Título original: L´Église des Révolutions ( III ) Autor: Daniel-Rops (Henri Jules Charles Petiot – 1901-1965) Tradução: Henrique Ruas Editora: Quadrante Assunto: Religião-Cristianismo Edição: 1ª Ano: 2008 Páginas: 632
Sinopse: No décimo e último volume da coleção, Daniel-Rops narra as vicissitudes por que passaram os cristãos separados de 1789 até hoje.
Este é o último dos volumes da História da Igreja de Cristo, de Daniel-Rops. O autor estava trabalhando no décimo primeiro, que trataria do Concílio Vaticano II e de tantas outras manifestações da vitalidade da Igreja Católica quando faleceu, em 1965. Em Esses nossos irmãos, os cristãos, terceiro tomo de A Igreja das Revoluções, estuda os acontecimentos que, de 1789 até hoje, disseram respeito aos “irmãos separados”, pois a abundância do material o havia obrigado a reservar os dois tomos anteriores para os fatos da Igreja Católica.
Quem deseje um panorama objetivo e abrangente, mas de leitura cativante, que o ajude a localizar-se no meio das principais Igrejas, denominações, movimentos ou seitas que se declaram protestantes, ortodoxas, monofisitas ou nestorianas, encontrará aqui breves monografias que situam cada uma no seu lugar próprio, um perfil dos seus respectivos fundadores, um esboço da sua doutrina e um retrato da sua situação recente.
Por outro lado, o autor rejeitou deliberadamente tudo o que pudesse dar ao seu livro um caráter polêmico, por pensar que “uma atitude agressiva, seja qual for o terreno em que se manifeste, nunca procede de um amor autêntico à verdade, mas muito mais de uma adesão sectária a um partido, a um sistema de pensamentos e aos seus preconceitos”. Sem ferir nem a verdade da Revelação nem a da história, teve por objetivo principal compreender e fazer compreender, o primeiro passo no processo desse ecumenismo que, de acordo com o desejo de tantas almas do mundo inteiro, poderá conduzir um dia, se Deus assim o quiser, à união de todos os cristãos.
O livro abre-se sobre quatro cenas muito vivas, que descrevem o culto em formações protestantes vastamente diferentes. Traça a seguir um corte histórico que, da Reforma aos dias de hoje, recorda e mostra a origem dos grandes ramos protestantes – o luteranismo, as inúmeras derivações do calvinismo, os metodistas e batistas, os pentecostais... – e da Comunhão anglicana. No segundo capítulo, o autor, lançando mão do método que já seguiu nos volumes anteriores, faz um corte por assim dizer “geográfico” das grandes massas protestantes no mundo. Percorre desde as Igrejas quase que nacionais dos países nórdicos até o país da máxima pulverização religiosa, que é ao mesmo tempo um “bastião” do protestantismo: os EUA. Traça um quadro da expansão missionária protestante na África e na Ásia – que contou com figuras verdadeiramente impressionantes, como a de Livingstone na África ou de Güntzlaff na China – e do crescimento ocorrido ao longo do século passado na América Latina, para terminar com um breve resumo da situação mundial.
A seguir, num capítulo riquíssimo sobre o “espírito e a alma do protestantismo”, o autor debruça-se sobre os movimentos de “Despertar” que renovam uma e outra vez as formações nascidas da Reforma, embora dando origem, também uma e outra vez, a novas ramificações. Aqui encontramos retratos de grandes pensadores, como Kierkegaard e os teólogos Karl Barth e Rudolf Bultmann, esboços de correntes de pensamento como o protestantismo liberal e o social, panoramas do movimento de retorno à liturgia e do renascimento monástico consubstanciado em Taizé, estudos sobre as artes, um estudo da vida da alma exemplificado na figura de um “santo”, Toyohiko Kagawa, e um panorama da fragmentação mais recente, que mostra claramente a grande ameaça que paira sobre o futuro do protestantismo.
O quarto e o quinto capítulo estudam a Ortodoxia, também ela fragmentada em diversas Igrejas autocéfalas, embora mantenha substancialmente a unidade doutrinal; e as antigas Igrejas que se separaram da Igreja Católica entre os séculos III e VI, monofisitas e nestorianas. Além da história, doutrina, espiritualidade, grandes figuras e situação presente, vale a pena destacar o caso da Igreja russa, a maior das ortodoxas e a que mais sofreu com a perseguição comunista.
O último capítulo traz as palavras duras e comoventes de um protestante converso chinês sobre o triste panorama da “Túnica inconsútil” de Cristo, rasgada pelas misérias humanas: “Os senhores revelaram-nos Jesus Cristo, e estamos agradecidos por isso. Mas também nos trouxeram as suas distinções e divisões: uns pregam o metodismo, outros o luteranismo; outros são congregacionalistas, e outros ainda episcopalianos. O que lhes pedimos é que nos preguem o Evangelho”. É o ponto de partida para debruçar-se sobre a história do movimento ecumênico, que tem congregado tantas esperanças e conta com a bênção de vários papas.
Título original: L´Église des Revolutions Autor: Daniel-Rops (Henri Jules Charles Petiot – 1901-1965) Tradução: Henrique Ruas Editora: Quadrante Assunto: Religião-Cristianismo Edição: 1ª Ano: 2006 Páginas: 768
Sinopse: De 1870 ao começo da Segunda Guerra Mundial, um panorama essencial para compreender a nossa época. Quatro Papas de grandeza excepcional moldam ao destinos da Igreja atual: São Pio X combate o modernismo e aproxima a Eucaristia do povo cristão, Leão XIII e Bento XV preparam o nascimento da doutrina social da Igreja e das democracias-cristãs, e Pio XI trava uma luta ingente contra os totalitarismos nazista e comunista.
“Deus está morto”, proclamava o profeta do ateísmo Friedrich Nietzsche; mas, no mesmo ano em que morria, 1900, o papa Leão XIII apresentava numa encíclica o sacrifício redentor de Cristo como o alfa e o ômega do homem e do seu destino.
Essa dupla atitude, esse desafio, modela o período estudado no presente volume da História da Igreja, que vai de 1870 até o começo da segunda Guerra Mundial, em 1939. E bem podemos dizer que representa ainda hoje a principal explicação para as turbulências do nosso tempo.
O autor traça-nos o panorama de todo um mundo que muda de alicerces sob o impacto de forças que parecem ameaçar a Igreja numa escala nunca dantes vista: é o laicismo de cunho liberal, que vem abertamente “lutar contra a moral cristã, expulsar das consciências os velhos dogmas”; é o ateísmo, que se alimenta do positivismo e do materialismo nas suas diversas vertentes – freudismo, darwinismo, marxismo... –; é a “religião da ciência”, que lança o mito do eterno progresso. Enfim, é todo um conjunto de ideologias que se erguem para proclamar que homo homini deus – em lugar do velho Deus assassinado, agora o homem é deus para si mesmo. Mas esse novo deus não tardará a revelar a sua verdadeira face nos totalitarismos triunfantes.
Em oposição a essa cultura descristianizada e às vezes francamente anticristã, erguem-se quatro Papas de envergadura excepcional: Leão XIII, São Pio X, Bento XV e Pio XI. No “combate por Deus” que têm de travar, a velha barca de Pedro, aparentemente sempre à beira do naufrágio, não somente sobreviverá, mas sairá fortalecida.
Quando Leão XIII é eleito Papa, em 1878, “parecia um nobre vencido. Dir-se-ia estar tudo perdido, exceto a honra da bandeira da Cruz”. Mas o sábio e hábil pontífice “diplomata” resolve as querelas políticas, encaminha as bases dos futuros partidos democratas-cristãos e traça de maneira decisiva os rumos da doutrina social da Igreja.
Graças a ele, São Pio X, o “papa-pároco de aldeia”, pôde centrar-se no seu programa de “tudo restaurar em Cristo”. Foi sobre ele que recaiu a difícil e dolorosa tarefa de pôr termo à crise do modernismo, “encruzilhada de todas as heresias”, que deixaria rastro em muitas mentes até o dia de hoje. Mas o seu coração estava em reconduzir as almas à prática dos sacramentos e em promover a renovação espiritual da Igreja pelo incentivo à devoção eucarística e ao Sagrado Coração, ou pelo esforço de formar um clero zeloso e recristianizar os arrabaldes operários.
O breve pontificado de Bento XV foi obscurecido pela terrível tarefa de conduzir a Igreja através do drama da primeira Guerra Mundial. Mas a sua grande tarefa foi na verdade preparar a paz, e talvez tivesse sido possível evitar a repetição da catástrofe se as potências vencedoras tivessem dado mais ouvidos à sua voz ao elaborarem os tratados de Versalhes.
Pio XI, o papa dos “grandes acordos” – foi no seu pontificado que enfim se resolveu a questão da Conciliazione com a Itália, da qual nasceu o Estado do Vaticano –, foi também o papa dos “grandes combates”. Defensor fidei e defensor hominis – “defensor da fé” e “do ser humano” –, presenciou os atropelos do fascismo italiano, os desvarios do nazismo e a terrível perseguição aos cristãos lançada pelo marxismo no México, na Espanha e na URSS, e condenou com enorme fortaleza esses três ídolos monstruosos num momento em que pareciam estar a ponto de devorar o mundo.
Completam esta obra os grandes panoramas com que o autor retrata a expansão de uma Igreja que se faz “à dimensão do mundo”: é o apostolado “do igual com o igual” por meio das JOCs e da AC; são os Estados Unidos, onde a Igreja “sobe em flecha”; são as terras por batizar, onde avultam grandes figuras de missionários e mártires, como o pe. Damião de Veuster ou Charles de Foucauld, “irmão universal”; ou ainda a arte e o pensamento contemporâneos, que se renovam sob o influxo dos pensadores e artistas católicos.
A obra termina com o retrato de Santa Teresa do Menino Jesus, padroeira dos missionários e desbravadora do “pequeno caminho de infância”, hoje tão conhecido. Nessa santa, que de certa forma condensa a intensa fermentação que podemos ver neste volume, encontra-se a resposta da Igreja ao desafio de Nietzsche: Deus vive, e continua bem vivo nesta Igreja de santidade.
Neste dia 28 de agosto homenageamos os 1579 anos da morte de SANTO AGOSTINHO, doutor da Igreja Católica Apóstólica Romana, com a cronologia de sua vida.
SANTO AGOSTINHO (354-430) ― Cronologia―
44 Júlio César reconstrói, em lugar diferente, a cidade de Cartago, destruída em 146 a.C., criando uma província romana da África, a Numídia.
