terça-feira, 1 de novembro de 2011

DEMIAN

Título original: DemianAutor: Hermann Hesse (1877-1962)
Tradução: Ivo Barroso
Editora: Record
Assunto: Romance
Edição: 41ª
Ano: 2009
Páginas: 188

Sinopse: O livro relata o amadurecimento de um jovem a partir de sua estranha relação com um rapaz de personalidade misteriosa e sedutora, que muda sua vida para sempre.

O tema central do livro é o conflito entre a dualidade “mundo luminoso” (ideal) e “mundo sombrio” (real) por que tem de passar Sinclair para encontrar a sua personalidade.

Resumo da narrativa: O livro conta a história de um jovem -- Emil Sinclair, protagonista e narrador -- criado por pais muito piedosos que, de repente, se vê em um mundo bem diferente daquele pregado por seus pais e avós. Atormentado pela falta de respostas às perguntas que faz sobre sua existência, passa a procurar na introspecção suas respostas. Dividido entre o mundo ideal e o real, com suas interpretações (mundo claro e paternal, associado às idéias de seus pais e à residência destes, e o mundo sombrio e frio, externo à residência dos pais e com valores estranhos a estes), Sinclair experimenta ambos, através do confronto com suas próprias concepções, para tentar encontrar sua verdadeira personalidade. Percorrendo este caminho perigoso, influenciado por Max Demian, um colega de classe precoce e envolvente, ele prova do crime, da amizade e das incertezas -- surpresas que engendram as descobertas de sua vida adolescente. Sinclair, então, se rebela contra as convenções sociais e descobre não apenas o doce sabor da independência mas também seu poder de praticar o bem ou o mal. A relação de Sinclair e Demian atravessa toda a narrativa a partir do momento que os personagens se conhecem. Demian revela a Sinclair que existem filhos de Caim, pessoas que possuem a capacidade de exercer o bem e o mal; também apresenta a entidade Abraxas, divindade de características humanas -- também capaz de exercer o bem e o mal. A obra tem muitas referencias bíblicas, como o Sinal de Caim e o Gólgota[1], tornando dificil a leitura a quem não sabe muito sobre a religião cristã, mas também trata de misticismo e autoconhecimento, da busca da essência do Eu. A obra narra principalmente os conflitos internos que um indivíduo passa desde a infância, através da adolescência, até sua idade adulta. É possível afirmar que Demian trata-se de um romance iniciático, descrevendo os contatos de um indivíduo com aspectos existenciais e de sua personalidade.

Comentários: Considerada por muitos críticos a principal obra de Hesse, Demian mostra a influência que este sofreu dos escritos de Nietzsche [aqui está o grande problema de Hesse. Ele parte de um caminho falso!] e a aplicação de seus conhecimentos de psicanálise na elaboração do drama ético e da enorme confusão mental de um jovem que toma consciência de sua fragilidade diante da ausência total de compostura da moral sancionada pelos pais e pelo Estado e sai em busca da verdade e de si mesmo.

O livro reflete, obviamente, a tendência do introduzir na literatura a doutrina de Freud, que estava na ordem do dia, e da qual Hesse era um apaixonado estudioso. Daí a presença constante do onirismo[2] na obra, de um certo entrevelado complexo de Édipo (aqui exposto através de um sutil mecanismo de transferência), de permeio com reminiscência de estudos de ciências antigas e herméticas, hauridos na intimidade da biblioteca do avô materno.

Hermann Hesse era um homem atormentado espiritualmente e só encontra a sua verdadeira identidade no catolicismo magistralmente relatado na sua ultima obra “O Jogo das Contas de Vidro”.

À guisa de prólogo: “Para relatar a história de minha vida, devo recuar alguns anos. Se me fosse possível, deveria retroceder ainda mais, à primeira infância, ou mais ainda, aos primórdios de minha ascendência”.

