sexta-feira, 8 de outubro de 2010

CERVANTES

Título original: Cervantès
Autor: Jean Canavaggio
Tradução: Rubia Prates Goldoni
Editora: Editora 34
Assunto: Biografias
Edição: 1ª
Ano: 2005
Páginas: 384

Sinopse: Soldado na famosa batalha de Lepanto, onde perdeu a mão esquerda; cativo dos berberes em Argel, e de seus compatriotas na famigerada prisão de Sevilha, a vida de Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616), autor do Quixote, é solo fértil para um sem-número de lendas e mitos. Neste livro, o professor Jean Canavaggio levanta minuciosamente toda a documentação acerca do escritor, sobretudo a contribuição monumental, mas por vezes fantasiosa, do grande cervantista Astrana Marín, distinguindo criteriosamente o fato da ficção.

Combinando rigor acadêmico e talento narrativo, Canavaggio acompanha toda a trajetória de Cervantes, dando novo sentido não só a passagens já conhecidas, mas também a aspectos controversos — como os dois assassinatos em que seu nome esteve envolvido; os amores ilícitos das mulheres de sua família, sempre às voltas com fidalgotes da corte; sua paixão pelo jogo de cartas — e outros apenas hipotéticos, como um possível encontro com Shakespeare, em 1605, ou sua presença numa célebre pintura de El Greco.

O resultado é um estudo impecável, que equilibra história, literatura e biografia para traçar, além de uma rica análise de sua obra, o retrato de um Cervantes de carne e osso e um quadro extremamente vivo do fascinante Século de Ouro espanhol.

Comentários: Em 1605, há exatamente quatrocentos e cinco anos, Miguel de Cervantes Saavedra presenteava o mundo com a primeira parte do seu D. Quixote. De lá para cá, muita tinta correu sobre este que é considerado o primeiro – e talvez o maior – romance moderno, na tentativa de entender o encanto e o poder desse livro. A dupla formada pelo Cavaleiro da Triste Figura e seu Fiel Escudeiro deixou de andar apenas pelos campos de Espanha para percorrer cada região do planeta. Sobre as andanças de seu autor, entretanto, pouco se sabe, de modo que ao longo dos séculos a vida de Cervantes se tornou tão lendária quanto a de suas personagens.
Assim, desde os trabalhos inaugurais de Gregorio Mayans y Ciscar e Juan Antonio Pellicer no século XVIII, várias gerações de pesquisadores em todo o mundo vêm somando esforços, formulando hipóteses e buscando preencher lacunas para oferecer a sua própria interpretação da vida do escritor. O cervantista Jean Canavaggio, um dos maiores estudiosos da cultura do século de Ouro espanhol, não é apenas mais um desses detetives-desbravadores a adentrar o labirinto. Seu Cervantes é reconhecidamente a mais importante biografia escrita na atualidade sobre o autor de D. Quixote, tendo recebido o prestigioso prêmio Goncourt quando de sua primeira publicação, em 1986. Desde então, o livro foi traduzido para o inglês, o alemão, o italiano e o japonês, em em toda parte a acolhida do público só reafirmou o parecer dos especialistas.

Consciente de que “explicar Cervantes e uma aventura arriscada”, e procurando evitar armadilhas de seus predecessores, Canavaggio segue um plano de trabalho bastante claro. Em primeiro lugar, estabelecer com o máximo rigor possível tudo o que dele se sabe, discernindo cuidadosamente entre a lenda, o verídico e o verossímil. Em segundo lugar, situa, em seu meio e em sua época, esse escritor que levou uma vida cheia de reviravoltas – verdadeira “testemunha de um tempo de dúvidas e crise” – e que, sob vários pontos de vista, encarna e resume o próprio espírito do Século de Ouro. Por último, Canavaggio conduz o leitor ao encontro de Cervantes até o limite do possível, sem distorcer os dados, sem querer “desvendar seu mistério a todo custo”. Ao contrário: com grande sobriedade, acompanha, passo a passo, o movimento dessa existência que, “de projeto que era enquanto ele vivia, converteu-se num destino” que este belo livro procura tornar inteligível.

