segunda-feira, 28 de setembro de 2009

DOUTOR FAUSTO

Título original: Doktor Faustus
Autor: Thomas Mann (1875-1955)
Tradutor: Herbert Caro
Assunto: Romance (Literatura estrangeira)
Editora: Nova Fronteira
Edição: 3ª
Ano: 2000
Páginas: 719

Sinopse: Narrada pelo seu amigo, o professor Serenus Zeitblom , esta é a história do músico Adrian Leverkühn que, como o Fausto de Goethe, vende a alma ao Demônio a fim de viver o suficiente para realizar sua grande obra. Publicado em 1947, este livro faz parte do período final da atividade criadora de Thomas Mann, sendo tecnicamente o seu romance mais ousado, no qual música e política, realidade e símbolo, fato e ficção combinam-se num grande panorama que, segundo Otto Maria Carpeaux, “alcançou uma altura na qual nenhum dos seus contemporâneos foi capaz de acompanhá-lo”.

Comentários: DOUTOR FAUSTO, de Thomas Mann é uma obra magnífica. A biografia romanceada do filósofo na qual ele aparece na encarnação de um músico que faz pacto com o Diabo para alcançar a glória da poesia/música. Este livro é comovente e aterrador, pois mostra como um homem pode se entregar ao Maligno voluntariamente para ter delírios de grandeza e, ao fazê-lo, praticar a servidão ao Mal em todas as suas dimensões. O livro de Mann é aterrador porque não tem redenção: a dramática confissão de Adrian Leverkühn ao final não serve para o perdão dos pecados. Deixa de ser confissão para ser um mero relato das maldades praticadas. Ele então desaparece sem receber a misericórdia divina, em oposição ao enredo de Fausto, de Goethe, que redime seu personagem pela graça de Deus e pela intercessão da Virgem Maria. Thomas Mann aponta corretamente a responsabilidade direta da obra de Nietzsche sobre os acontecimentos da Alemanha no período nazista. Os pecados de Leverkühn eram os pecados de toda a gente e a derrocada pessoal da personagem era o espelho da derrocada de seu país. O epílogo é a danação sem consolação alguma. E foi assim o epílogo para aquela geração insensata, que pereceu em grande parte pelas guerras (Nivaldo Cordeiro).

Conclusão: A sedução de Leverkühn pelo demônio é também a sedução e a danação da Alemanha pelo nazismo.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

ORTODOXIA

Título original: Orthodoxy
Autor: Gilbert Keith Chesterton (1874-1936)
Tradutor: Almiro Pisetta
Assunto: Apologética: Doutrina Cristã.
Editora: Mundo Cristão
Edição: 1ª
Ano: 2008
Páginas: 263

Sinopse: Esta obra é um marco do pensamento cristão do século XX. Numa época em que a Europa dava os primeiros passos para tornar-se uma sociedade pós-cristã, um intelectual cansado do cinismo reinante e do fascínio despertado por novas idéias, resgata o núcleo da fé cristã como arcabouço suficiente para dar sentido à existência humana.

Ao contar sua jornada espiritual, Chesterton defende os valores cristãos contra os chamados valores modernos como o cientificismo reducionista e determinista e faz saber à intelligentsia européia da primeira metade do século XX que o socialismo, o relativismo, o materialismo e o ceticismo estavam longe de responder às questões existenciais mais profundas. E quando questionado sobre as aparentes contradições da fé cristã, ele era um mestre em valer-se do paradoxo para apresentar a simplicidade do senso comum.

Enquanto isso, aqui no Brasil, padres, bispos e cardeais, em sua esmagadora maioria, aderem ao marxismo e a cura do corpo ao invés da alma. Abandonam a essência para se ocupar da forma. Esquecem-se do espírito para ocupar-se da matéria, do MST, da Via Campesina e da Teologia da Libertação constituindo-se assim, em traidores de Cristo, tal qual o foi Judas, dois mil anos atrás.

Um pequeno excerto da obra:

“Pessoas completamente mundanas nunca entendem sequer o mundo; elas confiam plenamente numas poucas máximas cínicas não verdadeiras. Lembro-me de que, certa vez, fiz um passeio com um editor de sucesso, e ele fez uma observação que eu ouvira antes muitas vezes antes; é na verdade, quase um lema do mundo moderno. Todavia, eu ouvi essa máxima cínica mais uma vez e não me contive: de repente vi que ela não dizia nada. Referindo-se a alguém, disse o editor: “Aquele homem vai progredir; ele acredita em si mesmo”. Disse-lhe então: “Quer saber onde ficam os homens que acreditam em si mesmos?” Eu sei. “Os homens que acreditam em si mesmos estão todos em asilos lunáticos”.

Ele disse calmamente que, no fim das contas havia um bom número de homens que acreditavam em si mesmos e que não eram lunáticos internados em asilo. “Sim, certamente”, retruquei, “e você mais do que ninguém deve conhecê-los. Aquele poeta bêbado de quem você não quis aceitar uma lamentável tragédia, ele acreditava em si mesmo. Aquele velho ministro com um poema épico de quem você se escondia num quarto dos fundos, ele acreditava em si mesmo. Se você consultasse sua experiência profissional em vez de sua horrível filosofia individualista, saberia que acreditar em si mesmo é uma das marcas mais comuns de um patife. Atores que não sabem representar acreditam em si mesmo; e os devedores que não vão pagar. Seria muito mais verdadeiro dizer que um homem certamente fracassará por acreditar em si mesmo. Total autoconfiança não é simplesmente um pecado; total autoconfiança é uma fraqueza. Acreditar absolutamente em si mesmo é uma crença tão histérica e supersticiosa como acreditar em Joanna Southcote: quem o faz traz o nome ´Hanwell´ [nome de um asilo para loucos] escrito no rosto com a mesma clareza que está escrito naquele ônibus” .

A tudo isso meu amigo editor deu uma profunda e eficaz resposta: “Bem, se um homem não acredita em si mesmo, em quem vai acreditar?” Depois de uma longa pausa eu respondi: “Vou para casa escrever um livro em resposta a sua pergunta”. Este é o livro que escrevi para responder-lhe.”

Sobre o autor:

Gilbert Keith Chesterton, conhecido como G. K. Chesterton, (Londres, 29 de maio de 1874 — Beaconsfield, 14 de junho de 1936) foi um escritor, poeta, narrador, ensaísta, jornalista, historiador, biógrafo, filósofo, desenhista e conferencista britânico.

Era o segundo de três irmãos. Filho de Edward Chesterton e de Marie Louise Grosjean. Casou-se com Frances Blogg. Concluiu os estudos secundários no colégio de São Paulo Hammersmith onde recebeu prêmio literário por um poema sobre São Francisco Xavier. Ingressa na escola de arte Slade School de Londres (1893) onde inicia a carreira de pintura que vai depois abandonar para se dedicar ao jornalismo e à literatura. Escreveu no Daily News. Nascido de família anglicana, mais tarde converteu-se ao catolicismo em 1922 por influência do escritor católico Hilaire Belloc, com quem desde 1900 manteve uma amizade muito próxima.

Ao falecer deixou todos os seus bens para a Igreja Católica. A sua obra foi reunida em quase quarenta volumes contendo os mais variados temas sob os mais variados gêneros. O Papa Pio XI foi grande admirador de Chesterton a quem conhecera pessoalmente.

Curiosidade: Chesterton era daqueles sujeitos que não conseguem passar despercebido aonde quer que estejam. A irreverência, o bom-humor e a eloqüência, associados a dois metros e nove centímetros de altura e a um peso médio de 140 quilos, transformavam qualquer ambiente; quer uma festa de aniversário infantil ou um acalorado debate com Bertrand Russel.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

DIÁRIO DE UM PÁROCO DE ALDEIA

Título original: Journal d´un cure de campagne
Autor: Georges Bernanos (1888-1948)
Tradução: Thereza Christina Stummer
Editora: Paulus
Assunto: Romance confecional (Literatura estrangeira).
Edição: 2ª
Ano: 2000
Páginas: 285

Sinopse: Escrito em 1934 e publicado em 1936, este romance confessional traça o doloroso itinerário espiritual de um jovem sacerdote, pobre e doente, enviado para uma terriola habitada por uma sociedade pragmática, descrente de fé e de cristandade. Neste cenário começa a luta contra a penetração do mal com armas como a humildade, o sofrimento e a solidão.

A história, em tom confessional, descreve a vida de um jovem padre católico na paróquia de Ambricourt, no norte da França, quase divisa com a Bélgica. A vida do padre é marcada por um câncer no estômago e pela falta de fé da pequena população local.

Comentários: Uma grande obra é aquela que agrega conhecimentos sobre a realidade e aumento de consciência da condição humana. Diário de um pároco de aldeia faz isso com magistral propriedade. Mais que isso, ultrapassa esses propósitos e nos dá uma verdadeira demonstração de fé, cristianismo e santidade e uma aula verdadeiramente filosófica. É uma história comovente, muito bonita e maravilhosa, contada com grande maestria literária. Entretanto, não é um livro fácil de ler porque é um livro com sentido filosófico onde a personagem central está argumentando em torno de idéias e o leitor moderno não está mais acostumado com isso.

O nosso herói é um jovem padre, cujo nome nós não sabemos e que registra em seu diário a vida angustiante que leva numa paróquia de interior. A obra denuncia como o Cristianismo está sendo transformado em rotina no mundo moderno, simbolizada pelo padre na aldeia de Ambricourt. No fundo, a história retrata a morte simbólica do mundo.

O livro começa com o padre descrevendo como é a vida na sua paróquia. O tempo todo se tem a impressão de que o padre está lutando contra um caso perdido, como se àquele lugar não pudesse ser recuperado.

“Minha paróquia é uma paróquia como todas as outras. Todas as paróquias se parecem. As paróquias de hoje, naturalmente. Eu dizia ontem ao pároco de Norenfontes: o bem e o mal devem ficar em equilíbrio nelas, só que o centro da gravidade está lá embaixo, bem lá embaixo. Ou se preferir, os dois se sobrepõem nelas sem se misturar como dois líquidos de densidades diferentes. O padre riu na minha cara. Ele é um bom sacerdote, muito benevolente, muito paternal, e que no arcebispado passa até por incréu, um pouco perigoso. Suas tiradas fazem a alegria das casas paroquiais, e ele as reforça com um olhar que ele gostaria que fosse vivo, e que acho tão gasto e cansado que sinto vontade de chorar.
Minha paróquia é devorada pelo tédio, essa é a palavra certa. Como todas as outras paróquias. O tédio a devora diante de nossos olhos e não há nada que possamos fazer. Talvez um dia destes sejamos contagiados, e descubramos em nós esse câncer. Pode-se viver muito tempo com isso.”