253 Plotino (204-270) começa a escrever as “Enéadas”, obra central do neoplatonismo.
312 Os bispos da Numídia recusam-se a aceitar a consagração de Ceciliano como bispo de Cartago e impõem o bispo Donato, iniciando o cisma donatista que girava em torno da seguinte questão: “A Igreja é compatível com a torpeza de seus membros?”, dúvida gerada pela existência, no seio da Igreja, de traditiori, aqueles que haviam abandonado o Cristianismo durante as perseguições de Diocleciano entre 303 e 305.
313 ― Constantino promulga o Édito de Milão, tornando o cristianismo religião oficial do Império Romano Ocidental.
323 ― Introduzida na África a doutrina maniqueísta, de autoria do persa Mani (215-276), também conhecido como Maniqueu ou Manes.
325 ― O concílio de Nicéia condena a doutrina ariana (do presbítero Arius, morto em 336) que nega a consubstancialidade de Jesus Cristo. O principal opositor à heresia é Santo Atanásio de Alexandria, doutor da Igreja.
350 ― Ulfila traduz a Bíblia para o gótico.
354 ― Aurelius Augustinus nasce no dia 13 de novembro em Tagaste (hoje Souk-Ahrás na Argélia) na então província pró-consular do antigo reino da Numídia. Seu pai, cidadão romano de nome Patricíus e de natureza violenta, tem doze hectares de terra e é pagão. Sua mãe, Mônica (mais tarde Santa Mônica), é cristã e berbere, No final da vida, Patricius seria convertido pela mulher. Agostinho teve um irmão, Navigius, e uma irmã, Perpétua, futura superiora do monastério de Hipona. A família fala o cartaginês e tem cultura latina. Agostinho não aprecia a escola e os estudos, embora seu pai sonhe em torná-lo doutor em leis. Mônica garante-lhe uma educação cristã, mas o menino não é batizado, conforme costume da época de adiar o sacramento.
355 ― Invasão da Gália pelos francos, alamanos e saxões. Os hunos surgem na Rússia.
365 ― Agostinho estuda em Madaura.
369 ― Vive em Tagaste.
370 ― Agostinho estuda, a contragosto, em Madaura, onde aparentemente lhe ensinam o trivium. No final deste ano, Agostinho vai a Cartago para estudar às expensas da família, mas antes disso vive um ano mundana e desregradamente. Os hunos atingem Don e vencem os ostrogodos.
371 ― Morre o seu pai e Agostinho torna-se protegido de Romanianus, amigo de seu pai. O rapaz, que vai estudar retórica, é conquistado pela atmosfera sensual de Cartago. Junta-se a uma concubina, nunca indicada pelo nome, com quem manteria relação de quinze anos e da qual nasceria seu único filho, Adeodato.
372 ― Nasce seu o filho natural, Adeodato.
373 ― Lê o elogio à filosofia “Hortensius” de Cícero, obra hoje perdida, e converte-se à filosofia. Lê más versões da Bíblia, despreza as Escrituras, e aproxima-se dos maniqueístas, para desespero de sua mãe. Agostinho, que defende o maniqueísmo ardentemente, atrai para a seita seu amigo Alípio e seu benfeitor, Romanianus.
375 ― Formado, retorna a Tagaste para ensinar gramática. Sua mãe nega-lhe acesso à casa.
376 ― De volta a Cartago, ganha um prêmio literário (corona agonistica) que recebe das mãos de Vindicianus, pró-consul romano na cidade, que o adverte contra a astrologia, ciência pela qual Agostinho andava obcecado.
380 ― Agostinho escreve sua primeira obra, “De Pulchro ET Apto” (“Belo e Conveniente”), um tratado de estética, hoje perdido. ― Antes de partir para Roma, conhece Faustus de Mileve, o bispo maniqueísta que havia vindo visitar Cartago e convence-se de que aquela doutrina é pura retórica. O próprio Faustus admite não poder explicar os pontos levantados por Agostinho. Na capital do império, freqüenta líderes maniqueístas, mas começa a se distanciar da seitam que abandonaria completamente em dois anos. Fica muito doente a ponto de quase morrer. Restabelecido, abre escola de retórica em Roma. ― Teodósio e Graciano contêm os godos no Epiro e na Dalmácia. O Edito de Teodósio torna o cristianismo religião oficial no Império Romano do Oriente.
383 ― O padre Jerônimo (c. 343-420), mais tarde São Jerônimo, recebe encomenda do papa Dâmaso para rever o Novo Testamento, estabelecendo o texto da Vulgata por volta do ano 400.
384 ― Desgostoso com a desonestidade intelectual e financeira dos alunos (“os alunos conspiram e passam em grande número de um professor para outro, a fim de não pagarem os mestres, faltando deste modo os compromissos e menosprezando a justiça por amor ao dinheiro”), muda-se para Milão para ocupar vaga de professor de retórica, onde freqüenta poetas e filósofos platônicos. (O neoplatonismo faria a ponte entre o maniqueísmo e o cristianismo). ― Mônica muda-se para Milão também. Agostinho torna-se seguidor do bispo de Milão, Ambrósio (mais tarde Santo Ambrósio e doutor da Igreja). Rompe com sua concubina que se retira para um convento, mas arranja outra, enquanto espera um casamento combinado por Mônica com uma família da sociedade. ― São Jerônimo começa a tradução da Bíblia para o latim, tradicionalmente conhecida como Vulgata.
386 ― Converte-se ao Cristianismo em agosto quando, aos 31 anos, angustiado sob uma figueira, ouve uma voz infantil que lhe diz: “Tolle, lege, tolle, lege”, o que o faz ler a Epístola aos Romanos, primeira passagem que encontra . Com ele, converte-se também seu amigo Alípio. A linha que Agostinho segue é a de Paulo de Tarso (paulinismo). ― Teodósio repele os godos no Danúbio.
387 ― No dia 23 de maio, Agostinho já em Milão, escreve o “Tratado da Imortalidade da Alma”. ― Na noite do dia 24 de abril, Agostinho, Alípio e Adeodato são batizados por Ambrósio (340-397). ― Em agosto decide voltar a Tagaste com sua mãe, Adeodato e seus amigos. Mônica, com 56 anos, adoece e morre no porto de Óstia, antes de embarcar. Agostinho volta a Roma.
388 ― Volta à África no verão, após cinco anos de ausência, liquida os bens da herança, dá o dinheiro aos pobres, e cria uma comunidade perto de Tagaste, onde vive com os amigos e discípulos. Neste período, redige “Costumes da Igreja Católica”, “Costume dos Maniqueístas” e “De Vera Religione” e conclui “Da Grandeza de Alma”, que havia começado a escrever em Roma. ― Morre aos 17 anos seu filho Adeodato.
389 ― Termina “De Magistro”, em que o interlocutor de Agostinho teria sido seu filho Adeodato, revelando excepcional maturidade para dezessete anos de idade.
390 ― Conflito entre Santo Ambrósio e Teodósio.
391 ― Transforma sua casa em mosteiro, chamando-o “jardim” à moda do jardim de Epicuro. Apesar de preferir viver recluso, numa estada em Hipona (Hippo Regius ou Bona) é aclamado pelo povo e Valério, bispo de Hipona, o ordena. Muda-se para Hipona.
392 ― Polemiza com o maniqueista Fortunato. ― O direito de asilo é reconhecido nas igrejas. São Jerônimo escreve De Viris Illustribus.
394 ― Os jogos Olímpicos são suprimidos.
395 ― Agostinho polemiza com Jerônimo (mais tarde São Jerônimo), autor da Vulgata, sobre controvérsias teológicas da tradução “Septuaginta” (tradução do “Torá” para o grego, realizada por setenta e dois rabinos durante setenta e dois dias). ― Termina a obra “Do Livre Arbítrio”. ― Suplício Severo escreve "A Vida de São Martinho". ― Os hunos invadem a Ásia e chegam até Antioquia.
396 ― Torna-se bispo de Hopina, sucedendo Valério. Ocuparia este cargo por 35 anos, até quase a morte. ― Os godos invadem a Grécia. ― Fim dos Mistérios de Elêusis.
399 ― São fechados os templos pagãos. ― Agostinho escreve “A Catequese dos Principiantes” e “De Trinitate”.
400 ― Termina “As Confissões” (“Confessionum libri tredecim”). [Treze livros das confissões]. ― Os hunos atingem o Elba.
404 ― Debate com Félix, um dos doutores maniqueístas, que se declara derrotado e abraça o Cristianismo.
407 ― Invasão da Gália pelos vândalos e suevos.
408 ― Os saxões entram na Bretanha.
409 ― Pelágio[1] (360-420) visita Cartago. Agostinho polemiza com ele. ― Os vândalos e os suevos invadem a Espanha.
410 ― O visigodo Alarico saqueia Roma.
413 ― Agostinho começa a redigir “A Cidade de Deus”, a primeira obra de filosofia da história, descrevendo-a como o resultado da luta constante entre Civita Dei e a Civita terrena, e “As Retratações”, que terminará em 426.
417 ― Paulus Orosius, discípulo de Agostinho, publica a História Universalis.
422 ― Faz campanha pública contra o cisma donatista, debatendo em público com o bispo Antonino.
426 ― Obtém permissão para estudar cinco dias por semana e nomeia Heráclito seu auxiliar e sucessor.
429 ― Os vândalos penetram na África.
430 ― Adoentado, Agostinho morre com setenta e cinco anos no dia 28 de agosto, quando do cerco das tropas de vândalos à cidade de Hipona. Seu corpo mais tarde, seria transferido para a catedral San Pietro de Cielo D´oro em Pavia, perto de Milão. 524 Boécio (c. 480-524) escreve “A Consolação da Filosofia”. 1298 ― Santo Agostinho é proclamado “doutor da Igreja”.
[1] Pelágio afirmava que “não havia pecado original”, o que era considerado uma heresia pela Igreja Católica.
Título original: L´Église des Révolutions ( I ) Autor: Daniel-Rops (Henri Jules Charles Petiot – 1901-1965) Tradução: Henrique Ruas Editora: Quadrante Assunto: Religião-Cristianismo Edição: 1ª Ano: 2003 Páginas: 848
Sinopse: Com a Revolução francesa, abre-se um período de novas perseguições e ataques. Mas esse século é ao mesmo tempo um período de conquista: são inúmeras as associações religiosas que surgem, renovando as obras de caridade e o espírito missionário; restaura.
No dizer de um poeta, a modernidade entrou na História por um cortejo triunfal através do pórtico da Revolução francesa – mas no alto desse pórtico estava a guilhotina. O símbolo representa bem o novo período da História de que trata este volume, a “Era das Grandes Revoluções”. É o momento em que a revolta da inteligência, preparada e planejada no “século das luzes”, chega ao plano das realidades políticas e sociais, manifestando-se numa convulsão sem precedentes.
