quarta-feira, 1 de outubro de 2014

DIDASCÁLICON Da arte de ler



Título original: Didascalicon de Studio Legendi
Autor: Hugo de São Vitor (1096-1141)
Tradução: Antonio Marchionni
Editora: Vozes
Assunto: Ensaio Filosófico (Filosofia Medieval)
Edição: 1ª
Ano: 2001
Páginas: 294

Sinopse: Um mergulho na cultura da Idade Média: este é o Didascálicon da arte de ler, um dos livros medievais mais lidos nos tempos atuais. Por ele, o leitor sintoniza-se como o universo de pensamentos humanos e divinos, que habitavam as escolas e as mentes estudantis do século XII. Este escrito do Mestre Hugo de São Vitor, pequena enciclopédia do saber e da sabedoria da época, emana e mantém um frescor, que conforta e vivifica o homem moderno.

Paris vê chegar, no começo de 1100, onda de jovens vindos de todos os cantos de uma Europa finalmente pacificada, que vivia um novo florescimento das cidades, após as invasões bárbaras dos séculos V a VIII e após o período feudal e dos séculos IX e X.

Era um momento cultural único, quando o papel vindo da China, o velino em pergaminhos finos, a tinta dos árabes, a minúscula carolíngia, a adoção da escrita em itálico e a caneta com ponta de feltro facilitavam nas oficinas dos copistas a compilação de livros, que eram encomendados por bibliotecas, juristas, mercadores e senhores. Este florescer do século XII em artes e escolas marca, segundo o pedagogo Ivan Illich, o advento da “cultura livresca”, que vem até os nossos dias, quando o livro está sendo substituído pelo vídeo.

Hugo de São Vitor é um dos atores desta “revolução cultural do século XII”. Havia na França três escolas renomadas: a de Chartres, a de Notre-Dame e, a mais famosa, a da Abadia de São Vitor, na margem esquerda do Sena. Delas nascerá, em 1215, a Universidade de Paris. Hugo encarna o espírito da Escola de São Vitor e era conhecido pelos estudantes como filósofo, teólogo, exegeta, místico, gramático.

Vendo tantos jovens desejosos de estudar, o Mestre Hugo quis oferecer-lhes uma introdução ao saber, um livro que apresentasse as várias disciplinas e auxiliasse o estudante a montar o seu próprio itinerário intelectual. Nasce assim, em 1127, o Didascálicon da arte de ler, resumo dos saberes seculares e divinos da época e exortação acerca do que ler, como ler, em qual ordem ler.

Trata-se, na história, do primeiro livro endereçado aos estudantes. Pela primeira vez na história as “ciências mecânicas”, isto é, o trabalho manual, passam a fazer parte da reflexão filosófica. Atento ao desenvolvimento histórico dos homens, Hugo conjuga material e espiritual, tradição e novidade, corpo e alma, temporal e eterno, Ciência e Sapiência.

Era este o ar existencial e sublime que se respirava nas escolas, ruas e cantinas estudantis de Paris. Esta é a brisa que o livro traz aos leitor de hoje, quase uma saudade da casa.

Sobre o autor: Hugo de São Vitor nasceu na Saxônia, que hoje faz parte do território da Alemanha, no ano de 1096. Ainda jovem sentiu a vocação religiosa e mudou-se para Paris com a intenção de ingressar no Mosteiro de São Vitor, no qual residiu até a sua morte em 1141. Ele viveu, portanto, na primeira metade do século dos anos 1100.

A época em que viveu Hugo de São Vitor foi uma das mais importantes da história da civilização ocidental, pois foi nela que começaram a se organizar as nações que hoje fazem parte da Europa.

Mil e cem anos antes da época de Hugo, quando nasceu Jesus Cristo, não existiam Inglaterra, França, Alemanha, Portugal nem tantos outros países da Europa. Na época de Cristo a Europa, o norte da África e o Oriente Médio constituíam um todo conhecido como Império Romano. A ausência de fronteiras e as facilidades de comunicação dentro de um império tão grande muito auxiliou para que o cristianismo se propagasse mais facilmente por todo o mundo civilizado daquele tempo.

