segunda-feira, 5 de março de 2012

LIVRO DE JÓ

Livro da Bíblia Sagrada
Tradução: Padre Antônio Pereira de Figueiredo
Assunto: Drama - Religião
Editora: Edição Barsa
Ano: 1965

Sinopse: Este livro é conhecido pelo nome de seu principal personagem, é um dos mais belos poemas do mundo. Apresenta-nos com muita arte um drama cuja ação é bastante simples: Jó, varão de conduta irrepreensível, perde seus bens, filhos e saúde, e, em certo momento, sustenta um debate com três amigos que tentavam provar que todos esses infortúnios eram um castigo de seus pecados. Jó, com razão, proclama sua inocência, mas em vão busca uma explicação para seus sofrimentos. Finalmente, Deus intervém para mostrar a Jó a tolice que é o querer perscrutar os caminhos da providência divina, não obstante, louva-o por não ter aceitado as falsas soluções propostas por seus amigos.

Resumo da narrativa: O prólogo do livro fala da virtude a prosperidade de Jó. Jó é bom e justo. Cumpridor de suas obrigações. O diabo visitando Deus faz-Lhe um desafio e usa Jó como bode expiatório. Satanás faz uma espécie de aposta com Deus de que tem o poder para transformar Jó numa pessoa revoltada contra Deus; Deus aceita o desafio e autoriza o Diabo a tentar Jó, mas não permite atente contra a vida Jó.

Primeira provação e resignação de Jó: Satanás então empobrece Jô e lhe tira tudo, inclusive a família. Todavia, Jó conserva a sua saúde e permanece fiel a Deus.

“A doença, segunda provação, e a visita dos amigos”: Então Satanás tira a saúde de Jó, mas ele não reclama. Contudo, acha que não foi tão pecador a ponto de merecer tamanho castigo. Aqui nasce a idéia da justa retribuição (Equivalência entre o mal e a pena).

Os amigos de Jó (Elifaz de Teman, Baldad de Suas e Sofar de Naamat) esperam sete dias e sete noites para tomar a iniciativa de falar com Jó.

“Disputa de Jó com os amigos”: Este trecho fala do primeiro ciclo de discursos começando pelas lamentações de Jó. Cada um dos três amigos de Jó faz três discursos; Jó responde individualmente a cada um dos amigos os dois primeiros e coletivamente aos terceiros discursos.

Os amigos de Jó fazem a equivalência entre a gravidade do pecado com a gravidade do castigo a que ele fora submetido. Elifaz acusa Jó de desprezar a correção do Senhor. Baldad associa-se com a tese de Elifaz de que os males são castigos pelos pecados. Sofar lembra que há pecados ocultos.

Jó diz que os amigos não têm o direito de acusá-lo sobre a gravidade dos pecados e se defende de seus acusadores. Jó faz um discurso poético dizendo não ter culpa e insiste em que não tem pecado e pede que lhe apresentem as razões de seus sofrimentos.

Os amigos insistem que Jó pecou, usando elementos da tradição. Jô diz que não é necessário que se inventem pecados para se justificarem os males. Baldad repreende Jó e descreve o estado do ímpio castigado, comparando-o com o de Jó.

Jó lamenta que seus amigos estejam contra ele, como Deus está – mas confia na justiça divina. Sofar acusa Jó de ter enriquecido ilegalmente. Jó insiste na sua inocência e confirma que os ímpios morrem sem ser perturbados. Elifaz especula as faltas, em que Jó teria incorrido. Jó diz que quer ir ao tribunal para ser julgado, mas não consegue encontrá-lo. Baldad argumenta que Deus governa com sabedoria o incontável exército dos astros, logo por que não faria o mesmo com a terra?

Jó compara sua vida pregressa e feliz com sua desgraça atual e reafirma sua inocência. Jó faz confissão “negativa” das faltas que não cometeu.

“A aparição da personagem Eliú”: (provavelmente foi inserida depois). Eliú faz quatro discursos: O primeiro sobre a Pedagogia do sofrimento; o segundo sobre Deus é justo; o terceiro sobre as Vantagens da virtude; e o quarto e último sobre a Submissão a Deus. Defende a completa transcendência da sabedoria divina, dizendo usar de argumentos diferentes dos amigos, mas usa também a doutrina tradicional. Eliú acha que a queixa de Jó é uma blasfêmia, porque Deus não poderia não ser justo. Eliú continua contestando a idéia de que a virtude não aproveita ao homem neste mundo. Eliú mostra que a sabedoria divina usa o sofrimento para purificar o homem, sobretudo os orgulhosos como Jó.

Deus aparece para Jó na forma de um anjo e o repreende com muito vigor. O Senhor faz dois discursos. O anjo fala sobre as obras da criação para estabelecer o abismo que há entre o Criador e criatura. Demonstra que a sabedoria divina deve levar Jó à humildade. Jó reclama da desproporção entre o pecado e a pena. Deus continua a mostrar sua imensa superioridade falando do Beemot, o mais potente dos animais segundo os judeus. Deus mostra que pode controlar o monstro Leviatã. Jó admite que se excedeu. Os amigos são censurados e Jó cumulado de bens. Deus devolve em dobro tudo que foi tirado de Jó, menos os 10 filhos.

Interpretação do sentido do drama: O prof. José Monir Nasser nos explica que todo o drama está consubstanciado no fato de que Satanás age sobre Jó exigindo dele uma perfeição não humana. Esta é uma maneira que Satanás utiliza para induzir Jó e seus amigos a interpretar o pensamento de Deus.

Há, entretanto, um segundo aspecto a ser considerado: Todos sabem que Deus é justo, mas por que deve o justo também sofrer? Por que tanto sofrimento para tão pequenas faltas? Esta é uma pergunta que os espíritos despreparados e descrentes fazem e que não tem propósito algum e completamente desprovida de sentido, mas que tem relação com a questão principal.

O principal erro daqueles que fazem perguntas dessa natureza, assim como fazem os amigos de Jó, está na pressuposição de que eles sabem os desígnios de Deus. Convém lembrar que a estrutura da sociedade humana foi construída a partir de uma injustiça (Caim mata Abel, mas Caim não recebeu a justiça).

Existem certas coisas neste mundo que nós não compreendemos e que aparentemente são muito ruins, mas que no fundo tem um sentido. Compete a nós nos submetermos humildemente aos mistérios de Deus, pois nós não estamos obrigados e ser melhores que Deus, nem abandonar o nosso status de humanos.

Assim, não se pode entrar na conversa satânica de que só a perfeição é que vale. Não se pode exigir de nós mesmos que nos comportemos como Deus. O ser humano não é obrigado a praticar uma perfeição que não pode ter. O que vale é o homem fazer aquilo que humanamente pode fazer. A perfeição é um atributo de Deus, portanto é preciso entender que há uma diferença extraordinária entre a condição humana e a condição divina. Por essa razão devemos nos submeter a um determinado grau de ignorância.

Conclusão: O Diabo quer que você seja perfeito, que você sinta culpa por coisas que você não fez. O que ele quer é imobilizar você. E todos aqueles que querem construir um mundo perfeito se submetem a tentação do Diabo. Não entrar na conversa satânica e tentar fazer o que não é capaz de fazer. Faça somente aquilo que é humanamente possível de fazer. Não busque sua perfeição querendo se equiparar a Deus e não queira ser Deus, porque há uma diferença imensurável entre a condição humana e a condição divina. (José Monir Nasser)

Finalizando, mas não esgotando o assunto, há mais coisas entre o céu e a terra que a nossa vã filosofia possa compreender.