A Revolução Francesa inaugurou as perseguições propriamente “modernas” contra a Igreja, revivendo cenas dos primeiros séculos e antecipando as terríveis repressões anticristãs do século XX; mas, sobretudo deu origem ao laicismo, a tentativa de uma sociedade inteira de prescindir por completo de Deus, de organizar-se e viver como se o “Senhor da História” não existisse.
Mesmo a aparente tolerância do período napoleônico não passou disso, de aparência, pois o imperador quis assenhorear-se da Igreja e servir-se dela como meio de governo. E a posterior divisão da Europa em dois campos, o dos “tradicionalistas”e o dos “liberais”, com as revoluções européias de 1830 e de 1848 e as turbulências que acompanharam a unificação italiana e a alemã, apanhou os cristãos no redemoinho dos ódios políticos e ideológicos, ora perseguindo-os, ora dividindo-os entre si.
Ao longo do século, o laicismo avançou para o ateísmo no plano das idéias. Houve todo um pulular de sistemas que pretendiam explicar a realidade excluindo explícita ou implicitamente a Deus: o idealismo hegeliano, o evolucionismo darwinista desfigurado e transformado numa “religião do progresso”, o positivismo comteano... O socialismo, oscilando entre sentimentalismos mais ou menos bem intencionados e a férrea dialética marxista, preparou a tentativa mais desumana de todos os tempos para extirpar o cristianismo e impor aos homens os descentrados ideais surgidos na Revolução. E com Strauss e Renan ergueu-se um fogo de barragem sem precedentes para privar o Salvador da sua divindade e até da sua realidade histórica.
Paradoxalmente, esse mesmo “século da agonia de Deus” correspondeu a um desabrochar espiritual extraordinário. Se é verdade que o cristianismo sofreu o mais duro assalto de toda a sua longa História, é fato que conheceu também um período de extraordinária vitalidade, de plenitude. A renovação que germinava como fruto das provações do período revolucionário culminou num desenvolvimento de tal ordem que bem poucas épocas lhe podem ser comparadas. Igreja em que a fé se torna mais sólida, mais profunda, menos convencional e rotineira. Igreja cujo clero se transforma e se mostra digno de respeito e mesmo de admiração na sua quase totalidade. Igreja em que as Congregações religiosas continuam a proliferar de modo assombroso. Igreja em que se desenvolvem amplos movimentos de devoção, em que nascem uma nova apologética, uma preocupação social mais profunda, um novo espírito de conquista missionária, as grandes peregrinações. Igreja, ainda, e sobretudo, em que a santidade surge em figuras exemplares, Igreja do Cura d Ars e de São João Bosco...
Por fim, as aparições de Nossa Senhora em Lourdes e em La Salette representam como que um fecho de ouro e uma espécie de sanção sobrenatural a esse processo de purificação e renovação do cristianismo durante a Era das Revoluções – processo que na verdade ainda não se encerrou.
Título original: L´Églises des temps Classiques (II) Autor: Daniel-Rops (Henri Jules Charles Petiot – 1901-1965) Tradução: Henrique Ruas Editora: Quadrante Assunto: Religião-Cristianismo Edição: 1ª Ano: 2001 Páginas: 416
Sinopse: No dizer de um poeta, a modernidade entrou na História por um cortejo triunfal através do pórtico da Revolução francesa – mas no alto desse pórtico estava a guilhotina. O símbolo representa bem o novo período da História de que trata este volume, a “Era do Terror".
Abrindo-se sobre o caso Galileu e, mais amplamente, sobre o grande fermentar do “século das luzes”, este volume da História da Igreja estuda os grandes abalos que atingiram a Igreja nos séculos XVII e XVIII.
É, em primeiro lugar, essa revolta da razão que, na França, foi promovida pelos panfletistas que chamaram a si o nome de “filósofos”: o “rei” Voltaire, Diderot com a sua Enciclopédia, Helvétius e tantos outros. Na Inglaterra, os “deístas”, que pretendem dissolver o cristianismo na religião natural; na Alemanha, o movimento da Aufklärung, que preparará o protestantismo liberal e a “morte de Deus” em quase todas as Igrejas da Reforma, ameaçando arrastar consigo parte da teologia católica.
Mas há também, menos popular, mas mais perigoso, o ataque dos “racionais” que, na esteira de Descartes, minarão as próprias bases da fé: Spinoza, o bem-intencionado Malebranche, Kant. E o pensamento imaturo e sentimental de Jean-Jacques Rousseau, que levará às desastrosas tentativas futuras de reforma radical da sociedade, da Revolução Francesa aos totalitarismos marxistas e maoístas. Interessante é notar como as duas linhas em conjunto acabariam por promover, no século XX, o desencanto completo com a razão e o surto da falsa religiosidade das seitas e dos esoterismos, centrada na emoção irracional.
No plano político, o fortalecimento e o endurecimento do bloco protestante, acompanhado do surgimento de uma nova potência protestante, os Estados Unidos, acaba redundando também no enfraquecimento do catolicismo. E os “déspotas esclarecidos” que não deixam de se manifestar igualmente nos países católicos, com Pombal e Aranda na Península Ibérica e José II na Áustria, renovarão as velhas tentativas por sujeitar a Igreja ao Estado nas suas diferentes nações e se porão de acordo para forçar o Papado a esse erro capital que foi a supressão da Companhia de Jesus.
No conjunto, o panorama é entristecedor. O esforço missionário no Oriente e na África recua e parece destinado ao fracasso; as Igrejas nacionais dão sinais de se terem fossilizado na sua simbiose com os poderes políticos; os Estados cristãos parecem ter optado decididamente pelo cinismo; e o próprio Papado não se mostra à altura desses desafios, embora tenha contado geralmente com papas irrepreensíveis quanto à conduta e à doutrina.
Mas por todas as partes se vêem germinar as sementes do futuro: na renovação dos estudos bíblicos e hagiográficos, na apologética, na renovação da piedade popular promovida pelos santos. Assim, quando as terríveis crises revolucionárias do século XIX atingirem a Igreja e ameaçarem fazer ruir esse velho edifício aparentemente tão cheio de rachaduras, só conseguirão arrancar-lhe a casca das alianças humanas, fazendo ressurgir, intacto e renovado, o seu núcleo divino e imperecível.
Título original: L´Église des Temps Classiques ( I ) Autor: Daniel-Rops (Henri Jules Charles Petiot – 1901-1965) Tradução: Henrique Ruas e Emérico da Gama Editora: Quadrante Assunto: Religiões-Cristianismo Edição: 1ª Ano: 2000 Páginas: 464
Sinopse: O "Grande século das almas" abre-se com o triste panorama da Guerra dos Trinta Anos. Mas graças a um São Vicente de Paulo, a um São Luís Maria Grignion de Montfort e outros santos e santas a fé cristã fermentará em profundidade o povo cristão.
O “grande século das almas” não é um século risonho. Abre-se com a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) e encerra-se com as guerras da Liga de Augsburgo. Assiste à predominância crescente dos interesses políticos e econômicos sobre os religiosos e ao recrudescimento da lamentável oposição entre protestantes e católicos e das perseguições num e noutro campo. E esses flagelos trazem consigo, como sempre, o seu cortejo de fomes e misérias. Mas é nesse panorama, sob tantos aspectos desolador, que assistimos a um reflorescimento da santidade e à árdua implantação da Reforma tridentina.
Em primeiro lugar, é São Vicente de Paulo, esse “campônio” que se tornou confessor da rainha e preceptor de uma das principais famílias da França, para fazer-se pároco rural, fundador não de uma, mas de três instituições universais, e figura central do reino das flores-de-lis. Não há nenhum setor da sociedade, nem mesmo o dos condenados às galés, que tenha permanecido à margem da sua atuação e da dos seus filhos.
Mas são também muitas outras almas santas: Luísa de Marillac, co-fundadora com Vicente de Paulo das Damas e das Irmãs da Caridade; João Eudes, que encontrará a fórmula para os seminários dedicados à formação do clero; Francisco Régis, heróico evangelizador do povo simples; Luís Maria Grignion de Montfort, cantor das glórias de Maria Medianeira; Margarida Maria de Alacoque, que difunde a devoção ao Sagrado Coração de Jesus; João Batista de la Salle, que revoluciona o ensino... E não se podem esquecer grandes figuras como Jean-Jacques Olier, fundador dos sulpicianos; o cardeal Richelieu, controvertido, mas afinal um cristão; os grandes pregadores Bossuet, Fénelon ou Vieira; Blaise Pascal, genial matemático e autor dos Pensamentos; e tantos outros...
Faz-se neste tempo um trabalho de fundo como raramente se pôde ver. Um frêmito de preocupação pelos pobres, doentes e todos os desfavorecidos percorre a sociedade. Criam-se as Missões, para evangelizar as regiões rurais, e os Seminários, que por trezentos anos serão a chave para formar um clero piedoso e digno. Funda-se a Companhia do Santíssimo Sacramento, pioneira do apostolado dos leigos, mas adiantada demais para a época. Implanta-se a espiritualidade do Humanismo Devoto, que remonta a São Francisco de Sales, e a da Escola Francesa, cujo principal propagador é Pierre de Bérulle, que ensinarão o cristão comum a viver na presença de Deus da manhã à noite.
Mas este é também o tempo do absolutismo crescente, por assim dizer “encarnado” no “Rei-Sol” Luís XIV. “Lugar-tenente de Deus” na sua própria acepção e na dos seus contemporâneos, esse “Rei Cristianíssimo” não deixa de ser um homem, e sucumbe inúmeras vezes sob o peso do orgulho e do cinismo político. Imbuído da sua missão, mas de horizontes estreitos, revoga o Edito de Nantes e persegue os protestantes com uma brutalidade desaprovada pelos próprios bispos franceses, e que acabará por preparar o clima para a Revolução Francesa; corta as comunicações da Igreja de França com a Igreja universal, propiciando o surgimento e a expansão do galicanismo; provoca querelas com os Papas, que procura humilhar e submeter à sua vontade...
Não faltam também as heresias que ameaçam a unidade do Corpo de Cristo e semeiam a inquietude entre os cristãos. É o jansenismo, nascido como uma “conspiração” com algo de pueril, mas que ganhou corpo e contaminou muitos espíritos, deixando atrás de si um travo amargo a marcar a espiritualidade francesa. E o quietismo, aparentemente pouco mais que um alvoroço passageiro em torno da “semi-mística” Mme. Guyon e do bispo Fénelon, mas que talvez tenha deixado a sua marca em Jean-Jacques Rousseau, influenciando assim todo o “pensamento moderno” por nascer.
