quarta-feira, 23 de novembro de 2011

ULISSES

Título original: Ulysses
Autor: James Joyce
Tradução: Bernardina da Silveira Pinheiro
Editora: Alfaguara
Assunto: Romance
Edição: 1ª
Ano: 2007
Páginas: 912

 
Sinopse: O livro narra o dia em que Stephen Dedalus e seu amigo Leopold Bloom saem da Torre Martello para tocar a vida, sem pretensões, pelo menos sem grandes projetos. Dedalus, personagem surgido no romance anterior de Joyce (Um Retrato do artista quando jovem), é um sonhador, imerso em considerações filosóficas sobre a carreira. Para Leopold Bloom, entretanto, naquele dia o que mais o atormenta é uma possível traição de Molly, sua mulher, que é cantora e na tarde daquele 16 de junho de 1904 vai se encontrar com seu empresário Blazes Boylan.

Leopold Bloom, a personagem central da obra, foi definido pelo próprio Joyce como: — "filho, pai, amante, trabalhador e cidadão, é ainda uma pessoa bondosa, humana, prudente, equilibrada, submissa, tragicamente isolada, astuta, cética, simples, não-reprovadora, com um exterior aparentemente maleável, mas com uma essência íntima inflexível, de auto-suficiência".

Resumo da narrativa:
Escrita em 1922, a obra retrata um dia (16 de junho de 1904) na vida de Leopold Bloom, um corretor de anúncios vivendo em Dublin. Construída como paródia da obra “Odisséia” de Homero, a história reproduz, em dezoito capítulos, as cenas do retorno a Ítaca de Ulysses (Odisseu), dando-lhe um equivalente no cotidiano da vida de Bloom. O herói da primeira obra, Stephen Dedalus, que é o alter ego literário de James Joyce, interage com Leopold Bloom ao longo da obra.

Otto Maria Carpeaux resume a obra assim:

Ulisses é a Divina Comédia do nosso tempo. Pouco de Paraíso, mais do Purgatório e muitíssimo do Inferno. É, entre todas as obras modernas que conheço, a mais amarga, a mais desconsolada, a mais trágica – e, no entanto, não é uma tragédia: é um romance. Há em sua soberba ironia algo do espírito do arqui-romancista: de Cervantes. Não estão de todos errados aqueles que acreditam perceber, atrás da face trágica de Ulysses, o cerne cômico: a paródia do gênero do qual a obra é a obra-prima.

Comentários: Livremente inspirado na Odisséia, do grego Homero, Ulisses foi escrito pelo irlandês James Joyce. Na realidade a obra é uma paródia de Odisséia.

Joyce quis escrever simplesmente sobre tudo o que se passa na vida de um homem, em apenas um único dia. "Realmente tudo aconteceu naquele bendito dia 16 de junho de 1904", quando Leopold Bloom sai de casa para um enterro e irá percorrer Dublin durante um dia inteiro, visitando biblioteca, jornal, bordel e bares. No final ocorre o encontro com Stephen Dedalus, um jovem intelectual de Dublin e personagem central do livro "Um Retrato do Artista Quando Jovem", na verdade o alter ego de Joyce. O Sr. Bloom é o equivalente ao Ulisses (para os romanos) ou Odisseu (para os gregos), herói da "Odisséia" e Stephen, a Telêmaco, seu filho. Assim como na obra de Homero, o herói faz um grande caminho e retorna para casa, reencontrando no caminho o seu filho morto aos onze dias de idade e com isso recuperando a consciência simbólica do seu papel espiritual.

Interpretação da obra:
Leopold Bloom é um sujeito generoso, decente, conformado, pacato e completamente perdido quanto ao seu papel existencial. No conceito aristotélico simboliza o Espírito (ou Intelecto).

Stephen Dedalus é o vaidoso intelectual. Simboliza a Mente (Razão).

Molly é uma atriz de teatro volúvel e de tendências libidinosas que teve 25 casos fora do casamento. Simboliza o Corpo (Matéria).

Segundo a partição aristotélica da vida humana, Espírito, Mente e Corpo são as três possibilidades existenciais, ou seja, os valores considerados pelo ser humano.

Análise das personagens

Leopold Bloom:

- Não é capaz de compreender-se ontologicamente;

- Não tem consciência do seu papel espiritual;

- Não acredita no espírito;

- Não tem fé;

- Está perdido existencialmente;

- Sua ação sobre o mundo é nula.

O homem moderno é assim.

Stephen Dedalus

- Renega e abandona a pátria, a religião e a família.

- É a mente desvinculada do espírito.

O humanista típico é assim.

Molly

- Simboliza o mundo material e os prazeres carnais.

A Mente precisa do Espírito e ambos precisam do Corpo para existir concretamente.

Então, o que cada uma das personagens faz?

Bloom, que simboliza o Espírito (Intelecto), retorna à sua casa e retoma a consciência do seu papel espiritual. Ele já não serve mais o café na cama para a sua mulher Molly como o fazia desde o casamento. Agora é ela quem faz e isso tem um significado que será explicado mais adiante.

Molly, que simboliza o Corpo (Matéria) se submete ao Espírito. Assim, é ela quem agora irá levar o café na cama para Bloom. A ordem foi restabelecida.

Stephen, que simboliza a Mente (Razão), sai da história para escrever o livro Ulisses.

Conclusão:

A obra nos mostra as três possibilidades existências para uma vida humana concreta: Corpo (Matéria), Mente (Razão) e Espírito (Intelecto ou Alma). Portanto, Molly quis se casar com Leopold porque o Corpo só é viável sob a sombra do Espírito.

O homem moderno não compreende isso, razão pela qual vive no caos existencial, protagonista de uma corrida desenfreada em busca da felicidade onde ela não está e onde jamais poderá ser encontrada: no mundo material dos prazeres carnais.

Sobre o Autor:

James Joyce em 1926
James Joyce (1882-1941) nasceu em uma abastada família católica, no subúrbio de Dublin, Irlanda. Educado em colégio jesuíta, estudou Filosofia e Línguas na University College. Já nos primeiros anos de faculdade, já publicava artigos na imprensa e começava a escrever os poemas líricos mais tarde reunidos no livro Câmara de música. Morou em Paris, em Trieste e em Zurique, onde a família viveu na pobreza, enquanto ele escrevia Ulisses.

É considerado um dos autores de maior relevância do século XX, e seus textos influenciaram, de uma maneira ou de outra, todos os escritores que lhe sucederam. Suas obras mais conhecidas são o volume de contos Dublinenses (1914) e os romances Um retrato do artista quando jovem (1916), Ulisses (1922) e Finnegans wake (1939). Os três últimos exerceram enorme impacto na literatura inglesa modernista. William Faulkner e Virginia Woolf são alguns dos grandes escritores cujas obras foram fortemente inspiradas pelas de Joyce.

Embora tenha vivido fora da Irlanda durante a maior parte da vida, suas experiências em seu país de origem são de grande importância para a compreensão de sua obra. O universo ficcional de Joyce enraíza-se fortemente em Dublin e reflete sua vida familiar e eventos, amizades e inimizades dos tempos de escola e faculdade.

O autor morreu em janeiro de 1941, dois meses depois de retornar com a família à Suíça. Todos os anos, sua vida é celebrada no dia 16 de junho. Conhecida como “Bloomsday”, a data é comemorada não apenas em Dublin, mas também em diversas outras cidades ao redor do mundo.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

DEMIAN

Título original: DemianAutor: Hermann Hesse (1877-1962)
Tradução: Ivo Barroso
Editora: Record
Assunto: Romance
Edição: 41ª
Ano: 2009
Páginas: 188

Sinopse: O livro relata o amadurecimento de um jovem a partir de sua estranha relação com um rapaz de personalidade misteriosa e sedutora, que muda sua vida para sempre.

