sábado, 10 de outubro de 2009

O SÉCULO DO NADA

Autor: Gustavo Corção
Editora: Record
Edição: 2ª
Ano: 1973
Páginas: 437

Sinopse: Uma vez entendido o fundo da questão, todo o século XX merece ser revisto nas causas dos seus principais acontecimentos. Quem poderia pensar, aqui no Brasil, que uma crise no governo francês, o Affaire Dreyfus, tivesse importância para o século que começava? Corção vê estas causas e descreve como a política geralmente ensinada e propalada está cheia de enganos e erros. Assim também para a condenação da Action Française, de Charles Maurras, o papel de Franco na salvação da Espanha e todos os demais acontecimentos do século XX. Termina com um pungente capítulo sobre a Igreja, sobre o Concílio Vaticano II, que abre as portas aos progressistas, dando início ao que Corção chamou de pecado terminal.

Trechos da Obra:

“Mais tarde soube pelo Fábio, de nós todos o mais informado, que o movimento de Economia e Humanismo fora fundado pelo Pe. Lebret e outro dominicano, o Pe. Desroches, que já deixara o hábito e se tornara resolutamente marxista. O Pe. Lebret morreu dentro da Igreja e da Ordem, e até disseram publicamente que foi ele o inspirador da Populorum Progressio.


Naquele tempo não se comentavam tais coisas em nosso grupo, e pouco sabíamos do que já era efervescência e quase explosão na Europa. Recalquei minhas impressões, e reconheci que nada do que ouvira do Fe. Lebret se enquadrava mal na doutrina sagrada. O que eu poderia dizer, se naquele tempo usássemos tal vocabulário, e que sua pregação era secularizante. Punha o centro de gravidade da vida nas coisas temporais. Aonde nos levaria, com o tempo, o interesse despertado e difundido pelo Pe. Lebret?"
(CORÇÃO, p.28)

"Na década dos 50, contra meus mais consolidados costumes, aventurei-me a viajar pelo Brasil e a fazer conferências sobre as coisas do Reino de Deus. Lembro-me de uma viagem nossa a Belo Horizonte onde, com surpresa, vimos que os estudantes tinham colocado faixas pelas ruas, e espalhado camionetas pela cidade a anunciar as conferências do autor destas linhas. Toda a Juventude Católica estava conosco nesse tempo e não se percebia um só sinal de comunismo entre os moços. Perdão, havia o Luís Carlos. Foi uma maratona de conferências, entrevistas e conversas em círculo, sem interrupção. Creio que em 2 ou 3 dias fizemos mais de 12 conferências, às vezes com 400 ouvintes, moços universitários. Não começara a infiltração de estupidez. Os moços eram ainda adjetivamente moços, e não substantivamente e magicamente "jovens". O comunismo ainda não começara... Perdão, havia o Luís Carlos. Sim, o Luís Carlos. No segundo dia de batalha, ao meio-dia e trinta, consegui fugir dos moços, e já me esgueirava para chegar ao hotel, onde contava descansar um pouco e almoçar, quando senti travarem-me o braço. Era o Luís Carlos, que se apresentava e queria dizer-me uma palavra. Conversamos horas: ele tinha idéias comunistas, mas já desconfiava de seu quilate; queria mais. No dia do Corpo de Deus, numa grande festa em que mais de quinhentos moços confessaram e comungaram, lá estava o Luís Carlos, humilde e feliz. Meses depois recebi no Rio uma carta dos pais de Luís Carlos, e num farrapo de papel um agradecimento escrito a lápis e uma despedida marcando encontro no céu." (CORÇÃO, p. 29)

"Conto estas coisas porque esse Pe. Lage é hoje figura internacional. Há livros em francês mentindo sobre o Pe. Francisco Lage Pessoa, como mentem sobre Dom Hélder Câmara. E o que eu quero dizer, em poucas linhas, é que convivi, e dia a dia acompanhei a evolução desses padres que trocaram a Comunhão dos Santos pelo Partido Comunista. E assim como esses, vi de perto muitas e muitas outras degradações que julgava impossíveis. Começava para nós a Paixão da Igreja segundo o século XX." (CORÇÃO, p. 30)

"Aqui no Brasil nós sabemos que a pregação de Economia e Humanismo do Pe. Lebret, e dos dominicanos contaminados, levou o Pe. Francisco Lage ao marxismo e ao comunismo militante. Sabemos que foi essa infiltração que transformou o Convento de Perdizes, dos frades dominicanos, em quartel-general do guerrilheiro marighela. Sabemos que as moças egressas de tradicionais colégios católicos se transformaram em salteadoras de bancos, amantes de comunistas e culpadas de assassinatos de inocentes policiais. E para maior estridência do escândalo, e para maior evidência da fonte de inspiração, temos um arcebisto [D. Helder Câmara - 1901-1999] a esvoaçar pelo mundo inteiro e a pregar uma espécie de socialismo em favor do qual é belo e meritório o ato de seqüestro e assassinato de refens." (CORÇÃO, P. 90)


Sobre o autor:
Gustavo Corção nasceu em dezembro de 1898, no Rio de Janeiro. Cursou Engenharia na antiga Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Trabalhou em Astronomia de Campo, em Mato Grosso; em serviço de Energia Elétrica, no Rio de Janeiro e Espírito Santo; em Radiocomunicações, de 1925 a 1937, e depois em atividades industriais, até 1948. Casou-se em 1924, e, em segundas núpcias, em 1937. Converteu-se à Igreja Católica em 1939. Publicou seu primeiro livro 'A descoberta do outro', em 1944; em 1945, 'Três alqueires e uma vaca'; em 1951, 'Lições de Abismo', e, em 1952, 'Fronteiras da Técnica'; em 1956, 'Dez Anos' (Crônicas) e 'O Desconcerto do Mundo', em 1965. Foi colaborador semanal de 'O Estado de São Paulo', do 'Diário de Notícias', do Rio de Janeiro, e do 'Correio do Povo', de Porto Alegre. Faleceu em 6 de julho de 1978.

Gustavo Corção
1896 - 1978

Um dos maiores escritores de nossa língua, marginalizado e enterrado pelas esquerdas que dominam nosso universo jornalístico e editorial.

