domingo, 1 de janeiro de 2017

MOBY DICK

Nota preliminar: Ao final do texto e dos comentários você poderá assistir ao filme completo.

Título original: Moby Dick
Autor: Herman Melville (1819-1891)
Tradução: Alexandre Barbosa de Souza
Assunto: Romance
Editora: Cosac Naify
Edição: 1ª
Ano: 2008
Páginas: 656


Sinopse: Publicado em 1851, o livro traz o relato de um marinheiro letrado, Ishmael, sobre a última viagem de um navio baleeiro de Nantucket, o Pequod, que parte da costa leste dos Estados Unidos rumo ao Pacífico Sul, onde encontra o imenso cachalote branco que, no passado, arrancara a perna do vingativo capitão Ahab. Ao longo de 135 capítulos, Herman Melville explora diversos gêneros literários para compor sua história, da narrativa de viagens ao teatro shakespeareano, do sermão à poesia popular, passando pela descrição científica e a meditação filosófica.


Resumo da narrativa: Moby Dick era o nome de uma famosa baleia branca que nenhuma expedição de arpoadores conseguia pegar.

Ishmael, o herói da história, talvez fosse o próprio Melville num romance autobiográfico. Ele acerta com o capitão Ahab, do navio Pequod, uma expedição de caça às baleias. Mas o capitão quer especialmente capturar Moby Dick, pois na última escaramuça com o monstro ele não a apanhou e anda teve a perna amputada. Seu objetivo de vida, agora, era vingar-se e matá-la. Ismael se hospeda num hotel à beira do porto, pois o navio vai zarpar na manhã do outro dia. Entra de repente no quarto um selvagem, nascido em uma ilha dos mares do sul, e que fará também parte da tripulação. O homem, frente a um ídolo, começa a fazer invocações e esconjuros, assustando o pobre Ishmael.

Apesar da aparência, o selvagem Queequeg era pessoa de bom coração e logo fez amizade com o jovem. Os dois embarcam no velho baleeiro, em busca de baleias e aventuras.

A tripulação do Pequod era constituída de homens de todas as partes do mundo, mas as personagens mais interessantes eram os três arpoadores: Queequeg Tashtego, da raça índia, e Dagoo, um gigantesco negro.

Os homens somente foram ver o capitão Ahab, quase sempre recluso, muitos dias após a partida. Este, com voz grave, prometeu um dobrão de ouro, que pregara no mastro, para aquele que primeiro avistasse a baleia branca.

Ainda não tinham visto Moby Dick, mas apareceu uma baleia enorme, embora não tão grande quanto a procurada. Homens correm para as lanchas, mais ágeis, e o marinheiro Stubb a mata com um poderoso golpe de arpão.

Naquela noite, Stubb festejou devorando um enorme bife de baleia morta. Enquanto isso, o velho cozinheiro negro, cheio de superstições, dirigia-se com invocações aos tubarões, para afastá-los, pois o cheiro da baleia morta os atraíra às dúzias. No outro dia o tombadilho parecia ter se transformado num enorme açougue. A baleia foi toda esquartejada e cortada em grandes tiras. Seu óleo foi guardado em tonéis.

Depois de mais de um ano de navegação, o capitão Ahab teve notícias de Moby Dick por um capitão que tivera seu braço arrancado quando tentara matá-la. Ela agora estava próxima.

E lá estava ela, branca, imponente, com o corpo cheio de arpões, que ela arrebentara. Melville, no seu romance, por vezes compara a baleia ao leviatã, ao demônio, ao poder, ao mal que acompanha a humanidade em constante luta.

Depois de três dias de caça e várias lanchas naufragadas, com a morte dos marujos por tubarões atentos, aconteceu o impossível. Moby Dick perdeu de vez a paciência e jogou-se com toda força e velocidade contra o navio, partindo-o ao meio. Era a condenação dos marinheiros.

Todos morreram, inclusive o capitão. O índio Queequeg fizera para si um caixão, pedindo que, se morresse em combate, Ishmael o jogasse ao mar naquele artefato. Pois foi este caixão que Ishmael conseguiu ver, ao ser arremessado ao mar quando do choque do navio com a baleia. Nadou até ele e vagou à deriva até ser recolhido pelo navio "Raquel". Os tubarões o acompanharam, mas nada fizeram. Ishmael foi o único sobrevivente. A luta contra Moby Dick, a baleia branca, terminara de forma trágica.


Comentários: Faço aqui um breve comentário, mais no intuito de divulgar a obra entre aqueles que não leram, ou leram na juventude e deixaram de sorver o vinho armazenado em velhos odres, o melhor de todos. Ler o livro de Herman Melville, “Moby Dick” depois de tantos anos, é uma grande aventura para a alma. Sim, o livro fala mesmo é de iniciação mística, da morte e ressurreição pensadas nos termos cristãos. É atualíssimo, não obstante a sua narrativa ser um tanto antiquada. Todo o texto fala de uma única pessoa, o próprio autor, e para compreender a epopéia é preciso lê-lo de trás para frente, mas isso não é possível numa primeira vez. É obra para os espíritos velhos, de todas as idades, sobretudo para quem já passou do meio-dia da vida.

As personagens principais não coincidentemente recebem nomes bíblicos. Ishmael, o filho de Abraão com a serva de Sara, Agar, dá nome à personagem principal e narrador, o único que sobrevive à aventura heróica. Acab, personagem casado com Jezabel, “o que era mal aos olhos do Senhor, mais do que todos os que foram antes dele” (1Reis 16:30), dá nome à segunda personagem em hierarquia de importância. Jezabel era aquela que matava os profetas do Senhor. Elias, diante de Ahab e de todo o povo, pergunta: “até quando coxeareis entre dois pensamentos?” (1Reis 18:21) Ahab, a personagem, era coxo, pois o Leviatã havia lhe devorado uma das pernas.

