domingo, 1 de setembro de 2013

CONTRA AS HERESIAS

Título original: Elencos kai anatropè pseudunúmou gnóseos
Autor: Ireneu de Lião (130-202)
Tradução: Lourenço Costa
Editora: Paulus
Assunto: Patrística
Edição: 3ª
Ano: 2009
Páginas: 624

Sinopse: No prefácio do I livro, Ireneu define o objetivo de toda a sua longa obra. Constatando que há pessoas que rejeitam a verdade e introduzem a falsidade e, por meio de manobras capciosas, enganam os simples, pervertem o sentido das Escrituras e blasfemam contra o Criador, gloriando-se de um pretenso conhecimento, Ireneu se propõe, num primeiro momento, tirar a máscara sob a qual a gnose se dissimula, e mostrá-la em plena luz do dia tal como é realmente.

Consciente da sedução que a gnose exerce, devido ao mistério do qual se cerca, e da ameaça que ela constitui para a fé dos simples, propõe-se, num segundo momento, refutar, com argumentos da razão, a gnose dos valentinianos e dos marcionistas, expondo a doutrina da Igreja sobre Deus e sobre Cristo. O leitor encontrará no V livro, o último, uma longa dissertação sobre a ressurreição da carne, que os gnósticos negavam.

Comentários: Surgiu, pelos anos 40 do sec. XX, na Europa, especialmente na França, um movimento de interesse voltado para os antigos escritores cristãos e suas obras conhecidos tradicionalmente, como “Padres da Igreja”, ou “Santos Padres”. Esse movimento foi liderado por Henri de Lubac e Jean Daniélou.

No Brasil, em termos de publicação das obras destes autores antigos, pouco se fez. Nunca é tarde ou fora de época para rever as fontes da fé cristã, os fundamentos da doutrina da Igreja, especialmente no sentido buscar nelas a inspiração atuante, transformadora do presente. Assim, temos a oportunidade de conhecer as “fontes” do cristianismo, examiná-las, avaliá-las e colher delas o espírito que as produziu.

Os “Pais da Igreja(se refere ao escritor leigo, sacerdote ou bispo, da antiguidade cristã, considerado pela tradição posterior como testemunho particularmente autorizado pela fé) são, portanto, aqueles que, ao longo dos sete primeiros séculos, foram forjando, construindo e defendendo a fé, a liturgia, a disciplina, os costumes e os dogmas cristãos, decidindo, assim, os rumos da Igreja. Seus textos se tornaram fontes de discussões, de inspirações, de referências obrigatórias ao longo de toda tradição posterior. O valor dessas obras pode ser avaliado neste texto:

“Além de sua importância no ambiente eclesiástico, os Padres da Igreja ocupam lugar proeminente na literatura e, particularmente, na literatura greco-romana. São eles os últimos representantes da Antigüidade, cuja arte literária, não raras vezes, brilha nitidamente em suas obras, tendo influenciado todas as literaturas posteriores. Formados pelos melhores mestres da Antigüidade clássica, põem suas palavras e seus escritos a serviço do pensamento cristão. (Da apresentação da Editora)

Da introdução da obra transcrevemos este texto:

“Existem cinco razões, que a nosso modo de ver, evidenciam não ser supérflua a estafante atividade de transcrever este livro. Primeira, porque é raríssimo, pois caído o silêncio sobre as heresias, destruídas em nossos dias com insólita violência, quase ninguém mais se anima a manuseá-lo. Segunda, que o autor é antigo, próximo aos tempos apostólicos (177 d.C.) e por isso digno de fé. Terceira, que tudo o que escreveu a propósito dos heréticos não recolheu só por ouvir dizer ou por fama, mas ouviu ensinar em grande parte peã viva voz de tais mestres e com os próprios olhos viu praticar, pois lhes era coevo, ou seja, contemporâneo e natural daqueles lugares. Quarta, acerca das heresias daquele tempo, nenhum outro discutiu com maior profundidade e clareza. Quinta, é necessário sobretudo restabelecer a ciência das armas da Igreja militante – descuidadas em tempos de paz – porque diminuindo os defensores a tirania vai se enfurecendo tanto mais agudamente quanto é livre em fazê-lo impunemente.”

(Do prólogo às obras de santo Ireneu, composto por Floro de Lião pelo ano 860.)

Sobre o autor: Santo Ireneu de Lião, em grego Ερηναος [pacífico], em latim Irenaeus, (ca. 130 — 202). Discípulo de São Plicarpo de Esmirna, por volta de 177, sucedeu a Fotino como bispo de Lião. A tradição o tem como o mais exímio teólogo do século II. A Igreja Católica considera-o santo, comemorando a 28 de Junho.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

A PRESENÇA TOTAL e Ensaios Reunidos

Título original: La Présence Totale
Autor: Louis Lavelle (1883-1951)
Tradutor: Carlos Nougué
Assunto: Ensaios filosóficos
Editora: É Realizações
Edição: 1ª
Ano: 2012
Páginas: 322