Há algo de errado na sociedade e que acaba influindo na vida do pároco. E como o padre é jovem, os problemas são maiores, as dúvidas são maiores, e os sonhos são grandes. O problema está no grande abismo que separa o pároco entre o que ele sonhou ser e o que a aldeia espera que ele seja, e o que ele consegue ser, na prática.

Ele é um pároco numa cidade de gente descrente, gente cínica, gente ferozmente pragmática. Ele não tem nenhum colega de profissão que o ajude de verdade, porque todos eles estão apenas tentando transformá-lo em um ser tão cínico quanto eles. Em última análise, ficou sozinho e completamente solitário nessa vida.

“Eu me dizia então que o mundo é devorado pelo tédio. Naturalmente, é preciso refletir um pouco para se dar conta disso, não é uma coisa que se perceba imediatamente. É uma espécie de poeira. A pessoa vai e vem, sem a ver, respira essa poeira, come e bebe essa poeira, e ela é tão fina que nem faz barulho quando é mordida. Mas basta parar um momento e ela torna a cobrir o rosto e as mãos da pessoa. É preciso se agitar sem parar a fim de sacudir essa poeira de cinzas. Por isso mesmo, o mundo se agita muito.”

Este tédio que o padre descreve, é algo que não se percebe que acontece, uma espécie de poço invisível, um estado de coisas profundo e estabelecido, que não se consegue mexer. É como a poeira com a qual as pessoas se acostumam e com a qual não conseguem lidar. Este é mais ou menos o clima que se estabeleceu ali na paróquia do nosso herói.

O padre acha que a sua própria vida não tem mistério algum e o diário que ele se utiliza é um exercício para anotar as coisas que acontecem, com sinceridade que ele tem com ele mesmo.

SENTIDO DA OBRA:

1. A obra é um ESTUDO SOBRE A SANTIDADE. O padre vai morrendo ao longo da história e há um sentido simbólico por trás disso.

2. O mote da obra é o confronto entre a CONFORMIDADE e INCONFORMIDADE.

3. O autor nos mostra o paradoxo entre ESPIRITUALISMO e PRAGMATISMO. O padre de Ambricourt simboliza o espiritualismo, enquanto o padre de Torcy e o senhor deão, seu superior, simbolizam o pragmatismo.

CONCLUSÃO:

A obra busca despertar a consciência de que o pragmatismo está sufocando o espírito do cristianismo.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

O RINOCERONTE

Título original: Le Rhinocéros
Autor: Eugène Ionesco
Tradução: Luís de Lima
Editora: Abril Cultural
Assunto: Drama
Edição: 1ª
Ano: 1976
Páginas: 236

Sinopse: Ionesco conta a história de uma cidade pacata que se transforma completamente após a passagem de um rinoceronte por suas ruas. À medida que a origem do paquiderme é discutida e em alguns casos rebatida, ele, misteriosamente vai se proliferando de maneira incontrolável, até finalmente notarmos que os próprios cidadãos da cidade vão aos poucos se metamoforseando em rinocerontes. Nas entrelinhas, é claro que o rinoceronte vem simbolizando o conformismo na qual a sociedade esta estacada. Essa metamorfose sofrida pelos habitantes é uma analogia ao processo continuo de mediocrização que a sociedade vem sofrendo há tempos, um processo que nos dias atuais vem se agravando.


Enredo: Num dia comum, irritantemente comum, de uma cidade comum, onde nada acontece, a não ser um diálogo estúpido de homens que não sabem o que fazer de suas vidas, um rinoceronte enche de poeira uma rua. E causa espanto.

Conversando calmamente num café, as pessoas de repente são sacudidas pela estranha visita, sentem-se ameaçadas, procuram compreender. Nesse mesmo instante, o rinoceronte ainda é inadmissível. Alguém alega que as autoridades não deveriam permitir a visita desse tipo de animais à cidade. Outros procuram raciocinar sobre a hipótese de tudo não passar de sonho. Outros não dão a menor importância, imersos que estão em seu diálogo ridículo.

Bérenger conversa com Jean e não se abala com o estranho fato. Preocupado com seu amor por Daisy e ciumento de Dudard, colega de escritório, ele mal se ocupa de olhar o animal.

Jean dá lições de moral a Berenger, enquanto um senhor idoso conversa sobre silogismos. Pouco a pouco, as frases desencontradas das quatro personagens vão se encontrando e se alternando. O autor ridiculariza, aí, o desentendimento entre as pessoas, a falsa cultura que Jean pretende impor a Bérenger e a falência do raciocínio lógico.

Reaparece o rinoceronte, tempestuosamente, e o grupo discute então o número de chifres do animal: “Bicórnio ou unicórnio?” Em função desse número levanta-se a relação com a origem do rinoceronte: “Da Ásia ou da África?”

Mas qual seja a sua origem, qual seja o número de chifres que ele tenha, um gato é esmagado por sua violência e o perigo, finalmente, se faz notar. Já no segundo ato, o rinoceronte é o centro das atrações e do medo. No escritório onde trabalha Bérenger, comenta-se a atuação do animal. Botard, personagem caracteristicamente científico e metódico, não acredita na existência do animal. Acha que não passa de delírio. É claro: trancado dia e noite em sua atividade burocrática, ele certamente não teria tempo de observar os fatos da cidade. Mas, além disso, suas inclinações políticas levam-no a ver nos rinocerontes uma trama das “forças ocultas”. Botard aponta a necessidade de se “desmascarar os traidores”, desfilando uma série de slogans que trai sua condição de político demagogo.

Também no escritório o pânico se instala quando surge a Sra. Boeuf, esposa de um dos funcionários, dizendo que seu marido está doente e que ela vem sendo perseguida desde sua casa por um rinoceronte. Daisy chama os bombeiros – e estes são outra obsessão de Ionesco, surgindo sempre como a salvação vinda de fora –, enquanto Botard não acredita que os urros da fera escutados por todos sejam de qualquer rinoceronte.

Mas a besta que seguia a Sra. Boeuf é nada menos que seu próprio marido metamorfoseado. Como o dever da mulher é sempre seguir o seu homem, a Sra. Boeuf monta no dorso do imenso rinoceronte e desaparece com ele.

Os rinocerontes proliferam. Ninguém mais pode duvidar de sua existência. Nem o cético e metódico Botard. Um a um, todos os cidadãos estão sofrendo o lento processo de metamorfose em rinocerontes, Aos poucos os cidadãos perdem a pele lisa, a fala, a humanidade.

A transformação se dá também no gosto em certo tipo de afirmações como, por exemplo, a de uma personagem que diz preferir os veterinários aos médicos. Quando Bérenger visita Jean, que se diz doente, a doença já é o início da metamorfose. Nem Jean nem Bérenger pensam – logo no início do diálogo dessa cena – que aquela doença já é a “rinocerontite”. Mas as frases vão se encadeando de tal forma que o espectador, sem perceber, acabará assistindo à trágica mudança que já não será considerada anormal.

Quando Jean se transforma, Bérenger compreende o perigo. Tortura-se com a sua impotência diante da progressiva metamorfose da cidade. Todos sucumbem sem resistir. Até Dudard acaba aderindo porque não vê sentido na resistência. O próprio Botard, que se orgulhava de seu espírito minucioso e científico, que fazia a apologia do método e da razão, que via nos rinocerontes uma “maquinação infame”, acaba por torna-se um deles.

Bérenger sente-se cada vez mais só. Daisy, seu amor, é uma grande alienada. Nada a preocupa, nada a impressiona, nem a possibilidade de pegar a rinocerontite. Desfila frases feitas, cuida de Bérenger como se fosse uma criança, e lhe parece muito estranho que seu namorado tenha uma posição tão frontalmente antagônica aos rinocerontes. No fim acaba aderindo como todos os outros.

Resta esse herói surpreendente: Bérenger. Desleixado, negligente, tímido, humilde, generoso. É o homem comum. Ele assume o risco de enfrentar o mal apear de suas armas serem frágeis. Pesa-lhe um vago sentimento de culpa por não saber se está certo ou errado, pois não tem argumentos de ordem intelectual que possam justificar sua insólita posição. Mas na sua determinação medrosa ele é capaz de resistir sozinho: “Eu me defenderei contra todo o mundo... Eu sou o último homem. Não me rendo”.
O sentido da fábula: Em 1960 Ionesco contou como foi o ponto de partida de O Rinoceronte. O escritor francês Denis de Rougemont encontrava-se certa vez em Nüremberg quando teve a oportunidade de assistir a uma daquelas impressionantes manifestações nazistas.

Uma multidão imensa postava-se à espera do Führer, que tardava a chegar. Quando a comitiva de Hitler apareceu, o povo foi tomando de uma histeria tão contagiosa, que o próprio Rougemont se sentiu atingido. Já estava prestes a sucumbir à estranha e terrível magia, quando, afastando-se da turba, parou para pensar: que espécie de demônio o estava possuindo, para ficar quase seduzido pela idéia de se entregar, como os outros, ao delírio insano? [No Brasil aconteceu algo semelhante, quando o povo se entregou ao delírio insano de um apedeuta, elegendo-o por dois mandatos; o mesmo aconteceu nas últimas eleições nos EUA. É a renocerontite].

Essa cena, que está no livro Notes et Contre Notes, publicado em 1962, serviu para reforçar a tese de que O Rinoceronte constituía uma grande sátira ao nazismo.

De fato, as palavras de ordem dos conformistas da época da ocupação alemã na França tinham bastante relação com a adesão dos habitantes da cidade de Ionesco à rinocerontite. “Eles não atacam”, “Se os deixar tranqüilos, eles ignoram vocês.” [Não foi isso que aconteceu no Brasil. Eles atacaram com leis, decretos e proibições no mais alto grau que a estupidez humana pode conceber. A liberdade já nem é mais percebida pela massa ignara, seduzida e contaminada pela rinocerontite. O Estado está se transformando em totalitário].

