sexta-feira, 27 de março de 2009

EUMÊNIDES

Autor: Ésquilo
Tradução: Mário da Gama Kury
Editora: Jorge Zahar Editor
Assunto: Tragédia (Teatro grego)
Edição: 7ª
Ano: 2006
Páginas: 196 (145-196)

Sinopse: Encerrando a trilogia (Agamêmnon, Coéforas, Eumênides), as Eumênides (“Deusas Benévolas”) personificam o apaziguamento de tantos ódios: elas são as Fúrias[1] [Tisífone (Castigo), Megera (Rancor) e Alecto (Interminável)], que atormentaram Orestes de Argos a Atenas, convertidas em deusas benévolas e reverenciadas. O tribunal que absolve Orestes, integrado também por cidadãos distinguidos de Atenas, institui o voto de desempate de Atena (Minerva para os romanos) e é o primeiro a julgar um crime de homicídio.
Entretanto, fica a pergunta: “Matar o pai é mais grave que matar a mãe?”
Época da ação: idade heróica da Grécia (cerca de 1200 a.C.)
Locais: Delfos e Atenas.
Primeira representação: 458 a.C., em Atenas.
Personagens:
- Orestes, filho de Agamêmnon e de Clitemnestra
- Apolo
- Atena (Minerva para os romanos)
- Fantasma de Clitemnestra
- Profetisa Pítia, já idosa
- Coro das Fúrias (seis)
- Escolta
- Hermes.
Resumo da Narrativa:
A sacerdotisa de Apolo no templo do deus em Delos encontra Orestes como suplicante junto ao altar. Em frente a ele estavam as Erínias (Fúrias para os romanos) que, cansadas de perseguir o fugitivo, haviam adormecido nos bancos do templo. Prometendo-lhe ajuda, Apolo manda Orestes fugir para Atenas, onde deveria submeter sua causa a julgamento e seria libertado de seus sofrimentos. O fantasma de Clitemnestra (sua mãe) aparece e censura as Fúrias por sua negligência, conduta essa que a expõe ao desprezo dos outros mortos no inferno. Despertadas pelo ápodos de Clitemnestra, elas recriminam Apolo por haver acolhido em seu templo um homem maldito que elas perseguem impelidas por seu direito de vingar os crimes cometidos entre consangüíneos.
A cena desloca-se para Atenas, até onde as Fúrias tinham perseguido Orestes. Abraçando-se à imagem de Atena, Orestes implora a proteção da deusa, alegando que suas mãos já haviam sido purificadas graças aos ritos sagrados, e que sua presença já não trazia malefícios a qualquer pessoa. As Fúrias cantam um hino para dominar o espírito de Orestes com seus encantamentos capazes de o levarem à loucura. Atendendo a uma prece da vítima, Atena aparece e convence as Fúrias a concordarem com o julgamento da causa, não pela deusa sozinha, mas com a colaboração de seis dos mais distinguidos cidadãos de Atenas, que constituiriam um júri.
Iniciado o julgamento, Apolo aparece como defensor de seu suplicante e como representante do próprio Zeus, a cujos mandamentos inapeláveis obedeciam os oráculos do deus-profeta. Apolo declara que Orestes matou sua mãe obedecendo a uma injunção divina. O acusado confessa o crime mas enfatiza em sua defesa que, ao matar o marido e rei, Clitemnestra assassinou o pai de Orestes, e que suas perseguidoras deveriam elas mesmas ter-se vingado dela.
Atena proclama que o tribunal – o primeiro a julgar um crime de homicídio – fica instituído por ela para sempre. Os juízes (jurados) depositam seus votos numa urna, e a deusa, declarando que é seu dever pronunciar o veredicto final da causa, esclarece que seu voto deve ser contado a favor de Orestes, que seria absolvido ainda que os votos se dividissem igualmente. Proclamado vencedor em face de um empate entre os juizes e do voto de desempate de Atena (Minerva para os romanos), Orestes sai de cena. Suas antagonistas ameaçam amaldiçoar Atena e trazer a ruína para a região cujos juízes absolveram o acusado. Mediante promessa de honrarias eternas às Fúrias, Atena consegue apaziguá-las, e elas deixam desde então de ser as deusas do ódio para passarem a ser as deusas benévolas (Eumênides). Em sua nova condição, as deusas saem numa procissão solene para o santuário que Atena lhes proporcionou numa gruta no sopé da colina de Ares (o Areópago, que deu o nome ao tribunal).
E assim termina a trilogia.

[1] Fúrias para os romanos e Erínias para os gregos.

sexta-feira, 20 de março de 2009

COÉFORAS

Autor: Ésquilo
Tradução: Mário da Gama Kury
Editora: Jorge Zahar Editor
Assunto: Tragédia (Teatro grego)
Edição: 7ª
Ano: 2006
Páginas: 198 (89-143)

Sinopse: Clitemnestra e Egisto, seu amante e cúmplice, são assassinados por Orestes, com a ajuda de sua irmã Electra e a proteção da alma de Agamêmnon. Clitemnestra encarrega sua filha Electra de fazer um sacrifício expiatório junto do túmulo do pai, para apaziguar os seus Manes e afastar os sinistros presságios dum sonho. Electra dirige-se ao túmulo acompanhada pelas escravas (Coéforas) que levam os vasos e presentes funerários e formam o Coro. Chegada ali, invoca a sombra do Pai a quem pede que vingue o crime de que foi vítima. De repente, vê sobre o túmulo uma mecha de cabelos, parecidos com os seus, que supõe serem de Orestes e faz votos pelo seu regresso. Orestes, que se tinha escondido com Pílades quando viu aproximar-se o grupo formado por Electra e pelas Coéforas, aparece e os dois irmãos combinam vingar o pai. Orestes apresenta-se no palácio como um estrangeiro e aproveita-se dum ardil para matar Clitemnestra e Egisto, seu segundo marido. Aparece depois ao povo exibindo o véu em que os assassinos tinham envolvido Agamêmnon para que não pudesse defender-se. De súbito perde a razão e retira-se para Delfos cujo deus lhe ordenara o matricídio.

Resumo da Narrativa:
Electra, filha de Agamêmnon e de Clitemnestra, morava no palácio real mas era tratada como escrava, e antes do assassinato do pai, mandou seu irmão Orestes para a corte do seu tio Estrófio, rei da distante Focis, com o objetivo de ser criado lá.
Anos mais tarde a alma de Agamêmnon, cheia de rancor, mandou um sonho para alarmar Clitemnestra. Pareceu à rainha em sua visão noturna que ela dera à luz a uma víbora, esta amamentava-se no seio dela como se fosse um recém-nascido; ao leite materno juntava-se sangue em abundância. Clitemnestra despertou transtornada, aos gritos. Consultado por ela, um adivinho do palácio interpretou o sonho como um sinal de ressentimento das divindades infernais. Para aplacá-las, a rainha mandou Electra, juntamente com algumas servas, levar libações à tumba de Agamêmnon, numa tentativa de apaziguar a alma do marido no mundo dos mortos. NO mesmo dia em que Clitemnestra mandou Electra levar as libações, Orestes, já adulto, acompanhado por Pílades, seu companheiro inseparável, chegou a Argos ansioso por vingar a morte do pai. Lá, seu primeiro cuidado foi depositar mechas de seus cabelos, como oferenda fúnebre, sobre o túmulo de Agamêmnon. Quando Electra descobriu aquela oferenda, pensou que a mesma só poderia ter sido trazido pelo irmão.
Depois de ser reconhecido pela irmã, Orestes disse que Apolo o incumbira de vingar o assassínio de seu pai, sob pena de ser perseguido implacavelmente pela Fúrias/Erínias vingadoras. Sem ser acolhido por qualquer criatura humana e sem poder aproximar-se dos altares dos deuses, ele pereceria depois de sofrer castigos indescritíveis.
Junto ao túmulo do pai, Orestes e Electra ajudados pelas cativas componentes do coro, imploram a proteção e a ajuda da alma de Agamêmnon à sua causa. Disfarçados em viajantes vindos da Focis, Orestes e Pílades são acolhidos amistosamente por Clitemnestra, depois de lhe dizerem que seu filho tinha morrido no exílio. A rainha manda a velha ama de Orestes buscar Egisto, que estava ausente do palácio juntamente com seu corpo de guardas. As cativas do coro convencem a ama a modificar a mensagem de Clitemnestra, de modo que Egisto voltasse sozinho, deixando seus guardas longe do palácio. Logo após a chegada de Egisto, ele e Clitemnestra são mortos por Orestes, indiferente às súplicas maternas. Mostrando o manto ensangüentado em que seu pai fora imobilizado antes de ser morto, Orestes ressalta a justiça de seu ato de vingança. Em seguida sua mente começa a perturba-se. As Fúrias/Erínias vingadoras de sua mãe, invisíveis às outras pessoas presentes, aparecem diante dos olhos desvairados de Orestes, que se afasta precipitadamente.

Interpretação da obra:
Coéforas faz parte de uma trilogia, Agamêmnon, Coéforas e Eumênides. De fácil entendimento, mostra um panorama geral do que a precedeu e sugestiona o que está para acontecer. As tragédias gregas sempre têm como fio condutor, Coéforas não foge à regra, a necessidade do Homem manter-se no caminho da razão e do comedimento, tentando não agir por impulsos, para não provocar a ira de algum deus ou a vingança de outrem. Não se trata de ser bom ou ruim, mas de passar da medida. Em Coéforas quem vem pagar pela falta de medida é Clitemnestra e Egisto, assassinos de Agamênon. É importante frisar que a vingança de Orestes, personagem do livro, não é decidida por ele, mas por um deus, o que mostra a relação deuses - homens na sociedade grega, justificando também mais tarde em Eumênides sua absolvição. Dentro da estrutura da encenação, é interessante pensar no corifeu, em Coéforas como em Eumênides, o coro não está fazendo apenas um comentário da ação, mas interferindo na ação, às vezes até agindo. Um exemplo seria quando a ama vai buscar Egisto e o Corifeu a interpela, sugerindo que o busque sem o acompanhamento da sua guarda, ou seja, o corifeu participa da ação contribuindo para que o plano de Orestes tenha êxito. O coro como representação da sociedade, solicita a concretização da vingança, pois não foi uma pessoa comum assassinada, mas o rei, um rei herói, orgulho dos Aqueus, morto sorrateiramente.

Justiça e vingança são conceitos de base desta peça.

quinta-feira, 12 de março de 2009

AGAMÊMNON

Autor: Ésquilo
Tradução: Mário da Gama Kury
Editora: Jorge Zahar Editor
Assunto: Tragédia (Teatro grego)
Edição: 7ª
Ano: 2006
Páginas: 196 (17-87)
A Oréstia é uma trilogia trágica "interligada", a única que chegou praticamente intacta aos nossos dias. As outras peças da trilogia são, pela ordem, Coéforas e Eumênides.
Ao longo da trilogia, a lenda dos Átridas é relatada desde a morte de Agamêmnon até a absolvição de Orestes pela morte dos assassinos do pai. Agamêmnon, a primeira peça, conta a morte do rei logo depois da queda de Tróia.

Sinopse: Agamêmnon baseia-se na volta vitoriosa do herói à Argos, após ter vencido a guerra de Tróia e vingado a honra de seu irmão Menelau, marido de Helena, que havia fugido com Páris. A esposa de Agamêmon, Clitemnestra, por sua vez, também o trai, e arquiteta o assassinato do marido com o amante.
A obra traz as tensões e emoções do planejamento e da execução, por Clitemnestra, do assassinato de seu marido, Agamêmnon, vingando assim o sacrifício de sua filha por ele. A peça termina com o coro advertindo Clitemnestra de que seu filho Orestes, então no exílio, regressaria para vingar a morte do pai.