Sombras e luzes, como em todos os tempos. Mais inquietantes, talvez, porque mais próximas do nosso. Abrindo-se sobre uma plêiade de santos, o século XVII fecha-se na glória aparente de um Luís XIV, que no entanto esconde uma crescente pobreza interior. Preparam-se o iluminismo e o grande ataque da inteligência contra a Igreja, que marcará, em certa medida, toda a Era Moderna.
Título original: L´Église de La Renaissance ET de La Reforme ( II ) Autor: Daniel-Rops (Henri Jules Charles Petiot – 1901-1965) Tradução: Emérico da Gama Editora: Quadrante Assunto: Religiões-Cristianismo Edição: 1ª Ano: 1999 Páginas: 460
Sinopse: Este quinto volume da História da Igreja analisa o período que às vezes se chama “contra-reforma”, mas que representa muito mais do que uma mera reação ao protestantismo, uma época de autêntica renovação da alma cristã.
Como nos volumes anteriores, o autor não se limita a apresentar teses áridas ou massas de fatos. Apresenta-nos pessoas vivas em perfis biográficos de leitura agradável e entusiasmante: sorrimos com a alegria de Filipe Neri; participamos das aventuras por que passaram Teresa de Ávila e João da Cruz; admiramos o gênio estratégico de Inácio de Loyola; enchemo-nos de esperança com a figura afável de Francisco de Sales...
Sob a pena de Daniel-Rops, vemos desenrolar-se todo o panorama da Reforma católica, desde as primeiras ânsias que se traduzem em figuras heróicas de reformadores isolados até essa espécie de epopéia que foi a realização do Concílio de Trento.
Com uma honestidade à toda prova, o historiador não nos oculta nenhum aspecto doloroso das perseguições e conflitos dessa época que se chamou a “era dos fanatismos”. Mas – fato impressionante – é precisamente esta Igreja lacerada pela divisão e esmagada sob as dores de parto da Reforma que se lança num ímpeto missionário sem precedentes. Na esteira dos conquistadores e dos comerciantes, acompanhamos a atuação dos missionários que denunciam os abusos, defendem os povos escravizados e difundem por toda a parte a luz e o calor de Cristo.
“Contra-reforma? Muito pelo contrário. O grande
movimento de renovação cristã que percorreu a cristandade entre 1500 e 1630 é,
mais do que uma simples reação ao cisma protestante, um autêntico “renascimento”
da alma cristã.
Demostra-o sobretudo a abundância de santos: de Filipe
Neri a Inácio de Loyola, de Tereza de Ávila e João da Cruz ao cardeal Carlos
Borromeu e ao papa Pio V, são uma infinidade de homens e mulheres impelidos
pelo Espírito a reformar a Igreja, não pela revolta, mas pelo amor de Deus.
Poderíamos prolongar indefinidamente a enumeração dos seus nomes: São Camilo de
Lélis, São José de Calasanz, São Jerônimo Emiliano, São Caetano de Tiene, Santo
Antônio Maria Zacarias, São João de Ávila, São Pedro de Alcântara...
Esse “novo fermento” que pouco a pouco levederá toda a
massa cristã percebe-se já muito antes do doloroso rasgão protestante. São
bispos que empreendem a reforma das suas dioceses, religiosos que renovam pouco
a pouco a vida espiritual das suas Ordens, papas que recomendam, orientam e
apóiam todo esse esforço que, por fim, desembocará na epopéia do Concílio de
Trento.
Analisada por Daniel-Rops com equilíbrio e serenidade,
a obra do Concílio revela-se monumental: todos os aspectos da vida da Igreja
são renovados sem romperem o necessário vínculo de continuidade que os liga à
tradição cristã, contínua e sem rupturas desde o tempo dos Apóstolos. Toda a
doutrina do pecado original, da graça e dos sacramentos será reestudada a fundo
e reafirmada com novas formulações, mais firmes e seguras, em resposta ao
desafio lançado pelas novas heresias. A liturgia será remodelada segundo as
diretrizes conciliares, a tradução da Bíblia revista à luz dos novos conhecimentos
humanos, a doutrina compendiada no Catecismo
Romano e depois difundida em toda a parte pelos catecismos locais de
perguntas e respostas. E os abusos na disciplina do clero, combatidos com maior
ou menor sucesso ao longo da Idade Média, são agora corrigidos com tanta felicidade
que quase deixarão de ter peso nos séculos seguintes.
Sim, é claro: como sempre, estamos longe, muito longe,
de um “mar de rosas”, da instalação do paraíso sobre a terra... A fé
encontra-se mais imbricada do que nunca com a política, por causa dos
antagonismos e dos tumultos sociais que o protestantismo provocou. Reis,
príncipes e imperadores sentem-se no dever de defender, com maior ou menor
retidão e desinteresse, a unidade moral dos seus súditos, e o resultado é esse “Cristo
da pistola” denunciado pelos melhores cristãos do tempo. Perseguições de
protestantes por personagens coroados bem pouco católicos na sua vida pessoal,
martírios de católicos e protestantes mais radicais por reis e rainhas que
pouco interesse demonstravam pelas suas Igrejas “reformadas” nacionais, tingem
como matizes dolorosos essa que foi chamada a “era dos fanatismos”. Os ódios
despertados em 1520 levarão ainda século e meio até se acomodarem e encontrarem
um modus convivendi depois da Guerra
dos Trinta Anos.
Mas a última palavra sobre este período não será pronunciada
pela estreiteza e crueldade humanas, e sim pelo Espírito Santo, que insufla
nessa Igreja, ainda mergulhada nas dores de parto da sua Reforma, um ímpeto missionário sem precedentes. Na esteira dos
conquistadores e dos comerciantes, talvez nem sempre à altura do ideal cristão
que professam, encontraremos invariavelmente o missionário, denunciando os
abusos, retificando os erros, defendendo os povos escravizados ou defraudados,
mas sobretudo difundindo por toda a parte a luz e o calor de Cristo. Menos de
cem anos depois de Colombo, a nova fé é pregada do Canadá à Argentina.
Embarcada com Vasco da Gama nas caravelas que vão para as Índias, estabelece
uma firme ponta de lança entre o brâmanes com Roberto Nobili, na China com
Matteo Ricci, no Japão com São Francisco Xavier, nas Molucas, nas Filipinas, no
Congo e, sim, até na Etiópia monofisita e na Pérsia xiita. Se o imperador
Carlos V pôde jactar-se por breves anos de que “no seu império o sol nunca se
punha”, o efeito duradouro dessa enorme aventura que foi a descoberta e
conquista do mundo será que, pela primeira vez na História, o santo sacrifício
de Cristo unirá homens de todas as raças, cores e condições em toda a extensão
do Orbis terrarum.
Título original: L´Église de la Renaissance et de la Réforme (I) Autor: Daniel-Rops (Henri Jules Charles Petiot – 1901-1965) Tradução: Emérico da Gama Editora: Quadrante Assunto: Religiões-Cristianismo Edição: 1ª Ano: 1996 Páginas: 528
Sinopse: A agonia da Idade Média, a explosão do espírito humanístico, artistas e pensadores como Michelangelo, Leonardo da Vinci e Maquiavel... No meio desse ambiente tempestuoso não é de estranhar que surgissem revoltas religiosas e mudanças profundas lideradas por um Lutero, por um Calvino ou por um Henrique VIII.
A velha barca de Pedro já tinha atravessado muitas tormentas no decorrer do quase milênio e meio que durava a sua história, mas aquela que se avizinhava em meados do século XIV fazia pressentir que seria a pior. Os duzentos anos que vão de 1350 a 1550, sobre os quais está centrado este volume da História da Igreja de Cristo, assistiram à agonia do ideal que inspirara a Idade Média, o sonho da Cristandade, imerso agora numa tríplice crise: de autoridade, de unidade e das consciências. Não era apenas mais uma época de dificuldades: era o fim de um mundo, ainda que não o fim do mundo, e ameaçava arrastar consigo a Igreja no seu naufrágio.
Num primeiro momento, com o retorno de Gregório XI a Roma, graças aos esforços de Santa Catarina de Sena, podia-se alimentar a esperança de que o término do “exílio” do papado em Avinhão tivesse resolvido as questões mais graves. Mas já em 1378 o Grande Cisma do Ocidente dividiria as fidelidades dos cristãos entre papas e antipapas, até que, depois de quase trinta anos, o Concílio de Constança viesse a pôr fim à angústia das almas. Pouco depois, em Basiléia, seria o próprio concílio que se voltaria contra o Papa, procurando submeter o Vigário de Cristo à assembléia conciliar e diluindo a estrutura da Igreja numa pseudodemocracia autodissolvente.
A crise dos espíritos não se manifestava apenas na cabeça. A França debatia-se ainda na Guerra dos Cem Anos quando Santa Joana d’Arc polarizou pela primeira vez as aspirações de toda uma nação. Na Inglaterra e na Boêmia eclodiam entre o povo os movimentos revoltosos de Wiclef e Huss, de inspiração tanto nacionalista como religiosa. Ao mesmo tempo, a vaga turca crescia, submergindo os restos do Império Bizantino e ameaçando afogar a Cristandade inteira.
Enquanto o papado ainda firmava os pés, e no seio das turbulências políticas, borbulhando numa confusão criadora que se estendia da arquitetura às letras, das artes à astronomia, nascia o humanismo: cristão nos seus maiores representantes, como Thomas More e Erasmo de Rotterdam, mas também dotado de um inquietante caráter anticlerical e paganizante. A certa altura, com as controversas figuras dos papas da Renascença, e apesar do furor cego de um Savonarola, pôde-se chegar a pensar que a Igreja estivesse descristianizada no seu coração.
Mas o pior ainda estava por vir: dos tremendos dramas de consciência do jovem monge Martinho Lutero nasceria em 1520 o dilaceramento protestante. Confuso e hesitante no início, o movimento em breve receberia a sua estrutura teológica e a sua disciplina da férrea e glacial soberba de Calvino. Mas, dividido em mil seitas e facções, erguendo-se em sangue e fogo no anabatismo alemão e holandês, esmagado aqui e alentado ali pelas intrigas dos estados nascentes, a “reforma” logo confirmaria a verdade da frase de Péguy: “Tudo começa em mística e acaba em política”. É o cisma anglicano de Henrique VIII, a estratégia hesitante de Carlos V, as sangrentas perseguições de Eduardo VI e Maria Tudor, a ambivalente tolerância de Francisco I...