É evidente, para quem conclui a leitura, que Ahab é a velha personalidade de Ishmael que precisava morrer para renascer, sendo Ismael o único que poderia sobreviver à louca aventura da alma. O título do Epílogo não deixa margem à dúvida: “E só eu escapei para contar-te”, citação extraída no Livro de Jó. Na página 204 de Moby Dick podemos ler: “Considerai tudo isso, e voltai-vos depois para essa verde, suave e docílima terra; considerai os dois, o mar e a terra: não descobris estranha analogia com algo dentro de vós? Pois assim como esse pavoroso oceano rodeia a terra verdejante, assim também na alma do homem jaz uma Taiti insular, cheia de paz e alegria, mas cercada de todos os horrores da existência semiconhecida. Deus te guarde! Não desatraques dessa ilha, não podes voltar jamais”. Claro que Melville refere-se à dialética entre o Eu e o Inconsciente, para usar a terminologia junguiana.

Em outra parte, à página 406/407, podemos ler: “Oh! Meus amigos, mas isso é matar o homem! E todavia isso é vida. Pois nem bem nós, mortais, com longas labutas extraímos do vasto corpo desse mundo seu escasso mas valioso espermacete; nem bem, com fatigada paciência, nos limpamos das sujeiras desse mundo e aprendemos a viver aqui, nos puros tabernáculos da alma; nem bem fazemos isso, quando – ‘Lá esguicha ela’ – jorra a alma, e lá velejamos para combater outro mundo e atravessar de novo a velha rotina da vida jovem”. Esse trecho deixa claro que a pesca da baleia é uma metáfora para o crescimento espiritual e que a baleia pode ela mesma ser identificada com a própria alma, posto que é um símbolo da transformação do inconsciente.

Outra personagem que precisamos sublinhar é Queequeg, a sombra primitiva e canibal de um cristão civilizado, o canibal caçador de cabeças que as vendia empalhadas, chegando a dar uma delas para Ismael. Cabeças cortadas e empalhadas por um canibal primitivo são apenas uma maneira que o autor encontrou para mostrar o quando vale a função pensamento e mesmo o intelecto, desgrudado de sua plenitude com as demais funções psicológicas, como vemos no mundo moderno. Em outra parte do Moby Dick, duas cabeças de baleia são penduradas no navio, quais esfinges. Ainda uma vez notamos a preocupação de Melville em denunciar a unilateralidade do intelecto no mundo ocidental. Queequeg é a Sombra de Ishmael porque com ele divide o leito, fato estranhíssimo para um homem viril se não for considerado um recurso narrativo, para mostrar o conteúdo psicológico do mesmo. Dormimos com a nossa sombra agarrada às nossas costas, para o nosso desconforto e a nossa redenção. Em outra parte, Queequeg e Ismael são amarados com cordas para cumprir tarefas arriscadas, de tal sorte que um só poderia viver se o outro também vivesse, formando uma unidade. Um dos capítulos, o de número X, dá ênfase a Queequeg, que é chamado de forma sintomática de “Um amigo íntimo”.

O início da narrativa começa em uma noite escura e fantasmagórica, recurso também usado por Dante para iniciar o seu grande poema de iniciação – “A Divina Comédia” – para relatar os fatos da alma. Os tempos também são bíblicos: três anos de viagem, três dias de caçada, tempo que se liga diretamente a terceiro dia da paixão e morte de Cristo, quando ocorre a sua ressurreição. O autor, por esse recurso, também faz da sua aventura a máxima aventura do Cristianismo. Ele é salvo no final por um salva-vidas na forma de ataúde. A morte é seguida por ressurreição. Ismael é resgatado pelo veleiro “Raquel”, alusão àquela que não queria ser consolada, pois que seus filhos já não viviam, personagem do livro de Jeremias.

E o paralelo com o livro de Jonas mais do que salta aos olhos. Esse livro profético mantém interesse especial por dois motivos. O primeiro é que é uma narrativa estranhíssima e, a rigor, não é exatamente profético. Jonas foge de uma missão dada por Deus, mas dela não consegue se livrar. O segundo porque é o primeiro instante na história da Revelação que a Justiça divina é suplantada por sua Misericórdia. Por isso é um dos livros capitais da Bíblia. A metáfora do homem que por três dias entra no ventre da baleia e depois é devolvido a terra é uma prefiguração da história de Cristo, de sua morte e ressurreição.

A pesca da baleia e seus navios foram magistralmente utilizados por Melville como metáfora. O baleeiro, por exemplo, tem um forno, que pode ser considerado uma espécie de inferno das profundezas, onde ardem as almas penadas.

É notável a ausência de personagens femininas, que aparecem apenas em esposas, mães e filhas ausentes, e também nos nomes de outras embarcações (“Raquel”, “A Virgem”). Mas o elemento feminino é sobretudo sublinhado pelo oceano, as profundezas da função sentimento tão pouco desenvolvida nas pessoas do tipo pensamento. As cabeças empalhadas de Queequeg mostram a compensação da consciência unilateral do autor, assim como o mar profundo a grandeza exaltada da função feminina por excelência, a sentimento. É uma epopéia masculina.

É óbvio que a leitura do livro pressupõe um certo conhecimento da Bíblia, sem o qual muitas passagens não terão sentido e muito da sutiliza psicológica não poderá ser percebida. Moby Dick é um evangelho escrito na forma de romance (Nivaldo Cordeiro).

Sentido da obra:

 O livro fala de iniciação mística, da morte e ressurreição pensadas nos termos cristãos.

Ahab é a velha personalidade de Ishmael que precisava morrer para renascer, sendo Ishmael o único que poderia sobreviver à louca aventura da alma.