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Notas: A melhor tradução da Bíblia Sagrada é a traduzida da Vulgata Latina para a língua portuguesa pelo Padre António Pereira de Figueiredo (1725-1797), Edição BARSA (aquela que acompanha a Enciclopédia Barsa e que aparece na foto acima).

Cuidado! com A “Bíblia Sagrada - Edição Pastoral” editada pelas Edições Paulinas e recomendada pela CNBB. Inspirada por ideologia marxista deturpa as concepções da história sagrada e da teologia; a leitura materialista aplicada ao texto sagrado torna a mensagem imanentista, fazendo-a perder o seu caráter transcendental.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

O INFERNO

Título original: L’Enfer
Autor: Louis Gastón de Ségur (1820-1881) - Mosenhor de Ségur
Tradução: Diogo de Chiuso
Editora: Ecclesiae
Assunto: Cristianismo
Edição: 1ª
Ano: 2011
Páginas: 131

“Deus quer que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento pleno da verdade” (1 TM 2,3)

Sinopse: Esta será uma sinopse diferente. Diferente no sentido de começar pelo epílogo da obra. Havia um padre exemplar que, depois de quarenta anos pregando em toda a França e em outras numerosas missões, estava em Roma a conversar com o Santo Padre, o Papa Pio IX. Falavam sobre a maravilha de se estar a serviço de Deus. “Pregue muito as grandes verdades da salvação – dizia-lhe o Santo Padre. Pregue sobretudo sobre o inferno! Nada de sincretismos! Fale claramente e para que todos possam ouvir as verdades sobre o inferno. Porque nada é mais capaz de fazer os pobres pecadores refletirem e, conseqüentemente, fazê-los retornar a Deus”.

Recordando essas profundas e verdadeiras palavras do Vigário de Jesus Cristo, decidi empreender este pequeno trabalho sobre o inferno. Depois, meditando sobre as penas eternas e as desgraças dos réprobos, lembrei-me das palavras de São Jerônimo, que estimulavam uma virgem cristã ao temos dos julgamentos de Deus: “Territus térreo – ele escreveu – ; apavorante, eu me apavoro!” Ao menos, eu me esforcei para tornar tudo apavorante, e Nosso Senhor é testemunha de que nada escondi do que sei acerca desse terrível mistério.

A você, leitor, quem quer que seja, espero que faça proveito. Quantas são as almas que estão no céu graças ao temor que nutriram pelo inferno!

Então, ofereço este modesto livro, rogando ao bom Deus para que faça chegar essas verdades no fundo da alma de cada um. Para que o temor inspire a todos para amar; e que o amor conduza a todos direto ao paraíso.

Espero que se digne a rezar por mim, para que Deus seja misericordioso comigo e também com você. Para que sejamos dignos da admissão entre os Seus eleitos.

Monsenhor de Ségur
8 de dezembro de 1875, na Festa da Imaculada Conceição.

Nota de sua Santidade o Papa Pio IX ao autor: “Eu vos saúdo, bem amado filho, com a Benção Apostólica. Felicitações de todo o nosso coração, que vós não cessais em preencher, em larga escala e muita competência, com o ofício de arauto do Evangelho.

            Tudo o que publicais espalha-se rapidamente entre o povo. Evidentemente, para que vossos escritos despertem tanto interesse, é necessário que sejam agradáveis – e não agradariam se não tivessem o dom de conciliar os espíritos e chegar até o fundo dos corações, produzindo, em cada um deles, efeitos benéficos.

            Beneficiai com a Graça que Deus vos deu, e continuai a trabalhar com ardor para cumprir a vossa tarefa de evangelização.

            Quanto a nós, prometemos-vos uma assistência ampla da parte de Deus, através da qual podereis iniciar um número de almas cada vez mais considerável nas vias da salvação, e assim tecerei uma magnífica coroa de glória.

            Por enquanto como prêmio a esse celestial favor e de outros dons do Senhor, recebeis, bem-amado filho, a Benção Apostólica que vos damos com grande amor, para que testemunhais nossa benevolência paterna.”

Dado em Roma, junto de São Pedro, no dia 2 de março de 1876, trigésimo ano de nosso Pontificado.
Papa Pio IX

Do Prefácio: Finalizo a apresentação deste livro com o Prefácio de Padre Antonio, da Diocese de Santos-SP. Eis o que ele diz da obra: “Pensa nos Novíssimo e não pecarás!” Este era o alerta que recebíamos no Catecismo de que participei há mais de cinqüenta anos. Os novíssimo! Zs últimas coisas que aconteciam a cada um de nós: morte, juízo, inferno, paraíso. Intrigava-nos, crianças ainda, o nome ‘Novíssimos’. Parecia-nos estranho e tão diferente. E o tempo passou; e essas realidades que se aproximam tornam-se mais presentes em nossas vidas.

Sou padre, pela Graça de Deus! E a vocação recebida coloca-me em contato constante com o Senhor e Sua bondade. A Misericórdia Divina manifesta-se nos Sacramentos que presido no dia-a-dia de minha corrida vida. Observo os pecadores saírem renovados na Confissão. Admiro-me de Jesus, o Pão da Vida, que se fez alimento, na memória incruenta de Seu sacrifício no altar. Vejo a criança renascer nas águas do Batismo. Creio no Senhor que nos fez por amor e, por esse mesmo amor, quer nos salvar e levar-nos para viver com Ele no Seu Reino.

Sou convidado, então, a ler o livro “O Inferno” de Monsenhor de Ségur, sacerdote francês do já longínquo século XIX. E uma pergunta brota em meu espírito: que contribuição esperar de um livro como este, que recorda tão triste tema?

Certamente  o autor não quer somente nos passar um sentimento de pavor ao relatar as terríveis palavras da Escritura que nos advertem dos castigos que, infelizmente, podem acometer cada ser humano deste mundo. Também não quer nos espantar ao narrar tristes casos de almas penadas, recurso apologético para uma época que vivia a exaltação da ciência e da razão, que pretendiam excluir a ação de Deus em meio aos homens. De fato, outra é a situação do autor e nela devemos nos fixar. O que Monsenhor de Ségur almeja é despertar o Temor pelo temor.

Temor entendido não como medo ou pavor de Deus, mas sim o temor de perdê-Lo e, mais ainda, magoar.

É para isso que nos orienta este livro: unir-se em plenitude no Amor de Deus, na vida e nos sacramentos.

Santos, 1º outubro de 2011
Pe. Antonio Paulo Ferreira de Castilho
Sacerdote da Diocese de Santos/SP e Doutor em Ciência da Religião.

Sobre o autor: Louis Gastón de Ségur nasceu em Paris a 15 de abril de 1820. Descendente de uma família nobre era filho do marques Eugene de Ségur e da célebre condessa de Ségur, conhecida escritora de livros infantis.

Zeloso nos estudos, logo que se formou em Direito foi enviado como adido à Embaixada Francesa em Roma, junto a Santa Sé (1842-1843). Perto dos Apóstolos Pedro e Paulo, sentiu o chamado para o sacerdócio, e, ao retornar a Paris, ingressou no Seminário de Santo Súplico, sendo ordenado sacerdote em dezembro de 1847. Faleceu em Paris a 9 de junho de 1881.

