terça-feira, 1 de outubro de 2013

DO LIBERALISMO A APOSTASIA: A tragédia conciliar

Título original: Ils l’ont découronée, du libéralismme à l’apostasie – La tragédie conciliaire
Autor: Monsenhor Marcel Lefebvre (1905-1991)
Tradução: Ildefonso Albano Filho
Editora: Permanência
Assunto: Religião
Edição: 2ª
Ano: 2013
Páginas: 246

Sinopse: Dom Lefebvre explica o que é o Liberalismo e relata a tentativa de alguns católicos de adotarem as idéias liberais; analisa de modo profundo a derrapagem das autoridades da Igreja na realização de um Concílio Ecumênico de inspiração liberal e que semeou a revolução dentro da Igreja Católica.
Eis o que o próprio Monsenhor Lefebvre escreveu no prefácio deste livro:
“Com o fim de guardar e proteger a fé católica da peste do liberalismo, a publicação deste livro me parece muito oportuna, ecoando as palavras de Nosso Senhor: ‘Aquele que crê será salvo, aquele que não crê se condenará’; eis a fé que o Verbo de Deus encarnado exige de todos os que querem ser salvos. Ela foi a causa de sua morte, seguindo seu caminho, a de todos os mártires e testemunhas que a professaram. Com o liberalismo religioso, não há mais mártires nem missionários, mas apenas destruidores da religião reunidos em volta de uma falsa promessa de paz.” (Ecône, 13 de janeiro de 1987)

Sobre o autor: Dom Marcel Lefebvre nasceu em Tourcoing, na França, no dia 29 de Novembro de 1905, numa família que deu cinco dos seus oito filhos para a Religião. Foi aluno do Pe. Le Floch no Seminário Francês de Roma, onde recebeu o doutorado em Filosofia. Fez-se doutor também em Teologia, na Universidade Pontifícia Gregoriana, em Roma. Foi ordenado padre em 21 de Setembro de 1929, por Mons. Lienart, em Lille, França. Em 1930 entrou para a Congregação dos Padres do Episcopado do Espírito Santo, e foi enviado ao Gabão em 1932, onde permaneceu até 1945. Em 1946 voltou à França. O ano de 1947 foi o de sua sagração episcopal. Em 1948, aos 43 anos de idade, foi nomeado Delegado Apostólico para toda a África de língua francesa (18 países). Foi nomeado 1º Arcebispo de Dakar em 1955, e Assistente ao Trono Pontificial em 1961. Em 1962 deixou a África e foi nomeado Arcebispo-bispo de Tulle. Nesse ano foi eleito Superior Geral dos Padres do Espírito Santo. Em 1968 pediu demissão deste cargo devido ao progressismo conciliar. Foi, então, que alguns seminaristas vieram lhe pedir para que lhes desse uma formação verdadeiramente católica. Fundou, para isso, a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, com aprovação de Dom Charrière, bispo de Friburgo, Suiça. Começava a obra de defesa da Tradição pela formação de sacerdotes: Ecône e outros cinco seminários, centenas de priorados espalhados em dezenas de países, mais de 500 padres ordenados, mais de 200 seminaristas. De lá para cá Dom Lefebvre recebeu críticas, a suspensão “a divinis” em 1976, e a excomunhão em 1988, dos inimigos da Igreja. Mas o lúcido bispo não podia, em sã consciência, colaborar com os destruidores da Igreja Católica. E ele continuava a cumprir o seu dever de confirmar os fiéis na Fé, certo de que essas condenações eram injustas e sem valor. Junto com Dom Antônio de Castro Mayer levantou sua voz para alertar as almas e suplicar a Roma a volta à verdadeira Tradição. Dom Lefebvre deixou este mundo no dia 25 de Março de 1991, no dia da festa da Anunciação. Mais de vinte mil pessoas acompanharam seu enterro em Ecône, onde ele repousa em paz.

 O LIBERALISMO DE “CATÓLICOS” PROGRESSISTAS




Por Anatoli Oliynik
            Em 1894 Marc Sangnier funda sua revista Le Sillon que se converte em um movimento da juventude que sonha reconciliar a Igreja com os princípios da Revolução de 1789, o socialismo e democracia universal, baseando-se no progresso da consciência humana. A penetração de suas idéias nos seminários e a evolução cada dia mais indiferentista do movimento, levaram São Pio X a escrever a carta Notre charge apostolique, de 25 agosto de 1910 [16 anos após], que condena a utopia da reforma da sociedade, reforma esta acariciada pelos chefes do Sillon:
Seu sonho é trocar os fundamentos naturais e tradicionais e prometer uma cidade futura edificada sobre outros princípios que ousam declarar mais fecundos, mais benéficos do que aqueles sobre os quais se apóia a cidade católica atual (...) [grifo meu].
O Sillon tem a nobre preocupação da dignidade humana. Mas entende esta dignidade ao modo de certos filósofos que a Igreja está longe de elogiar. O primeiro elemento dessa dignidade é a liberdade, entendida no sentido em que, salvo em matéria religiosa, cada homem é autônomo. Deste princípio fundamental, tira as seguintes conclusões: Hoje o povo está sob a tutela de uma sociedade diferente dele, da qual deve se livrar: emancipação política (...) Chamam de democracia uma organização política e social fundada sobre este duplo fundamento: a liberdade e a igualdade, aos quais se juntará a fraternidade. [grifos meus]
            Após haver denunciado o falso slogan de liberdade-igualdade, São Pio X deixa patente as falsas fontes do liberalismo progressista do Sillon:
(...) o Sillon dá uma falsa idéia da dignidade humana. Segundo ele, o homem não será verdadeiramente homem, digno desse nome, senão no dia em que tenha adquirido uma consciência esclarecida, forte, independente, autônoma, sem necessidade de mestres, que obedeça a si mesma, capaz de assumir e levar avante as maiores responsabilidades.
            E o Santo Padre vai ao fundo da questão:
De agora em diante, o Sillon não passa de um miserável afluente do grande movimento de apostasia organizado em todos os países, para estabelecimento de uma igreja universal que não terá dogmas, nem hierarquia, nem regras para o espírito, nem freio para as paixões (...). Conhecemos bem as escuras oficinas em que são elaboradas essas doutrinas deletérias (...). Os chefes do Sillon não conseguiram se defender delas; a exaltação de seus sentimentos (...) os levou para um novo evangelho (...) sendo seu ideal semelhante ao da Revolução, não temem proferir blasfemas aproximações entre o Evangelho e a Revolução (...).
            O Santo Pontífice conclui, restabelecendo a verdade sobre a verdadeira ordem social:
(...) A Igreja, que jamais traiu o bem dos povos com elogios comprometedores, não deve esquecer o passado (...) basta retomar com o concurso dos verdadeiros trabalhadores a restauração social dos organismos atingidos pela Revolução[1] e adaptá-los, com o mesmo espírito cristão que os inspirou, ao novo cenário criado pela evolução material da sociedade contemporânea[2], pois os verdadeiros amigos do povo não são os revolucionários nem os inovadores, mas os tradicionalistas.
            Eis os termos enérgicos e precisos com que o Papa São Pio X condena o liberalismo progressista e define a atitude realmente católica.
            Os inimigos da Igreja Católica têm tentado parasitá-la para destruí-la desde a sua gênese. Ela tem sobrevivido a tudo isso há dois mil anos graças a ação dos Santos Padres conservadores iluminados pelo Espírito Santo. Hoje, gravemente parasitada pelos liberais progressistas que se dizem “católicos”, mas que não passam de apóstatas e traidores, a Igreja Católica precisa, mais uma vez, da intervenção do Espírito Santo para que a Barca de Pedro possa continuar navegando neste oceano bravio e tempestuoso.
[Elaborado por Anatoli Oliynik a partir de excertos extraídos, do livro de Mons. Marcel Lefebvre, tradução de Ildefonso Albano Filho, “Do Liberalismo a Apostasia: a tragédia conciliar”. Editora Permanência].