A pesca da baleia é uma metáfora para o crescimento espiritual e que a baleia pode ela mesma ser identificada com a própria alma, posto que é um símbolo da transformação do inconsciente.

As personagens principais recebem nomes bíblicos. Ishmael, o filho de Abraão com a serva de Sara, Agar, dá nome à personagem principal e narrador, o único que sobrevive à aventura heróica. Ahab, personagem casado com Jezabel, dá nome à segunda personagem em hierarquia de importância.

Todo o texto fala de uma única pessoa, o próprio autor, e para compreender a epopéia é preciso lê-lo de trás para frente, mas isso não é possível numa primeira vez. É obra para os espíritos velhos, de todas as idades, sobretudo para quem já passou do meio-dia da vida.


UMA PALHINHA DA OBRA


O SERMÃO [DO PADRE MAPPLE]



O padre Mapple levantou-se e, com a voz tranqüila de uma modesta autoridade, ordenou às pessoas espalhada que se agregassem. “Prancha de estibordo[1], alí! Correr a bombordo[2]! – E da prancha de bombordo, a estibordo! À meia-nau! À meia-nau!”
Ouviu-se entre os bancos um leve rumor de botas pesadas de marinheiros, e um ainda mais leve arrastar de sapatos femininos, e tudo retornou ao silêncio e todos os olhares se fixaram no pregador.
Ele fez uma pequena pausa; depois se ajoelhou no púlpito, cruzou as suas grandes mãos morenas sobre o peito, levantou os olhos fechados e fez uma oração com tão profunda devoção que parecia estar ajoelhado e rezando no fundo do mar.
Assim terminando, com tom de voz solene e prolongado, como o dobro contínuo do sino de um navio navegando no meio de um nevoeiro – com o mesmo tom ele começou a entoar o seguinte hino, passando nas últimas estrofes à explosão de uma retumbante exultação e alegria:
As costelas e os terrores na baleia
Cobriram-me de uma escuridão lúgubre,
Enquanto as ondas iluminadas pelo Senhor
Arrastavam-me para o fundo do abismo.

Eu vi a boca aberta do inferno,
Com as suas dores e pesares infinitos;
Só quem sentiu pode saber –
Oh! Afundei-me no desespero!

Na minha angústia chamei pelo Senhor,
Que mal podia crer que fosse meu,
Ele prestou ouvido às minhas queixas,
E a baleia me pôs em liberdade.

Acudiu sem demora em meu socorro
Como se transportado por um golfinho radiante;
Brilhou na água como um raio
O rosto do meu Libertador terrível e divino.

No meu canto sempre vou recordar
Esta hora terrível e magnífica;
A glória é do meu Senhor,
Sua é a força, e é Sua a misericórdia.

