sexta-feira, 8 de outubro de 2010

CERVANTES

Título original: Cervantès
Autor: Jean Canavaggio
Tradução: Rubia Prates Goldoni
Editora: Editora 34
Assunto: Biografias
Edição: 1ª
Ano: 2005
Páginas: 384

Sinopse: Soldado na famosa batalha de Lepanto, onde perdeu a mão esquerda; cativo dos berberes em Argel, e de seus compatriotas na famigerada prisão de Sevilha, a vida de Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616), autor do Quixote, é solo fértil para um sem-número de lendas e mitos. Neste livro, o professor Jean Canavaggio levanta minuciosamente toda a documentação acerca do escritor, sobretudo a contribuição monumental, mas por vezes fantasiosa, do grande cervantista Astrana Marín, distinguindo criteriosamente o fato da ficção.

Combinando rigor acadêmico e talento narrativo, Canavaggio acompanha toda a trajetória de Cervantes, dando novo sentido não só a passagens já conhecidas, mas também a aspectos controversos — como os dois assassinatos em que seu nome esteve envolvido; os amores ilícitos das mulheres de sua família, sempre às voltas com fidalgotes da corte; sua paixão pelo jogo de cartas — e outros apenas hipotéticos, como um possível encontro com Shakespeare, em 1605, ou sua presença numa célebre pintura de El Greco.

O resultado é um estudo impecável, que equilibra história, literatura e biografia para traçar, além de uma rica análise de sua obra, o retrato de um Cervantes de carne e osso e um quadro extremamente vivo do fascinante Século de Ouro espanhol.

Comentários: Em 1605, há exatamente quatrocentos e cinco anos, Miguel de Cervantes Saavedra presenteava o mundo com a primeira parte do seu D. Quixote. De lá para cá, muita tinta correu sobre este que é considerado o primeiro – e talvez o maior – romance moderno, na tentativa de entender o encanto e o poder desse livro. A dupla formada pelo Cavaleiro da Triste Figura e seu Fiel Escudeiro deixou de andar apenas pelos campos de Espanha para percorrer cada região do planeta. Sobre as andanças de seu autor, entretanto, pouco se sabe, de modo que ao longo dos séculos a vida de Cervantes se tornou tão lendária quanto a de suas personagens.
Assim, desde os trabalhos inaugurais de Gregorio Mayans y Ciscar e Juan Antonio Pellicer no século XVIII, várias gerações de pesquisadores em todo o mundo vêm somando esforços, formulando hipóteses e buscando preencher lacunas para oferecer a sua própria interpretação da vida do escritor. O cervantista Jean Canavaggio, um dos maiores estudiosos da cultura do século de Ouro espanhol, não é apenas mais um desses detetives-desbravadores a adentrar o labirinto. Seu Cervantes é reconhecidamente a mais importante biografia escrita na atualidade sobre o autor de D. Quixote, tendo recebido o prestigioso prêmio Goncourt quando de sua primeira publicação, em 1986. Desde então, o livro foi traduzido para o inglês, o alemão, o italiano e o japonês, em em toda parte a acolhida do público só reafirmou o parecer dos especialistas.

Consciente de que “explicar Cervantes e uma aventura arriscada”, e procurando evitar armadilhas de seus predecessores, Canavaggio segue um plano de trabalho bastante claro. Em primeiro lugar, estabelecer com o máximo rigor possível tudo o que dele se sabe, discernindo cuidadosamente entre a lenda, o verídico e o verossímil. Em segundo lugar, situa, em seu meio e em sua época, esse escritor que levou uma vida cheia de reviravoltas – verdadeira “testemunha de um tempo de dúvidas e crise” – e que, sob vários pontos de vista, encarna e resume o próprio espírito do Século de Ouro. Por último, Canavaggio conduz o leitor ao encontro de Cervantes até o limite do possível, sem distorcer os dados, sem querer “desvendar seu mistério a todo custo”. Ao contrário: com grande sobriedade, acompanha, passo a passo, o movimento dessa existência que, “de projeto que era enquanto ele vivia, converteu-se num destino” que este belo livro procura tornar inteligível.

O presente volume toma por base o texto francês original e, como o próprio autor observa em nota escrita especialmente para esta edição, incorpora as muitas atualizações feitas desde seu lançamento. Além de levar em conta os ensaios de maior relevo publicados nos últimos vinte anos, Canavaggio lança nova luz sobre determinadas passagens, como os contatos que Cervantes entretém com a corte de Felipe II ao regressar do cativeiro em Argel; suas relações com homens de negócios que, durante a estada do escritor em Valladolid, fizeram dele um intermediário ativo em certas transações financeiras; e, no terreno literário, sobre a redação, já no limiar da morte, de Los trabajos de Persiles y Sigismunda, a derradeira obra de Cervantes, que recentemente vem suscitando uma renovada atenção por parte da crítica.

Apesar do grande número de estudos publicados sobre o “príncipe dos engenhos”, como já foi chamado o autor do Quixote, poucos se equiparam a esta biografia de Jean Canavaggio – que consegue, ao mesmo tempo, informar com rigor e narrar com emoção.

Sobre o autor: Jean Canavaggio nasceu em 1936. Foi diretor da Casa de Velázquez, em Madri, e é atualmente professor na Universidade Paris X-Nanterre. É membro de honra da Hispanic Society e correspondente da Real Academia Espanhola e da Real Academia de História. Coordenou uma Histoire de la littérature espagnole (Fayard, 1993-1994) e a edição em francês das obras completas em prosa de Cervantes (Gallimard, Bibliothèque de la Plèiade, 2001), colaborando também na edição de D. Quixote coordenada por Francisco Rico (Instituto Cervantes, 1998). Entre suas obras se destacam, além desta biografia — que recebeu o prêmio Goncourt em 1986 —, Cervantes dramaturgue: un thêatre à naître (Presses Universitaires de France, 1977) e Don Quichotte, du livre ao mythe (Fayard, 2005).

Sobre o tradutor: Rubia Prates Goldoni é doutora em Literatura Espanhola pela Universidade de São Paulo e realizou parte de seus estudos acadêmicos na Universitat Autònoma de Barcelona. Ensinou Língua Espanhola, Literatura e Prática de Tradução na UNESP. Como tradutora, conta com cerca de trinta títulos vertidos do francês e do espanhol, nas áreas de literatura e ciências humanas.
Recebeu o prêmio FNLIJ Monteiro Lobato 2009 - Melhor Tradução Jovem, por Kafka e a boneca viajante, de Jordi Sierra i Fabra (Martins).

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

AS GRANDES HERESIAS

Título original: The great heresies
Autor: Hilaire Belloc (1870-1953)
Tradução: Emílio Angueth de Araújo
Editora: Editora Permanência
Assunto: Religião
Edição: 1ª – no Brasil
Ano: 2009
Páginas: 152

Sinopse: Heresia não é um assunto fossilizado. Ao contrário, é de permanente e vital interesse para a humanidade, porque está associado à religião, sem a qual nenhuma sociedade humana jamais perdurou ou pode perdurar.

Aqueles que pensam que o assunto heresia possa ser desprezado porque o termo soa fora de moda e porque está relacionado a diversas disputas há muito abandonadas, cometem o erro comum de pensar nas palavras, e não na idéias. Não há fim para os mal-entendidos que surgem do uso ambíguo de palavras. Mas se recordarmos o simples fato de um estado, uma comunidade humana ou uma cultura geral devem ser inspirados por um conjunto de regras morais, e que não pode haver esse conjunto de normas morais sem uma doutrina, então a importância da heresia como tema será clara, porque heresia não significa outra coisa senão “a proposição de novidades em religião, escolhendo-se algo do que tem sido a religião aceita, negando-se ou substituindo-se esse algo por outra doutrina então não familiar”.

O estudo das sucessivas heresias cristãs, seus respectivos caracteres e destinos, tem um interesse especial para todos os que pertencem à cultura européia e cristã, e esta deve ser uma razão evidente – nossa cultura foi feita por uma religião. Mudanças ou desvios dessa religião afetam necessariamente nossa civilização como um todo.

Comentário: Foi editado finalmente no Brasil, no final de 2009, o livro AS GRANDES HERESIAS, do anglo-francês Hilaire Belloc, pela Editora Permanência. Belloc foi um autor que marcou o seu tempo. Filho de pai francês e mãe inglesa, ficou órfão de pai aos dois anos de idade e a mãe optou por ir morar na Inglaterra. Assumiu a cidadania inglesa, mas prestou serviço militar na França, o que mostra que foi um homem dos dois mundos. Deixou vasta obra.

Belloc foi um católico devoto. Neste livro ele nos legou um grande trabalho histórico, ainda que haja na obra algo de inacabado. Também pudera, foi concluído em 1938, véspera dos maiores acontecimentos militares e políticos de todos os tempos. Nele Belloc narra as grandes heresias que afetaram o catolicismo – para ele sinônimo de cristianismo – desde o começo. O livro tem algumas singularidades, ente elas o fato de colocar o islamismo como uma forma de heresia cristã, a mais letal e perigosa de todas, a que tem posto o Ocidente em xeque desde o seu surgimento. E foi profético ao dizer que o Islã poderia novamente repetir suas façanhas, mesmo que na ocasião da conclusão do livro não houvesse mais nenhuma potência islâmica capaz de desafiar o Ocidente. É como se tivesse previsto o 11 de setembro.

Outra afirmação sua bastante contundente foi dizer que todas as igrejas protestantes não passam de heresias e sua verve é implacável, sobretudo com as seitas fundadas por João Calvino. Hoje em dia a coisa pode soar politicamente incorreta, já que vivemos tempos de covardia. Tempos de relativismo religioso e cultural, tempos de ecumenismo com o qual certamente ele não se conformaria. Para ele, a verdade estava com o catolicismo e ponto.

Seu capítulo final discorre sobre a fase moderna, mas é curto e incompleto por não ter visto o desfecho do nazismo e do muro de Berlim. Mas, ainda assim, previu muita coisa importante. A dissolução dos costumes cristãos não passa, segundo ele, da repetição da tragédia das heresias mais antigas, notadamente a albingense, com sua permissividade, sua luta pela dissolução do matrimônio, seu desvalor pela vida humana. Escreveu Belloc sobre os albingenses:

Todos os sacramentos foram abandonados. Em seu lugar, um estranho ritual foi adotado, que envolvia a adoração do fogo, chamado ‘a consolação’, por meio do qual acreditava-se que a alma era purificada. A propagação da espécie humana foi atacada; o casamento era condenado e os líderes da seita espalhavam todo tipo de extravagâncias que se podem encontrar pairando sobre o maniqueísmo e o puritanismo, onde quer que apareçam. O vinho é mal, a carne é má, a guerra era sempre absolutamente má, e assim também a pena capital; mas um pecado sem perdão era a reconciliação com a Igreja Católica.