Sinopse: Neste livro [escrito de 1934] se encontram os temas relevantes da obra de Louis Lavelle, como o ser, o ato, o valor, o tempo, a existência, a liberdade, a intersubjetividade, a participação. Equivale a uma pequena summa de seu pensamento e abriu as portas a uma mais fácil penetração em suas grutas profundas. E tudo servido por um lapidar que o inseriu entre os grandes pensadores do século passado. Lavelle foi um filósofo que respirou o clima de duas hecatombes mundiais e sorveu a experiência da dor, da ansiedade, do mal. Soube, porém, vislumbrar, acima das imperfeições humanas, um caminho de elevada espiritualidade. (Tarcísio Padilha)

Comentários: Louis Lavelle começa a introdução deste livro dizendo o seguinte:

“O pequeno livro que se vai ler expressa um ato de confiança no pensamento e na vida. No entanto, nas épocas conturbadas, a maior parte dos homens não se deixa sacudir senão por uma filosofia que justifique seu gemido diante do presente, suas ansiedades diante do futuro, sua revolta diante do destino que eles são obrigados a padecer, sem ser capazes de dominá-lo”.

E continua ele:

“A consciência busca um amargo desfrute nesses estados violentos e dolorosos em que o amor-próprio está em carne viva e, pela sacudidela mesma que eles imprimem ao corpo e à imaginação, nos dão enfim a ilusão de ter penetrado até a raiz do real. É apenas em aparência que se aspira a livrar-se deles; temer-se-ia antes que eles não fossem jamais bastante agudos, como um veneno cujo movimento se detivesse subitamente”.

“Então a consciência se lança na solidão, a fim de melhor se sentir entregue à infelicidade do abandono; ela se obriga a si mesma a descer a este abismo de miséria onde o nada a rodeia, onde nenhuma voz lhe responde, onde as forças da natureza parecem aliar contra ela sua indiferença e sua brutalidade.”

Por esta brevíssima introdução já se pode imaginar o que Lavelle reserva ao leitor nesta obra, escrita para aqueles que tiveram ou tem dificuldade de compreender a sua magnum opus: “A Dialética do Eterno Presente” (Anatoli Oliynik).

 

Sobre o autor Louis Lavelle: (St. Martin de Villereal, 15 de julho de 1883 - Parranquet, 1 de setembro de 1951) foi um filósofo metafísico francês.

Lavelle viveu fases marcadas por duras provas, o que se ratifica pela sua participação na Primeira Guerra Mundial. Mesmo sendo míope, podendo furtar-se a participar da guerra, ele fez questão de combater na frente de batalha, sendo feito prisioneiro logo após a batalha de Verdun.

Foi enviado para o campo de prisioneiros em Giessen, onde elaborou sua tese de doutorado, que defendeu na Sorbonne, em 1922.

Na prisão, granjeou a simpatia de seus companheiros de infortúnio para os quais proferia conferência sobre temas de elevado alcance espiritual, como o ciclo de palestras sobre “Pascal et la Pensée Religieuse”.

Terminada a guerra e devendo ser repatriado, Lavelle temeu pelo destino de sua tese e decidiu confiar a um soldado alemão a missão de entregar seus escritos à sua família.

Em 1943, recebeu uma carta de um prisioneiro em que assevera: “após haver lido A Presença Total, compreendi que vossos livros não poderiam ter sido escritos senão por alguém que conheceu o exílio”.

Sua magnum opus é La Dialectique de l'éternel présent, uma obra metafísica em quatro volumes: De l'Être (1928), De l'Acte (1937), Du Temps et de l'Eternité (1945) e De l'Âme Humaine (1951).

Entre outros, a obra de Lavelle inclui: La dialectique du monde sensible: Lu perception visuelle de la profondeur (1921), La conscience de soi (1933), La présence totale (1934), L'Erreur de Narcisse (1939), Le Mal et la Souffrance (1940), La Parole et l'Écriture (1947) e Les puissances du Moi (1948).

Link do vídeo de lançamento do livro:

segunda-feira, 1 de julho de 2013

O SENHOR DOS ANÉIS. V.1 – A Sociedade do Anel

Título original: The Lord of the Rings – Part. I: The Fellowship of the Ring
Autor: J. R. R.Tolkien (1892-1973)
Tradutor: Lenita Maria Rímoli Esteves
Assunto: Romance
Editora: Martins Fontes
Edição: 2ª
Ano: 2000
Páginas: 434


Sinopse: Numa cidadezinha indolente do Condado, um jovem hobbit é encarregado de uma imensa tarefa. Deve empreender uma perigosa viagem através da Terra do Meio até as Fendas da Perdição, e lá destruir o Anel do Poder - a única coisa que impede o domínio maléfico do Senhor do Escuro.

O Senhor dos Anéis é um romance de fantasia criado pelo escritor, professor e filólogo britânico J.R.R. Tolkien. A história começa como seqüência de um livro anterior de Tolkien, O Hobbit (The Hobbit), e logo se desenvolve numa história muito maior. Foi escrito entre 1937 e 1949, com muitas partes criadas durante a Segunda Guerra Mundial. Embora Tolkien tenha planejado realizá-lo em volume único, foi originalmente publicado em três volumes entre 1954 e 1955, e foi assim, em três volumes, que se tornou popular. Desde então foi reimpresso várias vezes e foi traduzido para mais de 40 línguas, tornando-se um dos trabalhos mais populares da literatura do século XX.