O Século do Nada — Introdução 1ª parte
(Página 12 até 34)
Comecei hoje. Começo agora, nestas linhas, um livro com que venho sonhando há mais de quatro anos e que agora, depois de muitas hesitações, resolvi começar, mas logo pressenti que este livro, como todos os que quis escrever e escrevi, e como os milhares que não escrevi, está rigorosamente acima de minhas forças. O fato é que tudo o que li nestes últimos cinco anos sobre o que aconteceu no mundo católico, e sobre o que me parece explicar o que está acontecendo, compele-me imperativamente, preceptivamente, a escrever este livro, não por julgá-lo necessário e útil para a Igreja e para o mundo, mas simplesmente por julgá-lo indispensável à completação e ao retoque, do testemunho que venho deixando há tantos anos em livros, aulas e artigos. Mas, além desse imperativo de algumas retratações que tenho impaciência de formular, não escondo o velho vezo de professor que me leva ao temerário empreendimento de buscar explicações nas águas turvas deste século. Daí os subtítulos que já tenho antes de ter o título:
RETRATAÇÕES
REAFIRMAÇÕES
INTERROGAÇÕES E OUTROS ... ÕES.
Nestas páginas de introdução, tentarei dar ao leitor algumas explicações pessoais sobre posições tomadas, que hoje me obrigam às retratações e me estimulam à busca das causas. O tom será aqui e ali pessoal, evocativo e afetivo, porque na verdade vou reabrir feridas, ou ferir-me onde me julgava ileso. Deixarei correr a memória sem preocupação de método e de sistematização, mas depois desse desabafo no ombro imaginário, de um leitor imaginariamente amigo, levantarei vôo para as terras onde todo o drama deste século se iniciou e se desenrolou, e então tratarei de esquecer-me de mim e do leitor, para entregar-me de corpo e alma à observação do registro dos fatos, que nos trouxeram tão inimagináveis calamidades. Teremos de entrevistar muitos autores, teremos de nos afastar aqui e ali de alguns a que estivemos quase colados, mas também teremos de nos aproximar de outros que um preconceito dos anos quarenta e cinqüenta nos impedira de ver e de admirar. Tudo isto custou para o autor destas linhas um esforço de estudo que só pôde realizar porque, no momento em que se aposentava de alguns deveres de estado e se simplificava a família, teve ainda reservas de força e saúde para rever e ler tudo o que não lera em trinta anos de estudo mais aplicado à doutrina perene do que aos turbilhões produzidos na história pelos contatos, sempre difíceis e sempre trágicos, entre a Igreja e o Mundo.
Comecemos, pois, as explicações pessoais prometidas. E como sempre convém a qualquer obra que, embora minúscula, pretenda ser serviço de Deus, comecemos pelo sinal da santa cruz.
In nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti.
Antes de mais nada, convém agradecer a Deus o fato de estarmos nós ainda em tempo de colher e de louvar. Por mim, considero com estupefação, e certo constrangimento, este elevado patamar da vida que nunca julguei alcançar.
Desde que me lembro de mim, vejo-me sempre espantado de sobreviver. Não que tivesse índole melancólica ou tristonha. Ao contrário, fui um menino alegre e cheio de vida, mas por isso mesmo, ou por uma das tantas contradições do pêndulo da alma, sempre senti muito vivo, muito aguçado, o provisório de tudo o que por aqui andei fazendo. Desde os dez ou doze anos vivo eu a sobreviver e a me espantar. Quando fiz vinte e quatro achei-me um Matusalém e apostei comigo mesmo que não chegaria aos vinte e cinco.
Anos atrás conheci Oswaldo Goeldi. Estava querendo ilustrar minhas Lições de Abismo e julgou que, antes de prosseguir o trabalho, devia conhecer pessoalmente o autor. Foi assim, em busca de minha obra, que uma tarde bateu-me à porta. Conversamos. Dez minutos depois éramos amigos de infância; com mais dez minutos quase chorávamos juntos, cada um sofrendo a dor do outro. A dele, no momento, era a Bienal. Só de falar "Bienal" o olhar abrasava-se e o nome saía-lhe como um soluço.
— E você? E você? — perguntava-me aflito de não saber qual era, no dia, a minha bienal. E foram só esses míseros vinte minutos toda a nossa amizade vivida. Tempos depois, atravessando uma rua entre os carros de um congestionamento, avistei-o numa fila de ônibus. Ele também me viu, e espantadíssimo exclamou: — Você está vivo? Você está vivo?
No dia seguinte recebi a notícia mais estapafúrdia e mais natural do mundo: Oswaldo Goeldi morrera.
Esta curta história de uma curtíssima amizade está descabida neste livro, ou melhor, nesta breve introdução de um livro que muito me admirará se um dia o tiver nas mãos terminado. O que tentei transmitir foi uma idéia simples, ou um critério simples que me classifica no hemisfério da humanidade onde se acotovelam, sempre mal instaladas, as almas incôngruas que andam por aqui como se estivessem a viajar no "outro lado", ao revés, ao avesso de tudo.
O fato é que assim mesmo de surpresa em surpresa, de admiração em admiração, de agradecimento em agradecimento, percorri uma quilometragem que pouco falta para somar um século. Nasci antes do balão de Santos Dumont. Antes do "Affaire Dreyfus". Antes do Século. E desde cedo comecei a ensinar. Aos onze anos tive os primeiros alunos de aritmética, e cedo habituei-me a respeitar as formas humildes da incapacidade de compreender as primeiras noções da abstração matemática. Lembro-me com ternura e admiração do meu aluno e amigo José, da mesma idade, que depois de um esforço quase muscular, rubro de vergonha ou do esforço, suplicava-me:
— Gustavo, explica outra vez. Mais devagar. Você sabe que eu sou burro.
Mais tarde, na vida de professor ou de jornalista terei muitas vezes uma lancinante saudade da casta e genial burrice do José.
Cresci dentro de um colégio, ensinando em todos os níveis e a todas as raças. Quando volvo os olhos para qualquer estação do passado, lá me veio a ensinar. Ensinei no Colégio Corção — colégio pobre e supermisto, colégio de antigamente — todas as matérias do primário e do secundário, e mais algumas que a fantasia da vida acrescentava. Ensinei matemática, português, geografia, ciências, taquigrafia, xadrez e esgrima. Toda a família estudava e ensinava, e eu, dentro dela, cumpria um modo de ser, um feitio do corpo, um código genético. Professor. Animal-professor. Sempre. Na Escola Politécnica daqueles largos e claros dias em que não existia ainda o monstro disforme chamado "universidade", fui professor de química e de astronomia todas as vezes que o avanço sobre colegas menos estudiosos me proporcionasse ocasião. Lei dos vasos comunicantes. Guarde bem, leitor, esta nota: não estou aqui a me inculcar como alguém capaz de ensinar física, química, matemática, astronomia, esgrima e xadrez. Estou apenas dizendo que sempre, ao longo da vida, por uma fatalidade cromossômica, andei ensinando o pouco que aprendia antes de outros aprenderem. Só me vejo mais engenheiro do que professor no ano de 1919, em que andei a fazer coordenadas geográficas nos confins de Mato Grosso, onde estive perdido muitas vezes, com sede, fome, e lebre e onde aprendi a laçar boi e a apanhar no chão o sombrero sem me apear do cavalo a galope.
A que vêm todas essas recordações? Não incluí nos subtítulos desta obra "confissões" nem "recordações". Abrevio, pois, as léguas que andei por esses brasis, e os anos que vivi como engenheiro. Em certa altura da vida troquei a astronomia pela eletrônica que acabava de nascer. E logo me vejo, depois de 15 anos de engenharia na Radiobrás, onde com Carlos Lacombe e José Jomotskoff fomos pioneiros dos primeiros circuitos transatlânticos de radiotelefonia, a ensinar a dita eletrônica aplicada às telecomunicações na recente Escola Técnica do Exército (hoje Instituto Militar de Engenharia), onde também fui uma espécie padrinho da nova técnica, que ensinei durante 35 anos. Na Escola Nacional de Engenharia, da Universidade do Brasil, também ensinei a mesma disciplina até a aposentadoria.
Mas antes disto, lá no meio do caminho, quando "la dirita via era smarrita", ao contrário do que aconteceu com Dante, achei-me de repente dentro de uma casa luminosa, como se já estivesse no "outro lado", onde me viu naquela tarde inesquecível o ardente olhar de Oswaldo Goeldi. Voltava à fé de meu batismo. Voltava à Casa. Já tive a estulta extravagância de tentar contar a história dessa volta em A Descoberta do Outro (AGIR, 1944). Hoje tenho certo vexame do que andei escrevendo de mim mesmo e de minhas angústias espirituais; mas não é dessas coisas que me sinto na obrigação de me desdizer e de me retratar.
Não seria capaz de encontrar hoje, em mim mesmo, suficiente petulância ou suficiente inocência para escrever, reescrever ou descrever A Descoberta do Outro. Fica como está. Quod scripsi, scripsi. Eis a dura lei da irreversibilidade dos textos imprudentemente publicados. Se ao menos, em vez do papel e da tinta, nos contentássemos em escrever com o dedo na areia, teríamos melhor patrono do que Pilatos.
Bem avisado andou Henri Charlier quando um jovem intelectual o procurou para entrevistá-lo e pedir-lhe a história de sua conversão. Interrompendo com mau humor a obra que pintava, rasgou uma tira de jornal e rabiscou: "Ma conversion est une grâce immeritée de la Toute-Puissance Divine". Não menos sábio foi o humilde e obscuro amigo que ouvia em silêncio as histórias dos "convertidos" do Centro Dom Vital. Quando lhe perguntaram: — E você? Como foi? — ele ficou meio embaraçado e afinal balbuciou: — Foi assim. Deus me pegou, me ajeitou na porta da Igreja, e me meteu o pé...
Assim ou assado, "à plat ventre dans la Maison Lumineuse", ou bola no goal de Deus, achei-me logo compelido à posição essencial de animal-professor. Estudar para ensinar. Ensinar para ser o primeiro a aprender, e para logo ensinar. E a par dos cursos que dei sobre a eletrônica aplicada às telecomunicações passei a ensinar o que quer dizer, por extenso, o credo dos Apóstolos: Creio em Deus Pai Todo-Poderoso, etc. etc.
E deste curso até hoje não me aposentei nem tenho nada a retratar. Nesse meio tempo escrevi livros, escrevi artigos que ainda interminavelmente escrevo nos jornais. Sempre na mesma posição genética, inevitável. Com exceção de algumas páginas em que permiti que o doido, o máscara-de-ferro, tomasse a pena e deixasse vazar a nostalgia de loucura que trazia acorrentada a sete deveres de estado, volto sempre ao plantão, ao avental. Já disse atrás que isto é um feitio do corpo. E agora, nesta recapitulação, assusto-me, acha-me a recear ter sido demasiadamente professor. Perdoem-me os amigos que enfadei pelo esquecimento de que há um tempo para tudo, como lá diz o sábio do Eclesiastes.
Mas a razão de todo este preâmbulo, onde já corri o risco de não conseguir o que mais almejava, não é a de me pintar para uma eventual posteridade, nem a de me desculpar de ser o que sou irremediavelmente. Outra é a razão. Pensando em tantos anos de ensino, de comunicações, de livros, de conferências, recapitulo preocupado, assustado, tudo o que andei transmitindo. Ou melhor, recapitulo o que deixei de dizer. Terei de fazer várias retificações, várias retratações, mas agora acode-me a idéia de uma omissão que implica uma série de recolocações, e pela qual eu estremeceria de vergonha e tristeza se, no momento de dizer o nunc dimitis, me viesse à mente o relâmpago do negrume de tão espantosa omissão. Qual? A de nunca ter escrito em minha longa vida de escritor, entre tantas páginas de louvor e de admiração, de entusiasmo e de apologia, estas poucas palavras exigidas pela mais clara verdade e pela mais límpida justiça, sim, estas poucas palavras que já deveriam ter transbordado de meu coração agradecido e deslumbrado:
Honra e glória à Espanha católica de 1936.
Honra e glória a Dom José Moscardó Ituarte,
defensor do Alcazar, a seu, filho Luis Moscardó, a
Qeipo, de Llano e a José Antonio Primo de Rivera.
"España libre, España bella
Con roquetés y Falanges 
con el tercio mui valiente..."
Honra e glória aos doze bispos mártires e aos quinze mil padres, frades e religiosas
"verdadeiros mártires em todo o sagrado
e glorioso significado da palavra" (Pio XI).
Honra e glória a todos que morreram
testemunhando com SANGRE: "Viva Cristo Rey"!
E agora que sobrevivi e consegui apressadamente cumprir um dever atrasado, poderemos mais descansadamente explicar a trama de desatenções, de erros, equívocos e empulhamentos que, entre outras coisas, produziu tão grave omissão em tantas páginas de escritores católicos. Se Deus for servido, transmitirei ao leitor o que venho estudando há alguns anos sobre as causas próximas da crise que aflige nosso século e que flagela a Igreja com espantosa crueldade. Tenho a poucos metros de distância, em formação de combate, a centena de livros básicos de que já tirei as fichas principais; em cima da mesa as esferográficas e o papel aberto, branco, vertiginosamente branco.
Foi em 1939. Sim, para entender as causas e as implicações de tão grave omissão, preciso prolongar um pouco as explicações pessoais, e preciso lembrar que foi em 1939 que me achei no grupo de amigos que nesse tempo militavam no Movimento Litúrgico, em torno do Mosteiro de São Bento e do Centro Dom Vital. Aos quarenta e dois anos voltava à fé do meu batismo, e abria os olhos para o mundo. Toda a minha formação anterior era a de um engenheiro, ou de um quase-bárbaro armado de alguns conhecimentos científicos, provado por alguns intermitentes e malogrados acessos literários, mas totalmente desinteressado do tumultuoso curso de acontecimentos com que o século, já quase meio andado, ganhava corpo. É difícil imaginar maior candura e maior despreparo do que o do pobre engenheiro e professor que em meados de 39 se achou de repente cercado e intimado a uma incondicional rendição. Lera livros de Chesterton e outros de Maritain. Descobria ao mesmo tempo a Igreja e o Mundo aos quarenta e dois anos de idade. E no mesmo despertar encontrava-me a mim mesmo nas várias tentativas que fizera no mundo da poesia, da música e da pintura. Tudo isto, que trazia guardado, e que nesse enclausuramento me mantinha apartado do mundo, quase como um anacoreta na Estação Receptora da Radiobrás, em Jacarepaguá, obrigava-me agora a entrar no turbilhão dos fatos. No Brasil, o regime originado pelo golpe de estado de 1937 inculcou-me uma aversão pelos regimes políticos semelhantes. Vinha da Europa, e mais especialmente da França, uma corrente de antifascismo que recebi sem procurar discernir as várias significações que o mesmo vocábulo encobria. Vagamente tomara conhecimento da ascensão de Hitler e de Mussolini. Lembro-me bem da primeira vez que vi em Jacarepaguá, num cinema poeira, a figura de Adolf Hitler, a discursar num cenário wagneriano. Levantei-me, como quem acorda, sem poder sopitar uma exclamação: "Esse homem é um louco!" Minha mulher puxou-me pelo casaco, e eu me espantava com a tranqüilidade da platéia. Naquele momento tive uma fulgurante intuição de que começava um período de demência universal, mas não imaginava que traços tomaria e que itinerários seguiria. A figura de Mussolini, correndo em passo ginástico com seu ministério, veio compor o que designava o termo "fascismo", e veio facilitar o sumário desprezo com que enquadraríamos o regime de Salazar em Portugal, e a recente ditadura implantada por Franco na Espanha.
Nos dias em que acordei para o mundo, já a guerra civil da Espanha estava terminada. Só ouvia vagas e sinistras alusões à hecatombe de padres e freiras feitas por católicos que nosso grupo, fiel a Jacques Maritain, tido por mestre quase infalível, via com certo desprezo. Eram os reacionários. A verdade é que, nas pequenas amostras que examinei com mais atenção, os defensores da Espanha do Alzamiento serviam mal à causa de Franco, enredando-a na do integralismo indígena, e assim comprometendo a causa que merecia melhores advogados.
Empenhado em estudar a filosofia tomista, e a Sagrada Doutrina, agarrei-me, ia dizer colei-me à pele de Jacques Maritain e tomei, sem maior exame, a posição que o mestre tomara.
Escrevendo hoje estas linhas, no limiar de um livro que desde já me dói como um descolamento de peles machucadas, pondero como é escuro o universo dos fatos, e como andamos nele às apalpadelas, com um pequenino flashlight a buscar veredas entre paredes e abismos. Além disso, pondere o leitor que naquele tempo eu tinha sete deveres de estado, família grande, aulas e aulas por dia, e que logo começaram a aparecer alunos que me procuravam para aprender o que eu acabava de aprender. Do dia para a noite, ou da noite para o dia, transformara-se a vida tranqüila do pobre engenheiro que na Estação Receptora da Radiobrás vivera quinze anos atento aos elétrons e esquecido dos homens. Por isso, não podendo acompanhar pelas revistas o que acontecia no mundo católico, tive de aproveitar as brechas de tempo para estudar intensamente a doutrina perene. Em 1939 e 40 eu cairia das nuvens, e não acreditaria, se me viessem contar o que já estava acontecendo na gauche catholique, em Paris. Foi preciso viver e sobreviver largamente para um dia ter tempo de voltar atrás e de descobrir, entre outras coisas, o que a dita gauche catholique fez com Robert Brasillach.
E ainda é preciso lembrar que, em 1939 o mundo inteiro concentrava todas as atenções na guerra monstruosa que começava.
De setembro de 1939 em diante o mundo ficou brutalmente simplificado; e na mesma proporção simplificou-se a filosofia política de meus primeiros anos de aprendizado humanístico. Não havia errada possível: era seguir em frente na trilha das "democracias". A queda da França lançou-me num inesperado estupor. Chorei como uma criança, mas logo que se delineou uma possibilidade de resistência inglesa, novamente simplificou-se para nós, brasileiros, e para mim, católico recentemente alfabetizado, a filosofia e a conduta política. Era ainda seguir em frente a trilha das democracias, e lá adiante, em 1941, dobrar à esquerda.
Lavro aqui um modesto elogio que o pobre católico semi-analfabeto daqueles anos bem mereceu. Apesar de toda a torrente antifascista e das prestidigitações de Hitler, que oscilavam entre o cômico e o diabólico, eu nunca tive o menor entusiasmo pelo papel que todos, já esquecidos do pacto germano-soviético, passaram a atribuir à URSS. Não dobrei à esquerda e resumi todos os meus anseios no desejo da derrota de Hitler pelos ingleses e americanos. Depois veríamos.