O tema central do livro é o conflito entre a dualidade “mundo luminoso” (ideal) e “mundo sombrio” (real) por que tem de passar Sinclair para encontrar a sua personalidade.

Resumo da narrativa: O livro conta a história de um jovem -- Emil Sinclair, protagonista e narrador -- criado por pais muito piedosos que, de repente, se vê em um mundo bem diferente daquele pregado por seus pais e avós. Atormentado pela falta de respostas às perguntas que faz sobre sua existência, passa a procurar na introspecção suas respostas. Dividido entre o mundo ideal e o real, com suas interpretações (mundo claro e paternal, associado às idéias de seus pais e à residência destes, e o mundo sombrio e frio, externo à residência dos pais e com valores estranhos a estes), Sinclair experimenta ambos, através do confronto com suas próprias concepções, para tentar encontrar sua verdadeira personalidade. Percorrendo este caminho perigoso, influenciado por Max Demian, um colega de classe precoce e envolvente, ele prova do crime, da amizade e das incertezas -- surpresas que engendram as descobertas de sua vida adolescente. Sinclair, então, se rebela contra as convenções sociais e descobre não apenas o doce sabor da independência mas também seu poder de praticar o bem ou o mal. A relação de Sinclair e Demian atravessa toda a narrativa a partir do momento que os personagens se conhecem. Demian revela a Sinclair que existem filhos de Caim, pessoas que possuem a capacidade de exercer o bem e o mal; também apresenta a entidade Abraxas, divindade de características humanas -- também capaz de exercer o bem e o mal. A obra tem muitas referencias bíblicas, como o Sinal de Caim e o Gólgota[1], tornando dificil a leitura a quem não sabe muito sobre a religião cristã, mas também trata de misticismo e autoconhecimento, da busca da essência do Eu. A obra narra principalmente os conflitos internos que um indivíduo passa desde a infância, através da adolescência, até sua idade adulta. É possível afirmar que Demian trata-se de um romance iniciático, descrevendo os contatos de um indivíduo com aspectos existenciais e de sua personalidade.

Comentários: Considerada por muitos críticos a principal obra de Hesse, Demian mostra a influência que este sofreu dos escritos de Nietzsche [aqui está o grande problema de Hesse. Ele parte de um caminho falso!] e a aplicação de seus conhecimentos de psicanálise na elaboração do drama ético e da enorme confusão mental de um jovem que toma consciência de sua fragilidade diante da ausência total de compostura da moral sancionada pelos pais e pelo Estado e sai em busca da verdade e de si mesmo.

O livro reflete, obviamente, a tendência do introduzir na literatura a doutrina de Freud, que estava na ordem do dia, e da qual Hesse era um apaixonado estudioso. Daí a presença constante do onirismo[2] na obra, de um certo entrevelado complexo de Édipo (aqui exposto através de um sutil mecanismo de transferência), de permeio com reminiscência de estudos de ciências antigas e herméticas, hauridos na intimidade da biblioteca do avô materno.

Hermann Hesse era um homem atormentado espiritualmente e só encontra a sua verdadeira identidade no catolicismo magistralmente relatado na sua ultima obra “O Jogo das Contas de Vidro”.

À guisa de prólogo: “Para relatar a história de minha vida, devo recuar alguns anos. Se me fosse possível, deveria retroceder ainda mais, à primeira infância, ou mais ainda, aos primórdios de minha ascendência”.

Os romancistas, quando escrevem suas obras, costumam proceder como se fossem Deus e pudessem abranger com o olhar toda a história de uma vida humana, compreendendo-a e expondo-a como se o próprio Deus a relatasse, sem nenhum véu, revelando a cada instante sua essência mais íntima. Não posso agir assim, e os próprios poetas não o conseguem. Minha história é, no entanto, para mim, minha própria história, e a história de um homem – não a de uma personagem inventada, possível ou inexistente em vivo. Hoje sabe-se cada vez menos o que isso significa, o que seja uma homem realmente vivo, e se entregam à morte sob o fogo da metralha a milhares de homens, cada um dos quais constitui um ensaio único e precioso da Natureza. Se não passássemos de indivíduos isolados, se cada um de nós pudesse realmente ser varrido por uma bala de fuzil, não haveria sentido algum em relatar histórias. Mas cada homem não é apenas ele mesmo; é também um ponto único, singularíssimo, sempre importante e peculiar, no qual os fenômenos do mundo se cruzam daquela forma uma só vez e nunca mais. Assim, a história de cada homem é essencial, eterna e divina, e cada homem, ao viver em alguma parte e cumprir os ditames da Natureza, é algo maravilhoso e digno de toda a atenção.

Sobre o autor: Contista, poeta, ensaísta e editor de obras importantes da literatura alemã, Hermann Hesse nasceu em 2 de julho de 1887 na pequena cidade de Calw, na Alemanha. Filho de um missionário, pregador pietista[3], Hesse passou a infância na sua cidade. Viveu na Basiléia de 1881 a 1886 e freqüentou, em 1890, a escola de latim em Goppingen, diplomando-se em 1891. Conseguiu escapar dos estudos de teologia ao fugir do seminário de Maulbronner. Começou a trabalhar cedo, empregando-se em uma livraria em Ebingen e mais tarde como antiquário. A partir de 1903, dedica-se exclusivamente à literatura.

Desencantado com a civilização européia, viajou para Índia em 1911 para conhecer a vida no Extremo Oriente. Partidário do pacifismo lutou contra “a loucura sangrenta da guerra”. Exatamente por protestar contra a Primeira Guerra Mundial, perdeu a cidadania alemã, tornando-se cidadão suíço. Hesse é um dos principais representantes dos escritores do século XX que procuraram manterem-se fiéis às tradições literárias românticas e clássicas, em contraposição à era folhetinesca e propagandística. Sua primeira grande obra, Peter Camenzind, foi lançada em 1904, e trata do melancólico desenvolvimento de um homem de origem modesta que, dotado de talento musical e espírito idealista, não consegue satisfazer as exigências práticas da sociedade.

A índole acentuadamente romântica e a tendência para a análise psicológica caracterizaram as primeiras obras de Hesse. Em 1919 ele publicou Demian, considerado seu melhor livro pelos críticos [Considero como o melhor livro “O jogo das contas de vidro”]; O último verão de Klingsor, em 1920; Sidarta, em 1922; O lobo da estepe, em 1927; Narciso e Goldmund, em 1930; O jogo das contas de vidro, em 1943; e muitas outras obras. Em 1946, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. Morreu em 9 de agosto de 1962 aos 75 anos.

[1] Gólgota [Do top. Gólgota] Lugar de suplício.

[2] Onirismo [De onir(o)- + -ismo.] 1. Psiq. Quadro alucinatório grave que se apresenta sob a forma de sonho vivido.

[3] Pietismo foi um movimento protestante nascido na Igreja Luterana alemã do séc. XVII como reação ao dogmatismo da Igreja oficial. Consiste em concentrar a prática religiosa a pequenos círculos de meditação e de oração. O criador é Philipp Jacob Spener (1635-1705) e o maior disseminador é o conde de Zinzerdorf (1700-1760), criador da Ordem do Grão de Mostarda [muito citado no livro: “Os Anos de Aprendizado de Wilhelm Meister” de Goethe]. Anatoli Oliynik.