Mas a moral da fábula é bem mais ampla, e O Rinoceronte vai mais longe: é uma crítica a todo pensamento totalitário que possa esmagar todos os outros, e que gere um sistema onde não haja mais lugar para qualquer oposição. [No Brasil, o presidente se vangloriou que, pela primeira vez na história do país, só há partidos de esquerda concorrendo às eleições a serem realizadas em 2010. Os súditos rinocerônticos aplaudiram e o resto já nem percebe o que isso representa, de tão destruído que se encontra o pensamento humano].

Além disso, Ionesco critica também o conformismo, que, criando condições de submissão a uma ordem absurda, transforma os homens em verdadeiros títeres. Por comodismo, por inércia, por interesse, os conformados seguem passivamente a manada, mansos e anônimos, renunciando àquilo que neles e mais essencial e elevado: o pensamento.

[Foi assim que o nazismo de Hitler entrou na Alemanha, e é assim que o comunismo dos esquerdopatas está se instalando no Brasil: pela rinocerontite.]

Esta obra é uma crítica a todo o pensamento totalitário – igual a esse que os dois últimos governos comuno-socialistas implantaram no Brasil – que possa esmagar todos os outros, e que gere um sistema onde não haja mais lugar para qualquer tipo de oposição.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

UM INIMIGO DO POVO

Título original: En Folkefiende
Autor: Henrik Ibsen (1828-1906)
Tradução: Vidal de Oliveira
Editora: Globo
Assunto: Drama
Edição: 1ª
Ano: 1984
Páginas: 390

O Inimigo do Povo (En Folkenfiende) é uma peça de teatro escrita pelo dramaturgo norueguês Henrik Ibsen em 1882, e apresentada pela primeira vez no Teatro Nacional de Oslo em janeiro de 1883.


Sinopse: O Inimigo do Povo (1882) retrata o conflito existente entre o individual e o coletivo, mostrando de que forma a população de uma pequena cidade-balneário da Noruega transforma o médico local de cidadão honrado em um inimigo do povo por conta de suas convicções a respeito da qualidade das águas que serviam os banhos públicos, fonte de riqueza para toda a cidade.


Interpretação aparente - simplista: A história passa-se numa cidade do interior da Noruega cuja maior fonte de renda advém de sua Estação Balneária. O Dr. Stockmann inquieta-se com as doenças que turistas e concidadãos apresentam e resolve investigar a água da cidade. Para sua surpresa percebe que todo o encanamento de água está poluída. Homem da ciência, sente-se no dever de levar a verdade ao povo, mas sua denúncia representará o fechamento do balneário por dois anos e uma suspeição geral levantada sobre suas qualidades mesmo depois das obras necessárias para resolver a questão. Isso causaria um transtorno para a cidade, que deixaria de lucrar com o turismo. Não denunciar o fato, contudo, vai contra os ideais de Stockmann. A poluição das águas é usada como metáfora no drama de Ibsen para denunciar a sujeira na estrutura social daquela cidade - no governo, na imprensa, no comércio e na sociedade em geral. A insistência do Dr.Stockmann em fazer prevalecer a verdade torna-o persona non grata para a população, sobretudo ao defender a idéia de que os valores daquela cidade estão sustentados sobre a mentira e de que o povo não tem a razão, ou seja, a maioria não tem o monopólio da verdade. Ele torna-se um inimigo do povo e conta apenas com o apoio de sua família e de alguns poucos membros da comunidade, que passam a sofrer represálias por conta disso. A convicção de Stockmann em relação a verdade, contudo, faz com que ele mantenha-se firme em seus propósitos até o fim, mesmo sabendo que seu papel relevante naquela comunidade jamais seria retomado.

Estrutura e trama por atos

O drama de Ibsen é dividido em cinco atos, seguindo uma estrutura típica do drama realista do final do século XIX, que por sua vez herdara tal divisão do teatro do neoclassicismo.

Primeiro ato:

O primeiro desses atos ocorre na sala de estar da casa do Dr. Stockmann, e inicia-se com uma conversação entre a Sra. Stockmann, o prefeito Peter Stockmann – seu cunhado, irmão do Dr. Stockmann – e os dois membros do jornal local, Hovstad e Billing. Eles falam sobre as excelentes condições sanitárias do balneário, da paz e prosperidade que os banhos públicos trouxeram para a cidade e também do trabalho do Dr. Stockmann. Este chega à casa acompanhado do Capitão Horster, um oficial da Marinha Mercante. A conversa entre os dois irmãos revela a relação conflituosa existente entre os dois, e a saída do prefeito dá espaço para que os presentes comentem sobre seu caráter. Ao final do primeiro ato, Ibsen apresenta o cerne do conflito: Dr. Stockmann recebe uma carta na qual toma conhecimento de que suas suspeitas são fundadas – as condições sanitárias das águas que servem os banhos municipais são péssimas e o balneário precisa ser fechado; a notícia é recebida com entusiasmo pelo médico, que vê na sua descoberta um triunfo seu em defesa da saúde da população, e pelos jornalistas, que vêem na novidade mais uma possibilidade de minar o poder local. Este primeiro ato tem funções semelhantes ao prólogo usado no teatro grego clássico; nele, há a apresentação da situação inicial e do espaço em que se passa a trama – sabe-se que a ação ocorrerá em um balneário no qual os banhos públicos são importante fonte de renda e a vida prospera por conta disso –, bem como do protagonista, mostrado inicialmente à platéia por meio das falas de personagens secundários. A chegada da carta funciona como uma mudança da fortuna, indicando fama e glória para o médico mas, ao mesmo tempo, antecipando para o público a situação trágica do drama.

Segundo ato:

Ainda que mantido o mesmo cenário do ato anterior, o problema lançado na trama pela carta recebida pelo Dr. Stockmann configura-se mais detalhadamente: ele e seu irmão entram em franco confronto – um pregando a necessidade de esclarecer a população sobre os perigos do uso daquelas águas, o outro lutando pela defesa dos interesses municipais e pelo abafamento do caso. A discussão dos irmãos é antecipada por um diálogo entre o médico e seu sogro, o padastro de sua esposa, Morten Kiil, cuja presença neste ato serve para corroborar suas ações futuras no desfecho da trama. Os jornalistas – e o dono do jornal, Aslaksen, afirmam seu apoio ao Dr. Stockmann e seu interesse em publicar um artigo do médico esclarecendo a situação à população. É neste segundo ato que o protagonista, Dr. Stockmann, é colocado no centro da situação trágica: sua decisão de divulgar os resultados de suas pesquisas sobre a qualidade da água no balneário é capaz de destruir a paz da pequena cidade.

Terceiro ato:

Em continuação ao que fora iniciado no segundo, trabalha a agudização do conflito: o Dr. Stockmann não mais se encontra no ambiente doméstico, mas em um local de domínio da esfera de trabalho – a redação do jornal “Mensageiro do Povo”, para onde se dirige no intuito de entregar seu artigo para publicação. A interferência de seu irmão e prefeito da cidade, contudo, marcará a mudança da fortuna para o médico: os jornalistas vêem-se impedidos de segui-lo diante da persuasão de Peter Stockmann e todos voltam-se contra as idéias do médico, fazendo publicar um artigo do prefeito no qual ele condena as notícias que considera “infundadas e suspeitas” sobre as condições de higiene das águas.

Quarto ato:

A mudança apresentada no ato anterior representa também o início do isolamento do médico naquela sociedade, encontrará no quarto ato seu clímax: a ação ocorre na sala da casa do Capitão Horster, cedida para abrigar a reunião dos cidadãos para deliberar sobre os destinos do balneário; os homens mais poderosos da cidade, representados pelo prefeito e pelo Sr. Aslaksen, tomam a palavra e propõem que o médico não seja ouvido. Dr. Stockmann toma da palavra, ainda assim, e denuncia o que chama de “envenenamento da vida moral” daquela cidade, o que faz com que seja declarado um “inimigo do povo” e rechaçado pela população. A cena resume, em grande parte, os temas centrais da peça: os conflitos entre individual e coletivo, entre razão e emoção, entre idealismo e pragmatismo e também entre a justiça e o poder.

Quinto ato:

O último ato representa, no ritmo da peça, uma nítida desaceleração em contraste com a agitação do ato precedente: de volta ao âmbito doméstico, Dr. Stockmann contabiliza as perdas materiais – a casa, desde a noite anterior, é alvo de vandalismo – e morais – os filhos que precisam sair da escola, a filha que perde o emprego de professora e ele mesmo que é demitido do cargo que ocupava no balneário – da contenda; ele recebe a visita do irmão (que vai comunicar a ele sobre a demissão), do sogro (que vai lhe dizer que comprara quase todas as ações dos Banhos Públicos com o dinheiro da herança da filha, Mrs. Stockmann) e dos jornalistas, que se oferecem para ajudá-lo em troca de dinheiro; o Dr. Stockmann rechaça-os a todos. A reaparição do personagem Morten Kriil, padrasto de Mrs. Stockmann, no quinto ato, parece justificar-se apenas por uma necessidade de Ibsen em reforçar o caráter do Dr. Stockmann de colocar o idealismo e a verdade acima de quaisquer interesses materiais, visto que Kriil representa a força do dinheiro e o que ele poderia representar de tentador ao herói para que este mudasse suas convicções. A verossimilhança, contudo, é abalada pelo fato de que o Dr. Stockmann parece não ter qualquer dilema interior ao lidar com tal questão – as influências de sua luta pelo fechamento temporário dos banhos públicos na herança da esposa e dos filhos; outro aspecto do quinto ato que de algum modo abala a verossimilhança da peça é a forma como o isolamento do médico e de sua família é resolvido pela intervenção externa à sociedade oferecida pela personagem do Capitão Horster, que lhe oferece a casa ao Dr. Stockmann e família quando todos na cidade lhes parecem segregar. Como um deus ex machina, sua entrada no quinto ato parece ter por função apenas oferecer uma alternativa ao protagonista, cujo mundo está mergulhado no caos. Curiosamente, a solução que antes oferecia o capitão Horster para o desfecho da trama – uma evasão da família Stockmann rumo à América a bordo do navio em que ele trabalhava – é esvaziada pelo fato de o próprio oficial perder seu emprego por conta de seu envolvimento com o Dr. Stockmann, e que funciona no drama para que, dentro do sugerido conflito entre valores materiais e valores morais, seja apresentado um final no qual o médico mantenha-se fiel às suas convicções. O autor, em verdade, deixa pouco a decidir para a platéia: Dr. Stockmann termina a ação otimista, decidido a enfrentar sozinho – em família – a cidade inteira dentro de sua certeza interior de que possui a verdade consigo. A solução é, assim, um retorno à harmonia, ainda que um estado de harmonia distinto daquele de paz e prosperidade apresentado no primeiro ato; mas tal solução representa uma harmonia possível diante do caos representado pelo quarto ato, no qual a massa sufoca e oprime o indivíduo.
O doutor Stockmann decide ficar e dedicar-se a educar os cidadãos para que tenham um espírito mais livre e encerra o drama da obra com o seguinte pensamento: “o homem mais forte que há no mundo é o que está mais só”.