Podemos ver que, se vivo fosse, Belloc acharia que os albingenses voltaram, nesses tempos de aborto estatizado, de sexo livre, de casamento homossexual, de perversões de toda ordem homologadas pelo sistema jurídico. Nem mesmo o protestantismo venceu; seu sucedâneo é a confraria dos ateus, que tomou conta dos centros de saber de todo o Ocidente. Talvez os tempos de hoje sejam bem piores do que aqueles de 1938. Quem saberá o que virá em dois anos? A roda da história está novamente acelerada e os acontecimentos podem se precipitar. (Nivaldo Cordeiro)

Trecho da obra: Imortalidade da alma. [A religião cristã] “tem como uma parte essencial (apesar de ser uma parte apenas) a afirmação de que a alma individual é imortal – a consciência pessoal sobrevive à morte física. Se as pessoas acreditam nisso, olham para o mundo e para si mesmas de certa maneira, agem de determinada forma e são pessoas de certo tipo. Se não acreditam nisso (se elas excluem ou se omitem [d]essa crença), há um corte nessa doutrina. Elas podem continuar a manter todas as outras crenças, mas o sistema é modificado, o tipo de vida, caráter e o resto se tornam muito diferente. O homem que está certo de que morrerá para sempre pode muito bem acreditar que Jesus de Nazaré era o Deus de Deus, que Deus é trino, que a Encarnação foi acompanhada de um nascimento virginal, que o pão e o vinho são transformados de uma forma particular; pode recitar um grande número de preces cristãs e admirar e imitar certos cristãos, mas será um homem muito diferente daquele que considera verdadeira a imortalidade.


O autor: Joseph Hilaire Pierre René Belloc (La Celle-Saint-Cloud 27 de julho de 1870 — Guildford, Surrey, 16 de julho de 1953) foi um escritor britânico. Nasceu em França, nos arredores de Paris, em La Celle-Saint-Cloud, a 27 de Julho de 1870, filho de um advogado francês casado com uma inglesa (Bessie Rayner Parkes), pertencente á alta burguesia, proveniente do protestantismo e convertida ao catolicismo e que foi muito ativa nos primórdios do movimento feminino pró-sufrágio. A educação de Belloc foi quase inteiramente britânica, após a morte do pai, começando na Oratory School em Birmingham, uma escola católica e continuando no Balliol College, em Oxford, pela qual se licenciou em História, em 1894, com “the highest honors”. Casou com uma americana, Elodie Hogan, em 1896. Em 1902 tornou-se súdito britânico, por naturalização, e durante alguns anos (1906-1910) foi membro do Parlamento Britânico, sob as cores do Partido Liberal. Em Oxford revelou-se um excelente orador e parece não haver grandes dúvidas de que poderia, se quisesse, ter tido uma carreira distinta na política. Mas acabou por escolher a escrita como o seu campo de acção e, na verdade, missão, e tornou-se um dos mais prolixos e diversificados - atendendo á diversidade de temáticas e de estilos - autores na longa história da literatura inglesa.

Quando morreu, a 16 de Julho de 1953, com quase 84 anos de idade, Belloc deixava para trás cerca de cem livros publicados e um vasto número de ensaios avulsos, artigos, recensões e discursos. Uma das mais controversas figuras do seu tempo, foi, também, um dos mais respeitados e venerados, pela sua cultura, visão, vigor e brilhantez de estilo literário. Escreveu muito sobre História, incluindo uma História de Inglaterra em quatro volumes, e vários tratados histórico e biográficos da Revolução Francesa – um acontecimento com uma quase obsessiva influência no pensamento de Belloc -, mas os seus escritos historiográficos ocuparam relativamente pequeno espaço na totalidade da sua bibliografia. Ele era crítico literário e analista social e político, um incessante polemista em muitas áreas, jornalista, novelista e sobretudo, poeta. Os seus poemas podem ser encontrados em muitas antologias de poesia inglesa, mas a sua primeira aventura neste campo foi a dos versos com non sense. O seu livro The Bad Child’s Book of Beasts, escrito enquanto se encontrava em Oxford, em 1896, gerou uma atenção imediata e é considerado nos nossos dias como um clássico.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

O JARDIM DAS AFLIÇÕES

Autor: Olavo de Carvalho
Editora: É Realizações
Assunto: Filosofia
Edição: 1ª
Ano: 2000
Páginas: 336


Resumo do livro:

1. Unidade do livroO livro é uma investigação filosófica, portanto, algo que se inicia com o “espanto”, com a conscientização de um problema. O primeiro problema que espanta o autor é a falsificação da história da Ética, feita pelos professores da USP, em um evento do Masp. A busca em entender este evento lança o autor em uma investigação por uma multiplicidade de planos que irão, ao final do livro, mostrar como se deu a formação cultural e política de Ocidente, desde seus fundamentos até seus desdobramentos contemporâneos; por fim, situando o problema inicial neste quadro maior de referência.

2. Tipo do livro
O livro é uma investigação filosófica. Isso significa, primeiramente, que não é uma exposição, mas, a rigor, a demonstração dos passos de uma investigação. Algo parecido já foi feito pelo autor na segunda parte de Descartes e a Psicologia da Dúvida, onde, ao invés de expor metodicamente a solução para um problema, o autor descreve os passos em direção à solução. Este procedimento tem a vantagem de colocar o leitor dentro do processo de investigação; mas trás o risco de ser mal-interpretado por um leitor que, não percebendo as implicações desta diferença, leia o livro como se fosse uma exposição metódica. A principal diferença desta mudança de enfoque consiste no fato que um livro investigativo estar lidando com probabilidades e não com certezas; ou seja, partindo dos vários caminhos possíveis para resolver um problema, o autor procurar hierarquizá-los e escolher o mais provável para continuar seguindo as pistas da solução. Ao contrário de uma exposição metódica, o autor não mostra nexos que sejam necessários, justamente, porque na investigação estes nexos ainda estão sendo buscados. Por isto é comum que em certas passagens o autor assinale a importância de determinado assunto seja mais estudado, anunciando, a título provisório, as soluções que lhe parecessem ser as mais prováveis, admitindo, contudo, que o assunto está longe de ser terminado.

Além disto, é uma investigação filosófica. Ou seja, procurar apreender a unidade explicativa por trás dos fatos mais diversos; inclusive aqueles que são objeto de investigação de várias ciências particulares. Por isso, o autor irá percorrer os mais variados campos para entender o problema que tem em mão: passando pela história, psicologia, religiões comparadas, entre outras; todas as ciências servindo como instrumentos para ajudar na compreensão dos problemas que serão levantados.

3. Estrutura da obra
Estrutura resumida

Livro I – Apresentação do problema inicial que provoca as investigações: a falsificação da história da Ética, feita pelos professores uspianos, nas palestras do Masp (Epicuro no lugar de Platão e Aristóteles; Inquisição como fenômeno medieval e não renascentista; exclusão da escolástica) e a distorção da história do pensamento Ocidental, feita por Pessanha, quando esteve na direção da coleção “Os Pensadores”.

Livro II – Uma investigação de Epicuro; procurando entender o que ele foi fazer no lugar de Platão e Aristóteles, como representante da Ética na filosofia grega e o porquê do fascínio que exerceu na platéia. Onde se assinala sua pequenez filosófica; seu parentesco com a Nova Era; e sua índole evasionista, como resposta a uma situação de falta de sentido.

Livro III – Onde se examina qual a semelhança entre Marxismo e Epicurismo, por trás de sua aparente contradição entre ativismo e evasionismo: negação da inteligência teorética; e onde também se assinala que o mesmo parentesco se repete entre os movimentos espiritualistas da Nova Era e os descendentes marxistas contemporâneos.

Livro IV – Onde se examina as mudanças culturais na história ocidental que levaram a perda da dimensão metafísica; sem a qual, cresce o culto às dimensões sócio-cósmicas; que seria um dos fatores que teriam aproximado os movimentos materialistas dos espiritualistas.

Livro V – Onde se estuda a história política do Ocidente e sua configuração de poderes; situando o lugar da intelectualidade brasileira contemporânea frente a este quadro ampliado.

Estrutura expandida

Nota: Aqui, ocasionalmente, extrapolo os limites da “leitura analítica” para transcrever também os argumentos que sustentam as principais proposições; porém, só o fiz quando me senti seguro de tê-los compreendido suficientemente bem. Faço o alerta para que o leitor não tome o tamanho do meu texto escrito como indicativo da importância do trecho correspondente do livro; algumas vezes ocorreu o contrário: preferi me demorar nos capítulos de mais fácil assimilação, passando com mais rapidez pelos mais densos. Esta não é, infelizmente, a única falha deste resumo. Porém, este é o que eu pude fazer por hora; no futuro, talvez eu retome este texto e o complete com a devida propriedade que o livro merece.

Livro I – Pessanha

1) Biografia do livro

2) Onde se apresenta as críticas às palestras do Masp (ausência de Platão, Aristóteles, Santo Tomás; presença de Epicuro; inquisição como fenômeno medieval, etc.).

3) Onde se observa que o mesmo critério já tinha sido utilizado por Pessanha, na coleção “Os Pensadores”; e onde se assinala que a falsificação tenha sido feita em nome da missão marxista de “transformar o mundo”.

Livro II – Epicuro
Capítulo II – A Cosmologia de Epicuro

Onde se demonstram as contradições internas da cosmologia epicúrea e se contesta algumas de suas possíveis defesas. Neste capítulo, me parece que Olavo utiliza o método que chama de “crença metódica”; que é apresentado, em sua apostila Descartes e a psicologia da dúvida - Parte II como uma alternativa à “dúvida metódica”.

Seguindo este método, ao invés de procurar questionar cada ponto da doutrina de Epicuro, ele supõe que ela pode ser verdadeira, e passa em seguida a tirar conseqüências de seus pressupostos e comparar as diferentes proposições; deste modo, descobrindo uma série de contradições.

Não encontrei nenhuma apresentação sistemática deste método, mas me parece que é deste método que Olavo fala no texto “Idéias Vegetais”, publicado no “Imbecil Coletivo”, quando declara:

A credulidade mesma, quando praticada a sério e integralmente, é a melhor defesa: basta que você, ao crer no que alguém lhe diz, creia também nas conseqüências, que ele provavelmente não disse. Se estas conseqüências forem absurdas, a absurdidade delas logo saltará aos olhos, sem que você tenha tido o trabalho de procurá-la como faria Descartes” (Imbecil Coletivo, Idéias Vegetais).

