sexta-feira, 1 de novembro de 2013

A CRISE DO MUNDO MODERNO

Autor: Pe. Leonel Franca S.J. (1893-1948)
Editora: EDIPUCRS
Assunto: Filosofia cristã
Edição: 5ª
Ano: 1999
Páginas: 277

Sinopse: Este livro foi a última obra escrita por Leonel Franca e é não somente a mais ambiciosa doutrinariamente como também representa uma espécie de Summa do pensamento francano, erigida nesse terreno entre todos difícil em que o essencial da visão cristã, na sua conceptualização filosófico-teológica, é confrontado com os aspectos fundamentais do novo ciclo civilizatório que o Ocidente vinha cumprindo desde alguns séculos, e que era então conhecido como mundo moderno e hoje é designado como modernidade.

A obra é esquematizada em três partes:

Livro I - A CIVILIZAÇÃO
Livro II - FORÇAS NEGATIVAS DA CIVILIZAÇÃO MODERNA
Livro III  - CRISTIANIMO E CIVILIZAÇÃO

Na primeira parte (Livro I) visa a falar sobre a civilização em que são divididos em três capítulos:

No primeiro capítulo fala dos sintomas da crise atual, sua natureza, a crise de instituições e a crise de almas.
No segundo, aborda a idéia de civilização, onde se investiga o termo, sua origem e seu significado e os dois principais elementos da civilização: elementos naturais (a terra e a raça) e culturais (a ciência, a arte, as técnicas, o direito, o Estado, relações com as idéias do povo, pátria e nação).
O terceiro fala sobre humanismo e cultura, donde a definição do termo, é visto como princípio especificador de uma civilização.

Na segunda parte (Livro II), trata de se compreender como se chegou a crise do mundo moderno atual. Em outras palavras, quais foram as causas que proporcionaram a crise na civilização moderna? Esta parte é, em simples definições, um diagnóstico de descoberta das causas. O estudo abordado aqui é eminentemente filosófico, teológico e histórico. Desta última ciência, a ordem dos capítulos segue conforme a evolução, partindo desde as primeiras rupturas até os tempos atuais. Esta parte é divida em 3 capítulos:

O primeiro visa falar sobre as primeiras rupturas. Aqui, Pe. Franca aborda a reforma luterana e sua definição sobre as relações entre a natureza e a graça, e os princípios da reforma protestante que ameaçariam a unidade religiosa na Europa. Como conseqüência da reforma protestante com os seus princípios do livre-exame, surge o individualismo religioso que viriam a provocar rupturas mais profundas e que no decorrer da leitura foram abordados na referida obra. Aborda também sobre a filosofia Descartes, considerado o pai da filosofia moderna, e sua filosofia sobre o conhecimento e realidade; espírito e matéria.
No segundo capítulo aborda sobre os fatos que aconteceram no século XVIII e que foram frutos das rupturas anteriores. Em matéria de religião o protestantismo havia separado Cristo e a Igreja por meio do principio do livre exame, e assim iniciou-se o ressurgimento de diversas seitas, e conseqüentemente neste referido século surgiu-se o Deísmo que se alastrou em diversos países da França, Alemanha e principalmente na Inglaterra. O Deísmo define-se que só há a chamada religião natural e que as verdades reveladas são desprezadas. Assim são chamados os novos doutrinários por se fundarem em Deus conhecido só pelas luzes naturais do pensamento. Neste período nasce também o filosofismo na França, o iluminismo alemão e o racionalismo (em destaque Kant como o filósofo que será percursor das futuras rupturas). Assim este século, conclui Pe. Franca, é marcado pela substituição do Evangelho pelo culto da deusa razão.
No terceiro capítulo, visa a mostrar que como conseqüência dos fatos ocorridos no referido século XVIII tanto nos problemas religiosos quanto filosóficos, o homem acaba se isolando a si mesmo na realidade externa e se proclama independente com as ordens objetivas e universais. Aqui o centro do cosmos é ele mesmo e estabelece assim a abertura para a antropolatria fatal, conforme expõe o autor (cf. op. cit., p. 102). Nesta parte é abordada o positivismo de Comte, o individualismo extremo de Nietzsche e sua moral do super-homem, e por fim o coletivismo de Marx (diametralmente oposto ao individualismo).

A segunda parte da obra do Pe. Franca, como visto, é uma análise diagnóstica das causas da crise do mundo moderno.

A terceira parte (Livro III) tem como finalidade mostrar o remédio necessário para os referidos sintomas vistos anteriormente. Visto que na primeira parte o autor deixou observado que num sentido espiritual, civilização moderna é uma antítese contra a civilização medieval, onde o Cristianismo historicamente é reconhecido como o modelador da referida civilização, mostra-nos também que cronologicamente não é homogênea e que nesta civilização residem diversas “famílias espirituais (op. cit., p. 53). Portanto Aqui o autor visa mostrar o Cristianismo como fonte de restauração da civilização e que realmente somente ele é o remédio verdadeiro para os problemas do mundo atual. Analisa aqui não somente o aspecto civilizacional, visto que este termo como fora definido nas primeiras partes desta obra é um conceito mais abrangente e que dentro deste há elementos imprescindíveis. Então analisa a dignidade da pessoa, a filosofia, a ciência, o trabalho e por fim a civilização. Há aqui então 5 capítulos que serão abordados:

O primeiro a ser analisado é a dignidade da pessoa. Aqui o autor trata de falar sobre o sentido da palavra e a idéia, na acepção psicológica e jurídica do termo procura analisar o seu objeto, no plano ontológico onde é definido conforme Boécio “um individuo de natureza racional” (op. cit., p. 145), o dinamismo construtor da personalidade, o fim do homem que se orienta para o Infinito, o Cristianismo e a personalidade tratando a respeito do plano da fé onde o homem adere livremente a seu destino supremo e concluindo assim a sua opção decisiva de aderir ou não a esse fim, mesmo que moralmente seja obrigatório onde aqui a negação é de responsabilidade própria do seu próprio ato.
No segundo capítulo visa a falar sobre o Cristianismo e a filosofia, onde trata da importância histórica que o cristianismo trouxe a filosofia. Começa-se neste capítulo a falar sobre o encontro que se deu entre o cristianismo e a filosofia na história. Analisa que, mesmo com este encontro, surgiram diversos problemas doutrinais nas relações entre ambos, onde o autor conclui a autonomia da filosofia, pois embora a teologia é uma ciência mais excelente e por se tratar de questões que estão acima da nossa inteligência, por meio da filosofia podemos chegar a diversos conhecimentos que estão concretizados na teologia. Assim, nesta autonomia de ambas as ciências filosóficas e teológicas surgiram-se historicamente uma filosofia cristã, por se tratar da influência que o cristianismo exerceu na civilização e na vida dos povos, mesmo nas coisas que não estão a serviço imediato da fé, mas que se encontram nas coisas criadas e que são propriedades da própria filosofia, que não tem outro objeto senão a verdade. Verdade essa que em hipótese alguma fere a liberdade de aderir a Verdade suprema em que o homem é chamado a ser elevado.
No terceiro capítulo aborda a relação do Cristianismo e a ciência. Começa falando da relação e do suposto conflito entre ambas. Aborda também a influência do cristianismo sobre o progresso da ciência, citando fatos históricos onde quase unanimente os principais cientistas, mesmo os que surgiram nos tempos modernos, foram pessoas religiosas. Por fim fala do cristianismo e da vida interior do sábio.
No quarto, fala sobre o Cristianismo e o trabalho em suas relações, começando a fazer um paralelo do trabalho no paganismo e a restaurada do mesmo pelo cristianismo na história. Também fala dos desvios modernos do trabalho na economia liberal e na utopia comunista. Por fim faz uma síntese sobre a Filosofia cristã do trabalho.
O último capítulo é como uma conclusão dos anteriores, visto que a civilização é o conjunto e os outros que foram abordados nesta terceira parte são apenas os seus elementos constituintes. Começa a abordar a distinção necessária da sociedade civil e da sociedade religiosa, onde comparando com uma ave, se a civilização é a ave em seus complexos fundamentais para a sua existência, o cristianismo é comparado aqui a par de asas. Desta relação mútua entre a sociedade civil e religiosa, exalta que sendo o Cristianismo o par de asas da civilização, esta última está a serviço do primeiro.

Pe. Franca termina a sua obra com uma ligeira síntese dos problemas e da solução do mundo atual, sem entrar em pormenores dos assuntos abordados no decorrer de sua obra e expressados nesta pequena resenha.

Comentários: Terão razão os que afirmam e lamentam não haver filósofos no Brasil? Sem dúvida, poucos entre nós se dedicaram ao estudo dos problemas que os gregos colocavam “além da física”, isto é, para fora e para cima do campo restrito às ciências experimentais. Nem por isso, entretanto, se pode sustentar nossa pobreza em matéria de Filosofia. O pensamento mais alto de um povo ou de uma nação são se mede pelo número, mas pela qualidade dos que o professam. E filósofos, há sempre poucos a se afirmarem em cada parcela da comunidade humana.
É interessante acentuar as etapas da elaboração intelectual do Pe. Leonel Franca até à publicação deste livro da maturidade. Sua vocação de filósofo vai-se afirmando ao longo de uma vida dedicada à meditação e ao estudo pontilhada de incursões pelo terreno da polêmica a que o levou a zelo de quem, conhecendo e possuindo a Verdade, a quer propagada e defendida. Não lhe faltou, para fundamento e estímulo de sua especulação filosófica, a intimidade com a ciência experimental, de que nos dão mostra seus Apontamentos de Química Geral, Noções de História da Filosofia é obra que enriqueceu a bibliografia, pois se coloca entre as mais completas editadas em qualquer língua. A preparação de A crise do mundo moderno pode ser surpreendida no monumental A Igreja, a Reforma e a Civilização, cujos temas ressurgem numa série de outros trabalhos, como Catolicismo e Protestantismo, O Protestantismo no Brasil, etc. E já na meditação de verdadeiro filósofo A Psicologia da Fé, livro admirável em que a nota pessoal se destaca na fiel exposição da doutrina.
O próprio padre nos assinala o ambiente em que elaborou o grande livro: recolhido a seu gabinete de estudos, quando, fora, começava o fragor da Segunda Guerra Mundial, “ante o espetáculo trágico de cidade que se desmoronam e do sangue que jorra em golfadas”. E a intenção do autor era o debate de filosofias da civilização; era, mais explicitamente, “ante a visão dantesca de tantas calamidades, concentrar-se em silêncio fecundo e meditar, mais de espaço, sobre a filosofia da paz.”
Realizou plenamente a com absoluto êxito o seu propósito. A crise do mundo moderno é essa filosofia da paz, para mal nosso tão longe ainda de encarnar-se em soluções concretas.

Sobre o autor: Um dos mais eminentes pensadores brasileiros de todos os tempos, bem como um dos mais notáveis vultos da verdadeira cruzada pela recristianização da Sociedade Brasileira que teve lugar nas primeiras décadas do século XX, o Padre Leonel Franca, mais brilhante filho espiritual de Santo Inácio de Loyola do Brasil do novecentismo, nasceu em São Gabriel, no Rio Grande do Sul, a seis de janeiro de 1893. Filho de pais baianos e sobrinho do Bispo Dom Antônio Macedo Costa, que, ao lado de Dom Vital, sustentou até o fim a posição da Igreja contra a maçonaria durante a denominada “Questão Religiosa”, no reinado de D. Pedro II, Leonel Edgard da Silveira Franca passou os primeiros anos de sua vida na Cidade do Salvador, onde estudou inicialmente em um pequeno colégio alemão e mais tarde no Colégio Vieira, da Companhia de Jesus. Aos treze anos de idade foi estudar em outra instituição de ensino pertencente aos jesuítas, o Colégio Anchieta, em Nova Friburgo, Rio de Janeiro. Ingressou na Companhia de Jesus no ano de 1908, ordenando-se sacerdote em 1923. Doutor em Teologia e Filosofia pela Universidade Gregoriana de Roma, foi membro do Conselho Nacional de Educação, pertenceu ao Centro Dom Vital, fundado em 1922 por Jackson de Figueiredo, e lecionou diversas disciplinas no Colégio Anchieta, em Nova Friburgo, e no Colégio Santo Inácio, no Rio de Janeiro, de que chegou a vice-reitor. “Artífice clarividente da primeira Universidade Católica”, na expressão do Padre Henrique Vaz [1], foi o primeiro reitor de tal instituição, que não é senão a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro.

Falecido em 1948, o Padre Leonel Franca não foi apenas um dos mais importantes vultos do pensamento brasileiro, mas também um exemplo de fé, civismo e vida espiritual, bem como de coragem, como bem demonstrou em 1942, ao desafiar o Estado Novo de Vargas, escrevendo a Plínio Salgado, então exilado em Portugal, belíssima carta a respeito da Vida de Jesus, obra-prima deste tão grande quanto injustiçado pensador patrício, mestre ímpar de Cristianismo e de Brasilidade, sustentando que tal obra era “a joia de uma literatura”.

