segunda-feira, 1 de abril de 2013

NO CAMINHO DE SWANN

Título original: Du cotê de chez Swann
Autor: Marcel Proust (1871-1922)
Tradutor: Mário Quintana
Assunto: Romance
Editora: Globo
Edição: 3ª
Ano: 2006
Páginas: 558


Sinopse: Os sete volumes da obra 'Em busca do tempo perdido' constituem um emaranhado complexo de personagens, cenas, detalhes que reaparecerão muito depois e somente aí adquirem seu real significado, articulados pela memória que, ativada por circunstâncias fortuitas, medita livre por diferentes campos, sendo as artes um dos mais freqüentados. Este primeiro volume também procura exemplificar isso, pois Swann, um das principais personagens, é um refinado aristocrata conhecedor de literatura, colecionador de objetos de arte e freqüente nos salões parisienses. O narrador o conheceu quando criança em Combray, cidadezinha imaginária onde ele passava as férias de Páscoa. No segundo, o narrador, já adolescente, desistindo do amor de Gilberte, filha de Swann, parte com a avó em viagem de férias para a fictícia praia de Balbec, com imaginárias ruínas antigas, em seu périplo de conhecimento da arte e de si. Assim, cada volume e todos se transformam em complexo programa de formação estética e humanística. Neste volume, Proust se dedica principalmente à narração de sua infância e adolescência.

Excertos do prefácio: “Abrimos as primeiras páginas do primeiro volume e somos convidados a entrar pelo Caminho de Swann.

Neste primeiro volume, vamos conhecer a cidadezinha fictícia chamada ‘Combray’, lugar em que o herói do livro vem passar as férias de Páscoa com os pais, quando criança. Ali, eles recebiam a visita de Swann, homem muito fino, colecionador de obras de arte, leitor cultivado, freqüentador dos principais salões de Paris.

A Combray de Proust é a pequenina cidade de passado medieval que ainda mantém contato com os campos e sítios ao seu redor. Para chegar até eles, há dois caminhos possíveis: saindo pela porta da frente da casa, toma-se o de Méséglise, caminho mais curto, que passa pela propriedade de Swann; saindo pelo portão dos fundos, alcança-se o longo caminho de Guermantes, trilha fluvial que vai dar no castelo dessa família, Entrar pelo caminho de Swann é simplesmente tomar uma dessas opções de percurso que se oferecem ao caminhante. O caminho de Swann é, nesse primeiro sentido, apenas uma referência espacial com a qual se designa o itinerário a ser feito.

Já ou outro significado desse título envolve a própria história da criança que vem com os pais em visita à cidade de Combray e que, muito mais tarde, vai se tornar o narrador do livro que estamos lendo. Para ele, percorrer o caminho de Swann é percorrer o mesmo trajeto da personagem Swann, experimentar as mesmas dores no amor, o ciúme, o contato com a arte e compreender como Swann pôde lidar com tudo isso. Em busca do tempo perdido começa, assim, como no início de uma caminhada, de uma longa caminhada de leitura do sentido da vida.” (p. 8)

Resenha: O prof. José Monir Nasser nesta resenha diz que Samuel Beckett (1906-1989) escreveu no ensaio Proust [1] dizia que para compreender a obra do escritor francês é preciso começar pelo tempo, “este monstro de duas cabeças, salvação e danação”. Mais ainda, Beckett afirma que “as criaturas de Proust são, portanto, vítimas desta circunstância e condição permanente: o tempo”. De fato, a obra magna de Marcel Proust (1871-1922), escrita em sete volumes, entre 1909 e o último dia da sua vida, chama-se Em Busca do Tempo Perdido (À la recherche du temps perdu).

O tempo submete tudo, porque a vida humana é composta de fragmentos, de experiências estanques a que a nossa mente dá a aparência de continuidade, criando um passado presente (aquilo que já passou) e um futuro presente (aquilo que esperamos que aconteça), que se fundem com o presente presente. A impressão é de uma linha contínua, conjugando aquilo que aconteceu, aquilo que está acontecendo e o que pode acontecer.