Análises e comentários: O professor José Monir Nasser diz que esta obra sofre de um grande problema. Há um grande livro chamado Moby Dick, escrito por Hermann Melville, possivelmente o maior livro já escrito nos Estados Unidos. No entanto, ninguém o lê, porque o autor teve a infelicidade de colocar esse nome na obra. Os adultos não o lêem por pensarem que é literatura juvenil e os jovens lêem e não entendem patavina. O livro fica numa espécie de limbo e O Senhor dos Anéis sofre do mesmo problema. Ouvi comentários concretos de que o livro é muito infantil. O livro, de fato, foi escrito para o público juvenil, mas é um dos maiores livros escritos no século XX. Há poucos livros tão importantes como este. Há dificuldade de se conseguir atenção para ele, já que foi carimbado e todos ficaram prisioneiros daquela aparência. Vocês verão que é um livro extraordinário.

A história de O Senhor dos Anéis ocorre em um tempo e espaço imaginários, a Terceira Era da Terra do Meio, que é um mundo inspirado na Terra real, mais especificamente, segundo Tolkien, numa Europa mitológica, habitado por Humanos e por outras raças humanóides: Elfos, Anões e Orcs. Tolkien deu o nome a esse lugar a palavra do inglês moderno, Middle-earth (Terra-do-Meio), derivado do inglês antigo, Middangeard, o reino onde humanos vivem na mitologia Nórdica e Germânica. O próprio Tolkien disse que pretendia ambientá-la na nossa Terra, aproximadamente 6000 anos atrás, embora a correspondência com a geografia e a história do mundo real fosse frágil.

A história narra o conflito contra o mal que se alastra pela Terra do Meio, através da luta de várias raças - Humanos, Anões, Elfos, Ents e Hobbits - contra Orcs, para evitar que o "Anel do Poder" volte às mãos de seu criador Sauron, o Senhor do Escuro. Partindo dos primórdios tranqüilos do Condado, a história muda através da Terra-média e segue o curso da Guerra do Anel através dos olhos de seus personagens, especialmente do protagonista, Frodo Bolseiro. A história principal é seguida por seis apêndices que fornecem uma riqueza do material de fundo histórico e lingüístico.

O Padre Paulo Ricardo de Azevedo Junior diz que O Senhor dos Anéis trata da história de um anel que foi criado pela maldade, foi criado pelo mal e este anel é o anel do poder. Ele é um anel que nos dá, digamos, todo o poder que nós gostaríamos de ter: um poder de ser como deuses. Aqui, nós temos na verdade, uma grande parábola a respeito do “pecado original”: o anel que todos perseguem, que todos desejam, que todos querem, é um símbolo daquele fruto primeiro no paraíso. E este anel, ao redor dele, acontecerá as grandes batalhas do “Senhor dos Anéis”, até que finalmente, não por nenhum herói, porque “O Senhor dos Anéis” não tem nenhum personagem que seja o herói, mas por uma Providência invisível que perpassa todo o livro, o mal, finalmente, é destruído.


O SENHOR DOS ANÉIS
(Padre Paulo Ricardo explicando o filme e o livro)


Faces da personalidade



A Amizade


História do Anel



ANÁLISE LONGA DO LIVRO

sábado, 1 de junho de 2013

TERRA DOS HOMENS

Título original: Terre des Hommes
Autor: Antoine de Saint-Exuperry
Tradução: Rubem Braga
Editora: José Olympio
Assunto: Romance
Edição: 13ª
Ano: 1968
Páginas: 155



Sinopse: Publicado em 1939 o livro é mais que um romance de memórias, é um profundo mergulho na alma humana. Saint-Exupéry, nascido em 1900, em Lyon, França, conta como descobriu sua vocação aos 12 anos, ao voar pela primeira vez em um balão. Piloto civil aos 21 anos, aos 26 passa a integrar a equipe de pioneiros que, em pequenos aparelhos a hélice, sem conforto ou pressurização, sobrevoa o Saara e a cadeia andina para levar à África e à América do Sul o correio aéreo da Europa.

Resumo da narrativa e comentários: A nostalgia pelo avião marcou a vida e a obra de Saint-Exupéry. A aviação para o autor é deliberadamente romântica, uma fuga contra a perspectiva limitada do mundo: é liberdade, imensidão, silêncio.

“O império do homem é interior”

Em Terra dos Homens lemos sobre aviões e desertos. Percebe-se a atração que exerce o deserto com o relato vibrante de homens que se dispõem a sobrevoá-lo sob o céu estrelado das noites frias, movidos apenas por um desejo de liberdade e de vida, contrário à insegurança das máquinas primitivas do período entre guerras, que mais se assemelham a latas voadoras, esperando o mínimo desleixo para caírem como pedras.

“Entretanto, amamos o deserto. Se no começo ele é apenas solidão e silêncio é que não se entrega aos amantes de um dia.”

O momento da pane e do pouso forçado nas areias do Saara transforma o medo, até então potencial, em realidade. O deserto passa a ser tangível, não apenas belo, mas mortal, e o homem, um animal que busca evitar a extinção.

“Quando tomamos consciência de nosso papel, mesmo o mais obscuro, só então somos felizes. Só então podemos viver em paz e morrer em paz, pois o que dá um sentido à vida dá um sentido à morte.”