Descrito por Dom Odilão Moura como uma pessoa de “inteligência penetrante e nítida”, de “erudição vastíssima” e “extraordinário poder de síntese”, que leu “quase todos os filósofos modernos”, assimilando-lhes o pensamento e refutando-lhes os erros, o Padre Leonel Franca filiou-se, intelectualmente, à escolástica tomista, se tornando um dos mais abalizados discípulos brasileiros do Anjo das Escolas (Santo Tomás de Aquino). Embora não tenha escrito “obras técnicas de filosofia”, como assinala o Padre Henrique Vaz, o Padre Leonel Franca nos legou, segundo pondera o mesmo autor, “páginas filosóficas de grande valor e penetração”, como muitas das páginas de sua obra Noções de História da Filosofia - até hoje o melhor compêndio de História da Filosofia feito no Brasil -, sem falar nas tantas páginas imorredouras de obras como Psicologia da Fé, O problema de Deus, A Igreja, a Reforma e a Civilização e, sobretudo, de A crise do Mundo Moderno, obra de que trataremos nas próximas linhas.

Originalmente publicada em 1941, pela Livraria José Olympio Editora, a obra A crise do Mundo Moderno foi considerada pelo Padre Henrique Vaz o “mais bem sucedido ensaio brasileiro no campo da filosofia da cultura”. Em tal obra, o Padre Leonel Franca demonstra que o Mundo Moderno vive uma grave “crise de almas e de instituições”, sofrendo a “civilização moderna” um “abalo profundo”, que “atormenta as consciências e desorganiza a convivência humana, em todos os seus graus, familial, nacional, internacional”. Vítima de um processo de “desintegração fatal” muito bem descrito pelo autor de O problema de Deus, a “civilização moderna perdeu a sua unidade e, com ela, o segredo da vida, da ordem e da paz”, caindo no mais grosseiro materialismo. Isto porque não percebeu a “civilização moderna” que “a matéria divide” e “o espírito unifica”, que “a matéria é princípio de separação e multiplicidade”, ao passo que “o espírito eleva e universaliza”, e, por fim, que é no equilíbrio entre o espírito e a matéria que a natureza humana encontra o “segredo de sua expansão individual e social”.

Além e acima da profunda crise social, econômica e política vivida pelo Mundo Moderno, há a crise do Homem, a crise que se processa no “interior das almas”. Isto porque a “civilização moderna” afastou Deus, destino supremo da Pessoa Humana, dos corações, o substituindo pela “Ciência ou a Raça, o Estado ou o Partido”, o que provocou grande “anarquia interior” a que o ínclito sacerdote jesuíta e pensador patrício denomina a “tragédia da alma moderna”, isto é, o “desamparo angustioso de um ser racional que perdeu o rumo de seus destinos”.

Repousa aí, pois, a “raiz profunda da crise de civilização que nos acabrunha”, crise esta, antes e acima de tudo, espiritual, atingindo os “fundamentos da própria vida humana, pessoal ou coletiva”.

Proclamando-se otimista, o Padre Leonel Franca afirma ver na crise do Mundo Moderno o limiar, “a aurora de uma idade nova” em que os progressos técnicos e científicos integrar-se-iam na “harmonia de uma cultura” que restituísse à “vida o seu sentido e a sua plenitude”. E proclama, outrossim, a urgência de se restituir a esta “civilização periclitante” as “forças interiores que asseguram a todo esforço social a sua vitalidade”, com a consciência de que “a secularização de uma cultura é sintoma de dissolução e prenúncio de morte” e de que somente um “dinamismo espiritual” é capaz de salvar a vida de uma cultura e de conservar “o equilíbrio de todos os seus elementos”.

Encerraremos o presente artigo transcrevendo o trecho final de A crise do Mundo Moderno:

“O cristianismo tem as dimensões da história humana. Para todas as eras e em todos os problemas Cristo é luz da vida e os que o seguem, sal da terra. As agonias do mundo contemporâneo hão de encontrar, numa meditação mais profunda das suas palavras que não passam, uma resposta pacificadora. E uma cristandade nova, cuja estrutura mal nos é dado antever, mas cujos sinais precursores repontam em toda a parte, poderá congregar uma humanidade melhor numa fase mais elevada de sua penosa ascensão espiritual.

“Neste momento de angústias e ansiedades, do fundo das nossas consciências cristãs irrompe um grito d’alma que é uma prece e um programa de ação:

Domine salva nos perimus! [“Senhor, salvai-nos, que perecemos!”. (Victor Emanuel Vilela Barbuy)


terça-feira, 1 de outubro de 2013

DO LIBERALISMO A APOSTASIA: A tragédia conciliar

Título original: Ils l’ont découronée, du libéralismme à l’apostasie – La tragédie conciliaire
Autor: Monsenhor Marcel Lefebvre (1905-1991)
Tradução: Ildefonso Albano Filho
Editora: Permanência
Assunto: Religião
Edição: 2ª
Ano: 2013
Páginas: 246

Sinopse: Dom Lefebvre explica o que é o Liberalismo e relata a tentativa de alguns católicos de adotarem as idéias liberais; analisa de modo profundo a derrapagem das autoridades da Igreja na realização de um Concílio Ecumênico de inspiração liberal e que semeou a revolução dentro da Igreja Católica.
Eis o que o próprio Monsenhor Lefebvre escreveu no prefácio deste livro:
“Com o fim de guardar e proteger a fé católica da peste do liberalismo, a publicação deste livro me parece muito oportuna, ecoando as palavras de Nosso Senhor: ‘Aquele que crê será salvo, aquele que não crê se condenará’; eis a fé que o Verbo de Deus encarnado exige de todos os que querem ser salvos. Ela foi a causa de sua morte, seguindo seu caminho, a de todos os mártires e testemunhas que a professaram. Com o liberalismo religioso, não há mais mártires nem missionários, mas apenas destruidores da religião reunidos em volta de uma falsa promessa de paz.” (Ecône, 13 de janeiro de 1987)