Nesse meio tempo, como atrás já disse, achei-me obrigado a estudar como nunca estudara, para me colocar de pé nos meus quarenta e tantos anos de vida nova que mais adiante, certamente, exigirá do animal-professor a sua atitude fundamental.
Cabe aqui um reparo sobre o Movimento Litúrgico, que foi uma espécie de trem andando que tive de tomar. Só se cuidava da Liturgia, só se ensinava a significação da Missa e dos Sacramentos. Havia nesse movimento uma boa tomada de consciência da participação que os fiéis devem ter no mysterium fidei, mas havia também qualquer coisa que não combinava bem com o pouco que já aprendera de catecismo. Lembro com alegria a história de minha primeira iniciação catequética. Antes de encontrar o grupo de amigos, e depois de já ter lido livros altos e difíceis, o engenheiro, pai de família numerosa, sentiu um dia a necessidade e o valor das proposições simples, e das fórmulas nítidas, para a custódia dos mais profundos mistérios da Fé.
Já possuía o primeiro compêndio que está no Símbolo dos Apóstolos. Naquele tempo os rústicos pescadores da Galiléa sentiram a mesma necessidade e trataram logo de gravar o primeiro Credo do Povo de Deus. O que havia de comum entre os primeiros apóstolos e o engenheiro de 1937 ou 38 era o bom senso de quem sabe que o homem não pensa só com a cabeça, mas também com as mãos. Nós outros, engenheiros ou pescadores, sabemos assim, por várias vias, que o homem deve ser dócil e obediente à realidade das coisas. O "intelectual", ao contrário, é aquele refinadíssimo indivíduo que acha certa vulgaridade no real, e por isso prefere pensar a conhecer, isto é, prefere jogar com os entes de razão que ele mesmo fabrica ou compõe. Digo estas coisas, com o risco de nunca acabar esta introdução, e por mais forte razão o livro, porque parece-me que nunca é demasiado insistir no valor que tem o bom senso para a mais alta vida do espírito.
Voltemos à necessidade que um dia senti de doutrina sagrada. Procurando por toda a casa, achei o catecismo de meu filho que cursara o Colégio Santo Inácio quando eu era ainda vagamente filocomunista, e o Colégio Santo Inácio era ainda menos vagamente integralista. Achei-o e tive o dissabor de ler nas margens as reflexões desairosas que meu filho escrevera, e certamente aprendera comigo. Havia pilhérias, irreverências e aqui ou ali algum palavrão.
Foi nesse livrinho assim marcado por minha própria miséria que tive uma primeira visão de conjunto da Sagrada Doutrina. Eu sentia que aquele "grau do saber" precisa começar por uma visão global, por uma primeira aproximação de um todo doutrinário. O progresso se processaria depois intensivamente, por aprofundamento, e não extensivamente por alargamento.
Lia decorando, e procurando uma primeira penetração dos mistérios da Fé. Às vezes parava angustiado, humilhado; às vezes chorava; mas também às vezes entrevia um fulgor de eternidade e então beijava a página, eventualmente no lugar de alguma reflexão deixada pelo filho de um pobre-diabo que fora filocomunista em 1934 e 35. Marxista nunca.
O materialismo ateu, e especialmente o marxismo, modéstia à parte, sempre me pareceram estúpidos demais. Naquele tempo, não era a existência de Deus a coisa mais difícil de aceitar de joelhos. Era o pio da vida, eram as chagas de um Deus escandalosamente crucificado por mim. E era sobretudo o mistério da Igreja a perpetuar com homens e para os homens a distribuição do preciosíssimo sangue.
Nos anos da guerra, já convertido e muito ajudado pelos amigos beneditinos e por Fábio Alves Ribeiro, comecei a ler Gardeil, Garrigou-Lagrange e Santo Tomás. Escrevi nesse tempo o meu primeiro livro, A Descoberta do Outro, que alcançou um inesperado sucesso: em menos de quinze dias esgotou-se a primeira edição, e em poucos meses a segunda e a terceira. Começaram a aparecer pessoas a me procurar no Centro Dom Vital. Minha vida tornou-se então dificílima na execução das tarefas, mas facílima nos critérios. Devia estudar filosofia, teologia, desejar a vitória da Inglaterra, combater o "fascismo" e a ditadura Vargas. E principalmente devia desejar ser perfeito como o Pai Celestial é perfeito, ou, pelo menos, devia nunca deixar de desejar esse desejo.
Nossa filosofia política se resumia no credo democrático às vezes excessivamente simplificado, mas incontestado. Nesse tempo todos nós, do São Bento, do Centro Dom Vital e d'O Pingüim, tínhamos convicções tranqüilas e bem definidas. O Pingüim era uma loja de discos e músicas na Rua do Ouvidor, cujo gênio tutelar, o Rocha, Oscar Rocha, a par da fina sabedoria escondida numa doce e irônica modéstia, dava-se ao luxo de ter uma cabeça de Beethoven. Nos fundos dessa loja, numa escassa Área de uns quinze metros quadrados, ou pouco mais, reunia-se todas as tardes uma tertúlia onde tive o gosto de conhecer os mais variados e surpreendentes representantes desta tão desmoralizada humanidade.
Se naquele tempo algum agente marciano quisesse seqüestrar um terrestre para estudos, eu o aconselharia a procurá-lo n'O Pingüim, onde quase todas as tardes Fernando Carneiro trazia um novo argumento para contestar Barreto Filho, a respeito do Labour Party ou do socialismo em geral, e onde Ovale freqüentemente trazia o brilho de seu monóculo e o inesperado de alguma nova apreciação sobre as coisas mais definitivas e assentadas. Tínhamos também Villa Lobos, em carne, osso e charuto, sempre lírico e sempre absurdo. E foi nesse reduto de efêmeros que o vento da vida levou, foi nesse fundo de loja que diversos encontraram a primeira notícia de vida eterna. Lembro-me de meu bom afilhado Oswaldo Dourado, de minha afilhada Maria Isabel e do excelente Tancredo Ribas Carneiro, e principalmente de Alfredo Lage, que também conheci n'O Pingüim.
Todas as tardes, pontualmente, derrotávamos Hitler e salvávamos o Brasil. Barreto Filho e Fernando Carneiro tiveram a idéia de fundar a Resistência Democrática, novo grupo que também, com o correr dos dias, tornou-se um acampamento do Reino de Deus.
Nesse tempo chegava da Europa católica um vento de ativismo. O cristão tinha de dar também seu testemunho na cidade temporal. Mas a nossa Resistência Democrática funcionou ao contrário: os resultados temporais foram medíocres, mas em compensação foram numerosas as conversões que levaram Fernando Carneiro a fazer um patético apelo ao Hilcar Leite, ateu, vagamente socialista e conhecedor de todas as prisões do Rio e de Niterói. Com os estatutos na mão, Fernando Carneiro frisava o caráter aconfessional da Resistência e concitava-o a manter-se no seu robusto ateísmo:
— Hilcar Leite, você agora é o único ateu desta casa, que é uma instituição aconfessional. A Resistência Democrática espera que você cumpra o seu dever...
Todos se riam, felizes, e no fundo da sala o próprio Hilcar Leite exibia um pobre sorriso desdentado onde se lia a mesmo comum alegria de vivermos entre irmãos.
No dia 2 de abril de 1945 o mundo inteiro estava eletrizado com a notícia do fim da guerra' Eu sentia um mal-estar indefinível. À noite recolhi-me mais cedo, e já estavam todos dormindo quando o telefone tocou. Atendi. Uma voz de mulher estrangeira gritou no meio de um vozeiro: Os russos estão entrando em Berlim!
Fiquei silencioso. E ela repetia, com estridência: — Os russos estão entrando em Berlim! Inexplicavelmente respondi-lhe: — Merda! E no quarto diante de minha mesa de trabalho e do crucifixo, depois de uma breve oração deitei a cabeça nas mãos e repeti para mim mesmo como quem geme: — Os russos estão entrando em Berlim. Uma certeza medonha e brutal apunhalou-me: perdêramos a guerra. Ou melhor, perdêramos a paz. Eu sentia o punhal: arrematara-se a mais hedionda conjuração de traições. E começava, naquele dia de festividade monstruosamente equivocada, uma era de inimagináveis imposturas. Incompreensivelmente, depois de tantos sofrimentos, de tão detidos esforços, de tão maravilhosos heroísmos, os povos de língua inglesa, derrotados por si mesmos, pelo liberalismo e pelo democratismo, entregavam ao Minotauro comunista dez vezes mais do que a parte da Polônia em razão da qual entrara o mundo em guerra. Singular e cínico paradoxo: para cumprir um tratado e para evitar a partilha da Polônia, a Inglaterra e a França aceitaram finalmente o ônus de uma guerra mundial contra o pacto germano-soviético; agora, depois da vitória sobre o nazi-comunismo, entregava-se a Polônia inteira ao comunismo que também foi vencido, e que só comparece entre os vencedores no quinto ato da comédia de erros, graças a um aberrante solecismo histórico, que nem sequer podemos imputar à habilidade e à astúcia do principal beneficiário. A impressão de uma direção invisível nessa comédia de erros impõe-se irresistivelmente.
Eu ouvia os foguetes. Milhares de bons cidadãos, de excelentes pais de família, de fidelíssimos antinazistas, abraçavam-se, congratulavam-se uns com os outros, convencidos de que finalmente as 'democracias" alcançavam a vitória. E eu perguntava: que vitória?
Terminada a guerra, voltávamos à rotina da vida. E nosso grupo dia a dia aumentava com famílias inteiras que chegavam, e de amizades que se multiplicavam na proporção de combinações de objetos 2 a 2, sem jamais nos passar pela idéia a mais tênue suspeita de que, dentro de uns poucos anos, um furacão passaria sobre o mundo com devastação maior do que a de todas as guerras somadas, e então veríamos os padres abandonarem as batinas, as freiras esquecerem os votos e os medos, e os bispos se transformarem em diretores, secretários, presidentes e vice-presidentes de uma organização burocrática incumbida de publicar falsas notícias e de difundir doutrinas e esperanças ainda mais falsas. Mas não antecipemos.
Uma noite, creio que em 1948, estava eu a ouvir um disco de Mozart quando alguém bateu à porta. Era Fernando Carneiro, o inimitável Fernando Carneiro que chegava sempre com ar de quem, entre uma corrida e outra corrida, quase digo entre um e outro vôo, precisava pousar e transmitir alguma coisa que escrevera sobre política imigratória ou sobre a pena de morte. Ele precisava angustiosamente de quem o ouvisse, e ficava nervoso, irritado, pronto a voar se percebesse o mais leve sinal de impaciência ou desinteresse. Bom Fernando Carneiro. Passou pela vida como um original, quase como um louco, sendo entretanto um homem cheio de sabedoria e de bondade. Guardo como jóias os poucos conselhos que me deu nos ângulos da vida.
Em matéria de doutrina social tínhamos divergências porque Carneiro estendeu o mais que pôde seu crédito às esquerdas. Eu, que já havia pago meu pedágio à estupidez humana nessa matéria, não sentia a menor disposição de "voltar ao vômito", mas estávamos todos longe de supor, de pressentir o que ainda deveríamos sofrer nesse capítulo.
Naquela noite, Carneiro pediu água, e no meio da sala, com o copo na mão e o lenço na outra, parecia um mágico que se preparava para tirar coelhos do lenço ou do copo. Em vez de coelho, tirou o Padre Lebret.
— Você já ouviu falar no Padre Lebret?
Eu não ouvira falar, e Carneiro continuou:
 — Olhe, o negócio é assim: Aristóteles, Santo Tomás, Lebret.
Fiquei meio alarmado, mas não pestanejei. E Carneiro explicou-me quem era esse frade dominicano que se dedicara a levantamentos sociológicos entre os pescadores da França, que fundara um movimento chamado "Economia e Humanismo" e que agora viera estudar o Brasil...
Naquele tempo poderíamos saber, se estivéssemos acompanhando de perto a evolução da esquerda católica e da infiltração comunista na ordem dominicana, se conhecêssemos a história da revista Sept, "que morrera de gripe espanhola" mas logo ressuscitara em Temps Présent, revista apresentada por Mauriac e outros como sendo totalmente diversa de Sept (condenada por Pio VI), et cependant da mesma cepa, se conhecêssemos as escapadas de Maritain na revista Vendredi, poderíamos saber que o Pe. Joseph Lebret em 1948 trazia ao Brasil os primeiros germes do "ativismo desesperado" de que nos ocuparemos no último capitulo deste livro, ou os primeiros vírus do esquerdismo católico que vinte anos depois produziria o escândalo dos dominicanos que em São Paulo transformaram o Convento das Perdizes em reduto de guerrilheiros.
Mas não antecipemos. O fato de ser dominicano o personagem que cativara Fernando Carneiro tranqüilizava-me. Lembro-me da primeira vez que vi e ouvi Frei Pedro Secondi. Falava de algum problema social, muito carrément, sem precauções e meias-palavras. E, notando talvez sombra de receio ou escândalo no semblante de alguma senhora, explicou-se: "— Nós, dominicains, podemos pisar todos os terrenos sem medo, porque temos pés firmes e boa doutrina". E, para ilustrar a sentença, andou com passo forte em cima do estrado, de um lado para outro, e eu, maravilhado, ouvia as tábuas do estrado rangerem debaixo da corpulenta ortodoxia do frade dominicano.
Com ternura ainda mais viva (e hoje indizivelmente machucada) lembro-me como se tosse hoje daquela tarde, na Praça Quinze, creio em 41 ou 42. Chegavam de França os moços da AUC que tinham escolhido o hábito branco de São Domingos, os mais numerosos já estavam vestidos de preto no Mosteiro de São Bento, ou para lá se encaminhavam. Creio que era a primeira vez que eu via um dominicano, ou pelo menos um dominicano em flor. Quem naquela tarde viria ao Centro Dom Vital dizer alguma coisa de seus projetos e de suas esperanças no Brasil era Frei Romeu Dale. Sentei-me no fundo da sala, onde convinha que se apertasse a arraia-miúda dos novatos e dos ignorantes, e fiquei ansioso a esperar o lírio vivo e branco que nascera do coração de Domenico de Guzman; e quando, na frente do Alceu, entrou um moço alto, corado, com riso de criança, eu o acompanhei com os olhos e com o coração tomado de veneração apenas um pouco menor do que se visse surgir no salão o próprio Santo Tomás de Aquino. No estrado, ladeado pelo Alceu, que exultava como um pai feliz, Frei Romeu Dale falou da França, disse que tencionava dar um curso de teologia moral segundo Santo Tomás. E no decorrer da palestra, não sei por que, falou de Gilberto Freyre, e lamentou que "aquela grande inteligência tivesse resvalado para o socialismo". Alceu sorria deslumbrado. E eu fixava, guardava no coração, como um tesouro, a figura do frade, a veste, as palavras que nos prometiam a Ia. IIae do Doutor Angélico...
Outro dia, vendo a majestosa cabeça grisalha de Gilberto Freyre a circo metros de distância, no Conselho Federal de Cultura, lembrei-me de sua profissão de Fé, no elevador, quando alguém lhe perguntou em que é que afinal ele acreditava. Franzindo o rosto severo, apontou o teto do elevador e foi conciso: — "Em Deus, ora essa! Em Deus, em Deus".
Houve no ar uma corrente invisível de afeição, e vi que ele voltava-se para mim e me sorria. E eu então senti-me transportado não sei aonde, para um céu deste mundo ou do outro. E na cena maravilhosa que sonhei, num relâmpago de imaginação, vi-me outra vez sentado no fundo da sala, nos últimos lugares, à espera de um Gilberto Freyre anunciando por um Alceu de sonho ou de delírio. Entrava Gilberto em seus 70 anos em flor, e eu, encolhendo-me nos meus 73, vi-o subir o estrado onde, ladeado pelo Alceu, dizia com austeridade: —  "Em Deus! Ora essa, em Deus!" E depois de um preâmbulo abria os braços e lamentava que a mocidade de Frei Romeu tivesse resvalado para o "progressismo" comunizante.
Dias depois do anúncio de Fernando Carneiro (voltamos a 48) assisti a uma conferência do Pe. Lebret. Não disse a ninguém minhas reservas e minha preocupação. O frade falava com voz grave, contida, que forçava a admiração e revelava um ardor interno. Descrevia as favelas que visitara, e com muita firmeza e decência exprimia a dor que sentira; "J'ai pleuré". A sala da ABI estava cheia, Hélio Beltrão sentara-se aos pés tio frade, no estrado, e quando o pregador estendia o braço com um dedo acusador, eu apreciava o quadro vivo e me lembrava de estampa igual em que Eça de Queiroz descreve a manta universitária de Antero de Quental, que caía nos degraus da escalaria com pregas de imagem. No outro lado da sala, Carneiro enxugava a testa e não despregava os olhos do pregador. Todo o mundo conhecido. Naquele tempo todos nós sabíamos que era preciso enfrentar a questão social, que era imperativo levar o testemunho cristão aos menos favorecidos. Repetia-se muito a frase de Pio XI ao Pe. Cardijn, fundador da JOC: "O maior escândalo do século foi a perda da classe operária...".
À esquerda, no grupo da Ação Católica, estavam moças conhecidas, Yolanda, Maria Augusta, Nair Cruz. No momento preciso em que o Pe. Lebret com mão reprovadora afastava o "paternalismo" de certas instituições assistenciais da Ação Católica, Maria Augusta olhou em redor, e num décimo de segundo nossos olhos se cruzaram e eu vi que Maria Augusta estava feliz. A proscrição do "paternalismo", em nome da verdadeira ação social de baixo para cima, nos unira nesse décimo de segundo. E eu imaginei que todos os conhecidos estavam felizes de se sentirem ali acampados diante de uma certeza, e imersos num confortável consabido. Mas logo doeu-me alguma juntura da alma quando ponderei a curiosa força de congregar que têm as palavras muito repetidas. No fundo de todos nós há esse insaciável apetite de ver o que os outros vêem, de sentir o que os outros sentem, de saber o que os outros sabem e de atribuir às palavras o mesmo espectro de conotações e ressonâncias que os outros atribuem. Não agüentamos ver sozinhos, sentir, ouvir, saber sozinhos. Já escrevera a minha A Descoberta do Outro, e achei-me a pensar: o céu deve ser assim, um grande, um resplandecente consabido com o Carneiro de olhos pregados num Orador, e a Maria Augusta a olhar em volta como quem quer transmitir aos outros a alegria que de outro recebeu. Disse com meus botões: o céu são os outros. E senti de repente uma dor muito aguda como a de quem quase acertou, quase atingiu o alvo, mas ficou suspenso num acorde de sétima. Mais tarde um perverso intelectual dirá. "l'enfer c'est les autres". A dor aguda que sentia vinha da descoberta do ridículo daquele céu improvisado na ABI. Imaginei como seria fácil colocar ali outro frade a dizer outra coisa e a transmitir a mesma morna contigüidade das almas que só querem viver encostadas. Tive uma vertigem de pensar na relatividade das coisas que os homens vivem dizendo, e saí triste com minha pobreza. Foi só na rua que me corrigi, não, o céu é Deus. No salão da ABI éramos nós rodos que, numa projeção convergente de subjetividades, modelávamos o pregador. O céu de Deus há de ser, ao contrário, uma verdade que se impõe fortiter et suaviter e que nos segura, como um pai segura a mão do filho.
