quinta-feira, 5 de julho de 2012

A GÊNESE DO DOUTOR FAUSTO

Título original: Die Entstehung des Doktor Faustus
Autor: Thomas Mann (1875-1955)
Tradutor: Ricardo Ferreira Henrique
Assunto: Romance (Teoria e crítica literária)
Editora: Mandarim
Edição: 1ª
Ano: 2001
Páginas: 184

Sinopse: Thomas Mann decidiu reconstruir o processo de elaboração de sua grande obra da velhice. Planejado como mero “fragmento biográfico”, A gênese do Doutor Fausto foi composto com base no seu diário íntimo e tornou-se o romance sobre um romance – mais que uma exegese literária, um relato pessoal ancorado na vida cotidiana dos tumultuados anos 40.

Durante a criação do Doutor Fausto, escrito entre maio de 1943 e janeiro de 1947, Thomas Mann registrou em seu diário os fatos políticos, históricos e pessoais da época e, um ano e meio após a conclusão do livro, começou a escrever A gênese do Doutor Fausto, a partir daqueles apontamentos.

Este livro, como o próprio Thomas Mann reconheceu, é uma “confissão direta” que serve, na leitura do Doutor Fausto, como acompanhamento indicador de todos os fatos pessoais e históricos do contexto. É muito mais do que isso, no entanto: nele o autor revela, com enorme riqueza lingüística e cultural e ironia ímpar, “a singularidade da experiência produtiva”, as pesquisas e leituras que fez para elaborar o Doutor Fausto e o nome daqueles que influenciaram na criação das personagens. Acima de tudo, ao transcrever trechos de seu diário e comentá-los, Thomas Mann faz de si personagem e de sua vida, romance dos mais magníficos.

O tradutor do livro comenta que motivos não lhe faltavam para desejar esmiuçar a história do livro: no Doutor Fausto, Thomas Mann experimentara técnicas narrativas novas, mesclando planos temporais, ficção e realidade, fazendo empréstimos ao destino de Nietzsche, à teoria musical de Schönberg, aos dramas de Shakespeare. Na Gênese, são reveladas a participação crucial do filósofo Adorno na construção do romance e a grande carga autobiográfica que Mann ali depositou, dos suicídios das irmãs ao deslumbramento pelo neto Frido.

Ao retraçar suas pesquisas e leituras para o trabalho, o septuagenário discorre com entusiasmo e maestria sobre quatro séculos de cultura, comentando obras de colegas, como Stendhal e Hauptmann, os contos de Stifter e os romances de Conrad, discutindo Beethoven e Goethe com o mesmo afã com que se mede com Joyce, Hesse, Proust.

A gênese do Doutor Fausto oferece um amplo panorama histórico do final da Segunda Guerra e do despontar da guerra fria. No papel de grande escritor banido pelos nazistas, Thomas Mann circulou nos meios diplomáticos de Washington e nas rodas glamourosas de Hollywood em conflito ideológico constante com seus conterrâneos exilados. Assim são revivificados. No calor da hora e sob a pena afiada, não só Roosevelt e Litwinow, mas ainda Chaplin e Arthur Rubinstein, Brecht e Alfred Döblin.

O subtítulo romance sobre um romance traz um grão da ironia que o autor tanto preza em seus próprios escritos e remete à fluidez das fronteiras entre os gêneros literários.

Para melhor aproveitamento da leitura desta obra recomendo ler antes o Doutor Fausto. Àqueles que desejarem se aprofundar no conhecimento do grande escritor alemão, recomendo igualmente a leitura de THOMAS MANN Uma biografia, de Donald Prater, tradução de Luciano Trigo, Editora Nova Fronteira. (Anatoli Oliynik).

sexta-feira, 1 de junho de 2012

O ERRO DE NARCISO

Título original: L’Erreur de Narcisse
Autor: Louis Lavelle (1883-1951)
Tradutor: Paulo Neves
Assunto: Ensaio filosófico
Editora: É Realizações
Edição: 1ª
Ano: 2012
Páginas: 208
 
Sinopse: Os excertos apresentação à edição brasileira e prefácio à edição francesa que se seguem, constituem a sinopse deste livro, escrito em 1939 e que permaneceu pouco divulgado para os franceses e praticamente desconhecido para os leitores e intelectuais brasileiros durante sete décadas. Apesar do tempo transcorrido este pequeno grande livro não perdeu a sua atualidade, aliás, é mais necessário nos tempos atuais do que em qualquer outra época. (Anatoli Oliynik)

Trechos da apresentação à edição brasileira: No começo, era mito. Há diferentes versões da história de Narciso, que a mitologia grega nos legou. Mas em todas o núcleo é sempre o mesmo: Narciso era um famoso adolescente, filho dos amores de um deus-rio, Cêfiso, e uma ninfa.

Quando nasceu, os pais interrogaram o vidente Tirésias sobre o destino de Narciso, e a resposta foi enigmática: o menino conheceria a velhice se não visse a si mesmo... Chegando à juventude, sua rara beleza despertava paixões ardentes nos que o contemplavam, mas era com frio desdém que ele reagia ao amor de mortais e imortais.

Como tantas, a ninfa Eco se apaixonou por Narciso e precisou amargar a mesma decepção: encerrou-se em uma solitária caverna onde foi definhando até que de sua pessoa não restasse mais do que uma voz que gemia. Então, as jovens desprezadas pediram vingança aos céus: Nêmesis, a justa, as ouviu. Em uma tarde de calor esbraseante, Narciso, fatigado de longas horas de caça, abeirou-se de um riacho para dessedentar-se.

No espelho das águas viu sua figura e por ela se apaixonou perdidamente. Nada o demoveria do enleio que o enfeitiçara: quedou-se a contemplar a própria imagem até que a morte o levou para as regiões trevosas banhadas pelo Estige. Junto a essas águas sombrias, Narciso não cessa de perseguir sua amada figura.

Narciso foi condenado a fitar para sempre o que não tem substância, o que é puro reflexo tremulando na água, fugidio, mas nem por isso menos presente e sedutor aos olhos de quem o ama.