Esta é uma interpretação aparente e simplista que a grande maioria dos leitores faz. Mas não é isso que o autor está querendo nos contar. Ibsen é infinitamente mais profundo, complexo e simbólico que a primeira vista quer nos parecer. O autor quer nos contar algo mais simbólico do que uma simples história, algo que ele oculta e que só é percebido pelo leitor mais atento e analítico, capaz do entender e compreender a mensagem oculta nas entrelinhas de uma história que nos parece comum.

Otto Maria Carpeaux nos revela que a obra de Ibsen não é bem compreensível sem o conhecimento da sua vida; “é esta a porta pela qual devemos nela entrar” assevera. "Ibsen era anarquista, inimigo total de todos os Estados, todas as sociedades, todos os partidos, todas as multidões [...]; em favor do único valor que ele reconheceu: o homem individual e humano."

Em 1848 uma onda revolucionária sacode a Europa e impressiona fortemente Ibsen. Por outro lado, Ibsen recebe influência hegeliana de seu professor Monrad e, em decorrência da ruína econômica de sua família, o que lhe causa profundo ressentimento pessoal que se transforma em ressentimento revolucionário, leva-o a tornar-se um socialista. Observando as obras de Ibsen sob este prisma, concluí-se que a grande maioria tem viés socialista, humanista ou revolucionário. Um inimigo do povo, é um exemplo de um homem revolucionário representado pela personagem principal, Dr. Thomas Stockmann.

A peça provocou muita celeuma. Para os marxistas e para os rousseaunianos em geral, Ibsen, ao tomar a posição do herói solitário contra o resto da sociedade, pareceu-lhes assumir um perfil reacionário.

Interpretação simbólica da obra: O Dr. Thomas Stockmann, embora apresente o perfil de um homem jovial, sincero, honesto e interessante por um lado, por outro, ele é um idealista, arrogante, narcisista, de uma soberba radical que o coloca acima do bem e do mal, detentor da verdade absoluta. Este perfil radicalmente oposto ao primeiro é característico das mentes revolucionárias que querem resolver os problemas do mundo.

O revolucionário é aquele sujeito aparentemente inocente, todavia é o mais perigoso e o que tem o maior potencial destrutivo. Portanto, o dr. Stockmann é o verdadeiro revolucionário.

Ibsen coloca o dilema ético na história, e o dilema ético ocorre quando ambos os lados tem alguma razão. Todavia, o leitor comum não percebe este aspecto e toma uma posição imediatamente radical e favorável ao dr. Stockmann, alimentando assim o desenvolvimento das mentes revolucionárias e ampliação do contingente de homens prometéicos, reformadores do mundo e da sociedade.

Ao final da história encontramos o dr. Stockmann completamente enlouquecido. Este é o fim de todos àqueles que se consideram reformadores do mundo, construtores da nova sociedade que se colocam acima do bem e do mal: terminar na mais completa das loucuras. O psicopata em pessoa.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

OS NOIVOS

Título original: I Promessi SposiAutor: Alessandro Manzoni
Tradução: Marina Guaspari
Assunto: Romance-histórico – Literatura estrangeira
Editora: Abril
Edição: 1ª
Ano: 1971
Páginas: 290

Sinopse: No norte da Itália, no século XVII (1628), durante a ocupação espanhola ao ducado de Milão, os jovens camponeses Lourenzo (Renzo) e Lúcia querem casar-se. Porém, Dom Rodrigo, o senhor da aldeia, deseja Lúcia por conta de uma aposta com o primo conde Atílio, proíbe o casamento ameaçando o padre Abbondio. O padre Abbondio, um poltrão congênito, depois de ameaçado, não realiza a cerimônia; Renzo recorre a um advogado (rábula) que nega ajuda ao casal por ser freqüentador do castelo do senhor Rodrigo; para não caírem numa armadilha dos sicários do senhor Rodrigo, os noivos vêem-se forçados a fugir. E assim começa todo o drama do casal, enredo principal da história, mas que apresenta muitos outros desdobramentos, tal como distúrbios populares por falta de pão, a devastação e rapinagem causada pelos vinte e oito mil infantes e sete mil cavaleiros que cruzaram o ducado de Milão, saqueando tudo e violentando todos e, finalmente a peste bubônica que assolou o norte da Itália matando 280 mil pessoas.

Tudo isso é contado na obra de Manzoni de forma magistral.

Resumo da Narrativa: Publicado definitivamente em capítulos, entre 1840 e 1842, único romance e a obra maior de Alessandro Manzoni, este livro representa a vanguarda literária de sua época, seguindo a trilha então recém-aberta pelo britânico Sir Walter Scott que havia criado o subgênero “romance histórico” com seu “Waverley”. A trama retrocede duzentos anos, quando o ducado de Milão, então sob domínio espanhol, envolve-se na guerra de sucessão mantuana, reino contíguo[1]. Os fatos históricos são reais e precisos, incluída a peste cuja impressionante descrição eternizou a obra.
            “Os Noivos” é o único grande romance italiano do século dezenove e incentivou a resistência contra o domínio austríaco que impedia a unificação italiana, feito que Manzoni viu com vida.




[1] O ducado de Milão foi governado pelos espanhóis por 150 anos (de 1554 a 1796). O autor retrocede a história do romance aos anos de 1628 a 1631.

Análise da obra: A obra quer nos contar que Renzo tenta interpor-se ao destino. Não funciona porque a força do destino, que ninguém controla, impede. Ao final do romance o mesmo destino que apõe os obstáculos todos, vai aos poucos os removendo um a um. Conta-nos, também, que devemos entender que as decisões têm impacto sobre as nossas vidas, todavia, essas decisões não garantem os resultados esperados porque não temos a menor idéia como o destino funciona. O mundo é cheio de mistérios incompreensíveis e precisamos compreender que há o incompreensível.

            Otto Maria Carpeaux diz que nesta obra estão presentes todos os sofrimentos infernais dos quais a humanidade é vitima: tirania, violência, paixões, injustiças, a peste e até aquele inimigo mais terrível da espécie humana, a burrice e a covardia.



Sobre o autor: Alessandro Francesco Tommaso Antonio Manzoni (Milão, 7 de março de 1785 — Milão, 22 de maio de 1873) considerado como o segundo maior escritor e poeta italiano, depois de Dante Alighieri, embora tenha escrito um único romance de sua vida a obra-prima I promessi sposi, traduzida para o português com o título Os noivos.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Vol X- IGREJA DAS REVOLUÇÕES ( III )

Título original: L´Église des Révolutions ( III )
Autor: Daniel-Rops (Henri Jules Charles Petiot – 1901-1965)
Tradução: Henrique Ruas
Editora: Quadrante
Assunto: Religião-Cristianismo
Edição: 1ª
Ano: 2008
Páginas: 632

Sinopse: No décimo e último volume da coleção, Daniel-Rops narra as vicissitudes por que passaram os cristãos separados de 1789 até hoje.

Este é o último dos volumes da História da Igreja de Cristo, de Daniel-Rops. O autor estava trabalhando no décimo primeiro, que trataria do Concílio Vaticano II e de tantas outras manifestações da vitalidade da Igreja Católica quando faleceu, em 1965. Em Esses nossos irmãos, os cristãos, terceiro tomo de A Igreja das Revoluções, estuda os acontecimentos que, de 1789 até hoje, disseram respeito aos “irmãos separados”, pois a abundância do material o havia obrigado a reservar os dois tomos anteriores para os fatos da Igreja Católica.

Quem deseje um panorama objetivo e abrangente, mas de leitura cativante, que o ajude a localizar-se no meio das principais Igrejas, denominações, movimentos ou seitas que se declaram protestantes, ortodoxas, monofisitas ou nestorianas, encontrará aqui breves monografias que situam cada uma no seu lugar próprio, um perfil dos seus respectivos fundadores, um esboço da sua doutrina e um retrato da sua situação recente.

Por outro lado, o autor rejeitou deliberadamente tudo o que pudesse dar ao seu livro um caráter polêmico, por pensar que “uma atitude agressiva, seja qual for o terreno em que se manifeste, nunca procede de um amor autêntico à verdade, mas muito mais de uma adesão sectária a um partido, a um sistema de pensamentos e aos seus preconceitos”. Sem ferir nem a verdade da Revelação nem a da história, teve por objetivo principal compreender e fazer compreender, o primeiro passo no processo desse ecumenismo que, de acordo com o desejo de tantas almas do mundo inteiro, poderá conduzir um dia, se Deus assim o quiser, à união de todos os cristãos.

O livro abre-se sobre quatro cenas muito vivas, que descrevem o culto em formações protestantes vastamente diferentes. Traça a seguir um corte histórico que, da Reforma aos dias de hoje, recorda e mostra a origem dos grandes ramos protestantes – o luteranismo, as inúmeras derivações do calvinismo, os metodistas e batistas, os pentecostais... – e da Comunhão anglicana. No segundo capítulo, o autor, lançando mão do método que já seguiu nos volumes anteriores, faz um corte por assim dizer “geográfico” das grandes massas protestantes no mundo. Percorre desde as Igrejas quase que nacionais dos países nórdicos até o país da máxima pulverização religiosa, que é ao mesmo tempo um “bastião” do protestantismo: os EUA. Traça um quadro da expansão missionária protestante na África e na Ásia – que contou com figuras verdadeiramente impressionantes, como a de Livingstone na África ou de Güntzlaff na China – e do crescimento ocorrido ao longo do século passado na América Latina, para terminar com um breve resumo da situação mundial.

