sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

DON JUAN

Título original: Don Juan ou Ler festin de pierre.
Autor: Jean-Baptiste Poquelin (Molière) - (1622-1673)
Tradutor: Millôr Fernandes
Assunto: Drama
Editora: L&PM
Edição: 1ª
Ano: 1997
Páginas: 130 p.


Sinopse: Don Juan é um lendário libertino fictício, um mulherengo inveterado, que seduzia as mulheres prometendo-lhes o matrimônio. Deixa, atrás de si, um rastro de corações partidos, até que finalmente acaba matando um certo Don Gonzalo. Quando depois é convidado pelo fantasma deste para um jantar numa catedral, acaba por aceitar, por não querer parecer um covarde e acaba se dando muito mal. A história termina dramaticamente, com a descida de Don Juan ao Inferno.

Curiosidade: A versão de Molière, que estreou em 1665, após quatorze apresentações foi proibida e só voltaria a ser reencenada como ele a escreveu cento e setenta e quatro anos depois da morte do autor.

As personagens:

― Don Juan – filho de Don Luís
― Leporelo – Criado de Don Juan
― Dona Elvira – Mulher de Don Juan
― Gusmão – Escudeiro de Dona Elvira
― Don Carlos – Irmão de Elvira
― Don Alonso – Outro irmão de Elivira
― Carlota e Marturina – Componesas
― Pierrô – Camponês
― A Estátua do Comendador
― Violeta e Ragota - Criados de Don Juan
― Sr. Domingos – Comerciante
― La Rammé – Espadachin
― Um pobre
― Comitiva de Don Juan
― Comitiva dos irmãos Don Carlos e Don Alonso

Resumo da narrativa: Don Juan, depois de seduzir e prometer casamento à bela Elvira, a abandona e foge. Atrás dele vão os dois irmãos da donzela, prontos para lavar a honra da família. Na fuga, Don Juan e seu criado Leporello acabam vítimas de uma tempestade, indo parar numa ilha desconhecida. É ali que o incorrigível conquistador se envolve com mais duas beldades: as donzelas Mathurine [Marturina] e Charlotte [Carlota]. Leporelo, na ausência de Don Juan, intercede explicando às moças que o seu patrão “é um salafrário”, capaz de “casar com todas, com a humanidade inteira”.

Chega um cavaleiro e comunica a Don Juan que ele está sendo procurado por doze homens a cavalo. Ele despede-se rapidamente das mulheres como se estivesse falando a apenas uma, prometendo voltar para cumprir a palavra, após “resolver um assunto urgente”.

Acovardado, se disfarça de camponês e Leporelo de médico, e ambos vagueiam por uma floresta para se esconderem dos cavaleiros em seu encalço. A dupla pergunta o caminho a um medigo que os adverte da presença de assaltantes na região e pede uma esmola. Don Juan faz pouco do mendigo e no meio da zombaria a conversa é interrompida por uma cena em que um cavalheiro é atacado por três assaltantes. Don Juan decide intervir e com a sua chegada os três assaltantes fogem. O cavaleiro agredido agradece generosamente explicando que teria vindo com seu irmão e demais cavaleiros para vingar a honra de uma irmã “seduzida e raptada de um convento”.

Cinicamente Don Juan diz ao cavalheiro que conhece Don Juan e propõe auxiliá-lo na procura de tal malefeitor para que ele preste as devidas satisfações. Nesse interim aparece Don Alonso, irmão do cavalheiro atacado, e reconhece Don Juan. Quando todos estavam prestes a empreender o embate, Don Carlos, o cavalheiro salvo por Don Juan, pede magnanimidade e diz que defenderá seu salvador. Com isso consegue para Don Juan o adiamento de um dia no confronto.

Leporelo que havia se escondido ressurge do seu esconderijo e ambos entabulam nova conversa. Enquanto conversa, a dupla dá-se conta da existência próxima de de um mausoléu. Leporelo reconhece o túmulo do Comendador que havia sido morto por Don Juan, que fica muito interessado em conhecer o prédio. Leporelo tenta dessuadir o patrão de tal intento pois não parecia civilizado visitar uma pessoa que este havia matado.

Na visita se deparam com a estátua do Comendador e Don Juan, debochadamente, manda Leporelo convidá-la para jantar com ele. A estátua aceita para espanto de ambos que abandonam o local dissimuladamente para não parecerem covardes.

Já na sua residência recebe a visita de um fornecedor credor e habilmente o impede de entrar no assunto, despachando-o sem pagar a dívida.

