Sinopse: A obra, publicada em 1926, trata como tema
fundamental a luta entre o Bem e o Mal, mas não no sentido maniqueísta, mas a consciência aguda da inevitabilidade da presença absoluta do mal nos gestos mais prosaicos do cotidiano onde o verdadeiro protagonista do romance é o pecado. O mal
de que trata o romance é a onipresença ou a presença absoluta do pequeno mal,
do mal que nós não damos conta, do mal no qual incorremos sem que possamos
evitá-lo porque dele não temos consciência.
O autor conta a história de um jovem padre de
província que, sem grandes qualidades intelectuais, incapaz de pronunciar um
sermão sem se atrapalhar com as palavras, conseguiu alcançar a santidade.
Este jovem padre é o abade Donissan que se encontra psicologicamente
torturado frente aos dilemas morais em que vive ao se deparar constantemente
com seus instintos, vontades e pensamentos humanos. Sua mente está no limite da
insanidade por conta de sua obsessão pela luta invisível entre as forças do bem
e do mal, que geralmente resulta em pesadas seções de auto-flagelação, ou ainda
no confronto com o seu superior eclesiástico. Apesar de todas as adversidades,
ele cumpre sua missão neste mundo que o redime para a vida eterna tornando-se
um Santo.
Comentários: O diabo existe? Existe, assegura-nos Georges
Bernanos. E, procurando imitar Deus, assume mil caras para seduzir as almas e
arrebatá-las para o fogo do inferno. Contra ele se insurge o jovem abade
Donissan, simpático cura de província, olhado com desprezo por seus confrades
refinados. Um encontro decisivo com Satã muda por completo a vida desse homem
humilde que, incansavelmente, se põe a combater todas as formas do Mal.
Bernanos, um dos grandes escritores católicos do
século XX, todavia a fé na Igreja não o impediu de atacar violentamente o clero
comodista que prefere rezar pela salvação das almas em salões forrados de
veludo e cetim, a pôr o pé na estrada e enfrentar Satã e suas mil faces
enganosas, onde que apareçam. Com um estilo em que se fundem à perfeição as
vertentes realista e visionária, o romancista pinta com pungente emoção o drama
do abade Donissan, que chega a abrir mão da própria salvação pessoal para
enfrentar o eterno inimigo.
Mensagem
principal da obra: É preciso agir com
sinceridade; é preciso ter coragem para enfrentar Satã e sua astúcia; é preciso
renunciar até a própria salvação individual em benefício das almas que lhe
foram confiadas. Esta é, diz Bernanos, a verdadeira missão do sacerdote neste
mundo, a única que o redime para a vida eterna.
O autor: Nascido em Paris a 20 de fevereiro de 1888, Georges
Bernanos estreou na literatura em 1922, com o romance “Madame Dargent”. A partir do sucesso de “Sob o Sol de Satã” (1926), abandonou o emprego de advogado e passou
a viver unicamente de seus livros e artigos. Em 1934, atormentado por
dificuldades financeiras, transferiu-se com a mulher e os seis filhos para a
Espanha. Lá escreveu “Diário de um Pároco
de Aldeia” (1936), considerada por alguns críticos, sua obra-prima. Em
1937, voltou à França, mas não suportou a difusão do espírito totalitarista na
Europa; partiu para o Paraguai e, depois, para o Brasil. Terminada a Segunda
Guerra Mundial, retornou a seu país e passou a escrever verdadeiros libelos
contra a IV República, a tecnocracia, as novas formas de totalitarismo. No
inverno de 1947-48 encontrava-se na Tunísia, onde elaborou a peça “Diálogos das Carmelitas” (1949). Um
agravamento de seu mal hepático obrigou-o a transferir-se para Paris, onde
morreu no dia 5 de julho de 1948.
Assunto: Literatura Nacional – Teoria e
Crítica Cultural
Editora: Record
Edição: 1ª
Ano: 2015
Páginas: 630 Nota:Neste post você encontrará dois vídeos sendo uma entrevista do autor com Nivaldo Cordeiro e no final do texto o vídeo de lançamento do livro com apresentação do renomado escritor Rodrigo Gurgel.
Sinopse: Em "A poeira da glória", Martim Vasques da Cunha
desmonta as teses sustentadas pela repetição da crítica, rechaça o estilo que
falseia a sensibilidade moral e recoloca as idéias no lugar ao apontar como e
quando a ideologia política envenenou a imaginação artística. O ensaísta mostra
em detalhes como o país foi brutalizado pela paranóia e mistificação a respeito
de si mesmo, de tal maneira que se transformou em um grande "Carandiru
intelectual", o paraíso distópico onde a realidade brasileira gira em
falso.
Comentário: Este livro não passará imune à
sua percepção. Na contramão da análise convencional da literatura brasileira, o
escritor Martim Vasques da Cunha ousa escrever o que até mesmo o politicamente
incorreto considerou imprudente: ele desmonta as teses sustentadas pela
repetição da crítica, rechaça o estilo que falseia a sensibilidade moral e
recoloca as idéias no lugar ao apostar como e quando a ideologia política
envenenou a imaginação artística.
Para concluir o livro Martim
atravessou o seu estilo interior e, como poucos de sua geração, sentiu na pele
que, acima de tudo, escrever uma obra é também arriscar amizades e desafiar a
maioria das pessoas que querem manter o seu status
quo, seja do lado da direita ou da esquerda.
