sábado, 1 de setembro de 2012

CRISE E UTOPIA: O Dilema de Thomas More

Autor: Martim Vasques da Cunha
Assunto: Filosofia
Editora: Vide Editorial
Edição: 1ª
Ano: 2012
Páginas: 324

Sinopse: Este livro procura falar sobre a 'crise da modernidade' no coração do Humanismo europeu.

Comentários: Habitar um mundo onde desconhecemos o certo do errado, o justo do injusto, o Bem do Mal – eis a “crise da modernidade”, segundo Leo Strauss, que em The Three Waves of Modernity deu rostos a essa crise.

O primeiro deles teria sido Maquiavel, o florentino que aceitou a divisão profunda entre ser e dever ser, recusando o horizonte espiritual do Cristianismo e procurando numa reactualização da Roma Antiga as virtudes pagãs para a manutenção do poder. Se a fortuna é como uma mulher que pode ser subjugada pelo uso da força, de nada valem as antigas piedades cristãs. Elas podem ser boas para a alma individual, mas são nocivas para a firmeza e a conservação dos Estados.

Nas “vagas da modernidade” de Strauss, o que começa com Maquiavel continua com Rousseau e termina com Nietzsche: o niilismo está consumado. Não existe mais nenhum standard universal, transtemporal e transespecial, que permita aos homens atuar na história terrena conservando ainda um quadro axiológico sub specie aeternitatis. Os homens estão agora entregues ao seu destino – o que significa, no limite, que eles escolhem e produzem os seus próprios valores.

A importância de Crise e Utopia: O Dilema de Thomas More, uma obra notável sobre a “crise da modernidade” no coração do Humanismo europeu, está na escolha de Thomas More como o primeiro rosto que Strauss esqueceu. Maquiavel é já um convertido à “política da fé”, para usar a expressão racionalista de Michael Oakeshott. Mas Thomas More situa-se antes do dilúvio consumado, embora antecipando e vivendo na ansiedade do turbilhão.

E as perguntas – dilacerantes para More – confluem para o mesmo ponto: em que cidade podemos, ou devemos, viver? Na cidade dos homens? Na cidade de Deus? E que relação é possível estabelecer entre ambas? Haverá ainda uma unidade espiritual entre a alma bem ordenada e uma polis que seja a extensão dessa alma? E como atuar neste wretched world? Como conciliar os princípios com as circunstâncias, sem necessariamente sacrificar os primeiros – ou, mais ainda, sem vergar as circunstâncias às “metástases da fé”?

Thomas More formulou todas estas perguntas: na sua conduta privada na corte de Henrique VIII e na sua produção intelectual, onde se destaca Utopia, que Martim Vasques da Cunha apresenta como a culminação irónica e desencantada da “crise da modernidade”: a evidência cruel de que “o recuo da comunidade cristã”, para usar uma expressão cara a Roger Scruton, apenas nos conduz a “palavras, palavras, palavras” – no fundo, a esse Lugar Nenhum onde teremos como cicerone um mestre da efabulação – e das “bobagens”.

Para Leo Strauss, a “crise da modernidade” não representaria apenas um impasse ético, mas também epistemológico: se desconhecemos a verdade, como a procurar? Ou, dito ainda de outra forma, que papel resta ao “intelectual secular” quando ele sente que a ordem espiritual se foi eclipsando na polis? Cabe-lhe ser conselheiro de príncipes, tarefa a que o referido florentino se entregou com entusiasmo? Ou haverá ainda espaço para evitar essa “traição”, como a caracterizou Julien Benda, e conservar um reduto último e inegociável que, na falta de melhor palavra, designaremos por “consciência”?

Martim Vasques da Cunha mostra-nos que as tentativas de resposta a essa pergunta agónica não se limitaram a ocupar a pena de Thomas More. Na verdade, elas o acompanharam literalmente até ao fim da vida.
(Texto de João Pereira Coutinho nas orelhas do livro, Lisboa, 6 de fevereiro de 2012)