Chega Don Luís, o pai de Don Juan que passa-lhe completa descompostura dizendo que a ternuna paterna havia esgotado os seus limítes: “Muito antes do que você imagina, saberei pôr um fim aos teus desregramentos, atraindo sobre tí a cólera do céu”.

O fidalgo recebe a inesperada visita de Dona Elvira, uma de suas incontáveis abandonadas, e suplica-lhe que se arrependa. Este tenta persuadí-la a pernoitar com a intenção de dar vasão as pequenas chamas de seus instintos que começaram a crepitar, mas esta recusa e vai embora.

Durante o jantar, batem à porta. Leporelo atende e retorna apavorado anunciando a presença da estátua do Comendador que convida Don Juan a cear com ela no dia seguinte. O fidalgo aceita e a Estátua parte recusando a tocha oferecida, alegando que “não precisa de luz quem é iluminado pelo céu”.

Já no quinto ato, Don Juan confessa hipocritamente ao pai que havia se convertido e pede ao pai que lhe indique uma pessoa que lhe sirva de guia para marchar seguro pela estrada que escolheu caminhar. O velho, comovido, dá graças aos Céus por ter sido atendido em sua preces, sem se dar conta que tudo não passava de hipocrisia do filho, cujas palavras saídas da boca não correspondiam às que estavam em seu cérebro. Tudo não passava de um “projeto político” para iludir os tolos.

Don Carlos encontra Don Juan e lhe pergunta se ele vai ou não casar com sua irmã Elvira. O libertino diz a Don Carlos que havia recebido diretamente do Céu o aviso para não fazê-lo. Leporelo, que ouviu a conversa, diz ao patrão que este novo estilo é “bem pior do que todos os outros”.

Na cena cinco do quinto ato aparece um espectro sob a forma de uma mulher velada e avisa a Don Juan que aquele é o “último instante para aproveitar a misericórdia divina”. Don Juan quer saber que está ali sob as vestes e, quando se aproxima, “o espectro transforma-se no tempo, com a foice na mão”. Don Juan puxa a espada e atravessa o espectro, que desaparece imediamente. Leporelo insiste em que ele se arrependa, mas o libertino está irredutível.

Don Juan sobrepõe o orgulho sobre qualquer arrependimento e prepara-se para partir, mas a Estátua o impede e lembra-lhe com comprimisso dele em jantar com ela. Don Juan aceita e a Estátua toma-lhe a mão e sob enorme espanto Don Juan vê-se consumido por um fogo invisível que o queima e sufoca. A terra se abre e traga-o para o abismo e enormes labaredas se levantam no lugar em que ele desapareceu.

Leporelo faz um retrospecto dos efeitos produzidos pelo patrão libertino que desaparecera e lastima pelo seu salário não recebido. Quem irá pagá-lo?

Comentários: José Monir Nasser relata que a história de Don Juan foi primeiramente contada por um padre espanhol, Tirso de Molina na peça “El burlador de Sevilha y convidado de piedra” ["O conquistador de Sevilha e o convidado de pedra"], escrita na Espanha entre 1629 e 1635. O teólogo, seguindo as disposições do Conselho de Trento, queria impressionar os fieis contando o destino implacável de um homem dissoluto e imoral incapaz de arrependimento sincero.

Surpreendentemente, o tema demonstrou grande fertilidade e, em torno dele, foram escritas dezenas de versões, sendo a de Molière, de 1665, provavelmente a mais importante e a mais conhecida. Mais de cem anos depois, o libretista italiano Lorenzo da Ponte escreveria uma versão operística da obra de Wolfgang Amadeus Mozart, que estreou o seu “Il dissoluto punito ossia Il Don Giovanni” [Libreto da ópera de Mozart] em 1787. Em 1821, Lord Byron também escreveria o poema épico “Don Juan”. Além deles, Corneille, E.T.A. Hoffamn, Pushkin, Glück e Richard Strauss, entre outros exploram o tema.

Portanto, a história sobre Don Juan foi contada muitas vezes por autores diferentes. O nome às vezes é modernamente e figurativamente usado como um sinônimo para sedutor (ou "playboy").

As visões acerca da lenda variam de acordo com as opiniões sobre o caráter de Don Juan, apresentado dentro de duas perspectivas básicas. De acordo com uns, era um mulherengo barato, concupiscente, cruel sedutor que buscava apenas a conquista e o sexo. Outros, porém, pretendem que ele efetivamente amava as mulheres que conquistava, e que era verdadeiramente capaz de encontrar a beleza interior da mulher. As versões primitivas da lenda sempre o retratam como no primeiro caso. Todavia, essa é uma visão muito estreita da obra. Ela quer nos contar muito mais que isso.