Louis Lavelle cavou fundo nesse reino do mito de Narciso. A riqueza dos desdobramentos que o filósofo explora neste livro desnorteia, pois, à primeira vista, pode parecer que a conversão do mito de Narciso em alegoria do amor-próprio antes fecha do que abre o universo da significação. Mas felizmente Lavelle não se detém na tentação alegorizante, que conduziria à uniformidade da abstração.

Ora, a consciência que Narciso quer ter de si mesmo lhe tira a vontade de viver, isto é, de agir. Em outras palavras: contemplar-se narcisicamente é um processo compulsivo, um guante interior que agarra e sufoca o eu, paralisando o movimento de ir além de si e transcender o círculo vicioso da autofruição.

Para romper a força desse temível encantamento seria necessário transformar as águas especulares da fonte em águas originárias e fecundas que limpem o eu e animem a vontade de abrir-se aos outros, ao mundo, às surpresas do objeto.

No “eterno presente” da consciência, vigora também a tensão da vontade, que lida com as formas ainda virtuais do futuro, enquanto projeto.

Um dos tristes efeitos dessa paralisação da vontade é a impossibilidade vivida por Narciso de sair do passado, isto é, daquele seu rosto já precocemente incorporado e lisonjeado. A imagem presente de Narciso é o legado de tudo que já passou, mas que, ao mesmo tempo, ficou espelhado na aparência atual: “ali ninguém pode ler senão para trás o segredo do seu destino”.

Lavelle descreve com acuidade, aqui dolorosa, a condição do jovem belo, que se fixou prematuramente na própria imagem, bloqueando as conquistas da maturidade e arriscando-se a morrer para si antes do tempo. Tirésias acertou na sua profecia: a morte viria inapelavelmente quando Narciso olhasse para a própria figura. No lugar onde morreu, brotou uma flor a que os homens deram o nome de narciso: bordas cor de sangue tingem suas pétalas amarelas. (Alfredo Bosi)

Trechos do prefácio à edição francesa: “Este pequeno livro é grande por seu conteúdo, que retoma o problema da consciência de si pondo em evidência todas as armadilhas do amor-próprio. Lá onde Lacan vê no desdobramento do eu a constituição de uma imagem de si originária, rígida e mortífera, Lavelle designa o amor-próprio – ou a vaidade de querer dar uma falsa imagem de si – como o que impede a consciência de viver.

O Erro de Narciso, sob a aparência de um modesto livro de reflexão moral, é no fundo um verdadeiro guia espiritual fundado numa metafísica da existência como abertura à realidade do espírito. Que nos permitam citar aqui as palavras de Pierre Hadot, filósofo contemporâneo particularmente clarividente: "Gostei muito do livro de Louis Lavelle, O Erro de Narciso, porque a série de curtas meditações que formam esse pequeno livro e que são, cada qual, um convite a praticar um exercício espiritual, conduz pouco a pouco o leitor àquele 'presente onde se acha situado o cume da nossa consciência' e à tomada de consciência da 'presença pura'". (Jean-Louis Vieillard-Baron).

Sobre o autor: Louis Lavelle (St. Martin de Villereal, 15 de julho de 1883 - Parranquet, 1 de setembro de 1951) foi um filósofo metafísico francês. Sua magnum opus é La Dialectique de l'éternel présent, uma obra metafísica em quatro volumes: De l'Être (1928), De l'Acte (1937), Du Temps et de l'Eternité (1945) e De l'Âme Humaine (1951).

Entre outros, a obra de Lavelle inclui: La dialectique du monde sensible: Lu perception visuelle de la profondeur (1921), La conscience de soi (1933), La présence totale (1934), L'Erreur de Narcisse (1939), Le Mal et la Souffrance (1940), La Parole et l'Écriture (1947) e Les puissances du Moi (1948).

sábado, 5 de maio de 2012

SETE MENTIRAS SOBRE A IGREJA CATÓLICA

Título original: Seven Lies About Catholic History
Autor: Diane Moczar
Tradutor: Gabriel Galeff Barreiro
Assunto: Ensaio
Editora: Castela
Edição: 1ª
Ano: 2012
Páginas: 215

Sinopse: Diane Moczar, historiadora norte-americana, escreveu um pequeno grande livro rebatendo as mais habituais mentiras que são espalhadas contra a Igreja Católica. A edição brasileira saiu pela Editora Castela, do Rio de Janeiro. É um guia muito útil para os católicos, muitas vezes confrontados com as mentiras sempre repetidas que acabaram ganhando força de verdade. É útil também para o público em geral, interessado na verdade dos fatos. Com base em fatos históricos e pesquisas científicas, a ph.D. norte-americada Diana Moczar nos revela uma nova versão sobre as Cruzadas, a Idade Média, a Inquisição, e Igreja Católica no período pré-Reforma, a posição da Igreja no caso astrônomo Galileu, a ação dos católicos espanhóis no Novo Mundo e outros eventos marcantes da história da Civilização Ocidental. A autora também nos fala sobre a medicina na Idade Média, a mulher medieval, a usura, a heresia albigense, a monarquia católica, o Império Bizantino e a devastação causada pela reforma. Ela nos informa sobre historiadores bons e ruins, sobre autores seculares que não sofrem do preconceito anticatólico e nos indica leituras para estudos posteriores. Sete Mentiras Sobre a Igreja Católica faz mais que defender a Igreja: explica-nos como compreender e responder às principais mentiras sobre a história católica e estimula o interesse pelo verdadeiro passado de nossa mãe espiritual. É um livro que educa, diverte e revisa a postura e as obras da Igreja ao longo das eras. Acostumada ao clichê “Igreja Católica: inimiga da humanidade”, Diane Moczar prova que os católicos, na verdade, estão inseridos no terreno elevado da História e que o alvo principal das mentiras anticatólicas não é senão o Próprio Deus.

Sobre a autora: Diane Moczar, ph.D., ensina História na Northern Virginia Community College. Entre outras obras, destacam-se Islam at the Gattes, sobre a guerra da Europa contra os turco-otomanos, e Ten Dates Every Catholic Should Know.