[1] São Pio X designa aqui as corporações de ofício, agentes da concórdia social, totalmente opostos ao sindicalismo, que é o agente da luta de classes.
[2] A evolução compreende um progresso material e técnico, mas o homem e a sociedade permanecem submetidos às mesmas leis. Vaticano II, em Gaudium et Spes desprezará esta diferença, inclinando-se novamente para o programa do Sillon.


LIBERDADE RELIGIOSA, O COMUNISMO E O SENTIDO DA HISTÓRIA



 
Por Anatoli Oliynik

       A “Declaração Dignitatis Humanae sobre a liberdade religiosa”, do Papa Paulo VI de 7/12/1965, já no seu preâmbulo mostra o quanto o papa estava contaminado pela idéia de separação da Igreja do Estado e também pelo ecumenismo, traindo assim os princípios que foram defendidos por quase dois mil anos de história da Igreja de Cristo:

Os homens de hoje tornam-se cada vez mais conscientes da dignidade da pessoa humana e, cada vez em maior número, reivindicam a capacidade de agir segundo a própria convicção e com liberdade responsável, não forçados por coação, mas levados pela consciência do dever. Requerem também que o poder público seja delimitado juridicamente, a fim de que a honesta liberdade das pessoas e das associações não seja restringida mais do que é devido. Esta exigência de liberdade na sociedade humana diz respeito principalmente ao que é próprio do espírito, e, antes de mais, ao que se refere ao livre exercício da religião na sociedade. Considerando atentamente estas aspirações, e propondo-se declarar quanto são conformes à verdade e à justiça, este Concílio Vaticano investiga a sagrada tradição e doutrina da Igreja, das quais tira novos ensinamentos, sempre concordantes com os antigos.

            Monsenhor Marcel Lefebvre foi um dos poucos homens da igreja que levantou sua voz para alertar as almas e suplicar a Roma a volta à verdadeira Tradição. Sua voz insurgente de nada valeu e aquilo que previra resultou na tragédia conciliar do Vaticano II que transformou a maioria das paróquias espalhadas pelo mundo em locais onde se profana o legado de Nosso Senhor Jesus Cristo e se diviniza o homem pecador ao som de pandeiros, violões, atabaques, reco-recos, sem contar as músicas profanas adaptadas, verdadeiro arremedo da música sacra como se a Igreja não possuísse seu repertório próprio. (ver a vídeo aula de Alberto Zucchi sobre a Contra-Reforma litúrgica de Bento XVI em http://www.youtube.com/watch?v=53QzRjyk3mU#t=1857 )

            Lefebvre diz que para os católicos liberais ou progressistas, assim chamados por defenderem a liberdade religiosa, a história tem um sentido, ou seja, uma direção. Na terra, essa direção é imanente: a liberdade. A humanidade é empurrada por um sopro imanente, rumo a uma consciência crescente da dignidade da pessoa humana, rumo a liberdade cada vez mais livre de toda coação. Essa teoria ecoou no Concílio Vaticano II e se fez valer para o gáudio dos destruidores da igreja.

            Os católicos liberais dizem que é preciso atualizar a Igreja ao seu tempo libertando os fieis da coação espiritual. Lefebvre pergunta: já se viu em alguma época da história um empreendimento tão radical e colossal de escravidão como a técnica comunista de escravizar massas? Se Nosso Senhor nos convida a “ver os sinais dos tempos” (Mt. 16, 4), então foi necessária um cegueira voluntária dos liberais e um conluio absoluto de silêncio para que um concílio ecumênico reunido precisamente com o intuito de ver os sinais de nosso tempo se calasse acerca do mais evidente sinal dos tempos: o comunismo. Tal silêncio basta por si só para cobrir de vergonha e reprovação este Concílio diante da história, e para mostrar quão ridícula é a alegação do preâmbulo de Dignitatis Humanae, assevera Mons. Lefebvre.

            Por conseguinte, se a história tem um sentido, conforme alegam e defendem os católicos liberais, certamente não é a tendência imanente e necessária da humanidade rumo à liberdade e à dignidade; isso não passa de uma invenção para justificar seu liberalismo e cobrir com a máscara enganosa de progresso o vento gelado que fazem soprar sobre a cristandade há dois séculos, afirma Lefebvre.