sexta-feira, 3 de agosto de 2012

O ESCRITOR E SUA MISSÃO

Título original:      
Autor: Thomas Mann (1875-1955)
Tradução: Kristina Michahelles
Editora: Zahar
Assunto: Ensaios
Edição: 1ª
Ano: 2011
Páginas: 208
Sinopse: Thomas Mann tem uma vasta e relevante produção não ficcional, pouco conhecida e/ou publicada no Brasil. Para divulgá-la, a Zahar está lançando a série Thomas Mann - Escritos & Ensaios, com volumes organizados especialmente para o público brasileiro. Este primeiro volume, 'O escritor e sua missão', reúne 12 ensaios a respeito da obra (e muitas vezes também a vida) de expoentes como Tolstói, Goethe, Dostoiévski, Hermann Hesse, Shaw, Heinrich Heine, Ibsen, Zola e Tchekhov. São textos escritos por Mann em contextos variados: homenagens em datas comemorativas de Goethe e Tolstói, necrológio para George Bernard Shaw e Hugo von Hofmannsthal, prefácio a uma edição de Dostoiévski, resposta a uma pesquisa de um jornal no caso de Ibsen... E versam sobre temas não menos diversos, tais como os pontos de aproximação entre as obras de Ibsen e Wagner, papel de Goethe como representante da era burguesa, a relação entre Dostoiévski, sua doença e sua produção literária. Eruditos e instigantes, os ensaios oferecem uma luz original não apenas sobre outros autores, mas também sobre o próprio Mann, pois dialogam com sua produção ficcional, refletindo os interesses, preocupações e desafios que o estimularam ao longo de sua trajetória.
Em alguns momentos, o leitor terá a impressão de que o autor comenta seus próprios textos ao analisar os escritos alheios. Um livro essencial para se aprofundar não apenas na obra de escritores modernos europeus e o contexto em que foram realizados os seus escritos, mas também no próprio pensamento de Thomas Mann.
Resenha: O artigo que abre o volume intitula-se “Sobre Heinrich Heine”. Trata-se de um pequeno texto em que Mann elogia a obra desse poeta alemão de origem judaica que foi, provavelmente, o primeiro sujeito a receber a alcunha de “último dos românticos” e que foi celebrizado pela musicalização que compositores como Schumann, Brahms e Schubert fizeram de seus versos. O artigo visava defender a construção de um monumento em homenagem a Heine, projeto que, na época, estava atravancado pelo furor antissemita que grassava na Alemanha.
O segundo texto é “Ibsen e Wagner”. Nele, Mann estabelece um paralelo entre as obras do compositor Richard Wagner, famoso por “O Anel dos Nibelungos”, seu ciclo operístico megalomaníaco (no melhor dos sentidos), e a dramaturgia de Henrik Ibsen, partindo de uma observação casual de Hermann Levy, um famoso regente de Bayreuth, que, ao assistir pela primeira vez a uma peça de Ibsen, teria dito: “Ou bem isto é ridículo, ou é tão grandioso quanto Wagner.” Mann advoga que Ibsen e Wagner, na comédia de costumes e na ópera, respectivamente, foram capazes de transcender os gêneros que cultivaram, criando, a partir de sua matéria bruta, algo novo e perfeito.
A seguir, o [terceiro] ensaio “Tolstói – no centenário do seu nascimento” apresenta um retrato semiliterário do romancista russo. Mann o enaltece como um homem de fibra e personalidade, representante dos melhores valores e do espírito épico da segunda metade do século XIX, uma espécie de profeta que, mesmo quando tencionava deixar a arte de lado para transmitir lições e opiniões, escrevia com criatividade e imensa lucidez, tanto que, nas palavras de Mann, foi capaz de conceber “o romance social mais poderoso da literatura mundial”: Anna Karenina.
[Quarto ensaio] O necrológio “In memoriam Hugo von Hofmannsthal” focaliza muito mais a relação de amizade de Mann com o poeta e dramaturgo austríaco do que a obra deste, a qual, pelo menos no Brasil, é mais conhecida através dos libretos que ele escreveu para várias óperas de Richard Strauss. Não deixa de ser interessante apreciar, através dos relatos de Mann, um pouco dos bastidores da cena literária alemã do começo do século XX, da camaradagem e das trocas entre os autores de então, e ainda deparar com percepções preciosas de Mann, como a seguinte descrição da pessoa de Hofmannsthal:
“Ele tinha uma maneira de compreender antes que o próprio interlocutor compreendesse, de aperfeiçoar e dar sequência a coisas que capturava no ar, fazendo com que a conversação transcorresse com leveza onírica e jocosamente inteligente.”
O quinto texto, “Discurso sobre Lessing”, é um ensaio caudaloso no qual Mann disserta sobre a obra de Gotthold Ephraim Lessing, poeta, dramaturgo, crítico de arte e filósofo, autor de Laocoonte, ou Sobre as fronteiras da pintura e da poesia, um clássico da teoria estética, enaltecendo-o como um tipo “fundador, em que vidas futuras se reconhecem”, um dos espíritos “mais crentes, bondosos e esperançosos que já viveram e se preocuparam com o humano”. Mann defende o status de poeta muitas vezes negado a Lessing pela crítica, aborda sua tendência à polêmica (descrevendo um célebre embate teológico em que Lessing se envolveu e ao final do qual acabou proibido de publicar textos sobre religião) e ainda traça um instigante paralelo entre ele e Lutero, tendo ambos como exemplos de personalidades libertárias, questionadoras e à frente de seus tempos.
[Sexto ensaio] Em “Goethe como representante da era burguesa”, Mann parte de três possíveis maneiras de avaliar a significância e o impacto de Goethe na cultura: a primeira, mais modesta, seria considerá-lo como o mestre do classicismo alemão que, de fato, forjou a noção de uma cultura alemã; a segunda, grandiloquente, mas não necessariamente exagerada, consistiria em colocá-lo entre os “grandes vultos que já passaram pela Terra”, um desses expoentes cuja influência se estende por milênios e que, por isso, acabam adquirindo aura mítica; a terceira, uma espécie de meio-termo entre as duas primeiras abordagens, seria alçar Goethe à condição de representante da “era burguesa”, isto é, o período histórico que se estende desde o século XV até a virada do século XIX. A partir daí, Mann busca retratar o autor de Werther e Fausto como um típico burguês, de “modos simples e educados”, amante da boa comida e da bebida, que se agradava da rotina e do fato de pertencer a um estrato social confortavelmente mediano, o qual seria propício ao talento, pois, nas palavras do próprio Goethe, “encontramos todos os grandes artistas e poetas nas classes médias”. Levando-se em conta o contexto histórico, é plenamente justificado o esforço de Mann para retratar Goethe dessa forma: trata-se de uma resposta aos nazistas que, na época, em 1932, ganhavam cada vez mais poder e buscavam legitimar seus ideais e suas doutrinas deturpando a imagem de grandes pensadores germânicos, como Goethe, o qual, não raro, era convenientemente descrito por eles como populista e ultranacionalista.
O sétimo ensaio que compõe o volume é “Dostoiévski, com moderação”, um prefácio redigido por Mann para uma coletânea de romances do autor russo publicada nos Estados Unidos. Aqui, Mann demonstra seu fascínio pela condição de epilético e pelo estigma de homem doente sob o qual vivia o autor de Os Demônios, condição essa que abarcaria a “grandeza religiosa dos amaldiçoados, do gênio como doença e da doença como gênio, do tipo do atormentado e do possesso, no qual o santo e o criminoso se tornam um só”. Analisa, então, a repercussão dessa doença de êxtases e convulsões sobre a personalidade marginal de Dostoiévski e sobre a sua produção literária, chegando, em certos momentos, a tecer saborosas (porém equivocadas) especulações sobre uma eventual origem psíquica da epilepsia:
“Em minha opinião ela indubitavelmente tem suas raízes no campo sexual e é uma forma selvagem e explosiva de sua dinâmica, um ato sexual deslocado e transfigurado, uma devassidão mística.”
A partir da convicção nietzscheana de que as situações de exceção condicionam o artista, “todas as situações que são profundamente aparentadas e entretecidas com sintomas doentios”, e da pré-existência do conceito de “super-homem” na obra de Dostoiévski (mais especificamente nas falas da personagem Kirilov, em Os Demônios), Mann estabelece ainda um diálogo entre o romancista russo e o filósofo niilista alemão.