SETE MENTIRAS SOBRE A IGREJA CATÓLICA

(Não seja mais um a propagá-las: estude)

1
Idade Média, a “idade das trevas”
A mentira:
a Idade Média foi uma longa era obscura de ignorância e superstição, abrandada somente com o advento do Renascimento.
2
Igreja Católica: inimiga do progresso
A mentira:
junto com a ascensão do cristianismo veio o atraso cultural e material da Europa em todas as áreas, culpa da resistência religiosa.
3
Uma cruzada contra a verdade
A mentira:
as Cruzadas foram crimes contra a humanidade, um dos melhores exemplos de fanatismo religioso destrutivo.
4
A sinistra Inquisição
A mentira:
durante séculos a Igreja Católica patrocinou a perseguição, tortura e morte de milhares, talvez milhões de pessoas inocentes.
5
A ciência no tribunal: a Igreja Católica versus Galileu
A mentira:
com regularidade, a Igreja tem reprimido a ciência e perseguido cientistas, provando, assim, que suas doutrinas religiosas são incompatíveis com a razão e o conhecimento empírico.
6
Uma Igreja corrompida até o topo
A mentira:
a Reforma Protestante foi necessária, pois a Igreja Católica estava inteiramente corrompida por imoralidade e falsa doutrina.
7
A oportuna Lenda Negra
A mentira:
os exploradores espanhóis do Novo Mundo foram cruéis e gananciosos. Ao cumprir as ordens de seus mestres católicos, eles trouxeram miséria incalculável aos pacatos nativos do continente americano.








Comentário em vídeo de Nivaldo Cordeiro.


O PAPEL DA IGREJA NA CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL



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quinta-feira, 5 de abril de 2012

COMO LER LIVROS

Título original: How to Read a Book
Autor: Mortimer J. Adler e Charles Van Doren
Tradução: Edward Horst Wolff e Pedro Sette-Câmara
Editora: É Realizações
Assunto: Ciências humanas (Educação)
Edição: 1ª
Ano: 2010
Páginas: 432

  Sinopse: Publicado originalmente em 1940, tornou-se um fenômeno raro, um clássico vivo. Trata-se do melhor e mais bem-sucedido guia de compreensão de leitura para o leitor comum. E agora ele retorna em versão completamente reescrita e atualizada.

O livro aborda os vários níveis de leitura e mostra como alcançá-los – da leitura elementar à leitura rápida, passando pelo folheio sistemático e pela leitura inspecional. Aprende-se a classificar um livro, a “radiografá-lo”, a isolar a mensagem do autor, a criticar. Estudam-se as diferentes técnicas para ler livros práticos, literatura imaginativa, peças teatrais, poesia, história, ciências e matemática, filosofia e ciências sociais.

Por fim, os autores oferecem uma lista de leituras recomendadas, bem como testes de leitura para que você possa medir seu progresso em compreensão, velocidade e capacidade de leitura.

Comentários: José Monir Nasser, prefaciador da obra, diz que “Todo alfabetizado sabe ler até certo ponto, mas como esse ponto pode estar muito baixo, é preciso melhorar a habilidade da leitura em geral. Esse problema é um dos mais complexos das artes da educação”. Mais adiante, assevera: “O livro de Mortimer Adler, além de manual abrangente de técnicas de leitura, é um estudo ontológico sobre a natureza da leitura, sugerindo a unidade fundamental dos gêneros nos diversos patamares de certeza e nas diversas profundidades de leitura, articulando a profundidade da análise com a cobertura da extensão geométrica da variação dos gêneros.” E conclui: “Nada mais, nada menos, que os velhos Trivium e Quadrívium conjugados e aplicados à arte de Ler.

Os autores deste clássico dizem: “Este livro almeja não somente leitores, mas todos aqueles que desejam se tornar leitores. Foi escrito especialmente para leitores de livros. No entanto, o publico-alvo não são as pessoas que desejam apenas ler, mas as pessoas que desejam crescer intelectualmente enquanto lêem”.

E prosseguem: “Por ‘leitores’, referimo-nos às pessoas que ainda estão habituadas a obter a maior parte das informações da palavra escrita, ou seja, referimo-nos à grande maioria das pessoas inteligentes e alfabetizadas. Evidentemente, não são todas, antes do advento do rádio e da televisão, algumas informações eram obtidas oralmente ou até mesmo através de simples observações. Porém, essas pessoas inteligentes e curiosas não se contentavam com isso. Elas sabiam que tinham de ler – e liam”.

A modernidade não é o que parece ser: “Muita gente, hoje em dia, acha que a leitura já não é tão necessária quanto foi no passado. O rádio e a televisão acabaram assumindo as funções que outrora pertenciam à mídia impressa, da mesma maneira que a fotografia assumiu as funções que outrora pertenciam à pintura e às artes gráficas. Temos de reconhecer – é verdade – que a televisão cumpre algumas dessas funções muito bem, a comunicação visual dos telejornais, por exemplo, tem impacto enorme. A capacidade do rádio em transmitir informações enquanto estamos ocupados – dirigindo um carro, por exemplo – é algo extraordinário, além de nos poupar muito tempo. No entanto, é necessário questionar se as comunicações modernas realmente aumentam o conhecimento sobre o mundo à nossa volta”.

O alerta para o auto-engano: “Talvez hoje saibamos mais sobre o mundo do que no passado. Dado que o conhecimento é pré-requisito para o entendimento, trata-se de algo bom. Mas o conhecimento não é um pré-requisito tão importante ao entendimento quanto normalmente se supõe. Não precisamos saber tudo sobre determinada coisa para que possamos entendê-la. Uma montanha de fatos pode provocar o efeito contrário, isto é, pode servir de obstáculo ao entendimento. Há uma sensação, hoje em dia, de que temos acesso a muitos fatos, mas não necessariamente ao entendimento desses fatos”. (grifos meus)