Capítulo III – Ética de Epicuro
8) A ética de Epicuro pode ser dividida em uma parte geral e outra específica. A parte geral são os valores comuns aos filósofos da época, como a superioridade da contemplação à ação, a filosofia como um caminho para a felicidade, etc. A parte específica, que a distingue das outras, é uma “psicologia prática”, exercícios mentais para atingir a felicidade.

Entre estes exercícios, está o tetrafármacon; que consiste na internalização de alguns preceitos (não temer os deuses, a morte, etc.). Olavo assinala que alguns destes preceitos são incoerentes com a cosmologia epicúrea; portanto, o epicurismo exige que o discípulo se esforce para acreditar em algo que a sua filosofia desmente.

9) Olavo faz uma análise pormenorizada de um dos exercícios mentais epicuristas, que consiste em afastar da mente seus problemas e se concentrar em reviver as memórias de tempos mais felizes. A crítica a esta técnica é que ele consiste em uma auto-hipnose que tem como conseqüência causar uma progressiva distorção no senso de realidade de quem a pratique. Para explicar os perigos desta prática, Olavo se baseia em parte na sua própria teoria sobre a psicogênese do conhecimento objetivo. Contudo, ainda não consegui ter acesso a este material para tecer mais comentários.

Capítulo IV – Lógica de Epicuro

10) Em Aristóteles, Na lógica há uma ligação necessária que entre a conclusão e suas premissas; já a retórica, é definida quando a ligação entre as premissas e a conclusão não é necessária, mas é apenas verossímil. Por isto, a lógica serve para encadear raciocínios que sejam verdadeiros (se as premissas também o forem); enquanto a retórica serve para convencer alguém de uma proposição, sobre a qual não há base para afirmar sua veracidade. A lógica dos sinais de Epicuro, em termos aristotélicos, seria uma retórica, e não uma lógica, propriamente falando. Levando em conta que já existia a lógica aristotélica, a lógica epicúrea é uma queda de nível em relação ao que já tinha sido alcançado pela filosofia.

Porém, esta característica da lógica dos sinais é explicada pela própria característica do epicurismo, onde o objetivo não é alcançar a verdade, mas a paz interior; consequentemente, sua lógica não é um instrumento de investigação ou de verificação de proposições, mas um instrumento auto-hipnótico, onde o discípulo progressivamente se convence (ou é convencido) daquilo que não sabe como provar ou verificar.

11) Tanto a lógica de Epicuro, como sua Ética, o coloca ao lado das técnicas modernas de hipnose e manipulação mental, como a PNL.

12) O autor anuncia um pequeno desvio de Epicuro para discutir o atual estado das pesquisas sobre manipulação mental e o desinteresse sobre o assunto.

13) O autor faz uma longa descrição dos avanços técnico-científicos no campo da manipulação mental; assinalando, por um lado, há importância do assunto; e, por outro, a preocupante falta de interesse de se formar grupos sérios de estudo desta questão, que por sua amplitude, transcende as possibilidades investigativas de um estudioso isolado.

Capítulo V – Índole do epicurismo

14) O autor desmente alguns dos mitos construídos em torno de Epicuro

15) Onde se assinala as condições nas quais o epicurismo emergiu: na época, havia um sistema político repressor, que vetava aos cidadãos a possibilidade de participar das decisões políticas de sua comunidade; decadência da religião grega, o que retirava das pessoas a possibilidade encontrar um sentido transcendental para sua existência; exílio dos filósofos, o que fechava a possibilidade encontrar um sentido para a vida através da reflexão intelectual. A conjunção destes três fatores provocava na população o sentimento de desespero e impotência. Neste contexto, o epicurismo surge como uma tábua de salvação, trazendo o alívio evasionista e a fuga das dores da realidade.

Neste sentido, o epicurismo parece estar situado no pólo oposto do marxismo: de um lado, a pregação do ativismo político; do outro, a pregação do evasionismo, da alienação, do niilismo. Por que Pessanha, um marxista, teria se interessado tanto por Epicuro. Este é o ponto que desencadeia o próximo passo da investigação.

Livro III – Marx

16) Apesar de estarem em planos opostos, em termos de projeto político, há um princípio comum que une marxismo e epicurismo: a negação da inteligência teorética. Neste ponto, me parece que Olavo utiliza o raciocínio analógico, explicado no texto "Dialética Simbólica".

17) Segue um comentário mais minucioso sobre a negação da inteligência teorética em Marx; que está disponível no site do autor: Epicuro e Marx

18) O autor comenta que o esforço de Pessanha em resgatar a “tradição materialista” é equivocado, pois, aí, “materialismo” é apenas uma coincidência de nomes, não de termos; ou seja, a mesma palavra sendo utilizada com sentidos diferentes.

Além do mais, a noção de “tradição materialista” se torna mais complicada com a constatação que os ”filhotes” modernos do epicurismo são os movimentos espiritualistas da Nova Era. Além disto, estes movimentos espiritualistas também possuem uma série de correspondências analógicas com os movimentos marxistas. Como houve esta aproximação entre marxismo e espiritualismo? Esta é a questão que move a próxima parte da investigação.

Livro IV – Os braços e a cruz
Capítulo VII – Materialismo espiritual

16) “Pobres bantos” (as aspas assinalam que o título foi alterado por mim)

O autor mostra que é comum que em todas as principais civilizações se encontre algum tipo de divisão da realidade em três estratos essenciais: o campo da manifestação sensível, o campo dos princípios metafísicos, e o campo intermediário, onde está situado o homem. Contudo, Mircea Eliade observou que em culturas em avançados estados de degradação (ocasionados por sucessivas experiências traumatizantes de fome, guerra, miséria) percebe-se que há um abandono da dimensão metafísica e, simultaneamente, o endeusamento de aspectos da experiência sensível: a idolatria do tempo e do espaço; os deuses da natureza e da história. O autor assinala que processo análogo aconteceu com a classe intelectual da civilização Ocidental, que após o abandono da dimensão metafísica, dividiu o campo da ciência em duas formas de idolatria: as ciências da natureza (deuses do espaço) e as ciências humanas (deuses do tempo).

17) “Divinização do espaço”
O autor mostra que o processo de divinização da natureza remonta a Nicolau de Cusa, quando este, em sua obra, mantendo os principais tesouros da cosmologia tradicional, trouxe para a cena uma nova gnoseologia. Essa gnoseologia, se afastando do ideal de evidência apodíctica, trouxe um progressivo rebaixamento da ciência em relação ao ideal que já havia sido estabelecido por Platão e Aristóteles, o que se torna evidente a partir de Galileu, e que pode ser exemplificado nos desvios de autores modernos como Cantor e Piaget.

Pareceu-me que, para fazer esta análise, Olavo se fundamenta amplamente na obra de Husserl, que ainda não conheço. Encontrei no texto “O Homem-relógio” uma correspondência com o que é discutido aqui, porém, bastante sintética.

18) “Divinização do tempo I”Uma longa e detalhada descrição de como surge o pensamento historicista, suas raízes e seus desdobramentos no desenvolvimento do pensamento Ocidental. Por fim, mostra como ele se desviou de seus louváveis objetivos originários para produzir duas ideologias progressistas (marxismo e positivismo), que sustentaram os dois principais projetos político antagônicos do século XX (capitalismo e comunismo), que tiveram como uma das piores conseqüências absorver todo questionamento sobre o sentido individual da existência no rumo coletivo da história.

19) “Divinização do tempo II”Uma crítica específica e detalhada a dois frutos do historicismo: a doutrina da “volonté generale” dos ideólogos da revolução francesa e à doutrina hegeliana de Estado.

A visão da ciência política tradicional era a de que o sujeito que é diretamente responsável pelas ações políticas é o individuo concreto; a sociedade, nesta visão, é aglomeração de indivíduos, não possuindo uma existência tão concreta quanto aqueles por ser um ente mais evanescente. Porém, na ciência política moderna, a sociedade será considerada um ente tão ou mais concreto que o individuo singular.

Esta concepção se baseará na observação de que a vida em sociedade é essencial para o homem, não sendo concebível uma natureza humana fora da sociedade. O autor irá defender que esta crítica se baseia em uma compreensão superficial do pensamento da filosofia tradicional, pois nesta visão já estaria previsto que a sociabilidade é essencial para o homem. A diferença seria a seguinte: para os antigos, havia uma “natureza humana” imutável, porém, dentro desta “imutabilidade” já estava previsto uma série de aspectos que iriam variar sob certas condições; uma destas condições é a sociabilidade. Ou seja, não há nenhuma incompatibilidade entre o pensamento tradicional e o reconhecimento da influência da sociedade sob a natureza humana, desde que se entenda que esta só afeta algumas características, já previstas na definição de “natureza humana”, sem afetar outras, também previstas. Neste sentido, Olavo afirma que o homem é imutavelmente mutável pela convivência social. Portanto, a idéia da “volonté generale” se fundamenta em um equívoco filosófico.

Porém, se compreende a pobreza filosófica da idéia quando se observa que ela surgiu para resolver um problema político, e não filosófico. Os ideólogos da revolução francesa se encontravam com o problema de justificar o engajamento militar de toda a população, para poder fazer face aos demais poderes da Europa. Para isto, apelaram à idéia de que a substancialidade da Nação era mais importante que dos indivíduos que a compunham e, em nome dela, todos os cidadãos deveriam se sacrificar no esforço de guerra. Portanto, não é só de um equívoco filosófico que nasce a idéia da “volonté generale”, mas também da retórica política em vista da necessidade de justificar uma guerra às pressas.

O passo seguinte seria dado por Hegel. Ele tomaria a existência concreta do ente “sociedade” como um princípio auto-evidente, denominando-o Estado. O filósofo concederá ao Estado o mais alto grau na hierarquia ontológica, considerando-o a realização final do acontecer histórico. Em seguida, Hegel irá considerar o Estado a condição necessária e suficiente para a defesa da liberdade da consciência individual; considerando que este (o Estado) absorveu todo o pensamento cristão e filosófico, e não resta aos indivíduos nem mesmo a necessidade de se precaver contra os abusos dele, devendo entregá-lo a direção da própria consciência. Em resumo, o que Hegel faz é elevar o Estado à condição de arbitro das consciências, a suprema autoridade espiritual.

O autor assinala que a realização desta idéia hegeliana deu origem às três formas de Estado moderno: fascismo, comunismo e liberalismo. Os comunistas tentaram proibir as religiões em sua condução espiritual dos povos através da perseguição ostensiva, do uso da violência física e psicológica, pervertendo desde dentro as igrejas. Os fascistas tentariam substituir o culto religioso pelo culto do Estado. O Estado liberal, mantendo a liberdade econômica e política, se expande para controlar todos os domínios da esfera privada, cada vez mais se colocando como a instância reguladora das questões íntimas das pessoas, da vida interior das pessoas.