A seguir, num capítulo riquíssimo sobre o “espírito e a alma do protestantismo”, o autor debruça-se sobre os movimentos de “Despertar” que renovam uma e outra vez as formações nascidas da Reforma, embora dando origem, também uma e outra vez, a novas ramificações. Aqui encontramos retratos de grandes pensadores, como Kierkegaard e os teólogos Karl Barth e Rudolf Bultmann, esboços de correntes de pensamento como o protestantismo liberal e o social, panoramas do movimento de retorno à liturgia e do renascimento monástico consubstanciado em Taizé, estudos sobre as artes, um estudo da vida da alma exemplificado na figura de um “santo”, Toyohiko Kagawa, e um panorama da fragmentação mais recente, que mostra claramente a grande ameaça que paira sobre o futuro do protestantismo.

O quarto e o quinto capítulo estudam a Ortodoxia, também ela fragmentada em diversas Igrejas autocéfalas, embora mantenha substancialmente a unidade doutrinal; e as antigas Igrejas que se separaram da Igreja Católica entre os séculos III e VI, monofisitas e nestorianas. Além da história, doutrina, espiritualidade, grandes figuras e situação presente, vale a pena destacar o caso da Igreja russa, a maior das ortodoxas e a que mais sofreu com a perseguição comunista.

O último capítulo traz as palavras duras e comoventes de um protestante converso chinês sobre o triste panorama da “Túnica inconsútil” de Cristo, rasgada pelas misérias humanas: “Os senhores revelaram-nos Jesus Cristo, e estamos agradecidos por isso. Mas também nos trouxeram as suas distinções e divisões: uns pregam o metodismo, outros o luteranismo; outros são congregacionalistas, e outros ainda episcopalianos. O que lhes pedimos é que nos preguem o Evangelho”. É o ponto de partida para debruçar-se sobre a história do movimento ecumênico, que tem congregado tantas esperanças e conta com a bênção de vários papas.

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Vol IX- A IGREJA DAS REVOLUÇÕES ( II )

Título original: L´Église des Revolutions
Autor: Daniel-Rops (Henri Jules Charles Petiot – 1901-1965)
Tradução: Henrique Ruas
Editora: Quadrante
Assunto: Religião-Cristianismo
Edição: 1ª
Ano: 2006
Páginas: 768

Sinopse: De 1870 ao começo da Segunda Guerra Mundial, um panorama essencial para compreender a nossa época. Quatro Papas de grandeza excepcional moldam ao destinos da Igreja atual: São Pio X combate o modernismo e aproxima a Eucaristia do povo cristão, Leão XIII e Bento XV preparam o nascimento da doutrina social da Igreja e das democracias-cristãs, e Pio XI trava uma luta ingente contra os totalitarismos nazista e comunista.

“Deus está morto”, proclamava o profeta do ateísmo Friedrich Nietzsche; mas, no mesmo ano em que morria, 1900, o papa Leão XIII apresentava numa encíclica o sacrifício redentor de Cristo como o alfa e o ômega do homem e do seu destino.

Essa dupla atitude, esse desafio, modela o período estudado no presente volume da História da Igreja, que vai de 1870 até o começo da segunda Guerra Mundial, em 1939. E bem podemos dizer que representa ainda hoje a principal explicação para as turbulências do nosso tempo.

O autor traça-nos o panorama de todo um mundo que muda de alicerces sob o impacto de forças que parecem ameaçar a Igreja numa escala nunca dantes vista: é o laicismo de cunho liberal, que vem abertamente “lutar contra a moral cristã, expulsar das consciências os velhos dogmas”; é o ateísmo, que se alimenta do positivismo e do materialismo nas suas diversas vertentes – freudismo, darwinismo, marxismo... –; é a “religião da ciência”, que lança o mito do eterno progresso. Enfim, é todo um conjunto de ideologias que se erguem para proclamar que homo homini deus – em lugar do velho Deus assassinado, agora o homem é deus para si mesmo. Mas esse novo deus não tardará a revelar a sua verdadeira face nos totalitarismos triunfantes.

Em oposição a essa cultura descristianizada e às vezes francamente anticristã, erguem-se quatro Papas de envergadura excepcional: Leão XIII, São Pio X, Bento XV e Pio XI. No “combate por Deus” que têm de travar, a velha barca de Pedro, aparentemente sempre à beira do naufrágio, não somente sobreviverá, mas sairá fortalecida.

Quando Leão XIII é eleito Papa, em 1878, “parecia um nobre vencido. Dir-se-ia estar tudo perdido, exceto a honra da bandeira da Cruz”. Mas o sábio e hábil pontífice “diplomata” resolve as querelas políticas, encaminha as bases dos futuros partidos democratas-cristãos e traça de maneira decisiva os rumos da doutrina social da Igreja.

Graças a ele, São Pio X, o “papa-pároco de aldeia”, pôde centrar-se no seu programa de “tudo restaurar em Cristo”. Foi sobre ele que recaiu a difícil e dolorosa tarefa de pôr termo à crise do modernismo, “encruzilhada de todas as heresias”, que deixaria rastro em muitas mentes até o dia de hoje. Mas o seu coração estava em reconduzir as almas à prática dos sacramentos e em promover a renovação espiritual da Igreja pelo incentivo à devoção eucarística e ao Sagrado Coração, ou pelo esforço de formar um clero zeloso e recristianizar os arrabaldes operários.

O breve pontificado de Bento XV foi obscurecido pela terrível tarefa de conduzir a Igreja através do drama da primeira Guerra Mundial. Mas a sua grande tarefa foi na verdade preparar a paz, e talvez tivesse sido possível evitar a repetição da catástrofe se as potências vencedoras tivessem dado mais ouvidos à sua voz ao elaborarem os tratados de Versalhes.

Pio XI, o papa dos “grandes acordos” – foi no seu pontificado que enfim se resolveu a questão da Conciliazione com a Itália, da qual nasceu o Estado do Vaticano –, foi também o papa dos “grandes combates”. Defensor fidei e defensor hominis – “defensor da fé” e “do ser humano” –, presenciou os atropelos do fascismo italiano, os desvarios do nazismo e a terrível perseguição aos cristãos lançada pelo marxismo no México, na Espanha e na URSS, e condenou com enorme fortaleza esses três ídolos monstruosos num momento em que pareciam estar a ponto de devorar o mundo.

Completam esta obra os grandes panoramas com que o autor retrata a expansão de uma Igreja que se faz “à dimensão do mundo”: é o apostolado “do igual com o igual” por meio das JOCs e da AC; são os Estados Unidos, onde a Igreja “sobe em flecha”; são as terras por batizar, onde avultam grandes figuras de missionários e mártires, como o pe. Damião de Veuster ou Charles de Foucauld, “irmão universal”; ou ainda a arte e o pensamento contemporâneos, que se renovam sob o influxo dos pensadores e artistas católicos.

A obra termina com o retrato de Santa Teresa do Menino Jesus, padroeira dos missionários e desbravadora do “pequeno caminho de infância”, hoje tão conhecido. Nessa santa, que de certa forma condensa a intensa fermentação que podemos ver neste volume, encontra-se a resposta da Igreja ao desafio de Nietzsche: Deus vive, e continua bem vivo nesta Igreja de santidade.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

HOMENAGEM A SANTO AGOSTINHO

Neste dia 28 de agosto homenageamos os 1579 anos da morte de SANTO AGOSTINHO, doutor da Igreja Católica Apóstólica Romana, com a cronologia de sua vida.