Dono de um texto que convence o
leitor por nocaute de argumentos, o ensaísta mostra em detalhes como o país foi
brutalizado pela paranóia e mistificação a respeito de si mesmo, de tal maneira
que se transformou em um grande “Carandiru intelectual”, o paraíso distópico
onde a realidade brasileira gira em falso. (Fábio
S. Cardoso)
DO PREFÁCIO:
A poeira da glória, de Martim Vasques da Cunha, não é um
livro sobre literatura que se encerra nos limites teóricos de seu objeto. É um
livro que expande a própria visão e a análise substantiva desde os fundamentos
íntimos e ideológicos dos escritores, aqueles elementos que alicerçam e ajudam
a explicar as suas obras. Este é um ensaio de crítica cultural que, ao partir
de uma espécie de investigação arqueológica e antropológica da literatura
brasileira, tenta mostrar, no espírito dos livros, aquilo que estava oculto sob
a poeira da glória dos seus autores. Está aqui, portanto, a sua originalidade,
ao redescobrir os elementos de virtude humana que não estão mais evidentes e
explícitos na literatura, porque se degeneraram ou se perderam. Ao contrário de
livros que se confinam em seus próprios objetos de estudos, cuja delimitação do
escopo acaba por reduzir o alcance da análise, neste Martim elaborou uma obra
que se amplia junto com as reflexões externas que agrega e o raciocínio interno
que o fundamenta. Este livro é menos um estudo literário stricto sensu e mais
um ensaio sobre o ser humano em sua dimensão cultural lato sensu. Por isso,
abrange adequadamente as dimensões sociológicas e políticas com a ambição de
identificar, por meio da literatura, o mal do espírito e a degradação do
indivíduo, o problema e a tensão do Bem e do Mal, que se manifestam na compreensão e no tratamento da
realidade, na construção e na corrupção da imaginação moral, na cultura
literária e, por contaminação perversa, na literatura produzida por escritores
que também decidem se sujeitar a certas estruturas de poder. Para compreender o
drama da literatura brasileira, Martim reconstruiu uma narrativa histórica
singular, que cobre diferentes períodos e autores para mostrar a dimensão e a
profundidade do nosso drama cultural e da gradual perda de sentido. E, com a
finalidade de estabelecer balizas teóricas de orientação superior, recorreu a
um grupo seleto de escritores e intelectuais nacionais e estrangeiros, assim
também resgatando os mais elevados padrões que se diluíram ou se extinguiram em
nosso ambiente cultural devastado. Como mesmo lembra o autor em seu livro Crise
e utopia: o dilema de Thomas More, obra-chave para se entender adequadamente a
profundidade simbólica e substantiva deste livro, “se há um drama, há de se ter
um conflito e, sobretudo, um sentido”. Em A poeira da glória, Martim evidencia
a crueldade e as nuances perversas dos conflitos que ajudam a dimensionar o
drama e a relevância do sentido para a experiência viva da literatura e do
trabalho do escritor, especialmente daqueles que foram os protagonistas da ascensão
e da degradação da literatura brasileira que servia como padrão de uma estética
filha de uma ordem moral e transcendente. Porque é a hierarquia de valores, tão
cara e necessária a uma vida em comunidade, que permite a organização interna
dos indivíduos que será, no caso dos escritores, convertida em arte de alta
qualidade. E é assim que também a desordem interna e o caos moral ajudarão a
forjar espíritos confinados ao drama da existência, os futuros mensageiros
soturnos de uma literatura degradada. Em seu Crise e utopia, Martim já havia
observado que a missão do homem na terra e a responsabilidade que se impõe
diante da ordem da verdade da existência agravam o sentido do seu próprio
drama. Pois nem todos estamos dispostos a enfrentá-lo; nem todos somos “capazes
de realizar tal acontecimento”; nem todos temos “a sensibilidade para suportar
determinadas experiências”. Em face da aflição que emerge a partir do reconhecimento da
nossa responsabilidade de agir, e do inevitável julgamento de nossas ações,
podemos desenvolver uma doença interna que certamente contaminará a literatura
e a percepção do homem em relação e a si mesmo e na vida em comunidade. Por
isso é incompleta qualquer análise literária sem um exame da imaginação moral
que fundamenta a construção de uma ordem interna e a preservação de uma cultura
virtuosa que seja o seu espelho. Se, como escreveu o poeta W. H. Auden, “as
palavras de um morto modificam-se nas entranhas dos vivos”, é possível entender
por qual razão os revolucionários, segundo Edmund Burke, tentam esgarçar “toda
a roupagem decente da vida” cujas ideias dela decorrentes sejam fornecidas pelo
“guarda-roupa da imaginação moral”. A partir da metáfora criada por Burke,
Russell Kirk definiu a imaginação moral como sendo aquilo que permite
“discernir acerca do que a pessoa humana pode ser, apreendendo, por alegorias,
a correta ordem da alma e a justa ordem da sociedade, diferenciando o
verdadeiro e o falso, o bem e o mal, o belo e o feio, além de oferecer uma
correta visão da lei natural e da natureza humana”. Considerando que a
imaginação moral “aspira à apreensão da ordem correta na alma e da ordem
correta na comunidade política”, Kirk concorda com Burke que “as letras e a
erudição ficam ocas, se esvaziadas da imaginação moral”.6 Se as obras
literárias podem ser usadas como instrumentos da degradação provocada pela
desordem da alma e da sociedade, também são valioso escudo do indivíduo contra
as tiranias culturais e políticas que vilipendiam e escravizam o espírito e que
pretendem converter as pessoas em servos voluntários. A literatura, e não só a
poesia, como defendeu Ungaretti, permite a restauração da integridade, da
autonomia e da dignidade. Nesse sentido, explica-se a preocupação de Martim com
a liberdade interior, “a única liberdade que nos protege dos ataques de um país
tomado pelo totalitarismo cultural”. É, de fato, a espécie mais difícil de
liberdade porque, se é verdade que pode ser condicionada ou moldada segundo
intervenções externas que criam um hábito serviçal, sua
existência e preservação
dependem quase exclusivamente da decisão individual de não ser servil, mesmo
sob um ambiente político e cultural totalitário. Como diz Martim, essa
liberdade “é algo a ser conquistado a custo de uma disciplina interior,
harmonizada justamente com a consciência correta”, e que, por isso, não pode
“ser confundida de forma alguma com a liberdade exterior, que (...) depende de
uma correta manutenção das instituições políticas que devem proteger as
liberdades individuais (...)”. Martim vê a ruína da literatura brasileira ao
longo da história como a impecável consequência do aviltamento das virtudes e
dos princípios e da quebra da hierarquia que orientava os homens, não só os
escritores, como uma bússola capaz de preservar “aquele ‘fundo insubornável do
ser’, que nenhum governo pode invadir sob qualquer permissão” — semelhante à
casa de um inglês, o castelo cuja entrada sem convite era vedada inclusive aos
reis. Sendo a liberdade interior “a base de tudo o que se construiu no que hoje
chamaríamos de ‘magnífica estrutura do mundo moral’”, a sua degeneração faz
ruir as bases mais sólidas. É extraordinário que este A poeira da glória
estabeleça um diálogo íntimo com o meu Pare de acreditar no governo: por que os
brasileiros não confiam nos políticos e amam o Estado. Se o meu livro tem como
estrutura substantiva a dimensão cultural ao tratar de política, o de Martim
utiliza a dimensão política para aprofundar sua análise sobre a cultura. São,
portanto, livros que se complementam extraordinariamente porque mostram,
juntos, como a degradação política e literária foi o resultado de uma
degradação cultural, e também como, segundo o alerta feito por Michael Oakeshott,
o quietismo político-cultural preserva “a mesma armadilha de quem quer ver o
mundo como um palco de teatro”, sendo também responsável pelo estado de coisas
aquele que “decide observar a confusão do mundo como um espectador
desinteressado”. A maneira arguta e elaborada com que Martim forjou sua
perspectiva crítica sobre os autores e suas obras não é um imperativo para
endossar as suas posições. Entretanto, contrapô-las exige não apenas uma
amplitude intelectual, mas uma abertura plena para a grande conversação que ele
estabelece neste livro com o leitor inteligente. É enriquecedor, por exemplo, a forma como desloca
o debate para dimensões inexploradas, seja quando ataca a dissimulação de
Machado de Assis ou recupera “a força arrasadora da personalidade” do padre
Antônio Vieira, cuja “coragem era expressa com a aflição do homem que ainda tem
algum contato com a realidade concreta”. Mais do que expor um conhecimento
profuso e vivo sobre a história da literatura e a produção literária, Martim
revela sua brilhante intuição sobre o homem e sobre a sua atuação substantiva
na cultura. E, mesmo que o foco seja a literatura produzida no Brasil,
felizmente não se furta, num texto primoroso, a convidar escritores e intelectuais
estrangeiros para esse grande diálogo sobre a cultura brasileira. Ele analisa a
sensibilidade e o caráter nacional investigando a voz daqueles considerados os
narradores da alma brasileira e que, de certa forma, são os nossos intérpretes.