            Lefebvre esclarece que, de fato, o centro de toda a história é uma pessoa: Nosso Senhor Jesus Cristo, pois como diz São Paulo: “Porque nele foram criadas todas as coisas nos céus e na terra, as visíveis e as invisíveis, quer sejam os tronos, que as denominações, quer os principados, quer as potestades; tudo foi criado por Ele e para Ele, e Ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por Ele. E Ele é a cabeça do corpo da Igreja, e é o princípio (...) de maneira que Ele tem a primazia em todas as coisas. Porque foi do agrado (do Pai) que reside Nele toda a plenitude, e que por Ele fossem reconciliados consigo todas as coisas, pacificando, pelo sangue da sua cruz, tanto as coisas da terra, como as coisas do céu” (Cl 1, 16-21).
            Continua ainda: Jesus Cristo é, portanto, o pólo da história. A história tem somente uma lei: “é necessário que Ele reine” (1 Cor 15, 25). Se Ele reina, reinam também o verdadeiro progresso e a prosperidade, que são bens muito mais espirituais que materiais. Se Ele não reina, vem a decadência, a caducidade, a escravidão sob todas as formas, o reino do mal.

            Isso posto, conclui Lefebvre: A história não tem nenhum sentido, nenhuma direção imanente. Não existe o sentido da história. O que há, é um fim da história, um fim transcendente: a “recapitulação de todas as coisas em Cristo”; é a submissão de toda ordem temporal à Sua obra redentora; é o domínio da Igreja militante sobre a cidade temporal que se prepara para o reino eterno da Igreja triunfante no céu. A Fé afirma e os fatos demonstram que a história tem um primeiro pólo: a Encarnação, a Cruz, Pentecostes; ela teve seu completo desenvolvimento na cidade católica, quer seja no império de Carlos Magno ou na república de Garcia Moreno; e terminará, chegará a seu pólo final quando o número dos eleitos se completar, depois do tempo da grande apostasia (II Rs 2, 3); não estamos vivendo esse tempo?

            Esta emancipação que descrevem como sendo um progresso, não passa de um divórcio ruinoso e blasfemo entre a cidade e Jesus Cristo. Foi preciso a falta de vergonha de Dignitatis Hamanae para canonizar tal divorcio, e esta suprema impostura foi anunciada em nome da verdade revelada!

            A Barca de Pedro tomou nova direção. Não bastasse a vergonhosa declaração de Paulo VI, por ocasião da conclusão da nova concordata entre a Igreja e a Itália, João Paulo II declarava: “nossa sociedade se caracteriza pelo pluralismo religioso”, e dizia a consequência: “esta evolução demanda a separação entre a Igreja e o Estado”. Em nenhum momento João Paulo II pronunciou um juízo sobre essa troca, não deplorou a laicização da sociedade, nem disse que a Igreja recusava a situação. Não, sua declaração, assim como a do Cardeal Casaroli, louvava a separação de Igreja e do Estado, como se fosse o regime ideal, o resultado de um processo histórico normal e provincial, contra o qual nada se pode dizer! Dito de outra forma: “Viva a apostasia das nações, eis aí o progresso!” Ou então: “Não devemos ser pessimistas! Abaixo os profetas de calamidades! Jesus Cristo já não reina? Qual o problema? Está tudo bem! De qualquer modo a Igreja marcha rumo ao cumprimento de sua história. E no fim Cristo virá, aleluia!”.

            Pergunta Monsenhor Marcel: Esse otimismo simplista enquanto já se acumulam as ruínas, esse fatalismo imbecil, não são os frutos do espírito do erro e do descaminho? E finaliza: Tudo isso me parece absolutamente diabólico.

domingo, 1 de setembro de 2013

CONTRA AS HERESIAS

Título original: Elencos kai anatropè pseudunúmou gnóseos
Autor: Ireneu de Lião (130-202)
Tradução: Lourenço Costa
Editora: Paulus
Assunto: Patrística
Edição: 3ª
Ano: 2009
Páginas: 624

Sinopse: No prefácio do I livro, Ireneu define o objetivo de toda a sua longa obra. Constatando que há pessoas que rejeitam a verdade e introduzem a falsidade e, por meio de manobras capciosas, enganam os simples, pervertem o sentido das Escrituras e blasfemam contra o Criador, gloriando-se de um pretenso conhecimento, Ireneu se propõe, num primeiro momento, tirar a máscara sob a qual a gnose se dissimula, e mostrá-la em plena luz do dia tal como é realmente.

Consciente da sedução que a gnose exerce, devido ao mistério do qual se cerca, e da ameaça que ela constitui para a fé dos simples, propõe-se, num segundo momento, refutar, com argumentos da razão, a gnose dos valentinianos e dos marcionistas, expondo a doutrina da Igreja sobre Deus e sobre Cristo. O leitor encontrará no V livro, o último, uma longa dissertação sobre a ressurreição da carne, que os gnósticos negavam.

Comentários: Surgiu, pelos anos 40 do sec. XX, na Europa, especialmente na França, um movimento de interesse voltado para os antigos escritores cristãos e suas obras conhecidos tradicionalmente, como “Padres da Igreja”, ou “Santos Padres”. Esse movimento foi liderado por Henri de Lubac e Jean Daniélou.

No Brasil, em termos de publicação das obras destes autores antigos, pouco se fez. Nunca é tarde ou fora de época para rever as fontes da fé cristã, os fundamentos da doutrina da Igreja, especialmente no sentido buscar nelas a inspiração atuante, transformadora do presente. Assim, temos a oportunidade de conhecer as “fontes” do cristianismo, examiná-las, avaliá-las e colher delas o espírito que as produziu.