Entretanto, a partir dos anos 400 e durante vários séculos que se seguiram, muitas hordas de bárbaros provenientes da Europa Oriental e do interior da Ásia passaram a invadir o território do Império Romano que acabou aos poucos se esfacelando. Embora tivesse havido algumas épocas de calma, as invasões e as desordens que resultaram delas só puderam começar a ser definitivamente controladas, possibilitando a organização daquelas que são as atuais nações da Europa, na época de Hugo de São Vitor. Entre o ano 1100, próximo ao nascimento de Hugo, e o ano 1300, próximo à morte de Santo Tomás de Aquino, houve um extraordinário renascimento da civilização na Europa em todos os aspectos, incluindo a vida religiosa, a teologia e a educação. Pertencem a este período da história as vidas de São Francisco de Assis e de São Domingos.

No início deste período, no ano 1100, São Vitor era o nome de uma capelinha situada nos arredores de Paris e freqüentada por pessoas que vinham, longe do tumulto da cidade, consagrar algum tempo à meditação e à oração. Em 1108, com o fim de melhor poder dedicar-se às coisas de Deus, um sacerdote professor da escola anexa à Catedral de Notre Dame, chamado Guilherme de Champeaux, transferiu-se para lá junto com vários de seus alunos. Mesmo residindo em São Vítor, Guilherme continuou sendo procurado, não só pelo seu exemplo, como também pelos seus ensinamentos, que não deixou de ministrar. Assim surgiu ali o mosteiro de São Vítor.

Quando Hugo pediu para ser admitido no mosteiro de São Vitor, Guilherme já não residia mais nele. Tinha sido promovido a bispo e havia deixado outros em seu lugar, encarregados do governo do mosteiro. Algum tempo depois a tarefa de organizar a escola de Teologia anexa ao mosteiro seria confiada a Hugo de São Vitor.

Raras vezes na história humana uma escolha pôde ter sido tão feliz. No mosteiro organizava-se uma grande biblioteca que daria acesso a Hugo ao que de melhor havia sido escrito pela tradição cristã. A fama de São Vitor já havia atravessado as fronteiras e espalhava-se por toda a Europa; ela trazia ao mosteiro, de todas as partes, estudantes de notável talento, como tinha sido o caso do próprio Hugo, que para lá se tinha dirigido proveniente do Sacro Império Germânico, de Ricardo de São Vitor, que ali chegou proveniente da Escócia, e de Pedro Lombardo, que vinha do norte da Itália encaminhado por São Bernardo. Já é coisa rara que um talento da envergadura de Hugo, homem de inteligência brilhante, santidade manifesta e notável vocação docente se veja diante de tantos e tão excelentes recursos materiais e humanos; mais raro ainda é que alguém nestas condições se veja encarregado de, além de ensinar, organizar também a escola. Esta tarefa suplementar obrigou Hugo adicionalmente a explicar aos alunos como se deveria estudar, aos professores como se deveria ensinar e à escola como se deveria organizar, e isto não para obter algum diploma, que naquela época ainda de nada valiam, mas para, a partir de um sólido conhecimento das Sagradas Escrituras e das obras dos Santos Padres, empreenderem a busca da santidade. O conjunto da obra de Hugo de São Vitor mostra que ele elaborou um sistema de Pedagogia em que o estudo de torna um instrumento de ascese em perfeita consonância com os ensinamentos do Novo Testamento a respeito da fé, da graça e da oração, da necessidade da graça para a prática das virtudes e dos frutos que se esperam do desenvolvimento da vida espiritual.

Hugo de São Vítor mostrou, em suma, como se organiza o estudo, o ensino e a escola para que, sem deixar de ser uma escola, nem perder nenhuma das características que tradicionalmente se atribuem a uma escola, ela tenha como meta a santidade. Esta meta não é algo acrescentado ou justaposto ao que já seria a escola, mas é aquilo que dita a própria essência de sua organização e de seus métodos.

Hugo mostrou ainda que se isto pode ser possível, é porque esta é a verdadeira e legítima finalidade da escola. São as outras escolas, e não esta, que representam um desvio do verdadeiro ideal do ensino.

3 comentários:

Alexandre Alexandre disse...

Olá...
Estou a procura desse livro já a algum tempo e não o encontro em lugar algum.
Poderia me ajudar se possível dizendo onde posso encontra este livro ?

Obrigado fico no aguardo

Salve Maria !

Anatoli. disse...

Alexandre:
Só há um caminho: Sebos. É preciso ter paciência e persistência. As vezes o livro aparece e logo desparece. Ficar atento e persistente é o caminho.

Anatoli. disse...

Alexandre:
O livro acaba de ser publicado pela VIDE Editorial. Acesse pelo link http://goo.gl/Bk0iGP .