Abraxas (cs) [Do grego abraxás, poss. criptograma (= 'Que Deus proteja') de origem hebraica.] 1. Palavra simbólica entre os gnósticos, que exprime o curso do Sol nos 365 dias do ano. 2. Talismã gnóstico gravado com essa palavra.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

THOMAS MANN: Uma biografia

Título original: Thomas Mann A Life 
Autor: Donald Prater
Tradução: Luciano Trigo
Editora: Nova Fronteira
Assunto: Biografias
Edição: 1ª
Ano: 2000
Páginas: 672

Sinopse: Este livro revela os principais acontecimentos da vida familiar e profissional do maior romancista alemão do século XX. Suas lutas e ideais, seu amor pela arte, e os difíceis relacionamentos que manteve em família são relatados nesta obra, possibilitando um profundo conhecimento sobre a vida do vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1929. Interligando fatos, livros, amigos, filhos, amores e personagens, o livro apresenta a vida desse romancista que definiu o rumo da literatura alemã contemporânea e jamais deixou a ironia e os subentendidos o desviarem de seu estilo sóbrio e formal.
Autor de alguns dos maiores clássicos modernos da literatura universal, incluindo “A Montanha Mágica”, “Doutor Fausto”, “Morte em Veneza”, “Os Buddenbrooks”, Thomas Mann (1875-1955) destacou-se ao conjugar em seus livros a elaboração de suas dúvidas e inquietações existenciais com a representação dos conflitos de uma época de transformações profundas, característica que certamente lhe foi inspirada por uma ligação com a tradição idealista e romântica alemã, principalmente com Goethe, seu modelo maior tanto para a literatura como para a vida.
Mann viveu um mundo de contradições, tanto em relação à sua vida pessoal quanto no que se refere aos destinos da nação alemã. Logo no preâmbulo desta obra, ele deixa o seguinte registro:
“Não é fácil ser um alemão. (...) Este povo sofre com sua própria natureza até a repulsa. (...) Existe algo profundamente irracional em relação à alma alemã que, para a mente e o julgamento dos outros povos mais superficiais, parece perturbada, agitada, estranha, na verdade repelente e ofensiva.”
Thomas Mann, Gedanken im Krieg
Thomas Mann pertencia à elite de uma sociedade em degeneração e, ao invés de se deixar influenciar pelas idéias burguesas em ascensão e dedicar-se à administração, aos negócios e à indústria de guerra, voltou-se desde os tempos de escola, ao latim, ao grego e às letras, fazendo, já naquela época, sua opção pelo humanismo.
De forma atraente e elegante – interligando fatos, livros, amigos, filhos, amores e personagens –, Thomas Mann: uma biografia apresenta a vida desse romancista que definiu o rumo da literatura alemã contemporânea e jamais deixou a ironia e os subentendidos o desviarem de seu estilo sóbrio e formal. Numa abordagem privilegiada, repleta de referências sobre as relações pessoais e artísticas de Mann e de informações sobre a conjuntura internacional do século XX, este livro narra a saga de um “Goethe moderno” e faz o leitor mergulhar na história de um homem que se tornou seu próprio personagem.
Neste blog você encontrará a apresentação e os comentários de suas principais obras.

Leia a sinopse de "A MONTANHA MÁGICA" clicando no link a seguir:

http://anatoli-oliynik.blogspot.com/2009/01/montanha-mgica.html


Casa de Thomas Mann em Munique (1909-1917)

domingo, 14 de agosto de 2011

O NOME DA ROSA


Desmascarando um farsante!


 
Título original: Il nome della Rosa
Autor: Umberto Eco
Tradução: Aurora Fornoni Bernardini e Homero Freitas de Andrade
Editora: Record
Assunto: Romance
Edição: 2ª
Ano: 2010
Páginas: 573

Sinopse: O ano é 1327 e o local é um mosteiro franciscano da Itália medieval. Neste mosteiro paira a suspeita de heresia, e, para a investigação, é enviado o frei Guilherme de Baskerville. Porém, a delicada missão é interrompida por sete excêntricos assassinatos. Esses crimes fazem frei Guilherme atuar como um detetive. Ele busca provas, decifra símbolos secretos e manuscritos em códigos e trabalha arduamente no misterioso labirinto do mosteiro onde os eventos extraordinários ocorrem durante a madrugada.
Utilizando sua brilhante capacidade de dedução, o monge franciscano Guilherme de Baskerville, auxiliado pelo noviço Adso, se empenha para desvendar o mistério. Mas antes que Guilherme possa completar sua investigação, o monastério é visitado pelo seu antigo desafeto, O Inquisidor Bernardo Gui. O poderoso Inquisidor está determinado a erradicar a heresia através da tortura e se Guilherme, o caçador, persistir na sua busca, também se tornará caça. Mas a medida que Bernardo Gui se prepara para ascender a fogueira da Inquisição, Guilherme e Adso voltam à biblioteca labirintesca e descobrem uma extraordinária verdade..." (que não passa de uma mentira de Umberto Eco, autor do romance deste livro).

Comentários: Esta obra não merece figurar entre as obras publicadas neste blog. Só o fazemos para esclarecer aos leitores que seu autor é um mentiroso e farsante intelectual. Não significa que os leitores não devam ler a obra, mas ao lê-la devem saber por antecipação que se trata de uma obra onde seu autor sub-reptíciamente agride uma Instituição religiosa e cristã com uma mentira grotesca de provocar engulho nos leitores e literatos esclarecidos.

Este livro é uma caricatura monstruosa que o refinado hipócrita e marxista militante, Umberto Eco, faz da Igreja na Idade Média. Eco é um mentiroso, farsante, cinico e dissimulado: Como é possível falar da descoberta da 2ª parte do livro “Poética” de Aristóteles que tratava da Comédia [pág. 538], se nem se sabia da existência da 1ª primeira parte que tratava da Tragédia na época que transcorre o romance? A “Poética”, que Eco cita no enredo da história, só foi descoberta em 1548 pelo italiano Francesco Francisci Robortelli e o romance transcorre no ano de 1327, ou seja, 221 anos antes da descoberta original da "Poética" de Aristóteles. Umberto Eco sabia disso devido sua formação em Estética Medieval, e mesmo assim produziu essa mentira. (Anatoli Oliynik).

terça-feira, 12 de julho de 2011

A LINHA DE SOMBRA

Título original: The Shadow-Line
Autor: Joseph Conrad
Tradução: Maria Antonia van Acker
Editora: Hemus (O Globo)
Assunto: Romance
Edição: 1ª
Ano: 2003
Páginas: 159