- O autor, pouco antes de morrer (1955) -

[Oitavo] Segue-se o texto congratulatório “Hermann Hesse – homenagem ao seu 70º aniversário”. Nesse artigo, mais uma vez, Mann apoia-se na sua relação pessoal com o escritor comentado para tratar de assuntos universais – aqui, mais especificamente, o conflito entre a visão crítica de certos intelectuais alemães (ele próprio e Hesse inclusos) e a tacanhice ideológica e estultice patriota dos diversos setores sociais que serviram de substrato ao crescimento do nazismo ou que por ele se deixaram contaminar. Um dos primeiros pontos de contato que Mann apresenta para ilustrar sua proximidade com Hesse é o fato de ambos terem sido chamados de “miseráveis” por um certo compositor de Munique porque ambos não compactuariam com a crença de que os alemães seriam “o maior e mais nobre dos povos, ‘um canário entre rolinhas’”. A visão compartilhada de Mann e Hesse acerca da presunção e do provincianismo germânico é sintetizada em uma sentença no melhor estilo “pá de cal”: “Na Alemanha, aliás, os insatisfeitos com a cultura alemã foram sempre os mais alemães de todos.”

[Nono] Em “Bernard Shaw”, mais um necrológio contido na compilação, Mann escreve sobre aquele que, sem dúvidas, foi seu dramaturgo favorito, ressaltando o apreço que o autor dublinense tinha pela Alemanha, esse país que reconheceu sua importância para o teatro antes mesmo dos países de língua inglesa, muito embora a influência da cultura germânica sobre a obra de Shaw fosse mínima e mesmo que seu conhecimento nesse âmbito fosse “fragmentário e casual”. Outro aspecto abordado por Mann é o influxo da música na obra de Shaw, socialista radical capaz de se dedicar com idêntica paixão ao estudo de O Capital ou da partitura de “Tristão e Isolda”. Shaw era um homem austero, dado a banhos frios, vegetariano, que gostava de escrever em uma cabana de simplicidade franciscana, e essas características, que se poderiam chamar de tendência ascética de Shaw, não passam incólumes à leve (mas constante) acidez de Mann, como mostra o trecho a seguir, um excerto particularmente divertido quando lido por olhos vegetarianos:
“Na imagem de Shaw (…) há algo de magro, de vegetariano e de frígido que, para mim, não combina com a imagem de grandeza. (…) A batalha pesada (que lembra o titã Atlas) e a carga muscular e moral de um Tolstói; Strindberg, que passou pelo inferno; a morte de Nietzsche como mártir na cruz do pensamento nos insuflam esse respeito trágico. Nada disso no caso de Shaw.”
E lança, então, uma pergunta provocadora, cuja resposta deixa propositalmente em aberto: “Estaria ele acima disso ou não estaria ele à altura disso?”.
O décimo artigo, “Gerhart Hauptmann”, versa sobre o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1912, um romancista e dramaturgo alemão cuja obra, inicialmente de tendências naturalistas (vide as peças “Antes da aurora” ou “Os tecelões”), converteu-se em algo muito mais próximo de um simbolismo metafísico de forte inspiração religiosa (a novela Herege de Soana é um exemplo). Mann gasta um bom pedaço do artigo para explicar que o fato de ter se inspirado em Hauptmann para criar o cativante mas desajeitado e naïf Mynheer Peeperkorn de A Montanha Mágica foi uma homenagem, e não uma traição. Porém, ao tratar da concepção dessa caricatura, Mann não está se justificando ou pedindo escusas de qualquer tipo à opinião pública; ele está, em realidade, tratando de um tema fundamental na arte da escrita: a modelagem de personagens literárias.
O penúltimo texto, “Fragmento sobre Zola”, é uma das raras referências ao escritor francês dentro da obra ensaística de Thomas Mann. Embora ele defenda a proposta estética de Zola, considerando que seu naturalismo “se alça ao plano do simbólico e se vincula intimamente ao mítico”, é o engajamento social do autor de Germinal que o fascina sobretudo, especialmente sua intervenção no famoso caso Dreyfus, em que um oficial judeu do exército francês, em flagrante manifestação de antissemitismo, foi injustamente acusado de traição à pátria.
Encerrando a compilação O escritor e sua missão, está o belíssimo “Ensaio sobre Tchekhov”. Certa vez, no começo de sua carreira literária, quando a fama do escritor já eclipsava a do médico, Tchekhov, eternamente modesto, insatisfeito e desconfiado do próprio talento para as letras, escreveu: “Será que estou ludibriando o leitor, já que não sou capaz de responder às questões mais importantes?”. E foi essa frase que tocou fundo no espírito de Mann a ponto de fazê-lo se debruçar sobre a biografia de Tchekhov. E, de fato, o ensaio de Mann elenca e esmiúça várias passagens da vida do russo, buscando, pelo veio biográfico, explicar a gênese e a importância de sua obra, essa obra que, ao contrário das criações de Tolstói e Dostoiévski, “abriu mão da monumentalidade épica” e, mesmo assim, conseguiu encerrar em si “toda a vasta Rússia de antes da revolução, com sua natureza eterna e suas eternas condições sociais ‘desnaturadas’”.