PALESTRA DE LANÇAMENTO DO LIVRO



ASSUNTOS CORRELATOS

23/08/2013 12:17 | Categorias: Igreja Católica, Espiritualidade
O demônio não é uma superstição
O demônio está bastante presente na pregação do Papa Francisco. Mas, afinal, qual a importância de se falar sobre o diabo e o inferno hoje?
Referência constante em seus discursos, o diabo é um inimigo contra o qual o Papa Francisco insiste em convocar os cristãos a lutar. Na homilia de sua primeira Missa como Pontífice, ele disse que, "quando não se confessa Jesus Cristo, confessa-se o mundanismo do diabo, o mundanismo do demônio". Em uma de suas reflexões matutinas, no mês de maio, Francisco falou do "ódio do príncipe deste mundo àqueles que foram salvos e redimidos por Jesus".
A espontaneidade com que o Pontífice fala de Satanás lembra Jesus Cristo. Desagradando aos "politicamente corretos" e adeptos de uma teologia pouco preocupada com a transcendência, o Santo Padre imita ninguém menos que nosso Senhor: de fato, só nos Evangelhos sinóticos, são mais de 40 referências ao anjo caído; inúmeras delas, relatos de autênticos exorcismos, comprovando que o demônio, longe de ser uma mera produção fantasiosa, é uma realidade viva e atuante no mundo.
Hoje, no entanto, pregadores que falem com veemência do diabo e do inferno são acusados de instalarem o medo e angústia entre os fiéis, como se a prédica da Igreja devesse refletir a preocupação apenas com as coisas deste mundo, e não com as realidades eternas.
Mais do que isso: várias destas realidades eternas chegam mesmo a ser negadas, inclusive por aqueles que nelas e por elas deveriam crer e guiar suas vidas. O demônio, por exemplo, é tratado por muitos como uma mera "força negativa" ou simplesmente como uma metáfora para designar o mal físico. O inferno não passaria de um recurso retórico para ajudar as pessoas na luta contra as mazelas deste mundo. Reduz-se, assim, a categorias materiais aquilo que, de acordo com a doutrina perene e constante da Igreja, é uma autêntica realidade espiritual.
Com efeito, o Catecismo, recordando que "a existência dos (...) anjos, é uma verdade de fé", ensina que alguns destes anjos caíram. São os que comumente chamamos de demônios. Eles "foram por Deus criados bons em natureza, mas se tornaram maus por sua própria iniciativa", segundo uma lição do IV Concílio de Latrão. O Catecismo também destaca que a Escritura por diversas vezes "atesta a influência nefasta" do diabo, que tentou o próprio Senhor quando ele jejuava no deserto (cf. Mt 4, 1-11).
Ao se falar sobre estas coisas, não se pretende fazer do diabo o centro da pregação cristã. Deseja-se, outrossim, instruir os fiéis sobre o perigo de se manter indefeso ou indiferente aos assaltos do maligno. São João Crisóstomo declarava, aos fiéis de Antioquia: "Não é para mim nenhum prazer falar-vos do diabo, mas a doutrina que este tema me sugere será muito útil para vós". A importância deste tema está relacionada ao próprio fundamento espiritual de nossa fé, posto que, como já dizia o Papa Francisco, antes de ser eleito Pontífice, talvez o maior sucesso do demônio "tenha sido nos fazer acreditar que ele não existe, que tudo se arranja em um plano puramente humano" 01.
A Igreja não pode, em nome do bom-mocismo, calar estas verdades de fé, tão importantes para os nossos tempos, sob a alegação de que causariam medo entre as pessoas. De fato, nem todo temor é mau. O medo de perder a Deus e, consequentemente, a nossa alma é, por assim dizer, um "temor sadio", que deve não só ser pregado pelos sacerdotes, mas cultivado por todos os fiéis. Uma sentença atribuída a São João Crisóstomo diz que "devemos nos afligir durante toda a nossa vida por causa do pecado". O cristão deve criar em seu coração um verdadeiro medo de ofender a Deus, fazendo seu o lema do jovem São Domingos Sávio: "Antes morrer do que pecar".
Por: Equipe Christo Nihil Praeponere
Referências

domingo, 15 de janeiro de 2012

NADA DE NOVO NO FRONT

Título original: Im Westen nicht Neues [A Oeste nada de Novo]
Autor: Erich Maria Remarque (1898-1970)
Tradução: Helen Rumjanek
Editora: L&PM Editores
Assunto: Romance
Edição: 1ª
Ano: 2004
Páginas: 224
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Sinopse: Paul Baumer é um filho de uma humilde família alemã durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Convencido de seu dever patriótico por adultos e professores, abandona os bancos escolares e junta-se às trincheiras de soldados alemães. Em pouco tempo, Paul se vê cercado por um ambiente de horror, vê meninos como ele perecerem e percebe que trocou a sua juventude por uma única e cruel certeza - ao da guerra, esteja-se do lado que se estiver.

Resumo da narrativa: A história relata as experiências de Paul Bäumer e seus companheiros de escola, que saem das salas de aula para as trincheiras, cheios de energia e convicção, cavaleiros entusiastas de uma causa pessoal e nacional. Um a um eles são aniquilados no front, não apenas pelo fogo do inimigo, mas também por um crescente sentimento de inutilidade. A guerra deixa de ser uma causa para se tornar um Moloch inexorável e insaciável. Os soldados não têm como escapar da matança rotineira; são homens condenados. Morrem gritando, mas sem serem ouvidos; morrem resignados, mas em vão. O mundo para além dos canhões não os conhece; não pode conhecê-los. “Acredito que estamos perdidos”, diz Paul. Só resta a fraternidade da morte, a camaradagem dos condenados. No final Paul morre, infeliz, mas estranhamente em paz com seu destino.

Comentários sobre o enredo: Todos os lemas perdem seu significado quando os homens sofrem mortes violentas – patriotismo, dever nacional, honra, glória, heroísmo, bravura. O mundo exterior consiste apenas em brutalidade, hipocrisia, ilusão. Até os laços íntimos da família foram despedaçados. Resta o homem só, sem um ponto de apoio no mundo real.

A simplicidade e a potência do tema – a guerra como força aviltante e totalmente destrutiva, na verdade niilista – adquirem áspera expressividade graças a um estilo incisivo e mesmo brutal. Cenas breves e frases curtas e vivas, na primeira pessoa e no presente do indicativo, criam uma instantaneidade inescapável e absorvente. Não há delicadeza. A linguagem é freqüentemente rude, as imagens quase sempre medonhas. O romance tem uma consistência de estilo e propósitos que faltara à obra anterior “O Quarto dos Sonhos” de Remarque e que poucas de suas obras subseqüentes alcançariam.

Comentários sobre o livro: Os críticos de Remarque diziam que no mínimo ele representava erroneamente a realidade física da guerra: um homem com as pernas ou a cabeça arrancadas não podia continuar a correr, referindo-se a duas das imagens que Remarque tinha usado. Muito mais sério do que essas inabilidades, alegavam, era a sua falta de compreensão dos aspectos morais do comportamento dos soldados. Os soldados não eram robôs, destituídos de qualquer senso de finalidade. Apoiavam-se num amplo espectro de valores firmemente estabelecidos.

Comentários sobre o autor: Para melhor compreender o sentido da obra e fundamentar a conclusão, é preciso fazer um breve comentário sobre o autor, pois há relação direta entre ambos.

Remarque não teve infância feliz. Seu ambiente de classe média baixa aparentemente o deprimiu. Dizia-se um romântico e freqüentemente brincava com a idéia de suicídio. Esse ânimo de dúvida existencial nunca o abandonaria.