Sobre o autor: Dom Marcel Lefebvre nasceu em Tourcoing, na França, no dia 29 de Novembro de 1905, numa família que deu cinco dos seus oito filhos para a Religião. Foi aluno do Pe. Le Floch no Seminário Francês de Roma, onde recebeu o doutorado em Filosofia. Fez-se doutor também em Teologia, na Universidade Pontifícia Gregoriana, em Roma. Foi ordenado padre em 21 de Setembro de 1929, por Mons. Lienart, em Lille, França. Em 1930 entrou para a Congregação dos Padres do Episcopado do Espírito Santo, e foi enviado ao Gabão em 1932, onde permaneceu até 1945. Em 1946 voltou à França. O ano de 1947 foi o de sua sagração episcopal. Em 1948, aos 43 anos de idade, foi nomeado Delegado Apostólico para toda a África de língua francesa (18 países). Foi nomeado 1º Arcebispo de Dakar em 1955, e Assistente ao Trono Pontificial em 1961. Em 1962 deixou a África e foi nomeado Arcebispo-bispo de Tulle. Nesse ano foi eleito Superior Geral dos Padres do Espírito Santo. Em 1968 pediu demissão deste cargo devido ao progressismo conciliar. Foi, então, que alguns seminaristas vieram lhe pedir para que lhes desse uma formação verdadeiramente católica. Fundou, para isso, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, com aprovação de Dom Charrière, bispo de Friburgo, Suiça. Começava a obra de defesa da Tradição pela formação de sacerdotes: Ecône e outros cinco seminários, centenas de priorados espalhados em dezenas de países, mais de 500 padres ordenados, mais de 200 seminaristas. De lá para cá Dom Lefebvre recebeu críticas, a suspensão “a divinis” em 1976, e a excomunhão em 1988, dos inimigos da Igreja. Mas o lúcido bispo não podia, em sã consciência, colaborar com os destruidores da Igreja Católica. E ele continuava a cumprir o seu dever de confirmar os fiéis na Fé, certo de que essas condenações eram injustas e sem valor. Junto com Dom Antônio de Castro Mayer levantou sua voz para alertar as almas e suplicar a Roma a volta à verdadeira Tradição. Dom Lefebvre deixou este mundo no dia 25 de Março de 1991, no dia da festa da Anunciação. Mais de vinte mil pessoas acompanharam seu enterro em Ecône, onde ele repousa em paz.

 O LIBERALISMO DE “CATÓLICOS” PROGRESSISTAS




Por Anatoli Oliynik
            Em 1894 Marc Sangnier funda sua revista Le Sillon que se converte em um movimento da juventude que sonha reconciliar a Igreja com os princípios da Revolução de 1789, o socialismo e democracia universal, baseando-se no progresso da consciência humana. A penetração de suas idéias nos seminários e a evolução cada dia mais indiferentista do movimento, levaram São Pio X a escrever a carta Notre charge apostolique, de 25 agosto de 1910 [16 anos após], que condena a utopia da reforma da sociedade, reforma esta acariciada pelos chefes do Sillon:
Seu sonho é trocar os fundamentos naturais e tradicionais e prometer uma cidade futura edificada sobre outros princípios que ousam declarar mais fecundos, mais benéficos do que aqueles sobre os quais se apóia a cidade católica atual (...) [grifo meu].
O Sillon tem a nobre preocupação da dignidade humana. Mas entende esta dignidade ao modo de certos filósofos que a Igreja está longe de elogiar. O primeiro elemento dessa dignidade é a liberdade, entendida no sentido em que, salvo em matéria religiosa, cada homem é autônomo. Deste princípio fundamental, tira as seguintes conclusões: Hoje o povo está sob a tutela de uma sociedade diferente dele, da qual deve se livrar: emancipação política (...) Chamam de democracia uma organização política e social fundada sobre este duplo fundamento: a liberdade e a igualdade, aos quais se juntará a fraternidade. [grifos meus]
            Após haver denunciado o falso slogan de liberdade-igualdade, São Pio X deixa patente as falsas fontes do liberalismo progressista do Sillon:
(...) o Sillon dá uma falsa idéia da dignidade humana. Segundo ele, o homem não será verdadeiramente homem, digno desse nome, senão no dia em que tenha adquirido uma consciência esclarecida, forte, independente, autônoma, sem necessidade de mestres, que obedeça a si mesma, capaz de assumir e levar avante as maiores responsabilidades.
            E o Santo Padre vai ao fundo da questão:
De agora em diante, o Sillon não passa de um miserável afluente do grande movimento de apostasia organizado em todos os países, para estabelecimento de uma igreja universal que não terá dogmas, nem hierarquia, nem regras para o espírito, nem freio para as paixões (...). Conhecemos bem as escuras oficinas em que são elaboradas essas doutrinas deletérias (...). Os chefes do Sillon não conseguiram se defender delas; a exaltação de seus sentimentos (...) os levou para um novo evangelho (...) sendo seu ideal semelhante ao da Revolução, não temem proferir blasfemas aproximações entre o Evangelho e a Revolução (...).
            O Santo Pontífice conclui, restabelecendo a verdade sobre a verdadeira ordem social:
(...) A Igreja, que jamais traiu o bem dos povos com elogios comprometedores, não deve esquecer o passado (...) basta retomar com o concurso dos verdadeiros trabalhadores a restauração social dos organismos atingidos pela Revolução[1] e adaptá-los, com o mesmo espírito cristão que os inspirou, ao novo cenário criado pela evolução material da sociedade contemporânea[2], pois os verdadeiros amigos do povo não são os revolucionários nem os inovadores, mas os tradicionalistas.
            Eis os termos enérgicos e precisos com que o Papa São Pio X condena o liberalismo progressista e define a atitude realmente católica.
            Os inimigos da Igreja Católica têm tentado parasitá-la para destruí-la desde a sua gênese. Ela tem sobrevivido a tudo isso há dois mil anos graças a ação dos Santos Padres conservadores iluminados pelo Espírito Santo. Hoje, gravemente parasitada pelos liberais progressistas que se dizem “católicos”, mas que não passam de apóstatas e traidores, a Igreja Católica precisa, mais uma vez, da intervenção do Espírito Santo para que a Barca de Pedro possa continuar navegando neste oceano bravio e tempestuoso.
[Elaborado por Anatoli Oliynik a partir de excertos extraídos, do livro de Mons. Marcel Lefebvre, tradução de Ildefonso Albano Filho, “Do Liberalismo a Apostasia: a tragédia conciliar”. Editora Permanência].


[1] São Pio X designa aqui as corporações de ofício, agentes da concórdia social, totalmente opostos ao sindicalismo, que é o agente da luta de classes.
[2] A evolução compreende um progresso material e técnico, mas o homem e a sociedade permanecem submetidos às mesmas leis. Vaticano II, em Gaudium et Spes desprezará esta diferença, inclinando-se novamente para o programa do Sillon.