Serão tudo sombras nesse quadro? É preciso dizer que não. Se a Europa central e do norte ameaçam ruir sob os golpes combinados de turcos e protestantes, no outro extremo, sob Fernando de Aragão e Isabel de Castela, a Espanha ultima a Reconquista e, na esteira de Portugal, lança as bases da conquista e da construção de um Novo Mundo. Também não falta, nessa cristandade descarrilada e exaltada, um renascimento da piedade que propicia a descoberta da dimensão íntima da pessoa e da devoção afetuosa à Santíssima Humanidade de Cristo: a devotio moderna. E se alguns papas não souberam situar-se pessoalmente à altura das exigências do seu cargo, devemos reconhecer que nunca conspurcaram a pureza da fé e que, em muitos aspectos, desempenharam um papel histórico no qual não se pode deixar de entrever o dedo da Providência.
Por outro lado, enfrentando tragicamente a Igreja, foi o protestantismo quem a obrigou a sair do mar de lama, de facilidades e de conivências em que se atolava. Sem ele, sem o medo que suscitou, teria a Igreja empreendido a reforma autêntica, levada a cabo na fidelidade e na disciplina, cuja necessidade tantos espíritos reconheciam mas tão poucos homens de caráter ousavam realizar? Dialeticamente, foi de Wittenberg, Augsburgo e Genebra que saiu a Igreja do Concílio de Trento, confirmando com uma força até então insuspeitada as palavras de São Paulo: É preciso que haja hereges (1 Cor 11, 19). Tal é o paradoxo de uma instituição composta por homens, mas guiada pelo Espírito Santo.
Título original: L´Église de la Cathédrale et de la Croisade Autor: Daniel-Rops (Henri Jules Charles Petiot – 1901-1965) Tradução: Emérico da Gama Editora: Quadrante Assunto: Religiões-Cristianismo Edição: 1ª Ano: 1993 Páginas: 720
Sinopse: O clímax da cristandade medieval e o início da sua decadência, num misto de grandeza e de traição, de santidade e de egoísmo. As perigosas junções entre poder espiritual e poder temporal mostram-se aqui em toda a sua vivacidade histórica.
Depois de sete séculos de laboriosos esforços para fermentar a massa rude da Europa bárbara, a Igreja pôde enfim observar a partir de 1050, como dos seus esforços nascia uma nova forma social, a Cristandade, amálgama estreita e vibrante entre a fé e a vida social, acuradamente estudada por Daniel-Rops neste terceiro volume da História da Igreja de Cristo.
A fé viva e ardente que caracteriza toda esta época teve sem dúvida manifestações que hoje nos podem parecer excessivas, mas o balanço geral é extremamente sugestivo: o homem comum vive inserido numa sociedade transcendente, alentado pelos sacramentos, pela liturgia, pela pregação e pelas grandes peregrinações, e encara as suas ocupações de olhos postos em Deus, o que confere sentido e dignidade a tudo o que faz.
Mas continua a haver – como sempre haverá – dificuldades e perigos que será preciso combater. Se já Constantino e Carlos Magno tinham tentado fazer da Igreja um instrumento dócil aos seus interesses, é somente neste período que ela conseguirá por fim libertar-se da tutela do poder temporal, graças à eleição dos papas pelos cardeais e à grande reforma levada a cabo por São Gregório VII, que subtrairá as nomeações de bispos e clérigos à influência dos senhores feudais, embora à custa da dolorosa Questão das investiduras.
Outro perigo é a tentação permanente que a própria Igreja sofre de acomodar-se, de ceder à sede de poder e de riquezas a que os seus membros, como todos os homens, estão expostos. O apogeu do Papado, com Inocêncio III, acabará por ocasionar as querelas pela supremacia que opõem Bonifácio VIII ao rei Filipe o Belo, da França, e os papas de Avinhão aos imperadores. Mas não faltam, como em todos os tempos, as figuras providenciais dos grandes santos, que infundem nova vida e abrem caminho à renovação espiritual dos cristãos: São Bernardo, no século XII, São Francisco de Assis e São Domingos de Gusmão no XIII, são figuras que marcam com o seu selo toda a sociedade, fazendo-a voltar-se para Deus.
O combate à violência através da nobre figura do Cavaleiro, a educação do amor, elevado acima do plano meramente sensual pelo matrimônio cristão, o alívio dos sofrimentos físicos mediante as Ordens dedicadas aos hospitais e albergues e ao resgate dos cativos, a educação do povo pelo estabelecimento de escolas de paróquias e catedrais, a criação das Universidades, centros de uma imensa fermentação intelectual nos séculos XIII-XIV – são algumas das tarefas levadas a cabo pela Igreja nestes séculos, e que permitem ter uma idéia do seu imenso esforço humanitário e civilizador. É enfim a Catedral, “suma” das artes do tempo, que representa como que a concretização e o símbolo desses séculos dispostos a “construir para Deus” com uma fé e uma tenacidade inigualáveis.
A diferença de mentalidades que separam o medieval do homem contemporâneo talvez apareça com maior clareza nas Cruzadas. É um mosaico grandioso de claros e escuros, em que a nobreza de um Godofredo de Bulhões ou de um São Luís se encontra associada ao cálculo e mesquinhez, e às vezes à crueldade e traição, de tantas figuras de segundo plano. O fracasso definitivo dessas tentativas de estender a Cristandade por meio das armas abriu caminho, porém, às grandes tentativas missionárias que levaram à fundação do primeiro bispado católico na China e aos esforços de um Raimundo Lúlio, gênio polimórfico, por converter os muçulmanos pela persuasão. E se Bizâncio, após o cisma, tende cada vez mais para a ruína, na Rússia estende-se cada vez mais o cristianismo oriental.
A heresia maniquéia, negadora da vida, e o “puritanismo” valdense, ao introduzirem um rasgão profundo no seio da própria sociedade, levaram a uma reação crescentemente violenta, que culminou na cruzada dos albigenses e na criação da Inquisição. Por volta de 1350, com o papado já instalado em Avinhão, sente-se fermentar um novo espírito, que acabará por romper a unidade intelectual e moral da Cristandade.
Não se pode olhar sem uma certa nostalgia para estes séculos; se é verdade que neles se manifestam tantas fraquezas do barro humano, projetadas também na própria Igreja, não o é menos que constituíram um desses momentos clássicos em que o espírito humano atinge um dos seus cumes mais elevados, comparável apenas, no Ocidente, à Grécia de Péricles ou à Roma de Augusto.
Trecho da obra:
A primavera da Cristandade
Durante três séculos – entre 1050 e 1350, aproximadamente -, a concepção do mundo que prevaleceu foi essa noção de Cristandade. Formou-se lentamente, à custa de sangue e lágrimas, e foi-se também perdendo aos poucos. Por trezentos anos impôs a sua lei, e, evidentemente não por acaso, foi esse talvez o período mais rico, mais fecundo e, sob muitos aspectos, mais harmonioso de todos os que a Europa conheceu até os nossos dias. Saindo das trevas invernais da época bárbara, a humanidade cristã viveu a sua primavera.
O que inicialmente impressiona a quem analisa o conjunto destes trezentos anos é a sua riqueza de homens e de acontecimentos. À semelhança da seiva que jorra por todos os lados na primavera, tudo parece agora germinar e desabrochar numa abundância de folhagem sobre o solo batizado por Cristo. Em todos os âmbitos se manifesta o fervor criativo, a exigência profunda de empreender, de encaminhar a caravana humana para o futuro. Os mais minuciosos quadros cronológicos não seriam suficientes para captar este impulso. Constroem-se catedrais; parte-se para a conquista do Santo Sepulcro, da Espanha que ainda se encontra submetida ao poder mouro, das regiões bálticas ainda pagãs; nas universidades, discutem-se as grandes questões humanas; escrevem-se epopéias, criam-se mitos eternos; milhares de pessoas transitam pelas rotas de peregrinação; no ímpeto de descobrir o mundo, chega-se até o secreto coração da Ásia; elaboram-se novas formas políticas… E tudo isso simultaneamente, num ardor de vida em que todos os acontecimentos se precipitam e interagem, numa complexidade que desencoraja por antecipação quem quiser abarcá-la.
Este impulso prodigioso, contudo, não é uma improvisação de frágeis resultados, não desemboca numa dessas florações prematuras que os primeiros ventos de abril lançam ao chão. Traz frutos, e que frutos! Perto de algumas criações mais imperecíveis que o gênio europeu produz nesta época, as mais ousadas obras modernas tornam-se irrisórias. É o tempo das altas naves góticas, do Pórtico Real de Chartres e das fachadas de Reims e de Amiens, dos vitrais da Sainte-Chepelle e dos afrescos de Giotto. É o tempo em que se erguem, paralelamente aos edifícios de pedra e como eles desafiando os séculos, essas catedrais de sabedoria que são a mística de São Bernardo e a de São Boaventura, a Suma Teológica de São Tomás, as canções de gesta, a obra profética de Roger Bacon e a de Dante. É o tempo ainda em que nascem instituições, tanto religiosas como civis, que servirão de base às gerações futuras, como o Conclave dos cardeais, o Direito Canônico e as diversas formas de governo. Insigne fecundidade. Somente os séculos de Péricles, de Augusto e de Luís XIV podem rivalizar em poder criativo com este período de tempo que vai de Luís VII da França à morte do seu bisneto São Luís, da eleição de Inocêncio II à de São Celestino.
É claro que semelhante fecundidade pressupõe uma enorme riqueza de talentos. A Europa dá-nos a impressão de ter possuído nesta época, em todos os âmbitos, personalidades de primeira ordem, com uma abundância que não voltaria a encontrar depois. A lista é infindável. São os santos, cujo valor de exemplo e de irradiação se mostram admiráveis: São Bernardo, São Norberto, São Francisco de Assis, São Domingos, que podemos citar entre centenas. São os expoentes do pensamento: Santo Anselmo, São Boaventura, São Tomás de Aquino, e Abelardo, e Duns Escoto, e Bacon, e Dante… São os artistas geniais, os inventores de técnicas e os criadores de formas, mestres e artistas cujos nomes estamos longe de conhecer em muitos casos. São homens de Estado, eminentes pela sua sabedoria, como Filipe Augusto ou São Luís, ou pela profundidade da sua visão política, como grande Frederico Barba-Roxa e o inquietante Frederico II. São os chefes guerreiros à testa de tropas imensas, desde Guilherme o Bastardo, que conquistou a Inglaterra, e os seus primos, que instalaram no sul da Itália a dominação normanda, até os grandes cruzados, um Godofredo de Bulhões e um Balduíno, ou aqueles que, com o Cid Campeador, travaram na Espanha batalhas semelhantes. Não faltam representantes das mais altas categorias, os que fazem progredir a humanidade: escritores, escultores, músicos, sábios, juristas. E qualquer outra categoria que citemos possuirá, entre 1050 e 1350, nomes que a posteridade há de respeitar. E no cimo destas nobres coortes, vemos os papas, muitos dos quais foram personalidades excepcionais, quer se trate de um Gregório VII ou de um Inocêncio III.