Explicando: “Uma das causas dessa situação é que a própria mídia é projetada para tornar o pensamento algo desnecessário – embora, é claro, isso seja apenas uma mera impressão.” Será apenas impressão? Prosseguindo: “O ato de empacotar idéias e opiniões intelectuais é uma atividade à qual algumas das mentes mais brilhantes se dedicam com grande diligência. O telespectador, o ouvinte, o leitor de revistas – todos eles se defrontam com um amálgama de elementos complexos, desde discursos retóricos minuciosamente planejados até dados estatísticos cuidadosamente selecionados, cujo objetivo é facilitar o ato de ‘formar a opinião’ das pessoas com esforço e dificuldade mínimos. Por vezes, no entanto, o empacotamento é feito de maneira tão eficiente, tão condensada, que o telespectador, o ouvinte ou o leitor não conseguem formar sua opinião. Em vez disso, a opinião empacotada é introjetada na sua mente mais ou menos como uma gravação é inserida no aparelho de som. No momento apropriado, aperta-se o play e a opinião é “tocada”. Eles (os telespectadores, os ouvintes de rádio e os leitores de revistas) reproduzem a opinião sem terem pensado a respeito”. (grifos meus)

Acredito que o leitor tenha encontrado razões suficientes para ler este livro e crescer intelectualmente. Caso não tenha encontrado motivações suficientes para adquirir esta obra e utilizá-la como guia clássico para leitura inteligente, então assista ao vídeo de lançamento onde o prefaciador apresenta argumentos mais profundos. (Anatoli Oliynik).
 

PALESTRA DO PREFACIADOR JOSÉ MONIR NASSER



segunda-feira, 5 de março de 2012

LIVRO DE JÓ

Livro da Bíblia Sagrada
Tradução: Padre Antônio Pereira de Figueiredo
Assunto: Drama - Religião
Editora: Edição Barsa
Ano: 1965

Sinopse: Este livro é conhecido pelo nome de seu principal personagem, é um dos mais belos poemas do mundo. Apresenta-nos com muita arte um drama cuja ação é bastante simples: Jó, varão de conduta irrepreensível, perde seus bens, filhos e saúde, e, em certo momento, sustenta um debate com três amigos que tentavam provar que todos esses infortúnios eram um castigo de seus pecados. Jó, com razão, proclama sua inocência, mas em vão busca uma explicação para seus sofrimentos. Finalmente, Deus intervém para mostrar a Jó a tolice que é o querer perscrutar os caminhos da providência divina, não obstante, louva-o por não ter aceitado as falsas soluções propostas por seus amigos.

Resumo da narrativa: O prólogo do livro fala da virtude a prosperidade de Jó. Jó é bom e justo. Cumpridor de suas obrigações. O diabo visitando Deus faz-Lhe um desafio e usa Jó como bode expiatório. Satanás faz uma espécie de aposta com Deus de que tem o poder para transformar Jó numa pessoa revoltada contra Deus; Deus aceita o desafio e autoriza o Diabo a tentar Jó, mas não permite atente contra a vida Jó.

Primeira provação e resignação de Jó: Satanás então empobrece Jô e lhe tira tudo, inclusive a família. Todavia, Jó conserva a sua saúde e permanece fiel a Deus.

“A doença, segunda provação, e a visita dos amigos”: Então Satanás tira a saúde de Jó, mas ele não reclama. Contudo, acha que não foi tão pecador a ponto de merecer tamanho castigo. Aqui nasce a idéia da justa retribuição (Equivalência entre o mal e a pena).

Os amigos de Jó (Elifaz de Teman, Baldad de Suas e Sofar de Naamat) esperam sete dias e sete noites para tomar a iniciativa de falar com Jó.

“Disputa de Jó com os amigos”: Este trecho fala do primeiro ciclo de discursos começando pelas lamentações de Jó. Cada um dos três amigos de Jó faz três discursos; Jó responde individualmente a cada um dos amigos os dois primeiros e coletivamente aos terceiros discursos.

Os amigos de Jó fazem a equivalência entre a gravidade do pecado com a gravidade do castigo a que ele fora submetido. Elifaz acusa Jó de desprezar a correção do Senhor. Baldad associa-se com a tese de Elifaz de que os males são castigos pelos pecados. Sofar lembra que há pecados ocultos.

Jó diz que os amigos não têm o direito de acusá-lo sobre a gravidade dos pecados e se defende de seus acusadores. Jó faz um discurso poético dizendo não ter culpa e insiste em que não tem pecado e pede que lhe apresentem as razões de seus sofrimentos.

Os amigos insistem que Jó pecou, usando elementos da tradição. Jô diz que não é necessário que se inventem pecados para se justificarem os males. Baldad repreende Jó e descreve o estado do ímpio castigado, comparando-o com o de Jó.

Jó lamenta que seus amigos estejam contra ele, como Deus está – mas confia na justiça divina. Sofar acusa Jó de ter enriquecido ilegalmente. Jó insiste na sua inocência e confirma que os ímpios morrem sem ser perturbados. Elifaz especula as faltas, em que Jó teria incorrido. Jó diz que quer ir ao tribunal para ser julgado, mas não consegue encontrá-lo. Baldad argumenta que Deus governa com sabedoria o incontável exército dos astros, logo por que não faria o mesmo com a terra?

Jó compara sua vida pregressa e feliz com sua desgraça atual e reafirma sua inocência. Jó faz confissão “negativa” das faltas que não cometeu.

“A aparição da personagem Eliú”: (provavelmente foi inserida depois). Eliú faz quatro discursos: O primeiro sobre a Pedagogia do sofrimento; o segundo sobre Deus é justo; o terceiro sobre as Vantagens da virtude; e o quarto e último sobre a Submissão a Deus. Defende a completa transcendência da sabedoria divina, dizendo usar de argumentos diferentes dos amigos, mas usa também a doutrina tradicional. Eliú acha que a queixa de Jó é uma blasfêmia, porque Deus não poderia não ser justo. Eliú continua contestando a idéia de que a virtude não aproveita ao homem neste mundo. Eliú mostra que a sabedoria divina usa o sofrimento para purificar o homem, sobretudo os orgulhosos como Jó.

Deus aparece para Jó na forma de um anjo e o repreende com muito vigor. O Senhor faz dois discursos. O anjo fala sobre as obras da criação para estabelecer o abismo que há entre o Criador e criatura. Demonstra que a sabedoria divina deve levar Jó à humildade. Jó reclama da desproporção entre o pecado e a pena. Deus continua a mostrar sua imensa superioridade falando do Beemot, o mais potente dos animais segundo os judeus. Deus mostra que pode controlar o monstro Leviatã. Jó admite que se excedeu. Os amigos são censurados e Jó cumulado de bens. Deus devolve em dobro tudo que foi tirado de Jó, menos os 10 filhos.