A origem social de Remarque não pode ser desconsiderada. Ele era produto de um grupo social fortemente afetado por mudanças tecnológicas e sociais. John Middleton Murry, que também sofrera em sua juventude de uma intensa ansiedade que ele suspeitava provir de sua origem social, dizia que a baixa classe média urbana era “o segmento mais completamente deserdado da sociedade moderna”. Era uma camada que a guerra e especialmente a instabilidade econômica dos anos vinte atacariam com ferocidade.

Um mistério enorme cerca a experiência de guerra de Remarque. Estava com dezesseis anos quando irrompeu a guerra, em setembro de 1914, ele foi convocado dois anos mais tarde, em novembro de 1916, enquanto estudava para ser professor, e enfrentou pela primeira vez o combate na linha de frente em Flandres, em junho de 1917. No front foi ferido, segundo seu próprio testemunho, quatro ou cinco vezes, mas conforme outras fontes, apenas uma vez gravemente. O Ministro do Exército alemão, general Groener, informaria a seus colegas de gabinete em dezembro de 1930 que Remarque tinha sido ferido no joelho esquerdo e sob um dos braços em 31 de julho de 1917, permanecendo num hospital em Duisburg de 3 de agosto de 1917 até 31 de outubro de 1918. O ministro considerou falsas as informações de que Remarque tinha sido condecorado ou promovido.

Não se sabe muito mais sobre os dias de soldado de Remarque. Depois que foi catapultado para a fama internacional, mostrou-se relutante em dar entrevistas, e menos ainda informações precisas sobre sua carreira na guerra. Um homem chamado Peter Kropp contou ter passado um ano no hospital junto com o autor durante a guerra e ter sido o modelo para Albert Kropp, uma das personagens de “Nada de novo no front”. Kropp disse que o ferimento na perna que hospitalizou Remarque tinha sido feito pelas próprias mãos do escritor, e insistia em que, uma vez curado o ferimento, ele se tornara funcionário do hospital. Afirmava ainda, que Remarque não tinha qualificações especiais para representar os sentimentos e o comportamento do soldado no front. Parece haver motivos para suspeitar que a experiência de guerra de Remarque não foi tão ampla quanto sugere seu romance e, particularmente, o esforço promocional que o cercou.

Depois da guerra, Remarque retornou brevemente ao seminário católico para professores, de Osnabrück, e no início de 1919 tornou-se mestre-escola de aldeia. Logo abandonou esta ocupação, passando a atuar como jornalista free-lance e a realizar outras tarefas extras para enfrentar suas necessidades financeiras. Publicou artigos sobre carros, barcos, receitas de coquetel; trabalhou por algum tempo numa firma de manufatura de pneus em Hanover, escrevendo jingles de propaganda; finalmente tornou-se editor de fotografia da Scherl, uma revista luxuosa, da alta sociedade, em Berlim. Remarque tentava escrever romances. Dois de seus romances foram publicados, (“O Quarto dos Sonhos”) em 1920 e (“Estação Horizonte”) em 1928, mas não parece ter ficado muito satisfeito com o resultado.

Em 1921 uma tentativa de escrever uma peça de teatro deixou-o profundamente deprimido.

Sobre “O Quarto dos Sonhos” Remarque diria mais tarde:

“Um livro realmente infame. Dois anos depois de publicar, tive vontade de comprar todos s exemplares e tirá-lo de circlação. Infelizmente não tinha dinheiro suficiente. Os Ullsteins fizeram isso por mim, mais tarde. Se não tivesse escrito nada melhor depois, o livro teria sido uma razão para me suicidar.”

O motivo da morte aqui é impressionante: pensamentos sobre suicidio na juventude e ameaças de consumá-lo quando adulto. Junto com o romantismo resultante e a existência nômade, o motivo indica um homem profundamente descontrolado, procurando uma explicação para sua insatisfação. E nessa busca Remarque finalmente encontrou a experiência de guerra.

A idéia de que a guerra era a fonte de todos os males lhe veio de repente, confessou. “Todos nós estávamos”, disse em 1929, “e ainda estamos, inquietos, sem rumo, às vezes excitados, às vezes indiferentes e essencialmente infelizes”. Mas, num momento inspiração, ele tinha pelo menos descoberto a chave para o mal-estar. A guerra.

Conclusão: “Nada de novo no front” não é um livro sobre os acontecimentos da guerra, tampouco um livro de memória e muito menos um diário, mas uma denúncia irada dos efeitos da guerra sobre a jovem geração que viveu o conflito. Os relatos procuram mostrar como a guerra tinha destruído os laços psicológicos, morais e reais entre a geração no front e a sociedade nacional. “Se voltarmos”, diz Paul, “estaremos cansados, alquebrados, destruídos, sem raízes e sem esperanças. Não seremos mais capazes de encontrar nosso caminho”. O próprio Remarque declarou, em 1928, de que a guerra tinha destruído a possibilidade de levar o que a sociedade consideraria uma existência normal.

Portanto, o livro é mais um comentário sobre o espírito do pós-guerra, sobre a visão da guerra no pós-guerra, do que uma tentativa de reconstruir a realidade da experiência da trincheira.

Pode-se ver “Nada de novo no front” não como uma explicação, mas como um sintoma da confusão e desorientação do mundo pós-guerra, particularmente da geração que atingiu a maturidade durante a guerra. O romance é uma condenação emocional, uma afirmação do instinto, um grito de angústia de um insatisfeito, um homem que não conseguiu encontrar seu lugar adequado na sociedade. Que a guerra contribuiu grandemente para a inépcia de grande parte da geração do pós-guerra é inegável; que a guerra foi a causa básica deste transtorno social é pelo menos discutível.

A verdade é que o livro foi um sucesso de vendas. Publicado pela primeira vez em Berlim pela editora de Ullstein, no final de janeiro de 1929, nas três primeiras semanas, foram vendidos 200 mil exemplares. Em quatro meses (maio 1929) foram vendidos 640 mil exemplares e no final do ano as vendas chegaram a quase um milhão de exemplares na Alemanha, e outro milhão na Grã-Bretanha, França e Estados unidos juntos. Em outubro de 1930, Remarque tinha o maior público do mundo.

Sobre o autor: Erich Paul Remark nasceu em 22 de junho de 1898, em Osnabrück, filho de um encadernador católico, Peter Franz Remark e de Anne Maria. Batizado Erich Paul, adotou um pseudônimo depois da guerra, abandonando o Paul, acrescentando o nome de sua mãe e afrancesando o sobrenome.

Em 1933, os nazistas baniram e queimaram os livros de Remarque. A propaganda do partido afirmava que ele era descendente de judeus franceses, e que o seu verdadeiro nome era Kramer (o seu nome original lido de trás para a frente). Há ainda algumas biografias que afirmam isto, apesar da falta de provas.

Viajou para a Suíça, em 1931, e em 1939 emigrou para os Estados Unidos da América, com a sua primeira esposa, Ilsa Jeanne Zamboui, com quem se casou e divorciou duas vezes. Tornaram-se cidadãos estadunidenses em 1947. Por fim, casou com a atriz Paulette Goddard, em 1958, e permaneceram casados até à data da sua morte em 1970, na Suíça.

domingo, 11 de dezembro de 2011

MEMÓRIAS DO SUBSOLO

Título original: Zapíski Iz Podpólia
Autor: Fiódor Dostoievski (1821-1881)
Tradução: Boris Schnaiderman
Editora: 34
Assunto: Novela
Edição: 5ª
Ano: 2004
Páginas: 152



Sinopse: Publicado em 1864 na revista literária Época, fundada por Dostoiévski e seu irmão Mikhail, a novela nos traz um homem desencantado, funcionário da baixa burocracia russa, que mora com o empregado Apólon num modesto apartamento no subsolo de um edifício. Angustiado e pessimista, esse homem sem nome nos revela, por sua própria voz, um absoluto desprezo pelo mundo a sua volta e, ao mesmo tempo em que escolhe a solidão, parece, em certos momentos, amargurar-se ainda mais com ela.