* x * x *

Comentários: Esse caleidoscópio de ensaios, um bem temperado aperitivo da obra não-ficcional de Mann, certamente atrairá escritores (e candidatos a escritores) em busca de “conselhos” desse gigante da literatura universal sobre o ofício (até mesmo por causa do título escolhido para a coletânea, que parece insinuar algo nessa direção). Tais leitores poderão se desapontar, porque, de fato, o livro está longe de ser um “manual de criação literária” ou coisa parecida. Contudo, para quem tem sede de colher alguma dica sobre o assunto, é possível sim garimpar algumas delas entre as observações do próprio Mann e citações que ele busca em outros autores para ilustrar suas argumentações. Eis algumas delas, transcritas em uma salada proposital, sem delimitar claramente o que é original de Mann e o que é invocado por ele a partir de outros:
"A genialidade na arte seria então o elemento da surpresa e do encanto que causa pasmo, o elemento da ousadia que só pode ser conhecido em suas realizações.
(…) como ensina a estética de Schopenhauer (…) as obras mais elevadas se contentam com um mínimo de ação.
Há a dolorosa constatação de que a palavra apenas consegue elogiar a beleza física, nunca reproduzi-la, há o desafio aos poetas de abrir mão da descrição, da narrativa da beleza, para, em seu lugar, pintar para nós o bem-estar, o afeto, o amor, o encanto que a beleza causa, pois com isso, diz Lessing, “tereis pintado a beleza ela mesma”.
Uma obra-prima não pode parecer obra-prima.
Apesar de tudo, parece que um artista, um criador (…), não tem como não afirmar a vida e lhe ser fiel.
Literatura nacional já não quer dizer muita coisa; é chegada a hora da literatura mundial (…).
Sinto que, sobre o demoníaco, deve-se “poetar” e não apenas escrever.
Foi o pintor e escultor francês Degas quem afirmou que um artista deve se aproximar de sua obra como um criminoso executa seu ato.
Pois a única forma de lidar com o que é poético, irracional, é por meio da literatura, e não por intermédio da palavra que analisa e dissocia.
A insatisfação consigo mesmo constitui um elemento básico de todo talento genuíno."

(Resenha e comentários da obra são de Rafael Bán Jacobsen, extraídos de http://www.amalgama.blog.br/02/2012/o-escritor-e-sua-missao-thomas-mann/)

quinta-feira, 5 de julho de 2012

A GÊNESE DO DOUTOR FAUSTO

Título original: Die Entstehung des Doktor Faustus
Autor: Thomas Mann (1875-1955)
Tradutor: Ricardo Ferreira Henrique
Assunto: Romance (Teoria e crítica literária)
Editora: Mandarim
Edição: 1ª
Ano: 2001
Páginas: 184

Sinopse: Thomas Mann decidiu reconstruir o processo de elaboração de sua grande obra da velhice. Planejado como mero “fragmento biográfico”, A gênese do Doutor Fausto foi composto com base no seu diário íntimo e tornou-se o romance sobre um romance – mais que uma exegese literária, um relato pessoal ancorado na vida cotidiana dos tumultuados anos 40.

Durante a criação do Doutor Fausto, escrito entre maio de 1943 e janeiro de 1947, Thomas Mann registrou em seu diário os fatos políticos, históricos e pessoais da época e, um ano e meio após a conclusão do livro, começou a escrever A gênese do Doutor Fausto, a partir daqueles apontamentos.

Este livro, como o próprio Thomas Mann reconheceu, é uma “confissão direta” que serve, na leitura do Doutor Fausto, como acompanhamento indicador de todos os fatos pessoais e históricos do contexto. É muito mais do que isso, no entanto: nele o autor revela, com enorme riqueza lingüística e cultural e ironia ímpar, “a singularidade da experiência produtiva”, as pesquisas e leituras que fez para elaborar o Doutor Fausto e o nome daqueles que influenciaram na criação das personagens. Acima de tudo, ao transcrever trechos de seu diário e comentá-los, Thomas Mann faz de si personagem e de sua vida, romance dos mais magníficos.

O tradutor do livro comenta que motivos não lhe faltavam para desejar esmiuçar a história do livro: no Doutor Fausto, Thomas Mann experimentara técnicas narrativas novas, mesclando planos temporais, ficção e realidade, fazendo empréstimos ao destino de Nietzsche, à teoria musical de Schönberg, aos dramas de Shakespeare. Na Gênese, são reveladas a participação crucial do filósofo Adorno na construção do romance e a grande carga autobiográfica que Mann ali depositou, dos suicídios das irmãs ao deslumbramento pelo neto Frido.

Ao retraçar suas pesquisas e leituras para o trabalho, o septuagenário discorre com entusiasmo e maestria sobre quatro séculos de cultura, comentando obras de colegas, como Stendhal e Hauptmann, os contos de Stifter e os romances de Conrad, discutindo Beethoven e Goethe com o mesmo afã com que se mede com Joyce, Hesse, Proust.

A gênese do Doutor Fausto oferece um amplo panorama histórico do final da Segunda Guerra e do despontar da guerra fria. No papel de grande escritor banido pelos nazistas, Thomas Mann circulou nos meios diplomáticos de Washington e nas rodas glamourosas de Hollywood em conflito ideológico constante com seus conterrâneos exilados. Assim são revivificados. No calor da hora e sob a pena afiada, não só Roosevelt e Litwinow, mas ainda Chaplin e Arthur Rubinstein, Brecht e Alfred Döblin.

O subtítulo romance sobre um romance traz um grão da ironia que o autor tanto preza em seus próprios escritos e remete à fluidez das fronteiras entre os gêneros literários.