Interpretação do sentido do drama: O prof. José Monir Nasser nos explica que todo o drama está consubstanciado no fato de que Satanás age sobre Jó exigindo dele uma perfeição não humana. Esta é uma maneira que Satanás utiliza para induzir Jó e seus amigos a interpretar o pensamento de Deus.

Há, entretanto, um segundo aspecto a ser considerado: Todos sabem que Deus é justo, mas por que deve o justo também sofrer? Por que tanto sofrimento para tão pequenas faltas? Esta é uma pergunta que os espíritos despreparados e descrentes fazem e que não tem propósito algum e completamente desprovida de sentido, mas que tem relação com a questão principal.

O principal erro daqueles que fazem perguntas dessa natureza, assim como fazem os amigos de Jó, está na pressuposição de que eles sabem os desígnios de Deus. Convém lembrar que a estrutura da sociedade humana foi construída a partir de uma injustiça (Caim mata Abel, mas Caim não recebeu a justiça).

Existem certas coisas neste mundo que nós não compreendemos e que aparentemente são muito ruins, mas que no fundo tem um sentido. Compete a nós nos submetermos humildemente aos mistérios de Deus, pois nós não estamos obrigados e ser melhores que Deus, nem abandonar o nosso status de humanos.

Assim, não se pode entrar na conversa satânica de que só a perfeição é que vale. Não se pode exigir de nós mesmos que nos comportemos como Deus. O ser humano não é obrigado a praticar uma perfeição que não pode ter. O que vale é o homem fazer aquilo que humanamente pode fazer. A perfeição é um atributo de Deus, portanto é preciso entender que há uma diferença extraordinária entre a condição humana e a condição divina. Por essa razão devemos nos submeter a um determinado grau de ignorância.

Conclusão: O Diabo quer que você seja perfeito, que você sinta culpa por coisas que você não fez. O que ele quer é imobilizar você. E todos aqueles que querem construir um mundo perfeito se submetem a tentação do Diabo. Não entrar na conversa satânica e tentar fazer o que não é capaz de fazer. Faça somente aquilo que é humanamente possível de fazer. Não busque sua perfeição querendo se equiparar a Deus e não queira ser Deus, porque há uma diferença imensurável entre a condição humana e a condição divina. (José Monir Nasser)

Finalizando, mas não esgotando o assunto, há mais coisas entre o céu e a terra que a nossa vã filosofia possa compreender.


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Notas: A melhor tradução da Bíblia Sagrada é a traduzida da Vulgata Latina para a língua portuguesa pelo Padre António Pereira de Figueiredo (1725-1797), Edição BARSA (aquela que acompanha a Enciclopédia Barsa e que aparece na foto acima).

Cuidado! com A “Bíblia Sagrada - Edição Pastoral” editada pelas Edições Paulinas e recomendada pela CNBB. Inspirada por ideologia marxista deturpa as concepções da história sagrada e da teologia; a leitura materialista aplicada ao texto sagrado torna a mensagem imanentista, fazendo-a perder o seu caráter transcendental.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O INFERNO

Título original: L’Enfer
Autor: Louis Gastón de Ségur (1820-1881) - Mosenhor de Ségur
Tradução: Diogo de Chiuso
Editora: Ecclesiae
Assunto: Cristianismo
Edição: 1ª
Ano: 2011
Páginas: 131

“Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento pleno da verdade” (1 TM 2,3)

Sinopse: Esta será uma sinopse diferente. Diferente no sentido de começar pelo epílogo da obra. Havia um padre exemplar que, depois de quarenta anos pregando em toda a França e em outras numerosas missões, estava em Roma a conversar com o Santo Padre, o Papa Pio IX. Falavam sobre a maravilha de se estar a serviço de Deus. “Pregue muito as grandes verdades da salvação – dizia-lhe o Santo Padre. Pregue sobretudo sobre o inferno! Nada de sincretismos! Fale claramente e para que todos possam ouvir as verdades sobre o inferno. Porque nada é mais capaz de fazer os pobres pecadores refletirem e, conseqüentemente, fazê-los retornar a Deus”.

Recordando essas profundas e verdadeiras palavras do Vigário de Jesus Cristo, decidi empreender este pequeno trabalho sobre o inferno. Depois, meditando sobre as penas eternas e as desgraças dos réprobos, lembrei-me das palavras de São Jerônimo, que estimulavam uma virgem cristã ao temos dos julgamentos de Deus: “Territus térreo – ele escreveu – ; apavorante, eu me apavoro!” Ao menos, eu me esforcei para tornar tudo apavorante, e Nosso Senhor é testemunha de que nada escondi do que sei acerca desse terrível mistério.

A você, leitor, quem quer que seja, espero que faça proveito. Quantas são as almas que estão no céu graças ao temor que nutriram pelo inferno!

Então, ofereço este modesto livro, rogando ao bom Deus para que faça chegar essas verdades no fundo da alma de cada um. Para que o temor inspire a todos para amar; e que o amor conduza a todos direto ao paraíso.

Espero que se digne a rezar por mim, para que Deus seja misericordioso comigo e também com você. Para que sejamos dignos da admissão entre os Seus eleitos.

Monsenhor de Ségur
8 de dezembro de 1875, na Festa da Imaculada Conceição.

Nota de sua Santidade o Papa Pio IX ao autor: “Eu vos saúdo, bem amado filho, com a Benção Apostólica. Felicitações de todo o nosso coração, que vós não cessais em preencher, em larga escala e muita competência, com o ofício de arauto do Evangelho.

            Tudo o que publicais espalha-se rapidamente entre o povo. Evidentemente, para que vossos escritos despertem tanto interesse, é necessário que sejam agradáveis – e não agradariam se não tivessem o dom de conciliar os espíritos e chegar até o fundo dos corações, produzindo, em cada um deles, efeitos benéficos.

            Beneficiai com a Graça que Deus vos deu, e continuai a trabalhar com ardor para cumprir a vossa tarefa de evangelização.