A conclusão a que cheguei, com todas essas considerações vertiginosas, foi esta: o padre não me convencera de coisa alguma que transcendesse o sincronismo das mentes atualizadas. Guardei minhas reservas sem deixar de reconhecer a verdade dos temas, no seu plano próprio, e a força de comunicação do pregador. Certamente não fora para esse tipo de atividade que o mesmo Pe. Lebret anos atrás resolvera deixar o século para ingressar na Ordem dos Pregadores fundada por Domingos de Guzmán que se disciplinava, rugindo de dor e de amor pela salvação das almas.
Dias depois, Fábio Alves Ribeiro e eu conversávamos, e começávamos a achar que o movimento do Pe. Lebret não rimava com o que estudáramos em Santo Tomás, em Garrigou-Lagrange, e no próprio Maritain que, nesse tempo, já escrevera Humanismo Integral. Comentamos que o dominicano francês falava demais em efficacité, coisa que também não rimava com o que procurávamos no Mosteiro.
Abreviemos. Uma tarde fomos todos com o Padre Lebret ao Mosteiro. Guardei bem a cena porque eu ia atrás e podia observar bem as várias configurações que tomava o grupo, e ouvir o que diziam sem necessidade de intervir ou apartear. Na frente, ao lado de Dom Abade curvado e afável, a carrure robusta do dominicano de rosto quadrado, duro e resoluto. Dois monges esticavam o pescoço para o gosto de ouvir falar francês, e Murilo Mendes, desembaraçado e afoito, quis em certo momento dizer uma frase definitiva. E lançou: "O comunismo é chato por não ter o senso da poesia". E então eu vi, com estes mesmos olhos mais moços, uma cena inesquecível. O Pe. Lebret voltou-se como se o tivessem picado, e com dois olhos azuis implacáveis pregados no rosto de Murilo retorquiu: "C'est vous que n'avez rien compris du communisme". Os monges sorriram. O abade sorriu. Ninguém sabia o que fazer dos braços e do rosto. Murilo meteu a viola no saco. Felizmente terminava ali o corredor e uma porta envidraçada produziu um torvelinho de pequenas amabilidades que encerraram o episódio. A visita ao Mosteiro prosseguiu, os pés inquietos e petulantes dos vivos avançavam sobre as lápides tumulares do claustro, a vida continuava por cima dos mortos, mas eu sentia-me paralisado, imobilizado, e quando dei acordo de mim ouvi-me dizer aos meus botões:
—"Esse frade é um comunista que se ignora". E tive a impressão, ou a ilusão de que um dos botões retrucava:
— “Que se ignora?. . . "
Mais tarde soube pelo Fábio, de nós todos o mais informado, que o movimento de Economia e Humanismo fora fundado pelo Pe. Lebret e outro dominicano, o Pe. Desroches, que já deixara o hábito e se tornara resolutamente marxista. O Pe. Lebret morreu dentro da Igreja e da Ordem, e até disseram publicamente que foi ele o inspirador da Populorum Progressio.
Naquele tempo não se comentavam tais coisas em nosso grupo, e pouco sabíamos do que já era efervescência e quase explosão na Europa. Recalquei minhas impressões, e reconheci que nada do que ouvira do Pe. Lebret se enquadrava mal na doutrina sagrada. O que eu poderia dizer, se naquele tempo usássemos tal vocabulário, é que sua pregação era secularizante. Punha o centro de gravidade da vida nas coisas temporais. Aonde nos levaria, com o tempo, o interesse despertado e difundido pelo Pe. Lebret?
Andava no ar desse tempo um ativismo que nos concítava a levar, não apenas nossos deveres de cidadão, mas também nosso testemunho cristão, a um engajamento maior e mais direto no. luta por uma ordem temporal mais justa. Por um mundo mais cristão, para inclusive poder ser mais humano. A obra de filosofia política e cultural de Maritain nos despertava para um dever de participação mais consciente e se inseria em nossa aversão pela ditadura de Vargas. De Charles Journet recebêramos a frase "uma nova cristandade quer nascer", que acolhêramos com otimismo e confiança. Não sei quantas vezes terei eu dito a meus alunos e companheiros essa frase que não sabia inserida, e às vezes comprometida num contexto cultural liderado pelas esquerdas e já envenenado pela infiltração da praxis marxista que desde a década dos 30 se espalhava pela Europa, e mais intensamente na França.
A vida continuava, e o pobre engenheiro, que em Jacarepaguá vivera quase como um anacoreta, mal conhecendo uma pessoa a mais por ano, e até chegara ao requinte de esquecer um dia o nome do Presidente da República, achava-se agora em pleno turmoil: aulas, aulas, aulas, estudo, estudo, estudo, conferência, conferência, conferência, campanhas eleitorais, filha, filha, filha, e às tardes, no Centro Dom Vital, o mais despreparado dos homens recebia pessoas, pessoas, pessoas e aos borbotões, famílias inteiras.
Na década dos 50, contra meus mais consolidados costumes, aventurei-me a viajar pelo Brasil e a fazer conferências sobre as coisas do Reino de Deus. Lembro-me de uma viagem nossa a Belo Horizonte onde, com surpresa, vimos que os estudantes tinham colocado faixas pelas ruas, e espalhado camionetas pela cidade a anunciar as conferências do autor destas linhas. Toda a Juventude Católica estava conosco nesse tempo e não se percebia um só sinal de comunismo entre os moços. Perdão, havia o Luís Carlos. Foi uma maratona de conferências, entrevistas e conversas em círculo, sem interrupção. Creio que em 2 ou 3 dias fizemos mais de 12 conferências, às vezes com 400 ouvintes, moços universitários. Não começara a infiltração de estupidez. Os moços eram ainda adjetivamente moços, e não substantivamente e magicamente "jovens". O comunismo ainda não começara... Perdão, havia o Luís Carlos. Sim, o Luís Carlos. No segundo dia de batalha, ao meio-dia e trinta, consegui fugir dos moços, e já me esgueirava para chegar ao hotel, onde contava descansar um pouco e almoçar, quando senti travarem-me o braço. Era o Luís Carlos, que se apresentava e queria dizer-me uma palavra. Conversamos horas: ele tinha idéias comunistas, mas já desconfiava de seu quilate; queria mais. No dia do Corpo de Deus, numa grande festa em que mais de quinhentos moços confessaram e comungaram, lá estava o Luís Carlos, humilde e feliz. Meses depois recebi no Rio uma carta dos pais de Luís Carlos, e num farrapo de papel um agradecimento escrito a lápis e uma despedida marcando encontro no céu.
Agora noto que errei na cronologia. Foi numa segunda visita a Belo Horizonte que encontrei o Luís Carlos. Tudo mais está certo. Nessa segunda visita em que fora convidado para pregar a preparação para a festa do Corpo de Deus, da JUC de Belo Horizonte, escolhera o tema: "Os sinais de Deus". A sala estava repleta e na primeira fila, entre dúzias de batinas estava o Pe. Francisco Lage. Acompanhava-me por toda parte e sempre que vinha ao Rio almoçava ou jantava conosco. Foi ele quem deu os dois primeiros missais de minhas duas primeiras filhas do segundo casamento. Tenho cartas afetuosíssimas dele. Em Belo Horizonte, sentado na primeira fila, acompanhava minhas conferências sem mover um músculo da face, mas às vezes, quando lhe parecia melhor alguma conexão teológica (que é o próprio da teologia) ou alguma imagem inopinada, que era a parte de meu ofício ele sorria apertando os olhos como gato afagado e feliz. E saíamos juntos conversando sobre Sacramentos e sacramentais. . .
Muitos moços que voltavam à vida religiosa me pediam que lhes indicasse um padre, e eu indicava o Pe. Lage.
Passavam-se os dias. Os anos. Uma noite bate-me à porta o Antônio Pimenta, que chegava de Belo Horizonte "para acertar os ponteiros".
Era um dos vários que formavam, em Ferros, um grupo de estudo em torno do Pe. Lage. Soube que o Pe. Lage havia fundado um núcleo de Economia e Humanismo, e agora tinha diante de mim o Antônio Pimenta e a evidência fulgurante: o Pe. Lage estava ensinando marxismo aos moços que o haviam procurado para perseverarem no cristianismo.
Conto estas coisas porque esse Pe. Lage é hoje figura internacional. Há livros em francês mentindo sobre o Pe. Francisco Lage Pessoa, corno mentem sobre Dom Hélder Câmara. E o que eu quero dizer, em poucas linhas, é que convivi, e dia a dia acompanhei a evolução desses padres que trocaram a Comunhão dos Santos pelo Partido Comunista. E assim como esses, vi de perto muitas e muitas outras degradações que julgava impossíveis. Começava para nós a Paixão da Igreja, segundo o século XX.
Foi em 1956 que percebi que a Ordem Dominicana, no Brasil, e certamente no mundo, estava em processo de erosão; e que, naquela tarde de anos atrás, eu poderia ter dito a Fr. Pedro Secondi, com apoio em São Paulo: "Quem está de pé, olhe bem que não caia" (1 Cor. 10,12).
Naquele dia de 56 os soviéticos tinham esmagado a Hungria. De manhã, meu filho me chama por telefone, do Itamarati, e só pergunta: — Pai, não vamos fazer nada? Combinamos um encontro à tarde para uma manifestação pública de protesto, e fui com Gladstone Chaves de Melo ao Convento Dominicano combinar não sei o que com Fr. Romeu Dale. "Pai, não vamos fazer nada?" Chamamos Fr. Romeu, que afavelmente nos conduziu à biblioteca, onde nos sentamos e eu logo desabafei meu horror pelo que estava acontecendo na Hungria. Desabafei veemente e ingenuamente. Mas, de repente, parei assombrado: diante de mim um pseudo-Fr. Romeu, ou o verdadeiro Fr. Romeu, com um sorriso ao canto da boca começava a dizer: — "Também os ingleses em Suez..."
Explodi. Dei um soco na mesa, não tão forte como o daria Santo Tomás, e grifei sem poder conter-me:
— Padre! Era aqui o último lugar do mundo onde imaginava ouvir tal coisa.
Gritei outras coisas de que não me lembro. À porta acotovelavam-se frades que vinham ver o que acontecera. E eu, caído em mim, pedi desculpas a Fr. Romeu e saímos do Convento. Na rua, não disse nada: sentia a terra fugir-me embaixo dos pés, e adivinhava que nunca mais me sentaria naquela casa onde tantas vezes parecera-me ver passar, trazidas pelos anjos, as figuras de Domingos, Tomás, Catarina de Sena... e tantos outros. Tempos depois o Pe. Lage dava à revista Manchete uma entrevista em que falava de cristianismo social e dizia que “essa história de ministrar sacramentos não tem futuro". Os estudantes católicos já não me convidam. Em três ou quatro anos, sem nenhuma modificação minha, fui chamado de "inimigo no. 2 dos estudantes", e dois ou três daqueles mesmos que me tinham por padrinho naquela festa do Corpo de Deus escreveram artigos em que eu era "múmia" ou "tinha morrido, mas esquecera-me de deitar-me no caixão".
Começa a violenta infiltração no meio estudantil.Eu vi essa infiltração como quem vê uma mosca caída no leite. E vi como se degradam os moços, como se violam as almas, como se envenenam os corações. Esse espetáculo da comunização de católicos é certamente o mais feio e deprimente feito que nosso século obscenamente exibe.
Surge a UNE, o "Metropolitano", e quando já se patinhava numa nova espécie de lama espiritual, desembarca no Rio o Pe. Cardonnei, dominicano francês, que logo se põe em contato com os estudantes da UNE e com os futuros dirigentes de VOZES. Em julho de 1960 começa a falar e a dizer tolices. Nesse tempo nós já éramos veteranos e já sabíamos que alguma coisa acontecera na Igreja e especialmente na Ordem dos Pregadores. Para nós, Fr. Cardonnei teve o mérito de ser o primeiro a nos trazer amostras de um fenômeno que brevemente tomaria proporções diluvianas. Eis aqui um tópico da autoria de Fr. Cardonnel, registrado e comentado em artigo nosso no Diário de Notícias de 31-07-60 com o título "Sinais dos tempos": "É preciso — dizia Fr. Cardonnel — que desconfiemos do que chamarei de fuga abstrativa. Por exemplo, falemos de homens, em sua situação concreta, e não da pessoa humana com sua eminente dignidade. O valor abstrato que possamos destacar dos homens reais é indiferente àquilo que eles são de fato. Em que consiste o direito da Família, pelo qual se pergunta freqüentemente? A família é uma abstração e ela não existe enquanto tal...". E por aí afora galopava Fr. Cardonnel no ano 60 para admiração dos jovens da UNE e do Metropolitano. Escrevi váríos artigos Os Dois Mundos (11-09-60), Ainda os Dois Mundos (18-09-60) e mais tarde (25-06-51), sobre um manifesto da PUC, escrevi O Anti-anticomunismo. E em (28-08-60) em Carta Aberta a um estudante de Belo Horizonte, que aconselhava a aposentadoria para os intelectuais, aconselhava eu exame vestibular aos colunistas.
Começava a luta fastidiosa que dura até hoje. Avolumava-se dia a dia a infiltração comunista no meio estudantil-católico, como se houvesse uma organização para ativar os agentes e outro para amolecer os pacientes. Frei Cardonnel foi um pombo correio que se adiantou demais e chegou antes dos outros, Porque nesse tempo ainda existiam bispos, e o episcopado brasileiro não fora ainda metido dentro do liquidificador das conferências, e por isso pude ainda ver, creio que pela última vez, funcionar a autoridade episcopal. O trêfego Cardonnel foi reexportado para a França, onde oito anos mais tarde, graças à maré montante de imbecilidade que invadiu a França, alcançaram enorme sucesso suas blasfêmias e suas asneiras, mas quem foi suspenso de ordens foi o Abbé de Nantes.
Começava o tempo da Paixão. Foi nessa época que procurei o Cardeal D. Jaime Câmara, pela primeira vez, para sugerir, suplicar, demonstrar a necessidade de fechar a JUC com a idéia de reabri-Ia mais tarde, depois de purgada. Dom fez-me uma série de ponderações onde as palavras "prudência”, "caridade" e todas as outras do léxico cristão pareciam-me colocadas num painel de equívocos. E confiou-me D. Jaime que estava pensando em designar um bispo para o especial cuidado da juventude. Dias depois saía no jornal a nomeação de Dom Cândido Padim, que vinha preencher uma lacuna na coleção de equívocos eclesiásticos. Fiquei apavorado, sobretudo quando vi na fotografia e na declaração publicada no jornal que D. Padim estava otimista! Mais tarde soube que Gladstone Chaves de Melo tivera conversa semelhante e igualmente inútil com o Cardeal.
Em novembro de 1963, Alceu Amoroso Lima, Presidente do Centro Dom Vital, de regresso de longa permanência no estrangeiro, escreve numa página inteira do Jornal do Brasil uma "encíclica" intitulada A Igreja, O Socialismo e o Comunismo, para demonstrar que a Igreja, de Gregório XVI a João XXIII, em relação ao socialismo e ao comunismo evoluíra da "rígida intolerância" para o "entendimento esclarecido" e finalmente para o "diálogo", e para a colaboração. Já mostrei em Dois Amores, Duas Cidades (páginas 376 e 381) que o suposto diálogo de João XXIII não tem nenhum fundamento, e que o “entendimento esclarecido" de Pio XI baseou-se num texto da Quadragesimo Anno em que o jornalista interpela nas palavras do Papa duas palavras de sua invenção, em negrito, com as quais a frase do Papa muda de sentido. Remeto o leitor à obra e página acima citadas, onde se vê que no tópico 43 (in fine), o Papa diz: "Maior condenação ainda..." e o jornalista acrescenta e frisa "do que o comunismo", alterando o sentido do tópico.
Resolvi desligar-me do Centro Dom Vital, onde durante 15 anos militara. Escrevi ao Presidente do Centro uma carta queixando-me da plástica que tão desembaraçadamente fazia nos textos pontifícios, e dos novos rumos que tomava sua pregação. Respondeu-me afavelmente, insistindo que permanecêssemos juntos, cada um com suas idéias. Procurei o Cardeal e participei-lhe minha decisão de deixar um Instituto onde cada um dos dirigentes ficaria e ensinaria segundo suas idéias, e assim a única lição comum que transmitiriam era a do desprezo pela verdade e pela exatidão da Sagrada Doutrina.
Quando terminei minha exposição, o Cardeal pôs a mão no meu braço e disse-me: — "Não. Quem deve sair é o outro". Respondi-lhe que isto estava fora de minha alçada. O que eu queria, e aceitaria no mesmo local, era uma sala onde pudesse continuar as aulas que até hoje ministro ao mesmo grupo acrescido dos filhos que nasceram e cresceram. Pediu-me então o Cardeal que lhe indicasse três nomes de pessoas de confiança e boa doutrina. Dei-lhe os nomes: Fábio Alves Ribeiro, Oswaldo Tavares e Eduardo Borgerth. E o Cardeal acrescentou: — E o senhor afaste-se para que ninguém possa dizer que está disputando a presidência do Centro.
Despedi-me do Cardeal que me acompanhou até a porta, prometendo comunicar-me o que resolvesse. Passaram-se dias sem novidades e nosso grupo já procurava uma sala para nossas aulas quando fui avisado pelos três amigos que o Cardeal os convocara e combinara com eles um plano a partir de uma carta que aquele mesmo dia enviaria ao Dr. Alceu Amorosa Lima pedindo-lhe a renúncia do cargo. No dia seguinte, com grande espanto vejo estampada no Jornal do Brasil a notícia de um conjuração tramada no Centro Dom Vital contra o professor Alceu Amoroso Lima às vésperas de seus setenta anos.
Mais tarde tivemos a explicação desse falso "furo" do jornal: D. Jaime Câmara escrevera efetivamente a carta combinada, mas, para magoar menos o Dr. Alceu, como depois nos disse, começou-a nestes termos: "Fui procurado por um grupo do Centro Dom Vital..." E na continuação pedia-lhe que renunciasse ao cargo de Presidente. Além disso, e também para agradar ao Dr. Alceu, teve a idéia de enviar a carta por Dom Hélder Câmara. O resultado de todas essas precauções foi o que se viu: a carta foi parar no Jornal do Brasil, o Dr. Alceu respondeu respeitosamente que entregaria o cargo se fosse demitido, mas não se sentia em consciência obrigado a renunciar. O Cardeal recuou, e tudo ficou como se efetivamente a "conjuração" gorada tivesse partido daquelas pessoas... Nesse tempo, em que o Concílio absorvia a atenção dos Bispos, nosso Cardeal esqueceu o Centro Dom Vital, que se esvaziava porque a maioria dos sócios e freqüentadores não concordavam com as novas idéias do Presidente, e a revista A Ordem morreu.
E com ela morreu a obra de Jackson de Figueiredo, e inutilizou-se a doação generosa do Dr. Guilherme Guinle. Começava para a Igreja um período de "aberturas" com a esquisita conseqüência de fecharem-se seminários, ordens religiosas, conventos e colégios religiosos. Muito mais tarde, em 68, abrimos nós o movimento PERMANÊNCIA com o grupo de amigos que há mais de vinte anos nos seguiam no Centro Dom Vital, e com os assinantes que choveram de todo o Brasil.


