sexta-feira, 24 de setembro de 2010

AS GRANDES HERESIAS

Título original: The great heresies
Autor: Hilaire Belloc (1870-1953)
Tradução: Emílio Angueth de Araújo
Editora: Editora Permanência
Assunto: Religião
Edição: 1ª – no Brasil
Ano: 2009
Páginas: 152

Sinopse: Heresia não é um assunto fossilizado. Ao contrário, é de permanente e vital interesse para a humanidade, porque está associado à religião, sem a qual nenhuma sociedade humana jamais perdurou ou pode perdurar.

Aqueles que pensam que o assunto heresia possa ser desprezado porque o termo soa fora de moda e porque está relacionado a diversas disputas há muito abandonadas, cometem o erro comum de pensar nas palavras, e não na idéias. Não há fim para os mal-entendidos que surgem do uso ambíguo de palavras. Mas se recordarmos o simples fato de um estado, uma comunidade humana ou uma cultura geral devem ser inspirados por um conjunto de regras morais, e que não pode haver esse conjunto de normas morais sem uma doutrina, então a importância da heresia como tema será clara, porque heresia não significa outra coisa senão “a proposição de novidades em religião, escolhendo-se algo do que tem sido a religião aceita, negando-se ou substituindo-se esse algo por outra doutrina então não familiar”.

O estudo das sucessivas heresias cristãs, seus respectivos caracteres e destinos, tem um interesse especial para todos os que pertencem à cultura européia e cristã, e esta deve ser uma razão evidente – nossa cultura foi feita por uma religião. Mudanças ou desvios dessa religião afetam necessariamente nossa civilização como um todo.

Comentário: Foi editado finalmente no Brasil, no final de 2009, o livro AS GRANDES HERESIAS, do anglo-francês Hilaire Belloc, pela Editora Permanência. Belloc foi um autor que marcou o seu tempo. Filho de pai francês e mãe inglesa, ficou órfão de pai aos dois anos de idade e a mãe optou por ir morar na Inglaterra. Assumiu a cidadania inglesa, mas prestou serviço militar na França, o que mostra que foi um homem dos dois mundos. Deixou vasta obra.

Belloc foi um católico devoto. Neste livro ele nos legou um grande trabalho histórico, ainda que haja na obra algo de inacabado. Também pudera, foi concluído em 1938, véspera dos maiores acontecimentos militares e políticos de todos os tempos. Nele Belloc narra as grandes heresias que afetaram o catolicismo – para ele sinônimo de cristianismo – desde o começo. O livro tem algumas singularidades, ente elas o fato de colocar o islamismo como uma forma de heresia cristã, a mais letal e perigosa de todas, a que tem posto o Ocidente em xeque desde o seu surgimento. E foi profético ao dizer que o Islã poderia novamente repetir suas façanhas, mesmo que na ocasião da conclusão do livro não houvesse mais nenhuma potência islâmica capaz de desafiar o Ocidente. É como se tivesse previsto o 11 de setembro.

Outra afirmação sua bastante contundente foi dizer que todas as igrejas protestantes não passam de heresias e sua verve é implacável, sobretudo com as seitas fundadas por João Calvino. Hoje em dia a coisa pode soar politicamente incorreta, já que vivemos tempos de covardia. Tempos de relativismo religioso e cultural, tempos de ecumenismo com o qual certamente ele não se conformaria. Para ele, a verdade estava com o catolicismo e ponto.

Seu capítulo final discorre sobre a fase moderna, mas é curto e incompleto por não ter visto o desfecho do nazismo e do muro de Berlim. Mas, ainda assim, previu muita coisa importante. A dissolução dos costumes cristãos não passa, segundo ele, da repetição da tragédia das heresias mais antigas, notadamente a albingense, com sua permissividade, sua luta pela dissolução do matrimônio, seu desvalor pela vida humana. Escreveu Belloc sobre os albingenses:

Todos os sacramentos foram abandonados. Em seu lugar, um estranho ritual foi adotado, que envolvia a adoração do fogo, chamado ‘a consolação’, por meio do qual acreditava-se que a alma era purificada. A propagação da espécie humana foi atacada; o casamento era condenado e os líderes da seita espalhavam todo tipo de extravagâncias que se podem encontrar pairando sobre o maniqueísmo e o puritanismo, onde quer que apareçam. O vinho é mal, a carne é má, a guerra era sempre absolutamente má, e assim também a pena capital; mas um pecado sem perdão era a reconciliação com a Igreja Católica.