Mas como a experiência humana é fragmentada e só adquire unidade pela intervenção da mente, as partes tendem a se perder, a se tornar indisponíveis. Não temos acesso a tudo o que aconteceu na nossa vida. Tudo foge (tempus fugit) e se dilui pela própria passagem. Este é o tempo perdido que Proust procura sistematicamente no fundo da consciência latente, para ele, a única coisa real. Ou seja, está tudo lá, mas como não conseguimos manter nossa atenção focada em tudo ao mesmo tempo, percebemos apenas recortes da totalidade da nossa experiência. Como resultado, não conhecemos nosso “eu” profundo, embora saibamos o que queremos que os outros pensem sobre nós, em outras palavras, conhecemos apenas nosso “eu” social.

Como antídoto a essa fuga incontrolável dos fragmentos de memória que escapam sistematicamente à consciência, Proust erige o edifício imenso da recordação, mas cuidado! Proust só confia na recordação espontânea. Explica Beckett: “A memória voluntária, Proust repete ad nauseam, não tem valor como instrumento de evocação e provê uma imagem tão distante da real quanto o mito de nossa imaginação ou a caricatura fornecida pela percepção direta”. Proust só acredita no poder de invocação dos sentidos. Daí a famosa passagem de No Caminho de Swann, em que a infância volta plena à lembrança, quando o narrador mergulha uma madalena em sua xícara de chá: “E de súbito a lembrança me apareceu. Aquele gosto era o do pedaço de madalena que nos domingos de manhã em Combray (pois nos domingos eu não saía antes da hora da missa) minha tia Léonie me oferecia, depois de tê-lo mergulhado em seu chá da Índia ou de tília, quando ia cumprimentá-la em seu quarto”.

Para Proust, qualquer estímulo, como um trecho de uma sonata, a visão de uma paisagem, determinado odor ou certa expressão, produzirá a recuperação do tempo perdido. Quem nunca foi transportado de volta à infância pelo reencontro com o sabor antigo de uma fruta, pelo aroma de um café recém-passado ou por um perfume sugestivo? Para Proust, os sentidos reconstroem a totalidade da experiência, remetendo-nos para os mundos perdidos durante a passagem implacável do tempo.

Proust despreza as memórias voluntárias porque teme que as memórias inventadas, intermediadas pela mente, portas abertas para nosso eu “social”, aquele que reflete o que o mundo pensa de nós, ocupem todo o espaço no lugar do que realmente importa. Proust teme que este “eu” utilitário, usado socialmente, possa usurpar os direitos do verdadeiro “eu”, como uma personagem que tomasse de assalto a personalidade do ator Lawrence Olivier deixando de ser Lawrence Olivier e passando a ser Hamlet para sempre...

A catedral de Em Busca do Tempo Perdido já está delineada na obra No Caminho de Swann, primeiro dos sete volumes. Publicado em 1913, com recursos próprios do autor, No Caminho de Swann expõe o método proustiano da recordação e apresenta as principais personagens que voltam à memória do narrador. Em especial, conta a história do amor de Charles Swann e Odette de Clécy, única trama em toda a obra que não envolve o narrador diretamente.

O tempo, este monstro de duas cabeças, é simultaneamente danação e redenção. É danação porque nos aprisiona dentro dele. Somos escravos do ontem, porque o ontem nos deformou de alguma maneira. Por outro lado, pela recuperação do tempo, descobrimos nosso “eu” real, e aí está o maior exercício espiritual de todos.

Sobre o autor: Valentin Louis Georges Eugène Marcel Proust (Auteuil, 10 de Julho de 1871 — Paris, 18 de Novembro de 1922) foi um escritor francês, mais conhecido pela sua obra À la recherche du temps perdu (Em Busca do Tempo Perdido), que foi publicada em sete partes entre 1913 e 1927.