            Quase todos cantaram juntos este hino, que se elevou acima do estrondoso temporal. Uma pausa se seguiu: o pregador começou a folhear lentamente a Bíblia e por fim, pousando sua mão sobre a página certa, disse: “Bem-amados companheiros de bordo, vamos nos prender ao nó do último versículo do primeiro capítulo de Jonas – ‘Deparou, pois, o Senhor um grande peixe, para que tragasse a Jonas’.[3]
            “Companheiros de bordo, este livro que só tem quatro capítulos – quatro meadas – é uma das menores tramas da poderosa corda das Escrituras. E, no entanto, que profundidades da alma a linha-d’água de Jonas sonda! Quão prenhe é a lição que nos ensina o profeta! Como é nobre o cântico do interior do ventre da baleia! Como ondula, tão tempestuosamente solene! Sentimos a inundação lançar-se sobre nós; com ele tocamos algas do fundo das águas; as plantas marinhas e todo o limo do mar nos cercam! Mas qual é a lição que o livro de Jonas nos ensina? Companheiros de bordo, é uma lição de dois fios; uma lição para todos nós, pecadores, e uma lição para mim, como piloto do Deus vivo. Falando aos pecadores, é uma lição para todos nós, porque é uma história do pecado, da insensibilidade, dos temores subitamente despertos, das punições imediatas, do arrependimento, das orações e, finalmente, da libertação e do júbilo de Jonas. Como sucede com todos os pecadores, o pecado desse filho de Amitai [Amati] foi sua desobediência obstinada do mandamento de Deus – não importa qual ou como foi transmitido o mandamento – que Jonas achou difícil de cumprir. De resto, todas as coisas que Deus ordena são difíceis de cumprir – lembrem-se disso – e por isso é mais frequente ouvi-Lo comandar do que tentar nos persuadir. E para obedecermos a Deus temos que desobedecer a nós mesmos; é nessa desobediência de nós mesmos que consiste a dificuldade de obedecer a Deus. [grifos meus]
            “Com este pecado da desobediência em si, Jonas ainda escarnece de Deus, tentando Dele fugir. Ele acha que um navio feito por homens pode leva-lo a regiões onde Deus não reina, mas apenas os Capitães deste mundo. Erra pelo cais do Jope, procurando um navio que vá para Társis. Talvez haja aí um significado até agora despercebido. Tudo índica que Társis não pode ter sido outra cidade senão a moderna Cádiz. Essa é a opinião dos homens cultos. E onde fica Cádiz, companheiros de bordo? Cádiz fica na Espanha. Era o lugar mais distante de Jope que Jonas podia alcançar naqueles tempos antigos, quando o Atlântico era um oceano quase desconhecido. Porque Jope, a moderna Jafa, companheiros de bordo, fica na costa da Síria, no extremo oriente do Mediterrâneo; e Társis, ou Cádiz, mais de duas mil milhas a oeste de lá, logo no estreito de Gibraltar. Bem vedes que Jonas, companheiros de bordo, procurava fugir de Deus pelo mundo. Que homem miserável! Oh! Que vergonhoso e digno de todo o desprezo! Com o chapéu amarrotado e olhos culpados, fugindo de Deus; andando a esmo entre as embarcações, como um vil ladrão, tentando atravessar os mares. Sua aparência é tão desarrumada e tão reprovável que, se naquela época existissem policiais, Jonas teria sido preso como suspeito antes de chegar ao convés. É evidente que é um fugitivo! Sem bagagem, nem uma caixa de chapéu, mala ou sacola de viagem – sem amigos para acompanha-lo até o cais para dizer adeus. Por fim, depois de muita busca furtiva, encontra um navio para Társis recebendo os últimos itens de seu carregamento; e, quando sobe a bordo para falar com o Capitão no camarote, todos os marinheiros param de içar as mercadorias para prestar atenção ao olhar maligno do forasteiro. Jonas percebe, mas em vão procura conforto e confiança; em vão esboça um sorriso infeliz. Uma intuição muito forte assegura aos marinheiros que o homem não pode ser inocente. Em tom jocoso, mas falando sério, um sussurra a outro - ‘Jack, ele roubou uma viúva’; ou ‘Joe, marca esse cara; ele é bígamo’; ou, ‘Harry, meu filho, acho que ele é adúltero que fugiu da prisão de Gomorra, ou talvez um dos assassinos desaparecidos de Sodoma’. Um outro corre para ler o cartaz que está pregado no pilar do cais onde o navio está ancorado, oferecendo quinhentas moedas de ouro pela prisão de um parricida, e descrevendo a pessoa. Ele lê, olha Jonas e volta para o cartaz, enquanto todos os seus companheiros de bordo então se juntam em volta de Jonas, prontos para agarrá-lo. Assustado, Jonas treme, e, por mais que finja ter coragem, só consegue parecer ainda mais covarde. Não quer se confessar suspeito: mas mesmo isso já é coisa muito suspeita. Faz o melhor que pode; e, quando os marinheiros percebem que aquele não é o homem procurado, deixam-no passar, e ele vai para o camarote.
            “’Quem está aí?’/ grita o Capitão, atarefado na escrivaninha, arrumando os papéis para a Alfândega. – ‘Quem está aí?’ Oh! Como uma pergunta tão simples pode perturbar tanto Jonas! Por um instante ele quase foge outra vez. Mas logo se reanima. ‘Procuro uma passagem neste navio para Társis; quando tenciona partir, senhor?’ Até então o atarefado Capitão ainda não tinha olhado para Jonas, embora o tivesse bem diante de si; mas, quando ouve aquela voz cavernosa, lança-lhe um olhar perscrutador. ‘Zarpamos com a próxima maré’. Respondeu lentamente, sem tirar os olhos de Jonas. ‘Tão tarde, senhor?’ – ‘Cedo o bastante para um homem honesto ir como passageiro.’ Ah, Jonas, outra punhalada! Mas ele procura rapidamente despistar o Capitão. ‘Vou zarpar com o senhor’, - diz ele -, ‘A passagem, quanto custa? – Pago já!’ Pois está escrito, companheiros de bordo, como se fosse algo a não ser esquecido nessa história, ‘que ele pagou, pois, sua passagem’ antes de a embarcação partir. E, naquele contexto, isso é muito significativo.
            “Ora, o Capitão de Jonas, companheiro de bordo, era um daqueles homens cujo discernimento detecta um crime onde houver, mas cuja cobiça e leva a denunciar apenas os que não têm dinheiro. Neste mundo, companheiros de bordo, o Pecado que pagar sua passagem pode viajar tranquilamente, e sem passaporte; ao passo que a Virtude, se for pobre, é detida em todas as fronteiras. Por isso, o Capitão de Jonas se prepara para avaliar o peso da bolsa de Jonas, antes de julgá-lo abertamente. Cobra-lhe o triplo de uma passagem comum; e Jonas, concorda. O Capitão sabe, então, que Jonas é um fugitivo; mas ao mesmo tempo resolve ajudar uma fuga que deixa atrás de si moedas de ouro. Mas, quando Jonas lhe apresenta a bolsa, suspeitas prudentes assolam o Capitão. Faz soar cada moeda, para ver se não há nenhuma falsa. Não é um falsário, murmura, inscrevendo Jonas no livro de bordo. ‘Mostre-me minha cabine, senhor’, diz Jonas, ‘estou cansado da viagem; preciso dormir.’ ‘Bem se vê’, diz o Capitão, ‘o quarto é ali.’ Jonas entra, quer trancar a porta, mas não tem nenhuma chave na fechadura. Ao ouvi-lo mexer ali, o Capitão ri baixinho para si mesmo e murmura algo sobre a porta dos condenados nunca poder ser trancada pelo lado de dentro. Vestido e empoeirado como está, Jonas se joga no leito e percebe que o teto da pequena cabine quase bate em sua testa. O ar é estagnado. E Jonas está ofegante. Então, naquele cubículo exíguo, abaixo do nível do mar, Jonas tem o pressentimento do sufoco de quando a baleia o aprisionará em suas entranhas mais estreitas. [grifos meus]
            “Uma lâmpada presa pelo eixo na parede balança um pouco no quarto de Jonas; e o navio, adernando para o cais com o peso do último carregamento, a lâmpada, chama e tudo mais, embora com mínimos movimentos, ainda mantêm uma obliquidade permanente em relação ao quarto; embora, na verdade, mantendo-se reta, a lâmpada só evidencie a inconstância dos planos entre os quais está suspensa. A lâmpada intimida e assusta Jonas; o fugitivo, bem-sucedido até aquele momento, deitado em seu leito, não encontra repouso para os seus olhos atormentados. Mas aquela contradição da lâmpada o amedronta cada vez mais. O chão, o teto e a parede estão errados. ‘Oh! É assim de mim, ela queima verticalmente; mas as cabinas de minha alma estão todas tortas!’”
            “Assim como alguém que depois de uma noite bêbada de festa se apressa em ir para cama, ainda cambaleante, mas com a consciência aflita, como as arremetidas de um cavalo de corrida romano, quanto mais lhe fere o aço das esporas; assim como alguém que nesse estado miserável ainda vira e revira em sua angústia vertiginosa, pedindo a Deus para que o aniquile até que passe a crise; e enfim, em meio a esse torneio de tormentos que sente, ele é acometido de uma letargia profunda, a mesma que acomete um homem que se esvai em sangue, porque a consciência é a ferida, e não existe nada que a estanque; assim, depois de penoso debater-se no leito, o prodígio de tamanha desgraça arrasta Jonas para afoga-lo nas profundezas do sono.