Resumo da narrativa:
Durante muito tempo os vigias ficaram atentos, até que finalmente, em certa noite do décimo ano após a partida do chefe grego, a chama da sinaleira apareceu no horizonte e foi vista pela sentinela postada no terraço do palácio de Argos.
Neste ponto começa Agamêmnon. Para celebrar o acontecimento, a rainha manda queimar incenso e levar oferendas aos altares dos deuses. Os anciãos componentes do coro, que haviam permanecido em Argos por causa da idade avançada, não crêem de imediato na notícia, recebida de forma tão insólita e rápida, e sua dúvida só é desfeita com a aparição do arauto, que apregoa a volta de Agamêmnon vitorioso, recém-chegado a Argos na única nau que escapara de uma tempestade no meio do caminho. Recebido com alegria simulada pela rainha, Agamêmnon pede acolhida cordial para Cassandra, filha de Príamo, que lhe coubera como presa de guerra. Diante da insistência de Clitemnestra, o rei consente em caminhar sobre tapeçarias suntuosas até o palácio. Cassandra, que fora dotada por Apolo do dom da profecia, procura convencer os anciãos do perigo a que se expunha Agamêmnon e, consciente da morte que também a esperava, entra no palácio. Ouvem-se os gritos de Agamêmnon ferido mortalmente; os cadáveres dele e de Cassandra são vistos em seguida no vestíbulo do palácio. Clitemnestra exulta com seu feito e desafia os anciãos. Aparece Egisto e declara que Agamêmnon morreu para pagar os crimes de Atreu, pai dele. Os anciãos, na iminência de entrar em combate com os soldados da escolta de Egisto, são contidos por Clitemnestra, mas antes advertem o usurpador de que Orestes, filho de Agamêmnon, então no exílio, regressaria para vingar a morte do pai.

sexta-feira, 6 de março de 2009

O CASTELO

Título original: Das Schloss
Autor: Franz Kafka (1883-1924)
Tradução: Modesto Carone
Editora: Companhia das Letras
Assunto: Romance (Literatura estrangeira)
Edição: 1ª
Ano: 2000
Páginas: 488

O Castelo foi escrito em 1922. Publicado (post-morten) em sua primeira edição em 1926 pela editora Kurt Wolff de Munique. A tradução de Modesto Carone dá-se a partir de edição crítica de Malcolm Pasley de 1982.
O cenário em que se passa a estória é a aldeia de Wossek, de onde a família de Kafka era originária. O Castelo é a “casa grande” senhorial da aldeia.

Sinopse: O agrimensor K. chega a uma aldeia coberta de neve e procura abrigo no Albergue da Ponte. O ambiente sombrio e a recepção ambígua dão o tom do que será o romance. No dia seguinte o herói vê, no pico da colina gelada, o castelo: como um aviso sinistro, bandos de gralhas circulam em torno da torre. K, por mais que tente, não consegue entrar no castelo, ficando na aldeia de fora do castelo ao longo da narração. A partir daí todo um mistério se desenvolve em torno do Castelo, dos habitantes da aldeia e até mesmo sobre a verdadeira identidade e objetivos de K.
As personagens principais são K., o agrimensor protagonista; os duplos Jeremias e Artur ajudantes de K.; Frieda, uma balconista do bar da Hospedaria dos Senhores; Olga, de uma família decadente socialmente; Barnabás, irmão de Olga, sapateiro e correspondente do castelo com a aldeia; Amália, irmã de Olga e heroina da estória; Klamm, alto funcionário do castelo; Pepi, uma empregada da Hospedaria dos Senhores; Gardena, dona do Albergue da Ponte e mãe de criação de Frieda; Sortini, funcionário do castelo; entre outros.

Interpretação da obra:
As interpretações do livro são muitas, desde simplesmente uma crítica à burocracia estatal (interpretação weberiana) até uma visão religiosa, mais especificamente judaica. Há também uma visão psicológica dizendo que o castelo seria o incosciente de K. e a aldeia sua consciência. Como a obra kafkiana é muito aberta, muito simbólica e muito alegórica, permite inúmeras interpretações possíveis, característica de todas as grandes obras.
Para uma interpretação mais precisa da obra, é preciso encontrar respostas para as seguintes perguntas: Quem é K.? Por que K. quer falar com o Castelo? Por que K. não reconhece os seus ajudantes? Por que K. quer se livrar de seus ajudantes? O que o Castelo representa?
O que se sabe sobre K. é muito vago: sabe-se que foi contratado como agrimensor, que tem uma mulher, um filho; não se sabe de onde ele apareceu. Não há nenhuma descrição corpórea dele. Ele não tem verdadeiramente um corpo. Ele é uma pessoa incerta, obscura e suspeita. Tudo nele é dúbio. Só se sabe que ele quer, obstinadamente, falar com o Castelo; ele quer alguma coisa do Castelo. Essa coisa é a chave da interpretação da obra.
K. quer falar com o Castelo porque ele quer uma identidade, deseja legitimar a sua situação e assim obter o reconhecimento de que ele é alguma coisa, pois ele não existe de fato; não tem consistência humana. Essa identidade, reconhecimento e legitimação precisa vir de cima para que seja aceito na aldeia.
K. não reconhece seus ajudantes Artur e Jeremias porque na realidade os ajudantes são duplos de K.; são ele mesmo; são o pedaço da sua realidade que ele não aceita e com a qual não quer se confrontar. A chegada dos duplos significa a recuperação da unidade da pessoa de K. mas ele não percebe isso.
K. quer se livrar de seus ajudantes porque não consegue compreender que eles representam a totalidade da condição humana e com isso não percebe eles são ele próprio.
Aquilo que se chama Castelo representa uma instância superior (o conde), mas também encerra coisas demoníacas (os subalternos). A parte de cima do castelo representada pelo conde, simboliza Deus; a parte baixa do castelo representada pelos subalternos é diabólica e simboliza a natureza abissal. Trata-se, portanto, da relação entre o firmamento de luzes e o abismo de trevas.

Conclusão:
A natureza humana é colocada numa tensão entre o Céu (Firmamento de Luzes) e a Terra (Abismo de Trevas). Os duplos: Jeremias representa o Céu e Artur representa a Terra e K. para recuperar a sua unidade teria de compreender que sua própria natureza é um eterno conflito entre o firmamento de luzes e o abismo de trevas.
K. não foi reconhecido de fato pelo Castelo, porque primeiro ele teria que reconhecer a si próprio, coisa que ele não foi capaz por não enxergar em seus ajudantes Jeremias e Artur, pedaços de sua própria unidade.
Os demônios subalternos do castelo (anjos caídos) aplicam todos os meios para que o homem não compreenda a sua realidade e natureza e assim impedem o encontro do homem com a Unidade. A única personagem que não entra no jogo demoníaco é Amália, a verdadeira heroína da estória.
K. faz o jogo demoníaco do mundo material: exige ser reconhecido sem se reconhecer primeiro, pensando que pode derrotar o sistema divino utilizando subterfúgios humanos. Acontece que ele só fala com o sistema de baixo, o sistema demoníaco que não passa de um jogo da mentira do castelo com a mentira da aldeia.

Sobre o autor: FRANZ KAFKA Nasceu em Praga, na Boêmia (hoje República Tcheca), em 1883. Fez seus estudos na cidade natal, formando-se em direito em 1906. Tuberculoso, alternou temporadas em sanatórios com o trabalho burocrático. Jamais deixou de escrever, embora tenha publicado pouco e, já no fim da vida, pedido inutilmente ao amigo Max Brod que queimasse seus escritos. A maior parte de sua obra, toda escrita em alemão, foi publicada após sua morte, que ocorreu em 1924, num sanatório perto de Viena. Kafka morreu de fome e sede, devido a tuberculose alojada na garganta que o impedia de comer e beber considerando que a medicina da época não dispunha de recursos de hoje. Quase desconhecido em vida, é considerado hoje um dos maiores escritores deste século.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O REI LEAR

Autor: William Shakespeare (1564-1616)
Tradução: Millôr Fernandes
Editora: L&PM
Assunto: Drama (Teatro inglês)
Edição: 1ª
Ano: 1997
Páginas: 140


O drama O Rei Lear foi escrito em 1605 e encenado na corte no dia 26 de dezembro de 1606.

Sinopse: O rei Lear resolve abdicar de toda a sua autoridade, posses de terras e funções do estado e decide dividir o reino entre as suas três filhas Goneril, Regana e Cordélia, confiando assim nas forças mais jovens para poder caminhar, mais leve, em direção à morte. Durante a assembléia anuncia que a filha que declarar maior amor filial por ele, será aquinhoada por uma recompensa maior.

A resposta de Cordélia, a filha mais jovem e última a falar, não lhe agrada e, por conseqüência é deserdada e expulsa do reino, antes, porém, Lear declara que ela não é mais sua filha.
A decisão do rei desencadeia uma discussão com o conde de Kent que acorre em defesa de Cordélia censurando a atitude de Lear. Este, por sua vez, expulsa igualmente o conde do reino.
A progressiva dificuldade de discernir as atitudes e os discursos daqueles que o cercam, o embotamento da percepção da sinceridade e da falsidade aliada a suspeita errônea de onde viria a traição, desencadeiam todo o drama se desenrola na obra.

Personagens principais: 1. Rei Lear: (Um homem infantilizado pelo poder. Representa a segunda casta, a casta guerreira); 2. Cordélia: (Filha caçula de Lear. Representa a sinceridade, a pureza, a honestidade e a verdade); 3. Edmundo: (Filho bastardo de Gloucester. Representa a falsidade, a traição, a insídia e o caos); 4. Goneril: (Filha mais velha de Lear e organizadora do caos); 5. Osvaldo: (Criado de Goneril); 6. Duque de Albânia: (Marido de Goneril); 7. Regana: (Filha do meio de Lear e co-autora do caos juntamente com a irmã Goneril); 8. Duque de Cornualha: (Marido de Regana); 9. Conde de Gloucester; 10. Edgar: (filho legítimo de Gloucester e rufião); 11. Conde de Kent: (Amigo leal de Lear. É o único elemento unificador da história).

Interpretação da obra: Trata-se de uma história relativa a rebelião contra o espírito e o desvio fundamental da Ordem que culmina com a queda do Homem.
A história do rei Lear não é uma história a respeito da velhice. A velhice do rei tem significação de degenerescência da ordem e do sentido de justiça. Portanto, é uma história que trata das possibilidades de recuperação do Homem após a sua Queda.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

UM RETRATO DO ARTISTA QUANDO JOVEM

Título original: A portrait of the artist as a young man
Autor: James Joyce (1882-1941)
Tradutor: Bernardina da Silveira Pinheiro
Assunto: Romance (Literatura estrangeira)
Editora: Alfaguara Brasil
Edição: 1ª
Ano: 2006
Páginas: 272

Sinopse: Romance de estréia do escritor irlandês publicado em 1916, narra experiências de infância e adolescência de Stephen Dedalus, alter ego do autor; termina com a recriação de seus ritos de passagem para a idade adulta, que incluiriam deixar para trás a família, os amigos e a Irlanda e ir viver no continente.
O livro conta o processo de transição do jovem Stephen Dedalus para a maturidade e o autoconhecimento. Ele deseja profundamente ser um artista, mas, primeiro, precisa vencer as forças que reprimem sua imaginação - as convenções da Igreja Católica, da escola, da sociedade. A obra reflete a profunda relação de amor e ódio que o autor manteve durante toda a vida com sua terra natal, Dublin, e com a cultura que o formou.
Comentários:
Em janeiro de 1904, Joyce escreveu um ensaio autobiográfico que intitulou de “A portrait of the artist”. Era a primeira etapa na elaboração daquela que seria uma de suas obras-primas literárias: “Um retrato do artista quando jovem”. Com 22 anos de idade, Joyce descobriu que podia se transformar em um artista escrevendo sobre o processo de se tornar um artista. A recordação da infância e juventude de um menino católico na Irlanda, seu embate com as noções de pecado e santidade e o desejo de expressão individual.
O Retrato do Artista é um romance de formação (Bildungsroman), tipo de romance em que é exposto de forma pormenorizada o processo de desenvolvimento físico, moral, psicológico, estético, social ou político de uma personagem, geralmente passando por fases de sua vida (infância, adolescencia, adulta, maturidade). No caso especifico de James Joyce neste livro, até os 14 anos de idade.
Nesta obra, Joyce apresenta o uso sistemático do monólogo interior - desde o primeiro capítulo somos introduzidos na mente de Stephen Dedalus e convidados a acompanhar seus pensamentos, reações e os processos psíquicos de sua consciência. Trata-se de um dos primeiros exemplos da técnica narrativa do fluxo da consciência.