LIBERDADE RELIGIOSA, O COMUNISMO E O SENTIDO DA HISTÓRIA



 
Por Anatoli Oliynik

       A “Declaração Dignitatis Humanae sobre a liberdade religiosa”, do Papa Paulo VI de 7/12/1965, já no seu preâmbulo mostra o quanto o papa estava contaminado pela idéia de separação da Igreja do Estado e também pelo ecumenismo, traindo assim os princípios que foram defendidos por quase dois mil anos de história da Igreja de Cristo:

Os homens de hoje tornam-se cada vez mais conscientes da dignidade da pessoa humana e, cada vez em maior número, reivindicam a capacidade de agir segundo a própria convicção e com liberdade responsável, não forçados por coação, mas levados pela consciência do dever. Requerem também que o poder público seja delimitado juridicamente, a fim de que a honesta liberdade das pessoas e das associações não seja restringida mais do que é devido. Esta exigência de liberdade na sociedade humana diz respeito principalmente ao que é próprio do espírito, e, antes de mais, ao que se refere ao livre exercício da religião na sociedade. Considerando atentamente estas aspirações, e propondo-se declarar quanto são conformes à verdade e à justiça, este Concílio Vaticano investiga a sagrada tradição e doutrina da Igreja, das quais tira novos ensinamentos, sempre concordantes com os antigos.

            Monsenhor Marcel Lefebvre foi um dos poucos homens da igreja que levantou sua voz para alertar as almas e suplicar a Roma a volta à verdadeira Tradição. Sua voz insurgente de nada valeu e aquilo que previra resultou na tragédia conciliar do Vaticano II que transformou a maioria das paróquias espalhadas pelo mundo em locais onde se profana o legado de Nosso Senhor Jesus Cristo e se diviniza o homem pecador ao som de pandeiros, violões, atabaques, reco-recos, sem contar as músicas profanas adaptadas, verdadeiro arremedo da música sacra como se a Igreja não possuísse seu repertório próprio. (ver a vídeo aula de Alberto Zucchi sobre a Contra-Reforma litúrgica de Bento XVI em http://www.youtube.com/watch?v=53QzRjyk3mU#t=1857 )

            Lefebvre diz que para os católicos liberais ou progressistas, assim chamados por defenderem a liberdade religiosa, a história tem um sentido, ou seja, uma direção. Na terra, essa direção é imanente: a liberdade. A humanidade é empurrada por um sopro imanente, rumo a uma consciência crescente da dignidade da pessoa humana, rumo a liberdade cada vez mais livre de toda coação. Essa teoria ecoou no Concílio Vaticano II e se fez valer para o gáudio dos destruidores da igreja.

            Os católicos liberais dizem que é preciso atualizar a Igreja ao seu tempo libertando os fieis da coação espiritual. Lefebvre pergunta: já se viu em alguma época da história um empreendimento tão radical e colossal de escravidão como a técnica comunista de escravizar massas? Se Nosso Senhor nos convida a “ver os sinais dos tempos” (Mt. 16, 4), então foi necessária um cegueira voluntária dos liberais e um conluio absoluto de silêncio para que um concílio ecumênico reunido precisamente com o intuito de ver os sinais de nosso tempo se calasse acerca do mais evidente sinal dos tempos: o comunismo. Tal silêncio basta por si só para cobrir de vergonha e reprovação este Concílio diante da história, e para mostrar quão ridícula é a alegação do preâmbulo de Dignitatis Humanae, assevera Mons. Lefebvre.

            Por conseguinte, se a história tem um sentido, conforme alegam e defendem os católicos liberais, certamente não é a tendência imanente e necessária da humanidade rumo à liberdade e à dignidade; isso não passa de uma invenção para justificar seu liberalismo e cobrir com a máscara enganosa de progresso o vento gelado que fazem soprar sobre a cristandade há dois séculos, afirma Lefebvre.

            Lefebvre esclarece que, de fato, o centro de toda a história é uma pessoa: Nosso Senhor Jesus Cristo, pois como diz São Paulo: “Porque nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, quer sejam os tronos, que as denominações, quer os principados, quer as potestades; tudo foi criado por Ele e para Ele, e Ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por Ele. E Ele é a cabeça do corpo da Igreja, e é o princípio (...) de maneira que Ele tem a primazia em todas as coisas. Porque foi do agrado (do Pai) que reside Nele toda a plenitude, e que por Ele fossem reconciliados consigo todas as coisas, pacificando, pelo sangue da sua cruz, tanto as coisas da terra, como as coisas do céu” (Cl 1, 16-21).
            Continua ainda: Jesus Cristo é, portanto, o pólo da história. A história tem somente uma lei: “é necessário que Ele reine” (1 Cor 15, 25). Se Ele reina, reinam também o verdadeiro progresso e a prosperidade, que são bens muito mais espirituais que materiais. Se Ele não reina, vem a decadência, a caducidade, a escravidão sob todas as formas, o reino do mal.

            Isso posto, conclui Lefebvre: A história não tem nenhum sentido, nenhuma direção imanente. Não existe o sentido da história. O que há, é um fim da história, um fim transcendente: a “recapitulação de todas as coisas em Cristo”; é a submissão de toda ordem temporal à Sua obra redentora; é o domínio da Igreja militante sobre a cidade temporal que se prepara para o reino eterno da Igreja triunfante no céu. A Fé afirma e os fatos demonstram que a história tem um primeiro pólo: a Encarnação, a Cruz, Pentecostes; ela teve seu completo desenvolvimento na cidade católica, quer seja no império de Carlos Magno ou na república de Garcia Moreno; e terminará, chegará a seu pólo final quando o número dos eleitos se completar, depois do tempo da grande apostasia (II Rs 2, 3); não estamos vivendo esse tempo?

            Esta emancipação que descrevem como sendo um progresso, não passa de um divórcio ruinoso e blasfemo entre a cidade e Jesus Cristo. Foi preciso a falta de vergonha de Dignitatis Hamanae para canonizar tal divorcio, e esta suprema impostura foi anunciada em nome da verdade revelada!

            A Barca de Pedro tomou nova direção. Não bastasse a vergonhosa declaração de Paulo VI, por ocasião da conclusão da nova concordata entre a Igreja e a Itália, João Paulo II declarava: “nossa sociedade se caracteriza pelo pluralismo religioso”, e dizia a consequência: “esta evolução demanda a separação entre a Igreja e o Estado”. Em nenhum momento João Paulo II pronunciou um juízo sobre essa troca, não deplorou a laicização da sociedade, nem disse que a Igreja recusava a situação. Não, sua declaração, assim como a do Cardeal Casaroli, louvava a separação de Igreja e do Estado, como se fosse o regime ideal, o resultado de um processo histórico normal e provincial, contra o qual nada se pode dizer! Dito de outra forma: “Viva a apostasia das nações, eis aí o progresso!” Ou então: “Não devemos ser pessimistas! Abaixo os profetas de calamidades! Jesus Cristo já não reina? Qual o problema? Está tudo bem! De qualquer modo a Igreja marcha rumo ao cumprimento de sua história. E no fim Cristo virá, aleluia!”.