Podemos ver que, se vivo fosse, Belloc acharia que os albingenses voltaram, nesses tempos de aborto estatizado, de sexo livre, de casamento homossexual, de perversões de toda ordem homologadas pelo sistema jurídico. Nem mesmo o protestantismo venceu; seu sucedâneo é a confraria dos ateus, que tomou conta dos centros de saber de todo o Ocidente. Talvez os tempos de hoje sejam bem piores do que aqueles de 1938. Quem saberá o que virá em dois anos? A roda da história está novamente acelerada e os acontecimentos podem se precipitar. (Nivaldo Cordeiro)

Trecho da obra: Imortalidade da alma. [A religião cristã] “tem como uma parte essencial (apesar de ser uma parte apenas) a afirmação de que a alma individual é imortal – a consciência pessoal sobrevive à morte física. Se as pessoas acreditam nisso, olham para o mundo e para si mesmas de certa maneira, agem de determinada forma e são pessoas de certo tipo. Se não acreditam nisso (se elas excluem ou se omitem [d]essa crença), há um corte nessa doutrina. Elas podem continuar a manter todas as outras crenças, mas o sistema é modificado, o tipo de vida, caráter e o resto se tornam muito diferente. O homem que está certo de que morrerá para sempre pode muito bem acreditar que Jesus de Nazaré era o Deus de Deus, que Deus é trino, que a Encarnação foi acompanhada de um nascimento virginal, que o pão e o vinho são transformados de uma forma particular; pode recitar um grande número de preces cristãs e admirar e imitar certos cristãos, mas será um homem muito diferente daquele que considera verdadeira a imortalidade.


O autor: Joseph Hilaire Pierre René Belloc (La Celle-Saint-Cloud 27 de julho de 1870 — Guildford, Surrey, 16 de julho de 1953) foi um escritor britânico. Nasceu em França, nos arredores de Paris, em La Celle-Saint-Cloud, a 27 de Julho de 1870, filho de um advogado francês casado com uma inglesa (Bessie Rayner Parkes), pertencente á alta burguesia, proveniente do protestantismo e convertida ao catolicismo e que foi muito ativa nos primórdios do movimento feminino pró-sufrágio. A educação de Belloc foi quase inteiramente britânica, após a morte do pai, começando na Oratory School em Birmingham, uma escola católica e continuando no Balliol College, em Oxford, pela qual se licenciou em História, em 1894, com “the highest honors”. Casou com uma americana, Elodie Hogan, em 1896. Em 1902 tornou-se súdito britânico, por naturalização, e durante alguns anos (1906-1910) foi membro do Parlamento Britânico, sob as cores do Partido Liberal. Em Oxford revelou-se um excelente orador e parece não haver grandes dúvidas de que poderia, se quisesse, ter tido uma carreira distinta na política. Mas acabou por escolher a escrita como o seu campo de acção e, na verdade, missão, e tornou-se um dos mais prolixos e diversificados - atendendo á diversidade de temáticas e de estilos - autores na longa história da literatura inglesa.