Mais do que uma história inesperada da literatura, Martim apresenta o grande
conflito entre o Bem e o Mal, evidenciando as dimensões da Verdade e do Belo
sem as quais inexiste uma experiência individual virtuosa na prática concreta
da vida em sociedade a ser narrada pelas obras literárias. Sem os padrões
éticos e estéticos que lhe conferem uma natureza única, a literatura é
esvaziada de sentido. Este A poeira da glória é um grande contributo à
reparação da literatura a partir da necessária restauração do brasileiro e da
nossa própria cultura.
Sobre
o autor: Martim
Vasques da Cunha é escritor, jornalista, doutor em Ética e Filosofia Política
pela Universidade de São Paulo, colaborador do jornal Rascunho e autor do livro Crise
e utopia: o dilema de Thomas More(Vide
Editorial, 2012)
Sinopse: A presente edição sem ilustrações contém o texto
completo do original. É dirigida especificamente àqueles que gostariam de
ocupar-se profundamente com a documentação literária da evolução interior de
Jung. Estará sem dúvida de acordo com a intenção de Jung se esta edição ajudar
os leitores a tornar sua leitura mais proveitosa para seu próprio
desenvolvimento. Comentário ao Livro Vermelho, de Jung
Acabei de ler a Introdução espetacular do editor Sonu
Shamdasani ao LIVRO VERMELHO, de Jung. Muita coisa que estava obscura em mim
clareou. É claro que Jung fez das próprias experiências esquizofrênicas o
material sobre o qual tentou fazer ciência. Foi bem sucedido. É claro também
que Jung aqui se revelou por inteiro como discípulo de Goethe e do esteticismo. Sua visão dual da divindade
foi explicitada. Jung tomou como prova da “função transcendente” os sonhos
premonitórios de 1913 sobre a Primeira Guerra. Se julgou um profeta. Mas
profecias se revelam antecipadamente, dão a mensagem. A mensagem aqui só ficou
clara ex post facto. Não as considero
profecias. Admito, todavia, que Jung estava sintonizado com as correntes subterrâneas no mergulho
niilista do Ocidente. Jung
é o homem faustico. Jung teve a pretensão de falar com os mortos e com o
próprio Deus. Realizou em si o neoplatonismo renascentista. Quis fundar nova
religião. Apesar de ter mergulhando no estudo das religiões comparadas, Jung
tinha em mente mesmo o Fausto
de Goethe e o Zaratustra
de Nietzsche. Jung foi muito coerente em se dizer fora do mito cristão.
Em última análise, cultivava
o mal, como fizeram Goethe e Nietzsche. Essa entrega ao mal como forma
de se chegar ao bem é idéia muito antiga, data dos primeiros heréticos. Com
Jung essa gente quis ser cientista. A ciência de Jung é a sistematização de
experiências de louco, transformadas em linguagem erudita. Por isso que seus
métodos não podem curar. O apogeu do delírio religioso de Jung se deu quando se
recusou a traduzir o Canto Noturno, de Nietzsche. Disse que era a voz de Deus.
Em todo o Zaratustra quem fala é Mefistófeles, o mesmo demônio do norte que
está em Goethe. Por isso Jung viu Wotan nos nazistas. A leitura do LIVRO
VERMELHO mostra que, no fundo, Jung se sentia um fundador de uma nova religião.
Ele queria confirmar o fim
do cristianismo. Penso que se os nazistas tivessem ganhado a guerra a
psicologia analítica poderia se tornar uma nova religião mundial. Penso também
que a destruição das guerras foi tamanha que até mesmo um satanista convicto como Jung
vacilou nas suas convicções sobre o mal. Pensar a língua alemã como sucedânea
do hebraico sagrado é delírio grandioso. Jung tratou Nietzsche como se fosse um
Isaías renascido.
Em 1913 Jung inicia um auto experimento
que ele denomina “confronto com o inconsciente. Este auto experimento dura até
1930. Com isso Jung desenvolve a técnica para “chegar ao fundo do [seu]
processo interior” e “traduzir as emoções em imagens” e “compreender as
fantasias que estavam se agitando subterraneamente”.[Comentário de Nivaldo Cordeiro]
Na época em que Jung fez as anotações
que resultaram neste livro, ele se encontrava em deslumbramento com o nefando.
Carl Jung e a influência do esteticismo de Goethe
Nivaldo Cordeiro ( * )
É preciso
compreender a obra de Carl Jung e talvez o melhor texto para ver como o
psicólogo suíço tropeçou nas próprias pernas seja no ensaio publicado em 1945,
“Depois da Catástrofe” (inserido no livro Aspectos do Drama Contemporâneo, editado pela Vozes).
É certo que esse texto só será compreensível, em todo o horror
de suas contradições, se se conhecer bem a obra e a biografia de Carl Jung,
portanto não é leitura para iniciantes.