Capítulo VIII – a revolução gnóstica
23) Revisão do itinerário percorrido
Tentando recompor a unidade mental de Mota Pessanha, descobriu-se o ponto de interseção entre o marxismo e o epicurismo que professava: a negação da inteligência contemplativa. Em seguida, se descobriu que esta ligação esta na base de dois movimentos aparentemente antagônicos no cenário mundial: A Nova Era e A Revolução Cultura. Este junção fazia de Pessanha o iogue-comissário, sintetizando em sua pessoa um símbolo dos ideais que movem a humanidade: a evasão pelo consumismo e a evasão pela ação transformadora. Porém, resta a indagação: como foi possível a aproximação de duas correntes fundadas em cosmologias tão distintas? Como foi que o comissário materialista se aproximou do iogue espiritualista? O passo seguinte da investigação demonstrou que estas duas linhas se encontram em um mesmo ponto de origem: a negação da realidade metafísica e a substituição desta por divindades sócio-cósmicas, os deuses do tempo e do espaço. O iogue, divinizando a natureza, e o comissário, divinizando a história, aproximam-se no comum desprezo pelas realidades metafísicas. Porém, esta peculiar síntese não é novidade. O próximo passo é analisar suas raízes, que se encontram do culto a César e no gnosticismo.

24) O véu do templo.
O gnosticismo pode ser definido como uma reação de tradições antigas contra o cristianismo; para entender isto, deve-se entender qual a diferença específica entre eles. Até o advento do cristianismo, não havia espaço para a autonomia de consciência. As tradições se encontravam integradas a própria estrutura social, de modo que as próprias regras da sociedade eram vista como uma conseqüência direta da ordem divina. Com Sócrates, a coisa muda um pouco de figura, pois o filósofo irá declarar a superioridade da consciência individual em relação às demais formas de conhecimento social. A essência da mensagem de Sócrates é que a verdade é: Universal, ou seja, válida para todos; Apodíctica, ou seja, conhecida através de evidência, não somente indiretamente através de códigos e símbolos; Individual, ou seja, se mostra individualmente para cada sujeito através da consciência reflexiva.

Contudo, mesmo entre os gregos, o reconhecimento disto não provocava grandes influências na ordem social, pois, embora reconhecessem que este era um tipo de conhecimento superior ao da sociedade, os filósofos consideravam que este seria sempre um privilégio para poucos e não esperavam que toda a sociedade adotasse esses princípios. Porém, é precisamente isso que o cristianismo irá propor: a possibilidade que cada indivíduo encontra a verdade, independente de qualquer fator social. Ou seja, a possibilidade socrática, que os gregos reservavam para poucos filósofos e membros de sociedades iniciática, está aberta para toda e qualquer pessoa.

Esta nova possibilidade irá se opor radicalmente contra os antigos valores civilizacionais. A antiga visão de mundo, como o iogue-comissário, cultuava a sociedade e natureza, os deuses do tempo e do espaço. Porém, quando o cristianismo abre essa conexão direta entre Homem e Deus, desprezando as leis sociais e naturais, o culto passa a ser de uma divindade metafísica, acessível somente ao indivíduo, impossível de ser plenamente transposta para um conjunto forma de regras e normas. Em oposição aos deuses cósmicos, o cristianismo trás o culto do Deus supra-cósmico. Em oposição à crença de que os valores da sociedade são os valores supremos, o cristianismo trás a consciência individual como a instância que julga a sociedade, e não que é julgada por ela.

Com a queda do Império Romano e a progressiva cristianização da Europa, surge um novo mundo, onde o Estado não possui mais o poder sacerdotal que possuía no tempo de César. Neste novo quadro, o cristianismo se espalha sobre o mundo, (cf.pág. 193. Especialmente a nota de rodapé) enquanto os vestígios das antigas tradições greco-romanas dão origem às seitas gnósticas, que se opõe a nova mentalidade e propõe a volta dos antigos cultos.

25) Leviatã e Beemoth
Entre as características do gnosticismo, pode-se destacar o culto cósmico e a sacralização da sociedade. O movimento de reação contra o cristianismo, que se consubstancializa parcialmente nas seitas gnósticas, procurando restabelecer o culto das divindades da natureza, e parcialmente dentro da própria Igreja, na medida que esta passou a sacralizar a sociedade, como conseqüência indireta do esforço de difundir o cristianismo. (v. Nova Era, pp. 15-17)

Enfocando basicamente as dimensões sociais e cósmicas, o gnosticismo ataca diretamente a consciência individual e a dimensão metafísica. Porém, uma vez que esta se torna vitorioso, surge um novo conflito: os deuses do tempo versus os deuses do espaço. Em torno deste conflito serão geradas as principais discussões das idéias até o século XX, sem nunca conseguirem encontrar uma síntese (pois esta só seria possível no âmbito metafísico).

Livro V – Caesar Redivivus
Capítulo IX – A religião do Império

26) De Hegel a Comte
O autor narra como a idéia hegeliana de Estado como guardião da consciência humana frutificou no Catecismo de Robespierre, na Religião da Humanidade de Comte, na própria autoridade de Napoleão, que assumiu o trono dispensando as tradicionais bênçãos sacerdotais e, por fim, no Estado leigo. O tema básico é o Estado somando ao poder temporal a autoridade espiritual.

27) Breve história da idéia imperial
O autor afirma que a história política do Ocidente pode ser resumida como a tentativa de re-articular um novo poder imperial sucessor do Império Romano.

O problema básico desta histórica é que no Império Romana estava articulada uma dualidade de poderes que nenhuma outra potência conseguiu harmonizar: os poderes espirituais e temporais. Enquanto na Roma Antiga a aristocracia representava tanto o poder político quanto sacerdotal, a partir da dissolução do Império Romano estes poderes estarão definitivamente separados, tendo que encontrar sucessivamente novas formas de convivência.

A história dessa sucessão de arranjos se inicia com a queda do Império Romano. A partir daí, com a progressiva cristianização da Europa, os sacerdotes cristão irão assumir parte das funções publicas. Porém, dado o caráter do cristianismo como via individual de salvação, não é possível uma “doutrina cristã de Estado” que substitua totalmente as funções do antigo império. Conseqüentemente, dentro da própria Igreja surgirá a demanda por uma classe política que assuma as funções que ele não quer desempenhar. A partir desta necessidade, surge o primeiro Império cristão, unificado por Pepino e consolidado por Carlos Magno. Porém, este império não durará muito tempo, e será substituído pelo Sacro Império Romano; o qual, por sua vez, longe de atuar como braço político e militar da Igreja, entrará em constantes conflitos com ela.

As viagens transcontinentais trariam um novo quadro de referências para a idéia de Império: por abrir a possibilidade da expansão do Império sobre as colônias do Novo Mundo, é aberta a possibilidade da co-existência de vários candidatos à Império, pois não precisam se digladiar internamente pelos pedaços da Europa.

Porém, a multiplicidade dos impérios não resolve a tensão interna que o caracteriza: a duplicidade dos poderes. Com cada nação Europa assumindo o poder temporal, ainda falta a complementação necessária de um poder espiritual que justifique o Império. A Igreja Católica torna-se o poder espiritual que complementa o poder temporal da dinastia espanhola, deixando os outros candidatos à Império sem este apoio. Para suprir esta falta, os estados nacionais irão se aliar às igrejas protestantes, buscando, cada qual, fundar o próprio Império. Porém, dentro de cada Estado nacional, se repete a contradição entre os interesses e valores do clero e da nobreza; cada Estado procurando sufocar e subjugar o poder espiritual sob o poder temporal.

Três séculos depois, o quadro de referências muda novamente: as monarquias começam a cair. Nesta nova situação, Napoleão Bonaparte sobe ao poder com a missão de atualizar o poder imperial, porém, desta vez, desvinculado de qualquer legitimação religiosa: trata-se de restaurar o culto a César. Contudo, o projeto de Napoleão irá ruir pela sua própria contradição interna: irá tentar construir um novo regime, excluindo a casta sacerdotal, porém, se fundamentado na mesma casta aristocrática que há doze séculos havia estado fortemente ligada ao clero. Porém, ainda assim não será o fim da ambição imperial, que irá florescer nos Estados Unidos

28) O Império contra-ataca.
A idéia de Império ressurge nos EUA metamorfoseada em uma configuração inédita: trocava-se a monarquia e o absolutismo pela república democrática.

29) Aristocracia e Sacerdócio no Império Americano IO novo império também se distingue por ter uma nova classe sacerdotal: a maçonaria, que irá moldar o imaginário público, através de uma nova série de ritos e mitos nas artes que virão em substituição aos mitos cristãos.

O autor faz uma análise dos vários historiadores da maçonaria, explicitando o que há de aproveitável em algumas teses e o que ele considera exagerado; citando casos de intelectuais famosos que se encontraram assujeitados a organizações secretas, sem que jamais conseguissem elaborar intelectualmente estas experiências para esclarecer o público; assinalando, em todo caso, a importância do assunto, a irresponsabilidade em ignorá-lo e a necessidade de que se façam mais estudos sérios sobre ele.

Neste capítulo, há também uma valiosa – embora sintética - exposição sobre o funcionamento imaginário na formação do raciocínio lógico que fundamentam toda a análise sobre a influência maçônica na sociedade. Porém, não irei resumi-la aqui por não ter lido ainda o material original onde este tema é exposto sistematicamente (cf. Uma Filosofia Aristotélica da Cultura).

29) Aristocracia e Sacerdócio no Império Americano II
Mais uma característica do Império Americano é que ele é uma república protestante. Contudo, ao contrário de outros países onde uma corrente do protestantismo unificou religiosamente o país, nos Estados Unidos, a população se divide em uma série de correntes, sem que nenhuma tenha a primazia de religião oficial. Por isso mesmo, todos os diferentes grupos religiosos tem que aprender a conviver em pé de igualdade, sob a mesma proteção de uma única autoridade civil: ou seja, o Estado leigo.

O autor então, argumenta que a submissão das religiões a uma moralidade civil tem como conseqüência direta o esvaziamento das religiões tradicionais favorecendo o crescimento do ateísmo e o nivelamento de todas as crenças, apagando as diferenças entre os cultos tradicionais e as demais seitas.

Porém, a conjunção destes dois pontos (Estado leigo e casta sacerdotal maçônica) acarreta também mais uma característica inédita na história dos impérios: pela primeira vez, os dirigentes de uma nação partilham de uma única crença sem que esta seja partilhada por ninguém da sociedade civil; enquanto, ao mesmo tempo, a sociedade civil não se unifica em torno de nenhuma crença, mas se divide entre uma infinidade delas.