Os “Pais da Igreja(se refere ao escritor leigo, sacerdote ou bispo, da antiguidade cristã, considerado pela tradição posterior como testemunho particularmente autorizado pela fé) são, portanto, aqueles que, ao longo dos sete primeiros séculos, foram forjando, construindo e defendendo a fé, a liturgia, a disciplina, os costumes e os dogmas cristãos, decidindo, assim, os rumos da Igreja. Seus textos se tornaram fontes de discussões, de inspirações, de referências obrigatórias ao longo de toda tradição posterior. O valor dessas obras pode ser avaliado neste texto:

“Além de sua importância no ambiente eclesiástico, os Padres da Igreja ocupam lugar proeminente na literatura e, particularmente, na literatura greco-romana. São eles os últimos representantes da Antigüidade, cuja arte literária, não raras vezes, brilha nitidamente em suas obras, tendo influenciado todas as literaturas posteriores. Formados pelos melhores mestres da Antigüidade clássica, põem suas palavras e seus escritos a serviço do pensamento cristão. (Da apresentação da Editora)

Da introdução da obra transcrevemos este texto:

“Existem cinco razões, que a nosso modo de ver, evidenciam não ser supérflua a estafante atividade de transcrever este livro. Primeira, porque é raríssimo, pois caído o silêncio sobre as heresias, destruídas em nossos dias com insólita violência, quase ninguém mais se anima a manuseá-lo. Segunda, que o autor é antigo, próximo aos tempos apostólicos (177 d.C.) e por isso digno de fé. Terceira, que tudo o que escreveu a propósito dos heréticos não recolheu só por ouvir dizer ou por fama, mas ouviu ensinar em grande parte peã viva voz de tais mestres e com os próprios olhos viu praticar, pois lhes era coevo, ou seja, contemporâneo e natural daqueles lugares. Quarta, acerca das heresias daquele tempo, nenhum outro discutiu com maior profundidade e clareza. Quinta, é necessário sobretudo restabelecer a ciência das armas da Igreja militante – descuidadas em tempos de paz – porque diminuindo os defensores a tirania vai se enfurecendo tanto mais agudamente quanto é livre em fazê-lo impunemente.”

(Do prólogo às obras de santo Ireneu, composto por Floro de Lião pelo ano 860.)

Sobre o autor: Santo Ireneu de Lião, em grego Ερηναος [pacífico], em latim Irenaeus, (ca. 130 — 202). Discípulo de São Plicarpo de Esmirna, por volta de 177, sucedeu a Fotino como bispo de Lião. A tradição o tem como o mais exímio teólogo do século II. A Igreja Católica considera-o santo, comemorando a 28 de Junho.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A PRESENÇA TOTAL e Ensaios Reunidos

Título original: La Présence Totale
Autor: Louis Lavelle (1883-1951)
Tradutor: Carlos Nougué
Assunto: Ensaios filosóficos
Editora: É Realizações
Edição: 1ª
Ano: 2012
Páginas: 322


Sinopse: Neste livro [escrito de 1934] se encontram os temas relevantes da obra de Louis Lavelle, como o ser, o ato, o valor, o tempo, a existência, a liberdade, a intersubjetividade, a participação. Equivale a uma pequena summa de seu pensamento e abriu as portas a uma mais fácil penetração em suas grutas profundas. E tudo servido por um lapidar que o inseriu entre os grandes pensadores do século passado. Lavelle foi um filósofo que respirou o clima de duas hecatombes mundiais e sorveu a experiência da dor, da ansiedade, do mal. Soube, porém, vislumbrar, acima das imperfeições humanas, um caminho de elevada espiritualidade. (Tarcísio Padilha)

Comentários: Louis Lavelle começa a introdução deste livro dizendo o seguinte:

“O pequeno livro que se vai ler expressa um ato de confiança no pensamento e na vida. No entanto, nas épocas conturbadas, a maior parte dos homens não se deixa sacudir senão por uma filosofia que justifique seu gemido diante do presente, suas ansiedades diante do futuro, sua revolta diante do destino que eles são obrigados a padecer, sem ser capazes de dominá-lo”.

E continua ele:

“A consciência busca um amargo desfrute nesses estados violentos e dolorosos em que o amor-próprio está em carne viva e, pela sacudidela mesma que eles imprimem ao corpo e à imaginação, nos dão enfim a ilusão de ter penetrado até a raiz do real. É apenas em aparência que se aspira a livrar-se deles; temer-se-ia antes que eles não fossem jamais bastante agudos, como um veneno cujo movimento se detivesse subitamente”.

“Então a consciência se lança na solidão, a fim de melhor se sentir entregue à infelicidade do abandono; ela se obriga a si mesma a descer a este abismo de miséria onde o nada a rodeia, onde nenhuma voz lhe responde, onde as forças da natureza parecem aliar contra ela sua indiferença e sua brutalidade.”

Por esta brevíssima introdução já se pode imaginar o que Lavelle reserva ao leitor nesta obra, escrita para aqueles que tiveram ou tem dificuldade de compreender a sua magnum opus: “A Dialética do Eterno Presente” (Anatoli Oliynik).

 

Sobre o autor Louis Lavelle: (St. Martin de Villereal, 15 de julho de 1883 - Parranquet, 1 de setembro de 1951) foi um filósofo metafísico francês.

Lavelle viveu fases marcadas por duras provas, o que se ratifica pela sua participação na Primeira Guerra Mundial. Mesmo sendo míope, podendo furtar-se a participar da guerra, ele fez questão de combater na frente de batalha, sendo feito prisioneiro logo após a batalha de Verdun.

Foi enviado para o campo de prisioneiros em Giessen, onde elaborou sua tese de doutorado, que defendeu na Sorbonne, em 1922.

Na prisão, granjeou a simpatia de seus companheiros de infortúnio para os quais proferia conferência sobre temas de elevado alcance espiritual, como o ciclo de palestras sobre “Pascal et la Pensée Religieuse”.

Terminada a guerra e devendo ser repatriado, Lavelle temeu pelo destino de sua tese e decidiu confiar a um soldado alemão a missão de entregar seus escritos à sua família.

Em 1943, recebeu uma carta de um prisioneiro em que assevera: “após haver lido A Presença Total, compreendi que vossos livros não poderiam ter sido escritos senão por alguém que conheceu o exílio”.