O ensaio foi escrito para que ele, Jung, dissesse o que
realmente pensava de Hitler e dos acontecimentos dramáticos da II Guerra
Mundial. Ao término da guerra os rumores de que os nazistas estavam vivos.
O primeiro gesto de tirar o corpo fora de Carl Jung sobre a sua
responsabilidade pessoal sobre os acontecimentos foi ele atribuir os fatos aos
alemães da Alemanha. Ora, Jung sempre se declarou alemão, narrava com prazer
sua “nobre” ascendência bastarda desde Goethe e se sentia alemão.
Tudo que foi feito por Hitler e pela Alemanha era em nome e para
o pan-germanismo. É claro que o Estado nacional alemão assumiu o comando de
tudo, mas vimos como em diversos países (até no Brasil!) os verdadeiros alemães
apoiaram com entusiasmo a estranha ideia que eram um povo superior, fadado a
dominar o mundo. Bem vimos no que deu.
Carl Jung sabia perfeitamente bem a origem de tudo, mas não teve
a coragem moral de assumir sua própria responsabilidade. Ao contrário, Thomas
Mann engajou-se no esforço de guerra contra a barbárie e escreveu o monumental
Doutor Fausto, livro no qual faz o acerto de contas consigo mesmo e sua própria
história familiar.
Ao atribuir
uma suposta culpa coletiva sobre os alemães, Jung pulou o capítulo de sua
própria responsabilidade. O próprio Jung fundou em torno de si um culto
satânico no qual os sacerdotes acreditados eram os seus seguidores
“analisados”. Jung cultuava o mal com todas as letras, como bem demonstrei nas
minhas palestras sobre o Livro Vermelho.
A raiz mais geral para o que houve naqueles tempos está na
Reforma Religiosa, que teve a nefasta consequência de transformar a Igreja
Universal em igrejas nacionais, comandadas segundo interesse político. Na
Alemanha, o passo seguinte foi humanizar o Cristo, negando-lhe a condição
divina, juntamente com as ideias pagãs do neoplatonismo. Chegou-se a falar em
um Cristo “alemão”. [O
maior responsável pelo surgimento das igrejas nacionais foi Martinho Lutero e
sua revolução. Deu no que deu: O NOMINALISMO responsável pela decadência intelectual de nossa civilização. Lutero era nominalista. AO]
No século XVIII, sob a influência poderosa de Goethe, tivemos o
esteticismo, que propôs a salvação pela Arte, aqui compreendida em sentido
amplo, inclusive nas práticas esotéricas das artes alquímicas. [Recomendo assistir o
documentário “Arquitetura da Destruição”
da Versatil Home Vídeo e o filme “A Fita
Branca” da Imo Vision. Ler "A Sagração da Primavera"de Modris Eksteins. AO]
O passo final foi decretar a morte de Deus e tivemos o
surgimento de Nietzsche no esplendor de toda sua loucura para fazê-lo. Era o
João Batista anunciadora do novo Cristo, Carl Jung ele mesmo.
Esse é o trilho que explica Hitler e Carl Jung foi o maior
divulgador dessa tradição esteticista. Ele se considerava, e de fato era, o
maior seguidor de Goethe e Nietzsche (e Wagner).
Caberia a Jung um mea
culpa ter dito isso no ensaio: que ele preparou gerações de pessoas, sejam
os seus leitores, sejam os seus analisandos/pacientes, para aceitar
voluntariamente o mal como se bem fosse, e servi-lo.
Ele fundou um culto satânico tão esdrúxulo que elevou o
Zaratustra de Nietzsche à condição de profeta e ele mesmo, Jung, à condição de
um novo salvador, em substituição à Cristo. Nada dos crimes ocorridos na
Alemanha são alheios a Jung e sua obra.
A loucura delirante de Carl Jung foi tamanha que se recusou a
traduzir o poema de Nietzsche O Canto Noturno no seminário que deu sobre o
Zaratustra, na década de Trinta. Segundo ele, ali falaria o próprio
deus/Zaratustra e o alemão passou a ser uma língua sagrada, algo como são o
hebraico para os judeus e o latim para os católicos.
O culto fundado por Jung negava os valores cristãos e tentava
implantar a falsa ética pagã pregada por Nietzsche, todos os falsos valores da
Nova Era defendida pelo psicólogo suíço.
Toda a elite alemã (pan-germânica) sabia o Fausto, de Goethe, de
cor. O livro virou a bíblia para a alta cultura dos falantes de alemão. Ali
estaria a verdade. Carl Jung acreditava nisso. Pregou isso. Viveu isso em toda
a intensidade. E, na vida pessoal, adotou a nova ética, praticando a poligamia
consciente em franca oposição aos valores cristãos.
Pior ainda, fez do andrógino um símbolo de totalidade e algo a
ser buscado, legitimando a eclosão do homossexualismo como hoje o conhecemos.
De certa forma, para Jung, a androginia tornava o sujeito mais filho de Deus.
No texto, Carl Jung
ridiculariza a figura de Hilter, sem dizer de si uma única palavra de
reprovação. Nenhuma autocrítica. E, depois de 1945, continuou a cultivar e a
divulgar a sua psicologia analítica, como se nada tivesse acontecido. Como se
tudo não pudesse se repetir novamente. Colocar o demônio no lugar de Deus tem
consequências.
Carl Jung escreveu que Hitler
era um pseudólogo, como se ele próprio não fosse um. O Livro Vermelho revelou
que Jung fez também seu próprio pacto fáustico, ainda mais delirante que o de
Hitler. Ele empenhou-se em fundar uma religião, da qual, seria o sumo
sacerdote. O nazismo foi apenas a expressão política desse movimento mais amplo
de cunho cultural e religioso.
Carl Jung escreveu: “Ao dizer
que os alemães estão psiquicamente doentes estou sendo mais benevolente do que
se dissesse que são criminosos”. Uma frase perfeita que poderia bem ser
aplicada a si mesmo.
Mais à frente: “(o alemão)
Esqueceu seu cristianismo, vendeu o espírito à técnica, trocou a moral pelo
cinismo e consagrou sua maior aspiração às forças de aniquilação”. Teria sido
uma bela confissão se Jung estivesse falando de si mesmo e não no coletivo
alemão.