Sinopse: Escrita em 1917, esta obra conta a história de um jovem oficial da marinha mercante que, sem nenhum motivo aparente resolve abandonar a sua carreira e voltar para casa. Entretanto, surge uma última missão e o jovem assume o comando de um velho navio atracado em Bancoc (Tailândia), cujo capitão morrera recentemente, em circunstâncias misteriosas.
Em seu primeiro comando de um navio, o nosso herói enfrenta duas crises: sua tripulação está moribunda por causa de uma violenta epidemia de febre e uma interminável falta ventos para navegar. Nesta dramática situação envolvendo uma sensação ameaçadora de aniquilamento, o jovem capitão tenta conduzir o navio ao seu destino, ao mesmo tempo em que se deixa levar pelas histórias estranhas contadas pelo seu imediato, já consumido pela febre, sobre o capitão que morrera recentemente no comando que agora pertencia ao jovem capitão.
Para escapar desse beco sem saída, o jovem capitão terá de cruzar a tal linha de sombra que separa toda experiência-limite.
Resumo da narrativa: Um jovem imediato da marinha mercante inglesa decide abandonar a sua carreira no mar e voltar para casa. Assim que o seu navio atraca em Bancoc (Tailândia), ele se hospeda em uma estalagem destinada apenas aos homens do mar. Lá conhece o capitão Giles que convence o jovem imediato a ir tirar satisfações com dois homens que parecem discutir sobre a existência de uma vaga como capitão de um navio, já que o antigo capitão morrera de uma forma bem estranha. O jovem imediato assume a vaga de capitão sendo bem recebido pela tripulação, exceto pelo seu imediato, o Sr Burns. Antes de zarparem, a tripulação foi acometida por uma febre que obrigou o navio a permanecer atracado por mais alguns dias. O Sr Burns precisou ficar acamado e fez o novo capitão prometer que não seria deixado em terra firme, assim que o navio partisse. O capitão acreditava que no mar, com o ar purificado, a febre iria embora e decide partir levando o Sr. Burns conforme prometera. Burns conta ao capitão como seu antecessor (um homem muito mau e meio amalucado) morrera. Contou que ele tocava violino o tempo todo em sua cabine e que um dia teve um ataque (barulhento, por sinal) e foi encontrado morto sentado numa cadeira em sua cabine. Sr Burns o sepultou no mar e parecia acreditar que o espírito do velho capitão ainda sondava o navio. Após a partida o navio se defronta com uma calmaria assustadora. E, para piorar, a febre volta a assolar a tripulação. Todos os homens estão fracos e imprestáveis, menos o capitão e o cozinheiro Ransome de quem o capitão se torna amigo. Passaram-se duas semanas no mar na mais completa e angustiante calmaria! Nada acontecia. O capitão tenta medicar seus homens, mas descobre que os vidros de remédio haviam sido esvaziados misteriosamente e preenchidos com um pó imprestável. Esta situação por um lado, e Burns a dizer que tudo era obra da alma do velho capitão em busca de sua tripulação por outro, começa a perturbá-lo e o deixa assustado! Seu único companheiro com saúde, o cozinheiro Ransome, apesar de ter problemas cardíacos, o ajudava em tudo que podia e tornou-se imprescindível ao capitão. Depois de dezessete dias de calmaria, o tempo melhora e o capitão, com a ajuda de alguns homens, prepara todo o navio para seguir seu destino, assim que o vento retornasse. O Sr Burns que havia deixado sua cabine para ver o que se passava, começa a gritar e a amaldiçoar o velho capitão do navio ao mesmo tempo em que soltava uma gargalhada medonha e provocativa, dando a entender ao falecido capitão que ele já não tinha mais poder nenhum sobre o navio. Sua intenção ao enfrentar o suposto fantasma era tirar o navio de sua influência maléfica.
No dia seguinte, o vento retorna e eles prosseguem a viagem. Depois de alguns dias, o navio chega ao seu destino. Ransome pede permissão ao capitão para permanecer em terra, estava com receoso com que poderia acontecer com seu coração. O capitão se encontra com capitão Giles e eles conversam sobre a experiência recém-vivida pelo jovem capitão. Ao final, chegam à conclusão de que o jovem capitão havia deixado de ser um jovem para se tornar um adulto. Acabara de atravessar sua linha de sombra. Depois de tudo isso, nosso capitão não volta para sua casa, mas para seu navio e segue seu destino no mar.
Trecho da obra:
“Apenas os jovens têm tais momentos. Não me refiro aos muito jovens. Não. Os muito jovens não têm, a bem dizer, momento algum. É um privilégio do começo da juventude viver adiante de seus dias, em toda a bela continuidade de esperança que não conhece pausas ou interrupções. Fecha-se atrás de si o pequeno portão da mera meninice - e adentra-se um jardim encantado. Até as sombras aqui resplandecem cheias de promessas. Cada curva da vereda tem suas seduções. E não porque se trate de um país desconhecido. Sabe-se muito bem que a humanidade toda já trilhou aquela senda. É o encanto da experiência universal, da qual se espera extrair uma sensação incomum ou pessoal – um algo que seja só nosso. Vai-se reconhecendo os marcos dos predecessores, excitado, divertindo-se, aceitando a boa como a má sorte – as rosas e os espinhos, como se costuma dizer -, o pitoresco lote padrão, que guarda tantas possibilidades para os merecedores, ou talvez para os afortunados. Sim. Vai-se adiante. E o tempo, também, caminha - até que se percebe logo adiante uma linha de sombra avisando-nos que também a região da mocidade deverá ser deixada para trás. Este é o período da vida no qual os tais momentos de que falei costumam aparecer. Que momentos? Ora, os momentos de tédio, de desânimo, de insatisfação. Momentos temerários. Quero dizer, momentos em que os ainda jovens estão propensos a cometer gestos temerários, como casar-se de repente ou então abandonar um emprego sem motivo algum. Esta não é uma história de casamento. Não foi assim tão ruim comigo. Meu gesto, temerário que foi, teve mais a natureza de um divórcio - quase uma deserção. Sem motivo algum que uma pessoa razoável pudesse apontar, larguei meu emprego - descartei o meu posto -, deixei o navio do qual o pior que se poderia dizer era que, sendo um navio a vapor, talvez não fizesse jus àquela lealdade cega que... Entretanto, de nada adianta dourar uma pílula que, já naquela época, eu mesmo quase suspeitava ser um capricho. Era um porto oriental. Ele era um navio oriental porquanto pertencesse, então, a um porto oriental. Ele comerciava pelas ilhas escuras sobre um mar azul rasgado por recifes, com a bandeira vermelha da marinha mercante inglesa sobre a grinalda de popa e, no calcês, a bandeira da companhia de navegação, também vermelha, mas com beiradas verdes e uma lua crescente. É que o proprietário era árabe e, aliás, da nobreza muçulmana. Ele era o cabeça de uma grande estirpe de árabes das colônias britânicas, mas um súdito tão fiel do complexo império britânico quanto era possível encontrar a leste do canal de Suez. Política internacional não o preocupava nem um pouco, mas ele tinha um grande poder oculto entre os de seu povo. Para nós pouco importava quem era o proprietário do navio. Ele tinha que empregar homens brancos na parte de navegação do seu negócio, e muitos daqueles que empregava nunca puseram olhos nele do primeiro ao último dia. Eu mesmo o vi apenas uma vez, por mero acaso, num cais - um velho e escuro homenzinho, cego de um olho, vestindo uma túnica alva e sapatas amarelas. Sua mão estava sendo impiedosamente beijada por camponeses malaios a quem ele havia feito algum favor em forma de comida e dinheiro. Sua caridade, ouvi dizer, era praticada extensivamente, abrangendo quase todo o arquipélago. Pois não se diz que: "O homem caridoso é amigo de Alá"? Excelente (e pitoresco) proprietário árabe, sobre o qual não se precisava dar tratos à bola; um realmente excelente navio escocês - pois é isto o que era da quilha até em cima -, excelente embarcação marítima, fácil de conservar limpa, muito prática em todos os sentidos, e, não fosse pela sua propulsão interna, digna do amor de qualquer homem. Eu cultivo até os presentes dias um enorme respeito pela sua memória. Quanto ao ramo de comércio em que ela atuava e o caráter