sexta-feira, 30 de outubro de 2009

MÊNON ou MENÃO

Título original: MENΩN
Autor: Platão (427-348/47 a.C.)
Tradução: Jorge Paleikat
Assunto: Filosofia
Editora: Globo
Edição: não consta
Ano: 1945
Páginas: Diálogos – Biblioteca dos Séculos (63-106)

O problema estudado neste diálogo é a Virtude. Platão examinara este tema em Protágoras, voltando a tratar dele, embora sob outro aspecto, no Górgias.

No Mênon, desde o preâmbulo, trata-se de saber se a virtude pode ou não ser ensinada. Parece que essa questão preocupou bastante os pensadores gregos da época de Platão. Esquines e Antístines se detém no exame desse mesmo problema.

Há algumas perguntas daquela época, são atuais até os dias de hoje: A virtude é suscetível de ser ensinada? Haverá, por acaso, uma “ciência” da virtude? Será que a virtude é um dom da natureza? As conclusões a que chegam as duas personagens deste diálogo, aparentemente parecem confirmar que a virtude não é suscetível de ensino, que não há uma “pedagogia” que lhe seja própria. Todavia, examinadas mais profundamente as cousas, não nos é possível tomar, com demasiado rigor essas conclusões. Verificamos, ainda neste diálogo, como em outros de Platão em que Sócrates é a figura central, que ele permite margem à dúvida. Dúvida na qual se originam novos problemas. Basta atentar no desfile de “definições” da virtude que Sócrates e Mênon apresentam. Passam diante de nós os mais diversos aspectos das virtudes, todos eles rejeitados, todos eles esboçando novos caminhos, à discussão do que é a virtude. Nisto consiste, talvez, a primeira lição de filosofia deste diálogo. Fica bem marcado aqui que a inquietação do saber é um dos caracteres fundamentais da filosofia.

Dom da natureza ou suscetível de ser aprendida, pouco importa. O que é certo é que a virtude existe. Existiu no passado, há de existir e existe no presente. Todavia, nem mesmo os sofistas que sempre se apresentaram como mestres de virtude, sobretudo de virtudes políticas, -- que outra cousa não são porém do que virtude oratórias destinadas ao preparo e formação de demagogos, -- podem dizer o que ela é. De que modo, pois, podemos nós procurar, investigar naquilo que não conhecemos? -- indaga o ingênuo Mênon. -- Há, porém, homens, homens honestos e justos, responde o velho Sócrates, que, honesta e utilmente, guiados pela justiça e pela santidade, conduzem suas existências. São virtuosos. Não os norteia uma “ciência”, nem eles andam à procura dela. Guia-os, a opinião verdadeira, uma espécie de retidão do espírito que, se não chega à certeza e à solidez da ciência, parece, todavia, produzir resultados práticos que se assemelham muito àqueles que derivam de uma ciência. Já neste ponto, bem se vê, no diálogo não se resolve o problema da virtude. Abre-se outro, não menos profundo e não menos belo do que aquele que a virtude, considerada como ciência, poderia propor.

Entretanto, como será possível o saber, a própria opinião verdadeira? É neste ponto do diálogo que Platão volta a apresentar a sua famosa teoria da reminiscência. O saber, a retidão do espírito são simplesmente reminiscência. E ensinar, saber interrogar é acordar, na alma daqueles que chamamos de ignorantes, as idéias que aí estavam adormecidas. É certo que, neste diálogo, a referência à teoria da reminiscência não é muito precisa e nem indica, de uma maneira adequada, a relação que as idéias mantém entre si. Há apenas uma referência muito rápida às condições da nossa vida anterior, ao problema da contemplação das idéias puras.

Recorrendo à teoria da reminiscência é possível a Sócrates demonstrar a Mênon que um escravo de sua comitiva é também capaz de encontrar, de descobrir, por si, um certo número de verdades relativas à geometria. A opinião verdadeira, assim como a ciência, são uma vaga recordação das Verdades Eternas que um dia a nossa alma contemplou. Ciência e opinião verdadeira derivam dessa recordação. Uma vez ainda, cremos, Platão utiliza o mito para contornar uma dificuldade e para ilustrar o seu pensamento. A reminiscência, resíduo de pitagorismo na filosofia platônica, tem neste diálogo apenas o valor de símbolo de uma realidade que não pode ser demonstrada: é simplesmente uma hipótese instrutiva e útil. “Aqueles que pagaram a Perséfone o devido tributo, ela envia, por nove anos, no salto do sol. E dessas almas se elevam reis ilustres, homens poderosos pela força e pelo saber que são honrados como heróis pelos mortais”. É nesta imagem poética de Pindaro que Sócrates resume o complicado problema da reminiscência neste diálogo. É mister não esquecer que a doutrina da reminiscência passa, como outras que a fantasia de Platão criou, por várias vicissitudes em toda a sua longa obra filosófica. Acusaram-no, por isso, de contradição. Como se os sistemas filosóficos não se apresentassem, freqüentemente, como tecidos de ricas e fecundas contradições!