SANTO AGOSTINHO (354-430)
― Cronologia―

44
Júlio César reconstrói, em lugar diferente, a cidade de Cartago, destruída em 146 a.C., criando uma província romana da África, a Numídia.
253
Plotino (204-270) começa a escrever as “Enéadas”, obra central do neoplatonismo.
312
Os bispos da Numídia recusam-se a aceitar a consagração de Ceciliano como bispo de Cartago e impõem o bispo Donato, iniciando o cisma donatista que girava em torno da seguinte questão: “A Igreja é compatível com a torpeza de seus membros?”, dúvida gerada pela existência, no seio da Igreja, de traditiori, aqueles que haviam abandonado o Cristianismo durante as perseguições de Diocleciano entre 303 e 305.
313
― Constantino promulga o Édito de Milão, tornando o cristianismo religião oficial do Império Romano Ocidental.
323 ― Introduzida na África a doutrina maniqueísta, de autoria do persa Mani (215-276), também conhecido como Maniqueu ou Manes.
325
― O concílio de Nicéia condena a doutrina ariana (do presbítero Arius, morto em 336) que nega a consubstancialidade de Jesus Cristo. O principal opositor à heresia é Santo Atanásio de Alexandria, doutor da Igreja.
350
― Ulfila traduz a Bíblia para o gótico.
354
― Aurelius Augustinus nasce no dia 13 de novembro em Tagaste (hoje Souk-Ahrás na Argélia) na então província pró-consular do antigo reino da Numídia. Seu pai, cidadão romano de nome Patricíus e de natureza violenta, tem doze hectares de terra e é pagão. Sua mãe, Mônica (mais tarde Santa Mônica), é cristã e berbere, No final da vida, Patricius seria convertido pela mulher. Agostinho teve um irmão, Navigius, e uma irmã, Perpétua, futura superiora do monastério de Hipona. A família fala o cartaginês e tem cultura latina. Agostinho não aprecia a escola e os estudos, embora seu pai sonhe em torná-lo doutor em leis. Mônica garante-lhe uma educação cristã, mas o menino não é batizado, conforme costume da época de adiar o sacramento.
355
― Invasão da Gália pelos francos, alamanos e saxões. Os hunos surgem na Rússia.
365
― Agostinho estuda em Madaura.
369
― Vive em Tagaste.
370
― Agostinho estuda, a contragosto, em Madaura, onde aparentemente lhe ensinam o trivium. No final deste ano, Agostinho vai a Cartago para estudar às expensas da família, mas antes disso vive um ano mundana e desregradamente. Os hunos atingem Don e vencem os ostrogodos.
371
― Morre o seu pai e Agostinho torna-se protegido de Romanianus, amigo de seu pai. O rapaz, que vai estudar retórica, é conquistado pela atmosfera sensual de Cartago. Junta-se a uma concubina, nunca indicada pelo nome, com quem manteria relação de quinze anos e da qual nasceria seu único filho, Adeodato.
372
― Nasce seu o filho natural, Adeodato.
373
― Lê o elogio à filosofia “Hortensius” de Cícero, obra hoje perdida, e converte-se à filosofia. Lê más versões da Bíblia, despreza as Escrituras, e aproxima-se dos maniqueístas, para desespero de sua mãe. Agostinho, que defende o maniqueísmo ardentemente, atrai para a seita seu amigo Alípio e seu benfeitor, Romanianus.
375
― Formado, retorna a Tagaste para ensinar gramática. Sua mãe nega-lhe acesso à casa.
376
― De volta a Cartago, ganha um prêmio literário (corona agonistica) que recebe das mãos de Vindicianus, pró-consul romano na cidade, que o adverte contra a astrologia, ciência pela qual Agostinho andava obcecado.
380
― Agostinho escreve sua primeira obra, “De Pulchro ET Apto” (“Belo e Conveniente”), um tratado de estética, hoje perdido.
― Antes de partir para Roma, conhece Faustus de Mileve, o bispo maniqueísta que havia vindo visitar Cartago e convence-se de que aquela doutrina é pura retórica. O próprio Faustus admite não poder explicar os pontos levantados por Agostinho. Na capital do império, freqüenta líderes maniqueístas, mas começa a se distanciar da seitam que abandonaria completamente em dois anos. Fica muito doente a ponto de quase morrer. Restabelecido, abre escola de retórica em Roma.
― Teodósio e Graciano contêm os godos no Epiro e na Dalmácia. O Edito de Teodósio torna o cristianismo religião oficial no Império Romano do Oriente.
383
― O padre Jerônimo (c. 343-420), mais tarde São Jerônimo, recebe encomenda do papa Dâmaso para rever o Novo Testamento, estabelecendo o texto da Vulgata por volta do ano 400.
384
― Desgostoso com a desonestidade intelectual e financeira dos alunos (“os alunos conspiram e passam em grande número de um professor para outro, a fim de não pagarem os mestres, faltando deste modo os compromissos e menosprezando a justiça por amor ao dinheiro”), muda-se para Milão para ocupar vaga de professor de retórica, onde freqüenta poetas e filósofos platônicos. (O neoplatonismo faria a ponte entre o maniqueísmo e o cristianismo).
― Mônica muda-se para Milão também. Agostinho torna-se seguidor do bispo de Milão, Ambrósio (mais tarde Santo Ambrósio e doutor da Igreja). Rompe com sua concubina que se retira para um convento, mas arranja outra, enquanto espera um casamento combinado por Mônica com uma família da sociedade.
― São Jerônimo começa a tradução da Bíblia para o latim, tradicionalmente conhecida como Vulgata.
386
― Converte-se ao Cristianismo em agosto quando, aos 31 anos, angustiado sob uma figueira, ouve uma voz infantil que lhe diz: “Tolle, lege, tolle, lege”, o que o faz ler a Epístola aos Romanos, primeira passagem que encontra . Com ele, converte-se também seu amigo Alípio. A linha que Agostinho segue é a de Paulo de Tarso (paulinismo).
― Teodósio repele os godos no Danúbio.
387
― No dia 23 de maio, Agostinho já em Milão, escreve o “Tratado da Imortalidade da Alma”.
― Na noite do dia 24 de abril, Agostinho, Alípio e Adeodato são batizados por Ambrósio (340-397).
― Em agosto decide voltar a Tagaste com sua mãe, Adeodato e seus amigos. Mônica, com 56 anos, adoece e morre no porto de Óstia, antes de embarcar. Agostinho volta a Roma.
388
― Volta à África no verão, após cinco anos de ausência, liquida os bens da herança, dá o dinheiro aos pobres, e cria uma comunidade perto de Tagaste, onde vive com os amigos e discípulos. Neste período, redige “Costumes da Igreja Católica”, “Costume dos Maniqueístas” e “De Vera Religione” e conclui “Da Grandeza de Alma”, que havia começado a escrever em Roma.
― Morre aos 17 anos seu filho Adeodato.
389
― Termina “De Magistro”, em que o interlocutor de Agostinho teria sido seu filho Adeodato, revelando excepcional maturidade para dezessete anos de idade.
390
― Conflito entre Santo Ambrósio e Teodósio.
391
― Transforma sua casa em mosteiro, chamando-o “jardim” à moda do jardim de Epicuro. Apesar de preferir viver recluso, numa estada em Hipona (Hippo Regius ou Bona) é aclamado pelo povo e Valério, bispo de Hipona, o ordena. Muda-se para Hipona.
392
― Polemiza com o maniqueista Fortunato.
― O direito de asilo é reconhecido nas igrejas. São Jerônimo escreve De Viris Illustribus.
394
― Os jogos Olímpicos são suprimidos.
395
― Agostinho polemiza com Jerônimo (mais tarde São Jerônimo), autor da Vulgata, sobre controvérsias teológicas da tradução “Septuaginta” (tradução do “Torá” para o grego, realizada por setenta e dois rabinos durante setenta e dois dias).
― Termina a obra “Do Livre Arbítrio”.
― Suplício Severo escreve "A Vida de São Martinho".
― Os hunos invadem a Ásia e chegam até Antioquia.
396
― Torna-se bispo de Hopina, sucedendo Valério. Ocuparia este cargo por 35 anos, até quase a morte.
― Os godos invadem a Grécia.
― Fim dos Mistérios de Elêusis.
399
― São fechados os templos pagãos.
― Agostinho escreve “A Catequese dos Principiantes” e “De Trinitate”.
400
― Termina “As Confissões” (“Confessionum libri tredecim”). [Treze livros das confissões].
― Os hunos atingem o Elba.
404
― Debate com Félix, um dos doutores maniqueístas, que se declara derrotado e abraça o Cristianismo.
407
― Invasão da Gália pelos vândalos e suevos.
408
― Os saxões entram na Bretanha.
409
― Pelágio[1] (360-420) visita Cartago. Agostinho polemiza com ele.
― Os vândalos e os suevos invadem a Espanha.
410
― O visigodo Alarico saqueia Roma.
413
― Agostinho começa a redigir “A Cidade de Deus”, a primeira obra de filosofia da história, descrevendo-a como o resultado da luta constante entre Civita Dei e a Civita terrena, e “As Retratações”, que terminará em 426.
417
― Paulus Orosius, discípulo de Agostinho, publica a História Universalis.
422
― Faz campanha pública contra o cisma donatista, debatendo em público com o bispo Antonino.
426
― Obtém permissão para estudar cinco dias por semana e nomeia Heráclito seu auxiliar e sucessor.
429
― Os vândalos penetram na África.
430
― Adoentado, Agostinho morre com setenta e cinco anos no dia 28 de agosto, quando do cerco das tropas de vândalos à cidade de Hipona. Seu corpo mais tarde, seria transferido para a catedral San Pietro de Cielo D´oro em Pavia, perto de Milão.
524
Boécio (c. 480-524) escreve “A Consolação da Filosofia”.
1298
― Santo Agostinho é proclamado “doutor da Igreja”.

[1] Pelágio afirmava que “não havia pecado original”, o que era considerado uma heresia pela Igreja Católica.

Nota: Cronologia elaborada por José Monir Nasser.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Vol VIII- A IGREJA DAS REVOLUÇÕES ( I )

Título original: L´Église des Révolutions ( I )
Autor: Daniel-Rops (Henri Jules Charles Petiot – 1901-1965)
Tradução: Henrique Ruas
Editora: Quadrante
Assunto: Religião-Cristianismo
Edição: 1ª
Ano: 2003
Páginas: 848

Sinopse: Com a Revolução francesa, abre-se um período de novas perseguições e ataques. Mas esse século é ao mesmo tempo um período de conquista: são inúmeras as associações religiosas que surgem, renovando as obras de caridade e o espírito missionário; restaura.

No dizer de um poeta, a modernidade entrou na História por um cortejo triunfal através do pórtico da Revolução francesa – mas no alto desse pórtico estava a guilhotina. O símbolo representa bem o novo período da História de que trata este volume, a “Era das Grandes Revoluções”. É o momento em que a revolta da inteligência, preparada e planejada no “século das luzes”, chega ao plano das realidades políticas e sociais, manifestando-se numa convulsão sem precedentes.

A Revolução Francesa inaugurou as perseguições propriamente “modernas” contra a Igreja, revivendo cenas dos primeiros séculos e antecipando as terríveis repressões anticristãs do século XX; mas, sobretudo deu origem ao laicismo, a tentativa de uma sociedade inteira de prescindir por completo de Deus, de organizar-se e viver como se o “Senhor da História” não existisse.

Mesmo a aparente tolerância do período napoleônico não passou disso, de aparência, pois o imperador quis assenhorear-se da Igreja e servir-se dela como meio de governo. E a posterior divisão da Europa em dois campos, o dos “tradicionalistas”e o dos “liberais”, com as revoluções européias de 1830 e de 1848 e as turbulências que acompanharam a unificação italiana e a alemã, apanhou os cristãos no redemoinho dos ódios políticos e ideológicos, ora perseguindo-os, ora dividindo-os entre si.

Ao longo do século, o laicismo avançou para o ateísmo no plano das idéias. Houve todo um pulular de sistemas que pretendiam explicar a realidade excluindo explícita ou implicitamente a Deus: o idealismo hegeliano, o evolucionismo darwinista desfigurado e transformado numa “religião do progresso”, o positivismo comteano... O socialismo, oscilando entre sentimentalismos mais ou menos bem intencionados e a férrea dialética marxista, preparou a tentativa mais desumana de todos os tempos para extirpar o cristianismo e impor aos homens os descentrados ideais surgidos na Revolução. E com Strauss e Renan ergueu-se um fogo de barragem sem precedentes para privar o Salvador da sua divindade e até da sua realidade histórica.

Paradoxalmente, esse mesmo “século da agonia de Deus” correspondeu a um desabrochar espiritual extraordinário. Se é verdade que o cristianismo sofreu o mais duro assalto de toda a sua longa História, é fato que conheceu também um período de extraordinária vitalidade, de plenitude. A renovação que germinava como fruto das provações do período revolucionário culminou num desenvolvimento de tal ordem que bem poucas épocas lhe podem ser comparadas. Igreja em que a fé se torna mais sólida, mais profunda, menos convencional e rotineira. Igreja cujo clero se transforma e se mostra digno de respeito e mesmo de admiração na sua quase totalidade. Igreja em que as Congregações religiosas continuam a proliferar de modo assombroso. Igreja em que se desenvolvem amplos movimentos de devoção, em que nascem uma nova apologética, uma preocupação social mais profunda, um novo espírito de conquista missionária, as grandes peregrinações. Igreja, ainda, e sobretudo, em que a santidade surge em figuras exemplares, Igreja do Cura d Ars e de São João Bosco...