            “E agora a hora da maré chegou; o navio para Társis solta os seus cordames; e do cais deserto, sem um adeus, ele desliza, inteiro inclinado, para o mar. Aquele, meus amigos, é o primeiro navio de contrabandistas registrados que se conhece! O contrabando era Jonas. Mas o mar se revolta; ele não suportará o fardo perverso. Rebenta um temporal horrível, e o navio está prestes a afundar. Mas agora que o contramestre chama a todos para esvaziá-lo; que caixas, pacotes e frascos são jogados sobre a amurada; que o vento uiva, os homens gritam, e todas as tábuas trovejam com os passos dos marinheiros sobre a cabeça de Jonas; como toda essa turba enfurecida, Jonas dorme o seu sono abominável. Não vê o céu negro e o mar em fúria, a madeira estalar não sente, e pouco escuta ou percebe o avanço distante da poderosa baleia, que desde já, de boca aberta, singra os mares em sua busca. Sim, companheiros de bordo, Jonas tinha descido para o costado do navio – para um leito na cabine, como contei, e dormia profundamente. Mas o mestre assustado vai para ele e grita em seu ouvido inerte. ‘O que significa isso, ó, dorminhoco! Levanta-te!’. Arrancado de sua letargia por esse grito horrível, Jonas põe-se de pé, e cambaleando até o convés agarra-se a um brandal para observa o mar. Mas naquele momento, como se fosse uma pantera saltando pela amurada rebenta sobre ele o vagalhão. Ondas e mais ondas se atiram sobre o navio e, não encontrando escoamento ao rugirem de popa a proa, quase afogam os marinheiros ainda a bordo. E, quando a lua branca mostra seu rosto amedrontado por entre os sulcos profundos da escuridão acima, Jonas vê aterrorizado o gurupés[4] se erguendo, apontando alto, para em seguida precipitar-se novamente em direção às profundezas atormentadas.
            “Terrores e mais terrores dilaceram sua alma. Por todos os seus atos amedrontados, o fugitivo de Deus é agora mais do que reconhecido. Os marinheiros observam-no; suspeitam dele cada vez mais, e por fim, para terem uma prova da verdade, submetendo toda a questão aos Céus, tiram a sorte para saber por causa de quem esta tormenta tão poderosa foi lançada sobre eles. A sorte cai sobre Jonas; enfurecidos, começam então a assalta-lo com perguntas. ‘Qual é a tua ocupação? De onde vens? De qual país? De que povo?’ Mas observem, meus companheiros de bordo, o comportamento do pobre Jonas. Os marinheiros ansiosos apenas lhe perguntaram quem é ele e de onde vem; no entanto, eles não recebem apenas uma resposta a tais perguntas, mas também a uma pergunta que não tinham feito; a resposta não solicitada é forçada pela mão pesada de Deus, que cai sobre ele.
‘”’Sou um hebreu’, grita – e logo depois – ‘Temo a Deus, Senhor do Céu, criador do mar e da terra.’ ‘Temes a Deus, ó, Jonas? Bem podias ter temido a Deus antes! Sem demora, faz uma confissão plena; apesar de os marinheiros estarem cada vez mais estarrecidos, mesmo assim se apiedam. Pois quando Jonas, ainda sem suplicar a misericórdia de Deus, conhecendo muito bem a obscuridade de sua deserção – pois bem, quando o desgraçado Jonas lhes pede que o agarrem e o atirem ao mar, porque sabe que por sua causa a tempestade caíra sobre eles; os marinheiros, com pena, se afastam dele e buscam um outro meio de salvar o navio. Mas tudo em vão; o vendaval revoltante uiva ainda mais alto; então, com uma mão erguida para invocar Deus, com a outra os marinheiros, não sem relutância, seguram Jonas.
            “Vejam agora Jonas, erguido como uma âncora, ser jogado ao mar; quando instantaneamente uma calmaria untuosa vem do leste, e o mar fica imóvel, enquanto Jonas afunda levando consigo o vendaval, deixando a água serena atrás de si. Ele desce no coração rodopiante dessa comoção desgovernada e mal percebe que cai em direção à boca escancarada que o aguarda; e a baleia cerra os dentes de marfim, como inúmeros ferrolhos brancos, sobre sua prisão. Então Jonas orou ao Senhor de dentro da barriga do peixe. Mas observem sua oração e aprendam uma lição importante. Por mais que tenha pecado, Jonas não lamenta nem se lastima pedindo sua libertação. Ele sente que seu terrível castigo é justo. Deixa que Deus decida sobre sua libertação, contentando-se com isso, que apesar de toda a dor e angústia ele ainda eleva o pensamento a Seu templo sagrado. Eis aqui, companheiros de bordo, o genuíno e fiel arrependimento; sem clamor de perdão, mas grato pelo castigo. E como a conduta de Jonas agradou a Deus, vê-se por sua libertação do mar e da baleia. Companheiros de bordo, não ponho Jonas diante de vocês para que lhe copiem o pecado, mas sim como modelo de arrependimento. Não pequem; mas se o fizerem, arrependam-se como Jonas.”
            Enquanto proferia essas palavras, os uivos da clamorosa tempestade que desabava do lado de fora pareciam acrescentar mais força ao pregador, que, descrevendo a tempestade no mar de Jonas, parecia ele próprio atirado à tempestade. Seu peito arfava como se num maremoto; seus braços agitados pareciam a fúria dos elementos; e os trovões que saiam da sua fronte escura e a luz saltando de seus olhos faziam com que todos os seus simples ouvintes olhassem para ele com um temor súbito, que lhes era estranho.
            Eis que então seu olhar se aliviou, enquanto ele silenciosamente virava as páginas do Livro outra vez; e, por fim, de pé, imóvel, de olhos fechados, por um momento, pareceu comungar com Deus e consigo.
            Mas novamente se inclinou para a frente dirigindo-se às pessoas, baixou a cabeça, e com um aspecto da mais funda porém digna humildade proferiu estas palavras:
            “Companheiros de bordo, Deus colocou apenas uma das mãos sobre vós; mas as duas pesam sobre mim. Ensinei-vos, com a luz esfumaçada que pode meu entendimento, a lição que Jonas ensina a todo pecador; portanto a vós, e ainda mais a mim, pois sou um pecador maior que vós. Com que alegria eu desceria do alto deste mastro e me sentaria aí nas escotilhas onde vós estais sentados, ficaria escutando como vós ficais, enquanto um de vós recita para mim a terrível lição que Jonas me ensina, como um piloto do Deus vivo. Como sendo ungido piloto-profeta, ou orador das coisas verdadeiras, e escolhido do Senhor para fazer soar essas verdades indesejáveis nos ouvidos da vil Nínive, Jonas, temendo a hostilidade que suscitaria, fugiu de sua missão e tentou escapar a seu dever e a seu Deus embarcando em Jope. Mas Deus está em toda parte; a Társis ele jamais chegou. Como vimos, Deus veio até ele na baleia e o engoliu, tragando-o nos golfos da perdição, e arrastou-o por quedas rápidas ‘até o coração do mar’, onde redemoinhos das profundezas o sugaram milhares de braças para baixo, e “as algas se enrolaram em sua cabeça’, e todo o mundo marinho de infortúnios transcorreu sobre ele. Mas mesmo então, além de qualquer sonda – ‘nas vísceras do inferno’ -, quando a baleia encalhou nos ossos do fundo do oceano, mesmo então, Deus escutou o arrependimento do profeta engolido quando ele gritou. Então Deus falou com o peixe; e da frieza tiritante e do negrume do mar a baleia subiu na direção do agradável e caloroso sol, e de todas as delícias do ar e da terra, e ‘vomitou Jonas na terra firme’; quando a palavra do Senhor veio pela segunda vez; e Jonas alquebrado e abatido – seus ouvidos, como duas conchas do mar ainda ressoando o inumerável murmúrio do oceano -, Jonas cumpriu as ordens do Todo-Poderoso. E qual era a ordem, companheiros de bordo? Pregar a Verdade diante da Falsidade! Isso mesmo!
            “Esta, companheiros de bordo, esta é aquela outra lição; e ai do piloto de Deus vivo que a desdenha. Ai de quem o mundo distrai do dever do Evangelho” Ai de quem tenta verter azeite sobre as águas, quando Deus as fermenta em tempestade! Ai de quem tenta agradar em vez de consternar! Ai daquele para quem um nome bom significa mais do que a bondade! Ai de quem, neste mundo, não receia a desonra! Ai de quem não for verdadeiro, mesmo que a falsidade seja a salvação! Sim, ai de quem, como diz o grande Piloto Paulo, prega aos outros ao mesmo tempo em que também está perdido!”
            Por uns instantes recolheu-se a uma reflexão; depois levantou o rosto novamente, mostrando uma profunda alegria nos olhos, e proclamou com muito entusiasmo: “Mas, oh! Companheiros! A estibordo [à direita] de todo infortúnio é certo que existe uma alegria; e o ápice dessa alegria é tanto mais alto quanto mais profundo é o infortúnio. Não são mais altos os topes de mastro do que profundas as quilhas? A alegria – uma alegria elevada, elevadíssima, do coração – é para aqueles que opõem sua inexorável personalidade aos deuses e aos comodoros orgulhosos deste mundo. A alegria é para aquele cujos braços fortes o sustentam quando a nau deste mundo traiçoeiro e ignóbil lhe afunda sob os pés. A alegria é para aquele que não cede à mentira e que mata, queima e destrói o pecado, mesmo que tenha que procura-lo sob as togas dos Senadores e Juízes. A alegria – a alegria suprema – é para aquele que não conhece outra lei ou senhor a não ser Deus, nem outra pátria que o céu. A alegria é para aquele a quem nem as ondas do mar nem as turbulências da multidão conseguem desviar da Quilha dos Tempos. E a alegria e a delícia eterna são para aquele que ao deitar-se pode dizer com seu último alento – Ó, Pai! – que conheço especialmente por Tua verga – mortal ou imortal, aqui eu morro. Esforcei-me para ser Teu, mais do que do mundo ou de mim próprio. Contudo, isso não é nada: deixo a eternidade só para Ti; pois o que é o homem, para viver tanto quanto seu Deus?”
            Não disse mais nada, mas, fazendo lentamente uma benção, cobriu seu rosto com as mãos e assim ficou, de joelhos, até que todos partiram, deixando-o sozinho no local.