Os empreendimentos, os conflitos e até os dramas em que estes homens se envolveram trazem também sinal da grandeza. Há períodos da história em que os acontecimentos têm qualquer coisa de mesquinho: os tempos merovíngios, por exemplo, ou os do desmembramento do Império de Carlos Magno. Durante os três séculos da Baixa Idade Média, porém, tudo transcorre de outro modo: a Cruzada é uma empresa grandiosa, mas também o é a invasão mongol, apesar da sua crueldade e violência, ou a própria entrada em cena dos almorávidas na Espanha. E mesmo nas desastrosas lutas entre o papado e as potências terrenas, subsiste uma intensidade dramática que atinge a dimensão de um confronto decisivo entre duas concepções do mundo.
Mas esta época dá a impressão de ordem e equilíbrio tanto como de vitalidade e de frondoso desabrochar. As instituições políticas e sociais, bem como o sistema econômico, surgem como entes concretos e reais, proporcionados à estatura do homem. Não se observa neles essa tendência para o desmedido e para a abstração desumana que caracteriza o mundo moderno. Toda essa época assemelha-se à sua mais bela criação – a Catedral -, cuja infinita complexidade e cujos múltiplos aspectos testemunham um caudal inesgotável, mas que obedece a uma evidente ordem preestabelecida, graças à qual o conjunto ganha o seu sentido e cada detalhe o seu alcance.
Muitos filósofos da história, de Oswald Spengler a Toynbee, pensam que as sociedades humanas, à semelhança dos seres individuais, obedecem a uma lei cíclica e irreversível que as faz percorrer estágios bastante parecidos aos da infância, juventude, maturidade e velhice do ser fisiológico. Se tais comparações são válidas, é indubitável que, ao longo destes três séculos, a humanidade cristã do Ocidente conheceu a primavera da vida, a juventude, com tudo o que esta traz consigo de vigor criativo, de violência generosa e por vezes inútil, de combatividade, de fé e de grandeza.
Título original: L´Église des Temps Barbares Autor: Daniel-Rops (Henri Petiot) Tradução: Emérico da Gama Editora: Quadrante Assunto: Religiões-Cristianismo Edição: 1ª Ano: 1991 Páginas: 648
Sinopse: A vida da Igreja no longo e agitado período que vai do século V ao século XI. Percorre-se passo a passo a história religiosa e geral com uma visão de conjunto desses sete séculos de lutas e pacientes esforços.
Este segundo volume da História da Igreja de Cristo traça o dramático retrato da sociedade cristã durante os séculos V a XI, a “idade das trevas”. São seis séculos em que se forjam os mais variados povos e civilizações, uma verdadeira encruzilhada da História na qual a Igreja começa a desempenhar o papel de condutora espiritual dos povos.
Única instituição válida a permanecer de pé entre os escombros do Império Romano, recaiu sobre ela a responsabilidade de “defensora da cidade” no momento em que os povos bárbaros se lançavam ao assalto da Europa. Foi uma hora grave, de difíceis escolhas: a decadência do mundo antigo era manifesta e inevitável, mas a cultura e a civilização estavam vinculados a ele, e coube à Igreja o espinhoso papel de conservar o que era necessário salvar.
Por outro lado, os bárbaros, pagãos ou arianos, apesar de se mostrarem opressores ou intolerantes, representavam o futuro, e a Igreja soube compreendê-lo mesmo no meio do turbilhão das paixões e do caos social que se seguiu às invasões. Passou, pois, à ofensiva, numa obra missionária tão audaciosa como perseverante, digna do zelo dos primeiros Apóstolos. Conquistando para Cristo os povos célticos do Norte, irlandeses e bretões, estabelece a base que lhe permitirá, primeiro, reconquistar a Gália e a Península Ibérica, para depois avançar até ao próprio centro do paganismo germânico, a Saxônia e os países nórdicos.
No Oriente, pelo contrário, Bizâncio cristaliza-se num isolamento crescente, e o cesaropapismo dos Basileus, que cada vez mais tendem a chamar a si as questões de doutrina e de fé, dá origem a um sem-fim de querelas e discussões. Os desentendimentos enfraquecerão o cristianismo oriental, tornando-o presa fácil dos maometanos, que agora surgem no cenário da história, e acabarão por conduzir a Igreja do Oriente ao rompimento definitivo com a Igreja universal por ocasião do cisma de Cerulário, no século XI. Mas também contribuirão para o esclarecimento definitivo de um dos aspectos centrais da doutrina cristã: a questão das duas naturezas de Cristo, e para uma emulação apostólica que chamará para Cristo toda a Europa oriental e essa imensa nação cujo destino haverá de ser tão controverso: a Rússia.
Tanto no Oriente como no Ocidente, o difícil parto da civilização européia e a lenta agonia dos gregos levantam a questão espinhosa do imbricamento entre o poder temporal e o espiritual. É uma espada de dois gumes, nem sempre manejada com destreza pelos sucessores de Pedro. Ao longo destes sete séculos, tem-se mais de uma vez a impressão de que a Igreja acabará por soçobrar definitivamente sob a pressão dos senhores laicos, especialmente durante o doloroso “século de ferro do papado”, ou de que se verá arrastada pelo turbilhão do afundamento moral e institucional da sociedade que tem a missão de vivificar.
Mas é justamente nesse panorama assustador que se revelam, talvez mais do que nas épocas de triunfo, o mistério e o caráter divino da Igreja. Quando a inteligência está a ponto de ser submersa, levantam-se figuras como Santo Agostinho, São Jerônimo, São Gregório Magno, criam-se escolas, fundam-se os mosteiros que serão viveiros de santos, mas também de intelectuais. Quando a decadência moral parece não ter remédio, ergue-se o movimento de reforma, impulsionado pelo jovem monaquismo de São Bento ou de Cluny, ou por figuras de grandes papas e bispos, como Gregório Magno, São João Crisóstomo ou São Pedro Damião. E se ao longo deste período deixaram de ser cristãos imensos territórios, da Mesopotâmia à Espanha, não é menos verdade que por volta do ano 1000, graças a missionários como São Columbano, São Bonifácio e São Cirilo e São Metódio, a mensagem de Cristo ressoa da Groenlândia ao Tibet.
É todo um panorama em que, tal como na vida dos homens, a morte se mistura ao nascimento, a destruição à construção, a decadência à renovação. Deste tempo difícil e doloroso, extrai-se a cristalina certeza de que a barca de Cristo não pode perecer, porque está edificada sobre a rocha inabalável da promessa divina.
Título original: L´Église des Apôtres et des Martyrs Autor: Daniel-Rops (Henri Petiot) Tradução: Emérico da Gama Editora: Quadrante Assunto: Religiões-Cristianismo Edição: 1ª Ano: 1998 Páginas: 600
Com A IGREJA DOS APÓSTOLOS E DOS MÁRTIRES, a Editora Quadrante dá início à publicação da HISTÓRIA DA IGREJA DE CRISTO, de Daniel-Rops, em dez volumes.
Sinopse: Este volume debruça-se sobre os primórdios do cristianismo. Observam-se a constituição da Igreja desde os seus ímpetos iniciais até os dilemas que teve de resolver desde a primeira hora.
Este primeiro tomo tem o fascínio de debruçar-se sobre os primórdios do cristianismo, quando quase se sente ainda o alento da presença física do Mestre. Observamos a constituição da Igreja, os seus ímpetos iniciais e os dilemas que teve de resolver desde a primeira hora, o seu assombroso crescimento e desenvolvimento sob a ação do Espírito vivificador.
Uma terceira raça, que se desprenderia do judaísmo e se oporia ao paganismo, insere-se agora nos rumos da História, não sem embates dolorosos que se estendem, sangrentos, até o advento de Constantino. Ao longo dos primeiros quatro séculos, o período abrangido por este volume, vamos acompanhando a ação dos Apóstolos, principalmente dessas colunas da Igreja que foram São Pedro e São Paulo; a gesta de sangue dos mártires; o perfil dos grandes santos e dos primeiros forjadores das letras e das artes cristãs; o desenrolar do culto, da liturgia da Missa e da piedade; a formação dos quadros – sempre dentro do marco de uma sociedade que vemos desagregar-se numa lenta agonia, numa exaustão que talvez se esteja repetindo nos tempos atuais, mas que, também como hoje, se abre em última análise à esperança da “revolução da Cruz”.
É todo um processo de revezamento, a que não faltam as sombras dos conflitos internos e o claro-escuro dos erros que se prenunciam. Num retrato vivo da natureza humana, afloram os lapsi e todo o painel desconcertante das heresias e dos sectarismos, que no entanto conduziram à formulação da teologia cristã e aos grandes Concílios da primeira era, e de que a Igreja saiu robustecida na sua autoridade e unidade.
Desta encruzilhada decisiva para os destinos da humanidade, Daniel-Rops oferece-nos, com inusitada perfeição de estilo, uma análise que prende pela sua exatidão e leveza, mas, sobretudo pelas linhas de reconstituição, que permitem apreciar objetivamente o poder prodigioso da fé na renovação das instituições por dentro, quando individual e coletivamente se têm os olhos postos no Senhor que ultrapassa a História e se vive com a esperança fincada nas promessas da vida eterna.
Título original: How the Catholic Church Built Western CivilizationAutor: Thomas E. Woods Jr. Tradução: Élcio Carillo Editora: Quadrante Assunto: História geral Edição: 1ª Ano: 2008 Páginas: 222
Se perguntarmos a um estudante universitário o que sabe do contributo da Igreja Católica para a sociedade, a sua resposta talvez se resuma a uma palavra: “opressão”, por exemplo, ou “obscurantismo”. No entanto, essa palavra deveria ser “civilização”.