Interpretação da obra: Don Juan é a história de um libertino. Parafraseando o professor Monir, a primeira coisa a fazer para compreender o sentido da obra é não interpretar Don Juan do ponto de vista moderno, ou seja, do ponto de vista meramente sexual. Como o mundo moderno é um mundo associado a sexo, tendo neste ato sua atividade predominante, as pessoas acham que essa é a missão que o mundo lhes dá.

A segunda coisa a fazer é estabelecer o perfil de Don Juan e suas transgressões:

― Mata o Comendador, pai de Anna. (a figura do pai sempre simboliza o espírito)
― Seduz Dona Anna.
― Profana a sacralidade do Convento, seduzindo a freira Elvira.
― Profana a inocência, seduzindo as camponesas Carlota e Marturina.
― Profana a humildade e chantageia um pobre.
― Salva a vida de Don Carlos. O único ato nobre.
― Profana a honestidade, embromando o credor.
― Zomba do Céu quando Elvira aparece transformada.
― Zomba do Espírito quando destrata o pai após ser repreendido por ele.
― Expulsa o cobrador.
― Não se acovarda diante da Estátua do Comendador.

Assim, Don Juan, do começo ao fim da história só pratica atos maus, exceto quando salva a vida de Don Carlos, sendo o seu único ato nobre. É preciso considerar o valor desse ato na história toda: “salvar a vida”.

Don Juan recusa todos os valores transcendentes, mas ele não é ateu porque em nenhum momento diz que Deus não existe. Na verdade, ele é um rebelde metafísico que quer viver sua vida loucamente porque acha que, fazendo o que faz, será mais homem do que em outras circunstâncias. É a atitude do super-homem de Nietzsche.

Esse modo de proceder faz de Don Juan uma personagem nietzscheiana, desprovida de valores transcendentes, que faz tudo ao contrário do que mandam os valores morais e espirituais; que faz as coisas do jeito dele, independentemente das questões externas. É o homem de natureza prometeica nietzscheiana que julga ter a capacidade e autoridade sobre o próprio destino.

Don Juan tem consciência moral, representada por Leporelo que está ao lado dele o tempo todo dizendo a ele as coisas que estão erradas, mas ele quer desafiar a moralidade e tenta criar o homem prometeico – Leporelo é o duplo de Don Juan, uma espécie de consciência moral deste.
Consciência moral é aquela voz que diz para você que você está fazendo errado. Se você não ouve essa voz é um problema grave: ou você é santo ou então precisa urgentemente receber um tratamento de humanização. Se você não ouve essa voz, significa a perda da consciência moral. Não há nada mais desumanizante do que a perda da consciência moral.

Embora Don Juan tenha desafiado a moralidade o tempo todo, ele praticou um ato bom ao salvar a vida de Don Carlos. Este ato de bravura salvou a sua própria vida, pois todas as vezes que se praticam atos bons, o mundo responde positivamente. Foi o que aconteceu com Don Juan, vez que, em seguida Don Alonso o reconhece e se prepara para matá-lo, mas Don Carlos impede, concedendo-lhe mais um dia para enfrentarem-se em duelo.

A queda de Don Juan se dá pela densidade. Ele se torna tão pesado que a terra o traga. Essa densidade é representada pela Estátua de pedra que simboliza a matéria e destrói Don Juan. Portanto, é a densidade da matéria que destrói Don Juan. O contrário acontece com Dona Elvira. Enquanto Don Juan vai caindo, Dona Elvira vai se elevando, aumentando assim o distanciamento entre ambos.

Don Juan sabe que está fazendo errado, ele tem consciência moral, mas resolve desafiar essa autoridade para produzir uma existência humana independente de qualquer convivência superior. Ele faz isso com toda a consciência do mundo. Esta é a idéia central da obra de Molière.

Conclusão: A condição humana exige subordinação ao Céu. Quem não aceita esta condição cai na rebelião metafísica cujo destino é ser tragado para as profundezas do abismo onde reinam as trevas.

2 comentários:

Eduardo disse...

gostei do que vi por aqui! Se puder visite o meu blog. Um abraço!
http://pensamentosduneto.blogspot.com/

Cipri disse...

Prezado Mano;
Você como sempre, está à frente do seu e do nosso tempo.

Se pelo menos houvesse uns dois outros blogs desse naipe, o Brasil seria bem melhor.

Felicito-lhe pela bela iniciativa.

Cordialmente,

Carlos Augusto Cipriano