terça-feira, 14 de junho de 2011

O LOBO DA ESTEPE

Título original: Der Steppenwolf
Autor: Hermann Hesse (1877-1962)
Tradução: Ivo Barroso
Editora: Record
Assunto: Romance
Edição: 35ª
Ano: 2010
Páginas: 238

Sinopse: 'O Lobo da Estepe' foi escrito em 1927 quando Hesse tinha 50 anos, como seu personagem, e estava influenciado pela psicanálise.

A primeira parte do livro é o pesadelo do lobo Harry Haller, sua depressão e sua incapacidade de se comunicar, que está na base da crueldade e da autodestruição. Na segunda parte, Harry se humaniza através da entrada de Hermínia, que tenta reaproximá-lo do mundo, neste caso, uma comunidade simplória, com salas de baile poeirentas e bares pobres.

Enredo: “Era uma vez um certo Harry. (...) Andava sobre duas pernas, usava roupas e era um homem, mas não obstante era também um lobo da estepe. Havia aprendido uma boa parte de tudo quanto as pessoas de BM entendimento podem aprender, e era bastante ponderado. O que não havia aprendido, entretanto, era o seguinte: estar contente consigo e com sua própria vida (...) nele o homem e o lobo não caminhavam juntos, nem sequer se ajudavam mutuamente, mas permaneciam em contínua e mortal inimizade e um vivia apenas para causar dando ao outro, e, quando há dois inimigos mortais num mesmo sangue e na mesma alma, então a vida é uma desgraça. Bem, cada qual tem o seu fardo.

O livro conta a história de Harry Haller, um misantropo de cinqüenta anos, alcoólatra e intelectualizado, angustiado e que não vê saída para sua tormentosa condição, autodenominando-se “lobo da estepe”. Mas alguns incidentes inesperados e fantásticos o conduzem lenta porém decisivamente ao despertar de seu longo sono: conhece Hermínia, Maria e o músico Pablo. E então a história se desenvolve de forma surpreendente.

O erudito Harry Haller vive o tempo toda a tensão entre a vida sublime de seus grandes poetas e músicos - Goethe e Mozart, mormente, com os quais inclusive tem encontros imaginários. A vida da alta cultura, do espírito, dos Imortais, e a vida das profundezas da superficialidade, do sensual, da carne, a que é conduzido por Hermínia, mulher da noite que conhece em um bar e alter ego de um amigo de infância que muito o impressionou. Vive, portanto, atraído por dois pólos magnéticos opostos, um representado pela vida noturna, pelo álcool, pelos cigarros, pelo jazz, pelas meretrizes e pelo despertar ao meio dia; o outro pela vida ascética, diurna, tranqüila, de jardins bem cuidados da família vizinha que admira logo no primeiro capítulo como alguém que sente nostalgia por um paraíso perdido.

Porém, para além da dupla personalidade, Haller descobre ter mil almas, que além dos dois pólos pelos quais se sente atraído, uma infinidade de pulsões interiores e exteriores atua sobre o seu ser, engendrando múltiplas personalidades, mal contidas pela frágil unidade de seu ego. Mas Haller admite no delírio final do romance a coordenação das mil almas, mil personalidades em torno de um eixo central que dá unidade à pluralidade de personas.

O Lobo da estepe é um romance que narra a desintegração da personalidade num homem maduro, ou quiçá o fracasso ou a resignação ante a impossibilidade de formação de uma personalidade coesa e sólida na voragem de um tempo de transmutação de valores, de fragmentação e velocidade. Haller vive entre as trevas e a luz, o sensual e o espiritual, o moderno e a tradição, o profano e o sagrado, numa interminável e aguda crise. Não é feliz. A certa altura, no clímax de uma sensual festa de máscaras, imerso na multidão, já desfigurado, sem passado, sem face, sem personalidade, sente seu ego, sua individualidade dissolvida na unio mystica da alegria. Harry Haller experimenta uma espécie de transcendência espiritual às avessas.

O livro parece deixar uma conclusão pessimista quanto à possibilidade de formação da unidade pessoal. Mas Hesse, em nota de 1961 para uma reedição do romance, diz que não descarta no romance a esperança oculta de uma síntese transcendente, que integre o santo e o libertino, o que parece estar prefigurado na demonstração da unidade oculta das mil almas no capítulo final da obra.