O SÉCULO DO NADA - Introdução — 2ª Parte
O episódio do Centro Dom Vital, que só se esclarecerá no dia do Juízo, desviou-nos da história que vínhamos contando — a história da infiltração no Brasil que colocou os comunistas no poder até o inacreditável desenlace, em 1964. Já contei essa história mais de uma vez com o título de Lembrança de um Pesadelo e de um Milagre, e não resisto ao prazer de inseri-la nesta Introdução, que já ameaça tomar o livro todo. Ei-la:
O homem, como tão expressivamente disse Chesterton, é um curioso monstro que anda impetuosamente para o futuro com os olhos voltados para o passado. Conhece-se o teor de uma civilização pelo gosto e pela atenção com que se pondera o passado, com que se registram os fatos e feitos, com que se demarca com pedras — como na história de João e Maria — o caminho percorrido, como se esse trajeto fosse também um caminho de volta. Ao contrário, aquilata-se a gravidade de uma crise civilizacional (como que atravessamos no mundo inteiro) pelo desprezo ou pela violência com que os novos querem romper com o passado. Esta é uma atitude de bárbaro ou de desesperado — em qualquer hipótese uma atitude infra-humana.
Romper com o passado é, numa linha horizontal e freudiana, desejar a morte do pai; e, numa linha vertical e teológica, desejar a morte de Deus. Numa outra perspectiva, que inclui os dois vetores na mesma humana peregrinação, romper com o passado é romper com o humano.
Todos nós desejamos ardentemente um mundo melhor, libertado de certas taras, de tantos erros às vezes acumulados, renovado pelo aperfeiçoamento moral dos homens; todos nós sabemos que o homem é essencialmente progressivo, e que quem não progride regride, já que a imobilização dos passos é impossível neste restless Universe; mas também sabemos que só progride o que permanece, só avança na direção de um real progresso quem tem o olhar volvido para os grandes feitos e os grandes compromissos da humanidade. E é com esta convicção que orientamos aqui o nosso retrovisor para um passado recente e especialmente para os dias de março de 1964 em que se decidiu, milagrosamente a meu ver, a sorte do Brasil.
É instrutivo reanimar a memória para aqueles dias sinistros em que parecia vivermos um pesadelo. Depois de anos de demagogia populista e de estatizações catastróficas, o Brasil chegou ao período Kubitschek em que a pátria parecia transformada num carro carnavalesco. Perpetrou-se o erro gravíssimo da construção de Brasília, que arruinou o Brasil e até hoje impede o estancamento da inflação. Falsificaram-se metas com preferência dada aos gastos inúteis em prejuízo das coisas úteis e urgentes. Pouca gente sabe que o acréscimo percentual de potência elétrica instalada, mesmo favorecido com os trezentos e cinqüenta mil kilowatts da estação de Itapetininga (S. Paulo — Grupo Light), inteiramente construída no governo anterior e simplesmente “inaugurada” pelo Presidente Juscelino, foi a metade da cifra alcançada nos governos anteriores. Tudo isto sem falar no clima de uma jocosa corrupção que fez de Brasília o nosso panamá — com a diferença da sua perfeita superfluidade.
Segue-se a este período de alegre irresponsabilidade o curto governo de um louco, que não merece comentário. E estamos agora no sinistro período do Governo Goulart. Agrava-se a inflação e o Presidente chama a si a organização da desordem. Como todo ressentido, ou como todos os chamados homens de esquerda, João Goulart imagina que a ofensa ao princípio de autoridade agrada aos pobres, o que seria verdade se todos os pobres do Brasil já estivessem “conscientizados” pelo famoso MEB das cartilhas de luta de classes. E, com esta idéia-mestra, Goulart por seus ministros e pelegos, insuflou desordens, greves, insubordinações e insolências. Os comunistas tomam posições-chaves, e no Ministério da Educação se apoderam dos dinheiros públicos com espantosa facilidade: rapazes de vinte anos passavam recibo de somas de milhões em farrapos de papel e levavam como melhor título de recomendação a prova de pertencerem ao Partido Comunista. A UNE conseguia do Congresso verbas de 3 bilhões, que valiam o que hoje valem 500 mil cruzeiros.
Caminhávamos para o caos. O episódio da Faculdade Nacional de Filosofia é bem característico: os terroristas do diretório recusam entrada ao paraninfo eleito, o governador Carlos Lacerda. O Governo Federal mobiliza suas forças para garantir a desordem. O paraninfo, o Reitor e os demais professores são desfeiteados. E nesta mesma tarde eu vi um bravo barbeiro a agitar sua navalha e a perguntar ao céu, às árvores e ao vento:
— Como pode? Como pode? Atirar alunos contra os professores é o mesmo que atirar filho contra o pai...
Aceleram-se os acontecimentos depois do comício na Central do Brasil, no dia 13 de março. Lembro-me bem, e gostaria de que todos rememorassem aquela tarde sinistra. Sentíamos uma ameaça pesada e próxima. Dir-se-ia que até no céu carregado se viam prenúncios de desgraça. Estavam ali reunidos os possessos que desejavam reduzir o Brasil a um presídio com oitenta milhões de detentos. Os rádios, histericamente, transmitiam notícias, nomes, frases. Um matutino compusera sua primeira manchete com o novo titular: O COMISSÁRIO DO POVO... O agrupamento popular relativamente pouco numeroso, que cercava o palanque, procurava compensar sua tenuidade com multiplicação de gritos e de gestos. Um padre (de batina) pulava quase um metro de altura cada vez que seu sistema nervoso era percorrido pelas descargas vindas dos slogans. E o povo? O povo, que a UNE chamava de antipovo, olhava com medo e repugnância a desordem crescente. Greve todos os dias. Naquela tarde sombria e lívida com contrastes de tempestade e bonança, havia falta de luz. Racionamento da Light. (Esse racionamento da Light em 1964 foi uma das obras das antimetas de Juscelino Kubitschek; em seu governo a Light empreendera a construção da Usina de Ponte Coberta, que iria trazer mais 100.000 kW para o Rio. O empreendimento tinha financiamento estrangeiro, mas precisava de uma aval do governo brasileiro e portanto de uma assinatura do Presidente. Duas vezes teve a empresa de dispensar seus trabalhadores para reatualizar os orçamentos, porque o Presidente Juscelino, com uma omissão criminosa, deixava de assinar seu compromisso. Durante um ano andavam os homens da empresa a procurar o Presidente, sem conseguir seu rabisco, que aliviaria uma enorme construção e que traria luz e conforto a quatro milhões de cariocas).
Em nosso bairro as ruas estavam vazias, e nos rebordos das janelas víamos durante todo o dia velas acesas em sinal de que naquele apartamento rezava-se pedindo a Deus que não permitisse o assassinato do Brasil. Creio que foi nesta semana que um colunista católico escreveu que as reformas anunciadas por Goulart coincidiam com os ensinamentos de João XXIII!
Precipitam-se os acontecimentos. Foi nesta última semana ou na anterior? Cada manhã, à saída da missa, os amigos se entreolhavam com o ar de quem tem em casa um grande doente. Evitávamos falar no assunto. Nesta manhã, porém, alguém perguntou:
—      Viram o que aconteceu ontem na Ilha do Fundão?
O Presidente Goulart aprazara encontro com o Reitor, professores e estudantes. Desceu de helicóptero, mas a meia altura mandou parar e começou a gritar:
—      Os estudantes para a frente! Os estudantes para a frente!
E a manada de estudantes rompeu a socos e empurrões a fila dos professores. E nós, ouvindo a história, sentíamos uma vergonha profunda, alternada com convulsões de cólera perdida. Ah! que vontade de combater! “Ô rage, ô desespoir, ô vieillesse ennemie!”.
Cada notícia era uma injúria; cada página de jornal, uma bofetada. E os nervos tensos, e o coração sangrando... Não se via uma perspectiva, uma saída. A tênue esperança que tínhamos era a de que o Exército se organizasse e seus chefes soubessem sobrepor à mesquinha legalidade produzida pelo positivismo jurídico. Saberiam? Poderiam? O fato é que o comunismo já se achava no Poder e já tinha a seu favor a moleza de uma sociedade maltratada por tantos e tão maus governos. Faltava-lhe um arremate de forma, mas contava com grande parte da imprensa, com os “intelectuais”, com os estudantes e com padres e até arcebispos “progressistas” que já ensaiavam a voz para a declaração:
—      Companheiros! Eu também sou comunista! Eu sempre fui comunista!
De onde nos viria o socorro humano, a reação viável? Trouxeram-me um revólver. Que faria eu com um revólver contra um bando de executores que me cercassem a casa à noite? Aconselharam-me a mudar de posição a mesa de trabalho colocada diante da janela. Cheguei a pegar na mesa, mas detive-me, prevendo que entraria num espiral de precauções intoleráveis se admitisse a primeira. Aconselharam-me a mudar de casa, mas o mesmo horror da organização do medo me tolheu. Sinceramente, a um Brasil emporcalhado de marxismo, eu preferiria não sobreviver. Dias depois, fui dar minha aula na Companhia Telefônica, na Avenida Presidente Vargas. Quando cheguei ao local, vi-me cercado no carro por uns oito ou dez indivíduos de má catadura.
— O que vem fazer aqui?
— Vim dar uma aula — respondi com uma repugnância infinita.
— Somos o piquete da greve! Você não sabe que a CTB está em greve?
Senti oscilar a razão sob a pressão da cólera explosiva. Tive medo e raiva de ter medo. Consegui conter-me: engrenei o carro, baixei a cabeça para evitar algum tiro, e entre gritos dos pelegos e freadas de carros entrei na roleta russa da Avenida Presidente Vargas. No dia seguinte, li no jornal o que o mesmo piquete de greve fizera com uma moça datilógrafa que ousara discutir com eles. Despiram-na e deixaram-na nua junto de uma palmeira.
Os possessos! Os possessos! Tínhamos a impressão de que o número deles crescia, ou que se multiplicava a sua força. E pasmávamos diante da inexplicável insensibilidade de alguns intelectuais e de muitos padres e bispos que não sentiam o cheiro da substância que lhes entrava pelo nariz. Empoleirados a rotular com louvores o hediondo fenômeno que os empurrava, esses intelectuais e esses padres ousaram apontar no comuno-peleguismo, cruel e cafajeste, uma realização da doutrina social da... Igreja.
Não víamos saída, sobretudo quando comparávamos nossa situação à dos países tombados sob o jugo do comunismo. Os processos se repetiam. “Vejam o caso da Tchecoslováquia!”, dizia-nos um comentador de política internacional. Eu acordava resmungando, não sei por que em francês: “sans issue... sans issue...”. Receávamos todos que nossas próprias lições na Resistência Democrática se tornassem obstáculos mentais, superstições, pontos de honra para os nossos melhores soldados: democracia, vontade do povo, legalidade... receávamos que tudo isso recobrisse a noção fundamental de bem comum e de lei natural e paralisasse as melhores consciências.
De Minas chegou a notícia consoladora de um comício pelego-comunista dissolvido por um grupo de senhoras armadas com o terço. Mas a anarquia se precipitava. O grupo de marinheiros rebeldes reunidos no Sindicato dos Metalúrgicos venceu a resistência do próprio Governo. O Almirante Aragão voltou ao comando dos fuzileiros, e nesta tarde o povo carioca teve de suportar o vexame da carnavalesca passeata dos comandados do Cabo Anselmo na Avenida Rio Branco. De hora em hora arrematava-se a chinificação do Brasil. O Clube Naval esboçou uma resistência que obrigou o Presidente Goulart a voltar à ofensiva no tristemente famoso discurso no Automóvel Clube. Nesta noite o Brasil chegou ao ponto mais baixo de sua história. Um marinheiro rebelde, tomando a palavra, começou um discurso bobo e convencional, e pela força do hábito deixou escapar a palavra “disciplina”. Foi estrondosamente vaiado.
Naquela manhã, à saída da missa, percebemos logo que a anormalidade chegara a um ponto decisivo. Antes mesmo de ver os lençóis azuis, sentimos o ar de um dia diferente. O que faziam ali aqueles rapazes de lenço azul e revólver na cinta? Eram milicianos. O que é que se esperava? Um ataque ao palácio do Governador da Guanabara.
Esboçavam-se filas diante dos armazéns. A cidade inteira — adivinhávamos — se preparava e se retesava. Caminhamos na direção do Palácio e encontramos amigos, homens pacíficos, negociantes e professores, que se dirigiam também ao Palácio, com um revólver surgido na cinta que jamais sonhara tamanha responsabilidade. O brasileiro bom, o brasileiro sem jeito, modesto, caminhava mansamente e sem ares de heroísmo para uma situação em que possivelmente teria de dar a vida. Povo manso, povo bom, pensava eu, mas também povo bobo e sem jeito. O que iria acontecer?
Numa esquina ouvi uma conversa entre dois populares:
— Parece que os tanques vão atacar o Palácio pela Rua Paissandu.
— Não pode. Ô cara, você não sabe que é contramão?
Perto do Palácio adensava-se a multidão, mas no meio dos homens canhestramente dispostos a dar a vida pela Pátria passavam meninos de bicicleta e moças risonhas e despreocupadas. Seria da mocidade, desta bateria nova e bem carregada, que eles tiram energia? Não. O povo todo, observando melhor, ostentava uma graciosa e leve coragem. Uma coragem humorística. E eu tive, de repente, a intuição viva e fulgurante da vitória desse gênio brasileiro contra a substância que o ameaçava.
Pouco depois chegou a primeira onda de notícias surpreendentes: os tanques tinham aderido ao Governador, as Forças Armadas dominavam a situação, João Goulart fugira do Palácio das Laranjeiras, sem tempo de meter a fralda da camisa para dentro das calças. Pouco depois confirmava-se a notícia, e o povo brasileiro (com exceção dos intelectuais de esquerda e dos eclesiásticos paracomunistas) ficou sabendo que Nossa Senhora ouvira nossas súplicas, que Deus nos salvara e que o instrumento escolhido para este milagre fora o nosso bom soldado de terra, mar e ar.
Dois dias depois, em todas as cidades grandes do Brasil, o povo encheu as ruas com a Marcha da Família — com Deus pela Liberdade. Eu e quatro amigos estivemos perdidos, imersos na mais densa multidão que jamais víramos reunida. Ali estava o que os intelectuais de esquerda chamavam de antipovo. Ali estava o sangue vivo de nosso bom Brasil. E eu então senti-me possuído de uma enorme admiração por este povo singular que acabava de vencer uma Copa do Mundo no combate ao comunismo. Agradecendo a Deus os favores de exceção que de certo modo não merecíamos, agradecia também os favores da natureza e das merecidas conseqüências. Grande povo! “A Europa curvou-se ante o Brasil” nos dias de Santos Dumont. Menino de quatro anos, cantei o pequeno hino de nossa projeção internacional. Velho, às portas dos setenta, cantava outro hino e candidamente prelibava a admiração universal diante da facilidade dançarina, graciosa, dionisíaca, com que o povo brasileiro pôs a correr os comunistas. (Mal sabia, na embriaguez de meu entusiasmo, que o mundo inteiro nos caluniaria. Os Estados Unidos com base na superstição de sua liberal democracia, ou no seu “democratismo”, e a Europa com base no esquerdismo que se apoderou dos meios de comunicação).
Foi um dos mais belos espetáculos que vi. E tenho pena dos corações alienados que não tiveram a capacidade para acolher tão boa e tão bela alegria. Lembrei-me de uma página de Léon Bloy. A França acabara de marcar a vitória do Marne. Os jornais estavam encharcados de júbilo, de esperança, de triunfo. Mas Léon Bloy folheava os jornais com cólera crescente, e depois com tristeza infinita. O que é que o velho leão procurava nos cantos dos jornais? Lá está escrito em seu Diário: “Je cherche en vain le nom de Dieu”.
Ora, em nossa grande Marcha — cuja fotografia está diante de mim — não houve menção de um só nome dos tantos civis e militares que bem mereceram o aplauso do povo. Havia um só nome: o nome de Deus.
O levante militar de 1964 pôde expulsar dos postos de governo os comunistas, mas não pôde fazer o mesmo nas ordens religiosas, onde a infiltração se agravou com a cobertura dos bispos agora burocratizados ou motorizados na CNBB. Anos atrás D. Jaime Câmara, e muitos outros bispos do Brasil clamaram contra o perigo iminente e evidente da infiltração comunista, mas agora, ao sabor da chamada era pós-conciliar, e da liquidificação da autoridade episcopal, tornou-se ostensivo e agressivo o comunismo de padres desatinados, e tornaram-se inevitáveis os atritos entre esse clero e o Governo. Um dos primeiros padres presos foi o lazarista que deixamos páginas atrás a ensinar marxismo em Ferros, perto de Belo Horizonte.
Mais tarde foram presos dois padres assuncionistas franceses que ensinavam marxismo e que pertenciam à Ação Popular. Voa de Paris o Pe. Guillemin, superior dos assuncionistas que desde a primeira entrevista anunciou a nova-Igreja pós-conciliar, disse uma dúzia de asneiras em torno desse tema, e voltou à Europa para levar a queixa à Comissão de Justiça e Paz que nesse tempo já era o que é e já estava preparada para repositório das reclamações esquerdistas. Mereci desse Superior Assuncionista uma carta suavemente injuriosa, mas nunca tendo conseguido ser colecionador de coisa alguma não guardei o autógrafo do personagem. Nesse meio tempo chegou ao Brasil, com atraso de vinte anos, o fenômeno Teilhard de Chardin. Escrevi em 1965 mais de dez artigos sobre essa nova faceta do poliedro de estupidez que o mundo católico parecia empenhado em construir. O sucesso editorial alcançado pelas obras de Teilhard de Chardin, que não têm nenhum valor filosófico, teológico, literário ou científico, só é comparável à febre de valorização de tulipas que grassou na Holanda do século XVII, ou à quase idolatria do boi zebu que foi apaixonadamente praticada no Triângulo Mineiro há mais de quarenta ou cinqüenta anos. Ponderando, no caso, a gravidade da matéria tratada, podemos dizer que essa epidemia teilhardista foi certamente o mais humilhante acontecimento do último milênio nos dois hemisférios deste honrado planeta habitado. Não insisto no assunto porque já declina o fenômeno que brevemente mergulhará no nadir de um esquecimento total e absoluto, e se misturará às fantasias de Simão, o Mágico.
Menos cômica do que a omegalização e a noogênese do infortunado jesuíta, foi a degradação que se via na ordem dominicana. Convém lembrar que em 1968 as esquerdas, vencidas e expulsas dos cargos, estavam levantando a cabeça. Vale a pena ler o divertido livro de Charles Antoine publicado pela Desclée Brouwer em 1971 com este título: L’Eglise et le Pouvoir au Brésil, e este subtítulo: Naissance du Militarisme. No capítulo 4, o autor que é ou foi padre, começa com estas palavras do mais límpido cinismo jamais impresso: “O ano de 1968 é particularmente fértil em campanhas de opinião pública contra a ala avançada da Igreja. A ofensiva se desenrola em três frentes: corrupção financeira dos bispos, comunismo no clero e perversão sexual nos colégio católicos. Os responsáveis dessas campanhas são respectivamente os meios conservadores, os integristas católicos e os militares da linha dura”.
E mais adiante o autor se entusiasma com a famosa passeata. Dom Castro Pinto e Pe. Adamo se desdobram na promoção dessa passeata chamada dos “100.000” em que todos se sentavam no chão quando o rapaz que a liderava — creio que se chamava Vladimir Palmeira ou Coqueiro, não tenho certeza — declarava que estava cansado. “Sentar no chão!” era a ordem; e padres, freiras e bispos sentavam-se no chão.
No auge do entusiasmo o professor Cândido Mendes publica no Correio da Manhã, de 30 de junho de 1968 um artigo: “Enfim, a Marcha!”, onde dizia no seu peculiar idioma:
 “No máximo a alternativa à baixa dos cassetetes ou à carga de cavalaria se constituía na exasperação dos dispositivos de “derretência”, palavra que cada vez mais assume o primeiro na logística do conflito contemporâneo”.
A avalancha de perversidade e de estupidez se avoluma e se precipita sobre os restos de uma civilização vacilante, sob disfarces e com apelidos de “progresso” e “frutos maravilhosos” do Concílio Vaticano II, que se quis a si mesmo mais “pastoral” do que definidor, dogmático e condenador de erros, começando por emprestar o termo “pastoral” um significado de tolerância que destoa não apenas da tradição mas de qualquer idéia de reger, conduzir e governar. Se o Concílio tivesse sido realmente tão pastoral como euforicamente prometiam seus padres, teria reservado espaçoso lugar para a denúncia de mercenários e para os gritos de alarme contra os lobos. Ao contrário disto, tivemos um Concílio otimista, e os resultados não tardaram.
A famosa Constituição Pastoral sobre a Igreja e o Mundo Moderno, que um irreverente chamaria Constituição Pastoral sobre a Igreja e o Mundo da Lua, “reconhece agradecida a ajuda variada que recebe de parte dos homens de todas as classes e condições”. Que quererá dizer isto? Que a Igreja agradece aos padeiros e vinhateiros, e que além disso agradece ao mundo a afabilidade com que tolera sua presença e com que proporciona serviços de água e esgoto a suas instituições? Em outra passagem (21) a mesma Gaudium et Spes diz que “a Igreja, embora repelindo de forma absoluta o ateísmo, reconhece sinceramente (sic) que todos os homens, crentes e descrentes, devem colaborar na edificação do mundo em que vivem em comum, e isto requer necessariamente um prudente e sincero diálogo”. E assim se vê que já se consideram peremptos os decretos de Pio XII e João XXIII que severamente proibiam a colaboração dos católicos com os comunistas, como também se vê que cai em desuso e esquecimento a definição do Concílio de Trento pela qual “a Igreja na terra se chama de militante porque está em guerra constante contra três cruéis inimigos: o mundo, o Diabo e a carne. Agora, em vez disso “somos testemunhas do nascimento de um novo humanismo (!?) no qual o homem fica definido, principalmente, por sua responsabilidade diante de seus irmãos e diante de...”.
Se anos atrás entregássemos esse texto a alunos de catecismo elementar, com o claro por preencher, todos imediatamente escreveriam: “Deus”.
Ora, não é diante dos homens e de Deus que o “novo humanismo” deve ser principalmente responsável: é “diante dos homens e da HISTÓRIA”!!! Está claro que o realce é nosso. Nosso é o espanto, nosso é o estupor, nossa é a preocupação. Frases como estas se diziam em discursos rotarianos, ou diante das pirâmides do Egito, mas nós, católicos, raça humilde e altiva que não reconhece outro senhor senão o Deus dos exércitos, sabemos que a história, com minúscula ou maiúscula, tomada como curso dos acontecimentos ou como o registro deles estudado pelos homens, pode ser julgada, mas não pode julgar coisa nenhuma, e sabemos que não é diante do trono do século XX ou do século XXX que prestaremos conta de nossos atos.
As conseqüências de tais afrouxamentos de doutrina e de relação se traduzirão rapidamente em afrouxamentos morais e disciplinares, e veremos espetáculos espantosos nas casas de recolhimento e de oração. Em 1967, temos em Belo Horizonte e em São Paulo conventos dominicanos e beneditinos que abrem suas portas a falsos estudantes da UNE sob pretexto de retiro espiritual. Nesses dias escrevi: “Ia eu formular um apelo... Mas, quando os religiosos chegam a mentir — e mentir descaradamente, pretendendo que se enganaram, e que tomaram o ajuntamento de moços como um desejo de retiro espiritual — todos os apelos se tornam inúteis e ingênuos demais” (O Globo, 2 de julho de 1967).
Em 1968, como se tornou manifesto ulteriormente, os guerrilheiros de Marighela tinham quartel-general ou cabeça-de-ponte no Convento das Perdizes, em São Paulo. Quando as autoridades policiais prenderam “frei Chico” (o prior) para prosseguimento do inquérito, todos os padres e frades progressistas se moveram e organizaram uma passeata diante do DOPS, em São Paulo, vestidos com os hábitos que já haviam desprezado. A CNBB pressionou o governo; o Cardeal Rossi pressionou o governo do Estado, e depois a Presidência da República.
Esses senhores agiam em função de dois novos princípios, ou novos dogmas: 1°, sendo dominicano, o preso não podia ser revolucionário, e muito menos comunista; 2°, sendo militares as autoridades que promoveriam a diligência, ela era evidentemente injusta. O provincial e o vice-provincial dominicanos, chacun avec sa chacune, já preparavam as malas para deixar tudo, como ulteriormente efetivaram.
E é nessa atmosfera de apostasias e de corrupção que os senhores bispos resolvem corrigir as estruturas econômicas da América Latina e aprazam reunião na Colômbia, em Medelin, onde, com base num manifesto marxista do padre belga José Comblin, elaboram um documento inflado de auto-suficiência, mas absolutamente vazio de qualquer saber sócio-econômico. O senso comum de nível mais elementar os aconselharia a não discorrerem tão profundamente sobre matéria que tão mal conhecem e que escapa a sua jurisdição, enquanto lavrava o incêndio nas próprias dioceses abandonadas, e as almas eram devoradas. Sim, senhores bispos, as almas que lhes foram confiadas se perdem! Ou não? Mas então, se a salvação não é o mais importante dos affaires, se não é para cooperar com Cristo crucificado que os padres e os bispos são padres e bispos, então fica provada, à luz da “Gaudium et Spes” ou de outros tópicos conciliares que invoquem à História, a perfeita inutilidade do esbanjamento do preciosíssimo Sangue.
Um ano depois estoura o escândalo Marighela, e logo depois, como era de esperar, surgem da Europa, de onde nos vêem as diretrizes e os agentes da corrupção, denúncias contra arbitrariedades e perversidades praticadas pelo governo do Brasil.
O tenebroso nadir de todo esse amontoado de perversidade e estupidez é atingido no dia em que todos os provinciais dominicanos franceses escrevem uma carta ao Cardeal Leroy, presidente da Comissão de Justiça e Paz. Nessa carta inimaginável os provinciais franceses, negando pura e simplesmente os fatos atribuem as notícias à invencionice do governo brasileiro.
O que terá acontecido na ordem dos dominicanos, perguntaria alguém que tivesse cochilado, não cem ou duzentos anos como no apólogo do frade que se entretém com o canto melodioso de um pássaro, mas apenas vinte.
Sim, o que aconteceu entre a data do desembarque do Pe. Lebret no Brasil e o dia em que Marighela marcou encontro fatal com dois comparsas duplamente traidores? Apenas isto: os erros, os desvios produziram suas conseqüências. E alargaram-se: parvus error in initio magnus est in fine.
Recrudesce em toda a América Latina a onda de assaltos e seqüestros. Praticam-se friamente crimes espantosos. No aniversário de morte de Guevara é decidida nos “tribunais” revolucionários a condenação à morte de um norte-americano qualquer. É “justiçado” o oficial Chandler, quando saía de casa com seu filho de onze anos.
Entusiasmado com esses feitos praticados por jovens, o arcebispo de Olinda e Recife sai voando e em Paris dá à revista L’Express uma entrevista que fica registrada para vergonha do planeta Terra: ele aplaude os seqüestradores assassinos. Pede bis. Escreve em livro que devemos abrir aos jovens “crédito de ilimitada confiança”. E nós nos perdemos em monótonas indagações: como se explica? O que aconteceu com o Concílio? Com o Papa? Com os bispos? Com as freiras que vendem prédios, imagens, objetos sagrados para saírem por aí a multiplicar conferências sobre o sexo? O que aconteceu com a Igreja? “Has the church gone mad?”.
Uma ponta do mistério está no Livro Santo: “Simão, Simão, eis que Satanás te reclamou para joeirar-te como trigo, mas eu roguei por ti para que tua fé não desfaleça: e tu, uma vez convertido, vai e conforta teus irmãos” (Luc. XXII, 31, 32). Nesta hora sexta do século, Deus permitiu que Satanás passasse pelo crivo os discípulos de Jesus. Se quisermos lograr algum entendimento de tão sombrio mistério, será preciso voltar anos atrás a fim de ver e auscultar o que andaram fazendo os homens que descendiam de uma civilização cristã, e orgulhosamente anunciavam o surgimento de um “novo humanismo”. Nas páginas subseqüentes trago minha minúscula colaboração, arrancada das lágrimas e do estudo, e tornada possível com a graça de Deus e com uma sobrevivência que já me causa certo espanto, e que quero aproveitar para o serviço da mesma Igreja de Deus, tão bela, tão luminosa, mas momentaneamente toldada eclipsada pelo enxame dos que a abandonam mas ainda se detêm em torno de suas torres, diante de sua porta, para o triste mister de um escândalo rendoso, e de uma última bofetada na Mãe e Mestra que renegam. Ousemos desejar que esses maus filhos se afastem mais lealmente e vão comer bolotas com os porcos, porque essa será talvez a última oportunidade que terão de sentirem um dia saudades da Casa do Pai. E como filhos pequeninos que temem e tremem nesta hora crepuscular, nesta hora do lobo, coloquemos estas páginas sofridas e choradas aos pés de Nossa Senhora, Consoladora dos Aflitos.
E agora que já esbocei um resumo de nossos itinerários e de nossos extravios, deixemos o Brasil, aonde apenas chegaram os efeitos de causas remotas e alheias. Proponho ao leitor, nas páginas deste livro, que ainda não começou, a procura, a indagação, não digo das causas de tão assombrosos acontecimentos, por me parecer que o termo é austero demais e que a aventura está acima de minhas forças, mas a procura e indagação de sinais, das pegadas, dos sulcos que vêm deixando na história a passagem de uma caravana destruidora. Contentemo-nos com os marcos mais próximos e recentes e procuremos de onde vieram eles, o que disseram, por onde passaram...
E não se queixa algum leitor de que estejam na Europa e principalmente na França, na Inglaterra e na Espanha os personagens da Comédia de Erros, nem espalhe por aí que me desinteressei da própria história pátria. Na tragédia ou comédia de que depende a sorte da Civilização por alguns milênios já escrevi, e continuo a escrever, milhares de páginas sobre o que vem acontecendo no Brasil. Reunidas em volume dariam dez livros maiores do que este que hoje ofereço.