Texto transcrito do livro “Moby Dick”, de Herman Melville, tradução Alexandre Barbosa de Souza, editora Cosacnaify. (Anatoli Oliynik)


JONAS
Este livro não é uma profecia, mas a história de determinada missão de Jonas a Nínive. Ainda se discute sobre seu gênero literário que parece ser didático: O Espírito Santo, por meio do autor inspirado, narra uma história fictícia para ensinar que Deus governa todas as criaturas inclusive os homens, mesmo quando estes não querem obedecer, e que as profecias de castigos futuros visam principalmente a conversão dos interessados mesmo que estes sejam pagãos, além de outros muitos ensinamentos que vão aparecendo no desenrolar da história.
Jonas, 1
1. A palavra do Senhor foi dirigida a Jonas, filho de Amitai, nestes termos:
Jonas é apresentado como verdadeiro profeta, de modo que o não-cumprimento de suas ameaças contra Nínive vem mostrar que essas predições feitas em nome de Deus em tom absoluto, na realidade, estavam condicionadas por Deus à conversão ou obstinação dos ninivitas.
2. Levanta-te, vai a Nínive, a grande cidade, e profere contra ela os teus oráculos, porque sua iniqüidade chegou até a minha presença.
3. Jonas pôs-se a caminho, mas na direção de Társis, para fugir do Senhor. Desceu a Jope, onde encontrou um navio que partia para Társis; pagou a passagem e embarcou nele para ir com os demais passageiros para Társis, longe da face do Senhor.
Jonas, por um mesquinho espírito nacionalista toma o caminho oposto para não pregar em uma cidade pagã, apesar da ordem de Deus. Quantas vezes os nossos preconceitos e o respeito humano nos tem levado a imitar este mau exemplo de Jonas desobedecendo a ordens claras de Deus?
4. O Senhor, porém, fez vir sobre o mar um vento impetuoso e levantou no mar uma tempestade tão grande que a embarcação ameaçava espedaçar-se.
5. Aterrorizados, os marinheiros puseram-se a invocar cada qual o seu deus, e atiraram no mar a carga do navio para aliviarem-no. Entretanto, Jonas tinha descido ao porão do navio e, deitando-se ali, dormia profundamente.
Profundo sono: ótima imagem da insensibilidade do pecador que foge de Deus e se coloca na atitude de não tomar conhecimento de advertência alguma.
6. Veio o capitão e o despertou: Dorminhoco! Que estás fazendo aqui? Levanta-te e invoca o teu Deus, para ver se ele se lembra talvez de nós e nos livre da morte.
7. Em seguida disseram os marinheiros entre si: Vinde e tiremos à sorte para sabermos quem é a causa deste mal. Lançaram a sorte e esta caiu sobre Jonas.
8. E perguntaram-lhe: Tu, por quem nos acontecem estes males, dize-nos qual é a tua profissão? De onde vens? A que país e a que raça pertences?
9. Sou hebreu, respondeu ele. Adoro o Senhor, Deus dos céus, que criou o mar e todos os continentes.
10. Ficaram então aqueles homens possuídos de grande temor, e disseram-lhe: Por que fizeste isto? Pois tinham compreendido, pela própria declaração de Jonas, que este fugia para escapar à ordem do Senhor.
11. E disseram-lhe: Que te havemos de fazer para que o mar se acalme em torno de nós? Porque o mar tornava-se cada vez mais ameaçador.
12. Tomai-me, disse Jonas, e lançai-me às águas, e o mar se acalmará. Reconheço que sou eu a causa desta terrível tempestade que vos sobreveio.
13. Os homens remavam para ver se conseguiam ganhar a costa, mas em vão, porque o mar se embravecia cada vez mais contra eles.
14. Então invocaram o Senhor: Senhor, disseram eles, não nos façais perecer por causa da vida deste homem, nem nos torneis responsáveis pela vida deste homem que não nos fez mal algum. Vós, ó Senhor, fizestes como foi do vosso agrado.
15. E, pegando em Jonas, lançaram-no às ondas, e a fúria do mar se acalmou.
16. Tomada de profundo sentimento de temor para com o Senhor, a tripulação ofereceu-lhe um sacrifício, acompanhado de votos.