Sou um homem doente... Um homem mau. Um homem desagradável.

Aqui ressoa a voz do “homem do subsolo”, a personagem-narrador que, à força de paradoxos, investe ferozmente contra tudo e contra todos – contra a ciência e contra a superstição, contra o progresso e contra o atraso, contra a razão e a desrazão –; mas investe, acima de tudo, contra o solo da própria consciência, criando uma narrativa ímpar, de altíssima voltagem poética, que se afirma e se nega a si mesma sucessivamente.

Comentários: Memórias do subsolo inaugura uma nova fase na obra de Dostoiévski e na literatura ocidental. No âmbito circunscrito à produção do maior romancista russo de todos os tempos, essa narrativa singular antecipa a maturidade do escritor.

Até a publicação desta novela, Dostoiévski era um escritor dotado de aguda percepção social, cujos “ensaios fisiológicos” já traziam uma apreensão do caráter fantástico da realidade. Mas é nesta obra – traduzida pelo ensaísta Boris Schnaiderman – que o escritor materializa sua visão abissal dos conflitos morais, psicológicos e sociais, que se interpenetram caoticamente de modo a destacar, como única medida do mundo, o desejo humano de salvação diante da morte e da desrazão.

A novela é dividida em duas partes. Na primeira, “O subsolo”, o anônimo narrador destila amargura e escárnio contra as almas [almas no conceito russo são pessoas] idealistas de seu tempo, que confiam ingenuamente na subordinação do homem às leis da natureza como forma de alcançar um estado de harmonia social e espiritual. Para o homem subterrâneo, esses “palácios de cristal”, “essas sutilezas do belo e sublime” são quimeras do “homem de ação”, que reduz os anseios da alma ao bem-estar material, segundo o credo positivista. Por isso, ele preferirá sua existência de zombaria e torpeza, de tédio e inação, a “consciência hipertrofiada” de quem conhece a essência irredutível do ser humano.

O monólogo inicial de Memórias do subsolo proporciona ao leitor momentos impagáveis de humor negro e anarquismo metafísico. Mas a mensagem desse habitante das catacumbas da existência é clara: utopistas como Tchernichévski ou Fourrier (freqüentemente aludidos ao longo do texto) são, na verdade, avatares do “Grande Inquisidor” de Os Irmãos Karamazov, que oferece aos homens segurança e conforto ao preço do aniquilamento de seu livre-arbítrio e de sua torturada paisagem interior.

Em Memórias do subsolo, todavia, Dostoiévski ainda não atingira a dimensão apocalíptica e regeneradora da sua última fase. Assim, na segunda parte da novela, “A propósito da neve molhada”, a narrativa das peripécias do homem subterrâneo leva da galhofa à tragédia. A negatividade do narrador revela seu lado sinistro quando enreda a prostituta Liza em sua teia: o espetáculo da auto-degradação se transforma em crueldade; os anátemas contra o humanismo deságuam no desespero e no remorso. (Manuel da Costa Pinto)

No preâmbulo da obra, Dostoiévski nos explica a obra por meio de uma nota de rodapé:

“Tanto o autor como o texto destas memórias são, naturalmente, imaginários. Todavia, pessoas como o seu autor não só podem, mas devem até existir em nossa sociedade, desde que consideremos as circunstâncias em que, de um modo geral, ela se formou. O que pretendi foi apresentar ao público, de modo mais evidente que o habitual, um dos caracteres de um tempo ainda recente. Trata-se de um dos representantes da geração que vive os seus dias derradeiros. No primeiro trecho, intitulado 'O subsolo', o próprio personagem se apresenta, expõe os seus pontos de vista e como que deseja esclarecer as razões pelas quais apareceu e devia aparecer em nosso meio. No trecho seguinte, porém, já se encontrarão realmente 'memórias' desse personagem sobre alguns acontecimentos da sua vida.” [Nota de F.M. Dostoiévski]

Análise do sentido da história: Esta é uma história irônica, com conotações satíricas em boa parte da narrativa. Esta história, regra geral, foi muito mal interpretada, porque a ironia não fica evidente o tempo todo e as traduções mal feitas se encarregaram de estragá-la mudando o tom da história. Cada pessoa que lê esta obra tem a sua interpretação própria. Nietzsche, ao ler este romance pela primeira vez, achou-o maravilhoso porque na sua visão o que o “homem do subsolo” representa, é o “super-homem” de sua criação, que ele acha que poderia existir. Portanto, centenas são as interpretações do sentido desta novela de Dostoiévski. Otto Maria Carpeaux, num dos primeiros ensaios que publicou no Brasil, disse o seguinte: “Existem poucos escritores cuja obra tenha sido tão tenazmente mal compreendida como a de Dostoiévski”.

O primeiro passo para interpretação da história é perceber que o “homem do subsolo” tem uma consciência hiper-desenvolvida e mais aguçada do que as demais personagens da história. À primeira vista, parece ser uma coisa boa e positiva, mas quando se pensa um pouquinho melhor, começa-se a acreditar que essa consciência hiper-aguçada que o “homem do subsolo” tem, deve ter alguma coisa má, porque ele inviabiliza a própria possibilidade da vida humana. Ele, na medida em que não consegue fazer nada, não porque ele não queira, não porque esteja impedido por forças externas, ele se torna vítima de sua própria doença. A pior doença mental que existe é aquela que impossibilita viver. O sujeito que consegue trabalhar ou fazer alguma coisa, mesmo que de vez em quando, é uma pessoa normal assim como todos nós. A coisa começa ficar grave, quando o sujeito passa às 24 horas do dia olhando para a parede da casa dele. De certo modo é o caso aqui, o “homem do subsolo” porque ele é incapaz de fazer qualquer ação. Portanto, há alguma coisa errada com essa consciência aguçada do “homem do subsolo” que o paralisa.

O problema do “homem do subsolo”, é que ele não consegue obter a devida retribuição social, da qual se considera merecedor, por conta de uma vaidade desmesurada que o faz acreditar que ele é muito mais do que verdadeiramente é. A sua consciência é uma espécie de ego fora de controle. Ele se considera superior a todos os outros. Está investido de soberba propriamente dita, que os gregos denominavam de Hübris que é o defeito mais grave que um ser humano possa ter: uma visão vaidosa e fantasiosa de suas próprias capacidades. Portanto, ele tem-se numa conta tão desmesuradamente alta, que ele vê no mundo uma incapacidade de retribuição que ele acredita ser merecedor.

Deixo no ar duas perguntas aos leitores: Quantos “homens do subsolo” estão a nossa volta? Qual a certeza que temos de não sermos, também, um “homem do subsolo”? Aristóteles dizia que, tirando as acidentalidades do ser humano, a essência humana é a mesma em todo lugar.

O “homem do subsolo” é prisioneiro da idéia de ser detentor de um atributo extraordinário que julga fazê-lo superior a todos os outros seres humanos. Esse é o problema central que dá início a nossa história.

