sábado, 1 de junho de 2013

TERRA DOS HOMENS

Título original: Terre des Hommes
Autor: Antoine de Saint-Exuperry
Tradução: Rubem Braga
Editora: José Olympio
Assunto: Romance
Edição: 13ª
Ano: 1968
Páginas: 155



Sinopse: Publicado em 1939 o livro é mais que um romance de memórias, é um profundo mergulho na alma humana. Saint-Exupéry, nascido em 1900, em Lyon, França, conta como descobriu sua vocação aos 12 anos, ao voar pela primeira vez em um balão. Piloto civil aos 21 anos, aos 26 passa a integrar a equipe de pioneiros que, em pequenos aparelhos a hélice, sem conforto ou pressurização, sobrevoa o Saara e a cadeia andina para levar à África e à América do Sul o correio aéreo da Europa.

Resumo da narrativa e comentários: A nostalgia pelo avião marcou a vida e a obra de Saint-Exupéry. A aviação para o autor é deliberadamente romântica, uma fuga contra a perspectiva limitada do mundo: é liberdade, imensidão, silêncio.

“O império do homem é interior”

Em Terra dos Homens lemos sobre aviões e desertos. Percebe-se a atração que exerce o deserto com o relato vibrante de homens que se dispõem a sobrevoá-lo sob o céu estrelado das noites frias, movidos apenas por um desejo de liberdade e de vida, contrário à insegurança das máquinas primitivas do período entre guerras, que mais se assemelham a latas voadoras, esperando o mínimo desleixo para caírem como pedras.

“Entretanto, amamos o deserto. Se no começo ele é apenas solidão e silêncio é que não se entrega aos amantes de um dia.”

O momento da pane e do pouso forçado nas areias do Saara transforma o medo, até então potencial, em realidade. O deserto passa a ser tangível, não apenas belo, mas mortal, e o homem, um animal que busca evitar a extinção.

“Quando tomamos consciência de nosso papel, mesmo o mais obscuro, só então somos felizes. Só então podemos viver em paz e morrer em paz, pois o que dá um sentido à vida dá um sentido à morte.”

O miolo do livro é a seqüência da queda do avião, a sobrevivência, a consciência do homem no deserto. É o corpo que perambula pelas dunas quentes e a consciência que grita, não mais por ajuda, porque não tem forças, porque é inútil, mas pelo sentido e beleza perdidos pela necessidade fisiológica de água. Os devaneios do esgotamento, a saliva sólida, a mente se dispersa em pensamentos sem importância, como levada pelo vento, sobre a água, a sua função, o porquê de ela existir.

Então o desespero cria idéias extremas, pensa-se no óleo do avião. Talvez com os olhos fechados, com força de vontade, com imaginação. É líquido, como a água, não deve ser diferente. O gosto horrível, de fuselagem, o estômago apertado, agredido, a vontade de morrer. Poucos segundos para ter vontade de morrer, é preciso encontrar vida, levantar-se, continuar andando pela paisagem uniforme, conseguir ajuda, encontrar água, o corpo ainda quer tentar. Existe vida em algum lugar e é preciso encontrá-la. Vida líquida. Não é nada demais, é só água, que por tanto tempo sempre esteve disponível, não deve ser difícil.

“A sede é cada vez mais uma doença e cada vez menos um desejo”

Análise da obra: Em Terra dos Homens, o autor se revela filósofo de verve extensa, mergulhando o leitor na análise do Homem que precisa ser desvendado: "Não compreendo mais essas populações dos trens de subúrbio, esses homens que pensam que são homens e que entretanto estão reduzidos por uma pressão que eles mesmos não sentem, como formigas, ao uso que deles se faz. Como eles enchem, quando estão livres, seus absurdos pequenos domingos? " (Página 127)

Ou, quando relata-nos a universalidade dos homens: "É preciso, para tentar distinguir o essencial, esquecer por um momento as divisões que, uma vez admitidas, arrastam todo um Alcorão de verdades intocáveis, e o fanatismo conseqüente. Podem-se classificar os homens em homens de direita e homens de esquerda, em corcundas e não corcundas, em fascistas e democratas, e essas distinções são inatacáveis. Mas a verdade é o que simplifica o mundo, e não o que gera o caos. A verdade é o que exprime o universal". (Página 146)

Terra dos Homens, obra essencial do príncipe do deserto, é mais que necessária, é ainda atual e se insere bem nos dias conturbados que vivemos. Antoine de Saint-Exupéry é um poeta que desvenda o Homem e suas vicissitudes, um escritor que relata com apuro poético o invólucro da alma humana.

E ele encera o livro de modo magnífico: “Sento-me diante de um casal. Entre o homem e a mulher a criança, bem ou mal, havia se alojado, e dormia. Volta-se, porém, no sono, e seu rosto me aparece sob a luz da lâmpada. Ah, que lindo rosto! Havia nascido daquele casal uma espécie de fruto dourado. Daqueles pesados animais havia nascido um prodígio de graça e encanto. Inclinei-me sobre a fronte lisa, a pequena boca ingênua. E disse comigo mesmo: eis a face de um músico, eis Mozart criança, eis uma bela promessa da vida. Não são diferentes dele os belos príncipes das lendas. Protegido, educado, cultivado, que não seria ele? Quando, por mutação, nasce nos jardins uma rosa nova, os jardineiros se alvoroçam. A rosa é isolada, é cultivada, é favorecida. Mas não há jardineiros para homens. Mozart criança irá para estranha máquina de entortar homens. Mozart fará suas alegrias mais altas da música podre na sujeira dos cafés-concertos. Mozart está condenado.

            Voltei para o meu carro. E pensava: essa gente quase não sofre o seu destino. E o que me atormenta aqui não é a caridade. Não se trata da gente se comover sobre uma ferida eternamente aberta. Os que a levam não a sentem. É alguma coisa como a espécie humana, e não o indivíduo, que está ferida, que está lesada. Não creio na piedade. O que me atormenta é o ponto de vista do jardineiro. O que me atormenta não é essa miséria na qual, afinal de contas, a gente se acomoda, como no ócio. Gerações orientais vivem na sujeira e gostam de viver assim.

            O que me atormenta, as sopas populares não remedeiam. O que me atormenta não são essas faces escavadas nem essas feiúras. É Mozart assassinado, um pouco, em cada um desses homens.

            Só o Espírito, soprando sobre a argila, pode criar o Homem.” (págs. 154-155)

 
~~~~~~~~~~~~~~~~

2 comentários:

Gabriel Savaris Ignácio disse...

Olá, Anatoli!
Muito bom o teu blog,
encontrei por "acaso" enquanto pesquisava algo sobre Hermann Hesse... e além de encontrar uma riqueza de conteúdo tanto didático quanto crítico a seu respeito, encontrei muito mais...
Parabéns pelo blog,
continuarei acompanhando-o, assim como tuas indicações, que muito me agradaram.
Tenha um bom dia.

Anatoli. disse...

Obrigado pelos elogios Gabriel. Volte outras vezes.