Jonas, 2

1. O Senhor fez que ali se encontrasse um grande peixe para engolir Jonas, e este esteve três dias e três noites no ventre do peixe.
2. Do fundo das entranhas do peixe, Jonas fez esta prece ao Senhor, seu Deus:
3. Em minha aflição, invoquei o Senhor, e ele ouviu-me. Do meio da morada dos mortos, clamei a vós, e ouvistes minha voz.
4. Lançastes-me no abismo, no meio das águas e as ondas me envolviam. Todas as vossas vagas e todas as vossas ondas passavam sobre mim.
5. E eu já dizia: fui rejeitado de diante de vossos olhos. Acaso me será dado ainda rever vosso santo templo?!
6. As águas envolviam-me até a garganta, o abismo me cercava. As algas envolviam-me a cabeça.
7. Eu tinha descido até as raízes das montanhas, até a terra cujos ferrolhos eternos (se fecharam) sobre mim.
8. Quando desfalecia a minha vida, pensei no Senhor; minha oração chegou a vós, no vosso santo templo.
9. Os que servem a ídolos vãos abandonam a fonte das graças.
10. Eu, porém, oferecerei um sacrifício com cânticos de louvor, e cumprirei o voto que fiz. Do Senhor vem a salvação.
11. Então o Senhor ordenou ao peixe, e este vomitou Jonas na praia.