O “homem do subsolo” acaba se tornando rancoroso porque o mundo é valorizado pelo homem de ação. Em contrapartida, há uma baixa valorização do homem de pensamento. Ele próprio, no enredo da história, relata que quando ia para a escola era isolado pelos colegas, porque ele sabia ler livros que os colegas não tinham a menor idéia do que tratavam. Ele tinha uma superioridade intelectual a de todo mundo e reconhece que tem culpa de ser mais inteligente do que os outros. Assim, ele não tem no mundo de ação o mesmo respaldo que a sua vaidade, inflada, espera que tivesse. Portanto, há aqui uma diferença de grau de reconhecimento. Essa é a origem do problema emocional do “homem do subsolo”.

Uma breve digressão dentro do contexto: O mundo real é o mundo das pessoas de ação. É o homem de ação que controla o mundo e age em função das aparências das coisas. Se perguntarmos às pessoas por que elas vivem, elas não têm a menor idéia disso. Elas têm uma idéia de que vivem de determinado modo, cumprindo as suas obrigações, indo para o trabalho, para o clube, freqüentando restaurantes, reservando algumas horas de laser, etc. Isso basta para elas. Não que isto seja moralmente errado, não se trata de censura às pessoas que são assim, mas a constatação um fato real e inegável. Tem gente que passa pela vida como o ônibus que não parou no ponto: direto. Não é todo mundo que tem a preocupação de compreender a vida e o mundo. Portanto, a maior parte das pessoas vive num grau de inconsciência muito grande. O homem de pensamento, por sua vez, vive num mundo completamente diferente desse. Ele tem a consciência da vida e da compreensão do mundo. O cuidado é não permitir ser dominado pela soberba.

Retornando. O “homem do subsolo” tem complexo de superioridade e que, logo em seguida, se transforma em complexo de inferioridade, porque ele que se acha grande coisa, mas é tratado pior do que os outros. Como ele tem a consciência hiper-aguçada, ele dá-se conta que existem limites à ação humana. Esses limites são as leis da natureza. Ora, se os homens fazem parte da natureza, é obvio que esses limites aplicam-se ao homem também. São limites de todos os tipos. Esses limites estabelecem que aquilo que fazemos na vida e, de alguma maneira, é programado pelas possibilidades naturais.

A diferença entre o homem de pensamento e o homem de ação está no fato de que o homem de ação age porque acha que não há limites e o homem de pensamento sabe que há limites. Este fato coloca a personagem no estado de tensão que se encontra. Ela pensa do seguinte modo: “Eu gostaria de fazer alguma coisa, mas tudo é inútil.

Se as leis da natureza [uso a frase como força de expressão, porque a natureza não tem leis; tem hábitos], ou seja, se os limites naturais estabelecem a regra de tudo, então não há mais culpa no ser humano, porque qualquer coisa que o ser humano faça, é como se fosse uma decisão que ele não tomou. O homem de ação não tem consciência disso, mas o homem de pensamento tem. Por isso que o homem de pensamento se recusa a fazer tudo, porque ele sabe que nada é possível, tudo é inútil e sem sentido, em última análise. Por isso que ele retarda as suas decisões e não faz nada de verdade. No entanto, ele gostaria de fazer alguma coisa. Esta contradição entre o que ele gostaria de fazer e a inutilidade de suas ações finais é o que o paralisa. Ele não sabe o que fazer.

No momento em que se decreta ou se admite que o comportamento humano é mecânico, automaticamente se destrói o livre-arbítrio, logo não há mais culpa. Não há possibilidade de justiça num contexto de falta de responsabilidade. Se não há responsabilidade pelos atos, não há mais justiça possível.

Essa idéia que a vida é uma coisa programada é a idéia que estava crescentemente em evidência no século XIX e é essa idéia que esse homem de “consciência maior” acaba incorporando a sua visão. Ele percebe esse desastre da existência humana, o fato que ela é determinada por forças que ele não controla, portanto o livre-arbítrio não é alguma coisa com a qual se possa contar ou que exista, em última análise.

O problema do homem de ação é que ele não tem a menor consciência disso, enquanto o outro tem consciência e está de algum modo desanimado e inviabilizado. Como o homem de ação não chegou a este ponto, ele consegue ser bobo à vontade, consegue ser auto-iludido o tempo todo. Por isso que o “homem do subsolo” o despreza e não quer ser o homem de ação; não que ser um bobo auto-iludido; mas, ao mesmo tempo, a alternativa que ele tem para si próprio é a alternativa de não fazer nada.

O “homem do subsolo” concentra o seu ataque nos “sonhos dourados” de Tchernichévski, um socialista utópico que dizia haver um palácio de ferro e outro de cristal, este representando metaforicamente a razão e o socialismo.

O “homem do subsolo” é contrário ao palácio de cristal da razão porque ele acha que o palácio de cristal é inútil. É contra a natureza humana, portanto não deve ser. Assim, o nosso homem é tecnicamente um anti-socialista, porque com a analogia que ele faz no livro, ser favorável ao palácio de cristal é ser favorável ao socialismo, e ele não quer isso, porque ele acha que isso não serve. Então, qual a alternativa? A alternativa que ele propõe é não fazer nada!

Portanto, estamos diante de dois males. Os dois males que Dostoiévski quer sanar nesta história maravilhosa é, de um lado, o niilismo de não fazer nada, e de outro, o socialismo revolucionário de Tchernichévski.

O “homem do subsolo” não tem valores morais ou consciência moral. Daí segue-se, segundo ele, que os homens temem a lei do determinismo, que estabelece que dois mais dois fazem quatro. O “homem do subsolo” teme a possibilidade de os humanos encontrarem esta razão, o palácio de cristal, porque neste caso não restaria nada para a humanidade procurar, nada mais para que lutar, nas mais para que viver. Ele explica a sua recusa em aceitar o palácio de cristal, pela simples razão de ele preferir viver no seu autodenominado subsolo.

O fim do fim, meus senhores: o melhor é não fazer nada! O melhor é a inércia consciente!”.

O objetivo de Dostoiévski é combater o niilista e o revolucionário socialista, tipos fortemente presentes na Rússia do século XIX e que mais tarde promoveram a Revolução Bolchevique de 1917.

O “homem do subsolo” representa o homem que não tem consciência moral. O que ele acredita, porque ele é inteligente, é que não é possível fazer o projeto do castelo de cristal. Isso, no entanto, não o transforma numa pessoa melhor. A não ser que ele, de alguma maneira, passasse pelo sofrimento moral. Ele passa pelo sofrimento moral, já no final da história, quando se dá conta da barbaridade que ele fez com a Liza. Esse sofrimento significa que neste momento começa a possibilidade de recuperação do homem.

Até o episódio da Liza ele não tem o sofrimento moral; ele tem uma raiva, uma implicância, etc. O sofrimento que ele tem até então é a sua vaidade ofendida. Ele é um “humilhado ofendido”.

Dostoiévski adora essa idéia do “humilhado ofendido”, porque ele sabe que a mente revolucionária nasce dessa gente. São os humilhados e ofendidos que fazem as revoluções. Basta lembrar os nossos tempos de faculdade: Quem dominava os diretórios acadêmicos? Eram invariavelmente os “humilhados ofendidos”. Essa era e ainda é a população média dos diretórios acadêmicos. Gente revolucionaria! Homens do subsolo.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

ULISSES

Título original: Ulysses
Autor: James Joyce
Tradução: Bernardina da Silveira Pinheiro
Editora: Alfaguara
Assunto: Romance
Edição: 1ª
Ano: 2007
Páginas: 912

 
Sinopse: O livro narra o dia em que Stephen Dedalus e seu amigo Leopold Bloom saem da Torre Martello para tocar a vida, sem pretensões, pelo menos sem grandes projetos. Dedalus, personagem surgido no romance anterior de Joyce (Um Retrato do artista quando jovem), é um sonhador, imerso em considerações filosóficas sobre a carreira. Para Leopold Bloom, entretanto, naquele dia o que mais o atormenta é uma possível traição de Molly, sua mulher, que é cantora e na tarde daquele 16 de junho de 1904 vai se encontrar com seu empresário Blazes Boylan.

