ser humano. A personagem de ficção assim figura, pois ela está fixada no texto em todos os seus traços e seus conflitos, enquanto o ser humano é uma entidade em constante transformação e variação. No decorrer desse confronto entre essas duas “verdades”, fica evidenciado também que o que garante a “vida da personagem” e a “noção de identidade” num indivíduo do mundo real é um mesmo elemento: uma ficção, uma construção artificial. Enquanto na personagem esta construção permanece pronta e acabada, no ser humano, por estar vivo, ela permanece sempre indefinida e inacabada.
Trechos do livro:
“Mas por que – disse para mim mesmo – não descrever um caso como este, realmente inédito, de um autor que se recusa a dar vida a algumas de suas personagens já nascidas vivas na fantasia dele, bem como o caso de como essas personagens, por possuírem definitivamente, em si próprias, a vida, não aceitam ficar fora do mundo da arte? Afinal elas não estão separadas de mim, já vivem por sua conta, adquiriram voz e movimento, portanto, já se tornaram, por si mesmas, personagens dramáticas, mediante a luta pela vida que tiveram de travar comigo; personagens que podem mexer-se a falar por si sós; vêem a si próprias como personagens; aprenderam a se defender de mim e saberão defender-se igualmente dos outros. Então, vamos deixá-las ir para onde costumam se dirigir, a fim de poderem viver como personagens dramáticas: para o palco. E vamos ver o que acontece.” (p. 329)
“Dessas seis personagens, portanto, aceitei o ‘ser’ e recusei a razão de ser. Delas peguei o organismo, do qual tirei a função existente, emprestando-lhe outra mais complexa, onde a delas entra apenas como um dado de fato.” (p. 333)
“Tudo o que tem vida, justamente pelo fato de viver, possui forma e, por isso, está sujeito a morrer. Com a obra de arte, porém, acontece o contrário: ela se perpetua viva, justamente porque é a forma.” (p.339)
“Uma personagem, senhor, pode sempre perguntar a um homem quem ele é. Porque uma personagem tem, verdadeiramente, uma vida sua, assinalada por caracteres próprios, em virtude dos quais é sempre ‘alguém’. Enquanto que um homem – não me refiro ao senhor agora – um homem, assim, genericamente, pode não ser ninguém.” (p.444)

Interpretação da obra:
1.      As personagens são imortais e eternas.
2.      Os atores são farsantes e volúveis.
3.      A personagem tem existência fixa.
4.      As personagens são mais duráveis que seus autores e atores.
5.      A personagem não existe sem um ator.
6.      As personagens precisam ser criadas por um autor. É o autor que faz a personagem existir.
7.      As personagens são esquemas abstratos e só existem na boca dos atores.
8.      A personagem é perpétua; para ela o tempo não existe!
9.      A personagem vive sempre o momento eterno.
10. A personagem é alguma coisa: o homem pode não ser.
11. A personagem só existe no contexto para a qual ela foi criada.

Entendendo a Obra:
1.      Vida real e vida teatral.
2.      Arte é imitação da vida. Arte não pode ter vida, a vida é mais complexa que a arte.
3.      A arte não pode ser idêntica à realidade, mas ela tem que ser verossímil.
4.      A arte não consegue substituir a realidade.
5.      As personagens da obra foram rejeitadas pelo autor.
6.      As personagens não parecem mais humanas que os atores? Por quê? Porque elas representam a humanidade propriamente dita.
7.      O que se pode compreender da futilidade dos atores?
8.      As personagens estão a busca do seu criador.
9.      O que o criador representa? A saudade do Paraíso perdido pelo pecado.
10. O que as personagens querem recuperar? O sentido da vida.
11. Os atores representam o projeto da vida humana.
12. As personagens são rebeladas contra o destino.
13. O homem está infeliz com aquilo que ele é.
14. Esta é uma história da perda da consciência da existência humana.
(José Monir Nasser)


Um comentário:

Manoel Matos disse...

Olá Sr. Anatoli, meu nome é Thiago e gostaria de saber se o senhor possui a aula (audio ou transcrita) do Prof. Monir Nasser sobre No Caminho de Swann e O Homem sem Qualidades. Eu possuo quase 90 aulas do Monir, mas necessito dessas justamente que não tenho. Meu e-mail é thiagojmj@bol.com.br