Para melhor aproveitamento da leitura desta obra recomendo ler antes o Doutor Fausto. Àqueles que desejarem se aprofundar no conhecimento do grande escritor alemão, recomendo igualmente a leitura de THOMAS MANN Uma biografia, de Donald Prater, tradução de Luciano Trigo, Editora Nova Fronteira. (Anatoli Oliynik).

sexta-feira, 1 de junho de 2012

O ERRO DE NARCISO

Título original: L’Erreur de Narcisse
Autor: Louis Lavelle (1883-1951)
Tradutor: Paulo Neves
Assunto: Ensaio filosófico
Editora: É Realizações
Edição: 1ª
Ano: 2012
Páginas: 208
 
Sinopse: Os excertos apresentação à edição brasileira e prefácio à edição francesa que se seguem, constituem a sinopse deste livro, escrito em 1939 e que permaneceu pouco divulgado para os franceses e praticamente desconhecido para os leitores e intelectuais brasileiros durante sete décadas. Apesar do tempo transcorrido este pequeno grande livro não perdeu a sua atualidade, aliás, é mais necessário nos tempos atuais do que em qualquer outra época. (Anatoli Oliynik)

Trechos da apresentação à edição brasileira: No começo, era mito. Há diferentes versões da história de Narciso, que a mitologia grega nos legou. Mas em todas o núcleo é sempre o mesmo: Narciso era um famoso adolescente, filho dos amores de um deus-rio, Cêfiso, e uma ninfa.

Quando nasceu, os pais interrogaram o vidente Tirésias sobre o destino de Narciso, e a resposta foi enigmática: o menino conheceria a velhice se não visse a si mesmo... Chegando à juventude, sua rara beleza despertava paixões ardentes nos que o contemplavam, mas era com frio desdém que ele reagia ao amor de mortais e imortais.

Como tantas, a ninfa Eco se apaixonou por Narciso e precisou amargar a mesma decepção: encerrou-se em uma solitária caverna onde foi definhando até que de sua pessoa não restasse mais do que uma voz que gemia. Então, as jovens desprezadas pediram vingança aos céus: Nêmesis, a justa, as ouviu. Em uma tarde de calor esbraseante, Narciso, fatigado de longas horas de caça, abeirou-se de um riacho para dessedentar-se.

No espelho das águas viu sua figura e por ela se apaixonou perdidamente. Nada o demoveria do enleio que o enfeitiçara: quedou-se a contemplar a própria imagem até que a morte o levou para as regiões trevosas banhadas pelo Estige. Junto a essas águas sombrias, Narciso não cessa de perseguir sua amada figura.

Narciso foi condenado a fitar para sempre o que não tem substância, o que é puro reflexo tremulando na água, fugidio, mas nem por isso menos presente e sedutor aos olhos de quem o ama.

Louis Lavelle cavou fundo nesse reino do mito de Narciso. A riqueza dos desdobramentos que o filósofo explora neste livro desnorteia, pois, à primeira vista, pode parecer que a conversão do mito de Narciso em alegoria do amor-próprio antes fecha do que abre o universo da significação. Mas felizmente Lavelle não se detém na tentação alegorizante, que conduziria à uniformidade da abstração.

Ora, a consciência que Narciso quer ter de si mesmo lhe tira a vontade de viver, isto é, de agir. Em outras palavras: contemplar-se narcisicamente é um processo compulsivo, um guante interior que agarra e sufoca o eu, paralisando o movimento de ir além de si e transcender o círculo vicioso da autofruição.

Para romper a força desse temível encantamento seria necessário transformar as águas especulares da fonte em águas originárias e fecundas que limpem o eu e animem a vontade de abrir-se aos outros, ao mundo, às surpresas do objeto.

No “eterno presente” da consciência, vigora também a tensão da vontade, que lida com as formas ainda virtuais do futuro, enquanto projeto.

Um dos tristes efeitos dessa paralisação da vontade é a impossibilidade vivida por Narciso de sair do passado, isto é, daquele seu rosto já precocemente incorporado e lisonjeado. A imagem presente de Narciso é o legado de tudo que já passou, mas que, ao mesmo tempo, ficou espelhado na aparência atual: “ali ninguém pode ler senão para trás o segredo do seu destino”.

Lavelle descreve com acuidade, aqui dolorosa, a condição do jovem belo, que se fixou prematuramente na própria imagem, bloqueando as conquistas da maturidade e arriscando-se a morrer para si antes do tempo. Tirésias acertou na sua profecia: a morte viria inapelavelmente quando Narciso olhasse para a própria figura. No lugar onde morreu, brotou uma flor a que os homens deram o nome de narciso: bordas cor de sangue tingem suas pétalas amarelas. (Alfredo Bosi)

Trechos do prefácio à edição francesa: “Este pequeno livro é grande por seu conteúdo, que retoma o problema da consciência de si pondo em evidência todas as armadilhas do amor-próprio. Lá onde Lacan vê no desdobramento do eu a constituição de uma imagem de si originária, rígida e mortífera, Lavelle designa o amor-próprio – ou a vaidade de querer dar uma falsa imagem de si – como o que impede a consciência de viver.

O Erro de Narciso, sob a aparência de um modesto livro de reflexão moral, é no fundo um verdadeiro guia espiritual fundado numa metafísica da existência como abertura à realidade do espírito. Que nos permitam citar aqui as palavras de Pierre Hadot, filósofo contemporâneo particularmente clarividente: "Gostei muito do livro de Louis Lavelle, O Erro de Narciso, porque a série de curtas meditações que formam esse pequeno livro e que são, cada qual, um convite a praticar um exercício espiritual, conduz pouco a pouco o leitor àquele 'presente onde se acha situado o cume da nossa consciência' e à tomada de consciência da 'presença pura'". (Jean-Louis Vieillard-Baron).

Sobre o autor: Louis Lavelle (St. Martin de Villereal, 15 de julho de 1883 - Parranquet, 1 de setembro de 1951) foi um filósofo metafísico francês. Sua magnum opus é La Dialectique de l'éternel présent, uma obra metafísica em quatro volumes: De l'Être (1928), De l'Acte (1937), Du Temps et de l'Eternité (1945) e De l'Âme Humaine (1951).