dos meus companheiros de bordo, eu não poderia ter sido mais feliz se tivesse a vida e os homens feitos sob encomenda para mim por um benevolente Feiticeiro. E subitamente abandonei tudo isto. Eu abandonei tudo daquele modo, para nós, inconseqüente, pelo qual um pássaro voa para longe de um galho confortável. Era como se, todo incompreensão, eu tivesse ouvido um sussurro ou visto algo. Bem - quem sabe! Num dia eu estava perfeitamente bem, no outro tudo me havia fugido - encanto, sabor, interesse, alegria, tudo. Era um daqueles momentos, você sabe. O verde mal do fim da juventude desceu sobre mim e levou-me embora. Levou-me embora daquele navio, é o que quero dizer. Éramos apenas quatro homens brancos a bordo, com uma tripulação grande de marinheiros malaios, e dois contramestres malaios. O Capitão encarou-me como se tentasse adivinhar o que me afligia. Mas ele também era marinheiro, e ele também fora jovem certa época. Logo um sorriso insinuou-se por baixo de seu bigode farto, cinza-aço, e ele observou que, é claro, se eu achava que tinha de ir, ele não iria reter-me pela força. E ficou arranjado que eu receberia baixa na manhã seguinte. Enquanto eu saía do camarim de navegação ele acrescentou subitamente num tom peculiar, ansioso, que esperava que eu encontrasse aquilo por que estava tão ansioso para sair e procurar. Uma frase suave, enigmática, que pareceu alcançar mais fundo do que qualquer ferramenta com ponta de diamante poderia chegar. Eu sinceramente creio que ele entendeu o meu caso. Mas o segundo engenheiro atacou diversamente. Ele era um jovem e robusto escocês, com rosto sereno e olhos claros. Seu semblante honesto e vermelho emergiu da gaiúta da escotilha da sala das máquinas, e logo depois o robusto indivíduo inteiro, de mangas arregaçadas, lentamente limpando os maciços antebraços com um chumaço de estopa. E seus olhos claros exprimiam amargo desgosto, como se nossa amizade tivesse sido reduzida a cinzas. Ele falou dando peso às palavras: - Ah! Sim! Eu já estava mesmo pensando que era tempo de você correr para casa e se casar com alguma menina tonta. Tinha-se por entendimento tácito no porto que este John Nieven era um misógino feroz; e o caráter absurdo do chiste convenceu-me de que sua intenção fora ser maldoso - muito maldoso -, ele quis realmente dizer a coisa mais arrasadora em que conseguisse pensar. Meu riso soou suplicante. Ninguém a não ser um amigo ficaria assim tão zangado. Eu fiquei um pouco aborrecido. Nosso maquinista chefe também viu meu gesto de um modo característico, mas num espírito mais gentil. Ele era jovem também, mas muito magro, e com uma névoa fofa de barba marrom em volta do rosto descarnado. O dia todo, no mar ou no porto, ele poderia ser pego andando apressadamente para cima e para baixo no tombadilho, adotando uma expressão intensa de enlevo espiritual, que era causada por uma perpétua consciência de desagradáveis sensações físicas em sua economia interna. Pois ele era um dispéptico inveterado. O modo como via meu caso era muito simples. Declarou que não era nada mais do que disfunção hepática. É óbvio! Ele sugeriu que eu ficasse para mais uma viagem e no meio tempo me medicasse com um certo remédio garantido, no qual ele mesmo tinha absoluta confiança. - Digo a você o que farei. Compro-lhe dois vidros do meu próprio bolso. Aí está. Não existe proposta mais justa do que essa, ou existe? Creio que ele teria perpetrado a atrocidade (ou generosidade) ao menor sinal de amolecimento da minha parte. Entretanto, eu estava naquela época mais descontente, mais desgostoso e intratável do que nunca. Os dezoito meses que haviam se passado tão cheios de novas e variadas experiências pareciam-me um enfadonho e prosaico desperdício de dias. Eu sentia - como poderei expressá-lo? - que não havia uma verdade a ser extraída deles. Que verdade? Eu me veria numa situação bastante difícil se fosse obrigado a explicar. Provavelmente, se pressionado, teria simplesmente começado a chorar. Eu era jovem o suficiente para tanto.”
Comentários: Esta última obra-prima de Joseph Conrad marca o limite – tão indefinível e incompreensível, quanto inquietante e doloroso – que num determinado momento da vida configura, de modo irrevogável, o fim da juventude. Para o protagonista deste romance intenso, a ultrapassagem dessa fronteira coincide com uma experiência excepcional e dramática: oficial da marinha mercante, em seu primeiro comando se defronta com uma interminável calmaria no clima insalubre dos mares do Sudoeste Asiático, enquanto vê sua tripulação ser dizimada por uma violente epidemia de febre.
À imobilidade cada vez mais ameaçadora e sinistra do navio contrapõe-se a intensificação, nos homens que o deveriam conduzir, de uma angústia e de um medo que deixam o comandante na desolada solidão de sua responsabilidade e de sua impotência. Nos dezessete dias de calmaria – metáfora de um tempo e de um espaço espantosamente concentrados –, ele parecerá atravessar todas as fases de uma existência, descobrindo a maravilha do terror, a ânsia irremediável nos sobressaltos de alegria ou ainda a sutil sensação de derrota que permeia um episódio de libertação.
Quando vencer essa situação, o comandante exibirá o traço indelével de uma ferida da alma, no fundo da qual encontrará confusa e corajosamente a consciência definitiva da condição humana.
Com domínio total da psicologia das personagens e da situação-limite que vivem, Joseph Conrad (1867-1924) reflete nesta novela, a partir de elementos de sua própria biografia, sobre o rito de passagem entre a juventude e a idade madura - passagem que ele mesmo experimentou ao abandonar a relativamente autônoma vida marítima pela incerta experiência literária.
Lançado ao mar para realizar uma travessia, a da juventude à vida madura. Não há cenário melhor do que o mar para se deixar de ser jovem, daquela maneira descuidada e ardente, nas palavras do autor, e tornar-se adulto, mais autoconsciente e pungente. O mar força a ação, querendo ou não, deve-se agir. Lidar com o vento, com a tripulação e com a própria consciência - inquiridora recorrente quando se está no meio de um oceano - são "momentos de precipitação" oportunos nesse caminho do qual se pode afastar-se, mas não escapar. Dele não fugiu um rapaz polonês, que aos 21 anos já perdera os pais, tentara o suicídio e se aventurara em navios mercantes. Essa não é descrição de mais uma personagem, mas sim do próprio autor. Conrad esteve nos lugares que descreve tão bem; conheceu figuras enigmáticas, como o capitão Gilles, paranóicas, como Mr. Burns e prestimosas, como Gambril. E, como muitos de seus heróis, rearrumou a memória e narrou o que viu, ouviu e viveu.
Concluindo: A linha de sombra é um daqueles romances cuja compreensão depende de uma percepção da vida dificilmente acessível aos mais jovens, posto que (palavras de Conrad): "É um privilégio do começo da juventude viver adiante de seus dias, em toda a bela continuidade de esperança que não conhece pausas ou interrupções." Privilégio que não se pode prorrogar, sob pena de fazer da vida uma simulação, uma tentativa de congelar o que já não existe, já passou.
Sobre o autor: Joseph Conrad, cujo verdadeiro nome era Teodor Józef Konrad Korzeniowski, nasceu em 1857, na Ucrânia, numa família polonesa, e morreu em Bishopsbourne, Inglaterra, em 1924. Aos 17 anos, abraçou o ofício de marinheiro, tendo embarcado para Marselha e dali passou a viver nos mares em navios franceses e, mais tarde, ingleses.
Em 1884, obteve licença de comandante de longo curso e naturalizou-se inglês, com o nome de Joseph Conrad. Cumpriu toda a carreira de oficial da marinha mercante, atravessando os oceanos do mundo todo, sobretudo na Ásia, na África e na Oceania.
Em 1894, abandonou o mar e fixou-se na Inglaterra, dedicando-se à literatura após o sucesso de seus primeiro romance, A Loucura de Almayer (1895). Em sua vasta produção literária (ao todo, 23 volumes de romances, novelas e contos), destacam-se O Negro do Narciso (1898), Lord Jim (1900), O Coração das Trevas (1902), Tufão (1903), Nostromo (1904), O Agente Secreto (1907), A Linha de Sombra (1917) e A Flecha de Ouro (1919).