Sua magnum opus é La Dialectique de l'éternel présent, uma obra metafísica em quatro volumes: De l'Être (1928), De l'Acte (1937), Du Temps et de l'Eternité (1945) e De l'Âme Humaine (1951).

Entre outros, a obra de Lavelle inclui: La dialectique du monde sensible: Lu perception visuelle de la profondeur (1921), La conscience de soi (1933), La présence totale (1934), L'Erreur de Narcisse (1939), Le Mal et la Souffrance (1940), La Parole et l'Écriture (1947) e Les puissances du Moi (1948).

Link do vídeo de lançamento do livro:

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O SENHOR DOS ANÉIS. V.1 – A Sociedade do Anel

Título original: The Lord of the Rings – Part. I: The Fellowship of the Ring
Autor: J. R. R.Tolkien (1892-1973)
Tradutor: Lenita Maria Rímoli Esteves
Assunto: Romance
Editora: Martins Fontes
Edição: 2ª
Ano: 2000
Páginas: 434


Sinopse: Numa cidadezinha indolente do Condado, um jovem hobbit é encarregado de uma imensa tarefa. Deve empreender uma perigosa viagem através da Terra do Meio até as Fendas da Perdição, e lá destruir o Anel do Poder - a única coisa que impede o domínio maléfico do Senhor do Escuro.

O Senhor dos Anéis é um romance de fantasia criado pelo escritor, professor e filólogo britânico J.R.R. Tolkien. A história começa como seqüência de um livro anterior de Tolkien, O Hobbit (The Hobbit), e logo se desenvolve numa história muito maior. Foi escrito entre 1937 e 1949, com muitas partes criadas durante a Segunda Guerra Mundial. Embora Tolkien tenha planejado realizá-lo em volume único, foi originalmente publicado em três volumes entre 1954 e 1955, e foi assim, em três volumes, que se tornou popular. Desde então foi reimpresso várias vezes e foi traduzido para mais de 40 línguas, tornando-se um dos trabalhos mais populares da literatura do século XX.

Análises e comentários: O professor José Monir Nasser diz que esta obra sofre de um grande problema. Há um grande livro chamado Moby Dick, escrito por Hermann Melville, possivelmente o maior livro já escrito nos Estados Unidos. No entanto, ninguém o lê, porque o autor teve a infelicidade de colocar esse nome na obra. Os adultos não o lêem por pensarem que é literatura juvenil e os jovens lêem e não entendem patavina. O livro fica numa espécie de limbo e O Senhor dos Anéis sofre do mesmo problema. Ouvi comentários concretos de que o livro é muito infantil. O livro, de fato, foi escrito para o público juvenil, mas é um dos maiores livros escritos no século XX. Há poucos livros tão importantes como este. Há dificuldade de se conseguir atenção para ele, já que foi carimbado e todos ficaram prisioneiros daquela aparência. Vocês verão que é um livro extraordinário.

A história de O Senhor dos Anéis ocorre em um tempo e espaço imaginários, a Terceira Era da Terra do Meio, que é um mundo inspirado na Terra real, mais especificamente, segundo Tolkien, numa Europa mitológica, habitado por Humanos e por outras raças humanóides: Elfos, Anões e Orcs. Tolkien deu o nome a esse lugar a palavra do inglês moderno, Middle-earth (Terra-do-Meio), derivado do inglês antigo, Middangeard, o reino onde humanos vivem na mitologia Nórdica e Germânica. O próprio Tolkien disse que pretendia ambientá-la na nossa Terra, aproximadamente 6000 anos atrás, embora a correspondência com a geografia e a história do mundo real fosse frágil.

A história narra o conflito contra o mal que se alastra pela Terra do Meio, através da luta de várias raças - Humanos, Anões, Elfos, Ents e Hobbits - contra Orcs, para evitar que o "Anel do Poder" volte às mãos de seu criador Sauron, o Senhor do Escuro. Partindo dos primórdios tranqüilos do Condado, a história muda através da Terra-média e segue o curso da Guerra do Anel através dos olhos de seus personagens, especialmente do protagonista, Frodo Bolseiro. A história principal é seguida por seis apêndices que fornecem uma riqueza do material de fundo histórico e lingüístico.

O Padre Paulo Ricardo de Azevedo Junior diz que O Senhor dos Anéis trata da história de um anel que foi criado pela maldade, foi criado pelo mal e este anel é o anel do poder. Ele é um anel que nos dá, digamos, todo o poder que nós gostaríamos de ter: um poder de ser como deuses. Aqui, nós temos na verdade, uma grande parábola a respeito do “pecado original”: o anel que todos perseguem, que todos desejam, que todos querem, é um símbolo daquele fruto primeiro no paraíso. E este anel, ao redor dele, acontecerá as grandes batalhas do “Senhor dos Anéis”, até que finalmente, não por nenhum herói, porque “O Senhor dos Anéis” não tem nenhum personagem que seja o herói, mas por uma Providência invisível que perpassa todo o livro, o mal, finalmente, é destruído.


O SENHOR DOS ANÉIS
(Padre Paulo Ricardo explicando o filme e o livro)


Faces da personalidade



A Amizade


História do Anel



ANÁLISE LONGA DO LIVRO

sábado, 1 de junho de 2013

TERRA DOS HOMENS

Título original: Terre des Hommes
Autor: Antoine de Saint-Exuperry
Tradução: Rubem Braga
Editora: José Olympio
Assunto: Romance
Edição: 13ª
Ano: 1968
Páginas: 155



Sinopse: Publicado em 1939 o livro é mais que um romance de memórias, é um profundo mergulho na alma humana. Saint-Exupéry, nascido em 1900, em Lyon, França, conta como descobriu sua vocação aos 12 anos, ao voar pela primeira vez em um balão. Piloto civil aos 21 anos, aos 26 passa a integrar a equipe de pioneiros que, em pequenos aparelhos a hélice, sem conforto ou pressurização, sobrevoa o Saara e a cadeia andina para levar à África e à América do Sul o correio aéreo da Europa.

Resumo da narrativa e comentários: A nostalgia pelo avião marcou a vida e a obra de Saint-Exupéry. A aviação para o autor é deliberadamente romântica, uma fuga contra a perspectiva limitada do mundo: é liberdade, imensidão, silêncio.