O miolo do livro é a seqüência da queda do avião, a sobrevivência, a consciência do homem no deserto. É o corpo que perambula pelas dunas quentes e a consciência que grita, não mais por ajuda, porque não tem forças, porque é inútil, mas pelo sentido e beleza perdidos pela necessidade fisiológica de água. Os devaneios do esgotamento, a saliva sólida, a mente se dispersa em pensamentos sem importância, como levada pelo vento, sobre a água, a sua função, o porquê de ela existir.

Então o desespero cria idéias extremas, pensa-se no óleo do avião. Talvez com os olhos fechados, com força de vontade, com imaginação. É líquido, como a água, não deve ser diferente. O gosto horrível, de fuselagem, o estômago apertado, agredido, a vontade de morrer. Poucos segundos para ter vontade de morrer, é preciso encontrar vida, levantar-se, continuar andando pela paisagem uniforme, conseguir ajuda, encontrar água, o corpo ainda quer tentar. Existe vida em algum lugar e é preciso encontrá-la. Vida líquida. Não é nada demais, é só água, que por tanto tempo sempre esteve disponível, não deve ser difícil.

“A sede é cada vez mais uma doença e cada vez menos um desejo”

Análise da obra: Em Terra dos Homens, o autor se revela filósofo de verve extensa, mergulhando o leitor na análise do Homem que precisa ser desvendado: "Não compreendo mais essas populações dos trens de subúrbio, esses homens que pensam que são homens e que entretanto estão reduzidos por uma pressão que eles mesmos não sentem, como formigas, ao uso que deles se faz. Como eles enchem, quando estão livres, seus absurdos pequenos domingos? " (Página 127)

Ou, quando relata-nos a universalidade dos homens: "É preciso, para tentar distinguir o essencial, esquecer por um momento as divisões que, uma vez admitidas, arrastam todo um Alcorão de verdades intocáveis, e o fanatismo conseqüente. Podem-se classificar os homens em homens de direita e homens de esquerda, em corcundas e não corcundas, em fascistas e democratas, e essas distinções são inatacáveis. Mas a verdade é o que simplifica o mundo, e não o que gera o caos. A verdade é o que exprime o universal". (Página 146)

Terra dos Homens, obra essencial do príncipe do deserto, é mais que necessária, é ainda atual e se insere bem nos dias conturbados que vivemos. Antoine de Saint-Exupéry é um poeta que desvenda o Homem e suas vicissitudes, um escritor que relata com apuro poético o invólucro da alma humana.

E ele encera o livro de modo magnífico: “Sento-me diante de um casal. Entre o homem e a mulher a criança, bem ou mal, havia se alojado, e dormia. Volta-se, porém, no sono, e seu rosto me aparece sob a luz da lâmpada. Ah, que lindo rosto! Havia nascido daquele casal uma espécie de fruto dourado. Daqueles pesados animais havia nascido um prodígio de graça e encanto. Inclinei-me sobre a fronte lisa, a pequena boca ingênua. E disse comigo mesmo: eis a face de um músico, eis Mozart criança, eis uma bela promessa da vida. Não são diferentes dele os belos príncipes das lendas. Protegido, educado, cultivado, que não seria ele? Quando, por mutação, nasce nos jardins uma rosa nova, os jardineiros se alvoroçam. A rosa é isolada, é cultivada, é favorecida. Mas não há jardineiros para homens. Mozart criança irá para estranha máquina de entortar homens. Mozart fará suas alegrias mais altas da música podre na sujeira dos cafés-concertos. Mozart está condenado.

            Voltei para o meu carro. E pensava: essa gente quase não sofre o seu destino. E o que me atormenta aqui não é a caridade. Não se trata da gente se comover sobre uma ferida eternamente aberta. Os que a levam não a sentem. É alguma coisa como a espécie humana, e não o indivíduo, que está ferida, que está lesada. Não creio na piedade. O que me atormenta é o ponto de vista do jardineiro. O que me atormenta não é essa miséria na qual, afinal de contas, a gente se acomoda, como no ócio. Gerações orientais vivem na sujeira e gostam de viver assim.

            O que me atormenta, as sopas populares não remedeiam. O que me atormenta não são essas faces escavadas nem essas feiúras. É Mozart assassinado, um pouco, em cada um desses homens.

            Só o Espírito, soprando sobre a argila, pode criar o Homem.” (págs. 154-155)

 
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quarta-feira, 1 de maio de 2013

DA ALVORADA À DECADÊNCIA

Título original: From Dawn to Decadence
Autor: Jacques Barzun (1907-2012)
Tradução: Álvaro Cabral
Editora: Campus
Assunto: História
Edição: 1ª
Ano: 2002
Páginas: 926

 
Sinopse: Nesta obra, Jacques Barzun apresenta as suas descobertas e conclusões a respeito de toda a cultura ocidental, desde 1500 até os dias atuais.

Barzun descreve o que o homem ocidental, neste período, criou, não um apogeu, mas um declínio e um irremediável fracasso cultural.

William Safire, do New York Times, se refere sobre a obra com estas palavras: “Um monumental estudo do retrocesso cultural de cinco séculos de civilização.