Sobre o Autor:
James Joyce (1882-1941) nasceu em uma abastada família católica, no subúrbio de Dublin, Irlanda. Educado em colégio jesuíta, estudou Filosofia e Línguas na University College. Já nos primeiros anos de faculdade, já publicava artigos na imprensa e começava a escrever os poemas líricos mais tarde reunidos no livro Câmara de música. Morou em Paris, em Trieste e em Zurique, onde a família viveu na pobreza, enquanto ele escrevia Ulisses.
É considerado um dos autores de maior relevância do século XX, e seus textos influenciaram, de uma maneira ou de outra, todos os escritores que lhe sucederam. Suas obras mais conhecidas são o volume de contos Dublinenses (1914) e os romances Um retrato do artista quando jovem (1916), Ulisses (1922) e Finnegans wake (1939). Os três últimos exerceram enorme impacto na literatura inglesa modernista. William Faulkner e Virginia Woolf são alguns dos grandes escritores cujas obras foram fortemente inspiradas pelas de Joyce.
Embora tenha vivido fora da Irlanda durante a maior parte da vida, suas experiências em seu país de origem são de grande importância para a compreensão de sua obra. O universo ficcional de Joyce enraíza-se fortemente em Dublin e reflete sua vida familiar e eventos, amizades e inimizades dos tempos de escola e faculdade.
O autor morreu em janeiro de 1941, dois meses depois de retornar com a família à Suíça. Todos os anos, sua vida é celebrada no dia 16 de junho. Conhecida como “Bloomsday”, a data é comemorada não apenas em Dublin, mas também em diversas outras cidades ao redor do mundo.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

LIÇÕES DE ABISMO

Autor: Gustavo Corção (1896-1978)
Editora: Agir
Assunto: Romance (Literatura brasileira)
Edição: 15ª
Ano: 2004
Páginas: 237

Sinopse: Publicado em 1950. Denso e profundo, o livro é o diário final de um homem que se descobre com leucemia. O médico lhe diz que terá três ou quatro meses de vida (a primeira anotação é de 11 de novembro; a última, de 23 de fevereiro). Logo ele constata que a morte, como o amor, não precisa de muito espaço. Mergulhado na memória, avalia o sentido da vida. Os escritos, de lucidez crescente, são reflexões sobre a alma, a verdade, o absoluto, o amor, a frivolidade, o ciúme. Documentam uma volta à fé, o reencontro com a graça.

Breve Comentário:
Nesta obra você se depara com a inapelável fragilidade humana perante a morte, suavizada por uma linguagem poética e severa do autor.
"(...) o mundo parece uma oficina de deteriorar o que as pessoas deveriam ser. A decomposição começa muito antes da sepultura. Mal armada a figura do homem, começa a desfazê-la, como se isto fosse um jogo que se monta por desfastio e que logo se desarma com tédio. E onde se localiza, em nossa vida, o ponto de inflexão? Em que dia comecei eu a ser desmanchado por mãos distraídas? (...)" - página 145.
Lições de abismo é uma referência ao professor João Maria, irremediavelmente vencido por um câncer, indaga, atônito, mas firme no propósito de usar os dias que lhe restam para mergulhar em sua vida, em sua memória, na razão de sua existência.
O professor João Maria, divorciado há dez anos da mulher, e afastado do filho que hoje "é apenas uma sombra" do que representou para ele, descobre que está condenado pela ação de um "monstro líquido" chamado leucemia mielóide aguda. E, mesmo nocauteado pelas poucas linhas escritas no exame que o dr. Aquiles lê à sua frente (e delimita-lhe a condição humana física ao exíguo espaço de tempo de três a quatro meses) é capaz de refletir sobre o sentido e a beleza da vida. "A vida é tudo. Tem um valor infinito: mas não tem sentido nenhum. A vida!" (página 59).
Ao contrário de Ivan, o juiz da célebre novela de Leon Tólstoi, A morte de Ivan Ilitch, que se acovarda na hora da morte e passa o livro inteiro sendo enganado pela família e pelo médico, que mentem sobre sua doença, o professor João Maria recebe o veredicto do doutor Aquiles com um misto de dor e resignação, estoicismo e vontade de lutar. Sim, ele quer lutar, apesar de só ser possível com a arma de um milagre ou com a coragem da imaginação. E é isso que ele faz. "(...) ao menos esses dias eu queria viver, queria viver a minha morte, já que a vida eu não a pudera viver; queria aproveitar essa última oportunidade de harmonia, essa única certeza, essa vantagem, essa vantagem enorme, colossal, que levo de hoje em diante sobre o comum dos mortais. (...)". (páginas 29/30).

Sobre o autor:
Gustavo Corção nasceu em dezembro de 1896, no Rio de Janeiro. Cursou Engenharia na antiga Escola Politécnica do Rio de Janeiro. Trabalhou em Astronomia de Campo, em Mato Grosso; em serviço de Energia Elétrica, no Rio de Janeiro e Espírito Santo; em Radiocomunicações, de 1925 a 1937, e depois em atividades industriais, até 1948. Casou-se em 1924, e, em segundas núpcias, em 1937. Converteu-se à Igreja Católica em 1939. Publicou seu primeiro livro 'A descoberta do outro', em 1944; em 1945, 'Três alqueires e uma vaca'; em 1951, 'Lições de Abismo', e, em 1952, 'Fronteiras da Técnica'; em 1956, 'Dez Anos' (Crônicas) e 'O Desconcerto do Mundo', em 1965. Foi colaborador semanal de 'O Estado de São Paulo', do 'Diário de Notícias', do Rio de Janeiro, e do 'Correio do Povo', de Porto Alegre. Faleceu em 6 de julho de 1978.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A DIVINA COMÉDIA

Autor: Dante Alighieri (1265-1321)
Tradução: Ítalo Eugênio Mauro
Editora: Editora 34
Assunto: Poesia épica
Edição: 4ª
Ano: 2001
Páginas: 696

A Divina Comédia (Do Italiano "Comedia" ou "Commedia", mais tarde batizada de "Divina" por Giovanni Boccaccio), escrita por Dante Alighieri entre 1307 e a sua morte em 1321, é indiscutivelmente considerado o melhor poema épico da literatura italiana, e um dos melhores da literatura mundial.

Sinopse: A Divina Comédia é dividida em três partes, a primeira com 34 cantos e as outras duas com 33 fechando uma centena. Inferno, Purgatório e Paraíso. Segundo Dante, O Purgatório é um espaço intermediário entre céu e o inferno, um patamar entre os circulos concentricos reservado aqueles que não foram batizados ou nasceram antes de Cristo.

A Divina Comédia propõe que onde é Jerusalém hoje, seria o lugar onde o diabo bateu ao cair do céu, como se a terra santa fosse o Portal do Inferno. Tanto o Inferno, uma esfera circunscrita a esfera da Terra responderia pela depressão mar morto onde todas as águas convergem, o Paraíso e o Purgatório seriam os segmentos dos círculos concêntricos que juntos respondem pela mecanica celeste e os cenários dessa imortal comédia.

As personagens principais da Divina Comédia são Dante Alighieri e Virgílio, aquele que escreveu a história de Roma, a Eneida, mas Virgílio já é uma alma, ele está morto. Dante é um italiano, herdeiro da civilização grega e está vivo.
Virgílio serve como um mentor, uma espécie de condutor, um guia, alguém que mostra o caminho para Dante.

Dante está buscando Deus. Mas para alcançar Deus é preciso fazer uma viagem além-túmulo e Dante faz isso para propor uma redenção moral da humanidade destinada à perdição eterna porque está submetida ao apego aos bens terrenos e às paixões mundanas. Dante busca despertar nos homens a consciência da redenção para que possam salvar-se espiritualmente.
Dante entendia, e eu concordo plenamente com ele, que o homem por mais que se esforce, jamais poderá conhecer Deus servindo-se apenas do instrumento da razão. É preciso dar um salto místico para poder-se alcançá-Lo e acolhê-Lo em todo o seu mistério.

O conceito de ‘Comédia’, à época, não constituía sinônimo de engraçado ou humorístico. Era um conceito aristotélico. É assim denominado porque o final dá certo. Se o final desse errado, a denominação seria ‘Tragédia’.
Para ler a Divina Comédia, é preciso promover a suspensão do ceticismo. Deve-se ler como se verdade fosse para compreender a obra.

Inferno
Quando Dante se encontra no meio da vida, ele se vê perdido em uma floresta escura, e sua vida havia deixado de seguir o caminho certo. Ao tentar escapar da selva, ele encontra uma montanha que pode ser a sua salvação, mas é logo impedido de subir por três feras: um leopardo, um leão e uma loba. Prestes a desistir e voltar para a selva, Dante é surpreendido pelo espírito de Virgílio - poeta da Antigüidade que ele admira - disposto a guiá-lo por um caminho alternativo. Virgílio foi chamado por Beatriz, paixão da infância de Dante, que o viu em apuros e decidiu ajudá-lo. Ela desceu do céu e foi buscar Virgílio no Limbo. O caminho proposto por Virgílio consiste em fazer uma viagem pelo centro da terra. Iniciando nos portais do inferno, atravessariam o mundo subterrâneo até chegar aos pés do monte do purgatório. Dali, Virgílio guiaria Dante até as portas do céu. Dante então decide seguir Virgílio que o guia e protege por toda a longa jornada através dos nove círculos do inferno, mostrando-lhe onde são expurgados os diferentes pecados, o sofrimento dos condenados, os rios infernais, suas cidades, monstros e demônios, até chegar ao centro da terra, onde vive Lúcifer. Passando por Lúcifer, conseguem escapar do inferno por um caminho subterrâneo que leva ao outro lado da terra, e assim voltar a ver o céu e as estrelas.

Purgatório
Saindo do inferno, Dante e Virgílio se vêem diante de uma altíssima montanha: o Purgatório. A montanha é tão alta que ultrapassa a esfera do ar e penetra na esfera do fogo chegando a alcançar o céu. Na base da montanha encontram o ante-purgatório, onde aqueles que se arrependeram tardiamente dos seus pecados aguardam a oportunidade para entrar no purgatório propriamente dito. Depois de passar pelos dois níveis do ante-purgatório, os poetas atravessam um portal e iniciam sua nova odisséia, desta vez subindo cada vez mais. Passam por sete terraços, cada um mais alto que o outro, onde são expurgados cada um dos sete pecados capitais. No último círculo do purgatório, Dante se despede de Virgílio e segue acompanhado por um anjo que o leva através de um fogo que separa o purgatório do paraíso terrestre. Finalmente, às margens do rio Letes, Dante encontra Beatriz e se purifica, banhando-se nas águas do rio para que possa prosseguir viagem e subir às estrelas.

Paraíso
O Paraíso de Dante é dividido em duas partes: uma material e uma espiritual. A parte material segue o modelo cosmológico de Ptolomeu e consiste de nove círculos formados pelos sete planetas (Lua, Mercúrio, Vênus, Sol, Marte, Júpiter e Saturno), o céu das estrelas fixas e o Primum Mobile - o céu cristalino e último círculo da matéria. Ainda no paraíso terrestre, Beatriz olha fixamente para o sol e Dante a acompanha até que ambos começam a elevar-se, "transumanando". Guiado por Beatriz, Dante passa pelos vários céus do paraíso e encontra personagens como São Tomás de Aquino e o imperador Justiniano. Chegando ao céu de estrelas fixas, ele é interrogado pelos santos sobre suas posições filosóficas e religiosas. Depois do interrogatório, recebe permissão para prosseguir. No céu cristalino Dante adquire uma nova capacidade visual, e passa a ter visão para compreender o mundo espiritual, onde ele encontra nove círculos angélicos, concêntricos, que giram em volta de Deus. Lá, ao receber a visão da Rosa Mística, se separa de Beatriz e tem a oportunidade de sentir o amor divino que emana diretamente de Deus, "o amor que move o Sol e as outras estrelas".