terça-feira, 14 de junho de 2011

O LOBO DA ESTEPE

Título original: Der Steppenwolf
Autor: Hermann Hesse (1877-1962)
Tradução: Ivo Barroso
Editora: Record
Assunto: Romance
Edição: 35ª
Ano: 2010
Páginas: 238

Sinopse: 'O Lobo da Estepe' foi escrito em 1927 quando Hesse tinha 50 anos, como seu personagem, e estava influenciado pela psicanálise.

A primeira parte do livro é o pesadelo do lobo Harry Haller, sua depressão e sua incapacidade de se comunicar, que está na base da crueldade e da autodestruição. Na segunda parte, Harry se humaniza através da entrada de Hermínia, que tenta reaproximá-lo do mundo, neste caso, uma comunidade simplória, com salas de baile poeirentas e bares pobres.

Enredo: “Era uma vez um certo Harry. (...) Andava sobre duas pernas, usava roupas e era um homem, mas não obstante era também um lobo da estepe. Havia aprendido uma boa parte de tudo quanto as pessoas de BM entendimento podem aprender, e era bastante ponderado. O que não havia aprendido, entretanto, era o seguinte: estar contente consigo e com sua própria vida (...) nele o homem e o lobo não caminhavam juntos, nem sequer se ajudavam mutuamente, mas permaneciam em contínua e mortal inimizade e um vivia apenas para causar dando ao outro, e, quando há dois inimigos mortais num mesmo sangue e na mesma alma, então a vida é uma desgraça. Bem, cada qual tem o seu fardo.

O livro conta a história de Harry Haller, um misantropo de cinqüenta anos, alcoólatra e intelectualizado, angustiado e que não vê saída para sua tormentosa condição, autodenominando-se “lobo da estepe”. Mas alguns incidentes inesperados e fantásticos o conduzem lenta porém decisivamente ao despertar de seu longo sono: conhece Hermínia, Maria e o músico Pablo. E então a história se desenvolve de forma surpreendente.

O erudito Harry Haller vive o tempo toda a tensão entre a vida sublime de seus grandes poetas e músicos - Goethe e Mozart, mormente, com os quais inclusive tem encontros imaginários. A vida da alta cultura, do espírito, dos Imortais, e a vida das profundezas da superficialidade, do sensual, da carne, a que é conduzido por Hermínia, mulher da noite que conhece em um bar e alter ego de um amigo de infância que muito o impressionou. Vive, portanto, atraído por dois pólos magnéticos opostos, um representado pela vida noturna, pelo álcool, pelos cigarros, pelo jazz, pelas meretrizes e pelo despertar ao meio dia; o outro pela vida ascética, diurna, tranqüila, de jardins bem cuidados da família vizinha que admira logo no primeiro capítulo como alguém que sente nostalgia por um paraíso perdido.

Porém, para além da dupla personalidade, Haller descobre ter mil almas, que além dos dois pólos pelos quais se sente atraído, uma infinidade de pulsões interiores e exteriores atua sobre o seu ser, engendrando múltiplas personalidades, mal contidas pela frágil unidade de seu ego. Mas Haller admite no delírio final do romance a coordenação das mil almas, mil personalidades em torno de um eixo central que dá unidade à pluralidade de personas.

O Lobo da estepe é um romance que narra a desintegração da personalidade num homem maduro, ou quiçá o fracasso ou a resignação ante a impossibilidade de formação de uma personalidade coesa e sólida na voragem de um tempo de transmutação de valores, de fragmentação e velocidade. Haller vive entre as trevas e a luz, o sensual e o espiritual, o moderno e a tradição, o profano e o sagrado, numa interminável e aguda crise. Não é feliz. A certa altura, no clímax de uma sensual festa de máscaras, imerso na multidão, já desfigurado, sem passado, sem face, sem personalidade, sente seu ego, sua individualidade dissolvida na unio mystica da alegria. Harry Haller experimenta uma espécie de transcendência espiritual às avessas.

O livro parece deixar uma conclusão pessimista quanto à possibilidade de formação da unidade pessoal. Mas Hesse, em nota de 1961 para uma reedição do romance, diz que não descarta no romance a esperança oculta de uma síntese transcendente, que integre o santo e o libertino, o que parece estar prefigurado na demonstração da unidade oculta das mil almas no capítulo final da obra.

Nota do autor (1961): Os escritos poéticos podem ser compreendidos e incompreendidos de muitas maneiras. Na maior parte dos casos o autor não constitui a autoridade mais indicada para decidir até que ponto o leitor compreende e onde começa a incompreensão. Não são poucos aqueles a cujos leitores sua obra pareceria muito mais clara do que a eles próprios. Além do mais, as incompreensões até que podem ser frutíferas sob certas circunstâncias.
Hermann Hesse em 1927
Contudo parece-me que de todas as minhas obras, O Lobo da Estepe é a que vem sendo mais freqüente e violentamente incompreendida, e o curioso é que, em geral, a incompreensão parte dos leitores mais entusiastas e satisfeitos com o livro do que dos leitores que o rejeitaram. Em parte, mas só em parte, isso pode ocorrer com tal freqüência em razão de este livro, escrito quando eu tinha cinqüenta anos e tratando, como trata, de problemas peculiares a essa idade, cair não raro em mão de leitores muito jovens.

Mas, entre os leitores da minha própria idade, também tenho encontrado com freqüência alguns que – embora bem impressionados com o livro – só percebem estranhamente apenas uma parte do que pretendi. Tais leitores, ao que me parece, reconheceram-se no Lobo da Estepe, identificaram-se com ele, sofreram suas dores e sonharam os seus sonhos; mas não deram o devido valor ao fato de que este livro fala e trata também de outras coisas, além de Harry Haller e de seus problemas, que fala a propósito de um outro mundo mais elevado e indestrutível, muito acima daquele em que transcorre a problemática da vida de meu personagem. O Tratado do Lobo da Estepe e outros trechos do livro que versam questões do espírito abordam assuntos de arte e mencionam os “imortais”, opõem-se ao mundo sofredor do Lobo da Estepe com a afirmativa de um mundo de fé, sereno, multipersonalístico e atemporal. O livro trata, sem dúvida alguma, de sofrimentos e necessidades, mas mesmo assim não é o livro de um homem em desespero, mas o de um homem que crê.

É claro que não posso nem pretendo dizer aos meus leitores como devem entender a minha história. Que cada um nele encontre aquilo que lhe seja de alguma utilidade! Mas eu me sentiria contente se alguns desses leitores pudessem perceber que a história do Lobo da Estepe, embora retrate enfermidade e crise, não conduz à destruição e à morte, mas, ao contrário, a redenção.

Comentário do tradutor: Diz o tradutor no prefácio que O lobo da estepe é um livro que não se lê inocuamente ou por mera distração, porque é um livro que mexe, que altera, que subverte a estrutura psíquica do leitor. Recomenda aqueles que já o leram em outras fases da vida que façam a releitura para descobrirem nas sutilezas de sua trama, na profundidade de suas cogitações, no intrincado de sua simbologia, outras revelações que a experiência da vida ou a apuração da sensibilidade literária lhes fará reconhecer.



Recomendação ao leitor: Ler a trilogia de Hermann Hesse, preferencialmente, na seguinte seqüência: 1º) “Demian”; 2º) “O lobo da estepe”; 3º) “O jogo das contas de vidro”. (AOliynik)

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quarta-feira, 18 de maio de 2011

O OUTONO DA IDADE MÉDIA


Título original: Herfsttij der Middeleeuwen
Autor: Johan Huizinga (1872-1945)
Tradução: Francis Petra Jansen
Editora: Cosac Naify
Assunto: História
Edição: 1ª
Ano: 2010
Páginas: 656

Sinopse: O outono da Idade Média é um grande clássico da historiografia ocidental. Publicado em 1919, é a obra-prima de Johan Huizinga (1872-1945) e foi traduzido desde então para mais de vinte línguas. Raras vezes um período histórico foi apresentado de maneira tão viva e colorida. Aqui, a Idade Média é vista na plenitude de seus contrastes, distante do lugar-comum segundo o qual ela não passaria de uma transição, longa e letárgica, entre o brilho da Antiguidade e do Renascimento.