Este livro é para pessoas que gostam de ler sobre arte e pensamento, costumes, princípios morais e religião, e sobre o contexto social em que essas atividades ocorreram e continuam ocorrendo. O autor partiu pressuposto de que os leitores preferem um discurso crítico e seletivo em lugar de neutro e enciclopédico e escreveu um livro onde recapitula em seqüência as grandes realizações e os lamentáveis fracassos do último meio milênio. O plano da obra é apresentar um cuidado especial quanto ao ordenamento das partes. As divisões de capítulos são organizadas a partir de quatro grandes revoluções – a religiosa, a monárquica, a liberal e a social, separadas grosso modo um século umas das outras – cujos objetivos e paixões ainda governam as mentes e condutas do momento atual.

Sobre o livro: Um dos melhores ensaios publicados em Portugal em 2003, esta obra que a crítica classificou de extraordinária esteve também nas listas de best-sellers das livrarias dos EUA e do Canadá.

Jacques Barzun, nascido em França, cedo foi para os EUA, onde é considerado um dos maiores historiadores da cultura da segunda metade do século XX, com mais de três dezenas de livros publicados. Neste, olha do "alto dos seus 93 anos" (embora o livro tenha começado a germinar por volta de 1935) para os quinhentos anos que estão para trás e aponta os aspectos de decadência, "porque tantas das nossas instituições e objetivos estão a desviar-se do seu propósito original." Cinco séculos de história, revisitados com rigor e vivacidade.

Críticas de imprensa portuguesa: "Da aurora à decadência, esta notável história da cultura e da civilização ocidentais, da reforma ao final do século XX, é uma obra monumental, porque analisa do modo mais rigoroso, mas também mais vivo e colorido, cinco séculos de arte, literatura, ciências, filosofia, costumes, religião e intriga política. Inclui 45 minibiografias de figuras como Erasmo, Lutero, Calvino, Petrarca, Montaigne, Shakespeare, Tasso, Pascal, Leonardo da Vinci, Rabelais, Cromwell, Margarida de Navarra, Mozart... - muitas das quais não costumam beneficiar de semelhante interesse em abordagens historiográficas tradicionais. "Um livro polémico, que, apesar do tema e da dimensão, consegui ser um 'best-seller' nos Estados Unidos e no Canadá graças ao seu carácter vivaz e estimulante."

Sobre o autor: Jacques Barzun nasceu na França, em 1907, e mudou-se para os Estados Unidos, em 1920. Após graduar-se no Columbia College, ingressou no corpo docente da universidade como catedrátrico de História. Ao longo de dez anos, foi conselheiro e vice-reitor das Faculdades. Autor de cerca de 30 livros, foi agraciado com a Medalha de Ouro da Academia Americana de Artes e Letras, da qual foi presidente por duas vezes. Faleceu no dia 25 de outubro de 2012 em San Antonio, EUA com 104 anos de idade.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

NO CAMINHO DE SWANN

Título original: Du cotê de chez Swann
Autor: Marcel Proust (1871-1922)
Tradutor: Mário Quintana
Assunto: Romance
Editora: Globo
Edição: 3ª
Ano: 2006
Páginas: 558


Sinopse: Os sete volumes da obra 'Em busca do tempo perdido' constituem um emaranhado complexo de personagens, cenas, detalhes que reaparecerão muito depois e somente aí adquirem seu real significado, articulados pela memória que, ativada por circunstâncias fortuitas, medita livre por diferentes campos, sendo as artes um dos mais freqüentados. Este primeiro volume também procura exemplificar isso, pois Swann, um das principais personagens, é um refinado aristocrata conhecedor de literatura, colecionador de objetos de arte e freqüente nos salões parisienses. O narrador o conheceu quando criança em Combray, cidadezinha imaginária onde ele passava as férias de Páscoa. No segundo, o narrador, já adolescente, desistindo do amor de Gilberte, filha de Swann, parte com a avó em viagem de férias para a fictícia praia de Balbec, com imaginárias ruínas antigas, em seu périplo de conhecimento da arte e de si. Assim, cada volume e todos se transformam em complexo programa de formação estética e humanística. Neste volume, Proust se dedica principalmente à narração de sua infância e adolescência.

Excertos do prefácio: “Abrimos as primeiras páginas do primeiro volume e somos convidados a entrar pelo Caminho de Swann.

Neste primeiro volume, vamos conhecer a cidadezinha fictícia chamada ‘Combray’, lugar em que o herói do livro vem passar as férias de Páscoa com os pais, quando criança. Ali, eles recebiam a visita de Swann, homem muito fino, colecionador de obras de arte, leitor cultivado, freqüentador dos principais salões de Paris.

A Combray de Proust é a pequenina cidade de passado medieval que ainda mantém contato com os campos e sítios ao seu redor. Para chegar até eles, há dois caminhos possíveis: saindo pela porta da frente da casa, toma-se o de Méséglise, caminho mais curto, que passa pela propriedade de Swann; saindo pelo portão dos fundos, alcança-se o longo caminho de Guermantes, trilha fluvial que vai dar no castelo dessa família, Entrar pelo caminho de Swann é simplesmente tomar uma dessas opções de percurso que se oferecem ao caminhante. O caminho de Swann é, nesse primeiro sentido, apenas uma referência espacial com a qual se designa o itinerário a ser feito.