            Quanto a nós, prometemos-vos uma assistência ampla da parte de Deus, através da qual podereis iniciar um número de almas cada vez mais considerável nas vias da salvação, e assim tecerei uma magnífica coroa de glória.

            Por enquanto como prêmio a esse celestial favor e de outros dons do Senhor, recebeis, bem-amado filho, a Benção Apostólica que vos damos com grande amor, para que testemunhais nossa benevolência paterna.”

Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 2 de março de 1876, trigésimo ano de nosso Pontificado.
Papa Pio IX

Do Prefácio: Finalizo a apresentação deste livro com o Prefácio de Padre Antonio, da Diocese de Santos-SP. Eis o que ele diz da obra: “Pensa nos Novíssimo e não pecarás!” Este era o alerta que recebíamos no Catecismo de que participei há mais de cinqüenta anos. Os novíssimo! Zs últimas coisas que aconteciam a cada um de nós: morte, juízo, inferno, paraíso. Intrigava-nos, crianças ainda, o nome ‘Novíssimos’. Parecia-nos estranho e tão diferente. E o tempo passou; e essas realidades que se aproximam tornam-se mais presentes em nossas vidas.

Sou padre, pela Graça de Deus! E a vocação recebida coloca-me em contato constante com o Senhor e Sua bondade. A Misericórdia Divina manifesta-se nos Sacramentos que presido no dia-a-dia de minha corrida vida. Observo os pecadores saírem renovados na Confissão. Admiro-me de Jesus, o Pão da Vida, que se fez alimento, na memória incruenta de Seu sacrifício no altar. Vejo a criança renascer nas águas do Batismo. Creio no Senhor que nos fez por amor e, por esse mesmo amor, quer nos salvar e levar-nos para viver com Ele no Seu Reino.

Sou convidado, então, a ler o livro “O Inferno” de Monsenhor de Ségur, sacerdote francês do já longínquo século XIX. E uma pergunta brota em meu espírito: que contribuição esperar de um livro como este, que recorda tão triste tema?

Certamente  o autor não quer somente nos passar um sentimento de pavor ao relatar as terríveis palavras da Escritura que nos advertem dos castigos que, infelizmente, podem acometer cada ser humano deste mundo. Também não quer nos espantar ao narrar tristes casos de almas penadas, recurso apologético para uma época que vivia a exaltação da ciência e da razão, que pretendiam excluir a ação de Deus em meio aos homens. De fato, outra é a situação do autor e nela devemos nos fixar. O que Monsenhor de Ségur almeja é despertar o Temor pelo temor.

Temor entendido não como medo ou pavor de Deus, mas sim o temor de perdê-Lo e, mais ainda, magoar.

É para isso que nos orienta este livro: unir-se em plenitude no Amor de Deus, na vida e nos sacramentos.

Santos, 1º outubro de 2011
Pe. Antonio Paulo Ferreira de Castilho
Sacerdote da Diocese de Santos/SP e Doutor em Ciência da Religião.

Sobre o autor: Louis Gastón de Ségur nasceu em Paris a 15 de abril de 1820. Descendente de uma família nobre era filho do marques Eugene de Ségur e da célebre condessa de Ségur, conhecida escritora de livros infantis.

Zeloso nos estudos, logo que se formou em Direito foi enviado como adido à Embaixada Francesa em Roma, junto a Santa Sé (1842-1843). Perto dos Apóstolos Pedro e Paulo, sentiu o chamado para o sacerdócio, e, ao retornar a Paris, ingressou no Seminário de Santo Súplico, sendo ordenado sacerdote em dezembro de 1847. Faleceu em Paris a 9 de junho de 1881.

PALESTRA DE LANÇAMENTO DO LIVRO



ASSUNTOS CORRELATOS

23/08/2013 12:17 | Categorias: Igreja Católica, Espiritualidade
O demônio não é uma superstição
O demônio está bastante presente na pregação do Papa Francisco. Mas, afinal, qual a importância de se falar sobre o diabo e o inferno hoje?
Referência constante em seus discursos, o diabo é um inimigo contra o qual o Papa Francisco insiste em convocar os cristãos a lutar. Na homilia de sua primeira Missa como Pontífice, ele disse que, "quando não se confessa Jesus Cristo, confessa-se o mundanismo do diabo, o mundanismo do demônio". Em uma de suas reflexões matutinas, no mês de maio, Francisco falou do "ódio do príncipe deste mundo àqueles que foram salvos e redimidos por Jesus".
A espontaneidade com que o Pontífice fala de Satanás lembra Jesus Cristo. Desagradando aos "politicamente corretos" e adeptos de uma teologia pouco preocupada com a transcendência, o Santo Padre imita ninguém menos que nosso Senhor: de fato, só nos Evangelhos sinóticos, são mais de 40 referências ao anjo caído; inúmeras delas, relatos de autênticos exorcismos, comprovando que o demônio, longe de ser uma mera produção fantasiosa, é uma realidade viva e atuante no mundo.
Hoje, no entanto, pregadores que falem com veemência do diabo e do inferno são acusados de instalarem o medo e angústia entre os fiéis, como se a prédica da Igreja devesse refletir a preocupação apenas com as coisas deste mundo, e não com as realidades eternas.
Mais do que isso: várias destas realidades eternas chegam mesmo a ser negadas, inclusive por aqueles que nelas e por elas deveriam crer e guiar suas vidas. O demônio, por exemplo, é tratado por muitos como uma mera "força negativa" ou simplesmente como uma metáfora para designar o mal físico. O inferno não passaria de um recurso retórico para ajudar as pessoas na luta contra as mazelas deste mundo. Reduz-se, assim, a categorias materiais aquilo que, de acordo com a doutrina perene e constante da Igreja, é uma autêntica realidade espiritual.
Com efeito, o Catecismo, recordando que "a existência dos (...) anjos, é uma verdade de fé", ensina que alguns destes anjos caíram. São os que comumente chamamos de demônios. Eles "foram por Deus criados bons em natureza, mas se tornaram maus por sua própria iniciativa", segundo uma lição do IV Concílio de Latrão. O Catecismo também destaca que a Escritura por diversas vezes "atesta a influência nefasta" do diabo, que tentou o próprio Senhor quando ele jejuava no deserto (cf. Mt 4, 1-11).
Ao se falar sobre estas coisas, não se pretende fazer do diabo o centro da pregação cristã. Deseja-se, outrossim, instruir os fiéis sobre o perigo de se manter indefeso ou indiferente aos assaltos do maligno. São João Crisóstomo declarava, aos fiéis de Antioquia: "Não é para mim nenhum prazer falar-vos do diabo, mas a doutrina que este tema me sugere será muito útil para vós". A importância deste tema está relacionada ao próprio fundamento espiritual de nossa fé, posto que, como já dizia o Papa Francisco, antes de ser eleito Pontífice, talvez o maior sucesso do demônio "tenha sido nos fazer acreditar que ele não existe, que tudo se arranja em um plano puramente humano" 01.
A Igreja não pode, em nome do bom-mocismo, calar estas verdades de fé, tão importantes para os nossos tempos, sob a alegação de que causariam medo entre as pessoas. De fato, nem todo temor é mau. O medo de perder a Deus e, consequentemente, a nossa alma é, por assim dizer, um "temor sadio", que deve não só ser pregado pelos sacerdotes, mas cultivado por todos os fiéis. Uma sentença atribuída a São João Crisóstomo diz que "devemos nos afligir durante toda a nossa vida por causa do pecado". O cristão deve criar em seu coração um verdadeiro medo de ofender a Deus, fazendo seu o lema do jovem São Domingos Sávio: "Antes morrer do que pecar".
Por: Equipe Christo Nihil Praeponere
Referências