Mensagem e conclusão da obra:
Há algum tempo se dissimula o bem da "perfeita bondade" sobre o cunho da nova igreja. Cada vez mais se esquece da principal característica inerente ao ser humano, ou seja, fala-se aqui das variações, que podemos denominar sentimentais. Dante, naquele século, foi um dos precursores sobre o que se chama "ensaio do ser humano", em que se deixa ao lado a hipocrisia e, nesses lugares (inferno, purgatório e paraíso) subjetivos delimita-se a essência das atitudes do Homem.

O ser humano precisa realizar a viagem às possibilidades inferiores para redescobrir a verdadeira natureza humana através do caminho iniciático, que Dante Alighieri faz na sua extraordinária obra.
O caminho iniciático é o caminho da recuperação da verdade ontológica humana. É o único caminho que pode levar o homem a realização humana; é, em suma, a transcendência para o divino. Não é ser Deus, mas ser como Deus.

A Divina Comédia é uma obra para ser lida por toda a vida para verdadeiramente compreendê-la em toda a sua essência e revelação. É o caminho para a mais pura Iniciação.
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UM TRIBUTO A DANTE ALIGHIERI

No momento em que a Cristandade medieval deslizava para o abismo, elevou-se no seu seio uma voz, mais forte talvez do que todas aquelas que até então tinham sido ouvidas, para exprimir, numa abra atravessada pelo bater das asas do espírito, tudo aquilo que ela tinha trazido em si de mais sublime – a própria mensagem que entregara à história.

O homem cujo grito deveria transpor os séculos e trazer até nós o testemunho dessa civilização, encontrou-se, como todos os criadores, no eixo do seu tempo, com uma parte do seu ser fortemente enraizada no passado e a outra audaciosamente voltada para o futuro. Da sua obra sairá uma língua, uma das mais perfeitas entre essas línguas nacionais que então aspiravam desabrochar. Graças a ele, a literatura dará um passo decisivo em direção ao seu desígnio moderno: a análise da alma individual, o conhecimento da vida psicológica mais oculta. Mas, ao mesmo tempo, a matéria de que a sua obra brotará será a do passado imediato que ele exprime e glorifica: nada de essencial terá lugar nela se não proceder em substância do ideal afirmado, da experiência adquirida pelas gerações cristãs da grande época. As duas correntes poéticas que tinham surgido no decurso da Idade Média – a popular, da tradição franciscana, e a erudita, dos trovadores e das cortes de amor – confluirão no dolce stil nuovo [novo estilo doce] que ele imporá à admiração do mundo por meio dos seus versos imortais. Às Sumas teológicas, às Sumas filosóficas realizadas na Idade Média, e a essas outras Sumas plásticas que são as catedrais, teremos de acrescentar, para que o quadro fique completo, uma Suma poética. E foi esse homem quem a edificou.

Chamava-se Dante Alighieri. Nasceu na primavera de 1265, em Florença, numa humilde casa da praça de São Martinho o Bispo, ao lado da abadia. A sua infância transcorreu na cidade do lírio vermelho, bem cedo anuviada pela morte da mãe e pelo segundo casamento do pai, e tendo sob os olhos as guerras civis que ensangüentavam a sua pátria. Tudo era ocasião para discórdia na toscana, imagem da pequena Itália da época: guelfos e gibelinos reascendiam as suas querelas; os burgueses oportunistas e os clãs aristocratas disputavam o poder e as suas vantagens; o povo, desesperado, agitava-se sem cessar, prestes a amotinar-se. E o poeta encontrará no mais profundo das suas recordações de infância a imagem do Arno, “que faz correr menos água do que sangue”.

No entanto, certo dia, essa dolorosa infância foi trespassada por uma luz de paraíso. Mas tarde, na Vita Nuova, o livro dos seus trinta anos (1292), Dante contará como, aos nove anos, num primeiro de maio todo perfumado de graça, encontrou uma menina da sua idade, Beatriz, e logo a amou para toda a eternidade. “Foi como se tivesse vindo do céu para a terra, a fim de nos mostrar o que pode ser um milagre...”, murmura ele. Este amor pueril invadiu de tal forma a sua alma de criança que, desde então, nada pode arrancá-lo de si. Mas esse amor não teve de sofrer a degradação da vida, o irremediável desgaste que procede da rotina e do contato diário. Beatriz, cedo levada da terra, tornou-se uma imagem imperecível, o símbolo de tudo aquilo que a alma de um homem traz em si de mais puro e mais elevado, confundindo-se até com a Sabedoria incriada que, por vezes, se dá a conhecer aos sentidos das criaturas mortais na revelação mística, na iluminação do gênio ou na lacerante doçura de uma manhã de primavera.

Foi para se unir a Beatriz no empírico, onde a sua juventude eterna se confundia com o conhecimento inefável, que Dante se entregou inteiramente ao estudo de tudo o que a inteligência podia abranger naquela época. Artes e ciências, filosofia e teologia, nada escapou ao seu bem-aventurado apetite. Preciosas amizades o guiaram nesta infatigável pesquisa: o encantador e melancólico poeta Guido Cavalcanti, o músico Casella, o incomparável Giotto, gênio da cor e da forma, o teólogo frei Remígio de Girolami, discípulo de São Tomás, e sobretudo o bom velho mestre Brunetto Latini, a que ele, no canto XI do Inferno, agradece com palavras emocionadas o ter-lhe ensinado “como o homem se eterniza”. Aos vinte e quatro anos, estava formado.

Mas, na Florença dos fins do século XIII, não era muito fácil a um jovem intelectual prosseguir calmamente a sua tarefa de aperfeiçoamento pessoal sem se ver, que quisesse ou não, envolvido nos acontecimentos. De resto, Dante não era homem para permanecer à margem de lutas em que a verdade estivesse em jogo. Para ele, os princípios se encarnavam e os erros tinham rostos humanos. Já aos vinte e quatro anos, com bom guelfo que era, combatia os gibelinos de Arezzo e depois alistava-se na campanha contra Pisa. O seu temperamento apaixonado e as suas exigência abruptas nunca o deixaram encolher-se diante das batalhas políticas. Casado aos trinta anos com uma certa Gemma Donati, a quem pediu somente que fosse a mãe de seus filhos e a quem nunca se referiu na sua obra, e inscrito na corporação dos médicos, uma das mais honrosas na escala das Artes, Dante seria talvez, em outro tempo e lugar, levado a vida de um burguês tranqüilo, dedicando as suas noites e sonhos a escrever, e bem poderíamos imaginar o que a sua obra teria ganho com isso. Mas os acontecimentos – essa manifestação da Providência – arrancaram-no de uma tal facilidade para entregá-lo a todos os riscos de uma existência patética.

Eleito em 1300 “prior” da cidade, isto é, membro do Conselho de seis pessoas que a administrava, encontrou-se envolvido num maelstroem de intrigas e violências. Os guelfos florentinos dividiam-se então em dois clãs rivais. Embora, como se sabe, todo o partido guelfo fosse da Igreja e tradicionalmente oposto às pretensões imperiais na Itália, uma parte, os “brancos”, consideravam excessiva a pressão que o autoritário Bonifácio VIII exercia sobre a sua cidade por intermédio do seu legado, o cardeal Mateus de Aquasparta. Os “negros”, por sua vez, queriam jogar a fundo a cartada do papa e, sobretudo ajudar o seu aliado Carlos II de Nápoles a recuperar a Sicília. Sendo esse ano o do Jubileu, Florença resolveu fazer-se representar em Roma por uma solene delegação, e Dante foi indicado para participar dela. Acabou por aceitar, talvez para conhecer e julgar melhor Bonifácio VIII e a Cúria, ou talvez para não parecer que tinha medo, pois os seus inimigos poderiam aproveitar-se da sua ausência. “Se eu fico, quem irá?”, disse ele simplesmente. “Mas, se vou, quem ficará?” Não alimentava ilusões. Com efeito, quando os “negros” tomaram o poder e chamaram Carlos de Valois, a pacificação fez-se à custa de decretos, de exílios e de prisões de “brancos”. Em janeiro de 1302, Dante era expulso da sua pátria, lançado para fora do “belo redil onde vivera quando era um cordeiro” (Paraíso, XXV, 2).

Começava para ele a vida errante, numa permanente agitação. “Este gosto amargo que tem o pão dos outros, este duro caminho que é subir e descer as escadas de outrem”, foi o que ele experimentou durante vinte anos, até morrer. Terrível é o destino daquele que é arrancado da sua pátria e lançado ao acaso pelas estradas do mundo! Uma pessoa deslocada conhece a humanidade sob os seus aspectos mais insensíveis e mais cruéis. Foi essa a sorte de Dante, que a sofreu até o mais profundo do seu ser. E assim conheceu a incurável baixeza das lutas políticas. “Fazer um partido só para ele!”, tal era o seu sonho; mas essa é uma felicidade pela qual os políticos têm o costume de cobrar caro. Passando por Verona, Lucca, Ravena e talvez até Paris, peregrinou pela terra, sem outra pátria que não a interior, aquela em que se elaborava a obra do seu gênio. Certa vez, Florença propôs-lhe que voltasse, mas em troca de uma grande humilhação – uma penitência pública na catedral. “Não é esse o caminho de volta para a minha pátria”, foi o que ele respondeu a essa oferta.

Fixou-se em Ravena, a doce e sonolenta cidade dos mosaicos, onde um homem de bem, Guido Novello da Polenta, o próprio sobrinho de Francesca de Rimini, pecadora que ele imortalizara, o acolheu sob a sua proteção. Os sofrimentos do exílio, as privações, a angústia e talvez a febre insidiosa dos pântanos haviam burilado os seus traços, agora de uma beleza fascinante, e, como a sua obra literária começava a ser conhecida, os habitantes da cidade, ao vê-lo passar, sombrio e trágico – no dizer de Bocaccio –, exclamavam uns para os outros: “Eis o homem que vai ao inferno e de lá regressa”. Sim, o poeta abdicara de todas as alegrias da vida.Vira o seu inimigo Bonifácio VIII afundar-se sob o golpe de Nogaret e sofrera com isso, admirado de ver a Sé de Pedro desmoronar-se tão depressa. Vira também o imperador Henrique VII entrar na Itália e, em vez de ali restabelecer a paz, como era o seu sonho, aumentar ainda mais a anarquia. Nada lhe restava no coração a não ser uma esperança que transcende a terra e – como diz no último verso do seu poema – “esse amor que move o sol e as estrelas”. Convidaram-no a partir para Veneza como embaixador e ele aceitou, embora já no limite das suas forças. Servir a paz não seria ainda servir a Deus?

Morreu em 14 de setembro de 1321, em Ravena, e essa nobre cidade que fora tão doce para o seu exílio, quis conservar o seu corpo. Florença, a pátria ingrata, tentou levá-lo para lá quando o seu nome se tornara célebre, mas nada conseguiu. Repousa a dois passos da igreja de São Francisco, onde tantas vezes rezou, dessa comunidade de irmãos mendicantes cujo burel vestiu no leito de morte. A sua última morada é um minúsculo jardim, feito de sombras frescas e silêncio. Para além dos sofrimentos e das violências da terra, como na sublime visão criada pela sua imaginação, e para além dos círculos do inferno e da montanha das expiações, terá ele alcançado a paz definitiva, ou sete andares do céu, em cujo cimo reina o Cordeiro?