Já ou outro significado desse título envolve a própria história da criança que vem com os pais em visita à cidade de Combray e que, muito mais tarde, vai se tornar o narrador do livro que estamos lendo. Para ele, percorrer o caminho de Swann é percorrer o mesmo trajeto da personagem Swann, experimentar as mesmas dores no amor, o ciúme, o contato com a arte e compreender como Swann pôde lidar com tudo isso. Em busca do tempo perdido começa, assim, como no início de uma caminhada, de uma longa caminhada de leitura do sentido da vida.” (p. 8)

Resenha: O prof. José Monir Nasser nesta resenha diz que Samuel Beckett (1906-1989) escreveu no ensaio Proust [1] dizia que para compreender a obra do escritor francês é preciso começar pelo tempo, “este monstro de duas cabeças, salvação e danação”. Mais ainda, Beckett afirma que “as criaturas de Proust são, portanto, vítimas desta circunstância e condição permanente: o tempo”. De fato, a obra magna de Marcel Proust (1871-1922), escrita em sete volumes, entre 1909 e o último dia da sua vida, chama-se Em Busca do Tempo Perdido (À la recherche du temps perdu).

O tempo submete tudo, porque a vida humana é composta de fragmentos, de experiências estanques a que a nossa mente dá a aparência de continuidade, criando um passado presente (aquilo que já passou) e um futuro presente (aquilo que esperamos que aconteça), que se fundem com o presente presente. A impressão é de uma linha contínua, conjugando aquilo que aconteceu, aquilo que está acontecendo e o que pode acontecer.

Mas como a experiência humana é fragmentada e só adquire unidade pela intervenção da mente, as partes tendem a se perder, a se tornar indisponíveis. Não temos acesso a tudo o que aconteceu na nossa vida. Tudo foge (tempus fugit) e se dilui pela própria passagem. Este é o tempo perdido que Proust procura sistematicamente no fundo da consciência latente, para ele, a única coisa real. Ou seja, está tudo lá, mas como não conseguimos manter nossa atenção focada em tudo ao mesmo tempo, percebemos apenas recortes da totalidade da nossa experiência. Como resultado, não conhecemos nosso “eu” profundo, embora saibamos o que queremos que os outros pensem sobre nós, em outras palavras, conhecemos apenas nosso “eu” social.

Como antídoto a essa fuga incontrolável dos fragmentos de memória que escapam sistematicamente à consciência, Proust erige o edifício imenso da recordação, mas cuidado! Proust só confia na recordação espontânea. Explica Beckett: “A memória voluntária, Proust repete ad nauseam, não tem valor como instrumento de evocação e provê uma imagem tão distante da real quanto o mito de nossa imaginação ou a caricatura fornecida pela percepção direta”. Proust só acredita no poder de invocação dos sentidos. Daí a famosa passagem de No Caminho de Swann, em que a infância volta plena à lembrança, quando o narrador mergulha uma madalena em sua xícara de chá: “E de súbito a lembrança me apareceu. Aquele gosto era o do pedaço de madalena que nos domingos de manhã em Combray (pois nos domingos eu não saía antes da hora da missa) minha tia Léonie me oferecia, depois de tê-lo mergulhado em seu chá da Índia ou de tília, quando ia cumprimentá-la em seu quarto”.

Para Proust, qualquer estímulo, como um trecho de uma sonata, a visão de uma paisagem, determinado odor ou certa expressão, produzirá a recuperação do tempo perdido. Quem nunca foi transportado de volta à infância pelo reencontro com o sabor antigo de uma fruta, pelo aroma de um café recém-passado ou por um perfume sugestivo? Para Proust, os sentidos reconstroem a totalidade da experiência, remetendo-nos para os mundos perdidos durante a passagem implacável do tempo.

Proust despreza as memórias voluntárias porque teme que as memórias inventadas, intermediadas pela mente, portas abertas para nosso eu “social”, aquele que reflete o que o mundo pensa de nós, ocupem todo o espaço no lugar do que realmente importa. Proust teme que este “eu” utilitário, usado socialmente, possa usurpar os direitos do verdadeiro “eu”, como uma personagem que tomasse de assalto a personalidade do ator Lawrence Olivier deixando de ser Lawrence Olivier e passando a ser Hamlet para sempre...

A catedral de Em Busca do Tempo Perdido já está delineada na obra No Caminho de Swann, primeiro dos sete volumes. Publicado em 1913, com recursos próprios do autor, No Caminho de Swann expõe o método proustiano da recordação e apresenta as principais personagens que voltam à memória do narrador. Em especial, conta a história do amor de Charles Swann e Odette de Clécy, única trama em toda a obra que não envolve o narrador diretamente.

O tempo, este monstro de duas cabeças, é simultaneamente danação e redenção. É danação porque nos aprisiona dentro dele. Somos escravos do ontem, porque o ontem nos deformou de alguma maneira. Por outro lado, pela recuperação do tempo, descobrimos nosso “eu” real, e aí está o maior exercício espiritual de todos.

Sobre o autor: Valentin Louis Georges Eugène Marcel Proust (Auteuil, 10 de Julho de 1871 — Paris, 18 de Novembro de 1922) foi um escritor francês, mais conhecido pela sua obra À la recherche du temps perdu (Em Busca do Tempo Perdido), que foi publicada em sete partes entre 1913 e 1927.

Filho de Adrien Proust, um célebre professor de medicina, e Jeanne Weil, alsaciana de origem judaica, Marcel Proust nasceu numa família rica que lhe assegurou uma vida tranquila e lhe permitiu frequentar os salões da alta sociedade da época.