Filho de Adrien Proust, um célebre professor de medicina, e Jeanne Weil, alsaciana de origem judaica, Marcel Proust nasceu numa família rica que lhe assegurou uma vida tranquila e lhe permitiu frequentar os salões da alta sociedade da época.

Após estudos no Liceu Condorcet, prestou serviço militar em 1889. Devolvido à vida civil, assistiu na École Libre des Sciences Politiques aos cursos de Albert Sorel e Anatole Leroy-Beaulieu; e na Sorbonne os de Henri Bergson (1859-1941) cuja influência sobre a sua obra será essencial.

Após a morte dos seus pais, a sua saúde já frágil deteriorou-se mais. Ele passou a viver recluso e a esgotar-se no trabalho. A sua obra principal, Em Busca do Tempo Perdido (À la Recherche du Temps Perdu), foi publicada entre 1913 e 1927, o primeiro volume editado à custa do autor na pequena editora Grasset ainda que muito rapidamente as edições Gallimard recuaram na sua recusa e aceitaram o segundo volume À Sombra das Raparigas em Flor pela qual recebeu em 1919 o prêmio Goncourt.

Trabalhou sem repouso à escrita dos seis livros seguintes de Em Busca do Tempo Perdido, até 1922. Faleceu esgotado, acometido por uma bronquite mal cuidada.


[1] BECKETT, Samuel. Proust. Tradução de Arthur Nestrovski. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

2 comentários:

Ruan Guilherme disse...

Olá Sr. Anatoli,

Sempre que eu estou em dúvida sobre qual livro ler,venho até o seu blog e leio as críticas literárias que você faz e,através dela,consigo encontrar um livro sobre o tema que eu busco.São excelentes as suas análises.

Eu tenho apenas 18 anos e me interesso muito pela literatura,história,religiões,filosofia etc.Tenho uma dúvida que há anos eu não consigo resolver: por onde devo começar os estudos literários?

Uma resposta remota e mal feita a qual eu consegui chegar,depois de ler muito Mortimer Adler e textos do Olavo de Carvalho sobre educação,foi que devo começar do começo ou seja,primeiramente estudar toda a literatura grega e romana.Entretanto aí tem um problema para mim: para ler Homero é necessário o conhecimento perfeito de um dialeto obsoleto já na Antiguidade,de uma língua morta,é necessário ter o hábito de sentir uma métrica que tem hoje outro ritmo,a capacidade de entender o sentido autêntico de uma linguagem metafórica.
Initium dimidium facit, disseram os romanos; o início é metade da façanha.Por onde eu devo começar?

Lembre que quem aqui lhe escreve,é um jovem que estudou em escola pública,e portanto,sofreu incansavelmente com a decadência do ensino brasileiro e também com o criminoso MEC.
O entendimento da natureza humana foi em mim esquecido,a par com a perda de um sentido do sagrado e de uma ligação com o Princípio Divino. Estes aspectos essenciais para o bem neste mundo e para o benefício dos seus fins últimos nunca foram comunicados nem compreendidos por mim.

Ao longo do acaminho que eu quero trilhar,enseio subir a montanha da sabedoria e alcançar o seu cume,a Verdade,uma das dificuldades que surge com maior frequência é a constante tendência para a dispersão.Esta tendência pode surgir manifestada nos próprios hábitos de leitura e pela preferência dada a obras de grande complexidade,muitas vezes sem grande profundidade,nas quais o desafio intelectual que é a sua compreensão e a informação obtida pela sua leitura,se confundem com aquilo que verdadeiramente importa.Tornamo-nos numa espécie de idólatras do conhecimento.É bem sabido que conhecimento não é sabedoria;e é esta última é o objetivo da minha caminhada.

Anatoli. disse...

Caro Ruan:
Siga o prof. Olavo. Ele é o mestre e sabe o que diz. Apague da sua mente essa história de língua morta.