(Resumo feito por Anatoli Oliynik, com excertos traduzidos por Emérico da Gama, retirados de “A Igreja das Catedrais e das Cruzadas” de Daniel-Rops. São Paulo: Editora Quadrante, 1993.)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

A CONSOLAÇÃO DA FILOSOFIA

Título original: De Philosophiae Consolatione
Autor: Boécio (475/480-524)
Tradução: Willian Li
Assunto: Ensaio filosófico
Editora: Martins Fontes
Edição: 1ª
Ano: 1998
Páginas: 200


Sinopse:
Boécio realiza a “passagem” da Patrística à Escolástica, servindo como elo de ligação entre dois momentos importantes da história filosófica do Ocidente.
‘A consolação da filosofia’ foi escrita na prisão por um condenado à morte. A admiração que essa obra latina do século VI suscitou ininterruptamente desde então não deve nada, ou deve muito pouco, às circunstâncias ‘trágicas’ de sua composição. A obra é um testemunho da grandeza à qual um homem pode elevar-se pelo pensamento em face da tirania e da morte.

Comentários:
O livre-arbítrio e a presciência (previdência) divina são discutidos também por Boécio (475/480 - 524) no século VI d.C., na obra “A Consolação da Filosofia”. No capítulo V, quando questionada sobre o tema, a Filosofia responde dizendo inicialmente que o livre-arbítrio existe sim, e que é uma faculdade dos seres possuidores da razão. Para ela “nenhum ser dotado de razão poderia existir se não possuísse a liberdade e a faculdade de julgar”. E, diversamente do que possa ser imaginado, a alma humana será tanto mais livre, quanto mais se mantém na contemplação da inteligência divina, e, tanto menos livre quanto mais desce a juntar-se às coisas corporais, às que se ligam à carne, e, finalmente quando levados pelos vícios, perdem a posse da razão. Boécio utiliza o seu hipotético diálogo com a Filosofia para tentar responder ao desafio de conciliar a possibilidade de Deus conhecer previamente todas as coisas com o livre-arbítrio humano. Desafia-a dizendo tratarem-se de coisas contraditórias e incompatíveis. O diálogo, a forma que o autor encontra para expor suas convicções na “Consolação”, agora existe para dar corpo à argumentação de Boécio para explicar a presciência divina, questão que, para ele, está relacionada à própria natureza das coisas e à hierarquia existente que as diferencia. Parte do princípio de que as coisas são conhecidas não a partir de suas próprias propriedades e natureza específicas, mas segundo a natureza de quem as procura conhecer. Os sentidos conhecem as coisas de uma forma, e dentre estes, a visão da melhor maneira; a imaginação conhece de outra forma, mais completa; a razão, mais completa ainda; e a inteligência divina conhece tudo de forma absoluta. Além disso, as faculdades superiores podem compreender as subalternas, enquanto estas não podem jamais elevar-se ao nível das que lhes são superiores. A forma de conhecimento divino, portanto, não é a forma do conhecimento humano. É a razão humana, em última instância, que não consegue conceber a presciência daquilo que não é necessário. Mas isso se deve à limitação que nela existe em relação ao conhecimento divino supremo e absoluto. Do mesmo modo que os sentidos devem ceder à imaginação, e esta à razão, é necessário, pois, que “a razão ceda e reconheça a superioridade da inteligência divina”. Somente dessa forma é que ela poderá entender o que ela não pode ver em si mesma, o que concebe a presciência divina, com toda a precisão e certeza, mesmo que esses acontecimentos não se realizem.

Sobre o autor:
Anicius Manlius Torquatus Severinus Boetius (Roma, c.475/480 - Ticino, 524)
Filósofo platônico, estadista e teólogo romano. Último pensador latino a compreender o grego, sendo, portanto, a única fonte européia sobre esses textos digna de crédito, em sua época. Traduziu o Organon, de Aristóteles, e resumiu vários tratados sobre matemática, lógica e teologia. Como senador em 510, foi acusado de traição e magia. Por conseguinte, foi submetido à tortura e condenado à morte. Na prisão, escreveu De Consolatione Philosophiae (Do Consolo Filosófico). Além disso, foi autor de Sobre a Instituição da Música, que o tornou um dos grandes teóricos musicais da antiguidade. Apesar de não ter se convertido ao cristianismo, é considerado um mártir da Igreja, pelos serviços que prestou aos cristãos.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

A METAMORFOSE

Título original: Die Verwandlung – Escrito em 1912 e a primeira edição em 1915.
Autor: Franz Kafka
Tradução: Modesto Carone
Assunto: Novela (Literatura estrangeira)
Editora: Companhia das Letras
Edição: 2ª
Ano: 2000
Páginas: 102

Sinopse: “Uma manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa dá por si na cama e vê-se transformado num gigantesco inseto”. É deste modo que Kafka inicia a história de Gregor, um caixeiro-viajante que deixou de ter vida própria para suportar financeiramente todas as despesas de casa.

Gregor sente que se transformou num inseto horrível com um “dorso duro e inúmeras patas”. A princípio, as suas preocupações passam por pensamentos práticos relacionados com a sua metamorfose.

Depois, as preocupações passam para um estado mais psicológico e até mesmo sentimental. Gregor sente-se magoado pela repulsa dos pais perante a sua metamorfose. Apenas a irmã se digna a levar-lhe a alimentação, mas mesmo assim a repulsa e o medo também começam a se manifestar. A metamorfose de Gregor vai além da modificação física. É sobretudo uma alteração de comportamentos, atitudes, sentimentos e opiniões.

Gregor passa a analisar as coisas que o rodeiam com muito mais atenção. Entrementes, outra metamorfose ocorre no seio familiar: o pai volta a trabalhar, a irmã também arranja um emprego e passam a alugar os quartos vagos na própria casa onde habitam. As atitudes dos pais perante o filho podem induzir o leitor à idéia que Gregor era apenas o “sustento” da casa, todavia, quem interpretar a história dessa forma estará totalmente equivocado.

Interpretação da obra: Há muitas interpretações da obra. A maioria é, ou de natureza psicanalítica freudiana ou de natureza socialista-marxista. Ambas equivocadas, pois Kafka jamais escreveria uma obra para dar uma interpretação tão simplória.
Kafka não conta apenas a história de um homem que se transformou num inseto. Ele relata, sobretudo, uma história em que Gregor Samsa quer pagar a divida de seus pais. Mas que dívida seria essa e quem seria o credor dessa dívida? Kafka não nos conta isso, mas a dívida é a do pecado original e o credor é Deus. Gregor é o único da família que tem consciência real dessa dívida e sabe que ela precisa ser paga de alguma forma, mesmo depois que ele metamorfoseou-se em inseto, a dívida contínua sendo objeto de sua preocupação. Ela não é dele, é também dos demais membros da família que não a reconhecem e não aceitam a própria culpa do pecado, pois à medida que Gregor vai definhando em sua vida de inseto, a família vai renascendo na proporção contrária, porque Gregor é o único membro da família que poderia acusá-la da culpa do pecado original da dívida humana. Gregor foi morto pelo próprio pai com uma maçã. A mesma maçã de Adão e Eva no paraíso, a maça do pecado original. É o cordeiro inocente sendo imolado para incorporar a culpa humana do pecado original. Assim como Caim matou Abel para que pudesse dar início a construção da humanidade material, é a sociedade sendo construída e organizada sobre bodes expiatórios, uma espécie de mimetismo humano de René Girard em ação. Portanto, o que Kafka faz é um alerta sobre o comportamento humano frente a culpa relativa ao pecado original.

O autor: Franz Kafka Nasceu em Praga, na Boêmia (hoje República Tcheca), em 1883. Fez seus estudos na cidade natal, formando-se em direito em 1906. Tuberculoso, alternou temporadas em sanatórios com o trabalho burocrático. Jamais deixou de escrever, embora tenha publicado pouco e, já no fim da vida, pedido inutilmente ao amigo Max Brod que queimasse seus escritos. A maior parte de sua obra, toda escrita em alemão, foi publicada após sua morte, que ocorreu em 1924, num sanatório perto de Viena. Quase desconhecido em vida, é considerado hoje um dos maiores escritores deste século.

sábado, 31 de janeiro de 2009

OS IRMÃOS KARAMÁZOV

Autor: Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski
Tradução: Natália Nunes e Oscar Mendes
Assunto: Romance (Literatura estrangeira)
Editora: Ediouro
Edição: 3ª
Ano: 2001
Páginas: 744
Nota: A melhor publicação no Brasil é a edição de 1952 da editora José Olimpio, somente encontrável em sebos.


O livro retrata a história da condição humana. É uma das mais importantes literaturas russas e mundiais, tomando como núcleo o niilismo e o ateísmo.

Sinopse:
Um pai é morto pelo próprio filho. Em torno do parricídio desenvolve-se a obra-prima de Fiódor Dostoiévski, ‘Os Irmãos Karamázov’, último romance criado pelo mestre da literatura russa, concluído pouco antes de morrer, no qual sintetiza todas as possibilidades de sua arte. O enredo policial, no entanto, é apenas o ponto de partida para um romance que avança na compreensão do ser humano. Concentrando em cada um dos quatro filhos do velho Karamázov (Dimitri, Ivan, Smierdiákov e Aliócha) uma vertente humana. Dostoiévski reflete os problemas da Rússia do século XIX e, como grande escritor, transcende seu próprio tempo, apresentando um painel inolvidável dos dramas universais.
A história se passa em uma cidade no interior da Rússia e por ela desfilam personagens exaltadas ou comoventes camponeses, comerciantes, juízes, oficiais, homens ricos e seus criados, monges, mujiques, bêbados, além de várias mulheres de temperamentos completamente diferentes, mas com profunda influência na trama. Por intermédio dessas personagens, Dostoiévski expõe preocupações sociais, religiosas e filosóficas, como a responsabilidade moral e a necessidade de expiação dos pecados; uma justiça às vezes cega demais, paixões vulcânicas, dificuldades financeiras, vinganças, violência, intrigas e relações familiares conturbadas. Aborda problemas de seu país e de seu povo no século XIX, mas, acima de tudo, forma um vasto painel de dramas universais.

Personagens:
As personagens, quase todas, são um tipo da sublevação dos valores sociais: má criação, falta de religiosidade, falta de esperança e outros mais citados ao longo do livro.


- Dimitri, o primeiro filho de Fiódor Karamázov, oficial do exército, representa o ideal da alma russa mas que não está preparado e precisa ser depurado. Simboliza o idealista tempestuoso;



- Ivan, meio irmão de Dimitri, é o mais instruído, o mais viajado, o niilista e cético que doutrinou Smierdiákov, para o “tudo é permitido”. Ele simboliza o intelectual ateu e representa a desespiritualização e a mentalidade revolucionária;


- Aliócha, irmão de Ivan, pessoa tranqüila, ponderada, extremamente justa e cheia de compaixão. Ele simboliza o cristão esperançoso;


- Smierdiákov, filho bastardo de Fiódor, cozinheiro da casa; simboliza o popular corrompido e representa o povo que é manipulado pela intelectualidade atéia, simbolizada por Ivan que é um intelectual ateu.