Após estudos no Liceu Condorcet, prestou serviço militar em 1889. Devolvido à vida civil, assistiu na École Libre des Sciences Politiques aos cursos de Albert Sorel e Anatole Leroy-Beaulieu; e na Sorbonne os de Henri Bergson (1859-1941) cuja influência sobre a sua obra será essencial.

Após a morte dos seus pais, a sua saúde já frágil deteriorou-se mais. Ele passou a viver recluso e a esgotar-se no trabalho. A sua obra principal, Em Busca do Tempo Perdido (À la Recherche du Temps Perdu), foi publicada entre 1913 e 1927, o primeiro volume editado à custa do autor na pequena editora Grasset ainda que muito rapidamente as edições Gallimard recuaram na sua recusa e aceitaram o segundo volume À Sombra das Raparigas em Flor pela qual recebeu em 1919 o prêmio Goncourt.

Trabalhou sem repouso à escrita dos seis livros seguintes de Em Busca do Tempo Perdido, até 1922. Faleceu esgotado, acometido por uma bronquite mal cuidada.


[1] BECKETT, Samuel. Proust. Tradução de Arthur Nestrovski. São Paulo: Cosac & Naify, 2003.

sexta-feira, 1 de março de 2013

O INSPETOR GERAL

Título original: Revizor
Autor: Nicolai Gógol
Tradução: Arlete Cavalieri
Editora: Peixoto Neto
Assunto: Drama
Edição: 1ª
Ano: 2007
Páginas: 244

Sinopse: Na antiga Rússia, existia um vilarejo comandado por um prefeito totalmente corrupto e seus colaboradores de mesma índole: O chefe dos correios, o inspetor de escolas, o juiz, o encarregado da assistência social, o médico da província, o comissário de polícia e até dois pequenos proprietários de terras.

Eles mantêm as instituições públicas sem as mínimas condições de saúde, organização ou humanidade e tratam os moradores como se fossem animais, pensando apenas nos lucros pessoais. Tudo transcorre desta forma, até que um dia recebem a notícia de que o governo enviou um inspetor geral do alto escalão das repartições públicas para averiguar as condições dos órgãos locais. O prefeito manda chamar o encarregado da assistência social, o inspetor de escolas, o juiz, comissário de polícia, o médico e dois policiais para dar-lhes a notícia. Todos ficam apavorados e resolvem fazer uma faxina na cidade, os médicos eliminam alguns doentes e trocam as roupas de cama, o juiz manda tirar a criação de gansos do tribunal, o Inspetor de Escolas pede para os professores pararem de bater nos alunos etc.

Enquanto isso, um malandro jogador de cartas, Khlestakóv, está hospedado no hotel local e é confundido com o tal inspetor geral e acaba recebendo a visita do prefeito que o convida para mudar-se para sua casa onde é tratado com as mais altas regalias, inclusive recebendo grandes somas de dinheiro em forma de propina de todos que o visitam.

Na confusão das inspeções não faltam situações hilárias de denúncia aos meandros do poder, à corrupção, à delação, à impunidade, aos favores etc. Khlestakóv aproveita-se da situação e, após encher os bolsos de dinheiro, vai embora, mas não sem antes marcar casamento com a filha do Prefeito.

Resumo da narrativa: O resumo do enredo é a própria sinopse supracitada.

Comentários: O Inspetor Geral, escrita em 1836 pelo ucraniano Nicolai Gógol, fala de política - mas não só. Destila críticas a políticos e administradores de maneira geral, a subornadores e subornados, ao serviço de aparência e à hipocrisia das instituições e dos cargos públicos. Não faltam espirros ácidos ao comportamento frívolo das mulheres, à credulidade simplória e à hipocrisia insensível dos homens, mas, sobretudo fala da consciência moral do ser humano, mais especificamente do tribunal interno da consciência humana.

Interpretação da obra: O prof. José Monir Nasser explica que o leitor desatento e aquele que lê para simples entretenimento pensa que está lendo uma obra de comédia, uma sátira ou um libelo anti-burocrático e anti-czarista. Nada mais equivocado. O próprio czar, Nicolau I, impediu a censura e autorizou a apresentação da peça que foi encenada pela primeira vez no dia 19 de abril de 1836.

Após a apresentação, o público atônito nada entendeu. Gogol teria se manifestado com estas palavras: “é a primeira concebida com o propósito de corrigir nossa sociedade, e não creio havê-lo conseguido; só viram, na minha comédia, uma tendência partidária a ridicularizar nossas leis e a ordem estabelecida, que só pretende estigmatizar certos abusos e certos atos ilegais”. Desgostoso com o público passa os anos seguintes fora da Rússia.

A peça é satírica, é verdade, mas interpretá-la como tal, é enxergar apenas a camada mais superficial da obra. A história é mais complexa que simples burocratas e funcionários públicos indolentes.

Assim como nós, todos os moradores daquele vilarejo são seres humanos comuns. Na condição de seres humanos comuns, é preciso ter consciência que sentir culpa é da natureza humana e aquelas pessoas, ante a iminente presença de um inspetor geral, são tomadas pelo pânico do sentimento de culpa que na realidade é a consciência moral agindo sobre o indivíduo. Portanto, é a consciência moral pesada que está conduzindo o comportamento daquelas pessoas.