Não, o problema alemão não é
a emergência de forças coletivas incontroláveis, é um problema de pessoas
individualmente comprometidas com o mal. O pacto fáustico pressupõe sempre um
“sim” consciente ao mal por cada um. Carl Jung fez isso. Nietzsche fez isso.
Goethe também. Levou séculos
para que esse mal fosse transformado e potencializado em fornos crematórios e
em matanças generalizadas, inclusive de alemães. Não se dá as costas à
conversão, ao Bem, sem se pagar alto preço.
( * ) Nivaldo Cordeiro
José Nivaldo Gomes
Cordeiro é economista e mestre em Administração de Empresas pela Fundação
Getúlio Vargas (FGV/SP), ocupou vários cargos na administração federal e é hoje
Diretor de Operações do Grupo Nobel de Livrarias.
Sinopse: Histórias despretensiosas, aparentemente sem grande relevância
perante clássicos absolutos podem porventura ser ignoradas por leitores
incautos. Foi o que me aconteceu da primeira vez que liTônio
Kroeger, do escritor alemão Thomas Mann. Acompanhei o desenrolar da
trajetória do jovem Kroeger não esperando ver ali algo que pudesse rivalizar
com as grandes obras de Mann, comoDoutor FaustoeA Montanha Mágica, mas isso me
levou a pressupor que no livro não houvesse nada além de um exercício de
narrativa qualquer, com alguns lampejos de brilhantismo aqui e ali, mas nada
mais do que isso.
Ledo engano. De fato é difícil pôr em pé de
igualdadeTônio Kroegere
os clássicos de Mann, mas nem por isso o livro deixa de ter questões
importantes para desvendar as concepções do autor alemão sobre a existência, a
arte e o ato (e ofício) de escrever. Essa é, mais do que outras
características, a riqueza deTônio Kroeger, a breve novela
de 1903. (Lucas Deschain).
A trama não é nada complexa: Tônio
Kroeger, filho do cônsul Kroeger e de uma mulher trazida do sul, de cabelos
negros e com aura romântica, vive alguns dos dilemas de inadaptabilidade da
juventude, que se transfiguram em sua condição perante sua sociedade e sua
individualidade no conflito entre suas pretensas obrigações disciplinares
conservadoras e os arroubos espirituais e artísticos de sua própriapersona.
O
lirismo que parece lhe emanar do peito se materializa nos poemas que escreve,
em sua admiração elogiosa de Hans Hansen (colega por quem possui um afeto muito
grande) e na admiração pelo espírito fogoso de sua mãe. Ao mesmo tempo, no
entanto, Kroeger sente remorso por devotar-se a essas paixões e à arte em
geral, sentindo-se deslocado dostatus quode seu tempo e de seu meio.
Esse é o dilema central da
sucinta obra, eivada dos conflitos da sociedade alemã da época de Thomas Mann.
Uma rígida moral e uma mentalidade profundamente arraigada na disciplina
existencial e no trabalho diligente grassavam a sociedade alemã do início do século
XX. A burguesia alemã consolidava, passo a passo, sua civilização e sua
hegemonia, criando, por conseguinte, condutas modelares e pressões sociais
direcionadas a diferentes escopos. Kroeger encontra-se no limiar desse mundo
burguês e a tradição intelectual e artística com a qual mantém contato através
de suas leituras e experiências. Essa dúvida o corrói o livro todo.
Sua própria origem familiar
expressa a dualidade de Kroeger: seu pai é um burguês, cônsul, inserido numa
categoria de carreira tipicamente burguesa; sua mãe, oriunda do sul (a mãe de
Mann era brasileira), é a mulher dada a exercícios espirituais, à cultura e
encarna, por conseguinte, uma visão de mundo mais livre e desregrada, ao
contrário daquela que caracteriza o mundo burguês. Tônio Kroeger é o fruto
dessa união, que nele se fundiu mas que em seu interior constantemente se
aparta.
Essa condição faz do
protagonista um sujeito ao mesmo tempo dotado de uma riqueza criativa que
extravasa o rígido e estreito caráter burguês, e atormentado por ser diferente
daqueles que em tese são seus pares. A arte e a vida burguesa, portanto, são os
dois pratos da balança. Os valores e princípios de um e outro fazem da moral de
Kroeger umbricolagem conflituoso e constantemente prestes a
cair para um dos lados dessa corda-bamba.
Sua amiga Lisavieta resume bem
o lugar que ele ocupa dentro desse ínterim: “Você é um burguês em caminhos
errados, Tônio Kroeger – um burguês errante.” (p. 48) Fala similar é proferida
pelo próprio Kroeger, em constante divagação e questionamento moral:
“Estou entre dois mundos; não
me sinto à vontade em nenhum dos dois e por isso tenho um pouco de dificuldade.
Vocês, artistas, me chamam de burguês, e os burgueses sentem-se tentados a
prender-me…não sei qual dos dois me magoa mais.” (p. 84)
A arte como redenção, como
fuga, como forma de lidar com dificuldades, como ameaça a pairar sobre sua
própria cabeça, como tormento… a arte não é um hedonismo supérfluo, mas se
entranha no espírito, desequilibrando-o, tirando-o da inércia, ainda que a custo
de sofrimento e perigo. Essa é a riqueza deTônio Kroeger, seu tratamento
da arte, seu questionamento moral, seus dilemas, enfim, sua capacidade de nos
fazer olhar para dentro de nós mesmos e ao nosso redor, a um só tempo.
Fonte: Posfácio
Sobre o autor:
Thomas Mann
nasceu em Lübeck, norte da Alemanha, no dia 6 de junho de 1875 e teve como
berço uma tradicional família de aristocratas. Sua mãe, Julia da Silva Bruhns,
era brasileira, nascida na fazenda Boa Vista, em Angra dos Reis, e transferida
com a família para a Alemanha durante a adolescência. Com apenas 26 anos, ele
foi descoberto para o mundo através da publicação de Os Buddenbrooks, seu
segundo livro, que narra a decadência em quatro gerações de uma família
burguesa tradicional, inspirada em seu próprio clã.
Thomas Mann se
tornou vítima das contradições do seu tempo, marcado por extremos ideológicos
brutais. Para a esquerda, era um nacionalista ferrenho, que pregou a
superioridade germânica em seus primeiros livros. Para a direita - sobretudo na
época da caça às bruxas do Macarthismo nos EUA -, ganhou a pecha de comunista.