Entre outros, a obra de Lavelle inclui: La dialectique du monde sensible: Lu perception visuelle de la profondeur (1921), La conscience de soi (1933), La présence totale (1934), L'Erreur de Narcisse (1939), Le Mal et la Souffrance (1940), La Parole et l'Écriture (1947) e Les puissances du Moi (1948).

sábado, 5 de maio de 2012

SETE MENTIRAS SOBRE A IGREJA CATÓLICA

Título original: Seven Lies About Catholic History
Autor: Diane Moczar
Tradutor: Gabriel Galeff Barreiro
Assunto: Ensaio
Editora: Castela
Edição: 1ª
Ano: 2012
Páginas: 215

Sinopse: Diane Moczar, historiadora norte-americana, escreveu um pequeno grande livro rebatendo as mais habituais mentiras que são espalhadas contra a Igreja Católica. A edição brasileira saiu pela Editora Castela, do Rio de Janeiro. É um guia muito útil para os católicos, muitas vezes confrontados com as mentiras sempre repetidas que acabaram ganhando força de verdade. É útil também para o público em geral, interessado na verdade dos fatos. Com base em fatos históricos e pesquisas científicas, a ph.D. norte-americada Diana Moczar nos revela uma nova versão sobre as Cruzadas, a Idade Média, a Inquisição, e Igreja Católica no período pré-Reforma, a posição da Igreja no caso astrônomo Galileu, a ação dos católicos espanhóis no Novo Mundo e outros eventos marcantes da história da Civilização Ocidental. A autora também nos fala sobre a medicina na Idade Média, a mulher medieval, a usura, a heresia albigense, a monarquia católica, o Império Bizantino e a devastação causada pela reforma. Ela nos informa sobre historiadores bons e ruins, sobre autores seculares que não sofrem do preconceito anticatólico e nos indica leituras para estudos posteriores. Sete Mentiras Sobre a Igreja Católica faz mais que defender a Igreja: explica-nos como compreender e responder às principais mentiras sobre a história católica e estimula o interesse pelo verdadeiro passado de nossa mãe espiritual. É um livro que educa, diverte e revisa a postura e as obras da Igreja ao longo das eras. Acostumada ao clichê “Igreja Católica: inimiga da humanidade”, Diane Moczar prova que os católicos, na verdade, estão inseridos no terreno elevado da História e que o alvo principal das mentiras anticatólicas não é senão o Próprio Deus.

Sobre a autora: Diane Moczar, ph.D., ensina História na Northern Virginia Community College. Entre outras obras, destacam-se Islam at the Gattes, sobre a guerra da Europa contra os turco-otomanos, e Ten Dates Every Catholic Should Know.

SETE MENTIRAS SOBRE A IGREJA CATÓLICA

(Não seja mais um a propagá-las: estude)

1
Idade Média, a “idade das trevas”
A mentira:
a Idade Média foi uma longa era obscura de ignorância e superstição, abrandada somente com o advento do Renascimento.
2
Igreja Católica: inimiga do progresso
A mentira:
junto com a ascensão do cristianismo veio o atraso cultural e material da Europa em todas as áreas, culpa da resistência religiosa.
3
Uma cruzada contra a verdade
A mentira:
as Cruzadas foram crimes contra a humanidade, um dos melhores exemplos de fanatismo religioso destrutivo.
4
A sinistra Inquisição
A mentira:
durante séculos a Igreja Católica patrocinou a perseguição, tortura e morte de milhares, talvez milhões de pessoas inocentes.
5
A ciência no tribunal: a Igreja Católica versus Galileu
A mentira:
com regularidade, a Igreja tem reprimido a ciência e perseguido cientistas, provando, assim, que suas doutrinas religiosas são incompatíveis com a razão e o conhecimento empírico.
6
Uma Igreja corrompida até o topo
A mentira:
a Reforma Protestante foi necessária, pois a Igreja Católica estava inteiramente corrompida por imoralidade e falsa doutrina.
7
A oportuna Lenda Negra
A mentira:
os exploradores espanhóis do Novo Mundo foram cruéis e gananciosos. Ao cumprir as ordens de seus mestres católicos, eles trouxeram miséria incalculável aos pacatos nativos do continente americano.








Comentário em vídeo de Nivaldo Cordeiro.


O PAPEL DA IGREJA NA CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL



AINDA SOBRE O MESMO ASSUNTO



quinta-feira, 5 de abril de 2012

COMO LER LIVROS

Título original: How to Read a Book
Autor: Mortimer J. Adler e Charles Van Doren
Tradução: Edward Horst Wolff e Pedro Sette-Câmara
Editora: É Realizações
Assunto: Ciências humanas (Educação)
Edição: 1ª
Ano: 2010
Páginas: 432

  Sinopse: Publicado originalmente em 1940, tornou-se um fenômeno raro, um clássico vivo. Trata-se do melhor e mais bem-sucedido guia de compreensão de leitura para o leitor comum. E agora ele retorna em versão completamente reescrita e atualizada.

O livro aborda os vários níveis de leitura e mostra como alcançá-los – da leitura elementar à leitura rápida, passando pelo folheio sistemático e pela leitura inspecional. Aprende-se a classificar um livro, a “radiografá-lo”, a isolar a mensagem do autor, a criticar. Estudam-se as diferentes técnicas para ler livros práticos, literatura imaginativa, peças teatrais, poesia, história, ciências e matemática, filosofia e ciências sociais.

Por fim, os autores oferecem uma lista de leituras recomendadas, bem como testes de leitura para que você possa medir seu progresso em compreensão, velocidade e capacidade de leitura.

Comentários: José Monir Nasser, prefaciador da obra, diz que “Todo alfabetizado sabe ler até certo ponto, mas como esse ponto pode estar muito baixo, é preciso melhorar a habilidade da leitura em geral. Esse problema é um dos mais complexos das artes da educação”. Mais adiante, assevera: “O livro de Mortimer Adler, além de manual abrangente de técnicas de leitura, é um estudo ontológico sobre a natureza da leitura, sugerindo a unidade fundamental dos gêneros nos diversos patamares de certeza e nas diversas profundidades de leitura, articulando a profundidade da análise com a cobertura da extensão geométrica da variação dos gêneros.” E conclui: “Nada mais, nada menos, que os velhos Trivium e Quadrívium conjugados e aplicados à arte de Ler.