O enredo:
Na Rússia de 1870, o idealista Dimítri Karamázov cobra do pai a herança que, segundo lhe disseram, sua mãe deixou para ele. O velho Karamázov finge desconhecer quaisquer valores ou propriedades que tenham sido deixados por sua ex-mulher. O relacionamento entre os dois não é bom, até porque, além da disputa pela herança, Dimítri e o pai apaixonam-se por Grúchenhka, uma mulher de reputação questionável.
Além de Dimítri, o velho Karamázov tem mais três filhos: Ivan, um intelectual ateu; Aliócha, um cristão fervoroso que mora num mosteiro com o sábio Frei Zósima; e Smierdiákov, um filho bastardo que tem crises de epilepsia.
Numa tentativa de resolver as brigas de família, o velho Karamázov, Dimítri e Ivan vão até o mosteiro ouvir as opiniões de Frei Zósima e Aliócha. Uma vez lá, Fiódor acusa o filho de ser um depravado. Dimítri retruca dizendo que seu pai tentou seduzir Grúchenhka, prometendo-lhe 3.000 rublos. Frei Zósima se inclina e beija os pés de Dimítri. É o fim da entrevista.
No dia seguinte, Aliócha vai visitar o pai. Ao se encontrar com Dimítri, este lhe pede para que interceda por ele junto à Katya, uma jovem com quem assumira um compromisso, pois precisa ficar livre para fugir com Grúchenhka. Aliócha promete ajudá-lo.
Mais tarde, Aliócha encontra-se com o ateu Ivan, num restaurante, e os dois discutem religião. Ao voltar ao mosteiro, Aliócha encontra Frei Zósima em seus últimos momentos de vida. A morte do monge faz com que Aliócha questione a justiça divina e, num momento de tentação, ele vai até a casa de Grúchenhka. Após conversar um pouco com ela, verifica que não se trata da pecadora que imaginava. Ele readquire, então, sua fé em Deus e na imortalidade.
Numa discussão com o pai, Dimítri o ameaça de morte. Ivan e Smierdiákov, de olho na herança do velho, vêem a oportunidade de assassiná-lo e por a culpa em Dimítri.
Ao saber que Grúchenhka voltou para um antigo amante, Dimítri decide vê-la pela última vez, antes de se suicidar. Ao chegar à casa onde os dois se encontram, para sua surpresa, Grúchenhka se convence de que é ele quem ela realmente ama. A polícia chega ao local e prende Dimítri, sob a acusação de ter assassinado o pai.
Smierdiákov confessa a Ivan que foi ele o autor do assassinato, e que o fez inspirado numa conversa que tivera com ele. Na noite anterior ao julgamento de Dimítri, Ivan descobre que agiu o tempo todo, exatamente da forma que sempre criticou, é então, devorado por uma alta febre e enlouquece. Na mesma noite, Smierdiákov se suicida.
Durante o julgamento, as evidências circunstanciais levam a Corte a condenar Dimítri pelo assassinato do pai. Um longo exílio na Sibéria espera por ele.


Análise simbólica da obra:
Dostoiévski entende que a velha Rússia deveria morrer para se poder construir uma Rússia nova. Profundamente religioso, entendia ele que só a morte permite que haja nascimento. Portanto, a obra não pode ser analisada, em hipótese alguma, sob uma visão político-ideológica que mais tarde seria representada pelo marxismo-leninista. Ela deve ser analisada sob o aspecto religioso, filosófico e simbólico.
O velho Fiódor Karamázov, que simboliza a velha Rússia, precisa morrer, porque ele representa o que há de pior nos velhos costumes que afrontavam o cristianismo, pois Dostoiévski após o cumprimento da pena na Sibéria, transformou-se em cristão por excelência.
Assim, Dostoiéviski lança mão das personagens para simbolizar cada uma das possibilidades possíveis para a Rússia.
- Aliócha, representa o cristianismo e simboliza a solução religiosa;
- Ivan, representa a desespiritualização da Rússia, e simboliza a solução ateísta revolucionária, razão pela qual ele enlouquece.
- Dimitri, representa o ideal da alma russa, mas não está pronto e precisa ser depurado. Simboliza , portanto, a alma russa que precisa ser depurada.
Assim, Dostoiévski aponta três caminhos prováveis para a sociedade:
- O caminho do cristianismo;
- O caminho revolucionário representado pela intelectualidade atéia e hedonista;
- O caminho do ideal da alma russa, mas que precisava ser depurado antes.
Portanto, a condenação de Dimitri e o cumprimento da pena na Sibéria, por um crime que não cometeu, simboliza a depuraçào e a redenção do ideal da alma russa.
Conclusão:
A solução do mundo dostoiévskiano só pode se realizar por meio do cristianismo (Aliócha).

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sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

A MORTE DE IVAN ILITCH

Título original: Smiert Ivana Ilhitchá
Autor: Lev Tolstói
Tradução: Boris Schnaiderman
Assunto: Novela (Literatura estrangeira)
Editora: Editora 34
Edição: 1ª
Ano: 2006
Páginas: 96

Sinopse:
O autor conta nesta novela a agonia de um burocrata surpreendido por uma doença grave que o leva a se defrontar com a morte. O burocrata serve de pretexto ao autor para nos contar uma história que diz respeito ao destino de cada um de nós e que é impossível ler sem um frêmito de angústia e de purificação.

Enredo: Ivan Ilitch, juiz de instrução, começa sua carreira ambiciosa com um casamento por conveniência. Depois desse matrimônio calculado, um amigo o nomeia promotor em São Petersburgo. Alcança, enfim, uma vida estável e confortável em que suporta a mulher e o ambiente familiar. No entanto, como ocorre num lance maléfico de um jogo de azar, uma doença grave surpreende Ivan Ilitch, e sua vida torna-se o avesso do esperado. Na família ele se depara com a futilidade e o vazio. No trabalho, o que prevalece são as relações interessadas e o favorecimento para a promoção de um cargo.

Desterrado em sua própria casa, acossado pela gravidade da doença e decepcionado com a mentira das pessoas que o cercam, Ivan Ilitch empreende uma viagem ao inferno, em que a dor física é tão intensa quanto a dor moral. Ambas se completam num sentimento de horror, que se revela através da consciência da morte.

Mesmo assim, Ivan Ilitch encontra algum sentido em sua vida. Por exemplo, na relação de amizade com o ajudante de copeiro Guerássim. Apenas esse mujique – jovem humilde e ignorante – é capaz de dar provas de resignação diante da enfermidade de seu patrão. Com sua atitude natural em face da vida e da morte, Guerássim é o único elo de humanidade que resta a Ivan Ilitch.

Além desse laço afetivo, as lembranças da infância provam que nem tudo na história de Ilitch se reduz à mesquinhez e à hipocrisia. “Quando mais voltava ao passado, mais vida havia”, pensa Ivan Ilitch. Esse “ponto luminoso” que a memória fisga na infância é o outro contrapeso às “veleidades de toda uma vida”, no momento em que a morte acena como um golpe implacável do destino.
Mas se a morte é iniludível, não menos certeiro é o fato de que apenas no seu limiar, na fronteira mesma do ato de morrer, Ivan Ilitch alcança alguma compreensão sobre o que foi verdadeiramente a sua existência. Neste ponto, o sofrimento mais terrível e a libertação desse mesmo sofrimento não se excluem, mas convivem de forma intensa numa experiência-limite que só a grande literatura – mesmo assim em raríssimos momentos – consegue traduzir plenamente.

Interpretação da obra: José Monir Nasser diz que toda grande obra para ser corretamente interpretada, implica pelo menos na resposta de uma pergunta fundamental: Qual é o sentido da obra ou o que o autor quer nos contar?

No caso da presente obra, há duas perguntas assessórias se fazem necessárias para chegamos a uma conclusão precisa: a) O que o mujique Guerássim representa? b) Qual o sentido da vida?

Se partirmos das respostas de que Guerássim representa a humildade e o amor ao próximo e que só há sentido da vida em Deus, fica fácil compreender o sentido da obra e a mensagem que o autor quer transmitir ao leitor. Senão vejamos:

Ivan constrói uma vida materialista e se esquece do aspecto espiritual do ser humano. Quando ele imagina ter alcançado a realização pessoal, dá tudo errado. Uma esposa materialista, filhos que morrem, e outros que não se preocupam com o drama vivido pelo pai. Já no seu leito de morte, Ivan tenta buscar respostas para o seu infortúnio. Vai retrocedendo até a sua infância e, quanto mais retrocede, mais vida parece encontrar “Vinde a mim as criancinhas, porque delas será o reino dos céus (Lucas 18, 16)”. As coisas dão erradas porque Ivan não se dá conta que nenhum projeto humano pode dar certo sem considerar a possibilidade divina, o verdadeiro sentido da vida para o ser humano. Ivan esquece-se de Deus. Já nos últimos estertores da vida, ao confessar-se, Ivan encontra Deus e sua dor cede, sua alma encontra a paz que ele tanto almejava, compreende o verdadeiro sentido de sua vida, e assim morre em paz.

Este é o sentido da obra: aproximar o homem de Deus e mostrar que a existência humana sem a possibilidade divina é vazia, a vida perde seu sentido e numa vida sem sentido superior, nada poderá dar certo. É isto que Lev Tolstói quer nos contar nesta obra.

Curiosidade: Em agosto de 1883, duas semanas antes de falecer, o escritor russo Ivan Turguêniev escreveu a Tolstói - "Faz muito tempo que não lhe escrevo porque tenho estado e estou, literalmente, em meu leito de morte. Na realidade, escrevo apenas para lhe dizer que me sinto muito feliz por ter sido seu contemporâneo, e também para expressar-lhe minha última e mais sincera súplica. Meu amigo, volte para a literatura!".

O pedido de Turguêniev alude ao fato de que Tolstói havia então abandonado a arte e renegado toda sua obra pregressa para se dedicar à vida espiritual. Embora não se possa dizer com certeza em que medida as palavras de Turguêniev repercutiram em Tolstói, é certo que 'A morte de Ivan Ilitch', publicada em 1886, foi a primeira obra literária que ele escreveu após seu retorno às letras - e que se trata de um dos textos mais impressionantes de todos os tempos.

Considerada por Nabokov uma das obras máximas da literatura russa - e por muitos uma das mais perfeitas novelas já escritas -, 'A morte de Ivan Ilitch' ganha nova edição em língua portuguesa, com tradução e posfácio de Boris Schnaiderman, e, em apêndice, texto de Paulo Rónai sobre o autor e sua obra.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

DOM QUIXOTE

Autor: Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616)
Tradução: Viscondes de Castilho e Azevedo
Editora: Abril Cultural
Assunto: Romance (Literatura estrangeira)
Edição: 1ª
Ano: 1981
Páginas: 609

Dom Quixote de La Mancha, é um livro escrito por Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616). É composto por 126 capítulos de sabedoria, amizade, enternecimento, encantamentos, loucuras e divertimento, divididos em duas partes: a primeira surgida em 1605 e a outra em 1615.

É a grande criação de Cervantes. Surgiu no fim de mais de um século de notável inovação e diversidade por parte dos escritores ficcionistas espanhóis. Ao escrevê-lo, Cervantes se propunha ridicularizar os livros de cavalaria, que gozavam de imensa popularidade na época. Nesta obra, a paródia apresenta uma forma invulgar. É um dos livros mais traduzidos da literatura universal.

Sinopse: A ação principal do romance gira em torno das três incursões feitas pelo protagonista e por seu fiel amigo e companheiro, Sancho Pança, que tem um perfil mais realista, por terras de La Mancha, de Aragão e de Catalunha. A personagem principal da obra é um pequeno fidalgo castelhano que perdeu a razão pela leitura assídua dos romances de cavalaria e pretende imitar seus heróis prediletos. Envolve-se em uma série de aventuras, mas suas fantasias são sempre desmentidas pela dura realidade. O efeito é altamente humorístico.
O verdadeiro nome do pobre fidalgo é Alonso Quijano (Quixano), chamado pelos vizinhos de o Bom. Já de certa idade, entrega-se à leitura desses romances e sua loucura começa quando toma por realidades históricas indiscutíveis as façanhas dos personagens dos livros, as quais comenta com os amigos, o cura e o barbeiro do lugar. Quijano investe-se dos ideais cavalheirescos de amor, de paz e de justiça, e prepara-se para sair pelo mundo, em luta por tais valores e por viver o seu próprio romance de cavalaria. Escolhe um título para si mesmo, o de Don Quijote de la Mancha, apelida um cavalo velho e descarnado com o nome de Rocinante e elege como dama ideal de seus sentimentos uma simples camponesa a quem dá o nome de Dulcineia del Toboso, suposta dama de alta nobreza.