Mann nunca transitou entre os dois extremos. Foi, acima de tudo, um
anti-radical, que desprezou com todas as forças a mácula do nazismo, numa
indignação que pode ser mensurada numa frase: "Falo de nossa vergonha. A Alemanha inteira, o espírito alemão, o
pensamento alemão, a palavra alemã são atingidos por essa desonra". Faleceu
na Suíça em 1955.
Título
original: The Jesuits (Editora Simon & Schuster, New York,
1987)
Autor: Malachi Martin
Tradução: Luiz Carlos do Nascimento Silva
Editora: Record
Assunto: Polêmica (Historiografia e Teologia)
Edição: 1ª
Ano: 1989
Páginas: 463
Sinopse: Como os jesuítas de hoje
estão usando o poder espiritual conquistado através dos séculos para tentar
influir nos rumos da política internacional. De aliados do Papa e seus
intransigentes defensores, os jesuítas passaram de algum tempo para cá a ser os
seus mais ativos opositores. Malachi Martin, teólogo eminente e antigo jesuíta,
revela como os atuais dirigentes da Companhia de Jesus a transformaram na maior
inimiga do capitalismo democrático do Mundo Ocidental.
Malachi Martin,
destacado teólogo e especialista em Igreja Católica, ex-jesuíta e professor do
Pontifício Instituto Bíblico do Vaticano, ousou assestar um holofote nos véus
dos segredos que encobrem as atividades da mundialmente poderosa Igreja
Católica Romana. Neste universo em que a fé e o poder entram em choque, a
Sociedade de Jesus tem sido, talvez, a mais lendária e fabulosa, a mais
admirada e injuriada na prática de ambos. De seu início numa época
revolucionária, e ao longo dos quatro séculos e meio de sua tumultuada
existência, os jesuítas têm sido ao mesmo tempo um enigma e um modelo para o
resto do mundo. Amigos e inimigos, católicos e não católicos, todos têm tentado
resolver o poder e o segredo desses homens, treinados e devotados do ponto de
vista religioso que também são gigantes em todas as atividades seculares da
humanidade. Nas ciências e nas artes, nas letras, na exploração e no ensino —
para não falar na política mundial —, os jesuítas sempre visaram ao melhor. E
foram.
No entanto, o
aspecto mais desconcertante da Sociedade de Jesus, e o que mais enfurecia seus
inimigos, era que, apesar de todo o poder, os jesuítas eram gigantes com uma
finalidade: a defesa e a propagação da autoridade e do ensinamento papais.
Fiéis a um ideal espiritual, e para “A Maior Glória de Deus”, eram os
defensores por excelência dos interesses vitais da Igreja, a Força Especial do
vigário terreno de Cristo. Não eram apenas “Homens do Papa”. Eram os Homens do
Papa. Até agora.
Em Os Jesuítas,
Malachi Martin torna pública, pela primeira vez, a pungente história dos
bastidores de homens e seus motivos e dos meios por eles usados, por trás da
camuflagem da grandeza jesuíta no passado, para construir a “nova” Sociedade de
Jesus no âmbito mundial. O leitor conhecerá os líderes e os joguetes; o sangue
e o pathos -, a política, as traições
e as humilhações; as campanhas de vendas enlatadas que se estendem de Roma e de
Washington para o mundo e que mascaram uma missão estranha e destruidora.
Sobre o autor: Malachi
Brendan Martin (¶23 de julho de 1921 - 27 de julho de 1999)
foi um padre católico irlandês e escritor sobre a Igreja Católica.
Originalmente ordenado padre jesuíta, se tornou professor de Paleontologia no
Pontifício Instituto Bíblico do Vaticano, e a partir de 1958, Martin também
atuou como consultor teológico do Cardeal Augustin Bea durante os preparativos
para o Concílio Vaticano II.1 Desiludido pelas reformas na Igreja e com a Ordem
Jesuíta, em 1964, pediu dispensados votos religiosos e mudou-se para Nova York. Seus 17
romances e livros de não-ficção foram frequentemente críticos a Igreja
Católica, a qual acreditava que havia falhado em agir sobre a terceira profecia
supostamente revelada pela Virgem Maria em Fátima. 2 Entre suas obras mais
significativas estão The Scribal
Character Of The Dead Sea Scrolls (1958) e Hostage To The Devil (1976), que tratam de satanismo, possessão
demoníaca e exorcismo1, e The Final
Conclave (1978) que é um alerta contra espiões soviéticos no Vaticano.
Título original: Poder Global y Religión Universal
Autor: Juan Claudio Sanahuja
Tradutor: Lyège Carvalho
Assunto: Ensaio
Editora: Ecclesiae
Edição: 1ª
Ano: 2012
Páginas: 206
Sinopse: NA PASSAGEM PARA O TERCEIRO MILÊNIO, ao inaugurar o Grande Jubileu de
2000, o beato João Paulo II exortou os cristãos a confiarem na vereda de
Cristo, lembrando a estreiteza da via que, em uma história bimilenar, foi capaz
de fazer a Igreja vencer tantas sombras e perigos incontáveis, ameaças e
perseguições, e tantas outras incompreensões e falsas interpretações; assim, a
luz fulgurante de Cristo chegou ao século XXI como um fato incontestável: “Entramos por esta Porta, que representa
Cristo mesmo: com efeito, só Ele é o Salvador.” Esta verdade histórica
chegou até nós, a geração pós-Concílio Vaticano II, mas está hoje (e novamente)
atacada de modo intenso e sistêmico,
porforças culturais, econômicas
e políticas, no afã de impor uma
nova ordem mundial, destituída das premissas cristãs, ordem imposta por
diversas formas de manipulação, a pior de todas as violências. Uma nova ordem não
apenas política, mas também religiosa, de uma religiosidade light, “sem dogmas,
sem estruturas, sem hierarquias, sem morais rigorosas”, como ressalta monsenhor
Juan Cláudio Sanahuja, neste lúcido livro Poder Global e Religião Universal.
Este
“poder global”, como um novo Leviatã, “procura a perversão dos menores, a
anticoncepção, o aborto, a eutanásia, a investigação com embriões humanos, a
injusta legitimação jurídica de casais do mesmo sexo etc. A falsa
espiritualidade da nova ordem procura
ensinar às crianças de 5 anos a normalidade da homossexualidade e da
masturbação e instruí-la no uso de preservativos e da pílula do dia seguinte,
inculcando-lhes que o aborto é um direito, como propõe a UNESCO”.