            Pergunta Monsenhor Marcel: Esse otimismo simplista enquanto já se acumulam as ruínas, esse fatalismo imbecil, não são os frutos do espírito do erro e do descaminho? E finaliza: Tudo isso me parece absolutamente diabólico.

domingo, 1 de setembro de 2013

CONTRA AS HERESIAS

Título original: Elencos kai anatropè pseudunúmou gnóseos
Autor: Ireneu de Lião (130-202)
Tradução: Lourenço Costa
Editora: Paulus
Assunto: Patrística
Edição: 3ª
Ano: 2009
Páginas: 624

Sinopse: No prefácio do I livro, Ireneu define o objetivo de toda a sua longa obra. Constatando que há pessoas que rejeitam a verdade e introduzem a falsidade e, por meio de manobras capciosas, enganam os simples, pervertem o sentido das Escrituras e blasfemam contra o Criador, gloriando-se de um pretenso conhecimento, Ireneu se propõe, num primeiro momento, tirar a máscara sob a qual a gnose se dissimula, e mostrá-la em plena luz do dia tal como é realmente.

Consciente da sedução que a gnose exerce, devido ao mistério do qual se cerca, e da ameaça que ela constitui para a fé dos simples, propõe-se, num segundo momento, refutar, com argumentos da razão, a gnose dos valentinianos e dos marcionistas, expondo a doutrina da Igreja sobre Deus e sobre Cristo. O leitor encontrará no V livro, o último, uma longa dissertação sobre a ressurreição da carne, que os gnósticos negavam.

Comentários: Surgiu, pelos anos 40 do sec. XX, na Europa, especialmente na França, um movimento de interesse voltado para os antigos escritores cristãos e suas obras conhecidos tradicionalmente, como “Padres da Igreja”, ou “Santos Padres”. Esse movimento foi liderado por Henri de Lubac e Jean Daniélou.

No Brasil, em termos de publicação das obras destes autores antigos, pouco se fez. Nunca é tarde ou fora de época para rever as fontes da fé cristã, os fundamentos da doutrina da Igreja, especialmente no sentido buscar nelas a inspiração atuante, transformadora do presente. Assim, temos a oportunidade de conhecer as “fontes” do cristianismo, examiná-las, avaliá-las e colher delas o espírito que as produziu.

Os “Pais da Igreja(se refere ao escritor leigo, sacerdote ou bispo, da antiguidade cristã, considerado pela tradição posterior como testemunho particularmente autorizado pela fé) são, portanto, aqueles que, ao longo dos sete primeiros séculos, foram forjando, construindo e defendendo a fé, a liturgia, a disciplina, os costumes e os dogmas cristãos, decidindo, assim, os rumos da Igreja. Seus textos se tornaram fontes de discussões, de inspirações, de referências obrigatórias ao longo de toda tradição posterior. O valor dessas obras pode ser avaliado neste texto:

“Além de sua importância no ambiente eclesiástico, os Padres da Igreja ocupam lugar proeminente na literatura e, particularmente, na literatura greco-romana. São eles os últimos representantes da Antigüidade, cuja arte literária, não raras vezes, brilha nitidamente em suas obras, tendo influenciado todas as literaturas posteriores. Formados pelos melhores mestres da Antigüidade clássica, põem suas palavras e seus escritos a serviço do pensamento cristão. (Da apresentação da Editora)

Da introdução da obra transcrevemos este texto:

“Existem cinco razões, que a nosso modo de ver, evidenciam não ser supérflua a estafante atividade de transcrever este livro. Primeira, porque é raríssimo, pois caído o silêncio sobre as heresias, destruídas em nossos dias com insólita violência, quase ninguém mais se anima a manuseá-lo. Segunda, que o autor é antigo, próximo aos tempos apostólicos (177 d.C.) e por isso digno de fé. Terceira, que tudo o que escreveu a propósito dos heréticos não recolheu só por ouvir dizer ou por fama, mas ouviu ensinar em grande parte peã viva voz de tais mestres e com os próprios olhos viu praticar, pois lhes era coevo, ou seja, contemporâneo e natural daqueles lugares. Quarta, acerca das heresias daquele tempo, nenhum outro discutiu com maior profundidade e clareza. Quinta, é necessário sobretudo restabelecer a ciência das armas da Igreja militante – descuidadas em tempos de paz – porque diminuindo os defensores a tirania vai se enfurecendo tanto mais agudamente quanto é livre em fazê-lo impunemente.”

(Do prólogo às obras de santo Ireneu, composto por Floro de Lião pelo ano 860.)

Sobre o autor: Santo Ireneu de Lião, em grego Ερηναος [pacífico], em latim Irenaeus, (ca. 130 — 202). Discípulo de São Plicarpo de Esmirna, por volta de 177, sucedeu a Fotino como bispo de Lião. A tradição o tem como o mais exímio teólogo do século II. A Igreja Católica considera-o santo, comemorando a 28 de Junho.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A PRESENÇA TOTAL e Ensaios Reunidos

Título original: La Présence Totale
Autor: Louis Lavelle (1883-1951)
Tradutor: Carlos Nougué
Assunto: Ensaios filosóficos
Editora: É Realizações
Edição: 1ª
Ano: 2012
Páginas: 322


Sinopse: Neste livro [escrito de 1934] se encontram os temas relevantes da obra de Louis Lavelle, como o ser, o ato, o valor, o tempo, a existência, a liberdade, a intersubjetividade, a participação. Equivale a uma pequena summa de seu pensamento e abriu as portas a uma mais fácil penetração em suas grutas profundas. E tudo servido por um lapidar que o inseriu entre os grandes pensadores do século passado. Lavelle foi um filósofo que respirou o clima de duas hecatombes mundiais e sorveu a experiência da dor, da ansiedade, do mal. Soube, porém, vislumbrar, acima das imperfeições humanas, um caminho de elevada espiritualidade. (Tarcísio Padilha)

Comentários: Louis Lavelle começa a introdução deste livro dizendo o seguinte:

“O pequeno livro que se vai ler expressa um ato de confiança no pensamento e na vida. No entanto, nas épocas conturbadas, a maior parte dos homens não se deixa sacudir senão por uma filosofia que justifique seu gemido diante do presente, suas ansiedades diante do futuro, sua revolta diante do destino que eles são obrigados a padecer, sem ser capazes de dominá-lo”.

E continua ele:

“A consciência busca um amargo desfrute nesses estados violentos e dolorosos em que o amor-próprio está em carne viva e, pela sacudidela mesma que eles imprimem ao corpo e à imaginação, nos dão enfim a ilusão de ter penetrado até a raiz do real. É apenas em aparência que se aspira a livrar-se deles; temer-se-ia antes que eles não fossem jamais bastante agudos, como um veneno cujo movimento se detivesse subitamente”.