E agora partamos. Examinemos o chão do século e procuremos de onde vieram eles, os principais, por onde passaram e o que pelo caminho deixaram. E retiremo-nos para esperar novos avanços da sinistra caravana que dá à desesperança e ao nada do século nomes de otimismo e de progresso.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

DOUTOR FAUSTO

Título original: Doktor Faustus
Autor: Thomas Mann (1875-1955)
Tradutor: Herbert Caro
Assunto: Romance (Literatura estrangeira)
Editora: Nova Fronteira
Edição: 3ª
Ano: 2000
Páginas: 719

Sinopse: Narrada pelo seu amigo, o professor Serenus Zeitblom , esta é a história do músico Adrian Leverkühn que, como o Fausto de Goethe, vende a alma ao Demônio a fim de viver o suficiente para realizar sua grande obra. Publicado em 1947, este livro faz parte do período final da atividade criadora de Thomas Mann, sendo tecnicamente o seu romance mais ousado, no qual música e política, realidade e símbolo, fato e ficção combinam-se num grande panorama que, segundo Otto Maria Carpeaux, “alcançou uma altura na qual nenhum dos seus contemporâneos foi capaz de acompanhá-lo”.

Comentários: DOUTOR FAUSTO, de Thomas Mann é uma obra magnífica. A biografia romanceada do filósofo na qual ele aparece na encarnação de um músico que faz pacto com o Diabo para alcançar a glória da poesia/música. Este livro é comovente e aterrador, pois mostra como um homem pode se entregar ao Maligno voluntariamente para ter delírios de grandeza e, ao fazê-lo, praticar a servidão ao Mal em todas as suas dimensões. O livro de Mann é aterrador porque não tem redenção: a dramática confissão de Adrian Leverkühn ao final não serve para o perdão dos pecados. Deixa de ser confissão para ser um mero relato das maldades praticadas. Ele então desaparece sem receber a misericórdia divina, em oposição ao enredo de Fausto, de Goethe, que redime seu personagem pela graça de Deus e pela intercessão da Virgem Maria. Thomas Mann aponta corretamente a responsabilidade direta da obra de Nietzsche sobre os acontecimentos da Alemanha no período nazista. Os pecados de Leverkühn eram os pecados de toda a gente e a derrocada pessoal da personagem era o espelho da derrocada de seu país. O epílogo é a danação sem consolação alguma. E foi assim o epílogo para aquela geração insensata, que pereceu em grande parte pelas guerras (Nivaldo Cordeiro).

Conclusão: A sedução de Leverkühn pelo demônio é também a sedução e a danação da Alemanha pelo nazismo.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

ORTODOXIA

Título original: Orthodoxy
Autor: Gilbert Keith Chesterton (1874-1936)
Tradutor: Almiro Pisetta
Assunto: Apologética: Doutrina Cristã.
Editora: Mundo Cristão
Edição: 1ª
Ano: 2008
Páginas: 263

Sinopse: Esta obra é um marco do pensamento cristão do século XX. Numa época em que a Europa dava os primeiros passos para tornar-se uma sociedade pós-cristã, um intelectual cansado do cinismo reinante e do fascínio despertado por novas idéias, resgata o núcleo da fé cristã como arcabouço suficiente para dar sentido à existência humana.

Ao contar sua jornada espiritual, Chesterton defende os valores cristãos contra os chamados valores modernos como o cientificismo reducionista e determinista e faz saber à intelligentsia européia da primeira metade do século XX que o socialismo, o relativismo, o materialismo e o ceticismo estavam longe de responder às questões existenciais mais profundas. E quando questionado sobre as aparentes contradições da fé cristã, ele era um mestre em valer-se do paradoxo para apresentar a simplicidade do senso comum.

Enquanto isso, aqui no Brasil, padres, bispos e cardeais, em sua esmagadora maioria, aderem ao marxismo e a cura do corpo ao invés da alma. Abandonam a essência para se ocupar da forma. Esquecem-se do espírito para ocupar-se da matéria, do MST, da Via Campesina e da Teologia da Libertação constituindo-se assim, em traidores de Cristo, tal qual o foi Judas, dois mil anos atrás.

Um pequeno excerto da obra:

“Pessoas completamente mundanas nunca entendem sequer o mundo; elas confiam plenamente numas poucas máximas cínicas não verdadeiras. Lembro-me de que, certa vez, fiz um passeio com um editor de sucesso, e ele fez uma observação que eu ouvira antes muitas vezes antes; é na verdade, quase um lema do mundo moderno. Todavia, eu ouvi essa máxima cínica mais uma vez e não me contive: de repente vi que ela não dizia nada. Referindo-se a alguém, disse o editor: “Aquele homem vai progredir; ele acredita em si mesmo”. Disse-lhe então: “Quer saber onde ficam os homens que acreditam em si mesmos?” Eu sei. “Os homens que acreditam em si mesmos estão todos em asilos lunáticos”.

Ele disse calmamente que, no fim das contas havia um bom número de homens que acreditavam em si mesmos e que não eram lunáticos internados em asilo. “Sim, certamente”, retruquei, “e você mais do que ninguém deve conhecê-los. Aquele poeta bêbado de quem você não quis aceitar uma lamentável tragédia, ele acreditava em si mesmo. Aquele velho ministro com um poema épico de quem você se escondia num quarto dos fundos, ele acreditava em si mesmo. Se você consultasse sua experiência profissional em vez de sua horrível filosofia individualista, saberia que acreditar em si mesmo é uma das marcas mais comuns de um patife. Atores que não sabem representar acreditam em si mesmo; e os devedores que não vão pagar. Seria muito mais verdadeiro dizer que um homem certamente fracassará por acreditar em si mesmo. Total autoconfiança não é simplesmente um pecado; total autoconfiança é uma fraqueza. Acreditar absolutamente em si mesmo é uma crença tão histérica e supersticiosa como acreditar em Joanna Southcote: quem o faz traz o nome ´Hanwell´ [nome de um asilo para loucos] escrito no rosto com a mesma clareza que está escrito naquele ônibus” .

A tudo isso meu amigo editor deu uma profunda e eficaz resposta: “Bem, se um homem não acredita em si mesmo, em quem vai acreditar?” Depois de uma longa pausa eu respondi: “Vou para casa escrever um livro em resposta a sua pergunta”. Este é o livro que escrevi para responder-lhe.”

Sobre o autor:

Gilbert Keith Chesterton, conhecido como G. K. Chesterton, (Londres, 29 de maio de 1874 — Beaconsfield, 14 de junho de 1936) foi um escritor, poeta, narrador, ensaísta, jornalista, historiador, biógrafo, filósofo, desenhista e conferencista britânico.

Era o segundo de três irmãos. Filho de Edward Chesterton e de Marie Louise Grosjean. Casou-se com Frances Blogg. Concluiu os estudos secundários no colégio de São Paulo Hammersmith onde recebeu prêmio literário por um poema sobre São Francisco Xavier. Ingressa na escola de arte Slade School de Londres (1893) onde inicia a carreira de pintura que vai depois abandonar para se dedicar ao jornalismo e à literatura. Escreveu no Daily News. Nascido de família anglicana, mais tarde converteu-se ao catolicismo em 1922 por influência do escritor católico Hilaire Belloc, com quem desde 1900 manteve uma amizade muito próxima.

Ao falecer deixou todos os seus bens para a Igreja Católica. A sua obra foi reunida em quase quarenta volumes contendo os mais variados temas sob os mais variados gêneros. O Papa Pio XI foi grande admirador de Chesterton a quem conhecera pessoalmente.

Curiosidade: Chesterton era daqueles sujeitos que não conseguem passar despercebido aonde quer que estejam. A irreverência, o bom-humor e a eloqüência, associados a dois metros e nove centímetros de altura e a um peso médio de 140 quilos, transformavam qualquer ambiente; quer uma festa de aniversário infantil ou um acalorado debate com Bertrand Russel.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

DIÁRIO DE UM PÁROCO DE ALDEIA

Título original: Journal d´un cure de campagne
Autor: Georges Bernanos (1888-1948)
Tradução: Thereza Christina Stummer
Editora: Paulus
Assunto: Romance confecional (Literatura estrangeira).
Edição: 2ª
Ano: 2000
Páginas: 285

Sinopse: Escrito em 1934 e publicado em 1936, este romance confessional traça o doloroso itinerário espiritual de um jovem sacerdote, pobre e doente, enviado para uma terriola habitada por uma sociedade pragmática, descrente de fé e de cristandade. Neste cenário começa a luta contra a penetração do mal com armas como a humildade, o sofrimento e a solidão.

A história, em tom confessional, descreve a vida de um jovem padre católico na paróquia de Ambricourt, no norte da França, quase divisa com a Bélgica. A vida do padre é marcada por um câncer no estômago e pela falta de fé da pequena população local.