Por fim, as aparições de Nossa Senhora em Lourdes e em La Salette representam como que um fecho de ouro e uma espécie de sanção sobrenatural a esse processo de purificação e renovação do cristianismo durante a Era das Revoluções – processo que na verdade ainda não se encerrou.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Vol VII- A IGREJA DOS TEMPOS CLÁSSICOS ( II )

Título original: L´Églises des temps Classiques (II)
Autor: Daniel-Rops (Henri Jules Charles Petiot – 1901-1965)
Tradução: Henrique Ruas
Editora: Quadrante
Assunto: Religião-Cristianismo
Edição: 1ª
Ano: 2001
Páginas: 416

Sinopse: No dizer de um poeta, a modernidade entrou na História por um cortejo triunfal através do pórtico da Revolução francesa – mas no alto desse pórtico estava a guilhotina. O símbolo representa bem o novo período da História de que trata este volume, a “Era do Terror".

Abrindo-se sobre o caso Galileu e, mais amplamente, sobre o grande fermentar do “século das luzes”, este volume da História da Igreja estuda os grandes abalos que atingiram a Igreja nos séculos XVII e XVIII.

É, em primeiro lugar, essa revolta da razão que, na França, foi promovida pelos panfletistas que chamaram a si o nome de “filósofos”: o “rei” Voltaire, Diderot com a sua Enciclopédia, Helvétius e tantos outros. Na Inglaterra, os “deístas”, que pretendem dissolver o cristianismo na religião natural; na Alemanha, o movimento da Aufklärung, que preparará o protestantismo liberal e a “morte de Deus” em quase todas as Igrejas da Reforma, ameaçando arrastar consigo parte da teologia católica.

Mas há também, menos popular, mas mais perigoso, o ataque dos “racionais” que, na esteira de Descartes, minarão as próprias bases da fé: Spinoza, o bem-intencionado Malebranche, Kant. E o pensamento imaturo e sentimental de Jean-Jacques Rousseau, que levará às desastrosas tentativas futuras de reforma radical da sociedade, da Revolução Francesa aos totalitarismos marxistas e maoístas. Interessante é notar como as duas linhas em conjunto acabariam por promover, no século XX, o desencanto completo com a razão e o surto da falsa religiosidade das seitas e dos esoterismos, centrada na emoção irracional.

No plano político, o fortalecimento e o endurecimento do bloco protestante, acompanhado do surgimento de uma nova potência protestante, os Estados Unidos, acaba redundando também no enfraquecimento do catolicismo. E os “déspotas esclarecidos” que não deixam de se manifestar igualmente nos países católicos, com Pombal e Aranda na Península Ibérica e José II na Áustria, renovarão as velhas tentativas por sujeitar a Igreja ao Estado nas suas diferentes nações e se porão de acordo para forçar o Papado a esse erro capital que foi a supressão da Companhia de Jesus.

No conjunto, o panorama é entristecedor. O esforço missionário no Oriente e na África recua e parece destinado ao fracasso; as Igrejas nacionais dão sinais de se terem fossilizado na sua simbiose com os poderes políticos; os Estados cristãos parecem ter optado decididamente pelo cinismo; e o próprio Papado não se mostra à altura desses desafios, embora tenha contado geralmente com papas irrepreensíveis quanto à conduta e à doutrina.

Mas por todas as partes se vêem germinar as sementes do futuro: na renovação dos estudos bíblicos e hagiográficos, na apologética, na renovação da piedade popular promovida pelos santos. Assim, quando as terríveis crises revolucionárias do século XIX atingirem a Igreja e ameaçarem fazer ruir esse velho edifício aparentemente tão cheio de rachaduras, só conseguirão arrancar-lhe a casca das alianças humanas, fazendo ressurgir, intacto e renovado, o seu núcleo divino e imperecível.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Vol VI - A IGREJA DOS TEMPOS CLÁSSICOS ( I )

Título original: L´Église des Temps Classiques ( I )
Autor: Daniel-Rops (Henri Jules Charles Petiot – 1901-1965)
Tradução: Henrique Ruas e Emérico da Gama
Editora: Quadrante
Assunto: Religiões-Cristianismo
Edição: 1ª
Ano: 2000
Páginas: 464

Sinopse: O "Grande século das almas" abre-se com o triste panorama da Guerra dos Trinta Anos. Mas graças a um São Vicente de Paulo, a um São Luís Maria Grignion de Montfort e outros santos e santas a fé cristã fermentará em profundidade o povo cristão.

O “grande século das almas” não é um século risonho. Abre-se com a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) e encerra-se com as guerras da Liga de Augsburgo. Assiste à predominância crescente dos interesses políticos e econômicos sobre os religiosos e ao recrudescimento da lamentável oposição entre protestantes e católicos e das perseguições num e noutro campo. E esses flagelos trazem consigo, como sempre, o seu cortejo de fomes e misérias.
Mas é nesse panorama, sob tantos aspectos desolador, que assistimos a um reflorescimento da santidade e à árdua implantação da Reforma tridentina.

Em primeiro lugar, é São Vicente de Paulo, esse “campônio” que se tornou confessor da rainha e preceptor de uma das principais famílias da França, para fazer-se pároco rural, fundador não de uma, mas de três instituições universais, e figura central do reino das flores-de-lis. Não há nenhum setor da sociedade, nem mesmo o dos condenados às galés, que tenha permanecido à margem da sua atuação e da dos seus filhos.

Mas são também muitas outras almas santas: Luísa de Marillac, co-fundadora com Vicente de Paulo das Damas e das Irmãs da Caridade; João Eudes, que encontrará a fórmula para os seminários dedicados à formação do clero; Francisco Régis, heróico evangelizador do povo simples; Luís Maria Grignion de Montfort, cantor das glórias de Maria Medianeira; Margarida Maria de Alacoque, que difunde a devoção ao Sagrado Coração de Jesus; João Batista de la Salle, que revoluciona o ensino... E não se podem esquecer grandes figuras como Jean-Jacques Olier, fundador dos sulpicianos; o cardeal Richelieu, controvertido, mas afinal um cristão; os grandes pregadores Bossuet, Fénelon ou Vieira; Blaise Pascal, genial matemático e autor dos Pensamentos; e tantos outros...

Faz-se neste tempo um trabalho de fundo como raramente se pôde ver. Um frêmito de preocupação pelos pobres, doentes e todos os desfavorecidos percorre a sociedade. Criam-se as Missões, para evangelizar as regiões rurais, e os Seminários, que por trezentos anos serão a chave para formar um clero piedoso e digno. Funda-se a Companhia do Santíssimo Sacramento, pioneira do apostolado dos leigos, mas adiantada demais para a época. Implanta-se a espiritualidade do Humanismo Devoto, que remonta a São Francisco de Sales, e a da Escola Francesa, cujo principal propagador é Pierre de Bérulle, que ensinarão o cristão comum a viver na presença de Deus da manhã à noite.

Mas este é também o tempo do absolutismo crescente, por assim dizer “encarnado” no “Rei-Sol” Luís XIV. “Lugar-tenente de Deus” na sua própria acepção e na dos seus contemporâneos, esse “Rei Cristianíssimo” não deixa de ser um homem, e sucumbe inúmeras vezes sob o peso do orgulho e do cinismo político. Imbuído da sua missão, mas de horizontes estreitos, revoga o Edito de Nantes e persegue os protestantes com uma brutalidade desaprovada pelos próprios bispos franceses, e que acabará por preparar o clima para a Revolução Francesa; corta as comunicações da Igreja de França com a Igreja universal, propiciando o surgimento e a expansão do galicanismo; provoca querelas com os Papas, que procura humilhar e submeter à sua vontade...

Não faltam também as heresias que ameaçam a unidade do Corpo de Cristo e semeiam a inquietude entre os cristãos. É o jansenismo, nascido como uma “conspiração” com algo de pueril, mas que ganhou corpo e contaminou muitos espíritos, deixando atrás de si um travo amargo a marcar a espiritualidade francesa. E o quietismo, aparentemente pouco mais que um alvoroço passageiro em torno da “semi-mística” Mme. Guyon e do bispo Fénelon, mas que talvez tenha deixado a sua marca em Jean-Jacques Rousseau, influenciando assim todo o “pensamento moderno” por nascer.

Sombras e luzes, como em todos os tempos. Mais inquietantes, talvez, porque mais próximas do nosso. Abrindo-se sobre uma plêiade de santos, o século XVII fecha-se na glória aparente de um Luís XIV, que no entanto esconde uma crescente pobreza interior. Preparam-se o iluminismo e o grande ataque da inteligência contra a Igreja, que marcará, em certa medida, toda a Era Moderna.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Vol V – IGREJA DA RENASCENÇA E DA REFORMA ( II )

Título original: L´Église de La Renaissance ET de La Reforme ( II )
Autor: Daniel-Rops (Henri Jules Charles Petiot – 1901-1965)
Tradução: Emérico da Gama
Editora: Quadrante
Assunto: Religiões-Cristianismo
Edição: 1ª
Ano: 1999
Páginas: 460

Sinopse: Este quinto volume da História da Igreja analisa o período que às vezes se chama “contra-reforma”, mas que representa muito mais do que uma mera reação ao protestantismo, uma época de autêntica renovação da alma cristã.

Como nos volumes anteriores, o autor não se limita a apresentar teses áridas ou massas de fatos. Apresenta-nos pessoas vivas em perfis biográficos de leitura agradável e entusiasmante: sorrimos com a alegria de Filipe Neri; participamos das aventuras por que passaram Teresa de Ávila e João da Cruz; admiramos o gênio estratégico de Inácio de Loyola; enchemo-nos de esperança com a figura afável de Francisco de Sales...

Sob a pena de Daniel-Rops, vemos desenrolar-se todo o panorama da Reforma católica, desde as primeiras ânsias que se traduzem em figuras heróicas de reformadores isolados até essa espécie de epopéia que foi a realização do Concílio de Trento.