Nota do autor (1961): Os escritos poéticos podem ser compreendidos e incompreendidos de muitas maneiras. Na maior parte dos casos o autor não constitui a autoridade mais indicada para decidir até que ponto o leitor compreende e onde começa a incompreensão. Não são poucos aqueles a cujos leitores sua obra pareceria muito mais clara do que a eles próprios. Além do mais, as incompreensões até que podem ser frutíferas sob certas circunstâncias.
Hermann Hesse em 1927
Contudo parece-me que de todas as minhas obras, O Lobo da Estepe é a que vem sendo mais freqüente e violentamente incompreendida, e o curioso é que, em geral, a incompreensão parte dos leitores mais entusiastas e satisfeitos com o livro do que dos leitores que o rejeitaram. Em parte, mas só em parte, isso pode ocorrer com tal freqüência em razão de este livro, escrito quando eu tinha cinqüenta anos e tratando, como trata, de problemas peculiares a essa idade, cair não raro em mão de leitores muito jovens.

Mas, entre os leitores da minha própria idade, também tenho encontrado com freqüência alguns que – embora bem impressionados com o livro – só percebem estranhamente apenas uma parte do que pretendi. Tais leitores, ao que me parece, reconheceram-se no Lobo da Estepe, identificaram-se com ele, sofreram suas dores e sonharam os seus sonhos; mas não deram o devido valor ao fato de que este livro fala e trata também de outras coisas, além de Harry Haller e de seus problemas, que fala a propósito de um outro mundo mais elevado e indestrutível, muito acima daquele em que transcorre a problemática da vida de meu personagem. O Tratado do Lobo da Estepe e outros trechos do livro que versam questões do espírito abordam assuntos de arte e mencionam os “imortais”, opõem-se ao mundo sofredor do Lobo da Estepe com a afirmativa de um mundo de fé, sereno, multipersonalístico e atemporal. O livro trata, sem dúvida alguma, de sofrimentos e necessidades, mas mesmo assim não é o livro de um homem em desespero, mas o de um homem que crê.

É claro que não posso nem pretendo dizer aos meus leitores como devem entender a minha história. Que cada um nele encontre aquilo que lhe seja de alguma utilidade! Mas eu me sentiria contente se alguns desses leitores pudessem perceber que a história do Lobo da Estepe, embora retrate enfermidade e crise, não conduz à destruição e à morte, mas, ao contrário, a redenção.

Comentário do tradutor: Diz o tradutor no prefácio que O lobo da estepe é um livro que não se lê inocuamente ou por mera distração, porque é um livro que mexe, que altera, que subverte a estrutura psíquica do leitor. Recomenda aqueles que já o leram em outras fases da vida que façam a releitura para descobrirem nas sutilezas de sua trama, na profundidade de suas cogitações, no intrincado de sua simbologia, outras revelações que a experiência da vida ou a apuração da sensibilidade literária lhes fará reconhecer.



Recomendação ao leitor: Ler a trilogia de Hermann Hesse, preferencialmente, na seguinte seqüência: 1º) “Demian”; 2º) “O lobo da estepe”; 3º) “O jogo das contas de vidro”. (AOliynik)

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4 comentários:

davi07 disse...

Olá Anatoli. Amo o seu blog e os seus preciosos comentarios. Desculpe estar comentando neste topico mas o que quero dizer é sobre as maiores obras da humanidade. Creio que a obra dostoievskiana é superior à goethiana, mas gostaria de saber a sua opniao sobre a obra dostoievskiana. Parabens pelo grande trabalho.
Davi

Anatoli. disse...

Caro Davi:
Confesso que não foi fácil para mim deixar de incluir uma das obras de Fiodor Dostoiévsk. O meu objetivo foi o de indicar três obras considerando a essência e a repercussão exercida sobre a humanidade. E aí, então, não poderia deixar Goethe de lado.
Mas acredite, se fosse indicar quatro, Dostoiévski estaria entre elas.
Agradeço pelos elogios e pela sua participação neste blog. É sempre uma alegria receber pessoas cultas e de bom gosto. Retorne outras vezes!

davi07 disse...

Todos os dias estou aqui para receber preci(o)sas informações sobre as grandes obras da literatura. Parabens pelo excelente trabalho !

Lucio Baena de Melo disse...

Anatoli, brilhante como sempre.
Iniciei um blog... Longe de alcança´-lo. Se puder acompanhar agradeço.
Lucio
luciobaena.blogspot.com