“O império do homem é interior”

Em Terra dos Homens lemos sobre aviões e desertos. Percebe-se a atração que exerce o deserto com o relato vibrante de homens que se dispõem a sobrevoá-lo sob o céu estrelado das noites frias, movidos apenas por um desejo de liberdade e de vida, contrário à insegurança das máquinas primitivas do período entre guerras, que mais se assemelham a latas voadoras, esperando o mínimo desleixo para caírem como pedras.

“Entretanto, amamos o deserto. Se no começo ele é apenas solidão e silêncio é que não se entrega aos amantes de um dia.”

O momento da pane e do pouso forçado nas areias do Saara transforma o medo, até então potencial, em realidade. O deserto passa a ser tangível, não apenas belo, mas mortal, e o homem, um animal que busca evitar a extinção.

“Quando tomamos consciência de nosso papel, mesmo o mais obscuro, só então somos felizes. Só então podemos viver em paz e morrer em paz, pois o que dá um sentido à vida dá um sentido à morte.”

O miolo do livro é a seqüência da queda do avião, a sobrevivência, a consciência do homem no deserto. É o corpo que perambula pelas dunas quentes e a consciência que grita, não mais por ajuda, porque não tem forças, porque é inútil, mas pelo sentido e beleza perdidos pela necessidade fisiológica de água. Os devaneios do esgotamento, a saliva sólida, a mente se dispersa em pensamentos sem importância, como levada pelo vento, sobre a água, a sua função, o porquê de ela existir.

Então o desespero cria idéias extremas, pensa-se no óleo do avião. Talvez com os olhos fechados, com força de vontade, com imaginação. É líquido, como a água, não deve ser diferente. O gosto horrível, de fuselagem, o estômago apertado, agredido, a vontade de morrer. Poucos segundos para ter vontade de morrer, é preciso encontrar vida, levantar-se, continuar andando pela paisagem uniforme, conseguir ajuda, encontrar água, o corpo ainda quer tentar. Existe vida em algum lugar e é preciso encontrá-la. Vida líquida. Não é nada demais, é só água, que por tanto tempo sempre esteve disponível, não deve ser difícil.

“A sede é cada vez mais uma doença e cada vez menos um desejo”

Análise da obra: Em Terra dos Homens, o autor se revela filósofo de verve extensa, mergulhando o leitor na análise do Homem que precisa ser desvendado: "Não compreendo mais essas populações dos trens de subúrbio, esses homens que pensam que são homens e que entretanto estão reduzidos por uma pressão que eles mesmos não sentem, como formigas, ao uso que deles se faz. Como eles enchem, quando estão livres, seus absurdos pequenos domingos? " (Página 127)

Ou, quando relata-nos a universalidade dos homens: "É preciso, para tentar distinguir o essencial, esquecer por um momento as divisões que, uma vez admitidas, arrastam todo um Alcorão de verdades intocáveis, e o fanatismo conseqüente. Podem-se classificar os homens em homens de direita e homens de esquerda, em corcundas e não corcundas, em fascistas e democratas, e essas distinções são inatacáveis. Mas a verdade é o que simplifica o mundo, e não o que gera o caos. A verdade é o que exprime o universal". (Página 146)

Terra dos Homens, obra essencial do príncipe do deserto, é mais que necessária, é ainda atual e se insere bem nos dias conturbados que vivemos. Antoine de Saint-Exupéry é um poeta que desvenda o Homem e suas vicissitudes, um escritor que relata com apuro poético o invólucro da alma humana.

E ele encera o livro de modo magnífico: “Sento-me diante de um casal. Entre o homem e a mulher a criança, bem ou mal, havia se alojado, e dormia. Volta-se, porém, no sono, e seu rosto me aparece sob a luz da lâmpada. Ah, que lindo rosto! Havia nascido daquele casal uma espécie de fruto dourado. Daqueles pesados animais havia nascido um prodígio de graça e encanto. Inclinei-me sobre a fronte lisa, a pequena boca ingênua. E disse comigo mesmo: eis a face de um músico, eis Mozart criança, eis uma bela promessa da vida. Não são diferentes dele os belos príncipes das lendas. Protegido, educado, cultivado, que não seria ele? Quando, por mutação, nasce nos jardins uma rosa nova, os jardineiros se alvoroçam. A rosa é isolada, é cultivada, é favorecida. Mas não há jardineiros para homens. Mozart criança irá para estranha máquina de entortar homens. Mozart fará suas alegrias mais altas da música podre na sujeira dos cafés-concertos. Mozart está condenado.

            Voltei para o meu carro. E pensava: essa gente quase não sofre o seu destino. E o que me atormenta aqui não é a caridade. Não se trata da gente se comover sobre uma ferida eternamente aberta. Os que a levam não a sentem. É alguma coisa como a espécie humana, e não o indivíduo, que está ferida, que está lesada. Não creio na piedade. O que me atormenta é o ponto de vista do jardineiro. O que me atormenta não é essa miséria na qual, afinal de contas, a gente se acomoda, como no ócio. Gerações orientais vivem na sujeira e gostam de viver assim.

            O que me atormenta, as sopas populares não remedeiam. O que me atormenta não são essas faces escavadas nem essas feiúras. É Mozart assassinado, um pouco, em cada um desses homens.

            Só o Espírito, soprando sobre a argila, pode criar o Homem.” (págs. 154-155)

 
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quarta-feira, 1 de maio de 2013

DA ALVORADA À DECADÊNCIA

Título original: From Dawn to Decadence
Autor: Jacques Barzun (1907-2012)
Tradução: Álvaro Cabral
Editora: Campus
Assunto: História
Edição: 1ª
Ano: 2002
Páginas: 926

 
Sinopse: Nesta obra, Jacques Barzun apresenta as suas descobertas e conclusões a respeito de toda a cultura ocidental, desde 1500 até os dias atuais.

Barzun descreve o que o homem ocidental, neste período, criou, não um apogeu, mas um declínio e um irremediável fracasso cultural.