Leopold Bloom, a personagem central da obra, foi definido pelo próprio Joyce como: — "filho, pai, amante, trabalhador e cidadão, é ainda uma pessoa bondosa, humana, prudente, equilibrada, submissa, tragicamente isolada, astuta, cética, simples, não-reprovadora, com um exterior aparentemente maleável, mas com uma essência íntima inflexível, de auto-suficiência".

Resumo da narrativa:
Escrita em 1922, a obra retrata um dia (16 de junho de 1904) na vida de Leopold Bloom, um corretor de anúncios vivendo em Dublin. Construída como paródia da obra “Odisséia” de Homero, a história reproduz, em dezoito capítulos, as cenas do retorno a Ítaca de Ulysses (Odisseu), dando-lhe um equivalente no cotidiano da vida de Bloom. O herói da primeira obra, Stephen Dedalus, que é o alter ego literário de James Joyce, interage com Leopold Bloom ao longo da obra.

Otto Maria Carpeaux resume a obra assim:

Ulisses é a Divina Comédia do nosso tempo. Pouco de Paraíso, mais do Purgatório e muitíssimo do Inferno. É, entre todas as obras modernas que conheço, a mais amarga, a mais desconsolada, a mais trágica – e, no entanto, não é uma tragédia: é um romance. Há em sua soberba ironia algo do espírito do arqui-romancista: de Cervantes. Não estão de todos errados aqueles que acreditam perceber, atrás da face trágica de Ulysses, o cerne cômico: a paródia do gênero do qual a obra é a obra-prima.

Comentários: Livremente inspirado na Odisséia, do grego Homero, Ulisses foi escrito pelo irlandês James Joyce. Na realidade a obra é uma paródia de Odisséia.

Joyce quis escrever simplesmente sobre tudo o que se passa na vida de um homem, em apenas um único dia. "Realmente tudo aconteceu naquele bendito dia 16 de junho de 1904", quando Leopold Bloom sai de casa para um enterro e irá percorrer Dublin durante um dia inteiro, visitando biblioteca, jornal, bordel e bares. No final ocorre o encontro com Stephen Dedalus, um jovem intelectual de Dublin e personagem central do livro "Um Retrato do Artista Quando Jovem", na verdade o alter ego de Joyce. O Sr. Bloom é o equivalente ao Ulisses (para os romanos) ou Odisseu (para os gregos), herói da "Odisséia" e Stephen, a Telêmaco, seu filho. Assim como na obra de Homero, o herói faz um grande caminho e retorna para casa, reencontrando no caminho o seu filho morto aos onze dias de idade e com isso recuperando a consciência simbólica do seu papel espiritual.

Interpretação da obra:
Leopold Bloom é um sujeito generoso, decente, conformado, pacato e completamente perdido quanto ao seu papel existencial. No conceito aristotélico simboliza o Espírito (ou Intelecto).

Stephen Dedalus é o vaidoso intelectual. Simboliza a Mente (Razão).

Molly é uma atriz de teatro volúvel e de tendências libidinosas que teve 25 casos fora do casamento. Simboliza o Corpo (Matéria).

Segundo a partição aristotélica da vida humana, Espírito, Mente e Corpo são as três possibilidades existenciais, ou seja, os valores considerados pelo ser humano.

Análise das personagens

Leopold Bloom:

- Não é capaz de compreender-se ontologicamente;

- Não tem consciência do seu papel espiritual;

- Não acredita no espírito;

- Não tem fé;

- Está perdido existencialmente;

- Sua ação sobre o mundo é nula.

O homem moderno é assim.

Stephen Dedalus

- Renega e abandona a pátria, a religião e a família.

- É a mente desvinculada do espírito.

O humanista típico é assim.

Molly

- Simboliza o mundo material e os prazeres carnais.

A Mente precisa do Espírito e ambos precisam do Corpo para existir concretamente.

Então, o que cada uma das personagens faz?

Bloom, que simboliza o Espírito (Intelecto), retorna à sua casa e retoma a consciência do seu papel espiritual. Ele já não serve mais o café na cama para a sua mulher Molly como o fazia desde o casamento. Agora é ela quem faz e isso tem um significado que será explicado mais adiante.

Molly, que simboliza o Corpo (Matéria) se submete ao Espírito. Assim, é ela quem agora irá levar o café na cama para Bloom. A ordem foi restabelecida.

Stephen, que simboliza a Mente (Razão), sai da história para escrever o livro Ulisses.

Conclusão:

A obra nos mostra as três possibilidades existências para uma vida humana concreta: Corpo (Matéria), Mente (Razão) e Espírito (Intelecto ou Alma). Portanto, Molly quis se casar com Leopold porque o Corpo só é viável sob a sombra do Espírito.

O homem moderno não compreende isso, razão pela qual vive no caos existencial, protagonista de uma corrida desenfreada em busca da felicidade onde ela não está e onde jamais poderá ser encontrada: no mundo material dos prazeres carnais.

Sobre o Autor:

James Joyce em 1926
James Joyce (1882-1941) nasceu em uma abastada família católica, no subúrbio de Dublin, Irlanda. Educado em colégio jesuíta, estudou Filosofia e Línguas na University College. Já nos primeiros anos de faculdade, já publicava artigos na imprensa e começava a escrever os poemas líricos mais tarde reunidos no livro Câmara de música. Morou em Paris, em Trieste e em Zurique, onde a família viveu na pobreza, enquanto ele escrevia Ulisses.

É considerado um dos autores de maior relevância do século XX, e seus textos influenciaram, de uma maneira ou de outra, todos os escritores que lhe sucederam. Suas obras mais conhecidas são o volume de contos Dublinenses (1914) e os romances Um retrato do artista quando jovem (1916), Ulisses (1922) e Finnegans wake (1939). Os três últimos exerceram enorme impacto na literatura inglesa modernista. William Faulkner e Virginia Woolf são alguns dos grandes escritores cujas obras foram fortemente inspiradas pelas de Joyce.

Embora tenha vivido fora da Irlanda durante a maior parte da vida, suas experiências em seu país de origem são de grande importância para a compreensão de sua obra. O universo ficcional de Joyce enraíza-se fortemente em Dublin e reflete sua vida familiar e eventos, amizades e inimizades dos tempos de escola e faculdade.

O autor morreu em janeiro de 1941, dois meses depois de retornar com a família à Suíça. Todos os anos, sua vida é celebrada no dia 16 de junho. Conhecida como “Bloomsday”, a data é comemorada não apenas em Dublin, mas também em diversas outras cidades ao redor do mundo.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

DEMIAN

Título original: DemianAutor: Hermann Hesse (1877-1962)
Tradução: Ivo Barroso
Editora: Record
Assunto: Romance
Edição: 41ª
Ano: 2009
Páginas: 188

Sinopse: O livro relata o amadurecimento de um jovem a partir de sua estranha relação com um rapaz de personalidade misteriosa e sedutora, que muda sua vida para sempre.