Enredo da Obra:
De tanto ler historias de cavalaria, um ingênuo fidalgo espanhol passa a acreditar piamente nos efeitos heróicos dos cavaleiros medievais e decide se tornar, ele também, um cavaleiro andante. Para tanto, recorre a uma armadura enferrujada que fora de seu bisavô, confecciona uma viseira de papelão e se auto-intitula Dom Quixote de La Mancha. Como todo cavaleiro, ele precisa de uma dama a quem honrar. Elege então uma lavradora que só conhece de vista e a chama de Dulcinéia. Depois de tomar essas providências, monta em seu decrépito cavalo Rocinante e foge de casa em busca de aventuras.Após um dia inteiro de caminhada sob o sol, depara com uma estalagem, que em sua mente perturbada se converte num castelo, onde pede para ser ordenado cavaleiro pelo estalajadeiro, que quase não consegue conter o riso. No dia seguinte, ao investir contra o grupo de comerciantes que vê como adversários, cai de rocinante e tem seu corpo moído por pauladas. Um conhecido da aldeia encontra o cavaleiro, entre gemidos e lamentos, e o conduz novamente à sua casa.
Seguindo aos conselhos do Pe. Tomás e do barbeiro Nicolau, a ama e a sobrinha queimam seus livros e lacram a porta da biblioteca.
Enquanto todos acham que a estratégia da destruição dos livros havia sido um sucesso, Dom Quixote, pensando tratar-se de uma magia de algum cruel feiticeiro, resolve voltar à aventura, agora acompanhado do escudeiro Sancho Pança: um ingênuo e materialista lavrador, que aceita seguir o fidalgo pela promessa de uma ilha para governar.
As viagens se sucedem sob a alucinação de quem está vivendo no tempo da cavalaria. Em suas andanças, Dom Quixote encontra moinho de vento que confunde com gigantes. Arremete contra um dos moinhos, cujas pás, devido a um vento mais forte, lançam o cavaleiro para longe. O escudeiro socorre seu mestre. Dom Quixote não dando o braço a torcer, diz que o feiticeiro, ao notar que o cavaleiro estava vencendo, transformou os gigantes em moinhos.
Mas adiante confundindo dois rebanhos de carneiros com exército de inimigos, avança contra os animais e mais uma vez é surrado, pelos pastores; além de ser pisoteado pelas ovelhas. No chão em meio ao estrume dos animais, ferido e desdentado, recebe do escudeiro a alcunha de O Cavaleiro da Triste Figura.
No desejo de combater as injustiças do mundo e homenagear sua dama, o nobre e patético personagem segue viagem enfrentando situações supostamente perigosas e sempre ridículas: imagina gigantes em rodas-d’águas; vê um cavaleiro de elmo dourado em um barbeiro; ajuda criminosos a fugirem, pensando estar libertando escravos. De suas desventuras, restam-lhes sempre os enganos, as surras, as pedradas e as pauladas.
À beira da estrada, o cavaleiro da triste figura e seu fiel escudeiro encontram abrigo e deparam com o Pe. Tomás e o barbeiro Nicolau, amigos da aldeia onde moram e que estão à sua procura. Os dois convencem Sancho a ajudá-los e acabam levando, mais uma vez, e agora enjaulado, Dom Quixote para casa. Lá, cansado doente e abatido pelos reveses e pelas surras que levara, o fidalgo sossega. Até receber a visita do bacharel Sansão, que traz consigo um livro narrando As estranhas aventuras de Dom Quixote. Com a fama, o cavaleiro tem seu espírito aventureiro revigorado e mais uma vez, convencendo Sancho Pança a acompanhá-lo, parte para a estrada, ainda guiado pelo amor de Dulcinéia, e pelo desejo de vencer o perverso feiticeiro e, com ele, as injustiças do mundo.
Em Toboso, à procura de sua amada, Dom Quixote encontra três lavradoras montadas em asnos, carregando repolhos para o mercado. Sancho diz que se trata de Dulcinéia e suas damas de companhia, tentando convencer Dom Quixote. Ao se ajoelhar diante de sua sonhada dama, o cavaleiro leva uma repolhada na cabeça. Sancho diz se tratar de um anel de esmeralda enfeitiçado em repolho, e Dom Quixote guarda a “prenda” na bolsa, duvidoso, todavia satisfeito.
Disfarçado em cavaleiro dos Espelhos, o baixinho Sansão Carrasco desafia Dom Quixote, no intuito de levá-lo para casa e, com isso, agradar a sobrinha do fidalgo. Mas, traído por seu cavalo, que prefere comer grama ao duelar, perde o combate. Adiante, Dom Quixote encontra um duque e uma duquesa que, por já terem lido o livro com suas aventuras, resolvem se divertir à custa da dupla: disfarçado em feiticeiro Merlin, o duque inventa um suposto cavalo mágico de madeira que levaria Dom Quixote até o perverso feiticeiro. Vendam o cavaleiro e o escudeiro sobre a “mágica montaria” e chacoalham o cavalinho de balanço, enquanto os dois pensam estar voando. Ao atear fogo no rabo do cavalo, recheados de fogos de artifício, o cavaleiro e o escudeiro são lançados à distância.
Seguindo viagem, com mais alguns arranhões, Dom Quixote e Sancho Pança ouvem um grito assustador, É o cavaleiro da lua cheia (na verdade, Sansão, agora mais bem preparado e decidido). Que desafia O cavaleiro da Triste Figura: quem perder o combate terá de pôr fim à sua vida de cavaleiro andante. Sansão vence, o fidalgo volta ao lar. No final da história, recuperando a razão, Dom Quixote renuncia aos romances de cavalaria e morre como um piedoso cristão.

Interpretação da obra:
A história é apresentada sob a forma de novela realista. A primeira parte da obra deixa a impressão de liberdade máxima, a segunda parte produz a sensação constante de nos encontrarmos encerrados em limites estreitos. Essa sensação é sentida mais intensamente quando confrontada com a primeira parte. Se anteriormente, a ironia era, sobretudo, uma expressão amarga da impossibilidade de dar realidade a um ideal, com a segunda parte nasce muito mais da confrontação das formas da imaginação com as da realidade. A primeira parte de Dom Quixote é tipicamente barroca. Cervantes dá a sua própria definição da obra: “orden desordenada (…) de manera que el arte, imitando à la Naturaleza, parece que allí la vence”. O processo adotado por Cervantes — a paródia — permite dar relevo aos contrastes, através da deformação grotesca, pela deslocação do patético para o burlesco, fazendo com que o burlesco apague momentaneamente a emoção, estabelecendo um entrelaçado espontâneo de picaresco, de burlesco e de emoção. O conflito surge do confronto entre o passado e o presente, o ideal e o real e o ideal e o social.

Dom Quixote e Sancho Pança representam valores distintos, embora sejam participantes do mesmo mundo. É importante compreender a visão irônica que o romancista tem do mundo moderno, o fundo de alegria que está por detrás da visão melancólica e a busca do absoluto. São mundos completamente diferentes. O fiel escudeiro de Dom Quixote é definido por Cervantes como “homem de bem mas de pouco sal na moleirinha”. É o representante do bom senso e é para o mundo real aquilo que Dom Quixote é para o mundo ideal.

No entanto, os contemporâneos da obra não a levaram tão a sério como as gerações posteriores. Passou a ser vista como uma prosa épica de escárnio, em que “o ar sério e grave” da ironia do autor começou a ser bastante apreciado. O herói grotesco de um dos livros mais cômicos tornou-se no trágico herói da tristeza. Contudo, apesar de alguma distorção, a novela de Cervantes começou então a revelar a sua profundidade. Na história da novela moderna, o papel de Dom Quixote é reconhecido como seminal.Várias interpretações foram dadas à obra. No século XVII, considerou-se que o romance continha em si pouco mais que o tom de bom humor e de diversão, com Dom Quixote e Sancho Pança a encarnarem respectivamente o grotesco e o pícaro. O século XVIII foi pródigo em elogios a Dom Quixote, não só em Espanha e em Portugal, como também por parte de grandes românticos do centro da Europa.Segundo Dostoiévski, Dom Quixote representa a consumação das melhores qualidades da pessoa humana, o apego a justiça e à bondade.

O LEGADO DE CERVANTES

"Se é imensa a contribuição de Miguel de Cervantes à filosofia política, ao destrinchar o mecanismo da Segunda Realidade revolucionária, típica dos tempos modernos, penso que esta contribuição específica se restringe mais ao campo da psicologia coletiva do que propriamente ao âmbito da política. É certo que esse mecanismo psicológico terá o poder de descrever tudo o que se passou desde o século XVI e seu poder explicativo se prolonga até os nossos dias. É impossível compreender os acontecimentos, nacionais e mundiais, sem ter à mão a genial descoberta cervantina.



Bem que se diga que a questão da loucura estava na ordem do dia no Renascimento. Erasmo explorou o tema em obra genial (ELOGIO À LOUCURA). Shakespeare terá em vários personagens a manifestação de loucura. Mas apenas Cervantes transformará a observação no prognóstico dos tempos que virão. Ortega y Gasset, em ensaio genial (IDEAS Y CREENCIAS), irá associar a modernidade à razão (físico-matemática assim como às de Estado, desconhecida esta na Idade Média), em substituição à fé em Deus dos tempos medievais. Não há dúvida de que a loucura coletiva será filha dessa hipertrofia da razão, elevada à condição de deusa por ocasião da Revolução Francesa.


Qual é a filosofia política estampada por Cervantes no Dom Quixote? Penso que em três momentos temos o tema abordado de forma saliente. O primeiro é quando, no capítulo XXII do Primeiro Livro, o Cavaleiro da Triste Figura liberta os condenados às galés. Ali estava a escória da sociedade, os criminosos mais perigosos. Eram doze e esse número não ao acaso equivale ao número dos apóstolos de Cristo. A modernidade escravizou de forma mais vil a fé cristã. A moral cristã passa a ser tida como o comportamento anti-social por excelência, contra a qual se insurgem todas as revoluções, a começar pela protestante. Ao largo da questão religiosa, todavia, convém ter em conta a biografia do próprio Cervantes, várias vezes jogado nos cárceres imundos do Estado espanhol por crimes que não cometeu.


Quixote pergunta a Sancho, ao ver os condenados conduzidos por soldados: “Como gente forzada? Es posible que El Rey haga fuerza a ninguna gente?[“Como ´gente forçada´? É possível que El-rei force a nenhuma gente?”] Quixote fica inconformado com a situação de que gente pudesse ser levada contra sua própria vontade e dá seu brado de liberdade: “...aquí encaja la ejecución de mi oficio: desfazer fuerzas e socorrer y acudir a los miserables[“aqui está onde acerta à própria o cumprimento do meu ofício; desfazer violências e dar socorro e auxílio a miseráveis”]. Ato contínuo, partiu para libertar os prisioneiros.

Sem dúvida estamos aqui diante da perspectiva radicalmente cristã do direito, contrária à ordem estatal da modernidade.

Outro momento importante da obra no tocante à ciência política está no capítulo LX do Segundo Livro, quando Dom Quixote e Sancho Pança são feitos prisioneiros do bando de Roque Guinart. O cavaleiro constatou que, mesmo numa sociedade constituída por delinqüentes, a justiça distributiva, nos termos aristotélicos ou do direito romano (geométrica, “dar a cada um o que é seu”), precisa prevalecer, sob pena de se dissolver o núcleo social. Não é privilégio de uma sociedade política institucionalmente organizada praticar tal distribuição do direito, que é “natural”. O direito depende da força, mas não tem nela sua fonte. A reflexão cervantina serve para nos alertar da necessidade e dos limites da ação dos operadores do direito. Em resumo, do Estado e seu direito não depende a liberdade enquanto tal.