Os autores deste clássico dizem: “Este livro almeja não somente leitores, mas todos aqueles que desejam se tornar leitores. Foi escrito especialmente para leitores de livros. No entanto, o publico-alvo não são as pessoas que desejam apenas ler, mas as pessoas que desejam crescer intelectualmente enquanto lêem”.

E prosseguem: “Por ‘leitores’, referimo-nos às pessoas que ainda estão habituadas a obter a maior parte das informações da palavra escrita, ou seja, referimo-nos à grande maioria das pessoas inteligentes e alfabetizadas. Evidentemente, não são todas, antes do advento do rádio e da televisão, algumas informações eram obtidas oralmente ou até mesmo através de simples observações. Porém, essas pessoas inteligentes e curiosas não se contentavam com isso. Elas sabiam que tinham de ler – e liam”.

A modernidade não é o que parece ser: “Muita gente, hoje em dia, acha que a leitura já não é tão necessária quanto foi no passado. O rádio e a televisão acabaram assumindo as funções que outrora pertenciam à mídia impressa, da mesma maneira que a fotografia assumiu as funções que outrora pertenciam à pintura e às artes gráficas. Temos de reconhecer – é verdade – que a televisão cumpre algumas dessas funções muito bem, a comunicação visual dos telejornais, por exemplo, tem impacto enorme. A capacidade do rádio em transmitir informações enquanto estamos ocupados – dirigindo um carro, por exemplo – é algo extraordinário, além de nos poupar muito tempo. No entanto, é necessário questionar se as comunicações modernas realmente aumentam o conhecimento sobre o mundo à nossa volta”.

O alerta para o auto-engano: “Talvez hoje saibamos mais sobre o mundo do que no passado. Dado que o conhecimento é pré-requisito para o entendimento, trata-se de algo bom. Mas o conhecimento não é um pré-requisito tão importante ao entendimento quanto normalmente se supõe. Não precisamos saber tudo sobre determinada coisa para que possamos entendê-la. Uma montanha de fatos pode provocar o efeito contrário, isto é, pode servir de obstáculo ao entendimento. Há uma sensação, hoje em dia, de que temos acesso a muitos fatos, mas não necessariamente ao entendimento desses fatos”. (grifos meus)

Explicando: “Uma das causas dessa situação é que a própria mídia é projetada para tornar o pensamento algo desnecessário – embora, é claro, isso seja apenas uma mera impressão.” Será apenas impressão? Prosseguindo: “O ato de empacotar idéias e opiniões intelectuais é uma atividade à qual algumas das mentes mais brilhantes se dedicam com grande diligência. O telespectador, o ouvinte, o leitor de revistas – todos eles se defrontam com um amálgama de elementos complexos, desde discursos retóricos minuciosamente planejados até dados estatísticos cuidadosamente selecionados, cujo objetivo é facilitar o ato de ‘formar a opinião’ das pessoas com esforço e dificuldade mínimos. Por vezes, no entanto, o empacotamento é feito de maneira tão eficiente, tão condensada, que o telespectador, o ouvinte ou o leitor não conseguem formar sua opinião. Em vez disso, a opinião empacotada é introjetada na sua mente mais ou menos como uma gravação é inserida no aparelho de som. No momento apropriado, aperta-se o play e a opinião é “tocada”. Eles (os telespectadores, os ouvintes de rádio e os leitores de revistas) reproduzem a opinião sem terem pensado a respeito”. (grifos meus)

Acredito que o leitor tenha encontrado razões suficientes para ler este livro e crescer intelectualmente. Caso não tenha encontrado motivações suficientes para adquirir esta obra e utilizá-la como guia clássico para leitura inteligente, então assista ao vídeo de lançamento onde o prefaciador apresenta argumentos mais profundos. (Anatoli Oliynik).
 

PALESTRA DO PREFACIADOR JOSÉ MONIR NASSER



segunda-feira, 5 de março de 2012

LIVRO DE JÓ

Livro da Bíblia Sagrada
Tradução: Padre Antônio Pereira de Figueiredo
Assunto: Drama - Religião
Editora: Edição Barsa
Ano: 1965

Sinopse: Este livro é conhecido pelo nome de seu principal personagem, é um dos mais belos poemas do mundo. Apresenta-nos com muita arte um drama cuja ação é bastante simples: Jó, varão de conduta irrepreensível, perde seus bens, filhos e saúde, e, em certo momento, sustenta um debate com três amigos que tentavam provar que todos esses infortúnios eram um castigo de seus pecados. Jó, com razão, proclama sua inocência, mas em vão busca uma explicação para seus sofrimentos. Finalmente, Deus intervém para mostrar a Jó a tolice que é o querer perscrutar os caminhos da providência divina, não obstante, louva-o por não ter aceitado as falsas soluções propostas por seus amigos.

Resumo da narrativa: O prólogo do livro fala da virtude a prosperidade de Jó. Jó é bom e justo. Cumpridor de suas obrigações. O diabo visitando Deus faz-Lhe um desafio e usa Jó como bode expiatório. Satanás faz uma espécie de aposta com Deus de que tem o poder para transformar Jó numa pessoa revoltada contra Deus; Deus aceita o desafio e autoriza o Diabo a tentar Jó, mas não permite atente contra a vida Jó.

Primeira provação e resignação de Jó: Satanás então empobrece Jô e lhe tira tudo, inclusive a família. Todavia, Jó conserva a sua saúde e permanece fiel a Deus.

“A doença, segunda provação, e a visita dos amigos”: Então Satanás tira a saúde de Jó, mas ele não reclama. Contudo, acha que não foi tão pecador a ponto de merecer tamanho castigo. Aqui nasce a idéia da justa retribuição (Equivalência entre o mal e a pena).

Os amigos de Jó (Elifaz de Teman, Baldad de Suas e Sofar de Naamat) esperam sete dias e sete noites para tomar a iniciativa de falar com Jó.

“Disputa de Jó com os amigos”: Este trecho fala do primeiro ciclo de discursos começando pelas lamentações de Jó. Cada um dos três amigos de Jó faz três discursos; Jó responde individualmente a cada um dos amigos os dois primeiros e coletivamente aos terceiros discursos.