Jonas, 3

1. A palavra do Senhor foi dirigida pela segunda vez a Jonas nestes termos:
2. Vai a Nínive, a grande cidade, e faze-lhe conhecer a mensagem que te ordenei.
3. Jonas pôs-se a caminho e foi a Nínive, segundo a ordem do Senhor. Nínive era, diante de Deus, uma grande cidade: eram precisos três dias para percorrê-la.
4. Jonas foi pela cidade durante todo um dia, pregando: Daqui a quarenta dias Nínive será destruída.
5. Os ninivitas creram (nessa mensagem) de Deus, e proclamaram um jejum, vestindo-se de sacos desde o maior até o menor.
6. A notícia chegou ao conhecimento do rei de Nínive; ele levantou-se do seu trono, tirou o manto, cobriu-se de saco e sentou-se sobre a cinza.
7. Em seguida, foi publicado pela cidade, por ordem do rei e dos príncipes, este decreto: Fica proibido aos homens e aos animais, tanto do gado maior como do menor, comer o que quer que seja, assim como pastar ou beber.
8. Homens e animais se cobrirão de sacos. Todos clamem a Deus, em alta voz; deixe cada um o seu mau caminho e converta-se da violência que há em suas mãos.
9. Quem sabe, Deus se arrependerá, acalmará o ardor de sua cólera e deixará de nos perder!
10. Diante de uma tal atitude, vendo como renunciavam aos seus maus caminhos, Deus arrependeu-se do mal que resolvera fazer-lhes, e não o executou.

Jonas, 4

1. Jonas ficou profundamente indignado com isso e, muito irritado, dirigiu ao Senhor esta prece: Ah, Senhor, era bem isto que eu dizia quando estava ainda na minha terra! É por isso que eu tentei esquivar-me, fugindo para Társis,

Jonas se angustiou ...: pois temia passar por falso profeta ou que a palavra de Deus caísse e descrédito.

2. porque sabia que sois um Deus clemente e misericordioso, de coração grande, de muita benignidade e compaixão pelos nossos males.
3. Agora, Senhor, toma a minha alma, porque me é melhor a morte que a vida.
4. O Senhor respondeu-lhe: (Julgas que) tens razão para te afligires assim?
5. Então saiu Jonas da cidade e fixou-se a oriente da mesma cidade. Fez uma cabana para si e lá permaneceu, à sombra, esperando para ver o que aconteceria à cidade.
6. O Senhor Deus fez crescer um pé de mamona, que se levantou acima de Jonas, para fazer sombra à sua cabeça e curá-lo de seu mau humor. Jonas alegrou-se grandemente com aquela mamoneira.
7. Mas, no dia seguinte, ao romper da manhã, mandou Deus um verme que roeu a raiz da mamona, e esta secou.
8. Quando o sol se levantou, Deus fez soprar um vento ardente do oriente, e o sol dardejou seus raios sobre a cabeça de Jonas, de forma que o profeta, desfalecido, desejou a morte, dizendo: Prefiro a morte à vida.
9. O Senhor disse a Jonas: (Julgas que) fazes bem em te irritares por causa de uma planta? Jonas respondeu: Sim, tenho razão de me irar até a morte.
10. Tiveste compaixão de um arbusto, replicou-lhe o Senhor, pelo qual nada fizeste, que não fizeste crescer, que nasceu numa noite e numa noite morreu.
11. E então, não hei de ter compaixão da grande cidade de Nínive, onde há mais de cento e vinte mil seres humanos, que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda, e uma inumerável multidão de animais?..
Embora conhecesse a misericórdia divina, não conseguiu compreender o perdão concedido, até que Deus lhe explicou por meio do crescimento e morte da hera (vv. 9-11)

x - x - x

O livro de Jonas foi transcrito da Bíblia Católica Ave Maria (http://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/jonas/#.Uy26QoXlrs4) e as notas em azul, foram transcritas da Bíblia Católica, tradução de Padre Antônio Pereira de Figueiredo, Edição Barsa, 1965. (Anatoli Oliynik).


[1] Lado direito do navio.
[2] Lado esquerdo do navio.
[3] Na tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo, edição Barsa, 1965, o texto é encontrado em Jon 2, 1: Oração e salvação de Jonas “Ao mesmo tempo preparou o Senhor um grande peixe, que engoliu a Jonas: E Jonas estava no ventre do peixe três dias e três noites.”
[4] Mastro colocado obliquamente na proa de um navio.
 
O FILME


7 comentários:

Mauricio Nunes disse...

Moby Dick esteve na minha lista de livros para 2016 mas o ano acabou e não li. Agora com a leitura do artigo, vai ser o primeiro de 2017.

Luiz Henrique disse...

Anatoli que Deus abençõe poderosamente a sua vida. Continue por favor o seu trabalho, estou a cada dia mais convencido da importância dos clássicos em nossa vida, eles realmente nos iluminam. A Cultura é um grande meio que nos tornam pessoas melhores. Muito Obrigado pelo seu trabalho. Que a Virgem Maria cuide de você

Anatoli. disse...

Luiz Henrique: Salve Maria! Agradeço as palavras de incentivo a este modesto, mas sincero trabalho. Que a Imaculada Conceição retribua em dobro os votos a mim endereçados. Você tem razão, só os grandes clássicos são capazes de nos iluminar na senda da vida. Espero revê-lo outras vezes. Dominus Vobiscum!

Mauricio Nunes disse...

Amigo Anatoli, você recomenda para leitura exatamente esta edição da Cosac Naify ou existe alguma outra edição mais antiga, também recomendável? Achei o preço desta edição da Cosac um pouco elevado. Obrigado pela atenção.

Anatoli. disse...

Maurício:
Existe uma edição da Biblioteca Folha (Publifolha) e Ediouro, tradução de Berenice Xavier, mas só encontrável em sebos. Esta edição da Folha ou da Ediouro é melhor que a edição CosacNaify. Você terá que pesquisar com paciência para encontrá-la, mas valerá a pena. Eu só não indiquei-a pela dificuldade em encontrá-la. Boa sorte Amigo leitor!

Mauricio Nunes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mauricio Nunes disse...

Obrigado pela orientação. Foi fácil de achar na Estante Virtual. E com ótimo preço. Agora é embarcar na viagem a bordo do Pequod. Grande abraço.