domingo, 15 de janeiro de 2012

NADA DE NOVO NO FRONT

Título original: Im Westen nicht Neues [A Oeste nada de Novo]
Autor: Erich Maria Remarque (1898-1970)
Tradução: Helen Rumjanek
Editora: L&PM Editores
Assunto: Romance
Edição: 1ª
Ano: 2004
Páginas: 224
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Sinopse: Paul Baumer é um filho de uma humilde família alemã durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Convencido de seu dever patriótico por adultos e professores, abandona os bancos escolares e junta-se às trincheiras de soldados alemães. Em pouco tempo, Paul se vê cercado por um ambiente de horror, vê meninos como ele perecerem e percebe que trocou a sua juventude por uma única e cruel certeza - ao da guerra, esteja-se do lado que se estiver.

Resumo da narrativa: A história relata as experiências de Paul Bäumer e seus companheiros de escola, que saem das salas de aula para as trincheiras, cheios de energia e convicção, cavaleiros entusiastas de uma causa pessoal e nacional. Um a um eles são aniquilados no front, não apenas pelo fogo do inimigo, mas também por um crescente sentimento de inutilidade. A guerra deixa de ser uma causa para se tornar um Moloch inexorável e insaciável. Os soldados não têm como escapar da matança rotineira; são homens condenados. Morrem gritando, mas sem serem ouvidos; morrem resignados, mas em vão. O mundo para além dos canhões não os conhece; não pode conhecê-los. “Acredito que estamos perdidos”, diz Paul. Só resta a fraternidade da morte, a camaradagem dos condenados. No final Paul morre, infeliz, mas estranhamente em paz com seu destino.

Comentários sobre o enredo: Todos os lemas perdem seu significado quando os homens sofrem mortes violentas – patriotismo, dever nacional, honra, glória, heroísmo, bravura. O mundo exterior consiste apenas em brutalidade, hipocrisia, ilusão. Até os laços íntimos da família foram despedaçados. Resta o homem só, sem um ponto de apoio no mundo real.

A simplicidade e a potência do tema – a guerra como força aviltante e totalmente destrutiva, na verdade niilista – adquirem áspera expressividade graças a um estilo incisivo e mesmo brutal. Cenas breves e frases curtas e vivas, na primeira pessoa e no presente do indicativo, criam uma instantaneidade inescapável e absorvente. Não há delicadeza. A linguagem é freqüentemente rude, as imagens quase sempre medonhas. O romance tem uma consistência de estilo e propósitos que faltara à obra anterior “O Quarto dos Sonhos” de Remarque e que poucas de suas obras subseqüentes alcançariam.

Comentários sobre o livro: Os críticos de Remarque diziam que no mínimo ele representava erroneamente a realidade física da guerra: um homem com as pernas ou a cabeça arrancadas não podia continuar a correr, referindo-se a duas das imagens que Remarque tinha usado. Muito mais sério do que essas inabilidades, alegavam, era a sua falta de compreensão dos aspectos morais do comportamento dos soldados. Os soldados não eram robôs, destituídos de qualquer senso de finalidade. Apoiavam-se num amplo espectro de valores firmemente estabelecidos.

Comentários sobre o autor: Para melhor compreender o sentido da obra e fundamentar a conclusão, é preciso fazer um breve comentário sobre o autor, pois há relação direta entre ambos.

Remarque não teve infância feliz. Seu ambiente de classe média baixa aparentemente o deprimiu. Dizia-se um romântico e freqüentemente brincava com a idéia de suicídio. Esse ânimo de dúvida existencial nunca o abandonaria.

A origem social de Remarque não pode ser desconsiderada. Ele era produto de um grupo social fortemente afetado por mudanças tecnológicas e sociais. John Middleton Murry, que também sofrera em sua juventude de uma intensa ansiedade que ele suspeitava provir de sua origem social, dizia que a baixa classe média urbana era “o segmento mais completamente deserdado da sociedade moderna”. Era uma camada que a guerra e especialmente a instabilidade econômica dos anos vinte atacariam com ferocidade.

Um mistério enorme cerca a experiência de guerra de Remarque. Estava com dezesseis anos quando irrompeu a guerra, em setembro de 1914, ele foi convocado dois anos mais tarde, em novembro de 1916, enquanto estudava para ser professor, e enfrentou pela primeira vez o combate na linha de frente em Flandres, em junho de 1917. No front foi ferido, segundo seu próprio testemunho, quatro ou cinco vezes, mas conforme outras fontes, apenas uma vez gravemente. O Ministro do Exército alemão, general Groener, informaria a seus colegas de gabinete em dezembro de 1930 que Remarque tinha sido ferido no joelho esquerdo e sob um dos braços em 31 de julho de 1917, permanecendo num hospital em Duisburg de 3 de agosto de 1917 até 31 de outubro de 1918. O ministro considerou falsas as informações de que Remarque tinha sido condecorado ou promovido.