Sinopse: Neste livro, Thomas Woods mostra como toda a civilização ocidental nasceu e se desenvolveu apoiada nos valores e ensinamentos da Igreja Católica. Em concreto explica, entre outras coisas - por que o milagre da ciência moderna e de uma filosofia que levou a razão à sua plenitude só puderam nascer sobre o solo da mentalidade católica; como a Igreja criou uma instituição que mudou o mundo - a Universidade; como ela deu uma arquitetura e umas artes plásticas de beleza incomparável; como os filósofos escolásticos desenvolveram os conceitos básicos da economia moderna, que trouxe para o Ocidente uma riqueza sem precedentes; como o nosso Direito, garantia da liberdade e da justiça, nasceu em ampla medida do Direito canônico; como a Igreja criou praticamente todas as instituições de assistência conhecidas, dos hospitais à previdência; como humanizou a vida, ao insistir durante séculos nos direitos universais do ser humano - tanto dos cristãos como dos pagãos - e na sacralidade de cada pessoa.
Num momento em que se propaga uma imagem da Igreja como inimiga dos progressos da ciência e da técnica, e da liberdade de pensamento, este é um livro que desfaz preconceitos, corrige clichês e ensina inúmeras verdades teimosamente omitidas no ensino colegial e universitário.
Título original: En attendant Godot Autor: Samuel Beckett (1906-1989) Tradução: Fábio de Souza Andrade Assunto: Drama Editora: Cosac Naify Edição: 1ª Ano: 2005 Páginas: 237
Sinopse: Na história, dois vagabundos aguardam infinitamente, num descampado, a vinda do senhor Godot, que nunca aparece.
Dado este nó dramático, tão estrito que não permite peripécia, desfecho ou catarse, a espera e a angústia de Vladimir (Didi) e Estragon (Gogô), repetem-se ao infinito, ora como tragédia, ora como farsa.
Obs.: A expressão "Esperando Godot" era bastante utilizada em tempos passados para indicar algo impossível, ou uma espera infrutífera.
A obra: Trata-se de uma peça de teatro, escrita originalmente em francês, em 1949, e publicada em 1952. Em 1955 Samuel Beckett publicou a versão escrita em inglês.
O enredo: O enredo baseia-se na falta de comunicação entre os personagens e na pausa do silêncio da espera de algo que não se resolve.
A peça é dividida em dois atos. Nos dois atos, contracenam dois personagens: Vladimir e Estragon. Durante cada um dos atos, que são semelhantes na estrutura, surgem dois novos personagens: Pozzo e Lucky. Além destes, entra em cena no final de cada ato um garoto.
Em um lugar indefinido dois amigos se encontram: Estragon e Vladimir. A primeira frase dita na peça, por Estragon, já indica a inutilidade da presença deles naquele lugar:"nada a fazer". Eles lá se encontram para esperar um sujeito de nome Godot. Nada é esclarecido a respeito de quem é Godot ou o que eles desejam dele. Os dois iniciam um diálogo trivial que só será interrompido quando da entrada de Pozzo e Lucky. O aparecimento destes assusta os amigos, ainda mais pelo modo como os dois vêm: Pozzo puxa uma corda que na outra ponta está amarrada ao pescoço de Lucky. Lucky por sua vez carrega uma pesada mala que não larga um só instante. Entende-se pela situação que Pozzo é o patrão e Lucky seu criado. Os quatros trocam palavras, cada um com seu drama pessoal, até que Pozzo e Lucky saem. Em seguida, entra um garoto para anunciar que quem eles estão esperando - Godot - não viria hoje, talvez amanhã. Fim do primeiro ato.
O segundo ato é a cópia fiel do primeiro. O cenário é o mesmo, a menos da árvore que está um pouco diferente, com algumas folhas. Estragon e Vladimir voltam para esperar Godot, que talvez apareça nesse dia. Iniciam outro diálogo trivial, interrompido outra vez pela chegada de Pozzo e Lucky. Só que, inexplicavelmente, Pozzo está cego e Lucky está surdo. Dialogam. Após a partida destes, aparece um garoto (diferente do garoto do primeiro ato) anunciando que Godot não viria hoje, talvez amanhã. Pensam em se enforcar na árvore, mas desistem, ante a impossibilidade do ato ser simultâneo. O diálogo final, que encerra o ato e a peça é o seguinte:
Vladimir: - Então, devemos partir?Estragon: - Sim, vamos.Eles não se movem.
Análise da Obra: O que a peça significa? O prof. José Monir Nasser diz que a peça se cerca de grande mistério e poucas informações. Nós não sabemos quem é Godot, quem são os dois vagabundos Vladimir e Estragon, onde eles efetivamente estão, salvo que ao lado de uma árvore, sobre o que falam e porque esperam Godot que eles próprios não sabem. Tampouco sabemos muita coisa sobre Bozzo e Lucky ou sobre o menino. Enfim, tudo está envolvo num enorme mistério e muita desinformação.
Por essa razão, a peça apresenta inúmeras interpretações. Algumas sem sentido algum, outras equivocadas e outras com algum sentido, mas parcial.
Quem é Godot? Algumas especulações atribuem a God (Deus). Entretanto, o próprio Beckett proibiu, expressamente, essa interpretação alegórica, embora ele mesmo não tenha dado muita ajuda para interpretação da sua obra. A exemplo de Camus, Beckett não tinha muito interesse de ajudar os seus interlocutores sobre o que estava acontecendo ali.
Temos quatro personagens centrais – Vladimir (Didi), Estragon (Gogô), Pozzo e Lucky – e uma personagem secundária – o menino que aparece apenas como uma intervenção de que Godot existe.
As duplas Vladimir/Estragon são mais importantes, porque estão o tempo todo esperando Godot. A dupla Pozzo/Lucky, nunca espera Godot.
As duas duplas, Vladimir/Estragon e Pozzo/Lucky são diferentes. A primeira dupla é horizontal, ou seja, não há hierarquia entre seus elementos, enquanto a segunda é vertical, pois existe hierarquia entre Pozzo e Lucky.
O mais contrastante entre as duas duplas é a consciência. Não que a primeira dupla – Gogô/Didi – tenha a compreensão do que esteja acontecendo, mas eles têm uma preocupação maior. Por outro lado, Pozzo/Lucky não tem a mesma preocupação da primeira dupla.
Falando simbolicamente, na verdade, eles são quatro personagens centrais. A análise simbólica do “quatro” representa o resumo das possibilidades existenciais de qualquer coisa que seja.
O quatro representa:
- Os quatro Pontos cardeais (Norte, Sul, Leste e Oeste); - As quatro Estações do ano (Primavera, Verão, Outono e Inverno); - Os quatro Elementos da matéria (Água, Terra, Fogo e Ar); - Os quatro Estados da matéria (Sólido, Liquido, Gasoso e Plasma); - Os quatro Cavaleiros do apocalipse (Violência, Guerra, Fome e Morte); - Os quatro Evangelistas (Marcos, Mateus, João e Lucas); - Os quatro Temperamentos (Sanguíneo, Colérico, Melancólico e Fleumático)
Portanto, o quatro na peça não é mera coincidência, porque quando você olha para as possibilidades existenciais de alguma coisa, você olha para quatro direções, sempre.
Quando se olha para os quatro elementos, o Vladimir parece mais correlacionado ao elemento “Ar”. O Estragon parece correlacionado ao elemento “Água”. O Pozzo parece mais correlacionado com o elemento “Fogo” e o Lucky parece mais com o elemento relacionado a “Terra”.
Quando se olha para os quatro temperamentos, o Vladimir parece de temperamento “melancólico”, o Estragon parece o “fleumático”, o Bozzo parece “colérico” e o Lucky parece “sangüíneo”. De alguma maneira eles se encaixam, razoavelmente bem, nessa classificação dos quatro temperamentos.
Isso apenas para dar um exemplo de que essas quatro personagens podem ter aí um sentido simbólico por serem quatro e por serem quem são.
A simbologia da personagem ajuda mas não resolve o problema, porque no fundo continuamos não entendendo nada da história, mesmo que tenhamos sido capazes de perceber a simbologia dos quatro elementos e dos quatro temperamentos muito claramente nas quatro personagens existentes na peça.
Mas, se não esclarece tudo, pelo menos ajuda a concluir que esses quatro, de alguma maneira, representam como potência e como modelo a humanidade inteira. Esses quatro são uma descrição dos quatro tipos humanos possíveis, aqueles tipos básicos dos quais serão construídas as misturas hibridas. É como se essas quatro pessoas representassem um resumo, uma síntese da humanidade inteira.
Qual o problema que essas quatro personagens têm? Os problemas que eles têm são diferentes, mas de alguma maneira eles compartilham de um conjunto de problemas. Comecemos primeiro com a dupla Vladimir/Estragon, que são as personagens centrais da história.
Os dois estão num impasse o tempo todo: “Vamos embora?” – “Não, porque estamos esperando Godot”. Em nenhum momento acontece alguma coisa. Nunca nada dá certo. O resultado dessa vida humana que está aí, é a IMOBILIDADE, a INAÇÃO (falta de ação, indecisão, inércia).
INAÇÃO é o sinônimo de morte. Os gregos costumavam dizer que o inferno é um lugar frio e não um lugar quente. Porque é a frieza, a falta de calor e o gelo que são correspondentes a INAÇÃO e não o calor. O calor é o contrário, é extremamente produtivo, faz um automóvel andar, uma caldeira funcionar, as plantas crescerem. O frio, por sua vez, está associado com a pausa, silêncio, a perda de ação. Por isso que os antigos diziam que a morte está associada ao frio e não ao calor.
O resultado prático dos acontecimentos da peça é a PERDA DA AÇÃO, pois tudo que acontece é completamente inútil. Todos os acontecimentos geram NADA. Tudo fica na mesma, fica tido igual. Portanto, o resultado prático é a perda da capacidade de ação representada na última frase da peça: “Então, vamos embora.” – “Vamos lá”. E eles não se mexem.
As personagens não são capazes de se mexer, de produzir algum ato que seja de fato capaz de gerar uma conseqüência qualquer. Eles gastam suas energias todas em: tirar o sapato e botar o sapato, bater no Lucky, tentar, inutilmente, levantar o Pozzo do chão. Essas atividades que eles fazem o tempo todo e não parece ser alguma atividade produtiva que tenha geração alguma concepção, a renovação de alguma coisa.
A concepção que temos é que tudo é mais ou menos inútil. Há uma sensação de desânimo permanente e sistêmico que passa por toda a peça.
O objetivo de Beckett foi transmitir à platéia a sensação de angústia que toda pessoa normal deveria sentir.
Eles esperam Godot, mas ele não vem. Eles continuam esperando sem saber quem é ele e sem saber para que o esperam. Há uma desesperança absoluta, uma sensação de que não há o que fazer, de que não se pode fazer nada de verdade. Eles transmitem à platéia a sensação de que tudo é inútil e nada tem sentido.
Portanto, a peça mostra um clima muito claro de desesperança, falta de sentido daquilo que eles estão fazendo.