Comentários: Uma grande obra é aquela que agrega conhecimentos sobre a realidade e aumento de consciência da condição humana. Diário de um pároco de aldeia faz isso com magistral propriedade. Mais que isso, ultrapassa esses propósitos e nos dá uma verdadeira demonstração de fé, cristianismo e santidade e uma aula verdadeiramente filosófica. É uma história comovente, muito bonita e maravilhosa, contada com grande maestria literária. Entretanto, não é um livro fácil de ler porque é um livro com sentido filosófico onde a personagem central está argumentando em torno de idéias e o leitor moderno não está mais acostumado com isso.

O nosso herói é um jovem padre, cujo nome nós não sabemos e que registra em seu diário a vida angustiante que leva numa paróquia de interior. A obra denuncia como o Cristianismo está sendo transformado em rotina no mundo moderno, simbolizada pelo padre na aldeia de Ambricourt. No fundo, a história retrata a morte simbólica do mundo.

O livro começa com o padre descrevendo como é a vida na sua paróquia. O tempo todo se tem a impressão de que o padre está lutando contra um caso perdido, como se àquele lugar não pudesse ser recuperado.

“Minha paróquia é uma paróquia como todas as outras. Todas as paróquias se parecem. As paróquias de hoje, naturalmente. Eu dizia ontem ao pároco de Norenfontes: o bem e o mal devem ficar em equilíbrio nelas, só que o centro da gravidade está lá embaixo, bem lá embaixo. Ou se preferir, os dois se sobrepõem nelas sem se misturar como dois líquidos de densidades diferentes. O padre riu na minha cara. Ele é um bom sacerdote, muito benevolente, muito paternal, e que no arcebispado passa até por incréu, um pouco perigoso. Suas tiradas fazem a alegria das casas paroquiais, e ele as reforça com um olhar que ele gostaria que fosse vivo, e que acho tão gasto e cansado que sinto vontade de chorar.
Minha paróquia é devorada pelo tédio, essa é a palavra certa. Como todas as outras paróquias. O tédio a devora diante de nossos olhos e não há nada que possamos fazer. Talvez um dia destes sejamos contagiados, e descubramos em nós esse câncer. Pode-se viver muito tempo com isso.”

Há algo de errado na sociedade e que acaba influindo na vida do pároco. E como o padre é jovem, os problemas são maiores, as dúvidas são maiores, e os sonhos são grandes. O problema está no grande abismo que separa o pároco entre o que ele sonhou ser e o que a aldeia espera que ele seja, e o que ele consegue ser, na prática.

Ele é um pároco numa cidade de gente descrente, gente cínica, gente ferozmente pragmática. Ele não tem nenhum colega de profissão que o ajude de verdade, porque todos eles estão apenas tentando transformá-lo em um ser tão cínico quanto eles. Em última análise, ficou sozinho e completamente solitário nessa vida.

“Eu me dizia então que o mundo é devorado pelo tédio. Naturalmente, é preciso refletir um pouco para se dar conta disso, não é uma coisa que se perceba imediatamente. É uma espécie de poeira. A pessoa vai e vem, sem a ver, respira essa poeira, come e bebe essa poeira, e ela é tão fina que nem faz barulho quando é mordida. Mas basta parar um momento e ela torna a cobrir o rosto e as mãos da pessoa. É preciso se agitar sem parar a fim de sacudir essa poeira de cinzas. Por isso mesmo, o mundo se agita muito.”

Este tédio que o padre descreve, é algo que não se percebe que acontece, uma espécie de poço invisível, um estado de coisas profundo e estabelecido, que não se consegue mexer. É como a poeira com a qual as pessoas se acostumam e com a qual não conseguem lidar. Este é mais ou menos o clima que se estabeleceu ali na paróquia do nosso herói.

O padre acha que a sua própria vida não tem mistério algum e o diário que ele se utiliza é um exercício para anotar as coisas que acontecem, com sinceridade que ele tem com ele mesmo.

SENTIDO DA OBRA:

1. A obra é um ESTUDO SOBRE A SANTIDADE. O padre vai morrendo ao longo da história e há um sentido simbólico por trás disso.

2. O mote da obra é o confronto entre a CONFORMIDADE e INCONFORMIDADE.

3. O autor nos mostra o paradoxo entre ESPIRITUALISMO e PRAGMATISMO. O padre de Ambricourt simboliza o espiritualismo, enquanto o padre de Torcy e o senhor deão, seu superior, simbolizam o pragmatismo.

CONCLUSÃO:

A obra busca despertar a consciência de que o pragmatismo está sufocando o espírito do cristianismo.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O RINOCERONTE

Título original: Le Rhinocéros
Autor: Eugène Ionesco
Tradução: Luís de Lima
Editora: Abril Cultural
Assunto: Drama
Edição: 1ª
Ano: 1976
Páginas: 236

Sinopse: Ionesco conta a história de uma cidade pacata que se transforma completamente após a passagem de um rinoceronte por suas ruas. À medida que a origem do paquiderme é discutida e em alguns casos rebatida, ele, misteriosamente vai se proliferando de maneira incontrolável, até finalmente notarmos que os próprios cidadãos da cidade vão aos poucos se metamoforseando em rinocerontes. Nas entrelinhas, é claro que o rinoceronte vem simbolizando o conformismo na qual a sociedade esta estacada. Essa metamorfose sofrida pelos habitantes é uma analogia ao processo continuo de mediocrização que a sociedade vem sofrendo há tempos, um processo que nos dias atuais vem se agravando.


Enredo: Num dia comum, irritantemente comum, de uma cidade comum, onde nada acontece, a não ser um diálogo estúpido de homens que não sabem o que fazer de suas vidas, um rinoceronte enche de poeira uma rua. E causa espanto.

Conversando calmamente num café, as pessoas de repente são sacudidas pela estranha visita, sentem-se ameaçadas, procuram compreender. Nesse mesmo instante, o rinoceronte ainda é inadmissível. Alguém alega que as autoridades não deveriam permitir a visita desse tipo de animais à cidade. Outros procuram raciocinar sobre a hipótese de tudo não passar de sonho. Outros não dão a menor importância, imersos que estão em seu diálogo ridículo.

Bérenger conversa com Jean e não se abala com o estranho fato. Preocupado com seu amor por Daisy e ciumento de Dudard, colega de escritório, ele mal se ocupa de olhar o animal.

Jean dá lições de moral a Berenger, enquanto um senhor idoso conversa sobre silogismos. Pouco a pouco, as frases desencontradas das quatro personagens vão se encontrando e se alternando. O autor ridiculariza, aí, o desentendimento entre as pessoas, a falsa cultura que Jean pretende impor a Bérenger e a falência do raciocínio lógico.

Reaparece o rinoceronte, tempestuosamente, e o grupo discute então o número de chifres do animal: “Bicórnio ou unicórnio?” Em função desse número levanta-se a relação com a origem do rinoceronte: “Da Ásia ou da África?”

Mas qual seja a sua origem, qual seja o número de chifres que ele tenha, um gato é esmagado por sua violência e o perigo, finalmente, se faz notar. Já no segundo ato, o rinoceronte é o centro das atrações e do medo. No escritório onde trabalha Bérenger, comenta-se a atuação do animal. Botard, personagem caracteristicamente científico e metódico, não acredita na existência do animal. Acha que não passa de delírio. É claro: trancado dia e noite em sua atividade burocrática, ele certamente não teria tempo de observar os fatos da cidade. Mas, além disso, suas inclinações políticas levam-no a ver nos rinocerontes uma trama das “forças ocultas”. Botard aponta a necessidade de se “desmascarar os traidores”, desfilando uma série de slogans que trai sua condição de político demagogo.

Também no escritório o pânico se instala quando surge a Sra. Boeuf, esposa de um dos funcionários, dizendo que seu marido está doente e que ela vem sendo perseguida desde sua casa por um rinoceronte. Daisy chama os bombeiros – e estes são outra obsessão de Ionesco, surgindo sempre como a salvação vinda de fora –, enquanto Botard não acredita que os urros da fera escutados por todos sejam de qualquer rinoceronte.

Mas a besta que seguia a Sra. Boeuf é nada menos que seu próprio marido metamorfoseado. Como o dever da mulher é sempre seguir o seu homem, a Sra. Boeuf monta no dorso do imenso rinoceronte e desaparece com ele.

Os rinocerontes proliferam. Ninguém mais pode duvidar de sua existência. Nem o cético e metódico Botard. Um a um, todos os cidadãos estão sofrendo o lento processo de metamorfose em rinocerontes, Aos poucos os cidadãos perdem a pele lisa, a fala, a humanidade.

A transformação se dá também no gosto em certo tipo de afirmações como, por exemplo, a de uma personagem que diz preferir os veterinários aos médicos. Quando Bérenger visita Jean, que se diz doente, a doença já é o início da metamorfose. Nem Jean nem Bérenger pensam – logo no início do diálogo dessa cena – que aquela doença já é a “rinocerontite”. Mas as frases vão se encadeando de tal forma que o espectador, sem perceber, acabará assistindo à trágica mudança que já não será considerada anormal.

Quando Jean se transforma, Bérenger compreende o perigo. Tortura-se com a sua impotência diante da progressiva metamorfose da cidade. Todos sucumbem sem resistir. Até Dudard acaba aderindo porque não vê sentido na resistência. O próprio Botard, que se orgulhava de seu espírito minucioso e científico, que fazia a apologia do método e da razão, que via nos rinocerontes uma “maquinação infame”, acaba por torna-se um deles.

Bérenger sente-se cada vez mais só. Daisy, seu amor, é uma grande alienada. Nada a preocupa, nada a impressiona, nem a possibilidade de pegar a rinocerontite. Desfila frases feitas, cuida de Bérenger como se fosse uma criança, e lhe parece muito estranho que seu namorado tenha uma posição tão frontalmente antagônica aos rinocerontes. No fim acaba aderindo como todos os outros.

Resta esse herói surpreendente: Bérenger. Desleixado, negligente, tímido, humilde, generoso. É o homem comum. Ele assume o risco de enfrentar o mal apear de suas armas serem frágeis. Pesa-lhe um vago sentimento de culpa por não saber se está certo ou errado, pois não tem argumentos de ordem intelectual que possam justificar sua insólita posição. Mas na sua determinação medrosa ele é capaz de resistir sozinho: “Eu me defenderei contra todo o mundo... Eu sou o último homem. Não me rendo”.
O sentido da fábula: Em 1960 Ionesco contou como foi o ponto de partida de O Rinoceronte. O escritor francês Denis de Rougemont encontrava-se certa vez em Nüremberg quando teve a oportunidade de assistir a uma daquelas impressionantes manifestações nazistas.

Uma multidão imensa postava-se à espera do Führer, que tardava a chegar. Quando a comitiva de Hitler apareceu, o povo foi tomando de uma histeria tão contagiosa, que o próprio Rougemont se sentiu atingido. Já estava prestes a sucumbir à estranha e terrível magia, quando, afastando-se da turba, parou para pensar: que espécie de demônio o estava possuindo, para ficar quase seduzido pela idéia de se entregar, como os outros, ao delírio insano? [No Brasil aconteceu algo semelhante, quando o povo se entregou ao delírio insano de um apedeuta, elegendo-o por dois mandatos; o mesmo aconteceu nas últimas eleições nos EUA. É a renocerontite].

Essa cena, que está no livro Notes et Contre Notes, publicado em 1962, serviu para reforçar a tese de que O Rinoceronte constituía uma grande sátira ao nazismo.

De fato, as palavras de ordem dos conformistas da época da ocupação alemã na França tinham bastante relação com a adesão dos habitantes da cidade de Ionesco à rinocerontite. “Eles não atacam”, “Se os deixar tranqüilos, eles ignoram vocês.” [Não foi isso que aconteceu no Brasil. Eles atacaram com leis, decretos e proibições no mais alto grau que a estupidez humana pode conceber. A liberdade já nem é mais percebida pela massa ignara, seduzida e contaminada pela rinocerontite. O Estado está se transformando em totalitário].

Mas a moral da fábula é bem mais ampla, e O Rinoceronte vai mais longe: é uma crítica a todo pensamento totalitário que possa esmagar todos os outros, e que gere um sistema onde não haja mais lugar para qualquer oposição. [No Brasil, o presidente se vangloriou que, pela primeira vez na história do país, só há partidos de esquerda concorrendo às eleições a serem realizadas em 2010. Os súditos rinocerônticos aplaudiram e o resto já nem percebe o que isso representa, de tão destruído que se encontra o pensamento humano].

Além disso, Ionesco critica também o conformismo, que, criando condições de submissão a uma ordem absurda, transforma os homens em verdadeiros títeres. Por comodismo, por inércia, por interesse, os conformados seguem passivamente a manada, mansos e anônimos, renunciando àquilo que neles e mais essencial e elevado: o pensamento.

[Foi assim que o nazismo de Hitler entrou na Alemanha, e é assim que o comunismo dos esquerdopatas está se instalando no Brasil: pela rinocerontite.]

Esta obra é uma crítica a todo o pensamento totalitário – igual a esse que os dois últimos governos comuno-socialistas implantaram no Brasil – que possa esmagar todos os outros, e que gere um sistema onde não haja mais lugar para qualquer tipo de oposição.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

UM INIMIGO DO POVO

Título original: En Folkefiende
Autor: Henrik Ibsen (1828-1906)
Tradução: Vidal de Oliveira
Editora: Globo
Assunto: Drama
Edição: 1ª
Ano: 1984
Páginas: 390

O Inimigo do Povo (En Folkenfiende) é uma peça de teatro escrita pelo dramaturgo norueguês Henrik Ibsen em 1882, e apresentada pela primeira vez no Teatro Nacional de Oslo em janeiro de 1883.


Sinopse: O Inimigo do Povo (1882) retrata o conflito existente entre o individual e o coletivo, mostrando de que forma a população de uma pequena cidade-balneário da Noruega transforma o médico local de cidadão honrado em um inimigo do povo por conta de suas convicções a respeito da qualidade das águas que serviam os banhos públicos, fonte de riqueza para toda a cidade.


Interpretação aparente - simplista: A história passa-se numa cidade do interior da Noruega cuja maior fonte de renda advém de sua Estação Balneária. O Dr. Stockmann inquieta-se com as doenças que turistas e concidadãos apresentam e resolve investigar a água da cidade. Para sua surpresa percebe que todo o encanamento de água está poluída. Homem da ciência, sente-se no dever de levar a verdade ao povo, mas sua denúncia representará o fechamento do balneário por dois anos e uma suspeição geral levantada sobre suas qualidades mesmo depois das obras necessárias para resolver a questão. Isso causaria um transtorno para a cidade, que deixaria de lucrar com o turismo. Não denunciar o fato, contudo, vai contra os ideais de Stockmann. A poluição das águas é usada como metáfora no drama de Ibsen para denunciar a sujeira na estrutura social daquela cidade - no governo, na imprensa, no comércio e na sociedade em geral. A insistência do Dr.Stockmann em fazer prevalecer a verdade torna-o persona non grata para a população, sobretudo ao defender a idéia de que os valores daquela cidade estão sustentados sobre a mentira e de que o povo não tem a razão, ou seja, a maioria não tem o monopólio da verdade. Ele torna-se um inimigo do povo e conta apenas com o apoio de sua família e de alguns poucos membros da comunidade, que passam a sofrer represálias por conta disso. A convicção de Stockmann em relação a verdade, contudo, faz com que ele mantenha-se firme em seus propósitos até o fim, mesmo sabendo que seu papel relevante naquela comunidade jamais seria retomado.

Estrutura e trama por atos

O drama de Ibsen é dividido em cinco atos, seguindo uma estrutura típica do drama realista do final do século XIX, que por sua vez herdara tal divisão do teatro do neoclassicismo.

Primeiro ato:

O primeiro desses atos ocorre na sala de estar da casa do Dr. Stockmann, e inicia-se com uma conversação entre a Sra. Stockmann, o prefeito Peter Stockmann – seu cunhado, irmão do Dr. Stockmann – e os dois membros do jornal local, Hovstad e Billing. Eles falam sobre as excelentes condições sanitárias do balneário, da paz e prosperidade que os banhos públicos trouxeram para a cidade e também do trabalho do Dr. Stockmann. Este chega à casa acompanhado do Capitão Horster, um oficial da Marinha Mercante. A conversa entre os dois irmãos revela a relação conflituosa existente entre os dois, e a saída do prefeito dá espaço para que os presentes comentem sobre seu caráter. Ao final do primeiro ato, Ibsen apresenta o cerne do conflito: Dr. Stockmann recebe uma carta na qual toma conhecimento de que suas suspeitas são fundadas – as condições sanitárias das águas que servem os banhos municipais são péssimas e o balneário precisa ser fechado; a notícia é recebida com entusiasmo pelo médico, que vê na sua descoberta um triunfo seu em defesa da saúde da população, e pelos jornalistas, que vêem na novidade mais uma possibilidade de minar o poder local. Este primeiro ato tem funções semelhantes ao prólogo usado no teatro grego clássico; nele, há a apresentação da situação inicial e do espaço em que se passa a trama – sabe-se que a ação ocorrerá em um balneário no qual os banhos públicos são importante fonte de renda e a vida prospera por conta disso –, bem como do protagonista, mostrado inicialmente à platéia por meio das falas de personagens secundários. A chegada da carta funciona como uma mudança da fortuna, indicando fama e glória para o médico mas, ao mesmo tempo, antecipando para o público a situação trágica do drama.