Não se sabe muito mais sobre os dias de soldado de Remarque. Depois que foi catapultado para a fama internacional, mostrou-se relutante em dar entrevistas, e menos ainda informações precisas sobre sua carreira na guerra. Um homem chamado Peter Kropp contou ter passado um ano no hospital junto com o autor durante a guerra e ter sido o modelo para Albert Kropp, uma das personagens de “Nada de novo no front”. Kropp disse que o ferimento na perna que hospitalizou Remarque tinha sido feito pelas próprias mãos do escritor, e insistia em que, uma vez curado o ferimento, ele se tornara funcionário do hospital. Afirmava ainda, que Remarque não tinha qualificações especiais para representar os sentimentos e o comportamento do soldado no front. Parece haver motivos para suspeitar que a experiência de guerra de Remarque não foi tão ampla quanto sugere seu romance e, particularmente, o esforço promocional que o cercou.

Depois da guerra, Remarque retornou brevemente ao seminário católico para professores, de Osnabrück, e no início de 1919 tornou-se mestre-escola de aldeia. Logo abandonou esta ocupação, passando a atuar como jornalista free-lance e a realizar outras tarefas extras para enfrentar suas necessidades financeiras. Publicou artigos sobre carros, barcos, receitas de coquetel; trabalhou por algum tempo numa firma de manufatura de pneus em Hanover, escrevendo jingles de propaganda; finalmente tornou-se editor de fotografia da Scherl, uma revista luxuosa, da alta sociedade, em Berlim. Remarque tentava escrever romances. Dois de seus romances foram publicados, (“O Quarto dos Sonhos”) em 1920 e (“Estação Horizonte”) em 1928, mas não parece ter ficado muito satisfeito com o resultado.

Em 1921 uma tentativa de escrever uma peça de teatro deixou-o profundamente deprimido.

Sobre “O Quarto dos Sonhos” Remarque diria mais tarde:

“Um livro realmente infame. Dois anos depois de publicar, tive vontade de comprar todos s exemplares e tirá-lo de circlação. Infelizmente não tinha dinheiro suficiente. Os Ullsteins fizeram isso por mim, mais tarde. Se não tivesse escrito nada melhor depois, o livro teria sido uma razão para me suicidar.”

O motivo da morte aqui é impressionante: pensamentos sobre suicidio na juventude e ameaças de consumá-lo quando adulto. Junto com o romantismo resultante e a existência nômade, o motivo indica um homem profundamente descontrolado, procurando uma explicação para sua insatisfação. E nessa busca Remarque finalmente encontrou a experiência de guerra.

A idéia de que a guerra era a fonte de todos os males lhe veio de repente, confessou. “Todos nós estávamos”, disse em 1929, “e ainda estamos, inquietos, sem rumo, às vezes excitados, às vezes indiferentes e essencialmente infelizes”. Mas, num momento inspiração, ele tinha pelo menos descoberto a chave para o mal-estar. A guerra.

Conclusão: “Nada de novo no front” não é um livro sobre os acontecimentos da guerra, tampouco um livro de memória e muito menos um diário, mas uma denúncia irada dos efeitos da guerra sobre a jovem geração que viveu o conflito. Os relatos procuram mostrar como a guerra tinha destruído os laços psicológicos, morais e reais entre a geração no front e a sociedade nacional. “Se voltarmos”, diz Paul, “estaremos cansados, alquebrados, destruídos, sem raízes e sem esperanças. Não seremos mais capazes de encontrar nosso caminho”. O próprio Remarque declarou, em 1928, de que a guerra tinha destruído a possibilidade de levar o que a sociedade consideraria uma existência normal.

Portanto, o livro é mais um comentário sobre o espírito do pós-guerra, sobre a visão da guerra no pós-guerra, do que uma tentativa de reconstruir a realidade da experiência da trincheira.

Pode-se ver “Nada de novo no front” não como uma explicação, mas como um sintoma da confusão e desorientação do mundo pós-guerra, particularmente da geração que atingiu a maturidade durante a guerra. O romance é uma condenação emocional, uma afirmação do instinto, um grito de angústia de um insatisfeito, um homem que não conseguiu encontrar seu lugar adequado na sociedade. Que a guerra contribuiu grandemente para a inépcia de grande parte da geração do pós-guerra é inegável; que a guerra foi a causa básica deste transtorno social é pelo menos discutível.

A verdade é que o livro foi um sucesso de vendas. Publicado pela primeira vez em Berlim pela editora de Ullstein, no final de janeiro de 1929, nas três primeiras semanas, foram vendidos 200 mil exemplares. Em quatro meses (maio 1929) foram vendidos 640 mil exemplares e no final do ano as vendas chegaram a quase um milhão de exemplares na Alemanha, e outro milhão na Grã-Bretanha, França e Estados unidos juntos. Em outubro de 1930, Remarque tinha o maior público do mundo.

Sobre o autor: Erich Paul Remark nasceu em 22 de junho de 1898, em Osnabrück, filho de um encadernador católico, Peter Franz Remark e de Anne Maria. Batizado Erich Paul, adotou um pseudônimo depois da guerra, abandonando o Paul, acrescentando o nome de sua mãe e afrancesando o sobrenome.

Em 1933, os nazistas baniram e queimaram os livros de Remarque. A propaganda do partido afirmava que ele era descendente de judeus franceses, e que o seu verdadeiro nome era Kramer (o seu nome original lido de trás para a frente). Há ainda algumas biografias que afirmam isto, apesar da falta de provas.

Viajou para a Suíça, em 1931, e em 1939 emigrou para os Estados Unidos da América, com a sua primeira esposa, Ilsa Jeanne Zamboui, com quem se casou e divorciou duas vezes. Tornaram-se cidadãos estadunidenses em 1947. Por fim, casou com a atriz Paulette Goddard, em 1958, e permaneceram casados até à data da sua morte em 1970, na Suíça.