Comentários: A crise da Igreja é grave. Tenho a
impressão de que não se esconde de ninguém que o cataclismo social – que afeta
o respeito à vida humana e à família – tem essa triste situação como causa.
Michel Schooyans afirma, sem nenhuma dúvida, que a Nova Ordem Mundial, “do ponto de vista cristão, é o maior perigo
que ameaça a Igreja desde a crise ariana do século IV”, quando, nas palavras
atribuídas a São Jerônimo, “o mundo dormiu cristão e, com um gemido, acordou ariano”.
(...) Soma-se à atitude vacilante de muitos católicos a ditadura do politicamente
correto, muito mais sutil que as anteriores e que reivindica a cumplicidade da
religião, uma religião que por sua vez não pode intervir nem na forma de
conduta nem no modo de pensar. A nova
ditadura corrompe e envenena as consciências individuais e falsifica quase
todas as esferas da existência humana.
A sociedade e o estado excluíram Deus, e
“onde Deus é excluído, a lei da organização criminal toma seu lugar, não importa
se de forma descarada ou sutil. Isto começa a tornar-se evidente ali onde a
eliminação organizada de pessoas inocentes – ainda não nascidas – se reveste de
uma aparência de direito, por ter a seu favor a proteção do interesse da
maioria”.
O autor: Argentino, sacerdote ordenado em 1972, Doutor em
Teologia pela Universidade de Navarra, Espanha, Professor de Teologia Moral e
História da Filosofia e da Teologia, Capelão de sua Santidade o Papa Bento XVI
e Colaborador do Conselho Pontifício para a Vida. É também jornalista pela
Universidade de Navarra e autor de «El
desarrollo sustentable. La nueva
ética internacional» («O
desenvolvimento sustentável. A nova ética internacional»)
Entrevista
com o autor:
Canção Nova - De que forma funcionam essas estratégias de
estabelecimento de um poder global e religião universal?
Monsenhor Juan Claudio Sanahuja - É algo fabricado pelos
mesmos lobbys antivida, porque precisam transformar a cultura dos países
cristãos, a fim de que a mensagem antivida possa ser aceita nesses países. Para
isso, precisam "trocar" as crenças dos povos cristãos, especialmente
católicos, e isso desgraçadamente é favorecido por uma situação de
"crise" no interior da Igreja, pois há pessoas, inclusive
eclesiásticos, que não aceitam os pronunciamentos magisteriais.
Justamente estes projetos de
nova ética internacional baseiam-se no relativismo ético. Portanto, os
documentos do Magistério que afirmam verdades imutáveis são rechaçados por
esses projetos. E querem inculcar isso no povo cristão e católico, em parte
valendo-se de alguns eclesiásticos que não aceitam o ensinamento da Igreja.
Canção Nova -Já tivemos na história regimes políticos que
promoveram o ateísmo, e, depois, surgiu essa tendência de promover a religião
aconfessional. Qual é a diferença desses dois mecanismos?
Monsenhor Sanahuja - As pessoas são quase sempre
as mesmas e tudo está impregnado de um neomarxismo. Então, o que ocorre é que
querem substituir a religião revelada, cristã, por uma outra, de valores
relativos, utilizando inclusive as mesmas palavras que têm grande valor para a
religião cristã. Por exemplo, a "paz". É uma palavra que tem forte
embasamento de conteúdo cristão. Por isso, não bastam as palavras: temos que
ver quem diz e por que as diz.
É o que o então Cardeal Joseph
Ratzinger chamou de moralismo político. Não basta falar sobre paz, proteção das
crianças, igualdade. Tem-se que ver quem diz e qual é a sua ideologia, pois
podem ser palavras enganosas, embora baseadas em conteúdo católico. Então,
aqueles que pregavam ateísmo há uns anos são os mesmos, ou discípulos desses, e
agora pregam uma nova ética de valores relativos, mutáveis. Assim, tudo o que
seja verdade imutável é fundamentalismo e, portanto, rechaçável, condenável.
Por isso, alguns dizem que a posição da Igreja em relação ao aborto altera a
paz, tanto social quanto mundial. Já outros abordam as formas de se combater a
Aids: a Igreja fala sobre o cultivo de bons costumes, e há quem acuse isso de
crime!
Canção Nova - De que forma os padres e bispos podem ajudar nesse
contexto? E o povo católico, já abriu os olhos para essa realidade?
Monsenhor Sanahuja - Sendo fiéis ao Magistério,
pregando a doutrina ensinada por Jesus. Acontece que nós sacerdotes, os
clérigos, inclusive bispos, temos a pressão do ambiente, do "politicamente
correto". Temos que pregar a Jesus e a conduta que Ele nos ensina a ter,
apesar da presença do politicamente correto. Com a ajuda de Deus, não podemos
ceder às pressões. Isso é inadmissível. Os sacerdotes devem pregar Jesus e a
doutrina católica, em sua integridade, e não se deixar pressionar, ainda que
isso possa trazer dor de cabeça.
COMO AGIR QUANDO UM PAPA ENSINA ALGO CONTRÁRIO À DOUTRINA DA IGREJA?
Sinopse: O
livro narra os conflitos do jovem Etzel Andergast com seu pai, Barão Wolf de
Andergast, juiz respeitado, austero e conservador. O jovem descobre que seu pai
condenou um homem inocente, se interessa pelo caso e se envolve tentando
resolvê-lo. Para tanto, sai de casa e procura conseguir provas para libertar o homem
que o pai condenara.
O romance mostra o marcante contraste
entre a justiça ideal e a abstrata, e a aplicação de seus preceitos no mundo
dos homens.
Resumo da narrativa: O barão Wolf de Andergast divorciou-se da esposa quando seu filho Etzel tinha seis anos e meio de idade. As cláusulas do divórcio proibiam a mãe de
aproximar-se do filho, ou até mesmo escrever para ele. De forma que Etzel foi
criado por madame Rie, a governanta da casa.
Ao completar os 16 anos
de idade, o jovem Etzel descobre que seu pai cometeu um erro ao condenar um
inocente, se interessa pelo caso e decide corrigi-lo. Sai de casa, e viaja até
Berlim na busca de provas que pudessem inocentar Leonardo Maurizius preso por
um crime que não cometera.
O barão Wolf von
Andergast, quando era ainda um jovem promotor, foi o responsável pela acusação contra
Leonardo Maurizius de assassinato da esposa que culminou com a condenação deste
a prisão perpétua. Quase vinte anos depois, o barão retoma o estudo dos autos
do processo e descobre que cometeu um erro condenado um inocente.