Com uma honestidade à toda prova, o historiador não nos oculta nenhum aspecto doloroso das perseguições e conflitos dessa época que se chamou a “era dos fanatismos”. Mas – fato impressionante – é precisamente esta Igreja lacerada pela divisão e esmagada sob as dores de parto da Reforma que se lança num ímpeto missionário sem precedentes. Na esteira dos conquistadores e dos comerciantes, acompanhamos a atuação dos missionários que denunciam os abusos, defendem os povos escravizados e difundem por toda a parte a luz e o calor de Cristo.


“Contra-reforma? Muito pelo contrário. O grande movimento de renovação cristã que percorreu a cristandade entre 1500 e 1630 é, mais do que uma simples reação ao cisma protestante, um autêntico “renascimento” da alma cristã.

Demostra-o sobretudo a abundância de santos: de Filipe Neri a Inácio de Loyola, de Tereza de Ávila e João da Cruz ao cardeal Carlos Borromeu e ao papa Pio V, são uma infinidade de homens e mulheres impelidos pelo Espírito a reformar a Igreja, não pela revolta, mas pelo amor de Deus. Poderíamos prolongar indefinidamente a enumeração dos seus nomes: São Camilo de Lélis, São José de Calasanz, São Jerônimo Emiliano, São Caetano de Tiene, Santo Antônio Maria Zacarias, São João de Ávila, São Pedro de Alcântara...

Esse “novo fermento” que pouco a pouco levederá toda a massa cristã percebe-se já muito antes do doloroso rasgão protestante. São bispos que empreendem a reforma das suas dioceses, religiosos que renovam pouco a pouco a vida espiritual das suas Ordens, papas que recomendam, orientam e apóiam todo esse esforço que, por fim, desembocará na epopéia do Concílio de Trento.

Analisada por Daniel-Rops com equilíbrio e serenidade, a obra do Concílio revela-se monumental: todos os aspectos da vida da Igreja são renovados sem romperem o necessário vínculo de continuidade que os liga à tradição cristã, contínua e sem rupturas desde o tempo dos Apóstolos. Toda a doutrina do pecado original, da graça e dos sacramentos será reestudada a fundo e reafirmada com novas formulações, mais firmes e seguras, em resposta ao desafio lançado pelas novas heresias. A liturgia será remodelada segundo as diretrizes conciliares, a tradução da Bíblia revista à luz dos novos conhecimentos humanos, a doutrina compendiada no Catecismo Romano e depois difundida em toda a parte pelos catecismos locais de perguntas e respostas. E os abusos na disciplina do clero, combatidos com maior ou menor sucesso ao longo da Idade Média, são agora corrigidos com tanta felicidade que quase deixarão de ter peso nos séculos seguintes.

Sim, é claro: como sempre, estamos longe, muito longe, de um “mar de rosas”, da instalação do paraíso sobre a terra... A fé encontra-se mais imbricada do que nunca com a política, por causa dos antagonismos e dos tumultos sociais que o protestantismo provocou. Reis, príncipes e imperadores sentem-se no dever de defender, com maior ou menor retidão e desinteresse, a unidade moral dos seus súditos, e o resultado é esse “Cristo da pistola” denunciado pelos melhores cristãos do tempo. Perseguições de protestantes por personagens coroados bem pouco católicos na sua vida pessoal, martírios de católicos e protestantes mais radicais por reis e rainhas que pouco interesse demonstravam pelas suas Igrejas “reformadas” nacionais, tingem como matizes dolorosos essa que foi chamada a “era dos fanatismos”. Os ódios despertados em 1520 levarão ainda século e meio até se acomodarem e encontrarem um modus convivendi depois da Guerra dos Trinta Anos.

Mas a última palavra sobre este período não será pronunciada pela estreiteza e crueldade humanas, e sim pelo Espírito Santo, que insufla nessa Igreja, ainda mergulhada nas dores de parto da sua Reforma, um ímpeto missionário sem precedentes. Na esteira dos conquistadores e dos comerciantes, talvez nem sempre à altura do ideal cristão que professam, encontraremos invariavelmente o missionário, denunciando os abusos, retificando os erros, defendendo os povos escravizados ou defraudados, mas sobretudo difundindo por toda a parte a luz e o calor de Cristo. Menos de cem anos depois de Colombo, a nova fé é pregada do Canadá à Argentina. Embarcada com Vasco da Gama nas caravelas que vão para as Índias, estabelece uma firme ponta de lança entre o brâmanes com Roberto Nobili, na China com Matteo Ricci, no Japão com São Francisco Xavier, nas Molucas, nas Filipinas, no Congo e, sim, até na Etiópia monofisita e na Pérsia xiita. Se o imperador Carlos V pôde jactar-se por breves anos de que “no seu império o sol nunca se punha”, o efeito duradouro dessa enorme aventura que foi a descoberta e conquista do mundo será que, pela primeira vez na História, o santo sacrifício de Cristo unirá homens de todas as raças, cores e condições em toda a extensão do Orbis terrarum.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Vol IV– A IGREJA DA RENASCENÇA E DA REFORMA ( I )

Título original: L´Église de la Renaissance et de la Réforme (I)
Autor: Daniel-Rops (Henri Jules Charles Petiot – 1901-1965)
Tradução: Emérico da Gama
Editora: Quadrante
Assunto: Religiões-Cristianismo
Edição: 1ª
Ano: 1996
Páginas: 528

Sinopse: A agonia da Idade Média, a explosão do espírito humanístico, artistas e pensadores como Michelangelo, Leonardo da Vinci e Maquiavel... No meio desse ambiente tempestuoso não é de estranhar que surgissem revoltas religiosas e mudanças profundas lideradas por um Lutero, por um Calvino ou por um Henrique VIII.

A velha barca de Pedro já tinha atravessado muitas tormentas no decorrer do quase milênio e meio que durava a sua história, mas aquela que se avizinhava em meados do século XIV fazia pressentir que seria a pior. Os duzentos anos que vão de 1350 a 1550, sobre os quais está centrado este volume da História da Igreja de Cristo, assistiram à agonia do ideal que inspirara a Idade Média, o sonho da Cristandade, imerso agora numa tríplice crise: de autoridade, de unidade e das consciências. Não era apenas mais uma época de dificuldades: era o fim de um mundo, ainda que não o fim do mundo, e ameaçava arrastar consigo a Igreja no seu naufrágio.

Num primeiro momento, com o retorno de Gregório XI a Roma, graças aos esforços de Santa Catarina de Sena, podia-se alimentar a esperança de que o término do “exílio” do papado em Avinhão tivesse resolvido as questões mais graves. Mas já em 1378 o Grande Cisma do Ocidente dividiria as fidelidades dos cristãos entre papas e antipapas, até que, depois de quase trinta anos, o Concílio de Constança viesse a pôr fim à angústia das almas. Pouco depois, em Basiléia, seria o próprio concílio que se voltaria contra o Papa, procurando submeter o Vigário de Cristo à assembléia conciliar e diluindo a estrutura da Igreja numa pseudodemocracia autodissolvente.

A crise dos espíritos não se manifestava apenas na cabeça. A França debatia-se ainda na Guerra dos Cem Anos quando Santa Joana d’Arc polarizou pela primeira vez as aspirações de toda uma nação. Na Inglaterra e na Boêmia eclodiam entre o povo os movimentos revoltosos de Wiclef e Huss, de inspiração tanto nacionalista como religiosa. Ao mesmo tempo, a vaga turca crescia, submergindo os restos do Império Bizantino e ameaçando afogar a Cristandade inteira.

Enquanto o papado ainda firmava os pés, e no seio das turbulências políticas, borbulhando numa confusão criadora que se estendia da arquitetura às letras, das artes à astronomia, nascia o humanismo: cristão nos seus maiores representantes, como Thomas More e Erasmo de Rotterdam, mas também dotado de um inquietante caráter anticlerical e paganizante. A certa altura, com as controversas figuras dos papas da Renascença, e apesar do furor cego de um Savonarola, pôde-se chegar a pensar que a Igreja estivesse descristianizada no seu coração.

Mas o pior ainda estava por vir: dos tremendos dramas de consciência do jovem monge Martinho Lutero nasceria em 1520 o dilaceramento protestante. Confuso e hesitante no início, o movimento em breve receberia a sua estrutura teológica e a sua disciplina da férrea e glacial soberba de Calvino. Mas, dividido em mil seitas e facções, erguendo-se em sangue e fogo no anabatismo alemão e holandês, esmagado aqui e alentado ali pelas intrigas dos estados nascentes, a “reforma” logo confirmaria a verdade da frase de Péguy: “Tudo começa em mística e acaba em política”. É o cisma anglicano de Henrique VIII, a estratégia hesitante de Carlos V, as sangrentas perseguições de Eduardo VI e Maria Tudor, a ambivalente tolerância de Francisco I...

Serão tudo sombras nesse quadro? É preciso dizer que não. Se a Europa central e do norte ameaçam ruir sob os golpes combinados de turcos e protestantes, no outro extremo, sob Fernando de Aragão e Isabel de Castela, a Espanha ultima a Reconquista e, na esteira de Portugal, lança as bases da conquista e da construção de um Novo Mundo. Também não falta, nessa cristandade descarrilada e exaltada, um renascimento da piedade que propicia a descoberta da dimensão íntima da pessoa e da devoção afetuosa à Santíssima Humanidade de Cristo: a devotio moderna. E se alguns papas não souberam situar-se pessoalmente à altura das exigências do seu cargo, devemos reconhecer que nunca conspurcaram a pureza da fé e que, em muitos aspectos, desempenharam um papel histórico no qual não se pode deixar de entrever o dedo da Providência.

Por outro lado, enfrentando tragicamente a Igreja, foi o protestantismo quem a obrigou a sair do mar de lama, de facilidades e de conivências em que se atolava. Sem ele, sem o medo que suscitou, teria a Igreja empreendido a reforma autêntica, levada a cabo na fidelidade e na disciplina, cuja necessidade tantos espíritos reconheciam mas tão poucos homens de caráter ousavam realizar? Dialeticamente, foi de Wittenberg, Augsburgo e Genebra que saiu a Igreja do Concílio de Trento, confirmando com uma força até então insuspeitada as palavras de São Paulo: É preciso que haja hereges (1 Cor 11, 19). Tal é o paradoxo de uma instituição composta por homens, mas guiada pelo Espírito Santo.