31) De Wilhelm Meister a Raskolnikov
Neste capítulo, há uma explicação mais detalhada – e interessantíssima – do funcionamento dos ritos e mitos como os instrumentos pelos quais o indivíduo encontra o sentido de sua vida. Em seguida o autor aponta a mudanças dos mitos fundamentais das artes na modernidade, assinalando que há uma substituição do mito cristão pelo mito maçônico (que coincide também como rompimento entre catolicismo e maçonaria).

O autor assinala algumas obras onde aparece esta mudança e explica a diferença entre os dois mitos utilizando os conceitos de pequenos e grandes mistérios (os quais suponho serem conceitos guenonianos). Os pequenos mistérios seriam a descoberta seguida da integração na ordem histórico-cósmica; ou seja, o iniciado passa a ocupar um lugar produtivo na sociedade, de onde recebe as recompensas por seus esforços. Os grandes mistérios já se referem a percepção de uma ordem supra-cósmica que não é redutível à ordem mundana. A ruptura entre catolicismo e maçonaria teria feito com que esta passasse a poder oferecer apenas uma iniciação nos pequenos mistérios, pois para uma iniciação aos grandes mistérios seria necessário que a ordem iniciática servisse como preâmbulo para uma caminhada maior, que só poderia ser feito dentro de uma religião tradicional, como o catolicismo ou o islamismo.

Como estes mitos maçônicos estão presentes em obras de arte que são disseminadas por toda a população, os efeitos desta ruptura não se restringem aos iniciados, mas reverberam por toda a população, através de uma transformação do imaginário popular. A principal conseqüência é que a população passa a se preocupar cada vez mais com a realização mundana, descuidando de uma autêntica realização espiritual.

32) As novas Tábuas da Lei , ou: O Estado bedelO autor argumenta que sob a bandeira da democracia moderna os Estados contemporâneos têm promovido uma concentração de poder inédita na história ocidental, isolando progressivamente o homem comum do centro de decisões. Isto ocorre, em parte, porque as divisões da sociedade em castas (e não em classes) é uma constante do espírito humano e a ocultação deste fato pela ideologia democrática tem como efeito encobrir o fato de que uma elite cada vez mais restrita concentra um poder muito maior que o restante da população.

Em seguida, o autor mostra como os movimentos que reivindicam novos direitos terminam por incentivar a concentração de poder: para regular os novos direitos, o Estado encontra o pretexto para aumentar seu poder sobre a população.

O debate entre essa esquerda e direita também passa ao lado da questão do aumento do poder do Estado sobre as consciências. Mesmo os neoliberais, argumentando em favor da diminuição da influência do Estado na economia, não enxerga impedimentos em aumentar a presença do Estado em outras áreas: educação, comunicação, legislação, etc. Ou seja, em todos os espectros políticos, não há um movimento de resistência à crescente intervenção do Estado na vida privada dos cidadãos.

Além disto, neste trecho o autor analisa alguns dos procedimentos que levam a esta concentração de poder e mostra algumas conseqüências já visíveis deste fenômeno.

Capítulo X – Na borda do mundo

26) Retorno ao Masp e ingresso no Jardim das Aflições
Neste trecho, o autor faz uma recapitulação de todas as discussões do livro e retorna ao evento do Masp, para contextualizar aquele evento neste contexto mais vasto da história das idéias e da política ocidentais.

Primeiramente, o autor faz uma narrativa buscando reconstruir o modo como a intelectualidade uspiana concebia seu papel no rumo dos eventos, quais eram os objetivos do movimento pela “ética na política” e quais foram os resultados práticos obtidos: mostrando que, inconscientemente, a estratégia socialista ajudou a fortalecer os valores da Revolução Americana; ou seja, do Estado imperial leigo, que absorve, igualmente, as ideologias capitalistas e socialistas.
Em seguida, o autor faz uma breve narrativa dos últimos anos da formação intelectual brasileira, assinalando sua incapacidade de perceber a quem estão servindo com seu ativismo ideológico e sua incapacidade de perceber o fenômeno que está ocorrendo. Por fim, o autor também mostra que se por um lado, os EUA é o berço do novo projeto imperialista, ele também é o local de onde provêm as principais forças de resistência contra esta nova ordem.

Porém, acredito que o ponto central deste capítulo (e talvez, por extensão, de todo o livro) é quando o autor esclarece seu posicionamento frente ao projeto imperial americano. Ele insiste que o grande embate político do Ocidente já não é mais entre dois blocos ideológicos antagônicos (socialismo e capitalismo), pois o projeto do Império Mundial Leigo absorve ambas as ideologias. O embate restante é em delimitar os poderes do Império; ou seja, em rejeitar que ele atualize o projeto de César: absorver igualmente o poder temporal e o poder espiritual. A questão não é defender uma ideologia política em nome da outra, mas é defender o primado da consciência individual ante a pressão coletiva e negar ao Estado o papel de uma autoridade espiritual comparável a uma tradição religiosa. Em suma, trata-se de defender a liberdade de consciência e superioridade das tradições religiosas frente aos poderes políticos:

Nenhum regime, nenhum Estado, tem o direito de agir como intérprete soberano da verdade, subjugando as consciências individuais, pois é nestas, e não nele, que vive e esplende o dom da inteligência. E as consciências individuais não têm nem terão jamais outra fonte onde buscar inspiração e força senão o legado das grandes tradições espirituais. São elas também a fonte onde busca sua legitimação toda ideologia, todo regime político: elas julgam todas as ideologias, e por nenhuma são julgadas.”(Jardim das Aflições, 2ª edição, pág. 302).



Sobre o autor: Olavo de Carvalho nasceu em Campinas no dia 29 de abril de 1947, tem sido saudado pela crítica como um dos mais originais e audaciosos pensadores brasileiros.
Filósofo e professor, Olavo de Carvalho é o mais importante pensador brasileiro da atualidade. Olavo conquista o leitor por suas idéias vigorosas, expressas numa eloquência franca e contundente que alia o rigor lógico e a erudição ao mais temível senso de humor. Nas palavras do poeta Bruno Tolentino, “a capacidade de desenterrar do pensamento antigo, novas idéias aptas a lançar luz sobre o presente é a marca do verdadeiro erudito; a capacidade de encarar os problemas do presente com aquela coragem radical apta a trazer à luz os fundamentos últimos do conhecimento é a marca de algo mais que o mero filósofo-padrão de hoje em dia."
Olavo de Carvalho é um iconoclasta de incontornável honestidade intelectual que tomou para si a tarefa ingrata de pôr a nu os falsos prestígios acadêmicos e expor as falácias do discurso político e intelectual vigente.
A tônica de sua obra é a defesa da interioridade humana contra a tirania da autoridade coletiva, sobretudo quando escorada numa ideologia ‘científica’. Para Olavo de Carvalho existe um vínculo indissolúvel entre a objetividade do conhecimento e a autonomia da consciência individual.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O FALECIDO MATTIA PASCAL

Título original: Il Fu Mattia Pascal
Autor: Luigi Pirandello (1867-1936)
Tradução: Mário Silva, Brutus Pedreira e Elvira Rina Malerbi Ricci
Editora: Abril Cultural
Assunto: Romance (escrito em 1904)
Edição: 1ª
Ano: 1978
Páginas: 322


Sinopse: Mattia Pascal, no momento mais crítico de sua vida, vivendo uma vida medíocre, acossado por credores, casado e morando com uma sogra insuportável, foge de casa e um golpe do acaso muda a sua vida. Ele ganha uma pequena fortuna num cassino e, ao mesmo tempo é tido como morto, pois o confundem com um cadáver achado em sua cidade natal. Aproveita a chance e, como "falecido", decide assumir uma nova identidade e parte em viagem pela Europa, de modo aventureiro, envolvendo-se em contínuos contratempos, todavia as coisas não saem como o desejado.

Resumo da narrativa: A história contada é de um homem, Mattia Pascal, que mora em uma pequena cidade da Itália, Miragno. Após um casamento fracassado, a presença insuportável da sogra, a Viúva Pescatore, a morte de sua mãe e de seu filho, Mattia resolve sumir de sua cidade e viver uma aventura com o dinheiro que o irmão lhe enviara para o enterro da mãe. Quando volta para Miragno, depois de 12 dias (dentro do tempo da narrativa) descobre, pelos jornais, que está morto. Um homem se suicida em uma propriedade de sua família e a cidade julga que o morto é Mattia, porque ele passava por dificuldades financeiras, seu casamento não ia bem, ele acabara de perder sua mãe e sua filha. Dois fatores contribuíram para o veredicto da cidade: o homem morrera afogado, ou seja, estava irreconhecível, e o fato de o chapéu de Mattia ter sido encontrado na ponte de onde o suicida pulou. Diante desta situação, Mattia pára em uma cidade próxima à sua e decide, então, com o dinheiro ganho em cassinos durante o tempo do desaparecimento, assumir uma nova identidade e se libertar de todo aquele passado: o casamento, a convivência com a sogra, as dívidas, a vida que ele tanto lamentava. Ele resolve ir para Roma. A escolha deste lugar não é aleatória, pois Roma é uma grande cidade, cheia de forasteiros, e seria fácil para ele viver uma “outra vida”. Chegando a Roma, ele escolhe um novo nome, Adriano Meis, aluga um quarto na casa de uma família onde moravam o Sr. Anselmo Paleari, sua filha, Adriana, outra hóspede, a Sra. Silvia Capolare, professora de piano e o cunhado de Adriana, que naquele momento estava em Nápoles, Terenzio Papiano. Adriano Meis vive nesta casa e se apaixona por Adriana. Ela é uma moça recatada e assediada por seu cunhado Terenzio. Durante o tempo em que fica hospedado na casa de Paleari, Adriano participa de uma sessão espírita, promovida por Paleari, que é espírita, onde dá o primeiro beijo em Adriana. Um dia, Adriano percebe que foi roubado por Terenzio. Adriana quer chamar a polícia, mas Adriano, por não possuir um documento que comprove a sua identidade, e, tampouco, a fonte do dinheiro que possui a impede e mente, dizendo que o dinheiro não havia desaparecido. Para afastar Adriano de Adriana, Terenzio o apresenta à filha de um barão com quem tinha negócios e o incentiva a cortejá-la. Em uma visita à Pepita, filha do barão, o amante de Pepita, um pintor, desafia Adriano para um duelo, alegando que este havia ferido a sua honra. Adriano pede a Paleari e a Papiano para que sejam seus padrinhos de duelo, porém estes não aceitam. Para se salvar do duelo, Adriano resolve “morrer” mais uma vez. Deixa uma bengala, um chapéu e um bilhete em uma ponte, à beira de um rio. Mattia Pascal sai de Roma e decide reassumir sua identidade e sua vida. Ele procura o irmão e toma conhecimento que Romilda, sua mulher, casara-se com seu melhor amigo, Pomino, e que o novo casal já tem um filho. Por isso, ele resolve partir imediatamente para Miragno. Chegando em sua cidade, ele vai imediatamente para a casa de Pomino, e quando fica frente a frente com Romilda, Pomino e a viúva Pescatore fica indignado com o fato de sua mulher já ter se casado e deles já terem um filho. No momento em que Mattia reencontra a família, ele despeja toda a sua raiva e o seu ressentimento por causa desta nova situação (por não ter mais referências: mulher, casa, etc..), mas apesar disso resolve deixá-los em paz. Mattia decide morar com sua tia Scolástica e volta a trabalhar na biblioteca. A biblioteca é o lugar onde Mattia inicia a sua história, mais velho, contando-a ao padre Eligio Pellegrinotto.