“Então a consciência se lança na solidão, a fim de melhor se sentir entregue à infelicidade do abandono; ela se obriga a si mesma a descer a este abismo de miséria onde o nada a rodeia, onde nenhuma voz lhe responde, onde as forças da natureza parecem aliar contra ela sua indiferença e sua brutalidade.”

Por esta brevíssima introdução já se pode imaginar o que Lavelle reserva ao leitor nesta obra, escrita para aqueles que tiveram ou tem dificuldade de compreender a sua magnum opus: “A Dialética do Eterno Presente” (Anatoli Oliynik).

 

Sobre o autor Louis Lavelle: (St. Martin de Villereal, 15 de julho de 1883 - Parranquet, 1 de setembro de 1951) foi um filósofo metafísico francês.

Lavelle viveu fases marcadas por duras provas, o que se ratifica pela sua participação na Primeira Guerra Mundial. Mesmo sendo míope, podendo furtar-se a participar da guerra, ele fez questão de combater na frente de batalha, sendo feito prisioneiro logo após a batalha de Verdun.

Foi enviado para o campo de prisioneiros em Giessen, onde elaborou sua tese de doutorado, que defendeu na Sorbonne, em 1922.

Na prisão, granjeou a simpatia de seus companheiros de infortúnio para os quais proferia conferência sobre temas de elevado alcance espiritual, como o ciclo de palestras sobre “Pascal et la Pensée Religieuse”.

Terminada a guerra e devendo ser repatriado, Lavelle temeu pelo destino de sua tese e decidiu confiar a um soldado alemão a missão de entregar seus escritos à sua família.

Em 1943, recebeu uma carta de um prisioneiro em que assevera: “após haver lido A Presença Total, compreendi que vossos livros não poderiam ter sido escritos senão por alguém que conheceu o exílio”.

Sua magnum opus é La Dialectique de l'éternel présent, uma obra metafísica em quatro volumes: De l'Être (1928), De l'Acte (1937), Du Temps et de l'Eternité (1945) e De l'Âme Humaine (1951).

Entre outros, a obra de Lavelle inclui: La dialectique du monde sensible: Lu perception visuelle de la profondeur (1921), La conscience de soi (1933), La présence totale (1934), L'Erreur de Narcisse (1939), Le Mal et la Souffrance (1940), La Parole et l'Écriture (1947) e Les puissances du Moi (1948).

Link do vídeo de lançamento do livro:

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O SENHOR DOS ANÉIS. V.1 – A Sociedade do Anel

Título original: The Lord of the Rings – Part. I: The Fellowship of the Ring
Autor: J. R. R.Tolkien (1892-1973)
Tradutor: Lenita Maria Rímoli Esteves
Assunto: Romance
Editora: Martins Fontes
Edição: 2ª
Ano: 2000
Páginas: 434


Sinopse: Numa cidadezinha indolente do Condado, um jovem hobbit é encarregado de uma imensa tarefa. Deve empreender uma perigosa viagem através da Terra do Meio até as Fendas da Perdição, e lá destruir o Anel do Poder - a única coisa que impede o domínio maléfico do Senhor do Escuro.

O Senhor dos Anéis é um romance de fantasia criado pelo escritor, professor e filólogo britânico J.R.R. Tolkien. A história começa como seqüência de um livro anterior de Tolkien, O Hobbit (The Hobbit), e logo se desenvolve numa história muito maior. Foi escrito entre 1937 e 1949, com muitas partes criadas durante a Segunda Guerra Mundial. Embora Tolkien tenha planejado realizá-lo em volume único, foi originalmente publicado em três volumes entre 1954 e 1955, e foi assim, em três volumes, que se tornou popular. Desde então foi reimpresso várias vezes e foi traduzido para mais de 40 línguas, tornando-se um dos trabalhos mais populares da literatura do século XX.

Análises e comentários: O professor José Monir Nasser diz que esta obra sofre de um grande problema. Há um grande livro chamado Moby Dick, escrito por Hermann Melville, possivelmente o maior livro já escrito nos Estados Unidos. No entanto, ninguém o lê, porque o autor teve a infelicidade de colocar esse nome na obra. Os adultos não o lêem por pensarem que é literatura juvenil e os jovens lêem e não entendem patavina. O livro fica numa espécie de limbo e O Senhor dos Anéis sofre do mesmo problema. Ouvi comentários concretos de que o livro é muito infantil. O livro, de fato, foi escrito para o público juvenil, mas é um dos maiores livros escritos no século XX. Há poucos livros tão importantes como este. Há dificuldade de se conseguir atenção para ele, já que foi carimbado e todos ficaram prisioneiros daquela aparência. Vocês verão que é um livro extraordinário.

A história de O Senhor dos Anéis ocorre em um tempo e espaço imaginários, a Terceira Era da Terra do Meio, que é um mundo inspirado na Terra real, mais especificamente, segundo Tolkien, numa Europa mitológica, habitado por Humanos e por outras raças humanóides: Elfos, Anões e Orcs. Tolkien deu o nome a esse lugar a palavra do inglês moderno, Middle-earth (Terra-do-Meio), derivado do inglês antigo, Middangeard, o reino onde humanos vivem na mitologia Nórdica e Germânica. O próprio Tolkien disse que pretendia ambientá-la na nossa Terra, aproximadamente 6000 anos atrás, embora a correspondência com a geografia e a história do mundo real fosse frágil.

A história narra o conflito contra o mal que se alastra pela Terra do Meio, através da luta de várias raças - Humanos, Anões, Elfos, Ents e Hobbits - contra Orcs, para evitar que o "Anel do Poder" volte às mãos de seu criador Sauron, o Senhor do Escuro. Partindo dos primórdios tranqüilos do Condado, a história muda através da Terra-média e segue o curso da Guerra do Anel através dos olhos de seus personagens, especialmente do protagonista, Frodo Bolseiro. A história principal é seguida por seis apêndices que fornecem uma riqueza do material de fundo histórico e lingüístico.

O Padre Paulo Ricardo de Azevedo Junior diz que O Senhor dos Anéis trata da história de um anel que foi criado pela maldade, foi criado pelo mal e este anel é o anel do poder. Ele é um anel que nos dá, digamos, todo o poder que nós gostaríamos de ter: um poder de ser como deuses. Aqui, nós temos na verdade, uma grande parábola a respeito do “pecado original”: o anel que todos perseguem, que todos desejam, que todos querem, é um símbolo daquele fruto primeiro no paraíso. E este anel, ao redor dele, acontecerá as grandes batalhas do “Senhor dos Anéis”, até que finalmente, não por nenhum herói, porque “O Senhor dos Anéis” não tem nenhum personagem que seja o herói, mas por uma Providência invisível que perpassa todo o livro, o mal, finalmente, é destruído.