Escreveu certa vez o historiador holandês: “Que tipo de idéia podemos formar de uma época se não olharmos para as pessoas que a viveram? Se oferecermos explicações generalizantes, criaremos apenas um deserto e chamaremos isso de história”. Estampada no subtítulo, a expressão formas de vida e de pensamento é um catalisador que permite, a um só tempo, evitar as formulações vazias e dar sentido ao turbilhão de personagens e acontecimentos. Tais formas incluem a cultura, a arte, a religião e o pensamento, mas, além disso, constituem a própria pulsação do dia a dia medieval, nos modos de expressão da felicidade, do sofrimento, do amor e do medo da morte. Huizinga utilizou métodos e fontes históricas pouco usuais em sua época. Combinando a crença no poder revelador da obra de arte e um olhar muito semelhante ao de um antropólogo, ele se tornou um pioneiro do que mais tarde se denominou história das mentalidades.

Pela primeira vez, O outono da Idade Média é vertido em língua portuguesa a partir do holandês, bem como do resultado de pesquisas que, passados cerca de oitenta anos, reestabeleceram o texto tal como foi concebido. Ricamente ilustrada, a presente edição também reúne uma entrevista de Jacques Le Goff e um ensaio biográfico de Peter Burke.


Sobre o autor: Johan Huizinga (Groninga, 7 de dezembro de 1872 — De Steeg, 1 de fevereiro de 1945) foi um professor e historiador holandês, conhecido por seus trabalhos sobre a Baixa Idade Média, a Reforma e o Renascimento.
Os seus estudos destacam-se pela qualidade literária e pela análise dos acontecimentos, abordando aspectos da história da França e Países Baixos, durante os séculos XIV e XV, como ilustração sobre a última etapa da Idade Média.
Sua obra clássica, O outono da Idade Média, foi publicada em 1919.
Na sua bibliografia também se encontram trabalhos da juventude sobre a literatura e a cultura da Índia, uma biografia de Erasmo (1924) e outras obras de cunho histórico.
Destaca-se ainda a sua principal contribuição: o Homo Ludens, escrito por ele no ano de 1938.
O regime nazista o manteve preso de 1942 até sua morte em 1945.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O ENIGMA QUÂNTICO: Desvendando a Chave Oculta

Título original: The Quantum Enigma: Finding the Hidden Key
Autor: Wolfgang Smith
Tradução: Raphael De Paola (Prefácio à Ed. Brasileira: Olavo de Carvalho)
Editora: Vide Editorial
Assunto: Filosofia da ciência
Edição: 1ª
Ano: 2011
Páginas: 277


Sinopse: Após a destruição da imagem clássica do mundo pelas descobertas da mecânica quântica, os físicos propuseram uma variedade de visões de mundo alternativas. Esse livro começa pelo importante reconhecimento de que cada uma delas sofre de um certo “cartesianismo residual”, inconscientemente admitido. Quando essa premissa oculta e problemática é descartada, a teoria quântica passa a fazer sentido, de uma forma jamais vista. Como demonstra o autor, agora é possível pela primeira vez integrar as descobertas da física quântica numa visão de mundo que não é nem forçada, nem sustentada em hipóteses ad hoc, mas em conformidade permanente com as intuições da humanidade.
Escrito de maneira clara, O Enigma Quântico destina-se tanto ao cientista quanto ao leitor que não está familiarizado com os conceitos técnicos da física nem com os debates sobre o mundo quântico.

Olavo de Carvalho, prefaciador da obra, assim se expressa a respeito do livro: "A coisa mais tímida que me ocorre dizer dessa descoberta do Prof. Wolfgang Smith é que ela foi uma das maiores realizações intelectuais do século XX".

Sobre o autor: Wolfgang Smith formou-se aos 18 anos em Física, Filosofia e Matemática pela Universidade de Cornell. Suas pesquisas em aerodinâmica e seus artigos sobre campos de difusão forneceram a chave técnica para a solução dos problemas de reentrada na atmosfera em viagens espaciais. Depois de receber um Ph.D em matemática na Universidade de Columbia, foi professor no Instituto de Tecnologia de Massachusetts e na Universidade da Califórnia. Além de numerosas publicações técnicas, relacionadas a topologia diferencial, Dr. Smith é autor de três livros e muitos artigos sobre questões interdisciplinares e epistemológicas, sempre preocupado em desmascarar certas concepções amplamente admitidas como verdades científicas.


PALESTRA DE LANÇAMENTO

Palestrante: Raphael De Paola (tradutor da obra)



PALESTRA OLAVO DE CARVALHO
PREFACIADOR DA OBRA
 
PARTE 1/2



PARTE 2/2


domingo, 6 de março de 2011

ALMAS MORTAS

Título original: Мёртвые души
Autor: Nikolai Vasilievitch Gogol (1809-1852)
Tradução: Tatiana Belinky
Editora: Abril Cultural
Assunto: Romance
Edição: 1a
Ano: 2003
Páginas: 494
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Sinopse: Escrito em 1841, Almas Mortas conta a história de um aventureiro que compra, a baixo preço, os camponeses russos mortos desde o último censo, mas ainda vivos nas listas do fisco. Uma trapaça que permite traçar um panorama da vida da província e um esboço do homem russo por inteiro, pelo seu lado negativo. Gógol escreveu um segundo volume da obra, mas em um momento de angústia acabou queimando-o. A segunda parte, inacabada e póstuma, foi publicada em 1852.

Resumo da narrativa: Pável Ivánovitch Tchitchikov chega a uma aldeia para comprar almas mortas, ou seja, servos que já morreram, mas ainda não foram registrados nos censos de óbitos que eram realizados a cada cinco anos. À primeira vista este negócio parece inverossímil e todos se riem com estranheza medrosa do seu negócio. Todavia há uma intenção ilícita oculta por trás dela.

Comentários: O primeiro livro de Almas Mortas resume-se aos encontros de Tchitchikov com os proprietários rurais para lhes comprar os servos mortos. O grande enigma: Para que Tchitchikov quer servos mortos? Tchitchikov quer comprar as almas mortas para poder levantar um empréstimo bancário dando as almas como garantia as quais, na realidade, não garantem nada, pois elas não existem de fato, estão mortas. Com esse estratagema ele quer reconstituir a sua vida econômica e social e tornar-se um cidadão respeitável no meio social.

Na Rússia daquela época, a cada cinco anos, todo proprietário rural era obrigado a comunicar às autoridades do fisco quantas almas possuía, pois assim eram chamados os camponeses, que trabalhavam em regime de servidão. Com base neste número era fixado o patrimônio do proprietário e os impostos por ele devidos nos próximos cinco anos, independente do número de baixas ou de aquisições que ocorresse no período. Não se considerava mortes por guerra, peste ou o que quer que fosse e isto poderia ser um prejuízo para alguns proprietários.

Tchitchikov teve a idéia de viajar por toda a Rússia em busca de "almas mortas", que ainda constavam dos registros. Pagava preços insignificantes por elas e deixava seus proprietários curiosos de saber para que serviriam tais almas. Não desconfiavam que o objetivo dele fosse, com isto, se tornar, também, um proprietário de grande número de almas, que seriam "transferidas" para algum lugar remoto da Rússia. Sendo proprietário de tantas almas, não lhe seria difícil obter junto aos bancos, volumosos empréstimos, que teriam como garantia sua propriedade fictícia.

A idéia central do romance, sugerida por Púshkin após a leitura de uma nota jornalística, permitiu a Gógol pintar uma variedade de personagens, cuja força reside em seu poder de caracterização do universal pelo específico, o que levou Púshkin a dizer, apesar de toda comicidade ali destilada – “eu não ri, chorei; Deus, como é triste a nossa Rússia”. Assim, a denominação 'almas mortas' constitui não apenas a metáfora de um golpe ou de uma prática ardilosa, mas ainda uma expressão de até onde pode ir o decaimento do espírito humano, a contradição em que ele pode entrar com todo o padrão ético e fundamento religioso da existência.