O autor: Luigi Pirandello nasceu na Sicília (1867) e morreu em Roma (1936). Formou-se em filosofia pela Universidade de Bonn (Alemanha), dedicando-se ao magistério até 1923. Antes da partida para Bonn, escreveu apenas poemas e traduziu do alemão as Elegias Romanas de Goethe. A partir de 1893 fixou-se em Roma e começou a escrever sua primeira novela: A Excluída (1901). Em 1908, escreveu os ensaios O Humorismo e Arte e Ciência, expondo posições às quais permaneceria fiel em toda a sua obra. Em 1902, publicou os volumes de contos Escárnios da Vida e da Morte e Quando Estive Louco. De 1904 é um dos seus mais famosos romances, O Falecido Mattia Pascal. Nele, desenvolve, pela primeira vez, um tema que se tornaria constante em sua obra: o paradoxo entre a essência e a aparência, entre o que é o homem e o modo como a sociedade o vê.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

SOB O SOL DE SATÃ

Título original: Sous le soleil de Satan
Autor: Georges Bernanos (1888-1948)
Tradução: Hildegard Feist
Editora: Globo
Assunto: Romance
Edição: 1ª
Ano: 1987
Páginas: 279

Sinopse: A obra, publicada em 1926, trata como tema fundamental a luta entre o Bem e o Mal.

O autor conta a história de um jovem padre de província que, sem grandes qualidades intelectuais, incapaz de pronunciar um sermão sem se atrapalhar com as palavras conseguiu alcançar a santidade.

Este jovem padre é o abade Donissan que se encontra psicologicamente torturado frente aos dilemas morais em que vive ao se deparar constantemente com seus instintos, vontades e pensamentos humanos. Sua mente está no limite da insanidade por conta de sua obsessão pela luta invisível entre as forças do bem e do mal, que geralmente resulta em pesadas seções de auto-flagelação, ou ainda no confronto com o seu superior eclesiástico. Apesar de todas as adversidades, ele cumpre sua missão neste mundo que o redime para a vida eterna tornando-se um Santo.

Comentários: O diabo existe? Existe, assegura-nos Georges Bernanos. E, procurando imitar Deus, assume mil caras para seduzir as almas e arrebatá-las para o fogo do inferno. Contra ele se insurge o jovem abade Donissan, simpático cura de província, olhado com desprezo por seus confrades refinados. Um encontro decisivo com Satã muda por completo a vida desse homem humilde que, incansavelmente, se põe a combater todas as formas do Mal.

Bernanos, um dos grandes escritores católicos do século XX, todavia a fé na Igreja não o impediu de atacar violentamente o clero comodista que prefere rezar pela salvação das almas em salões forrados de veludo e cetim, a pôr o pé na estrada e enfrentar Satã e suas mil faces enganosas, onde que apareçam. Com um estilo em que se fundem à perfeição as vertentes realista e visionária, o romancista pinta com pungente emoção o drama do abade Donissan, que chega a abrir mão da própria salvação pessoal para enfrentar o eterno inimigo.

Mensagem principal da obra: É preciso agir com sinceridade; é preciso ter coragem para enfrentar Satã e sua astúcia; é preciso renunciar até a própria salvação individual em benefício das almas que lhe foram confiadas. Esta é, diz Bernanos, a verdadeira missão do sacerdote neste mundo, a única que o redime para a vida eterna.


O autor: Nascido em Paris a 20 de fevereiro de 1888, Georges Bernanos estreou na literatura em 1922, com o romance “Madame Dargent”. A partir do sucesso de “Sob o Sol de Satã” (1926), abandonou o emprego de advogado e passou a viver unicamente de seus livros e artigos. Em 1934, atormentado por dificuldades financeiras, transferiu-se com a mulher e os seis filhos para a Espanha. Lá escreveu “Diário de um Pároco de Aldeia” (1936), considerada por alguns críticos, sua obra-prima. Em 1937, voltou à França, mas não suportou a difusão do espírito totalitarista na Europa; partiu para o Paraguai e, depois, para o Brasil. Terminada a Segunda Guerra Mundial, retornou a seu país e passou a escrever verdadeiros libelos contra a IV República, a tecnocracia, as novas formas de totalitarismo. No inverno de 1947-48 encontrava-se na Tunísia, onde elaborou a peça “Diálogos das Carmelitas” (1949). Um agravamento de seu mal hepático obrigou-o a transferir-se para Paris, onde morreu no dia 5 de julho de 1948.


Cenas do filme, onde o abade Donissan é tentado pelo demônio disfarçado em humano. O áudio do filme é em francês, sem legenda.


SOB O SOL DE SATÃ (A Tentação)





"Por um momento ficaram assim, face a face. a ilusão era sutil demais para que o abade Donissan sentisse propriamente terror. Qualquer esforço que fizesse, não conseguiria distinguir-se de seu duplo e contudo guardava algum sentimento da própria unidade. Não, não era o terror, mas uma angústia tão intensa que a idéia de combater aquela aparência, como a um inimigo revestido de sua própria carne, pereceu-lhe quase insensata. Entretanto, ele ousou.

- Retira-te, Satã - disse, os dentes cerrados..."

sexta-feira, 30 de julho de 2010

CRISTIANISMO A Religião do Homem

Autor: Mário Ferreira do Santos
Assunto: Filosofia
Editora: Edusc
Edição: 1ª
Ano: 2003
Páginas: 138

Sinopse: Mário Ferreira dos Santos, Filósofo humanizante, buscou reconciliar a Filosofia com a religião cristã, representando Cristo como o Bem Verdadeiro.

“Cristianismo não é uma religião cultural, porque não depende de uma cultura determinada; não é uma religião racial, porque não depende de qualquer raça; não é uma religião de casta, de estamento, de classe, porque não depende de nenhum deles. O Cristianismo é a religião do homem concreto, do homem tomado em sua totalidade, e por isso independe inclusive do tempo”.

Neste Cristianismo: a religião do homem, desenvolve uma Axioantropologia fundada na melhor Filosofia clássica e tomista, ao descrever os Homens diversos das pedras, das plantas e dos animais (§ 10), como obras de nós mesmos (§ 21), pois temos uma oréxis (§ 29) que nos impele ao Supremo Bem (§ 33), oréxis que é um dever-ser com direitos e obrigações (§ 50), implica em Justiça (§ 54), valores humanos (§ 58), Ética e Moral (§ 60), fundados em virtudes cardeais (§ 76), e cultivo das virtudes como dever-ser ético do Homem (§ 80).

Destas premissas retira o saudoso Mestre as conclusões do título: a partir da miséria humana encontrará o Homem sua salvação (§ 97 ss), pois guarda em si a trindade da Vontade, Inteligência e Amor (§ 104), que lhe permite religar-se a Deus, pois “esta é a vossa religião, porque ela está em vós” (§ 120), concluindo com palavras de Cristo, “eu sou o ápice da pirâmide” (§ 135).
Sobre a Ética e a Moral: "A Ética estuda o dever-ser humano, a Moral descreve e prescreve como se deve agir para realizar este dever-ser. A Moral é variante, mas a Ética é invariante. Podem os homens, mal assistidos pela intelectalidade, errarem quanto à eticidade de um ato e estabelecer um costume (moral) que nem sempre é conveniente ou é exagerado. Podem errar, porque o homem pode errar, mas se der ele o melhor de sua atenção à Ética, ele não errará e poderia evitar os erros da Moral" (Mário Ferreira dos Santos)

Dos últimos escritos do ilustre Filósofo paulista, Cristianismo expressa a síntese de seu filosofar clássico, com fortes traços teológicos, ao estilo tomista de apresentação de teses ou proposições enlaçando Razão e Fé.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A TEMPESTADE

Título original: The Tempest
Autor: William Shakespeare (1564-1616)
Tradução: Beatriz Viégas-Faria
Editora: L&PM POCKET
Edição: 1ª
Ano: 2002
Páginas: 128

Sinopse: A Tempestade foi última peça escrita por Shakespeare. Não há uma data precisa de quando foi escrita, todavia, há indicações que a peça tenha sido escrita em 1610, seis anos antes da morte de Shakespeare e encenada a 1º de novembro de 1611 no Palácio Whitehal em Londres.

A Tempestade é uma história de ruptura entre o poder secular e o poder espiritual, de reconciliação, de amor, de perdão às conspirações oportunistas e de recuperação da ordem estabelecida.

A história contrapõe a figura disforme, selvagem e pesada dos instintos animais que habitam o homem à figura etérea, incorpórea, espiritualizada de altas aspirações humanas.

O enredo: Uma ilha é habitada por Próspero, Duque de Milão, mago de amplos poderes, e sua filha Miranda, após serem abandonados à deriva no mar, num ato de traição e usurpação política. Próspero tem a seu serviço Caliban, um escravo em terra, homem adulto e disforme, e Ariel, o espírito servil e assexuado que pode se metamorfosear em ar, água ou fogo. Os poderes eruditos e mágicos de Próspero e Ariel combinam-se e, depois de criar um naufrágio, Próspero coloca na Ilha seus desafetos (no intuito de levá-los à insanidade mental) e um príncipe, noivo em potencial para a filha. O amor acontece entre os dois jovens, a vingança de Próspero é transformada em perdão, Caliban modifica-se quando conhece os poderes inebriantes do vinho numa cena cômica com outros dois bêbados.

O significado da história: O Fato fundador da história é a usurpação do poder espiritual pelo poder terrestre. Essa usurpação é simbolizada pela rebelião de Antonio contra seu irmão Próspero. Antonio quer governar soberanamente, quer ser o senhor absoluto sobre os dois poderes (Temporal e Espiritual). Trata-se, portanto, da transgressão da lei natural das coisas; é a ruptura da ordem cósmica. Ruptura porque há uma hierarquia entre os dois poderes; o poder temporal não tem agenda própria; ele necessita buscar a agenda no poder espiritual.