O SENHOR DOS ANÉIS
(Padre Paulo Ricardo explicando o filme e o livro)


Faces da personalidade



A Amizade


História do Anel



ANÁLISE LONGA DO LIVRO

sábado, 1 de junho de 2013

TERRA DOS HOMENS

Título original: Terre des Hommes
Autor: Antoine de Saint-Exuperry
Tradução: Rubem Braga
Editora: José Olympio
Assunto: Romance
Edição: 13ª
Ano: 1968
Páginas: 155



Sinopse: Publicado em 1939 o livro é mais que um romance de memórias, é um profundo mergulho na alma humana. Saint-Exupéry, nascido em 1900, em Lyon, França, conta como descobriu sua vocação aos 12 anos, ao voar pela primeira vez em um balão. Piloto civil aos 21 anos, aos 26 passa a integrar a equipe de pioneiros que, em pequenos aparelhos a hélice, sem conforto ou pressurização, sobrevoa o Saara e a cadeia andina para levar à África e à América do Sul o correio aéreo da Europa.

Resumo da narrativa e comentários: A nostalgia pelo avião marcou a vida e a obra de Saint-Exupéry. A aviação para o autor é deliberadamente romântica, uma fuga contra a perspectiva limitada do mundo: é liberdade, imensidão, silêncio.

“O império do homem é interior”

Em Terra dos Homens lemos sobre aviões e desertos. Percebe-se a atração que exerce o deserto com o relato vibrante de homens que se dispõem a sobrevoá-lo sob o céu estrelado das noites frias, movidos apenas por um desejo de liberdade e de vida, contrário à insegurança das máquinas primitivas do período entre guerras, que mais se assemelham a latas voadoras, esperando o mínimo desleixo para caírem como pedras.

“Entretanto, amamos o deserto. Se no começo ele é apenas solidão e silêncio é que não se entrega aos amantes de um dia.”

O momento da pane e do pouso forçado nas areias do Saara transforma o medo, até então potencial, em realidade. O deserto passa a ser tangível, não apenas belo, mas mortal, e o homem, um animal que busca evitar a extinção.

“Quando tomamos consciência de nosso papel, mesmo o mais obscuro, só então somos felizes. Só então podemos viver em paz e morrer em paz, pois o que dá um sentido à vida dá um sentido à morte.”

O miolo do livro é a seqüência da queda do avião, a sobrevivência, a consciência do homem no deserto. É o corpo que perambula pelas dunas quentes e a consciência que grita, não mais por ajuda, porque não tem forças, porque é inútil, mas pelo sentido e beleza perdidos pela necessidade fisiológica de água. Os devaneios do esgotamento, a saliva sólida, a mente se dispersa em pensamentos sem importância, como levada pelo vento, sobre a água, a sua função, o porquê de ela existir.

Então o desespero cria idéias extremas, pensa-se no óleo do avião. Talvez com os olhos fechados, com força de vontade, com imaginação. É líquido, como a água, não deve ser diferente. O gosto horrível, de fuselagem, o estômago apertado, agredido, a vontade de morrer. Poucos segundos para ter vontade de morrer, é preciso encontrar vida, levantar-se, continuar andando pela paisagem uniforme, conseguir ajuda, encontrar água, o corpo ainda quer tentar. Existe vida em algum lugar e é preciso encontrá-la. Vida líquida. Não é nada demais, é só água, que por tanto tempo sempre esteve disponível, não deve ser difícil.

“A sede é cada vez mais uma doença e cada vez menos um desejo”

Análise da obra: Em Terra dos Homens, o autor se revela filósofo de verve extensa, mergulhando o leitor na análise do Homem que precisa ser desvendado: "Não compreendo mais essas populações dos trens de subúrbio, esses homens que pensam que são homens e que entretanto estão reduzidos por uma pressão que eles mesmos não sentem, como formigas, ao uso que deles se faz. Como eles enchem, quando estão livres, seus absurdos pequenos domingos? " (Página 127)

Ou, quando relata-nos a universalidade dos homens: "É preciso, para tentar distinguir o essencial, esquecer por um momento as divisões que, uma vez admitidas, arrastam todo um Alcorão de verdades intocáveis, e o fanatismo conseqüente. Podem-se classificar os homens em homens de direita e homens de esquerda, em corcundas e não corcundas, em fascistas e democratas, e essas distinções são inatacáveis. Mas a verdade é o que simplifica o mundo, e não o que gera o caos. A verdade é o que exprime o universal". (Página 146)

Terra dos Homens, obra essencial do príncipe do deserto, é mais que necessária, é ainda atual e se insere bem nos dias conturbados que vivemos. Antoine de Saint-Exupéry é um poeta que desvenda o Homem e suas vicissitudes, um escritor que relata com apuro poético o invólucro da alma humana.

E ele encera o livro de modo magnífico: “Sento-me diante de um casal. Entre o homem e a mulher a criança, bem ou mal, havia se alojado, e dormia. Volta-se, porém, no sono, e seu rosto me aparece sob a luz da lâmpada. Ah, que lindo rosto! Havia nascido daquele casal uma espécie de fruto dourado. Daqueles pesados animais havia nascido um prodígio de graça e encanto. Inclinei-me sobre a fronte lisa, a pequena boca ingênua. E disse comigo mesmo: eis a face de um músico, eis Mozart criança, eis uma bela promessa da vida. Não são diferentes dele os belos príncipes das lendas. Protegido, educado, cultivado, que não seria ele? Quando, por mutação, nasce nos jardins uma rosa nova, os jardineiros se alvoroçam. A rosa é isolada, é cultivada, é favorecida. Mas não há jardineiros para homens. Mozart criança irá para estranha máquina de entortar homens. Mozart fará suas alegrias mais altas da música podre na sujeira dos cafés-concertos. Mozart está condenado.

            Voltei para o meu carro. E pensava: essa gente quase não sofre o seu destino. E o que me atormenta aqui não é a caridade. Não se trata da gente se comover sobre uma ferida eternamente aberta. Os que a levam não a sentem. É alguma coisa como a espécie humana, e não o indivíduo, que está ferida, que está lesada. Não creio na piedade. O que me atormenta é o ponto de vista do jardineiro. O que me atormenta não é essa miséria na qual, afinal de contas, a gente se acomoda, como no ócio. Gerações orientais vivem na sujeira e gostam de viver assim.

            O que me atormenta, as sopas populares não remedeiam. O que me atormenta não são essas faces escavadas nem essas feiúras. É Mozart assassinado, um pouco, em cada um desses homens.

            Só o Espírito, soprando sobre a argila, pode criar o Homem.” (págs. 154-155)

 
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