O presente volume toma por base o texto francês original e, como o próprio autor observa em nota escrita especialmente para esta edição, incorpora as muitas atualizações feitas desde seu lançamento. Além de levar em conta os ensaios de maior relevo publicados nos últimos vinte anos, Canavaggio lança nova luz sobre determinadas passagens, como os contatos que Cervantes entretém com a corte de Felipe II ao regressar do cativeiro em Argel; suas relações com homens de negócios que, durante a estada do escritor em Valladolid, fizeram dele um intermediário ativo em certas transações financeiras; e, no terreno literário, sobre a redação, já no limiar da morte, de Los trabajos de Persiles y Sigismunda, a derradeira obra de Cervantes, que recentemente vem suscitando uma renovada atenção por parte da crítica.

Apesar do grande número de estudos publicados sobre o “príncipe dos engenhos”, como já foi chamado o autor do Quixote, poucos se equiparam a esta biografia de Jean Canavaggio – que consegue, ao mesmo tempo, informar com rigor e narrar com emoção.

Sobre o autor: Jean Canavaggio nasceu em 1936. Foi diretor da Casa de Velázquez, em Madri, e é atualmente professor na Universidade Paris X-Nanterre. É membro de honra da Hispanic Society e correspondente da Real Academia Espanhola e da Real Academia de História. Coordenou uma Histoire de la littérature espagnole (Fayard, 1993-1994) e a edição em francês das obras completas em prosa de Cervantes (Gallimard, Bibliothèque de la Plèiade, 2001), colaborando também na edição de D. Quixote coordenada por Francisco Rico (Instituto Cervantes, 1998). Entre suas obras se destacam, além desta biografia — que recebeu o prêmio Goncourt em 1986 —, Cervantes dramaturgue: un thêatre à naître (Presses Universitaires de France, 1977) e Don Quichotte, du livre ao mythe (Fayard, 2005).

Sobre o tradutor: Rubia Prates Goldoni é doutora em Literatura Espanhola pela Universidade de São Paulo e realizou parte de seus estudos acadêmicos na Universitat Autònoma de Barcelona. Ensinou Língua Espanhola, Literatura e Prática de Tradução na UNESP. Como tradutora, conta com cerca de trinta títulos vertidos do francês e do espanhol, nas áreas de literatura e ciências humanas.
Recebeu o prêmio FNLIJ Monteiro Lobato 2009 - Melhor Tradução Jovem, por Kafka e a boneca viajante, de Jordi Sierra i Fabra (Martins).

2 comentários:

Marli Boldori disse...

Anatoli,fiquei extremamente envaidecida por encontrar seu blog de uma inenarrável riqueza cultural.
Cervantes,o Príncipe dos Engenhos,possuia grande sensibilidade às artes,ele era grande conhecedor do teatro que se fazia.Cervantes teve grandes fracassos,no campo literário,porém quando preso escreveu a primeira parte de sua consagrada obra, Dom Quixote.Grande exemplo de perseverança para nós,pois aos 58 anos começou seu sucesso.
Sua obra é considerada a segunda mais lida ,deixando o primeiro lugar à Bíblia Sagrada.A obra Dom Quixote é um hino em louvor da fantasia e da poética (necessários à alma).
Estou sendo ambígua ao escrever o que vc já disse ,mas senti imenso prazer em registrar o que sinto também.Parabéns Anatoli,estarei com frequência te
visitando e levando comigo mais conhecimentos.Obrigada!

Anatoli. disse...

Prezada Marli:
Primeiramente, meus agradecimentos pela visita ao blog. Em segundo lugar, para externar a minha alegria por ter gostado. Seus elogios são o bálsamo que fortifica a continuidade dos meus propósitos de levar um pouco de informação aos meus amigos e leitores.
Finalmente, para dizer que Dom Quixote é um dos meus preferidos. Caso não tenha feito, vá até o dia 29-1-2009 e veja a modesta sinopse e interpretação que fiz dessa que pode ser considerada uma das maiores obras da humanidade ao lado de Divina Comédia de Dante Alihieri. É uma obra para ser lida durante toda a vida.
Um grande abraço e venha mais vezes.