No desfecho da história, Miranda e Fernanda retomam o governo de Milão e Nápoles dos quais são herdeiros legítimos.

O casamento da Miranda com o Fernando é o casamento da pureza humana (poder espiritual) com o melhor modelo humano de poder terrestre rejuvenescido e simbolizado por Fernando. Assim Próspero reata a normalidade das coisas reconstituindo a ordem no sentido de propiciar a continuidade da sociedade humana dentro da ordem cósmica recuperada.

O mal não está no exercício do poder em si mesmo; o mal está no exercício absoluto dos poderes e na inversão da hierarquia desses poderes, ou seja, colocar o poder temporal como superior ao poder espiritual. A lei dos homens, embora necessária, jamais poderá ser superior a lei Divina. É necessário haver uma hierarquia na ordem estabelecida.

É preciso, primeiro, fazer a conversão para o individual para depois pensar no social. É exatamente isso que Próspero faz ao se estabelecer numa ilha isolada. Ele escolhe uma ilha (individual) para restabelecer a ordem corrompida. Só o homem tem essa capacidade de encerrar-se em si mesmo que permite a consciência sobre o mundo. A sociedade é uma espécie de trama de relações formais que não sabemos por que fazemos.

Conclusão: A obra representa a Denúncia contra a desordem cósmica e sua reconstituição. Uma espécie de última mensagem de Shakespeare para a humanidade, pois este foi seu último livro. Ele se despede do palco e volta para sua terra natal para encerrar-se em si mesmo dando-nos uma das maiores lições sobre comportamento da humanidade ao se despedir da própria vida.
Shakespeare não foi um poeta de sua época. Tudo que ele escreveu e encenou foi para orientar o futuro da humanidade.


Sobre o autor: William Shakespeare (1564-1616) nasceu e morreu em Stradford, Inglaterra. Poeta e dramaturgo é considerado um dos mais importantes autores de todos os tempos. Filho de um rico comerciante, desde cedo Shakespeare escrevia poemas. Mais tarde associou-se ao Globe Theatre, onde conheceu a plenitude da glória e do sucesso financeiro. Depois de alcançar o triunfo e a fama, retirou-se para uma luxuosa propriedade em sua cidade natal, onde morreu. Deixou um acervo impressionante, do qual se destacam clássicos como Romeu e Julieta, Hamlet. A megera domada, O rei Lear, Macbeth, Otelo, Sonho de uma noite de verão, A tempestade, Ricardo III Júlio César, Muito barulho por nada, entre outros.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

ODISSÉIA

Autor: Homero
Tradução: Carlos Alberto Nunes
Editora: Ediouro
Assunto: Romance – Poesia Épica (Literatura estrangeira)
Edição: 6ª
Ano: 2004
Páginas: 432

Sinopse: A obra narra a viagem de regresso de Odisseu a sua pátria, Ítaca, após o término da guerra de Tróia. Entretanto, a viagem de regresso é marcada por sucessivas tramas produzidas pelo deus Poseidon[1] (mitologia grega) ou Netuno (mitologia romana) para impedí-lo, mas Odisseu, sem saber, passa a receber ajuda de Atena, filha de Zeus, a deusa grega da sabedoria, do ofício, da inteligência e da guerra justa. Dez anos se passaram até que Odisseu pudesse realizar o seu desiderato.

Comentários da obra:
A Odisséia data provavelmente do século VIII a.C., quando os gregos, depois de um longo período sem dispor de um sistema de escrita, adotaram o alfabeto fenício. Na Odisséia ressoa ainda o eco da guerra de Tróia, narrada parcialmente na Ilíada. O título do poema provém do nome do protagonista, o grego Odisseu. Filho e sucessor de Laerte, rei de Ítaca e marido de Penélope. Odisseu é um dos heróis favoritos de Homero e já aparece na Ilíada como Aquiles, um homem manhoso, perspicaz, vaidoso, porém bom conselheiro e bravo guerreiro.

A obra compõe-se de 24 cantos em verso hexâmetro (seis sílabas), e a ação se inicia dez anos depois da guerra de Tróia, em que Ulisses lutara ao lado dos gregos. A ordem da narrativa é inversa: tem início pelo desfecho, a assembléia dos deuses, em que Zeus decide a volta de Odisseu ao lar. O relato é feito, de forma indireta e em retrospectiva, pelo próprio herói aos feaces - povo mítico grego que habitava a ilha de Esquéria. Hábeis marinheiros, são eles que conduzem Odisseu a Ítaca.

O enredo:
As viagens e aventuras de Odisseu são narradas em duas etapas: a primeira compreende os acontecimentos que, em nove episódios sucessivos, afastam o herói de casa, forçado pelas dificuldades criadas pelo deus Poseidon. A segunda consta de mais nove episódios, que descrevem sua volta ao lar sob a proteção da deusa Atena. É também desenvolvido um tema secundário, o da vida na casa de Odisseu durante sua ausência, e o esforço Telêmaco, filho de Odisseu, que empreende uma viagem exploratória em busca de seu pai. A esse tema secundário dentro do tema principal dá-se o nome de Telemaquia.

Odisseu atravessa um mundo fantástico, repleto de perigos e tentações, onde os monstros marinhos, os encantos de Circe e de seus elixires, as sedutoras sereias, e as ameaças do ciclope Polifemo procuram desviá-lo de seu rumo - ora tentando devorá-lo, ora afastando-o de seu retorno, de suas memórias.

O poema estrutura-se em quatro partes: na primeira (cantos I a IV), intitulada "Assembléia dos deuses", Atena vai a Ítaca animar Telêmaco, filho de Odisseu, na luta contra os pretendentes à mão de Penélope, sua mãe. Telêmaco decide, sem conhecimento da mãe, ir a Pilos e a Esparta em busca do pai. O herói, porém encontra-se na ilha de Ogígia, prisioneiro da deusa Calipso. Na segunda parte, "Nova assembléia dos deuses", Calipso liberta Odisseu, por ordem de Zeus, que atendeu aos pedidos de Atena e enviou Hermes com a missão de comunicar a ordem. Livre do jugo de Calipso, que durou sete anos, Odisseu constrói uma jangada e parte, mas uma tempestade desencadeada por Poseidon lança-o na ilha dos feaces (canto V), onde é descoberto por Nausícaa, filha do rei Alcínoo. Bem recebido pelo rei (cantos VI a VIII), Odisseu mostra sua força e destreza em competições esportivas que se seguem a um banquete. Na terceira parte, "Narração de Odisseu" (cantos IX a XII), o herói passa a contar a Alcínoo as aventuras que viveu desde a saída de Tróia: sua estada no país dos Cícones, dos Lotófagos e dos Ciclopes; a luta com o ciclope Polifemo; o episódio na ilha de Éolo, rei dos ventos, onde seus companheiros provocam uma violenta tempestade, que os arroja ao país dos canibais, ao abrirem os odres em que estão presos todos os ventos; o encontro com a feiticeira Circe, que transforma os companheiros em porcos; sua passagem pelo país dos mortos, onde reencontra a mãe e personagens da guerra de Tróia. Na quarta parte, "Viagem de retorno", o herói volta à Ítaca, reconduzido pelos feaces (canto XIII). Apesar do disfarce de mendigo, dado por Atena, Odisseu é reconhecido pelo filho, Telêmaco, e por sua fiel ama Euricléia, que, ao lavar-lhe os pés, o identifica por uma cicatriz. Assediada por inúmeros pretendentes, Penélope promete desposar aquele que conseguir retesar o arco de Odisseu, de maneira que a flecha atravesse 12 machados. Só Odisseu o consegue. O herói despoja-se em seguida dos andrajos e faz-se reconhecer por Penélope e Laerte. Segue-se a vingança de Odisseu (cantos XIV a XXIV): as almas dos pretendentes são arrastadas aos infernos por Hermes e a história termina quando Atena impõe uma plena reconciliação durante o combate entre Odisseu e os familiares dos mortos. A concepção do poema é predominantemente dramática e o caráter de Odisseu, marcado por obstinação, lealdade e perseverança em seus propósitos, funciona como elemento de unificação que permeia toda a obra. Aparecem aí fundidas ou combinadas uma série de lendas pertencentes a uma antiqüíssima tradição oral com fundo histórico. Há forte crença de que a Odisséia reúna temas oriundos da época em que os gregos exploravam e colonizavam o Mediterrâneo ocidental, daí a presença de mitos com seres monstruosos no Ocidente, para eles ainda misterioso. Pela extrema perfeição de seu todo, esse poema tem encantado o homem de todas as épocas e lugares. É consenso na era moderna que a Odisséia completa a Ilíada como retrato da civilização grega, e as duas juntas testemunham o gênio de Homero e estão entre os pontos mais altos atingidos pela poesia universal.

Além de constituir, ao lado da Ilíada, obra iniciadora da literatura grega escrita, a Odisséia, de Homero, expressa com força e beleza a grandiosidade da remota civilização grega. Na verdade, Odisséia foi uma obra voltada para a educação da criança grega. Trata-se de uma espécie de livro didático na época. Esta obra inspirou Werner Jaeger ao mais profundo e completo estudo sobre os ideais de educação na Grécia antiga que resultou no livro “Paidéia: a formação do homem grego”, a fantástica obra com 1413 páginas.

Para compreender o sentido da obra:
A Guerra de Tróia significa a luta entre a ordem e a desordem. Com o rapto de Helena, esposa de Menelau, por Páris de Tróia, a instituição do casamento foi destruída. O casamento simboliza a ordem estabelecida. Era preciso, portanto, recuperar a ordem. Assim, a ida para Tróia e a guerra, significam a luta para recuperação do que foi perdido e assim restabelecer o status quo ante.

Os elementos subversores da ordem em Ilíada eram Páris e Helena. Na Odisséia são os pretendentes de Penélope. Logo, tanto na Ilíada, quanto na Odisséia os subversores foram destruídos para que a ordem fosse restabelecida.

Na Odisséia, a Penélope, esposa de Odisseu, representa um ideal humano, um modelo de ordem simbolizado pela honestidade.

Odisseu é leal, humilde, corajoso, astuto, desconfiado, matreiro, esperto, inteligente e reflexivo. É também, manhoso e vaidoso. Entretanto, na Ilíada (onde assume o nome de Ulisses) ele não é nada disso.

Assim, Odisseu quer recuperar a Penélope, pois esta representa um modelo de ordem. Todavia, antes de recuperar a ordem, Odisseu precisava recuperar a si próprio, ou seja, sua própria ordem interna. Para isso ele se fez humilde e quando mais humilde se tornava, mais sábio ficava.

O sentido da obra:
A "Odisséia" é a história do retorno ao ideal humano, mas que, para ser compreendida em toda sua plenitude, necessita do concurso e compreensão da história relatada em “Ilíada” e que antecede aquela.