Os romancistas, quando escrevem suas obras, costumam proceder como se fossem Deus e pudessem abranger com o olhar toda a história de uma vida humana, compreendendo-a e expondo-a como se o próprio Deus a relatasse, sem nenhum véu, revelando a cada instante sua essência mais íntima. Não posso agir assim, e os próprios poetas não o conseguem. Minha história é, no entanto, para mim, minha própria história, e a história de um homem – não a de uma personagem inventada, possível ou inexistente em vivo. Hoje sabe-se cada vez menos o que isso significa, o que seja uma homem realmente vivo, e se entregam à morte sob o fogo da metralha a milhares de homens, cada um dos quais constitui um ensaio único e precioso da Natureza. Se não passássemos de indivíduos isolados, se cada um de nós pudesse realmente ser varrido por uma bala de fuzil, não haveria sentido algum em relatar histórias. Mas cada homem não é apenas ele mesmo; é também um ponto único, singularíssimo, sempre importante e peculiar, no qual os fenômenos do mundo se cruzam daquela forma uma só vez e nunca mais. Assim, a história de cada homem é essencial, eterna e divina, e cada homem, ao viver em alguma parte e cumprir os ditames da Natureza, é algo maravilhoso e digno de toda a atenção.

Sobre o autor: Contista, poeta, ensaísta e editor de obras importantes da literatura alemã, Hermann Hesse nasceu em 2 de julho de 1887 na pequena cidade de Calw, na Alemanha. Filho de um missionário, pregador pietista[3], Hesse passou a infância na sua cidade. Viveu na Basiléia de 1881 a 1886 e freqüentou, em 1890, a escola de latim em Goppingen, diplomando-se em 1891. Conseguiu escapar dos estudos de teologia ao fugir do seminário de Maulbronner. Começou a trabalhar cedo, empregando-se em uma livraria em Ebingen e mais tarde como antiquário. A partir de 1903, dedica-se exclusivamente à literatura.

Desencantado com a civilização européia, viajou para Índia em 1911 para conhecer a vida no Extremo Oriente. Partidário do pacifismo lutou contra “a loucura sangrenta da guerra”. Exatamente por protestar contra a Primeira Guerra Mundial, perdeu a cidadania alemã, tornando-se cidadão suíço. Hesse é um dos principais representantes dos escritores do século XX que procuraram manterem-se fiéis às tradições literárias românticas e clássicas, em contraposição à era folhetinesca e propagandística. Sua primeira grande obra, Peter Camenzind, foi lançada em 1904, e trata do melancólico desenvolvimento de um homem de origem modesta que, dotado de talento musical e espírito idealista, não consegue satisfazer as exigências práticas da sociedade.

A índole acentuadamente romântica e a tendência para a análise psicológica caracterizaram as primeiras obras de Hesse. Em 1919 ele publicou Demian, considerado seu melhor livro pelos críticos [Considero como o melhor livro “O jogo das contas de vidro”]; O último verão de Klingsor, em 1920; Sidarta, em 1922; O lobo da estepe, em 1927; Narciso e Goldmund, em 1930; O jogo das contas de vidro, em 1943; e muitas outras obras. Em 1946, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Morreu em 9 de agosto de 1962 aos 75 anos.

[1] Gólgota [Do top. Gólgota] Lugar de suplício.

[2] Onirismo [De onir(o)- + -ismo.] 1. Psiq. Quadro alucinatório grave que se apresenta sob a forma de sonho vivido.

[3] Pietismo foi um movimento protestante nascido na Igreja Luterana alemã do séc. XVII como reação ao dogmatismo da Igreja oficial. Consiste em concentrar a prática religiosa a pequenos círculos de meditação e de oração. O criador é Philipp Jacob Spener (1635-1705) e o maior disseminador é o conde de Zinzerdorf (1700-1760), criador da Ordem do Grão de Mostarda [muito citado no livro: “Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister” de Goethe]. Anatoli Oliynik.

Abraxas (cs) [Do grego abraxás, poss. criptograma (= 'Que Deus proteja') de origem hebraica.] 1. Palavra simbólica entre os gnósticos, que exprime o curso do Sol nos 365 dias do ano. 2. Talismã gnóstico gravado com essa palavra.

2 comentários:

Silviah Carvalho disse...

Olá Anatoli, achei interessante a descrição do livro, espero ter a oportunidade de um dia lê-lo.
Também gostei deste blog, não é a primeira vez que venho aqui.
Eu voltarei.
Boa noite, boa semana.
Aguardo uma visita sua.

Anatoli. disse...

Silviah:
Obrigado, mais uma vez pelas visitas e elogios. Se você for ler esta obra, sugiro que você leia a trilogia pela ordem: 1)O lobo da estepe; 2) Demian; 3) O jogo das contas de vidro. Assim procedendo você terá a compreensão clara do drama pessoal de Hermann Hesse e conhecerá a resposta que Hesse encontrou para o dilema de sua vida pessoal.
Ficarei aqui, torcendo para que você o faça.
Um abraço cordial.