O pressionado pela consciência moral sempre espera uma punição e é essa possibilidade de punição que aterroriza aquelas pessoas, porque o tribunal interno da consciência é sempre mais poderoso do que o tribunal externo.

É preciso, portanto, recuperar a consciência de culpa e a chegada do verdadeiro inspetor geral simboliza essa recuperação da consciência de culpa para aquelas pessoas.

A obra trata, ainda, do diabo no sentido metafísico e Khlestakov simboliza o diabo em pessoa.
 
Assim, é preciso ler a obra nos seus aspectos simbólicos para que possamos compreendê-la em todo o seu sentido, tal como o autor quer nos transmitir. Infelizmente, por conta da modernidade, nós perdemos a capacidade de leitura e interpretação simbólica e por isso temos enorme dificuldade de compreender as grandes obras da literatura universal, os grandes clássicos. Portanto, tal como o Inspetor Geral simboliza a recuperação da consciência dos moradores daquela cidade, nós precisamos não só recuperar a nossa consciência, mas reaprender a leitura simbólica, senão não vamos entender nada. Nem da obra e nem do mundo que nos cerca. (Anatoli Oliynik)

Conclusão: O Inspetor Geral é a descrição de como funciona a condição humana, esclarece o prof. Monir.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

ANTROPOTEÍSMO – A Religião do Homem

Autor: Orlando Fedeli (1933-2010)
Editora: Editora e Livraria Monfort
Assunto: Religião
Edição: 1ª
Ano: 2011
Páginas: 286

 
Sinopse: O professor Dr. Orlando Fedeli, discute de maneira sistemática e profunda o culto do homem, em suas vertentes gnóstica e panteísta. Segundo o Professor Fedeli, há uma profunda unidade por trás dos diversos sistemas religiosos que surgem ao longo da história e essa unidade é dada, como procura provar, por conta do culto que as diversas religiões prestam, em última análise, ao próprio Homem, diferentemente do que ocorre no catolicismo. Além do interesse, por conta de seu próprio valor, que essa obra possa suscitar, ela se apresenta como de capital importância para o entendimento da atuação do Dr. Orlando Fedeli como polemista e professor católico.

Comentários do autor: O “rio cársico” do Antropoteísmo tem uma longa e misteriosa história, com surtos ora superficiais, ora subterrâneos. Tanto a Gnose, quanto o Panteísmo rejeitam a criação ex nihilo. No Panteísmo, o Cosmo é apresentado como uma simples etapa da evolução divina. O Universo seria um ser divino, eterno e infinito, um organismo vivo. Para a Gnose, a passagem do Pleroma divino para a situação atual se deu por meio de uma “queda”, uma ruptura, um “exílio”, uma degradação da divindade, que constituiu a criação. Foi essa “queda”, ou pecado original pré-cósmico, que produziu o universo e todos os males atuais, não só os males físicos e morais, mas o que para os gnósticos é o verdadeiro mal, o fato de ser, a existência, isto é, o mal metafísico.

A escatologia panteísta é otimista: o Deus que se transformou no mundo alcançará de novo o primitivo estado de perfeição. Por meio da evolução, tudo caminha para uma perfeição cada vez maior. O homem, redentor do universo e de si mesmo, pela sua razão, pela ciência e pela técnica, eliminará todos os males e todas as limitações que nos afligem e construirá, na Terra, o paraíso. O Panteísmo é, pois, progressista e utópico.

A Gnose considera que as partículas divinas que se desprenderam da divindade e que agora jazem no túmulo da matéria pouco a pouco serão libertadas pelo conhecimento e retornarão à divindade. Enquanto, porém, não estiverem autoconscientes de sua natureza divina, permanecerão neste mundo-cárcere e, após a morte, serão condenados a renascer ou a transmigrarem para corpos de animais, de plantas, e até, segundo alguns, a caírem na matéria bruta.

Para a Gnose, a Encarnação do Verbo não se deu, pois que ela significaria a aceitação da matéria e do corpo. Os gnósticos negavam [e negam] que Cristo tivesse corpo.

Daí, logicamente, não poderem admitir uma igreja estruturada. Para a Gnose, a verdadeira igreja era puramente espiritual, pneumática. Ela seria formada somente por aqueles que, tendo recebido a doutrina gnóstica, já estariam salvos. A união dos pneumas dos perfeitos formaria a verdadeira igreja invisível, porque espiritual.

Para evitar essas confusões, propomos chamar de Antropoteísmo ou Religião do Homem ao “rio cársico” da história. Isto é, consideramos que o que une tantas seitas, escolas e movimentos é o culto do Homem como sendo Deus. Essa Religião do Homem se dividiria em dois ramos: a Gnose e o Panteísmo.

Sendo o homem um ser composto de corpo e alma, isto é, uma parte material e outra espiritual, é logico que a adoração do Homem se divida em dois ramos fundamentais: um que diviniza o corpo, isto é, a matéria; outro que diviniza a alma, isto é, o espírito.

A corrente antopoteísta que diviniza o corpo e a matéria engloba todas as seitas e sistemas filosóficos panteístas. A corrente antropoteísta que diviniza apenas a alma, o elemento espiritual, é a Gnose propriamente dita, e que inclui todas as seitas que em geral são classificadas como gnósticas pelo comum dos autores.

VIDEO-AULAS EM DUAS PARTES
 
PARTE 1

 



PARTE 2