O tema central do livro é o conflito entre a dualidade “mundo luminoso” (ideal) e “mundo sombrio” (real) por que tem de passar Sinclair para encontrar a sua personalidade.

Resumo da narrativa: O livro conta a história de um jovem -- Emil Sinclair, protagonista e narrador -- criado por pais muito piedosos que, de repente, se vê em um mundo bem diferente daquele pregado por seus pais e avós. Atormentado pela falta de respostas às perguntas que faz sobre sua existência, passa a procurar na introspecção suas respostas. Dividido entre o mundo ideal e o real, com suas interpretações (mundo claro e paternal, associado às idéias de seus pais e à residência destes, e o mundo sombrio e frio, externo à residência dos pais e com valores estranhos a estes), Sinclair experimenta ambos, através do confronto com suas próprias concepções, para tentar encontrar sua verdadeira personalidade. Percorrendo este caminho perigoso, influenciado por Max Demian, um colega de classe precoce e envolvente, ele prova do crime, da amizade e das incertezas -- surpresas que engendram as descobertas de sua vida adolescente. Sinclair, então, se rebela contra as convenções sociais e descobre não apenas o doce sabor da independência mas também seu poder de praticar o bem ou o mal. A relação de Sinclair e Demian atravessa toda a narrativa a partir do momento que os personagens se conhecem. Demian revela a Sinclair que existem filhos de Caim, pessoas que possuem a capacidade de exercer o bem e o mal; também apresenta a entidade Abraxas, divindade de características humanas -- também capaz de exercer o bem e o mal. A obra tem muitas referencias bíblicas, como o Sinal de Caim e o Gólgota[1], tornando dificil a leitura a quem não sabe muito sobre a religião cristã, mas também trata de misticismo e autoconhecimento, da busca da essência do Eu. A obra narra principalmente os conflitos internos que um indivíduo passa desde a infância, através da adolescência, até sua idade adulta. É possível afirmar que Demian trata-se de um romance iniciático, descrevendo os contatos de um indivíduo com aspectos existenciais e de sua personalidade.

Comentários: Considerada por muitos críticos a principal obra de Hesse, Demian mostra a influência que este sofreu dos escritos de Nietzsche [aqui está o grande problema de Hesse. Ele parte de um caminho falso!] e a aplicação de seus conhecimentos de psicanálise na elaboração do drama ético e da enorme confusão mental de um jovem que toma consciência de sua fragilidade diante da ausência total de compostura da moral sancionada pelos pais e pelo Estado e sai em busca da verdade e de si mesmo.

O livro reflete, obviamente, a tendência do introduzir na literatura a doutrina de Freud, que estava na ordem do dia, e da qual Hesse era um apaixonado estudioso. Daí a presença constante do onirismo[2] na obra, de um certo entrevelado complexo de Édipo (aqui exposto através de um sutil mecanismo de transferência), de permeio com reminiscência de estudos de ciências antigas e herméticas, hauridos na intimidade da biblioteca do avô materno.

Hermann Hesse era um homem atormentado espiritualmente e só encontra a sua verdadeira identidade no catolicismo magistralmente relatado na sua ultima obra “O Jogo das Contas de Vidro”.

À guisa de prólogo: “Para relatar a história de minha vida, devo recuar alguns anos. Se me fosse possível, deveria retroceder ainda mais, à primeira infância, ou mais ainda, aos primórdios de minha ascendência”.

Os romancistas, quando escrevem suas obras, costumam proceder como se fossem Deus e pudessem abranger com o olhar toda a história de uma vida humana, compreendendo-a e expondo-a como se o próprio Deus a relatasse, sem nenhum véu, revelando a cada instante sua essência mais íntima. Não posso agir assim, e os próprios poetas não o conseguem. Minha história é, no entanto, para mim, minha própria história, e a história de um homem – não a de uma personagem inventada, possível ou inexistente em vivo. Hoje sabe-se cada vez menos o que isso significa, o que seja uma homem realmente vivo, e se entregam à morte sob o fogo da metralha a milhares de homens, cada um dos quais constitui um ensaio único e precioso da Natureza. Se não passássemos de indivíduos isolados, se cada um de nós pudesse realmente ser varrido por uma bala de fuzil, não haveria sentido algum em relatar histórias. Mas cada homem não é apenas ele mesmo; é também um ponto único, singularíssimo, sempre importante e peculiar, no qual os fenômenos do mundo se cruzam daquela forma uma só vez e nunca mais. Assim, a história de cada homem é essencial, eterna e divina, e cada homem, ao viver em alguma parte e cumprir os ditames da Natureza, é algo maravilhoso e digno de toda a atenção.

Sobre o autor: Contista, poeta, ensaísta e editor de obras importantes da literatura alemã, Hermann Hesse nasceu em 2 de julho de 1887 na pequena cidade de Calw, na Alemanha. Filho de um missionário, pregador pietista[3], Hesse passou a infância na sua cidade. Viveu na Basiléia de 1881 a 1886 e freqüentou, em 1890, a escola de latim em Goppingen, diplomando-se em 1891. Conseguiu escapar dos estudos de teologia ao fugir do seminário de Maulbronner. Começou a trabalhar cedo, empregando-se em uma livraria em Ebingen e mais tarde como antiquário. A partir de 1903, dedica-se exclusivamente à literatura.

Desencantado com a civilização européia, viajou para Índia em 1911 para conhecer a vida no Extremo Oriente. Partidário do pacifismo lutou contra “a loucura sangrenta da guerra”. Exatamente por protestar contra a Primeira Guerra Mundial, perdeu a cidadania alemã, tornando-se cidadão suíço. Hesse é um dos principais representantes dos escritores do século XX que procuraram manterem-se fiéis às tradições literárias românticas e clássicas, em contraposição à era folhetinesca e propagandística. Sua primeira grande obra, Peter Camenzind, foi lançada em 1904, e trata do melancólico desenvolvimento de um homem de origem modesta que, dotado de talento musical e espírito idealista, não consegue satisfazer as exigências práticas da sociedade.

A índole acentuadamente romântica e a tendência para a análise psicológica caracterizaram as primeiras obras de Hesse. Em 1919 ele publicou Demian, considerado seu melhor livro pelos críticos [Considero como o melhor livro “O jogo das contas de vidro”]; O último verão de Klingsor, em 1920; Sidarta, em 1922; O lobo da estepe, em 1927; Narciso e Goldmund, em 1930; O jogo das contas de vidro, em 1943; e muitas outras obras. Em 1946, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Morreu em 9 de agosto de 1962 aos 75 anos.

[1] Gólgota [Do top. Gólgota] Lugar de suplício.

[2] Onirismo [De onir(o)- + -ismo.] 1. Psiq. Quadro alucinatório grave que se apresenta sob a forma de sonho vivido.

[3] Pietismo foi um movimento protestante nascido na Igreja Luterana alemã do séc. XVII como reação ao dogmatismo da Igreja oficial. Consiste em concentrar a prática religiosa a pequenos círculos de meditação e de oração. O criador é Philipp Jacob Spener (1635-1705) e o maior disseminador é o conde de Zinzerdorf (1700-1760), criador da Ordem do Grão de Mostarda [muito citado no livro: “Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister” de Goethe]. Anatoli Oliynik.

Abraxas (cs) [Do grego abraxás, poss. criptograma (= 'Que Deus proteja') de origem hebraica.] 1. Palavra simbólica entre os gnósticos, que exprime o curso do Sol nos 365 dias do ano. 2. Talismã gnóstico gravado com essa palavra.