William Safire, do New York Times, se refere sobre a obra com estas palavras: “Um monumental estudo do retrocesso cultural de cinco séculos de civilização.

Este livro é para pessoas que gostam de ler sobre arte e pensamento, costumes, princípios morais e religião, e sobre o contexto social em que essas atividades ocorreram e continuam ocorrendo. O autor partiu pressuposto de que os leitores preferem um discurso crítico e seletivo em lugar de neutro e enciclopédico e escreveu um livro onde recapitula em seqüência as grandes realizações e os lamentáveis fracassos do último meio milênio. O plano da obra é apresentar um cuidado especial quanto ao ordenamento das partes. As divisões de capítulos são organizadas a partir de quatro grandes revoluções – a religiosa, a monárquica, a liberal e a social, separadas grosso modo um século umas das outras – cujos objetivos e paixões ainda governam as mentes e condutas do momento atual.

Sobre o livro: Um dos melhores ensaios publicados em Portugal em 2003, esta obra que a crítica classificou de extraordinária esteve também nas listas de best-sellers das livrarias dos EUA e do Canadá.

Jacques Barzun, nascido em França, cedo foi para os EUA, onde é considerado um dos maiores historiadores da cultura da segunda metade do século XX, com mais de três dezenas de livros publicados. Neste, olha do "alto dos seus 93 anos" (embora o livro tenha começado a germinar por volta de 1935) para os quinhentos anos que estão para trás e aponta os aspectos de decadência, "porque tantas das nossas instituições e objetivos estão a desviar-se do seu propósito original." Cinco séculos de história, revisitados com rigor e vivacidade.

Críticas de imprensa portuguesa: "Da aurora à decadência, esta notável história da cultura e da civilização ocidentais, da reforma ao final do século XX, é uma obra monumental, porque analisa do modo mais rigoroso, mas também mais vivo e colorido, cinco séculos de arte, literatura, ciências, filosofia, costumes, religião e intriga política. Inclui 45 minibiografias de figuras como Erasmo, Lutero, Calvino, Petrarca, Montaigne, Shakespeare, Tasso, Pascal, Leonardo da Vinci, Rabelais, Cromwell, Margarida de Navarra, Mozart... - muitas das quais não costumam beneficiar de semelhante interesse em abordagens historiográficas tradicionais. "Um livro polémico, que, apesar do tema e da dimensão, consegui ser um 'best-seller' nos Estados Unidos e no Canadá graças ao seu carácter vivaz e estimulante."

Sobre o autor: Jacques Barzun nasceu na França, em 1907, e mudou-se para os Estados Unidos, em 1920. Após graduar-se no Columbia College, ingressou no corpo docente da universidade como catedrátrico de História. Ao longo de dez anos, foi conselheiro e vice-reitor das Faculdades. Autor de cerca de 30 livros, foi agraciado com a Medalha de Ouro da Academia Americana de Artes e Letras, da qual foi presidente por duas vezes. Faleceu no dia 25 de outubro de 2012 em San Antonio, EUA com 104 anos de idade.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

NO CAMINHO DE SWANN

Título original: Du cotê de chez Swann
Autor: Marcel Proust (1871-1922)
Tradutor: Mário Quintana
Assunto: Romance
Editora: Globo
Edição: 3ª
Ano: 2006
Páginas: 558


Sinopse: Os sete volumes da obra 'Em busca do tempo perdido' constituem um emaranhado complexo de personagens, cenas, detalhes que reaparecerão muito depois e somente aí adquirem seu real significado, articulados pela memória que, ativada por circunstâncias fortuitas, medita livre por diferentes campos, sendo as artes um dos mais freqüentados. Este primeiro volume também procura exemplificar isso, pois Swann, um das principais personagens, é um refinado aristocrata conhecedor de literatura, colecionador de objetos de arte e freqüente nos salões parisienses. O narrador o conheceu quando criança em Combray, cidadezinha imaginária onde ele passava as férias de Páscoa. No segundo, o narrador, já adolescente, desistindo do amor de Gilberte, filha de Swann, parte com a avó em viagem de férias para a fictícia praia de Balbec, com imaginárias ruínas antigas, em seu périplo de conhecimento da arte e de si. Assim, cada volume e todos se transformam em complexo programa de formação estética e humanística. Neste volume, Proust se dedica principalmente à narração de sua infância e adolescência.

Excertos do prefácio: “Abrimos as primeiras páginas do primeiro volume e somos convidados a entrar pelo Caminho de Swann.

Neste primeiro volume, vamos conhecer a cidadezinha fictícia chamada ‘Combray’, lugar em que o herói do livro vem passar as férias de Páscoa com os pais, quando criança. Ali, eles recebiam a visita de Swann, homem muito fino, colecionador de obras de arte, leitor cultivado, freqüentador dos principais salões de Paris.

A Combray de Proust é a pequenina cidade de passado medieval que ainda mantém contato com os campos e sítios ao seu redor. Para chegar até eles, há dois caminhos possíveis: saindo pela porta da frente da casa, toma-se o de Méséglise, caminho mais curto, que passa pela propriedade de Swann; saindo pelo portão dos fundos, alcança-se o longo caminho de Guermantes, trilha fluvial que vai dar no castelo dessa família, Entrar pelo caminho de Swann é simplesmente tomar uma dessas opções de percurso que se oferecem ao caminhante. O caminho de Swann é, nesse primeiro sentido, apenas uma referência espacial com a qual se designa o itinerário a ser feito.

Já ou outro significado desse título envolve a própria história da criança que vem com os pais em visita à cidade de Combray e que, muito mais tarde, vai se tornar o narrador do livro que estamos lendo. Para ele, percorrer o caminho de Swann é percorrer o mesmo trajeto da personagem Swann, experimentar as mesmas dores no amor, o ciúme, o contato com a arte e compreender como Swann pôde lidar com tudo isso. Em busca do tempo perdido começa, assim, como no início de uma caminhada, de uma longa caminhada de leitura do sentido da vida.” (p. 8)

Resenha: O prof. José Monir Nasser nesta resenha diz que Samuel Beckett (1906-1989) escreveu no ensaio Proust [1] dizia que para compreender a obra do escritor francês é preciso começar pelo tempo, “este monstro de duas cabeças, salvação e danação”. Mais ainda, Beckett afirma que “as criaturas de Proust são, portanto, vítimas desta circunstância e condição permanente: o tempo”. De fato, a obra magna de Marcel Proust (1871-1922), escrita em sete volumes, entre 1909 e o último dia da sua vida, chama-se Em Busca do Tempo Perdido (À la recherche du temps perdu).