Os amigos de Jó fazem a equivalência entre a gravidade do pecado com a gravidade do castigo a que ele fora submetido. Elifaz acusa Jó de desprezar a correção do Senhor. Baldad associa-se com a tese de Elifaz de que os males são castigos pelos pecados. Sofar lembra que há pecados ocultos.

Jó diz que os amigos não têm o direito de acusá-lo sobre a gravidade dos pecados e se defende de seus acusadores. Jó faz um discurso poético dizendo não ter culpa e insiste em que não tem pecado e pede que lhe apresentem as razões de seus sofrimentos.

Os amigos insistem que Jó pecou, usando elementos da tradição. Jô diz que não é necessário que se inventem pecados para se justificarem os males. Baldad repreende Jó e descreve o estado do ímpio castigado, comparando-o com o de Jó.

Jó lamenta que seus amigos estejam contra ele, como Deus está – mas confia na justiça divina. Sofar acusa Jó de ter enriquecido ilegalmente. Jó insiste na sua inocência e confirma que os ímpios morrem sem ser perturbados. Elifaz especula as faltas, em que Jó teria incorrido. Jó diz que quer ir ao tribunal para ser julgado, mas não consegue encontrá-lo. Baldad argumenta que Deus governa com sabedoria o incontável exército dos astros, logo por que não faria o mesmo com a terra?

Jó compara sua vida pregressa e feliz com sua desgraça atual e reafirma sua inocência. Jó faz confissão “negativa” das faltas que não cometeu.

“A aparição da personagem Eliú”: (provavelmente foi inserida depois). Eliú faz quatro discursos: O primeiro sobre a Pedagogia do sofrimento; o segundo sobre Deus é justo; o terceiro sobre as Vantagens da virtude; e o quarto e último sobre a Submissão a Deus. Defende a completa transcendência da sabedoria divina, dizendo usar de argumentos diferentes dos amigos, mas usa também a doutrina tradicional. Eliú acha que a queixa de Jó é uma blasfêmia, porque Deus não poderia não ser justo. Eliú continua contestando a idéia de que a virtude não aproveita ao homem neste mundo. Eliú mostra que a sabedoria divina usa o sofrimento para purificar o homem, sobretudo os orgulhosos como Jó.

Deus aparece para Jó na forma de um anjo e o repreende com muito vigor. O Senhor faz dois discursos. O anjo fala sobre as obras da criação para estabelecer o abismo que há entre o Criador e criatura. Demonstra que a sabedoria divina deve levar Jó à humildade. Jó reclama da desproporção entre o pecado e a pena. Deus continua a mostrar sua imensa superioridade falando do Beemot, o mais potente dos animais segundo os judeus. Deus mostra que pode controlar o monstro Leviatã. Jó admite que se excedeu. Os amigos são censurados e Jó cumulado de bens. Deus devolve em dobro tudo que foi tirado de Jó, menos os 10 filhos.

Interpretação do sentido do drama: O prof. José Monir Nasser nos explica que todo o drama está consubstanciado no fato de que Satanás age sobre Jó exigindo dele uma perfeição não humana. Esta é uma maneira que Satanás utiliza para induzir Jó e seus amigos a interpretar o pensamento de Deus.

Há, entretanto, um segundo aspecto a ser considerado: Todos sabem que Deus é justo, mas por que deve o justo também sofrer? Por que tanto sofrimento para tão pequenas faltas? Esta é uma pergunta que os espíritos despreparados e descrentes fazem e que não tem propósito algum e completamente desprovida de sentido, mas que tem relação com a questão principal.

O principal erro daqueles que fazem perguntas dessa natureza, assim como fazem os amigos de Jó, está na pressuposição de que eles sabem os desígnios de Deus. Convém lembrar que a estrutura da sociedade humana foi construída a partir de uma injustiça (Caim mata Abel, mas Caim não recebeu a justiça).

Existem certas coisas neste mundo que nós não compreendemos e que aparentemente são muito ruins, mas que no fundo tem um sentido. Compete a nós nos submetermos humildemente aos mistérios de Deus, pois nós não estamos obrigados e ser melhores que Deus, nem abandonar o nosso status de humanos.

Assim, não se pode entrar na conversa satânica de que só a perfeição é que vale. Não se pode exigir de nós mesmos que nos comportemos como Deus. O ser humano não é obrigado a praticar uma perfeição que não pode ter. O que vale é o homem fazer aquilo que humanamente pode fazer. A perfeição é um atributo de Deus, portanto é preciso entender que há uma diferença extraordinária entre a condição humana e a condição divina. Por essa razão devemos nos submeter a um determinado grau de ignorância.

Conclusão: O Diabo quer que você seja perfeito, que você sinta culpa por coisas que você não fez. O que ele quer é imobilizar você. E todos aqueles que querem construir um mundo perfeito se submetem a tentação do Diabo. Não entrar na conversa satânica e tentar fazer o que não é capaz de fazer. Faça somente aquilo que é humanamente possível de fazer. Não busque sua perfeição querendo se equiparar a Deus e não queira ser Deus, porque há uma diferença imensurável entre a condição humana e a condição divina. (José Monir Nasser)

Finalizando, mas não esgotando o assunto, há mais coisas entre o céu e a terra que a nossa vã filosofia possa compreender.


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Notas: A melhor tradução da Bíblia Sagrada é a traduzida da Vulgata Latina para a língua portuguesa pelo Padre António Pereira de Figueiredo (1725-1797), Edição BARSA (aquela que acompanha a Enciclopédia Barsa e que aparece na foto acima).

Cuidado! com A “Bíblia Sagrada - Edição Pastoral” editada pelas Edições Paulinas e recomendada pela CNBB. Inspirada por ideologia marxista deturpa as concepções da história sagrada e da teologia; a leitura materialista aplicada ao texto sagrado torna a mensagem imanentista, fazendo-a perder o seu caráter transcendental.