Segundo ato:

Ainda que mantido o mesmo cenário do ato anterior, o problema lançado na trama pela carta recebida pelo Dr. Stockmann configura-se mais detalhadamente: ele e seu irmão entram em franco confronto – um pregando a necessidade de esclarecer a população sobre os perigos do uso daquelas águas, o outro lutando pela defesa dos interesses municipais e pelo abafamento do caso. A discussão dos irmãos é antecipada por um diálogo entre o médico e seu sogro, o padastro de sua esposa, Morten Kiil, cuja presença neste ato serve para corroborar suas ações futuras no desfecho da trama. Os jornalistas – e o dono do jornal, Aslaksen, afirmam seu apoio ao Dr. Stockmann e seu interesse em publicar um artigo do médico esclarecendo a situação à população. É neste segundo ato que o protagonista, Dr. Stockmann, é colocado no centro da situação trágica: sua decisão de divulgar os resultados de suas pesquisas sobre a qualidade da água no balneário é capaz de destruir a paz da pequena cidade.

Terceiro ato:

Em continuação ao que fora iniciado no segundo, trabalha a agudização do conflito: o Dr. Stockmann não mais se encontra no ambiente doméstico, mas em um local de domínio da esfera de trabalho – a redação do jornal “Mensageiro do Povo”, para onde se dirige no intuito de entregar seu artigo para publicação. A interferência de seu irmão e prefeito da cidade, contudo, marcará a mudança da fortuna para o médico: os jornalistas vêem-se impedidos de segui-lo diante da persuasão de Peter Stockmann e todos voltam-se contra as idéias do médico, fazendo publicar um artigo do prefeito no qual ele condena as notícias que considera “infundadas e suspeitas” sobre as condições de higiene das águas.

Quarto ato:

A mudança apresentada no ato anterior representa também o início do isolamento do médico naquela sociedade, encontrará no quarto ato seu clímax: a ação ocorre na sala da casa do Capitão Horster, cedida para abrigar a reunião dos cidadãos para deliberar sobre os destinos do balneário; os homens mais poderosos da cidade, representados pelo prefeito e pelo Sr. Aslaksen, tomam a palavra e propõem que o médico não seja ouvido. Dr. Stockmann toma da palavra, ainda assim, e denuncia o que chama de “envenenamento da vida moral” daquela cidade, o que faz com que seja declarado um “inimigo do povo” e rechaçado pela população. A cena resume, em grande parte, os temas centrais da peça: os conflitos entre individual e coletivo, entre razão e emoção, entre idealismo e pragmatismo e também entre a justiça e o poder.

Quinto ato:

O último ato representa, no ritmo da peça, uma nítida desaceleração em contraste com a agitação do ato precedente: de volta ao âmbito doméstico, Dr. Stockmann contabiliza as perdas materiais – a casa, desde a noite anterior, é alvo de vandalismo – e morais – os filhos que precisam sair da escola, a filha que perde o emprego de professora e ele mesmo que é demitido do cargo que ocupava no balneário – da contenda; ele recebe a visita do irmão (que vai comunicar a ele sobre a demissão), do sogro (que vai lhe dizer que comprara quase todas as ações dos Banhos Públicos com o dinheiro da herança da filha, Mrs. Stockmann) e dos jornalistas, que se oferecem para ajudá-lo em troca de dinheiro; o Dr. Stockmann rechaça-os a todos. A reaparição do personagem Morten Kriil, padrasto de Mrs. Stockmann, no quinto ato, parece justificar-se apenas por uma necessidade de Ibsen em reforçar o caráter do Dr. Stockmann de colocar o idealismo e a verdade acima de quaisquer interesses materiais, visto que Kriil representa a força do dinheiro e o que ele poderia representar de tentador ao herói para que este mudasse suas convicções. A verossimilhança, contudo, é abalada pelo fato de que o Dr. Stockmann parece não ter qualquer dilema interior ao lidar com tal questão – as influências de sua luta pelo fechamento temporário dos banhos públicos na herança da esposa e dos filhos; outro aspecto do quinto ato que de algum modo abala a verossimilhança da peça é a forma como o isolamento do médico e de sua família é resolvido pela intervenção externa à sociedade oferecida pela personagem do Capitão Horster, que lhe oferece a casa ao Dr. Stockmann e família quando todos na cidade lhes parecem segregar. Como um deus ex machina, sua entrada no quinto ato parece ter por função apenas oferecer uma alternativa ao protagonista, cujo mundo está mergulhado no caos. Curiosamente, a solução que antes oferecia o capitão Horster para o desfecho da trama – uma evasão da família Stockmann rumo à América a bordo do navio em que ele trabalhava – é esvaziada pelo fato de o próprio oficial perder seu emprego por conta de seu envolvimento com o Dr. Stockmann, e que funciona no drama para que, dentro do sugerido conflito entre valores materiais e valores morais, seja apresentado um final no qual o médico mantenha-se fiel às suas convicções. O autor, em verdade, deixa pouco a decidir para a platéia: Dr. Stockmann termina a ação otimista, decidido a enfrentar sozinho – em família – a cidade inteira dentro de sua certeza interior de que possui a verdade consigo. A solução é, assim, um retorno à harmonia, ainda que um estado de harmonia distinto daquele de paz e prosperidade apresentado no primeiro ato; mas tal solução representa uma harmonia possível diante do caos representado pelo quarto ato, no qual a massa sufoca e oprime o indivíduo.
O doutor Stockmann decide ficar e dedicar-se a educar os cidadãos para que tenham um espírito mais livre e encerra o drama da obra com o seguinte pensamento: “o homem mais forte que há no mundo é o que está mais só”.


Esta é uma interpretação aparente e simplista que a grande maioria dos leitores faz. Mas não é isso que o autor está querendo nos contar. Ibsen é infinitamente mais profundo, complexo e simbólico que a primeira vista quer nos parecer. O autor quer nos contar algo mais simbólico do que uma simples história, algo que ele oculta e que só é percebido pelo leitor mais atento e analítico, capaz do entender e compreender a mensagem oculta nas entrelinhas de uma história que nos parece comum.

Otto Maria Carpeaux nos revela que a obra de Ibsen não é bem compreensível sem o conhecimento da sua vida; “é esta a porta pela qual devemos nela entrar” assevera. "Ibsen era anarquista, inimigo total de todos os Estados, todas as sociedades, todos os partidos, todas as multidões [...]; em favor do único valor que ele reconheceu: o homem individual e humano."

Em 1848 uma onda revolucionária sacode a Europa e impressiona fortemente Ibsen. Por outro lado, Ibsen recebe influência hegeliana de seu professor Monrad e, em decorrência da ruína econômica de sua família, o que lhe causa profundo ressentimento pessoal que se transforma em ressentimento revolucionário, leva-o a tornar-se um socialista. Observando as obras de Ibsen sob este prisma, concluí-se que a grande maioria tem viés socialista, humanista ou revolucionário. Um inimigo do povo, é um exemplo de um homem revolucionário representado pela personagem principal, Dr. Thomas Stockmann.

A peça provocou muita celeuma. Para os marxistas e para os rousseaunianos em geral, Ibsen, ao tomar a posição do herói solitário contra o resto da sociedade, pareceu-lhes assumir um perfil reacionário.

Interpretação simbólica da obra: O Dr. Thomas Stockmann, embora apresente o perfil de um homem jovial, sincero, honesto e interessante por um lado, por outro, ele é um idealista, arrogante, narcisista, de uma soberba radical que o coloca acima do bem e do mal, detentor da verdade absoluta. Este perfil radicalmente oposto ao primeiro é característico das mentes revolucionárias que querem resolver os problemas do mundo.

O revolucionário é aquele sujeito aparentemente inocente, todavia é o mais perigoso e o que tem o maior potencial destrutivo. Portanto, o dr. Stockmann é o verdadeiro revolucionário.

Ibsen coloca o dilema ético na história, e o dilema ético ocorre quando ambos os lados tem alguma razão. Todavia, o leitor comum não percebe este aspecto e toma uma posição imediatamente radical e favorável ao dr. Stockmann, alimentando assim o desenvolvimento das mentes revolucionárias e ampliação do contingente de homens prometéicos, reformadores do mundo e da sociedade.

Ao final da história encontramos o dr. Stockmann completamente enlouquecido. Este é o fim de todos àqueles que se consideram reformadores do mundo, construtores da nova sociedade que se colocam acima do bem e do mal: terminar na mais completa das loucuras. O psicopata em pessoa.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

OS NOIVOS

Título original: I Promessi SposiAutor: Alessandro Manzoni
Tradução: Marina Guaspari
Assunto: Romance-histórico – Literatura estrangeira
Editora: Abril
Edição: 1ª
Ano: 1971
Páginas: 290

Sinopse: No norte da Itália, no século XVII (1628), durante a ocupação espanhola ao ducado de Milão, os jovens camponeses Lourenzo (Renzo) e Lúcia querem casar-se. Porém, Dom Rodrigo, o senhor da aldeia, deseja Lúcia por conta de uma aposta com o primo conde Atílio, proíbe o casamento ameaçando o padre Abbondio. O padre Abbondio, um poltrão congênito, depois de ameaçado, não realiza a cerimônia; Renzo recorre a um advogado (rábula) que nega ajuda ao casal por ser freqüentador do castelo do senhor Rodrigo; para não caírem numa armadilha dos sicários do senhor Rodrigo, os noivos vêem-se forçados a fugir. E assim começa todo o drama do casal, enredo principal da história, mas que apresenta muitos outros desdobramentos, tal como distúrbios populares por falta de pão, a devastação e rapinagem causada pelos vinte e oito mil infantes e sete mil cavaleiros que cruzaram o ducado de Milão, saqueando tudo e violentando todos e, finalmente a peste bubônica que assolou o norte da Itália matando 280 mil pessoas.

Tudo isso é contado na obra de Manzoni de forma magistral.

Resumo da Narrativa: Publicado definitivamente em capítulos, entre 1840 e 1842, único romance e a obra maior de Alessandro Manzoni, este livro representa a vanguarda literária de sua época, seguindo a trilha então recém-aberta pelo britânico Sir Walter Scott que havia criado o subgênero “romance histórico” com seu “Waverley”. A trama retrocede duzentos anos, quando o ducado de Milão, então sob domínio espanhol, envolve-se na guerra de sucessão mantuana, reino contíguo[1]. Os fatos históricos são reais e precisos, incluída a peste cuja impressionante descrição eternizou a obra.
            “Os Noivos” é o único grande romance italiano do século dezenove e incentivou a resistência contra o domínio austríaco que impedia a unificação italiana, feito que Manzoni viu com vida.




[1] O ducado de Milão foi governado pelos espanhóis por 150 anos (de 1554 a 1796). O autor retrocede a história do romance aos anos de 1628 a 1631.

Análise da obra: A obra quer nos contar que Renzo tenta interpor-se ao destino. Não funciona porque a força do destino, que ninguém controla, impede. Ao final do romance o mesmo destino que apõe os obstáculos todos, vai aos poucos os removendo um a um. Conta-nos, também, que devemos entender que as decisões têm impacto sobre as nossas vidas, todavia, essas decisões não garantem os resultados esperados porque não temos a menor idéia como o destino funciona. O mundo é cheio de mistérios incompreensíveis e precisamos compreender que há o incompreensível.

            Otto Maria Carpeaux diz que nesta obra estão presentes todos os sofrimentos infernais dos quais a humanidade é vitima: tirania, violência, paixões, injustiças, a peste e até aquele inimigo mais terrível da espécie humana, a burrice e a covardia.



Sobre o autor: Alessandro Francesco Tommaso Antonio Manzoni (Milão, 7 de março de 1785 — Milão, 22 de maio de 1873) considerado como o segundo maior escritor e poeta italiano, depois de Dante Alighieri, embora tenha escrito um único romance de sua vida a obra-prima I promessi sposi, traduzida para o português com o título Os noivos.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Vol X- IGREJA DAS REVOLUÇÕES ( III )

Título original: L´Église des Révolutions ( III )
Autor: Daniel-Rops (Henri Jules Charles Petiot – 1901-1965)
Tradução: Henrique Ruas
Editora: Quadrante
Assunto: Religião-Cristianismo
Edição: 1ª
Ano: 2008
Páginas: 632

Sinopse: No décimo e último volume da coleção, Daniel-Rops narra as vicissitudes por que passaram os cristãos separados de 1789 até hoje.

Este é o último dos volumes da História da Igreja de Cristo, de Daniel-Rops. O autor estava trabalhando no décimo primeiro, que trataria do Concílio Vaticano II e de tantas outras manifestações da vitalidade da Igreja Católica quando faleceu, em 1965. Em Esses nossos irmãos, os cristãos, terceiro tomo de A Igreja das Revoluções, estuda os acontecimentos que, de 1789 até hoje, disseram respeito aos “irmãos separados”, pois a abundância do material o havia obrigado a reservar os dois tomos anteriores para os fatos da Igreja Católica.

Quem deseje um panorama objetivo e abrangente, mas de leitura cativante, que o ajude a localizar-se no meio das principais Igrejas, denominações, movimentos ou seitas que se declaram protestantes, ortodoxas, monofisitas ou nestorianas, encontrará aqui breves monografias que situam cada uma no seu lugar próprio, um perfil dos seus respectivos fundadores, um esboço da sua doutrina e um retrato da sua situação recente.

Por outro lado, o autor rejeitou deliberadamente tudo o que pudesse dar ao seu livro um caráter polêmico, por pensar que “uma atitude agressiva, seja qual for o terreno em que se manifeste, nunca procede de um amor autêntico à verdade, mas muito mais de uma adesão sectária a um partido, a um sistema de pensamentos e aos seus preconceitos”. Sem ferir nem a verdade da Revelação nem a da história, teve por objetivo principal compreender e fazer compreender, o primeiro passo no processo desse ecumenismo que, de acordo com o desejo de tantas almas do mundo inteiro, poderá conduzir um dia, se Deus assim o quiser, à união de todos os cristãos.

O livro abre-se sobre quatro cenas muito vivas, que descrevem o culto em formações protestantes vastamente diferentes. Traça a seguir um corte histórico que, da Reforma aos dias de hoje, recorda e mostra a origem dos grandes ramos protestantes – o luteranismo, as inúmeras derivações do calvinismo, os metodistas e batistas, os pentecostais... – e da Comunhão anglicana. No segundo capítulo, o autor, lançando mão do método que já seguiu nos volumes anteriores, faz um corte por assim dizer “geográfico” das grandes massas protestantes no mundo. Percorre desde as Igrejas quase que nacionais dos países nórdicos até o país da máxima pulverização religiosa, que é ao mesmo tempo um “bastião” do protestantismo: os EUA. Traça um quadro da expansão missionária protestante na África e na Ásia – que contou com figuras verdadeiramente impressionantes, como a de Livingstone na África ou de Güntzlaff na China – e do crescimento ocorrido ao longo do século passado na América Latina, para terminar com um breve resumo da situação mundial.

A seguir, num capítulo riquíssimo sobre o “espírito e a alma do protestantismo”, o autor debruça-se sobre os movimentos de “Despertar” que renovam uma e outra vez as formações nascidas da Reforma, embora dando origem, também uma e outra vez, a novas ramificações. Aqui encontramos retratos de grandes pensadores, como Kierkegaard e os teólogos Karl Barth e Rudolf Bultmann, esboços de correntes de pensamento como o protestantismo liberal e o social, panoramas do movimento de retorno à liturgia e do renascimento monástico consubstanciado em Taizé, estudos sobre as artes, um estudo da vida da alma exemplificado na figura de um “santo”, Toyohiko Kagawa, e um panorama da fragmentação mais recente, que mostra claramente a grande ameaça que paira sobre o futuro do protestantismo.

O quarto e o quinto capítulo estudam a Ortodoxia, também ela fragmentada em diversas Igrejas autocéfalas, embora mantenha substancialmente a unidade doutrinal; e as antigas Igrejas que se separaram da Igreja Católica entre os séculos III e VI, monofisitas e nestorianas. Além da história, doutrina, espiritualidade, grandes figuras e situação presente, vale a pena destacar o caso da Igreja russa, a maior das ortodoxas e a que mais sofreu com a perseguição comunista.

O último capítulo traz as palavras duras e comoventes de um protestante converso chinês sobre o triste panorama da “Túnica inconsútil” de Cristo, rasgada pelas misérias humanas: “Os senhores revelaram-nos Jesus Cristo, e estamos agradecidos por isso. Mas também nos trouxeram as suas distinções e divisões: uns pregam o metodismo, outros o luteranismo; outros são congregacionalistas, e outros ainda episcopalianos. O que lhes pedimos é que nos preguem o Evangelho”. É o ponto de partida para debruçar-se sobre a história do movimento ecumênico, que tem congregado tantas esperanças e conta com a bênção de vários papas.