Etzel, inconformado com
a prisão injusta de Leonardo Maurizius, foge de casa para descobrir a verdade.
Em Berlim, Etzel encontra Waremme cujo nome verdadeiro é George Warschauer e
procura obter informações sobre o assassinato da esposa de Maurízius.
Promove o indulto de
Maurizius, mas o seu filho Etzel não se conforma com um simples indulto, ele
quer uma justiça perfeita e absoluta.
O Processo Maurizius,
não é um livro de literatura jurídica ou de aventura forense. Ao que parece, vai
se seguindo a vida de Etzel Andergast, filho do Barão, entusiasta ao seu
próprio modo do seu próprio conceito de justiça. Um conceito, eu diria,
bastante responsável, raro ao atribuir o encargo pessoal de se agir segundo a
repulsa que a injustiça provoca, mas adolescente e ingênuo, por acreditar que
tudo possa ou mereça ser mudado.
Etzel Andergast, filho do juiz Wolf Andergast, para
recuperar a justiça, denuncia o erro judiciário de seu pai contra Leonardo
Maurizius. Acontece que o denunciante só conhece parte da verdade e
desconhece completamente as conseqüências de seu ato. Como resultado acaba
destruindo a carreira de Wolf Andergast, seu pai, por conta de sua
rebelião metafísica disfarçada sob a aparente de defesa da justiça.
Ao longo da história, Etzel vai mudando o seu
comportamento que é percebido pelo seu professor.
O comportamento do barão, diante da revolta contra
a situação de uma falha de julgamento no processo, começa a mudar também
até destruí-lo completamente.
Interpretação da obra: - Prof. José Monir Nasser
Perfil das personagens
da obra:
§Etzel
Andergast: Um menino de 16 anos, míope*, que não conhecia a mãe por conta de um
divórcio. Desprovido de emoção, se considera predominantemente racional e ponto
de vista objetivo. Revoltado com as injustiças do mundo e não admitia o
contraditório. Seu discurso é existencialista e no fundo Etzel é um niilista. (* A miopia de
Etzel é um dado importante na interpretação da obra).
§Barão Wolf Andergast: Pai de Etzel. Procurador de
justiça, homem austero que “se deixara
penetrar até o âmago pela consciência da nobreza superior do seu dever e do seu
ministério” e “excessivamente
absorvido pelo trabalho da sua profissão”. Não tinha vida social e não
gostava de aparecer em
público. Passava duas horas por dia, à noite, para conversa
com o filho, compromisso que “entrava no
plano de sua vida do mesmo modo como o estudo dos autos”. A conversa
começava sempre com “perguntas
inofensivas” e terminava com altos debates.
§Sofia
Andergast: Mãe de Etzel, divorciada do barão de Andergast e afastada do
filho Etzel por conta de uma traição conjugal ao marido.
§Generala
Andergast: Avó de Etzel.
§Oto
Leonardo Maurizius: Condenado à morte quando o barão de Andergast ainda era
juiz. Teve sua pena comutada para prisão perpétua e libertado pelo próprio
barão após ter cumprido 18 anos na cadeia.
§Eli
Hensolt (Eli Jahn quando solteira): Esposa de Maurízius que fora
assassinada cuja culpa recaíra sobre o marido.
§Gregório
Waremme (George Warschauer): Testemunha-chave na condenação de Leonardo
Maurízius. Ninguém sabia nada sobre a sua procedência ou quem ele era “só o diabo sabe o que é preciso fazer para
retratá-lo”.
§Ana Jahn:
Irmã de Eli Hensolt. Com a morte da irmã Eli a fortuna da família havia passado
para ela.
§Rie:
Governanta da casa que criara Etzel no lugar da mãe.
Dados do problema:
Rebelião absoluta de
Etzel contra o pai por conta do divórcio com a mãe.
Etzel Atribui ao pai
todas as injustiças do mundo. É a revolta contra o espírito.
Etzel não admite o
contraditório. (“Há conflito de
deveres ou existe um só e único dever?”) um de seus questionamentos.
O discurso de Etzel é
um discurso existencialista; um discurso contra o Espírito e contra Deus.
“No coração desta conspiração ou no
centro desta aliança, pouco importa, está meu pai”.
“Foi ele quem tomou as medidas, é ele
quem tem todos os fios nas mãos. Tudo o que o embaraça, ele o exclui: qualquer
curiosidade ou reclamação, qualquer espírito de pesquisa. As coisas sucedem
assim e ele quer que sucedam assim. E, como é todo poderoso, as coisas
realmente sucedem assim...” Etzel sente tudo isso como uma
injustiça. Pergunta a si mesmo se deve continuar a se submeter.
Etzel na verdade não
quer “recuperar” a justiça, o que ele quer é se vingar do pai,
destruindo-o. O pai aqui simboliza o espírito.
O casamento de
Maurizius foi um casamento de conveniência. Ele era 16 anos mais novo que
a esposa; a esposa tinha um dote de 80 mil francos, isso o colocava como
suspeito principal na morte de sua esposa.
O que aconteceu na
Alemanha não é um problema do povo alemão, é um problema humano. Poderia
ter acontecido com qualquer povo.
Deve-se retirar a
conotação histórica do problema alemão da obra de Wassermann.
Conclusão
§Etzel
quer se vingar do pai por causa da mãe. É a vingança contra o Espírito.
§A
mãe simboliza o Amor.
§O
pai simboliza o Espírito.
§Por
essa razão as crianças devem ser criadas pela mãe que é o amor.
§Etzel
está revoltado contra o Espírito porque este lhe tirou a possibilidade do amor.
Ele quer a derrota do pai para se colocar no seu lugar. Aqui está a explicação
porque Etzel não é emocional, mas racional.
§A
justiça do pai é imperfeita e Etzel vai procurar a justiça perfeita, porque ele
julga que o mundo é imperfeito. Eis aqui a rebelião metafísica.
§Etzel
é um rebelado metafísico, um narcisista do mais alto calibre, que quer
construir um “mundo perfeito” por meio da “justiça perfeita”.
§A
condição para o mundo existir é ter um grau de perfeição menor que a perfeição
de Deus. Se o mundo fosse tão perfeito quanto Deus, então não existiria Deus. A
imperfeição do mundo é uma espécie de preço que nós pagamos para viver nele.
§Em
resumo: Etzel é um rebelado contra Deus que tem o delírio da onipotência.