sexta-feira, 7 de maio de 2010

OS DEMÔNIOS

Título original: Biêsi
Autor: Fiódor Mikháilovitch Dostoievski (1821-1881)
Tradução: Paulo Bezerra (Tradução do original russo)
Assunto: Romance
Editora: 34
Edição: 1ª
Ano: 2004
Páginas: 704

Sinopse: Os demônios é um romance essencial para compreender a mente revolucionária, a mentalidade de radicais políticos de todos os matizes e, sobretudo, para compreender uma das mais nefastas criaturas políticas de todos os tempos: o terrorista. O romance é essencial, também, para compreender o utopista ideológico ateu (Stiepan Trofímovitch Vierkhoviénski) que produz o revolucionário prático (Piotr Stiepánovitch).

Inspirado por um episódio verídico ― o assassinato do estudante I. I. Ivanov cometido na Rússia por um grupo niilista liderado por S. G. Nietcháiev em 1869 ―, Dostoiévski fez a anatomia ficcional do fanatismo ideológico, antecipando muito dos horrores dos séculos seguintes, do stalinismo ao fundamentalismo que amedronta o mundo hoje.

O livro trata, também, da redenção do homem ateu (Stiepan) que pretendeu divinizar o mundo e ao final da vida descobre Deus e reconhece que viveu uma ilusão durante toda a sua existência. É o encontro do ateu com Deus.

Este livro é recomendado a todos aqueles que desejam compreender a gênese das idéias revolucionárias e utópicas (Stiepan Trofímovitch Vierkhoviénski) até o aparecimento de um louco (Piotr) que pretende colocá-las em prática originando mais tarde os horrores do marxismo-leninista que vitimou mais de cem milhões de pessoas em todo o mundo. E por que disso? Porque a mente revolucionária dos utopistas pensa que é possível matar Deus e destruir a realidade do mundo existente para colocar em seu lugar um homem novo e um mundo novo, ambos construídos por eles.

José Monir Nasser diz que a obra é “um bisturi afiado dissecando a mente revolucionária”.

Comentários sobre o autor e sua obra: Dostoievski publicou Os demônios dez anos antes de morrer. Trata-se de um romance a fazer parte do quarteto que compõe o ápice de sua carreira. Os demônios é, de fato, uma referência inevitável no crepúsculo de uma carreira que não conheceu crepúsculo, antes, chegou ao limite no seu máximo, embora o sujeito Fiódor Mikháilovitch já sucumbisse a uma existência torturada tanto pela doença (epilepsia), quanto pelos problemas mais agudos como o vício do jogo, as dívidas altas e recorrentes, a viuvez, a morte de um filho, a prisão e a condenação à morte (da qual se salvou não sem trauma).

Falar em Dostoiévski é falar no romance bruto, no sentido mais metafórico e, simultaneamente, justo para o gênero. Seus temas, seu estilo, nervoso, fundos até a exaustão das figuras e das circunstâncias que as engolem, representam para a ficção moderna uma retomada narrativa que antes dele se dava de forma quase plana. Dostoiévski antecipa Freud, sem as explicações deste, mas com todas as doenças da alma expostas sem piedade, nas ruas, pensões, salas, quartos, salões, e até mesmo numa poltrona; sem conforto ou com conforto, seus protagonistas sofrem o dilema de carregarem o peso de si mesmos.

É de se recortar do romance (embora seja uma operação condenada à derrota esse recorte, já que o ficcionista escreve com fervor cada linha, descreve sua gente e o destino que a empurra para o precipício numa atmosfera de constante febre) a morte irrepetível de Chátov (Toda morte é irrepetível, e isso não é metafísica barata. Em Dostoiévski esta máxima, a do irrepetível, se cumpre praticamente de cinco em cinco páginas). Todos são protagonistas, tudo é protagonismo, e o cenário envolve como uma camisa-de-força os seres que cumprem à risca os papéis menos recomendáveis, como Kirillov, uma bomba ambulante, Stavróguin, aristocrata, vendo o mundo de cima e quase cuspindo nele, Piotr Stiepánovitch, que lidera a revolução que prega com a obsessão dos líderes frente aos quais nenhum argumento cala e todo adversário sabe ou saberá, bem cedo, o tamanho da sentença com que Piotr Stiepánovitch responde a qualquer contrariedade.

A dimensão política faz seu nicho e o que é clamado em nome da sociedade termina por escravizar cada homem.

Um detalhe importante. No Brasil saíram algumas traduções anteriores do livro. Muitas com o título de Os possessos. Paulo Bezerra, que traduziu o livro diretamente do russo, diz que chamar de possessos ao grupo das personagens da obra é tirar-lhes a dimensão demoníaca. E eu acrescento que não há possessão, há demonização expressa nos atos de homens que já não consideram a espiritualidade como única possibilidade humana para levá-lo a verdadeira felicidade que só pode ser encontrada em Deus. O diabo não é inimigo de Deus, porque Deus não tem inimigos. O diabo é inimigo dos homens. Portanto, é preciso combatê-lo.

Enfrentar um romance desse naipe é cair na sua realidade, é o pesadelo das atrocidades que vêm se somando com Lênin, Stálin, Mao tse-tung, Pol Pot, Fidel Castro, entre outros. E não são esses ases do terror os únicos demônios. Há outros, notadamente os que estão sendo produzidos aqui no Brasil e na América Latina.

Portanto, há demônios entre os homens e homens entre os demônios, e a aliança se faz quando os demônios intentam destronar Deus, divinizar a humanidade e criar o Brave New World.

Quando o ser humano diviniza o mundo real, o Estado e a sociedade, tudo perde o sentido. A vida de cada um de nós tem que ter um sentido e este sentido precisa ser interior e jamais exterior. Nós é que não queremos enxergar, ou, se enxergamos, onde está a força de espírito para encarar o monstro e extingui-lo em nome de uma humanidade que mereça seu nome?

3 comentários:

Cavaleiro do Templo disse...

Anatoli, obrigado pelo apoio ao Klauber no Liberatum. Meu objetivo foi, "triplamente" atingido, por assim dizer.

Cavaleiro do Templo

Aksínia disse...

Parabéns pelo post. Dostooievski é indispensável, para mim, o maior escritor da humanidade e Os Demônios uma obra grandiosa. Taí, gostei do seu blog. Parabéns pelo bom gosto, de coração.

Anatoli. disse...

Aksinia:

Obrigado pelo apoio ao blog. De fato, Dostoiévski não só é o maior escritor que a Rússia teve em toda a sua história, como é um dos maiores escritores da humanidade. Suas obras são magistrais, verdadeiros monumentos.