Enquanto a Ilíada representa a destruição da Ordem estabelecida, a Odisséia representa a recuperação da Ordem. Portanto, as obras representam a contraposição da Ordem com a Desordem (Cosmos x Caos).

A recuperação da ordem significa a recuperação de valores humanos como: honestidade, lealdade, honra, coragem, inteligência, sabedoria, humildade e amor – substanciais para a existência humana e que devem inspirar profunda meditação sobre a condição humana.


Conclusão:
Odisseu só foi capaz de recuperar a ordem perdida quando ele conseguiu recuperar a sua própria ordem interna. A sua viagem de retorno é uma metáfora da realização humana.

Eis aí uma grande lição para todos nós que vivemos o processo mais subversivo da história da humanidade. Jogamos no lixo todos os valores humanos verdadeiros e perenes, seguindo falsos valores construídos por uma ideologia psicopata e suicida que nos levará diretamente ao tártaro do Hades.

[1] Deus do mar, dos rios e das fontes.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

AS SEIS DOENÇAS DO ESPÍRITO CONTEMPORÂNEO

Título original: Sase Maladie all Spiritului Conteporan
Autor: Constantin Noica
Tradução: Fernando Klabin e Elena Sburlea
Editora: Record
Assunto: Filosofia
Edição: 1ª
Ano: 1999
Páginas: 208

Sinopse: Numa época de uniformização estéril da cultura mundial, a mensagem de Constantin Noica, vindo de fora e de longe dos centros dominantes, é a voz da diferença, a voz da autêntica criatividade, tão marginal na sua proveniência geopolítica quanto central no seu significado humano e espiritual.

Comentários: Segundo José Monir Nasser, o filósofo romeno é um desses pensadores poderosos com baixo reconhecimento internacional por ter vivido na periferia intelectual do mundo, caso também do australiano David Stove e do brasileiro Olavo de Carvalho. O caso de Noica é mais específico, porque passou a vida perseguido pelo governo comunista da Romênia, que o isolou da grande conversação, na expressão de Mortimer Adler. Mesmo assim, Constantin Noica antes de morrer, conseguiu publicar seu opus magnum, “As Seis Doenças do Espírito Contemporâneo”, análise cortante que vai fundo na dissecação espiritual de nossa época. O modelo de Noica, permitindo a tipificação de seis doenças espirituais, é uma fórmula muito abrangente e útil. O Brasil, por exemplo, pode ser interpretado por vários aspectos patológicos simultâneos. O mesmo vale para nossa auto-análise.

Segundo Olavo de Carvalho, prefaciador e comentador da obra escreve que As Seis Doenças do Espírito Contemporâneo avulta como obra de maturidade, onde uma filosofia longamente meditada alcança enfim aquela expressão simples e nítida que é a marca do gênio filósofo aliado a um talento literário incomum. As Seis doenças são nada mais, nada menos que as diferentes relações que têm entre si os traços definidores de todo ser, de toda realidade existente: a individualidade, a generalidade, as determinações que situam a individualidade na generalidade. Trata-se, pois, de um tratado de ontologia. Mas, em vez de apresentá-lo à maneira carregada e cinzenta de uma tese acadêmica, Noica preferiu fazê-lo sob a alegoria de um manual de patologia médica, onde, dos padecimentos do espírito humano, a descrição sobe até a análise das limitações e deficiência do ser em geral. E como para chegar a seus diagnósticos ele toma por material de exame as obras maiores da literatura e da filosofia ocidentais, este livro se torna também, de quebra, um ensaio de filosofia da história e da cultura.

A fórmula que dá unidade ao conjunto da obra é de uma originalidade que surpreende. Há um humorismo sutil, melancólico e extravagante, na idéia de nomear os mais sublimes padecimentos do espírito com neologismos técnicos, de composição grega, que parecem diretamente extraídos de um tratado de patologia clínica. Pois é exatamente isso o que espera o leitor nas páginas deste livro.

Sobre o autor: Constantin Nóica, nascido em Vitânesti-Teleorman em 25 de julho de 1909 e falecido em Sibiu em 4 de dezembro de 1987, é tido geralmente por seus compatriotas como o mais profundo e consistente dos pensadores romenos do século XX. Se permanece ainda amplamente desconhecido fora de sua pátria, isto se deve a circunstâncias peculiares de sua vida. A Romênia é talvez o país que mais tem escritores e filósofos no exterior, escrevendo em idiomas estrangeiros ou traduzindo seus próprios livros, principalmente para o inglês e o francês, este último uma espécie de segunda língua nacional romena. A produção intelectual dos romenos alcança assim fácil difusão internacional e os nomes de Mircea Eliade, Stéphane Lupasco, Eugène Ionesco, Jean Parvulesco, Vintila Horia, C. Virgil Gheorghiu e tantos outros são familiares aos leitores cultos de qualquer parte do mundo, isto para nada dizer de E. M. Cioran, o auto-exilado que se impôs - e venceu - o desafio de tornar-se o maior prosador francês do seu tempo. Menos conhecidos são, naturalmente, os escritores que permaneceram na Romênia e só escreveram na língua natal, como Lucien Blaga, majestoso poeta-filósofo. Mas Constantin Nóica sofreu algo mais que o natural isolamento lingüístico. Condenado pelo regime comunista a seis anos de cárcere e depois à prisão domiciliar numa pequena cidade do interior, só se comunicou com o mundo durante duas décadas por meio dos fiéis discípulos e amigos que o visitavam semanalmente para receber suas lições, entre os quais os dois filósofos romenos de maior destaque na atualidade, Gabriel Liiceanu e Andrei Pleshu, o primeiro, diretor da prestigiosa Editora Humanitas, o segundo, ministro das Relações Exteriores, ambos diretores do New European College, que tem sido o principal canal de comunicação cultural entre a Romênia e o exterior. Esses encontros, dos quais Liiceanu deu um relato parcial em seu Jurnalul de la Paltini, foram compondo o painel de uma vasto sistema de educação filosófica à maneira da Academia platônica, muito acima do que o ensino acadêmico de hoje poderia conceber. Mas, além de continuar vivendo através de seus livros e das notas tomadas por seus discípulos, o ensinamento de Nóica ainda foi beneficiado por uma circunstância extraordinária, que permite prever uma irradiação ilimitada de sua influência no curso das próximas décadas. É que a Securitate, o equivalente romeno da KGB, instalou microfones ocultos no sobrado de madeira onde residia o filósofo, e, ano após ano, gravou praticamente todas as conversações dele com os discípulos. Caído o regime comunista, Liiceanu e Pleshu empenham-se agora em resgatar dos arquivos da Securitate o material que constitui certamente o mais volumoso registro de história oral da filosofia de que já se teve notícia. (Olavo de Carvalho)

sexta-feira, 4 de junho de 2010

O PATO SELVAGEM

Título original: Vildanden
Autor: Henrik Ibsen
Tradução: Vidal de Oliveira
Editora: Globo
Assunto: Drama
Edição: 1ª edição, 2ª impressão
Ano: 1960
Páginas: 630
Nota: Publicado sob o título “Seis Dramas”.

Sinopse: “O Pato Selvagem” é uma história da consciência moral que aborda tragicamente a fragilidade humana, cuja felicidade é destruída pelo fanatismo idealista da verdade absoluta. Narra o drama de Hjalmar Ekdal, um poeta frustrado que acabou como fotógrafo lamentável que vive sem o saber de onde vem o dinheiro que sustem a sua família e de seu amigo de infância, Gregers Werle, um moralista militante que assume o fanátismo pela verdade como finalidade de sua vida, destrói a mentira e arruina a vida rotineira do casal Ekdal e causa o suicídio da filha.

Interpretação da obra: A verdade liberta? Essa parece ser a questão que Ibsen coloca nesta peça que mostra um casamento feliz construído sobre uma mentira. Esta família ficaria melhor se soubesse da verdade? Ela continuaria a existir se a mentira fosse exposta?

Gregers descobre a verdade sobre a origem do casamento de um amigo de infância com a ex-governanta de sua casa. Este casamento já dura 14 anos e gerou uma filha, a encantadora Hedvig, dona do pato selvagem que produz a metáfora do título. Gregers quer resgatar o pato que fica preso no lodo do fundo do lago, uma referência à mentira. Ele é um militante moralista, narcisista e idealista da verdade que acredita ser seu dever mostrar a verdade ao amigo. Mas ele, em momento algum, mede as conseqüências de tal ato.

Existem muitas sutilezas aqui. Até que ponto Gregers quer realmente a verdade por um ideal e até que ponto deseja simplesmente se vingar do pai? Ele têm o direito de interferir na vida dos outros a este ponto?

Um leitor menos atento, pode achar que a peça é um argumento que a mentira pode ser mais saudável que a verdade, que pode trazer mais felicidade do que a verdade, contrariando a própria essência da filosofia, a busca pela sabedoria. Nada poderia ser mais falso. Ao colocar ao leitor que só existem dois caminhos, a verdade ou viver na mentira, o próprio Ibsen chama atenção que o caminho pela verdade poderia ser feito lá atrás, antes da consumação do casamento.

Mais do que isso, cabia ao próprio casal, pelo menos para Hjalmar, encontrar a verdade por si mesmo. A verdade pode ser muito mais profunda do que simplesmente saber sobre o passado da esposa ou mesmo da paternidade de Hedvig, a verdade na verdade está na natureza das pessoas. Gina pode ter errado em esconder a verdade sobre seu relacionamento com o pai de Gregers, mas o casamento em si pode ter sido edificado em uma verdade maior do que todas as contingências, o amor de um casal e o amor pela filha. Essa é a verdade que importa. Quando Gregers conta o que aconteceu a Hjalmar, ele lança uma sombra que esconde esta verdade, que Hjalmar ama sua esposa e sua filha. Gregers não revelou nenhuma verdade de fato, ele lançou uma mentira sobre os verdadeiros sentimentos de uma família que até então vivia em harmonia e feliz. Foi preciso uma tragédia para que a verdade fosse a tona novamente.

A mensagem mais importante é que ninguém, por melhor intenção que tenha, pode saber o que é melhor para o outro ou interferir em uma família da maneira que Gregers fez. O mundo está cheio de pessoas que acham seu dever resolver os problemas particulares dos outros quando na verdade deveriam estar ocupadas com suas próprias verdades. A verdade liberta sim, mas não do jeito que Gregers tentou fazer. A verdade não pode ser imposta a ninguém, deve ser encontrada por cada um.

Conclusão:

― A obrigação moral não é fiscalizar a vida dos outros. Ninguém tem esse direito ou obrigação, mas tão somente a de fiscalizar a sua própria vida.

― Só uma mente revolucionária pode pensar o contrário.