As personagens do diálogo são quatro. Mênon, que dá seu nome ao diálogo, é um rico habitante de Larissa, na Tessália. Da nobre família dos Aleudes, que tiveram a triste honra de ser “hospedes do Grande-Rei”, Mênon viaja para se instruir. Fora discípulo do sofista Górgias quando este andara pela Tessália e dedica-se, por simples gosto, à matemática ou, mais exatamente, à geometria. É perceptível, principalmente no início do diálogo, o vício de sua formação sofística. Mênon revela uma indisfarçável tendência para a eloqüência. Não denota, porém, aquela empáfia tão característica dos maus sofistas. Ao contrário, como se verá no diálogo, ouve atentamente as palavras de Sócrates e não tenta, salvo por duas vezes, de modo aliás bastante ingênuo, embasbacar com a superficial ciência que aprendera com os sofistas o velho dialético que é Sócrates.

Sócrates apresenta-se ainda neste diálogo cheio de ironia, refutador terrível das idéias feitas no mercado dos sofistas. É bem a tremelga que enfeitiça os que dela se aproximam, a que se refere Mênon em um dos trechos do diálogo. Rebatendo idéias falsas, iluminando o espírito e abrindo novos caminhos no raciocínio, leva os seus interlocutores a praticar a maiêutica, a trazer à luz não somente novas verdades, mas ainda se revelarem tais como são. É a sua arte que enfurece Anito e que encanta Mênon. Revelando novos caminhos à inteligência, Sócrates mostra que certas verdades que ele ajuda a partejar encerram, por sua vez, novas dúvidas que são, por sua vez, novas condições para que prossiga sempre o esforço da eterna busca que caracteriza a filosofia. Porque esta, será sempre assim, eterna e inquieta investigação do que é o mundo e o homem. Para que progrida é mister haver insatisfação, é preciso que o homem não se satisfaça no limitado redil dos sistemas e nos dogmatismos. Eterna representação de problemas, a filosofia não se dá bem com o acabado e o definitivo.

A terceira personagem deste diálogo é um escravo. E os escravos não costumam deixar os seus nomes na história: são simplesmente escravos. Um ou outro distinguiu-se e a história, espantada, anotou o seu nome. Sabemos apenas que o escravo de Mênon era grego e que fora criado em casa deste rico e nobre discípulo dos sofistas. É fácil perceber que Sócrates simpatiza com ele. “Se interrogarmos freqüentemente o escravo, diz Sócrates a Mênon, e de várias maneiras, tu podes estar certo, Mênon, que ele acabará tendo consciência tão exata quanto aquela de um homem de sociedade” .

Personagem tenebrosa, agourenta é a última figura do diálogo: Anito. Político fanático, pouco lhe interessam as discussões sobre a virtude. Virtude ele só a vê nos chefes do povo. Desdenha os intelectuais, os agitadores de idéias. Os sofistas são perturbadores da tradição, fermentos da dissolução das sociedades e por isso Anito os odeia e especialmente a Sócrates que o irrita e a quem, ao findar o diálogo, ameaça e previne. Nas poucas mas vivas e dramáticas páginas em que Platão retrata a tenebrosa figura de Anito, do político que se satisfaz apenas com o prazer do poderio, há um exemplo digno da meditação dos contemporâneos. Nos políticos medíocres, em que a habilidade passa, infelizmente, como índice de inteligência, há um indisfarçável ódio contra a inteligência verdadeira, que é sincera, honesta e justa. Os que, como Anito, apenas desejam o poder pelo prazer de exercê-lo, não amam a filosofia. Desdenham dela para mais fácilmente escarnecer e esmagar a Liberdade.

Pouco se sabe sobre a data em que foi escrito o diálogo. Pensam alguns autores que ele foi redigido, mais ou menos, ao findar a guerra do Peloponeso. Outros pesquisadores apontam para o ano 402 a.C., três anos antes da morte de Sócrates. A verdade é que nunca saberemos. O que este pequeno diálogo de Platão nos abre, na sua simplicidade, é, porém, uma interessante perspectiva para a compreensão de sua filosofia. É um dos mais fáceis e é o que melhor nos dirige para a compreensão da filosofia platônica.

Um comentário:

Sarah disse...

Muito interessante e também muito útil para mim...Parabéns e obrigada pela ajuda...Seu artigo clariou muito minha compreenção a respeito dessa obra de Platão.