Por último, depois de viver as aventuras na corte do duque, Dom Quixote parte e profere as magníficas palavras, uma ode à liberdade (capítulo LVIII do Segundo Livro): “La liberdad, Sancho, es uno de los más preciosos dones que los hombres dieron los céus; com ella no poeden igualarse los tesoros que encierra la terra ni el mar encubre; por la liberdad así como por la honra se puede y debe aventurar la vida; y, por lo contrario, el cautiverio es el mayor mal que pode venir a los hombres.” [“A liberdade, Sancho, é um dos dons mais preciosos que aos homens deram os céus: não se lhes podem igualar os tesouros que há na terra, nem os que o mar encobre; pela liberdade, da mesma forma que pela honra, se deve arriscar a vida; e, pelo contrário, o cativeiro é o maior mal que pode acudir aos homens”].

A mania moderna de ligar a liberdade ao poder de Estado pode ser, e parece de fato, sua grande armadilha. Quanto mais se clama pela lei do Estado, mais se reduz a liberdade e mais o gigante, como os moinhos de vento, torna-se o seu contrário e leva toda a gente presa como remadores cativos às galés, nas nossas modernas prisões.

Retirar o encanto do ente estatal agigantado será a grande obra de Cervantes, o seu legado. É preciso novamente meditar sobre as páginas imortais do Cavaleiro da Triste Figura. Se olharmos bem veremos que o Estado moderno, ao contrário daquele idealizado por Santo Agostinho, compele os homens ao mal e torna os vícios práticas forçadas, por curso legal. "(Nivaldo Cordeiro)



O Sentido e Conteúdo da Obra:
A obra se inicia como Comédia e termina como Tragédia, refletida na morte de Dom Quixote que simboliza o fim dos valores e ideais do mundo medieval representados pelas Cavalarias.


Dom Quixote foi derrotado por Sansão Carrasco que simbolizava o Mundo Novo; o Positivismo de Augusto Comte; o Racionalismo absoluto de Descartes; o Iluminismo de John Locke, enfim, era o mundo renascentista que surgia com seus valores terrestres em oposição aos valores celestes, transcendentais, metafísicos e espirituais.


Por outro lado, Amadis de Gaula representava o mundo antigo. Os princípios nobres, a honradez, o heroísmo, a impetuosidade humana, o céu, o espírito, o metafísico e o transcendente.


DEPOIS DAS TREVAS ESPERO A LUZ”

Dom Quixote acabou sendo derrotado em sua luta contra o Mundo Novo que surgia:

A DERROTA DE DOM QUIXOTE É A DERROTA DOS MAIORES E VERDADEIROS VALORES HUMANOS; DERROTA DO QUE HAVIA DE LEGÍTIMO NO MUNDO MEDIEVAL QUE ERAM OS VALORES TRANSCENDENTES.

Muitos questionam se Dom Quixote tinha ou não razão. Ele tem razão quando defende os valores do Céu, os valores da transcendência, os verdadeiros valores humanos que são espirituais e não os sociais que são ambíguos.

DOM QUIXOTE TEM RAZÃO PORQUE OS VALORES PERMANENTES ESTAVAM SENDO REBAIXADOS PELO MUNDO MODERNO.

A grande questão que precisa ser compreendida também é: A AMBIGUIDADE GERAL DO MUNDO.

A obra alterna duas etapas:

Etapa da Terra: Racionalidade * e humanismo **;
Etapa do Céu: Valores transcendentais.


* Racionalismo: o conhecimento só é adquirido pela ciência.
** Humanismo: os valores do céu são reduzidos aos valores da terra.

Conclusão:


DOM QUIXOTE COMBATIA A AMBIGUIDADE DO MUNDO NOVO QUE SURGIA E QUE DESTRUIA E REBAIXAVA OS VERDADEIROS VALORES PERMANENTES QUE ERAM LEGÍTIMOS NO MUNDO MEDIEVAL:

OS VALORES TRANSCENDENTAIS

Esta é a mensagem que Miguel de Cervantes legou para a humanidade futura de sua época.

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Soneto

Santa amizade, que habitar imitas
neste baixo, fingido, e térreo assento,
mas que tens por morada o firmamento
coas essências angélicas benditas.
De lá, por dó das térreas deditas,
sonhos nos dás de alegre fingimento,
imitações do céu por um momento,
fugaz consolo às regiões proscritas.
Volta, volta dos céus, pura amizade,
ou proibe que a amável aparência
te usurpe a desleal perversidade.
Confundida coa nobre e infame essência,
breve reverte o mundo à prisca idade;
volve o caos, é morta a Providência.




A importância da Tradução
Por Anatoli Oliynik


            Estou cotejando duas versões da obra magistral de Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616) “Dom Quixote de la Mancha” ou simplesmente “Dom Quixote” como é conhecido no Brasil. A primeira, realizada por Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875) – Visconde de Castilho e por Francisco Lopes de Azevedo Velho de Fonseca Barbosa Pinheiro Pereira e Sá Coelho (1809-1876) – Conde de Azevedo. Esta versão foi publicada em 1981 pela Editora Abril (sob licença do Círculo do Livro S.A., São Paulo). A segunda, traduzida por Sérgio Molina e publicada pela Editora 34 em 2010.
            Deste cotejamento extrai dois excertos que reproduzo mais à frente, com dupla finalidade: a primeira, para mostrar a importância de uma tradução bem feita, voltada para realçar a beleza retórica da obra e a segunda para demonstrar que uma tradução feita com esmero melhora substancialmente a compreensão da mensagem transmitida pelo autor aos seus leitores e os entusiasma para a leitura.
A obra de Cervantes é uma dessas obras que registra a gênese de um mundo que nasce, lamentavelmente voltado para o mal, para a destruição de todos os valores cristãos e perenes, cujos reflexos são dolorosamente experenciados nos séculos XX e XXI. Cinco séculos nos separam da extraordinária visão de Cervantes e, infelizmente a muitas pessoas não tem a mais mínima noção da realidade do mundo em que vivem e que jamais leram O engenhoso fidalgo Dom Quixote de la Mancha.
            Por outro lado, muitos leitores e até críticos literários de Dom Quixote têm uma visão equivocada do sentido desta obra. Classificam-na como um livro satírico ou humorístico, quando na realidade não se trata disso, embora se encontrem muitas sátiras e humor em seu conteúdo. 
            Nivaldo Cordeiro afirma que Cervantes deixou neste livro um feito inigualável para a filosofia política: a compreensão da Segunda Realidade, aquela que presidirá o chamado mundo moderno.
            José Monir Nasser diz que Dom Quixote combatia a ambiguidade do mundo moderno que surgia naquela época e que destruía os verdadeiros valores permanentes no mundo medieval, quais sejam, os valores transcendentes.
            Ambos estão absolutamente corretos.
            Retornemos a comparação dos excertos e à correspondente interpretação:

Tradução Viscondes de Castilho e Azevedo
(Editora Abril, pp. 154-55)
Tradução Sérgio Molina
(Editora 34, pp. 360-62)
Poema
Quem menoscaba meus bens?
Desdéns.
Quem mais ceva meus queixumes?
Ciúmes.
Quem me apura a paciência?
A ausência.
De meu fado na inclemência,
Nenhum remédio se alcança,
Pois me dão morte: esperança,
Desdéns, ciúmes e ausência.

Quem me causa tanta dor?
Amor.
Quem me as glórias arruína?
Mofina.
Quem às dores me há votado?
O fado.
Receio me é pois fundado
Morrer deste mal tirano,
Pois conspiram em meu dano
O amor, a mofina e o fado.

Quem pode emendar-me a sorte?
A morte.
O bem de amor quem no alcança?
Mudança.
E seus males quem os cura?
Loucura.
Então em vão se procura
Remédio algum a tais chagas,
Sendo-lhes únicas triagas
Morte, mudança, loucura.

Quem menoscaba meus bens?
Desdéns.
Quem me acresce o pesadume?
O ciúme.
E quem me prova a paciência?
Ausência.
Sendo assim, nesta doença
nenhum remédio se alcança,
pois me matam a esperança
desdéns, ciúmes e ausência.

Quem me causa tanta dor?
Amor.
Quem tem-me a glória roubado?
O fado.
Quem me quer tão neste breu?
O céu.
Sendo assim, é pavor meu
morrer deste mal tirano,
pois aumentam em meu dano
o amor, o fado e o céu.

Quem me há de emendar a sorte?
A morte.
E o bem de amor, quem alcança?
Mudança.
E os seus males, quem os cura?
Loucura.
Sendo assim, não é cordura
Querer curar a paixão,
Quando os seus remédios são
morte, mudança e loucura.

Interpretação
-        O poema faz alusão a um mundo que está desparecendo e sendo substituído pela loucura de um mundo novo que vai surgindo: o modernismo renascentista.
-        Morte do mundo antigo (Primeira Realidade);
-        Mudança para um mundo novo;
-        Loucura da Segunda Realidade que surge com a modernidade do mundo novo.
Soneto
Santa amizade, que habitar imitas
neste baixo, fingido, e térreo assento,
mas que tens por morada o firmamento
coas essências angélicas benditas.
Santa amizade, que com leves asas,
deixando tua aparência em térreo assento,
junto co’as almas do alto firmamento
subiste alegre até as empíreas casas.
De lá, volta dos céus desditas,
sonhos nos dás de alegre fingimento,
imitações do céu por um momento,
fugaz consolo às regiões proscritas.
De lá assinalas, quando praza,
a justa paz oculta em velamentos
que dão a ver o zelo, por momentos,
do malfazer que feito em bem se passa.
Volta, volta dos céus, pura amizade,
ou proíbe que a amável aparência
te usurpe a desleal perversidade.
Deixa o céu, amizade, ou não permitas
que o engano se revista com tuas cores,
com que destrói toda intenção sincera;
Confundida coa nobre e infame essência,
breve reverte o mundo à prisca idade;
volve o caos, é morta a Providência.
Pois, se tuas aparências não lhe quitas,
logo há de ver-se o mundo em meio às dores
da tão discorde confusão primeira.
Interpretação
-        A Segunda Realidade mata Deus e coloca o homem em seu lugar. É o humanismo que surge e contra este humanismo que Dom Quixote se revolta e o combate, pois sabe estar aí a gênese da decadência dos verdadeiros e permanentes valores transcendentais da Idade Média.
-        Cervantes vislumbrou, em 1605, a loucura dos séculos XX e XXI.
-        A última estrofe do poema está tão desfigurada pela tradução, que se torna quase impossível dar a mesma interpretação ao lado.

            Para encerrar o presente artigo, não resisti a tentação de voltar a digredir brindando-o com a impressão que a obra causou em Dostoiévski e com o Epitáfio à Sepultura de Dom Quixote.

Fiodor Dostoiévski assim se expressou após ter lido a obra:

Não existe nada mais profundo e poderoso do que este livro. Ele representa até hoje a mais grandiosa e prefeita expressão da mente humana. Se o mundo acabasse e no Além nos perguntassem: ‘Então, o que você aprendeu da vida?’, poderíamos simplesmente mostrar o D. Quixote e dizer: ‘Esta é a minha conclusão sobre a vida. E você? O que me diz?’”.

Epitáfio:

“O tresloucado que adornou a Mancha
De mais Despojos que Jasão de Creta;
O juízo, que teve a garimpa inquieta
Bicuda, quando fora melhor ancha;

O braço que a sua força tanto ensancha,
Que chegou do Catai até Gaeta,
A Musa mais horrenda e mais discreta
Que versos foi gravar em brônzea prancha;

Quem bem longe deixou os Amadises,
E em pouco os Galaores avaliou,
Estribado no amor, na bizarria;

Quem soube impor silêncio aos Belianíses,
Quem, montado em Rocinante, vagueou,
Jaz morto, enfim, sob esta lousa fria.

            Isso posto, convido-o, faça uma nova leitura de Dom Quixote e verá quanta beleza essa fantástica obra, mais atual hoje do que nunca dantes esteve, encerra. Desfrute-a com esta nova visão, e terá uma radiografia da loucura, não de Dom Quixote, mas do mundo atual. Caso seja um daqueles privados desta catedral à humanidade, nunca é tarde para começar.

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Escrito originalmente em 12/9/2012 e revisado em 2/9/2013