Gogol descreve uma cidade provinciana, alegorizando a figura dos proprietários de terra desta província, os "proprietários da vida", que respondem pela sorte do povo. Descreve, também, as características gerais do funcionalismo público da época, corrupto, inapto e inconseqüente.

As personagens são incríveis, a começar por Tchitchikov. Nele, Gogol descreveu um sujeito cara de pau e trambiqueiro de primeira. Esta personagem é perfeita e, em torno dela, Gogol teceu a temática que lhe foi sugerida por Puchkin com uma maestria digna de um gênio! Via Tchitchikov, Gogol faz uma profunda reflexão sobre a moral e a ética daquele tipo de sociedade na Rússia do século XIX.

Cada uma destas personagens tem uma característica marcante e é a partir de tais características que Gogol formou os seus nomes, a começar pelo nome da personagem central: de acordo com o dicionário "Grande Tolkoviy", Tchitchikov significa: pessoa que persegue a abundância e prosperidade a qualquer preço; pessoa que devota a vida à aquisição de riqueza, vantagens, lucro.

Para dar nomes a outras personagens segue a mesma técnica. Assim, tem-se: Manilov: nome que evoca gentileza, boas maneiras.

A personagem Manilov participa de negociações sempre rápidas e cordiais com Tchitchikov, concordando em lhe ceder, sem cobrar nada, todos os servos mortos. Gógol formou este nome a partir do verbo "manit'", que significa atrair ou seduzir. De acordo com o Dicionário Russo de Sinônimos, a palavra Manilov significa sonhador, maquinador, que fantasia, utópico. Relativo a autor de projetos atraentes, cativantes, fascinantes, encantadores, mas impraticáveis.

Sentido da obra: Almas Mortas foi planejada para ter três partes e das quais só temos a primeira e os fragmentos da segunda e que podem conter fragmentos da terceira. Não temos como saber disso. Portanto, este aspecto está irremediavelmente perdido.

O que parece, embora não se possa garantir isso de modo nenhum, é que Gogol queria fazer uma espécie de Divina Comédia russa, começando então com o Inferno, passando pelo Purgatório e terminando com o Paraíso. Essa teria sido a idéia central ou o modelo original. Todavia isso é apenas uma especulação porque nós não temos elementos concretos disso. Temos indícios, mas não elementos concretos.

Por isso há uma dificuldade enorme para interpretar Almas Mortas porque se trata de uma obra incompleta. A primeira parte, ou o primeiro livro foi escrito entre 1837-38 e publicado parcialmente em 1842. A segunda e terceira partes nunca foram terminadas.

Na primeira parte do livro podemos fazer a analogia de Tchitchikov com o próprio Diabo porque ele compra almas como o Diabo compra.

A segunda parte é confusa e truncada. Podemos fazer uma analogia com o Purgatório onde Tchitchikov teria que passar por uma série de situações, reveses e vivenciar essas amarguras.
Na terceira parte Tchitchikov teria se regenerado completamente, transformado num novo homem, num sujeito decente.

Se partirmos dessa perspectiva em que Tchitchikov num primeiro momento é o Diabo encarnado; na segunda parte passaria por uma série de provações (a prisão que ele sofre seria um exemplo dessa analogia), e na terceira, depois de purificado, Tchitchikov iria produzir uma vida com conotações divinas, um sujeito rico de origem honesta que recuperou a sua consciência moral poderemos validar a tese da Divina Comédia russa.

Este é o esquema fundamental nos romances de Dostoiévski. Acredito que Dostoiévski se inspirou em Gogol para adotar esse esquema do vilão, depois penitente e finalmente purificado pela conversão e pelo arrependimento real e sincero. Todavia, Dostoiévski foi um escritor de primeira grandeza e conseguia reproduzir esse esquema com uma eficácia incrível. Basta ler “Crime e Castigo”, “Os Demônios”, “Os Irmãos Karamázov” e “O Idiota” para ver traços evidentes desse modelo que foi inaugurado por Gogol. Todavia, Gogol não tinha a força de Dostoiévski para completar os seus enredos. Talvez esse seja o motivo de Gogol ter queimado a segunda parte de Almas mortas, depois reescrito e fragmentado e destruído a terceira parte. Provavelmente não gostou do desfecho ou não conseguiu produzir o desfecho esperado.

Em Dostoiévski a única possibilidade de redenção que há o mundo é pelo sofrimento. Não há redenção alguma fora do sofrimento. O ser humano está preso a esta vicissitude.

Tchitchikov é um ressentido. Na verdade, um humilhado-ofendido. Abandonado pelos pais aprendeu que só se consegue sucesso na vida ensinado pelas circunstâncias da vida, sendo pragmático e dinheirista.

É o humilhado-ofendido que produz as revoluções. O humilhado-ofendido apóia aquele que parece que não humilha e não ofende. Incluem-se nesta característica o pequeno burocrata, o pequeno jornalista, o pequeno funcionário que, por serem justamente pequenos têm o sonho de grandeza do poder. Quem produz as revoluções são estas pessoas. Este é o conteúdo central desta história de Gogol. Ele está dizendo que são estas as pessoas que produzirão de alguma maneira as grandes modificações sociais.

As revoluções não são feitas por líderes consolidados, não são feitas por líderes que têm alguma coisa a perder, mas por um grupo que de alguma maneira está desprestigiado e que tem muito a ganhar com a revolução. As posições de poder que virão em seguida são o principal elemento motivador do humilhado-ofendido revolucionário.

Quem milita no partido é o humilhado-ofendido. Quem domina a militância de esquerda é justamente o humilhado-ofendido que sonha com o poder totalitário, porque ele vê na tomada do poder uma oportunidade para solução para a sua auto-estima baixa.

É isto que está em Gogol, embora ele não nos diga com clareza.

Sobre o autor: GOGOL (Nikolai Vasilievitch), romancista e dramaturgo russo (Sorotchintsi, 1809 - Moscou, 1852). Considerado o “pai” da literatura russa do século XIX. Suas histórias notabilizam-se por suas caricaturas grotescas, românticas e humorísticas, e por seu estilo brilhante, exagerado e vigoroso. Considera-se com freqüência a sua comédia, O Inspetor-Geral (1836), uma sátira moral contra os maus funcionários do governo, como a maior peça do teatro russo. Seus personagens cômicos e suas situações divertidas deram-lhe popularidade. Seu maior romance, Almas Mortas, e seu famoso conto, O Capote, foram ambos escritos em 1842. Escreveu também novelas como Taras Bulba (1935).

Gogol nasceu e educou-se na Ucrânia e, aos 19 anos, foi para São Petersburgo. Fracassando em seus esforços para tornar-se um ator famoso, passou a trabalhar como funcionário público e como professor de história. Sua primeira coletânea de contos, Noites numa Fazenda Perto de Dikanka (1831), atraiu a atenção dos leitores e do poeta Alexandre Puchkin, que o incentivou em suas pretensões literárias.

De 1836 a 1844, viveu no exterior, especialmente em Roma. Voltava à Rússia somente por períodos curtos. Escreveu nessa época Almas Mortas. Em seus últimos anos, Gogol teve seu poder criativo abalado. Vitimado por uma doença mental, acreditava possuir uma missão divina para reformar os seus compatriotas pecadores. Procurando consolo em peregrinações religiosas, dedicou-se igualmente a práticas ascéticas. Numa crise de depressão, queimou o manuscrito da segunda parte de Almas Mortas e atribuiu sua atitude, em seguida, a uma brincadeira do demônio. Depois desse episódio, deixou-se invadir pela melancolia, ficou doente e morreu.