O tempo submete tudo, porque a vida humana é composta de fragmentos, de experiências estanques a que a nossa mente dá a aparência de continuidade, criando um passado presente (aquilo que já passou) e um futuro presente (aquilo que esperamos que aconteça), que se fundem com o presente presente. A impressão é de uma linha contínua, conjugando aquilo que aconteceu, aquilo que está acontecendo e o que pode acontecer.

Mas como a experiência humana é fragmentada e só adquire unidade pela intervenção da mente, as partes tendem a se perder, a se tornar indisponíveis. Não temos acesso a tudo o que aconteceu na nossa vida. Tudo foge (tempus fugit) e se dilui pela própria passagem. Este é o tempo perdido que Proust procura sistematicamente no fundo da consciência latente, para ele, a única coisa real. Ou seja, está tudo lá, mas como não conseguimos manter nossa atenção focada em tudo ao mesmo tempo, percebemos apenas recortes da totalidade da nossa experiência. Como resultado, não conhecemos nosso “eu” profundo, embora saibamos o que queremos que os outros pensem sobre nós, em outras palavras, conhecemos apenas nosso “eu” social.

Como antídoto a essa fuga incontrolável dos fragmentos de memória que escapam sistematicamente à consciência, Proust erige o edifício imenso da recordação, mas cuidado! Proust só confia na recordação espontânea. Explica Beckett: “A memória voluntária, Proust repete ad nauseam, não tem valor como instrumento de evocação e provê uma imagem tão distante da real quanto o mito de nossa imaginação ou a caricatura fornecida pela percepção direta”. Proust só acredita no poder de invocação dos sentidos. Daí a famosa passagem de No Caminho de Swann, em que a infância volta plena à lembrança, quando o narrador mergulha uma madalena em sua xícara de chá: “E de súbito a lembrança me apareceu. Aquele gosto era o do pedaço de madalena que nos domingos de manhã em Combray (pois nos domingos eu não saía antes da hora da missa) minha tia Léonie me oferecia, depois de tê-lo mergulhado em seu chá da Índia ou de tília, quando ia cumprimentá-la em seu quarto”.

Para Proust, qualquer estímulo, como um trecho de uma sonata, a visão de uma paisagem, determinado odor ou certa expressão, produzirá a recuperação do tempo perdido. Quem nunca foi transportado de volta à infância pelo reencontro com o sabor antigo de uma fruta, pelo aroma de um café recém-passado ou por um perfume sugestivo? Para Proust, os sentidos reconstroem a totalidade da experiência, remetendo-nos para os mundos perdidos durante a passagem implacável do tempo.

Proust despreza as memórias voluntárias porque teme que as memórias inventadas, intermediadas pela mente, portas abertas para nosso eu “social”, aquele que reflete o que o mundo pensa de nós, ocupem todo o espaço no lugar do que realmente importa. Proust teme que este “eu” utilitário, usado socialmente, possa usurpar os direitos do verdadeiro “eu”, como uma personagem que tomasse de assalto a personalidade do ator Lawrence Olivier deixando de ser Lawrence Olivier e passando a ser Hamlet para sempre...

A catedral de Em Busca do Tempo Perdido já está delineada na obra No Caminho de Swann, primeiro dos sete volumes. Publicado em 1913, com recursos próprios do autor, No Caminho de Swann expõe o método proustiano da recordação e apresenta as principais personagens que voltam à memória do narrador. Em especial, conta a história do amor de Charles Swann e Odette de Clécy, única trama em toda a obra que não envolve o narrador diretamente.

O tempo, este monstro de duas cabeças, é simultaneamente danação e redenção. É danação porque nos aprisiona dentro dele. Somos escravos do ontem, porque o ontem nos deformou de alguma maneira. Por outro lado, pela recuperação do tempo, descobrimos nosso “eu” real, e aí está o maior exercício espiritual de todos.

Sobre o autor: Valentin Louis Georges Eugène Marcel Proust (Auteuil, 10 de Julho de 1871 — Paris, 18 de Novembro de 1922) foi um escritor francês, mais conhecido pela sua obra À la recherche du temps perdu (Em Busca do Tempo Perdido), que foi publicada em sete partes entre 1913 e 1927.

Filho de Adrien Proust, um célebre professor de medicina, e Jeanne Weil, alsaciana de origem judaica, Marcel Proust nasceu numa família rica que lhe assegurou uma vida tranquila e lhe permitiu frequentar os salões da alta sociedade da época.

Após estudos no Liceu Condorcet, prestou serviço militar em 1889. Devolvido à vida civil, assistiu na École Libre des Sciences Politiques aos cursos de Albert Sorel e Anatole Leroy-Beaulieu; e na Sorbonne os de Henri Bergson (1859-1941) cuja influência sobre a sua obra será essencial.

Após a morte dos seus pais, a sua saúde já frágil deteriorou-se mais. Ele passou a viver recluso e a esgotar-se no trabalho. A sua obra principal, Em Busca do Tempo Perdido (À la Recherche du Temps Perdu), foi publicada entre 1913 e 1927, o primeiro volume editado à custa do autor na pequena editora Grasset ainda que muito rapidamente as edições Gallimard recuaram na sua recusa e aceitaram o segundo volume À Sombra das Raparigas em Flor pela qual recebeu em 1919 o prêmio Goncourt.

Trabalhou sem repouso à escrita dos seis livros seguintes de Em Busca do Tempo Perdido, até 1922. Faleceu esgotado, acometido por uma bronquite mal cuidada.


[1] BECKETT, Samuel. Proust. Tradução de Arthur Nestrovski. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.