Aristóteles, na “Poética” faz uma maravilhosa descrição que depois foi sistematizada por um grande crítico literário chamado Northrop Frye, no seu livro “Anatomia da Crítica”. Aristóteles dizia que, quando se estuda a personagem do herói (no conceito grego), pode-se classificá-lo em cinco graus de poder. Cada grau de poder é chamado de modo (expressão aristotélica).
Cinco Graus de Poder das Personagens:
1) Modo Mítico: é o poder da personagem divina. Só se aplica a alguém que não está no mundo humano. Ela pode fazer o que bem entender.
2) Modo Lendário: tem diferença de natureza em relação a personagem mítica, porque ela não é Deus, é um ser humano. Portanto, é um ser humano que é capaz de fazer coisas sobre-humanas, ou seja, muito acima da média do ser humano. Ex.: o profeta.
3) Modo Imitativo-alto: é aquele ser humano que tem como diferença com o anterior, menor intensidade de poder. Redução da intensidade do poder. Não fala com Deus, com pássaros, não faz clarividência. Não é tão poderoso quanto um profeta, mas é capaz de fazer coisas muito acima dos seres humanos normais.
4) Modo Imitativo-baixo: é o ser humano comum que é capaz de fazer coisas normais. Uma pessoa comum que é capaz de uma certa quantidade de ação. Somos nós.
5) Modo Irônico: está abaixo da média. Não consegue ter ação alguma sobre o mundo. Não consegue ter a mesma capacidade de se relacionar com o mundo como uma pessoa normal poderia. Ex.: Vítimas de uma situação, tramóia, conspiração etc. Prometeu é um exemplo típico de um sujeito Irônico. Raskolnikov começa como Imitativo-alto e termina como Irônico. Nota: Não se trata da capacidade mental do indivíduo, mas sua capacidade de promover uma ação que possa mudar alguma coisa no mundo.
Didi e o Gogô são personagens tipicamente irônicos, o que significa que eles são incapazes de qualquer tipo de ação. Eles não conseguem nem saber qual é o dia da semana. Não são capazes nem de tirar um bota. Um deles está sempre querendo ir embora, mas ele esquece que estão esperando Godot. Ele não consegue lembrar nem a razão pela qual eles estão ali.
Por outro lado, o Pozzo é imitativo-baixo, enquanto o Lucky é irônico.
Vladimir e Estragon são personagens irônicas, porque o modo irônico é a base da literatura moderna, ou seja, esse lixo que está aí pululando nas prateleiras das livrarias e bancas de revistas.
Beckett quer nos mostrar com a peça “Esperando Godot”, o quanto o homem moderno está se tornando IRÔNICO.
É o sujeito que não consegue fazer nada mais. É como se houvesse um congelamento total do poder de ação humana, que está representado por essa idéia de,
- Vamos ! - Sim, vamos.
E ninguém sai do lugar.
GODOT NÃO É DEUS ! MAS É UMA POSSIBILIDADE DE SENTIDO EXISTENCIAL E “ESPERANDO GODOT” É UMA HISTÓRIA EXISTENCIALISTA.
Sobre o autor:
Dramaturgo, romancista e poeta irlandês, Samuel Beckett nasce em Dublin, Irlanda, no dia 13 de abril de 1906. Estuda na Portora Royal School, em Einiskillen, e depois no Trinity College, em Dublin. Em 1928 é nomeado lecteur de inglês na École Normale Supérieure de Paris e conhece James Joyce. A partir de 1945, começa a traduzir suas primeiras obras para o francês e a escrever poemas e novelas nessa língua. Samuel Beckett morre em 22 de dezembro de 1989, em Paris.
Título original: Saggezza ântica – terapia per i mali dell´uomo d´aggi Autor: Giovanni Reale Tradução: Silvana Cobucci Leite Assunto: Filosofia – ensaio estrangeiro Editora: Edições Loyola Edição: 2ª
Ano: 2002
Páginas: 264
Sinopse: O livro “Saber dos Antigos” traça uma espécie de itinerário dos males que nos afligem hoje, mostrando como a sabedoria antiga da filosofia clássica grega revela as formas de “cura” do mal estar contemporâneo. Estas “terapias” podem aliviar a dor e o sofrimento pela reflexão das verdades eternas que o niilismo de nosso tempo ajudou a esquecer.
Giovanni Reale demonstra que na sabedoria clássica grega estão as verdades eternas que o mundo esqueceu.
Reale resume em dez itens os males atuais:
1. o cientificismo e o redimensionamento da razão do homem em sentido tecnológico;
2. o ideologismo absolutizado e o esquecimento do ideal do verdadeiro;
3. o praxismo, com sua exaltação da ação e o esquecimento do ideal da contemplação;
4. a proclamação do bem-estar material com sucedâneo da felicidade;
5. a difusão da violência;
6. a perda do sentido da forma;
7. a redução do Eros à dimensão do físico e o esquecimento da "escala de amor" platônica (e do verdadeiro amor);
8. a redução do homem a uma única dimensão e o individualismo levado ao extremo;
9. a perda do sentido do cosmos e da finalidade de todas as coisas;
10. o materialismo em todas as formas e o esquecimento do ser, a ele vinculado.
A cada capítulo, Reale apresenta um destes males e uma terapia correspondente baseada nos ensinamentos dos antigos. É uma viagem às várias dimensões da vida humana e como os gregos tratavam estes temas. Lições valiosas para aqueles que quiserem escutá-las.
Com o niilismo descrito por Nietzsche e redefinido por Heidegger, a sociedade atual tem mergulhado numa desintegração valorativa em direção a horizontes desconhecidos da prática, do produzir e do agir. Para onde estamos caminhando? Não sabemos. Somente que tudo aponta para uma destinação de desintegração social. A solução está na terapêutica administrada pelo antigo pensar: a sabedoria antiga.
Em suma: Trata-se de um livro excepcional, de leitura simples e conteúdo didático, para ser transformado em "livro de cabeceira". Vivendo em uma sociedade dominada pelo tecnicismo, temos esquecido, a cada dia, as bases históricas que nos asseguraram a viabilidade da nossa sociedade fundamentada em alguns domínios do nosso universo simbólico, onde estão situadas as idéias que são as bases de nossa tradição ética, política, estética e religiosa.
Autor: Jose Ortega y Gasset (1883-1955) Tradução: Marylene Pinto Michael Assunto: Filosofia Editora: Martins Fontes Edição: 2ª Ano: 2002 Páginas: 300
"A Rebelião das Massas", obra prima de José Ortega y Gasset, começou a ser publicado em 1926 num jornal madrilenho ("El Sol").
José Ortega Y Gasset avalia o homem médio quanto a sua capacidade para continuar a civilização moderna e quanto à sua adesão à cultura. Tentando responder a questões como 'quem manda no mundo', ele discute a atitude do homem médio ante a civilização e a cultura. Explica por quê o homem contemporâneo enxerga cultura como bem de consumo e não como bem cultural.
A obra retrata as grandes transformações do século XX, especialmente na Europa, com ênfase no processo histórico de crescimento das massas urbanas. Não se refere às classes sociais, mas às multidões e aglomerações. Tendo esse contexto como pano de fundo, Ortega discute temas, aparentemente contrários entre si, mas que se fundem (ou devem fundir-se) numa unidade de sentido. É assim que contrapõe individualismo e submissão ao coletivo; comunidade, nação e estado; história, presente e porvir; homens cultos e especialistas; poder arbitrário e respeito à opinião pública; juventude e velhice; guerra e pacifismo; masculino e feminino.
O autor afirma que nossa época é, antropologicamente, dominada pelo homem-massa: criatura encolhida em sua própria cápsula vivencial. Este menospreza e detesta tudo o que não se lhe assemelha, ou seja, todos os homens que buscam a própria superação. O homem-massa é herdeiro de todas as consecuções da Tradição, mas, desdenha do passado, pois, toma a civilização como a um fato da vida, auto-suficiente e inexorável. Assim, desconhece o que é a civilização, não faz idéia do que ela provém e nem do que se mantém. Ignora as noções mais elementares da Democracia, imaginando-a como um regime plebiscitário. O homem-massa quer fazer crer que é merecedor de todas as benesses, e, que suas elucubrações e palpites valem por verdade, a despeito de qualquer razão. Se imagina em condições de colher os frutos da civilização, ao mesmo tempo em que, dissolve seus elementos constitutivos e elimina suas condições objetivas de existência — em suma, precipita a sociedade na barbárie do pensamento teúrgico e dos laços tribais.
São tópicos que, inevitavelmente, nos induzem à reflexão crítica. Em alguns casos são apresentados de forma extremamente provocativa.
Referindo-se ao poder do dinheiro, minimiza seu significado e afirma:
"É, talvez, o único poder social que ao ser reconhecido nos repugna. A própria força bruta que habitualmente nos indigna acha em nós um eco último de simpatia e estima. Incita-nos a rechaçá-la criando uma força paralela, mas não nos inspira asco. Dir-se-ia que nos sublevam estes ou os outros efeitos da violência; porém ela mesma nos parece um sintoma de saúde, um magnífico atributo do ser vivente, e compreendemos que o grego a divinizasse em Hércules."
Discutindo o fato de que os antigos gregos expressavam certo desprezo pelas mulheres, acaba por concluir que estas acabaram se masculinizando:
"A Vênus de Milo é uma figura másculo-feminil, uma espécie de atleta com seios. E é um exemplo de cômica insinceridade que tenha sido proposta tal imagem ao entusiasmo dos europeus durante o século XIX, quando mais ébrios viviam de romanticismo e de fervor pela pura, extrema feminilidade. O cânone da arte grega ficou inscrito nas formas do moço desportista, e quando isto não lhe bastou preferiu sonhar com o hermafrodita."
Sobre a guerra, chega a afirmar:
"O pacifismo está perdido e converte-se em nula beateria se não tem presente que a guerra é uma genial e formidável técnica de vida e para a vida."
Sua interpretação do modelo escravista é bastante sugestiva:
"Do mesmo modo, costumamos, sem mais reflexão, maldizer da escravidão, não advertindo o maravilhoso progresso que representou quando foi inventada. Porque antes o que se fazia era matar os vencidos. Foi um gênio benfeitor da humanidade o primeiro que ideou, em vez de matar os prisioneiros, conservar-lhes a vida e aproveitar seu labor."
São essas aparentes contradições que estimulam nosso espírito crítico. Ortega defendeu suas concepções com vigor, fundamentos sólidos e uma lógica irrepreensível. Em poucos momentos foi totalmente conclusivo, mas deixou uma enorme abertura para que possamos repensar as idéias que legou sobre o futuro da humanidade.