Quando morreu, a 16 de Julho de 1953, com quase 84 anos de idade, Belloc deixava para trás cerca de cem livros publicados e um vasto número de ensaios avulsos, artigos, recensões e discursos. Uma das mais controversas figuras do seu tempo, foi, também, um dos mais respeitados e venerados, pela sua cultura, visão, vigor e brilhantez de estilo literário. Escreveu muito sobre História, incluindo uma História de Inglaterra em quatro volumes, e vários tratados histórico e biográficos da Revolução Francesa – um acontecimento com uma quase obsessiva influência no pensamento de Belloc -, mas os seus escritos historiográficos ocuparam relativamente pequeno espaço na totalidade da sua bibliografia. Ele era crítico literário e analista social e político, um incessante polemista em muitas áreas, jornalista, novelista e sobretudo, poeta. Os seus poemas podem ser encontrados em muitas antologias de poesia inglesa, mas a sua primeira aventura neste campo foi a dos versos com non sense. O seu livro The Bad Child’s Book of Beasts, escrito enquanto se encontrava em Oxford, em 1896, gerou uma atenção imediata e é considerado nos nossos dias como um clássico.

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5 comentários:

Silviah Carvalho disse...

Olá Anatoli, é um prazer estar aqui, e uma honra segui-lo, virei outras vezes com certeza, lerei tudo com calma, olha te convido a fazer uma visita ao meu blog e ler os trabalhos dos poetas que andam comigo neste caminho literário. Uma amiga esta te seguindo também, Juliana, escreve muito bem. Bjs fica bem.

Anatoli. disse...

Cara Silviah:
Obrigado pela visita. Quem se sente honrado sou eu. Será um prazer visitar o seu blog. Receba e transmita a sua amiga Juliana o meu cordial abraço.

Juliana. disse...

Olá Anatoli, que espaço exuberante, em palavras e sentidos! Fui indicada a conhecer o teu cantinho pela amiga Silviah, muito bom estar aqui, visitarei sempre e não deixarei de ler os teus escritos! Um abraço! Juliana Matos.

Anatoli. disse...

Cara Juliana:
Fico muito feliz que tenha gostado e agradecido pela visita. Por favor, retransmita a Silviah os meus agradecimentos pela divulgação. Visitei o blog dela. Gostei do que vi. Fique com Deus e um beijo no coração.

SILVANIA MARIA RAMOS MENDES disse...

PAZ DE JESUS E AMOR DE MARIA
AMIGO!
EXCELENTE COMENTÁRIO SOBRE O LIVRO:
AS GRANDE HERESIAS.
RETORNEI HÁ UNS ANOS a IGREJA CATÓLICA,IMPRECIONEI-ME. MUITAS MUDANÇAS. PRINCIPALMENTE HERÉTICA.
PERGUNTO:
HOJE AINDA ENCONTRAMOS
HERESIAS EXAGERADAS?
ME DEPARO COM CADA UMA PRINCIPALMENTE NAS CAMISAS, PALAVRAS DE DUPLO SENTIDO.ETC, DESENHOS, IMAGENS. E NUNCA FUI ESTUDIOSA SOBRE HERESIAS.
OUTRA PERGUNTA.PARA VOCE O CATECISMO CATÓLICO DEVE SER MUDADO PARA OS JOVENS?
NA MINHA OPINIÃO "NAO". OS JOVENS DEVEM SE ACOSTUMAR EM APRENDER CADA VEZ MAIS, LER MAIS.
E QUANDO VOCE ESCREVE ALGO QUE PROPÔE UMA REDUÇÃO OU MANEIRA DE FALAR PARA JOVENS, A LINGUAGEM FICA EMPOBRECIDA. ACHO QUE QUANTO MAIS CONTEÚDO MELHOR, PRINCIPALMENTE NA QUALIDADE. O CATECISMO CATÓLICO É COMPLETO PARA O CRISTÃO.
ENTÃO IREMOS MAIS TARDE FAZER UMA BÍBLIA PARA OS JOVENS ADOLESCENTES? OUTRA BÍBLIA?
NO CASO AS CRIANÇAS TUDO BEM. PORQUE EXISTE UMA INICIAÇÃO Á DOUTRINA.
MAS OS JOVENS, HOJE EM DIA SÃO MAIS INFORMADOS QUE NÓS. TENHO 57 ANOS E OUÇO CADA UMA! UFA! MODERNIDADE.
GOSTEI DE SEU BLOG. SE PERMITIR FAZER LINK P/ O MEU.
http://amigoscatolicosdobrasil.blogspot.com.br